23/02/2012

«Caminho como uma casa em chamas»

Será o título de um novo livro de António? Para já apenas o título de uma crónica. Que é uma carta aberta ao leitor. E, por isso, partilhamos aqui:



Passei meses muito difíceis entre agosto e metade de dezembro: não era capaz de escrever uma linha que fosse e o desespero e a falta de sentido da minha vida aumentavam quase hora a hora. Tinha acabado um livro muito bom, composto em meia dúzia de meses com uma facilidade pasmosa, coisa que desde a Explicação dos Pássaros não me acontecia, um milagre e um mistério cujo mecanismo desconheço, pensava 
- Agora sei como se faz um livro 
e, ao tentar recomeçar, nem uma palavra. Conseguia compor as crónicas da Visão, a tropeçar em cada linha, mas, assim que puxava o bloco do livro, tudo me desaparecia da cabeça e da mão. Pensava 
- Sequei 
em certo sentido alegrava-me que tivesse acabado bem, pensava
- Se calhar pus tudo neste último texto e acabou-se
mas o facto de não me sair nem uma letra começava a dar cabo de mim. Para quem, desde que se conhece, joga a sua vida neste tabuleiro e sempre cortou todos os pescoços que se interpunham entre si e o seu trabalho, sem culpabilidade nem hesitações, era uma situação muito complicada. Todas as manhãs me sentava disciplinadamente à mesa, todas as noites me levantava dela com a página em branco. Não há aqui o menor exagero: com a página literalmente em branco. De longe em longe conseguia umas frases, animava-me
- Se calhar encontrei
e não encontrava fosse o que fosse: as minhas pobres tentativas acabavam no lixo. Nunca me ralei com aquilo que os outros pensam do que ponho no papel, a certeza da importância do que produzo é inabalável, disse exactamente o que queria dizer e como queria dizer, chegando ao que pretendo após múltiplas versões. Não redijo com facilidade, é-me muito penoso alcançar o que tenho de alcançar para me sentir em paz, mas jamais me sucedera não lograr uma linha que fosse, um esboço de texto sem possibilidades internas, um oco de banalidades, uma ausência de alma. Imaginava
- Vou escrever crónicas só, não dou para mais nada 
embora a minha atitude, em relação às crónicas, se haja alterado. Parece-me poder utilizá-las como laboratório ou itinerário paralelo, colocar nelas o que os livros rejeitam, exercitar a mão. Estou muito grato à Visão pelo espaço que me dá e pela delicadeza e elegância com que sempre me tratou e sinto-me, também, a pagar uma dívida de reconhecimento. Enquanto me quiserem ter-me-ão com eles. A não ser, claro, que a capacidade de construir crónicas desapareça, conforme desapareceu, durante meses, a capacidade de construir livros, o que é menos provável dado que as crónicas se movem à superfície das coisas e os livros são peixes de águas profundas, às quais não possuo um acesso consciente: numa crónica eu sei o que vou escrever. Num livro escrevo, cada vez mais, o que o próprio livro me dita ou, expresso de outra maneira, nas crónicas falo e nos livros escuto. Por isso cada vez mais se me afigura que um livro é precário, depende de factores não relacionados com a minha vontade consciente, regidos por princípios e leis a que não tenho acesso. Para criar torna-se necessário que estejamos, ao mesmo tempo, por fora e por dentro do texto, como acontece com os bons leitores, infelizmente tão raros. Eu pasmo com as senhoras e os senhores que alinham resenhas críticas nos jornais, pasmo com a sua petulância e a sua patetice e, sobretudo, com o profundo desconhecimento da coisa literária, expresso em afirmações absurdas. Mas nada disso me parece significativo diante do mistério da arte, que requer humildade, atenção e amor. O que é importante para mim é que eu escreva, porque, se for capaz de escrever, tenho sempre razão. 
Portanto, voltando ao princípio, aguentei cerca de seis meses horríveis, na certeza de haver perdido a capacidade de escutar vozes secretas e não me sobrar fosse o que fosse. Os meus amigos continuavam a viver e eu parado. Um dia, a meio de dezembro, comecei a desenhar uma casa e percebi que era o início do livro. Uma casa com telhado, chaminé, uma antena de televisão. Era o início do livro mas ainda não era o livro. Desenhei mais quatro ou cinco casas, com inquilinos de um lado e do outro, até ao quarto andar. A seguir entendi que lhe faltava o sótão e desenhei o sótão. Depois, a pouco e pouco, os diversos apartamentos foram sendo habitados. Depois, a pouco e pouco, os habitantes principiaram a mudar. Depois apareceu uma frase, Caminho como uma casa em chamas, e dei-me conta de ser o título, mas continuava a não acreditar muito naquilo. Depois ensaiei o primeiro borrão do primeiro capítulo, cheio de medo e dúvidas: lixo. Um segundo borrão: lixo. Um terceiro: lixo. Depois recuperei o terceiro borrão do lixo e comecei a refazê-lo, uma, duas, três vezes, a perguntar-me 
- Será isto? 
a responder-me 
- Não deve ser isto mas vou continuar 
sem que a qualidade do texto me interessasse: a única coisa que me interessava era se haveria ali a espessura que queria. O capítulo número dois passou pelos mesmos tratos de polé e, a meio de uma correcção pareceu-me que a obra tinha, finalmente, chegado. Fiz o primeiro borrão do capítulo número três e acabei, há horas, o primeiro borrão do capítulo número quatro. E vou continuar até ao fim com um borrão apenas, para refundir tudo a seguir, caminhando como uma casa em chamas num nevoeiro ardente de palavras. É capaz de ser o livro, meu Deus, daqui a sei lá quantos meses saberei se é o livro, saberei se sequei ou ainda tenho vida em mim. Até essa altura a incerteza, o cagaço. Esta crónica não deve ser muito interessante para o leitor, trata-se do mero relato de um homem às aranhas com o seu trabalho. Achei que tinha obrigação de o partilhar com vocês: afinal de contas são os meus cúmplices e têm o direito de saber o que se passa na oficina, como dizia o Zé Cardoso. 
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer 
insistia ele 
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer 
e, como em muitas outras coisas, é capaz de estar certo, o sacana. Aqui entre nós faz-me uma falta do caneco. Tenho saudades tuas que me farto, meu malandro.

António Lobo Antunes
fonte: Visão
23.02.2012

21/02/2012

La Vanguardia: «Vivemos num mundo de simples desconhecidos»

La Vanguardia
entrevista de Núria Escur
21.02.2012

«Vivemos num mundo de simples desconhecidos»

O escritor português apresentou o seu último romance [em catelhano]: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

foto de Marta Perez
Está cansado, caminha cansado. Resiste cansado. Chega o último romance de António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) em castelhano: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? (Mondadori) com a mesma cadência de sentimentos que é já o selo do autor.

Na sua estadia em Barcelona o escritor português - que só pensa em passar um pouco com Marsé e Moix - deixa a sua opinião sobre um mundo que o desagrada cada vez mais: "Não há quem o entenda. A política, por exemplo, em abstracto, não sei bem o que é".

O seu olhar, borgiano, cada vez mais de soslaio, é cego àquilo que não o interessa. Lobo Antunes está de volta. Mas na sua catadupa de palavras com personagens que carregam os seus fantasmas continua criando desassossego como ninguém, cria excepções de silêncios e pontuações, cavalga. "Nunca leio o que escrevo".

Lobo Antunes é o mestre do mecanismo do inconsciente. E essa desordem de frases tão sua, segmento que retira das suas entranhas, neste romance trabalha para servir a exposição cruel de uma família e a morte da sua matriarca. Ler Lobo Antunes é por vezes como engolir sem mastigar, e que nos faz sentir bem.

Chegou a ver essa sombra de um cavalo no mar?
Nos meus sonhos.

É uma canção antiga.
A primeira vez que a ouvi fiquei surpreendido. É tão bonita! Porque é uma canção popular feita por camponeses que nunca viram o mar...

Não há paralelo entre a sua família e a do romance. A família é engano ou abrigo?
Nem uma coisa nem outra. Tenho muito sangue misturado: o meu pai era brasileiro, a mãe do meu pai era alemã, existem portugueses, italianos... e há uma coisa que aprendi muito cedo: existe gente loira, morena, mestiça, mas os seus problemas "fundamentais" são sempre os mesmos.

A sua educação foi singular...
Muito! À maneira da Amazónia mas em Portugal. Educação muito rígida, que nada tem que ver com o carnaval brasileiro.

Neste romance anuncia "é o teu último livro, António, o teu testamento". Mas depois ainda escreveu outros dois. Um escritor jubila-se?
Tem-se sempre medo que este que se está a fazer seja o último livro. [...]
Que se vá secando... a fonte, que não haja mais água, que não haja mais nada... É algo que me acompanha faz tempo, temes que a magia se acabe, porque não se sabe de onde ela vem, e eu não sei. Para mim é sempre um milagre.

No que escreve lemos não o que as personagens dizem, mas o que pensam. Para isso ajuda ser psiquiatra?
Fui psiquiatra pouco tempo e além disso não queria sê-lo. Mas sim, nas minhas obras aparece sempre a mesma voz que fala, e que me ajuda a entender o mecanismo dos sentimentos. É um mistério. Na vida só há perguntas.

E se lhe chega uma resposta
É sempre uma resposta em forma de pergunta.

Então diz-me o que menos gosta do mundo que o rodeia
Pergunta-me se ainda creio em algo?

Houve uma altura em que acreditava no Partido Comunista. Até que o decepcionou, penso.
O partido comunista em Espanha tem alguma expressão? Em todo o lado tem pouca... Não acredito nos políticos, precisamente. É já uma classe que nada me interessa. Mas entendo as multidões que saem à rua indignadas, isso ainda compreendo.

Por exemplo
Por exemplo, aqui em Espanha... não entendo o presidente do PP, não entendo o presidente do PSOE, nem o que dizem, nem aos políticos de outros países, nem entendo porque queiram ser políticos... a minha impressão em absoluto é que seguem um projecto de ambição pessoal. Podem dizer que têm amor pela humanidade, mas não me parece que tenham amor aos homens.

A si que lutou na guerra de libertação de Angola, justifica-se dar a vida por um ideal?
Aquilo foi uma guerra colonial, colheram miúdos de 18 e 20 anos e mandaram-nos para a guerra. Não tivemos opção, não havia ideologia.

A literatura proporcionou-lhe mais momentos de felicidade ou de insatisfação?
Já percebi que não sei bem o que é a felicidade, mas ao ler um bom livro, algo se parece.. Mas, sabe? está-se sempre solitário. E esse solitário só vê as caras de quem o lê, nas filas de gente...

Que entretanto esperam um autógrafo
Sim, mas não há tempo para falar, não há tempo para ouvir. Vivemos num mundo de simples desconhecidos.

A esta altura já não o deve preocupar o Nobel.
Nada. Ganhei tantos prémios sem ter pensado em nenhum deles! E aos meus escritores preferidos, Tolstoi ou Conrad, nunca o deram.

"Escrevo romances porque não sei escrever poesia". Mantém a afirmação?
Gostava de ter sido poeta, mas não tenho talento. Tentei fazer poesia, como todos os adolescentes, mas era tão má! Então tentei fazer à minha maneira.

O que se aprende quando se chega aos 70 anos?
Nunca pensei nisso. Mas posso dizer-lhe que me sinto velho. Os meus netos fazem-no sentir.

Tem medo da morte?
Ninguém está preparado para morrer, ninguém é capaz. Nem um velho centenário com sífilis. Quando era médico, com trinta anos, tive doentes que... sempre me surpreendeu o conceito de mortalidade das pessoas que tentavam suicidar-se.

Compreende o suicídio?
Sim, sim. Mas perguntar se já pensei nisso seria demasiado íntimo.

Conseguia resumir a história de amor mais bonita da sua vida?
Impossível. Sabe porquê? Porque confundimos amor com outras coisas: com gratidão, com acomodação, com a defesa contra a solidão. Nunca encontrei uma definição satisfatória do que é o amor entre um homem e uma mulher.

Dizem que é muito difícil traduzi-lo
Só falo cinco ou seis idiomas. Mas nunca li nada meu traduzido. Penso que toda a tradução é impossível: é como a fotocópia a preto e branco de um quadro, creio que muita coisa se perde pelo caminho...

Preocupa-o como passar para a posteridade?
Já cá não vou estar, portanto... Que diferença faz a Quevedo o modo como o vêem?

Ainda escreve no escritório que lhe deixaram umas freiras?
Agora escrevo em casa. Já não há netos. Estou só comigo mesmo.

E convivem em paz?
Divertimo-nos


citado do artigo on-line
21.02.2012
[tradução do castelhano por José Alexandre Ramos]

20/02/2012

Raquel Silva: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Sinopse:
É inexistente.

Opinião:

Nunca tinha lido nada de António Lobo Antunes, mas um amigo meu, de nome António curiosamente, estava a lê-lo e, um dia em que fomos à praia, pus o olho no livro e ele lá teve que mo emprestar, não sem antes o acabar, é claro. A opinião do meu amigo é-me desconhecida, mas em boa hora saberei, que não me custa nada perguntar.

Antes de tudo, tenho de vos dizer que por nunca ter lido nada deste autor, foi com estranheza que comecei a bisbilhotar este seu conjunto de crónicas. É ainda com estranheza que olho para trás, para o início, quando o abri, com os olhos a espelharem a expectativa - essa, a expectativa, não me foi defraudada, na verdade não foi nada, porque, simplesmente, não era assim tanta. Sempre ouvi falar do António Lobo Antunes, bem, menos bem, muito bem. As opiniões são diversas. Até eu, consigo perceber, tenho várias opiniões, e todas elas divergem, apesar de ser só uma.

A maneira de escrever que António possui é fora do comum, tal como é a de Saramago, outro grande senhor do qual ainda não li qualquer obra. Não tenho vergonha. Não li, mas ainda posso ler. Não há condicional, há futuro, hipótese. Adiante: não sei se gostei, se odiei: tenho o sabor amargo da dúvida na ponta da língua. Mas, como o senhor António declara numa das suas crónicas, mais exactamente a cujo nome é Juan Marsé, "a gente lê e pode não concordar com o estilo ou a estrutura ou os tiques ou o que seja: no entanto temos de lhe admirar a eficácia. E, como insistia, Tolstoi, a eficácia é a primeira qualidade de um escritor".

Houve momentos em que o autor me conseguiu arrancar bocejos, e temo que não fosse sua intenção; porém, por incrível que pareça, mesmo com o tédio a instalar-se em todas as minhas articulações, foi-me impossível largar a leitura, e isso deve significar alguma coisa. Não a persistência, mas algo delicioso, escondido nas entrelinhas das palavras escritas. Algumas crónicas até me emocionaram, provocando-me uma lágrima no canto do olho, como , que transpareceu dor e saudade, pois, declara António, "desde que morreste palavra de honra que há muito frio. Tem paciência, Zé: faz lá um sorriso à gente.", ou Buganvílias, que não me provocou uma lágrima, mas um sorriso, um assentimento, ao ler: "Numa manhã de férias uma cobra: não uma cobra grande, é evidente, uma dessas pequenas, inofensivas. Esmaguei-a com uma pedra, espetei-a numa cana, fui assustar a minha mãe com aquilo:
- Tira-me essa porcaria da frente.
Meu deus, a quantidade de porcarias que eu devia ter tirado da frente. Ainda irei a tempo de começar agora?". 

Houve ainda outras, crónicas não vezes, que me provocaram um revirar dos olhos, embora, na verdade, não saiba porquê. Como Os Trocos do Amor. De qualquer maneira, a eficácia está mesmo lá: as crónicas prenderam-me, torturaram-me, aborreceram-me, envolveram-me, tudo ao mesmo tempo, um sentimento de cada vez, assim uma misturada. Mas valeu a pena a leitura, valeu-lhe a pena a eficácia.

Antes de terminar, confesso que não vou conseguir ler algo deste autor muito em breve. À vontade está cá, mas falar de capacidade, bem, já é outra história. Gosto muito de ler, mas, como diz a minha mãe, ainda sou muito pequenina. Leituras como estas, é para repetir de ano em ano, uma vez ou duas. Se forem mais, a cabeça deixa de funcionar. Portanto, é com um sorriso que deixo um até já. Além disso, Os Maias continuam em cima do armário à minha espera e, eu começo a ficar com pena.

Capa&Designe:
A capa é simples e muito bonita, com a fotografia do escritor com um olhar lacrimoso. Muito bonito. E o designe interior não fica nada atrás, muito pelo contrário.

Nota:
8/10

por Raquel Silva
11.08.2011

18/02/2012

¿Qué caballos son esos que hacen sombra en el mar?, de António Lobo Antunes, por Juan Mal-Herido

Nunca he podido acabar una novela de António Lobo Antunes: se pasa de genial. Es todo tan jodidamente genial que da pudor pasar páginas, quedarse alelado, sufrir con algo que, al cabo, no es otra cosa que tinta sobre un papel. Que Carlos Boyero lea a Lobo Antunes no se lo cree ni él.

No me cabe duda de que ¿Qué caballos…? es una obra menor de António con tilde en la O. A fin de cuentas, me la he leído entera; es más (y esto es toda la crítica literaria que hace falta): me ha maravillado.
El resto es tap-dancing, amores. Voy.
Nada me cuesta más de pillar en una novela que el argumento, las madres, los hijos, los nietos, el pasado y la herencia, ese perro, ese sobresalto o ese tren al que se tiran las infieles: no lo pillo. Por eso estoy siempre a favor de las novelas cuyo argumento no va a pillar nadie. Eso es democracia, todos idiotas.
¿…son esos que…? hay que leerlo sin enterarse: luego un tesinando o un profe de universidad nos dirá algún día de qué coño va el libro y quién habla a cada rato. A mí me importa un huevo. Esto se lee como cuando se cae en un país exótico, donde las cosas no se entienden y por ello se disfrutan. Leer con cuidadito los libros, los libro raros, es como ir aTailandia con una guía, que te lo vas sabiendo todo y cuando salen las putas de las esquinas no las identificas.
Lo de ¿…hacen sombra…? es lirismo, lirismos, lírica, poesía; punto. Hay quien lee lírico y lo flipa en putos colores; y hay quien es gilipollas. El gilipollas a lo lírico siempre lo tacha de cursi. Simplemente, no tiene ni puta idea en el paladar.
Lo lírico apoya las palabras en las cosas por conveniencia, porque las cosas no son más que el lastre sausseriano del idioma, un detritus. Lo lírico conjura la materia y la deforma en lo imposible: habla de cosas que no existen. Esto parece una paja mental que me hago, pero vean cómo las gotas de lluvia sobre el cristal, vistas en tantas vidas de otoño y en tantas películas de mierda, no son gotas sobre un cristal, sino esa cosa llamada literatura, reinventadas en esta novela por este señor: “se notaban las gotas que añadían cristal al cristal deformando los rosales a medida que caían, las ramas primero finas, después gruesas, después finas de nuevo”. Esto es escribir y esto es crear. Añadir cristal al cristal  es absolutamente poesía. Sólo esas cuatro palabras dejan en retraso mental cientos de poemarios. Y ¿…en el mar? viene atiborrado de hallazgos como ese, de visiones del mundo, de las cosas, que dejan atrás las cosas para hacer un mundo propio, el literario.
Esto no lo puede entender la gente porque somos unos pocos los que sabemos leer. Es unapena, pero es lo que hay.
Luego - aparte de la compleja relación de narradores que encontramos en el libro- hay que considerar por qué Lobo Antunes no va a ser un autor en la historia. Su narrativa no deja de ser un efervescente epílogo del siglo XX, con Faulkner, Bernhard y Beckett como dioses tutelares. Como dice mi maestro, estamos en el siglo de la síntesis, y ahí su compatriota Tavares le lleva una ventaja estructural. Tavares es siglo XXI; Antunes es coletazo.
Pero con frases como la que voy a dejar para cierre del post, Antunes es mi dios instantáneo:
iba a escribir ternura y me he retenido, qué peligroso despertar palabras cuyo temperamento ignoramos
en Lector Mal-herido Inc
09.02.2012

12/02/2012

Juan Soto Ivars: opinão sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Fazer uma resenha de um romance de António Lobo Antunes é de uma estupidez suprema, uma resenha pretende demonstrar que se compreendeu o livro, e por isso alguns escritores incipientes como manchas cancerosas na pele da literatura tentam com que os críticos e os leitores não entendam nada, pois assim poderão salvaguardar-se das más críticas afirmando "não entenderam", o que vem a ser mentira: seguramente o crítico não terá entendido outra coisa, se o romance, se o desejo de fazer um romance, mais do que o romance em si; não terá entendido que um romance mau não merece nem crítica nem resenha, merece perder-se no silêncio com todos os outros romances que têm entrado nesse forno onde as chamas não crepitam,
«eu que não suporto pássaros, pega-se-lhes e o coração, de tão frágil, dá medo»

talvez fazer um resenha de Lobo Antunes sirva para matar esse silêncio ou para demonstrar o entusiasmo que produz cada novo livro, para enviar um postal de agradecimento a António Lobo Antunes, que se permite ao luxo de escrever aos seus leitores, de escrever-lhes, havia de fazer-se cursos onde se explicasse como ler Lobo Antunes, cursos onde se dissesse: é preciso abrir o livro e começar a ler, passar as páginas com o olhar atento às palavras que nem sempre compõem frases, às imagens que nem sempre chegam no momento esperado,

«não escancaramos armários nem tombamos copos, não perguntamos- Fico aqui a eternidade inteira?»

e também há que estar louco para fazer-se uma resenha de Lobo Antunes que não escreve romances, ainda que tenha escrito a palavra romance antes, mas não escreve romances, os romances são livros que começam na primeira página e acabam na última, porém se os livros de história são livros feitos em pedaços porque a história não cabe num só livro, se os livros de poemas são livros que se podem abrir numa qualquer página, se os ensaios são livros suportados pelo andaime dos índices, então agora decido: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? é um livro de poemas, Lobo Antunes um livro de história, uma crítica sobre os livros de Lobo Antunes não pode

«percebia Deus no compartimento à esquerda dando corda aos planetas»

ser um ensaio, há que escrever como Lobo Antunes como se fosse Lobo Antunes a escrevê-lo, há que deixá-lo tomar as rédeas, é preciso embriagar-se de Lobo Antunes para escrever sobre os seus livros qualquer que seja, e dirigir-se aos demais com uma máscara ridícula de Lobo Antunes mas sem a pose a empurrar-nos para um entusiasmo bem longe de Lobo Antunes, a primeira vez que li os seus apelidos pensei mas que má sorte chamar-se António e ainda por cima apelidar-se Lobo Antunes, e desde então li todos os livros de Lobo Antunes publicados pela Mondadori e outros e disse à mulher que faz os comunicados da editora: envia-me o novo livro que quero fazer uma crítica, porque já era hora, e tinha lido o suficiente amar uma pedra morte de Carlos Gardel em Babilónia boa tarde

«previa o passado pois prever o futuro qualquer idiota consegue»

pois devo estar louco para fazer uma crítica, para dar ares de académico ou jornalista, e não acertar no livro nem num milímetro com o leitor, dizer que este é o pior romance de Lobo Antunes porque consegue-se entendê-lo, é preciso estar louco, que é um livro cuja estrutura é a de uma corrida de touros, louco varrido, que a família rural que fala com voz de Lobo Antunes no livro desabou há muito tempo e não tem personagem principal, tolo da cabeça, que a filha toxicodependente da família se chama Ana, insensato, que o irmão mais avarento se chama Francisco e acelera a falência, desvairado, que ao desfolhar as páginas da primeira à última presencia-se o colapso completo de uma família com todos os seus membros e ninguém sabe que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar, não ponhas, põe

«e sou eu, tudo protesta na gente, se levanta, recusa, no caso de me buscarem no parque não tornarão a achar-me, acham sujeitos que se escapam e os rapazes sem mim, evaporei-me conforme as notas dos defuntos se evaporaram das páginas, o livro de cozinha a que alguém colou a lombada com um sujeito de barrete alto e colher de pau a dilatar-se na capa, o caderno de receitas com notas a lápis e as últimas folhas vazias aguardando uma salada, uma sopa, uma complicação francesa, os pesos da balança a decrescerem na caixa de pau como as unhas dos pés, se tivesse de falar no pior que em aconteceu na vida não mencionava a doença nem os problemas com os rapazes nem o desprezo dos outros que em evitam, se tivesse mesmo de falar(espero não ter mesmo de falar)do pior que me aconteceu na vida lembrava a minha mãe de tesoura em riste- Chega aquideterminada, feroz- Queres que te aleije é isso?eu a pedir em lágrimas- A pequenina não a pequenina nãoenquanto me puxava no sentido do candeeiro e me torcia o ombro
- Não me dá jeito assimeu com a certeza de pingar sangue no tapete, sem dedos, a minha mãe juntando(Varela, Pereira, Rebelo, Taborda)aparas no cinzeiro, um perfume diferente daquele que usa agora, mais forte(a minha mãe não Julinha, Maria José)e sob o perfume não um cheiro de velhice e doença(não sou doente)cheiro de carne que hoje sei que nova(você nova senhora, você nova)e a nuca tão branca, que estranho as idades, se tivesse tocava-lhe mas não tenho, cortou-mos de modo que eu onze ou doze apenas que de pouco me servem, poiso-os na beira do lençol perto da almofada(é fantasia minha ou a chuva abrandou?)e não vejo ninguém a salvo(as minhas mãos com menos osso que as do padre)a minha irmã Beatriz no automóvel diante das luzes dos barcos a escrever o próprio nome no vidro embaciado».


por Juan Soto Ivars
11.02.2012
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

10/02/2012

Encontro de António Lobo Antunes e Juan Marsé em Barcelona

Citando o site do Centro da Língua Portuguesa do Instituto Camões de Barcelona:

António Lobo Antunes (Prémio Camões 2007) e Juan Marsé (Prémio Cervantes 2008)

«No próximo dia 16 de Janeiro terá lugar, no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona, o ciclo de conferências 
Virtuts, cujo programa contempla a presença, na segunda-feira dia 20 de Fevereiro às 19h30, do escritor português António Lobo Antunes, que conversará com o seu amigo e escritor barcelonês Juan Marsé.
Este ciclo de conferências, organizado no início de cada ano pelo CCCB e que, desta feita, conta com a colaboração do Consulado Geral de Portugal em Barcelona, tem o objetivo de reflectir sobre o futuro dos valores do humanismo. Nesta ocasião, a conversa girará em torno das virtuts. 
O contexto actual de crise económica indicia uma série de sintomas que nos remetem a uma crise mais profunda que afecta os âmbitos político, cultural e educativo, no seio do qual o abandono da visão humanista parece ter um espaço central. Por este motivo, com este encontro, o CCCB propõe uma reflexão sobre as virtudes individuais e colectivas que poderiam guiar a nossa vida em comum e fortalecer a cultura democrática.
Para mais informações, podem consultar a página web do CCCB

07/02/2012

Oferta de exemplar de Explicação dos Pássaros - novo passatempo

[passatempo encerrado]

Caros visitantes, amigos e leitores

Uma vez que o 3º prémio do passatempo de Janeiro, embora atribuído e enviado ao seu destinatário, foi devolvido e não houve posterior reclamação, abrimos a possibilidade de oferecer novamente o livro Explicação dos Pássaros (edição comemorativa dos 30 anos), autografado por António Lobo Antunes, através de novo passatempo que decorrerá, desta vez, com um prazo limite de participação.

Assim, os interessados que quiserem habilitar-se a receber este exemplar apenas têm que construir um pequeno texto criativo onde utilize as palavras explicação e pássaros (não é válida a utilização do título do livro para a aplicação das palavras ao texto). Eis as condições:

  1. Este passatempo começa a partir de hoje, dia 7 de Fevereiro, e terminará às 24H00 do dia 7 de Março;
  2. A participação é feita por e-mail, enviando o texto para o nosso endereço: alaptla@gmail.com;
  3. No corpo da mensagem de e-mail, além do texto, devem constar os seguintes dados pessoais: nome completo, endereço completo e correcto para a entrega do livro e telemóvel (obrigatório);
  4. O texto pode ter no máximo 1000 caracteres com tolerância, não existindo limite mínimo, e não deverá utilizar-se qualquer tipo de ficheiro: o texto tem de estar dentro do corpo da mensagem;
  5. Não se aceitam textos que sejam opinião de leitura sobre o livro. O texto tem de ser criativo, cujo tema é livre, apenas deverão ser aplicadas as palavras explicação e pássaros, em frases ou orações distintas, e não o título do livro;
  6. O vencedor do passatempo será o autor do texto mais criativo. Serão apurados pelo menos três textos com a possibilidade para receber o prémio, que dependerá do ponto seguinte;
  7. Uma vez apurado o vencedor, este será primeiro notificado por e-mail e depois receberá uma SMS onde terá instruções para, nas próximas 24 horas após a sua recepção, confirmar pela mesma via a sua participação e morada para o envio do livro. Se falhar, o prémio será atribuído ao autor do segundo texto apurado, e assim por diante.
Todos os textos serão publicados à medida que os formos recebendo. Os comentários feitos em cada texto, desde que devidamente fundamentados, poderão ajudar à sua avaliação, pelo que, mesmo para os que não se habilitem ao livro, é um passatempo aberto à participação de todos. No final serão evidenciados os três "nomeados" e, finalmente, o vencedor depois de apurado e confirmado.

Esclarecimento (dia 15/02): os participantes do passatempo de Janeiro também podem concorrer a este, incluindo os que ganharam o 1º e 2º prémios!

Por favor enviem-nos os dados correctos!

Participe!

04/02/2012

Passatempo ALA web/Dom Quixote: terceiro premiado anunciado

Sem outro recurso que não este, solicitamos a Manuel Augusto Rodrigues Salvador, da Guarda, 3º premiado do Passatempo da semana passada com o livro Explicação dos Pássaros, que entre em contacto connosco via e-mail (alaptla@gmail.com) até ao final de segunda-feira para tratarmos da entrega do prémio. O livro foi enviado na passada segunda-feira, por correio normal, para a morada indicada no e-mail de participação nos termos do passatempo, mas foi devolvido na passada quinta-feira por "endereço inexistente/insuficiente", e porque no contacto telefónico indicado ninguém atende. Após os e-mails (de quinta e sexta-feira) sem resposta em que pedimos a morada correcta, resta-nos a alternativa pública do nosso site para que possamos entregar o prémio. Após as 24H00 de segunda-feira, dia 06.02.2012, e caso o premiado não entre em contacto connosco pela via solicitada, iremos proceder a um novo sorteio ou passatempo para a atribuição deste prémio uma vez que não houve outro participante com as respostas correctas que possa ser repescado para o terceiro premiado.


post editado a 7 de Fevereiro: o prazo expirou e o livro não foi reclamado, pelo que vamos fazer novo passatempo para oferta deste exemplar.

01/02/2012

de Norberto do Vale Cardoso

“Tratado das Paixões de Judas:

Emoções Sociais e Cognição

em

António Lobo Antunes”




Norberto do Vale Cardoso
(Doutorado pela Universidade do Minho)



I

As paixões do Lobo na guerra



“[...] aqueles meses de guerra haviam-nos transformado em pessoas que não éramos antes, que nunca tínhamos sido, em pobres animais acuados repletos de maldade e de terror.” (I. 175)


1. «Sequestro neuronal» – desequilíbrio emocional

Centrados na experiência da Guerra Colonial, os primeiros romances de António Lobo Antunes estabelecem várias comparações para explicar a “animalização” a que foram sujeitos os soldados portugueses, transformados em “bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar” (J. 135). Há, pois, uma dicotomia entre o que eram antes e depois, o que nos parece corroborar a perspectiva “sociologista da guerra”, que refere o acto bélico como estranho ao Homem e produto das relações sociais (Bebiano, 2000:77 e ss). Vejamos, sobretudo, como o narrador d’ Os Cus de Judas (p. 136) afirma essa mutação: “não éramos cães raivosos quando chegámos aqui [...], antes dos ataques, das emboscadas, das minas [...]”. Sugere-se que, na guerra, os soldados se desumanizam/ animalizam, tornando-se em “lobos”, regressando a um estado primário, a uma fase incipiente do “animal político” aristotélico, isto é, em que o Homem não é capaz de reflectir sobre a sua conduta e controlar, pela moral, as suas “paixões”. Estas levam-no a agir sem pensar, ou, se quisermos, a uma situação em que a necessidade de agir exige uma resposta automática de tal modo veloz que o intervalo entre o “disparo” da emoção e a reacção não chega a entrar no consciente (Goleman, 2006:271).
As “paixões” seriam, para Descartes (2009:58), enganadoras, porque os sentidos tocariam a alma com mais força do que a razão. A reacção in-consciente, que não permite que quem age compreenda sequer “o que se está a passar”, é, segundo Daniel Goleman (2006:271), uma resposta “rápida-e-suja da mente emocional”. Percebamos, assim, que as emoções são “adaptações” com que os “organismos regulam a sua sobrevivência” (Damásio, 2004:75), e são-no muito mais numa situação anómala quanto o é qualquer guerra. É evidente que as restrições sociais fazem parte do percurso evolutivo do ser humano, pois, “mal-grado” esses limites, “as paixões estão permanentemente a sobrepor-se à razão” (Goleman, 2006:21). Ora, uma guerra é sempre a abolição das regras, e, nesse sentido, da repressão a que as paixões ou emoções estavam sujeitas, motivando-as (do latim, motere, mover para) em excesso. Assim, o incremento das paixões, como subjugação da racionalização, provoca um desequilíbrio entre a mente emocional (vulgo, «coração») e a mente racional (a «cabeça») (cf. Goleman, 2006:26).
É essa a situação narrada por António Lobo Antunes nos seus primeiros romances. No Conhecimento do Inferno vemos um desses exemplos de desequilíbrio em que se dá uma “explosão emocional” (Goleman, 2006:32), ou seja, em que as “paixões” quebram as amarras racionais que as coarctavam. Referimo-nos a uma situação de tortura perpetrada pelos soldados portugueses sobre três negros que sentiam serem os culpados “dos tiros, da angústia, da injustiça, da estupidez da guerra” (I. 173). O sofrimento (do latim passiōne) era tão violento que o protagonista recorda que teve de fechar “à força o posto de socorros” porque “(todos os homens queriam participar no massacre, vingar a sua angústia, a sua raiva, o seu medo [...])” (I. 173). Só no momento em que a tortura resulta em morte é que os soldados parecem conhecer (cognoscěre) o resultado do seu acto, chamando o Pide para que este os auxilie e resolva o “problema”.
O que os terá levado a perpetrar essa tortura? A resposta passa por uma alteração progressiva das vivências e, consequentemente, por um desequilíbrio das emoções, que culmina numa “resposta suja”, mas defensiva e reguladora da sobrevivência. Aliás, são a dor e o sofrimento que melhor nos protegem para a sobrevivência (Damásio, 2009:268). Daniel Goleman (2006: 32) considera que essas reacções momentâneas são como “sequestros neuronais”, em que o centro límbico dispara uma emergência e se apodera do resto do cérebro. Não podemos com isto julgar que não devemos ter “paixões”, pois são elas que proporcionam aptidões emocionais básicas para a existência humana, fortificando as emoções no pensamento, como já Descartes cogitava (2009:52). Trata-se, outrossim, de aprender a encontrar um equilíbrio entre as emoções e a razão, o que, numa guerra, se nos afigura como algo intermitente. Porém, quando ocorre um desequilíbrio, e quanto mais grave é esse desequilíbrio, as consequências podem ser irreversíveis (e.g. o trauma). A guerra desperta o lado mais instintivo do Homem, pois a pressão (stress) a que o organismo está sujeito nessa situação (Pereira, 1991:67) gera uma desordem (distress) (Quintais, 2000:37). Portanto, numa guerra as acções explicam-se do mesmo modo que se explica um reflexo: quem reagiu, “quem teve o reflexo foi o organismo, e não necessariamente a «pessoa»” (Damásio, 2004:96). Quem reagiu foi um organismo que pugna, inatamente, pela sobrevivência.
Assim, quando a vida está em perigo dá-se uma alteração no cérebro que se torna incontrolável (Goleman, 2006:261). A cognição, processo de Conhecimento posterior ao acto, é o despertar da mente racional, ainda que esta não consiga ser tão rápida quanto a emocional. A consciência questiona-se então sobre as razões dos seus actos, que resultam do facto de a mente emocional tomar todas as crenças como verdadeiras e incontestáveis (Goleman, 206:374). Logo, só a mente racional pode pensar, ter um sentimento de si. Ora, por sentimento entendemos uma “sombra” da emoção (Damásio, 2003:19), ou seja, “o sentir daquilo que acontece quando o seu ser é modificado pela acção de apreender alguma coisa.” (Damásio, 2004:29) Efectivamente, o psiquiatra regressado da guerra sente-se perseguido pelas imagens de tortura, dado que, por ter agido consoante as suas “paixões”, sente que se “traiu” a si mesmo, encarando-se como um Judas (J. 112) (note-se aqui a multiplicidade de sentidos do elemento remático). Assim, recordar será uma actualização do trauma na mente emocional, e um risco de esta se voltar a apoderar da mente racional.  


2. Objectos «emocionalmente inocentes» e objectos «emocionalmente competentes»

A guerra começa por ser um objecto emocionalmente inocente (coisa rara na idade adulta, Damásio, 2003:73), mas torna-se num “objecto” emocionalmente competente, que pode esbater ou amplificar os efeitos emocionais, ou seja, que pode criar uma nova emoção (cf. Damásio, 2003:73). É o que sucede quando a data exacta da tortura surge, “de súbito”, na memória do psiquiatra (I. 172) que narra. Ora, narrar equivalerá a uma forma de “«sentir» os sentimentos”, e este «sentir» “prolonga o alcance da emoção” (Damásio, 2004:325). Todavia, esse procedimento é necessário na terapia para controlar as suas “paixões”. Consequentemente, a emoção, sentida “hoje” pelo psiquiatra ao narrar o que sentiu há anos, em tudo se assemelha à efectivamente sentida naquele momento. Deste modo, a memória gera emoção e a emoção gera memória: “ [...] neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi há seis anos e perturbo-me ainda” (J. 38).
Curiosamente, na narração interligam-se aspectos contraditórios, pois o sujeito que narra, e que, nos casos aqui referenciados, é a personagem do alferes-piquiatra, sente perturbação e libertação nesse processo narrativo, em que, além do mais, o passado se faz presente. Essa ambivalência deve-se, afinal, ao facto de “o lugar da arte” se ter tornado “incerto” (Adorno, 1982:11), ou, se quisermos, a uma “inabilidade epistemológica” da arte em representar a violência e o horror (Norris, 2000:20 e 62). Narrar é reexperienciar uma experiência (inexperienciável), pois o trauma resulta de uma “situação com a qual nenhum ser humano está preparado para lidar” (Albuquerque in Pinto, 2002:34).
Dá-se, pois, uma situação de ruptura forçada, uma perda do habitat, o que implica uma “inversão de valores”, colocando em causa as emoções sociais culturalmente modeladas (Dores, 1994:35). A sobreposição de “um universo falso” ao “universo habitual” (J. 28) será o início da anomalia emocional, que leva o protagonista de Judas a sentir “um sentimento esquisito de absurdo” (J. 25), uma sensação de pertencer a outro lugar, sem saber qual (J. 32). Coloca-se, antes de mais, um problema de auto-representação, paulatinamente agravado pelas vicissitudes da guerra. Há uma fragilização constante do combatente, agudizada em momentos de “paragem”, em que os soldados têm tempo para cogitar/ pensar, ou seja, para ter um “sentimento” (de si), que seria a possibilidade de controlar voluntariamente o que até então era automático (Damásio, 2003:96). Contudo, nem mesmo Descartes (2009: 128) cria que fosse humanamente possível resistir às paixões.


3. Falsificação de emoções – escravos das «paixões»

Procurando embotar esses sentimentos, alguns soldados entregam-se ao álcool, enquanto outros se suicidam. No caso do consumo de bebidas alcoólicas, temos uma falsificação das emoções, que não reflecte o estado actual do organismo. O efeito permite que o soldado não soçobre, mas essa adulteração incapacita-o emocionalmente, e não é biologicamente sustentável a longo prazo (Damásio, 2003:160). O que sucede é uma modificação dos mapas verídicos do corpo, falseamento que quer iludir uma menor perfeição do organismo. Atentemos num exemplo: “[...] este tipo de álcool [...] possui a benéfica virtude de [...] subir o nível da coragem [...]” (J. 27).
Os sentimentos são “manifestações mentais do equilíbrio e da harmonia, da desarmonia ou do desacordo” do organismo (Damásio, 2003:162), mas quando este está gravemente perturbado e não consegue regressar à homeostasia, pode dar-se um total descontrolo emocional, que resulta em inaptidão. Esta, por sua vez, pode conduzir o organismo ao suicídio, que, como referimos, é presenciado e narrado pelo antigo combatente, que, no presente, exerce psiquiatria no Hospital Miguel Bombarda. No caso dos suicídios, em que se destaca o do “soldado de Mangando” (cf. J. 176-177), enfatiza-
-se uma “imprecisão emocional do cérebro”, uma inaptidão, com maior incidência nos casos de emoções particularmente fortes, como o são os acontecimentos traumáticos (Goleman, 2006:41).
Podemos ressalvar que o suicídio é um acto paranóico, mas é o único, afinal, que inflecte contra a “máquina paranóica” de guerra (Deleuze e Guattari, 1995:14). A ausência de si como corpo parece ser a única saída vislumbrada para retirar de si as emoções que não consegue cognoscěre. A autognose sobre as suas emoções não lhe dá nem autoconsciência nem autoconhecimento, pelo que este indivíduo não é capaz de manifestar uma inteligência emocional (Goleman, 2006:65). Esta falha, equivalente a uma amputação, implica, por outro lado, que o sujeito seja “escravo das paixões”, revelando uma falta de “inteligência intrapessoal” (Goleman, 2006:61). Como conhecida figura bíblica, Judas, o soldado português age segundo paixões inexplicáveis, que implicam, numa posterior introspecção, a sua auto-mutilação. Mas ao contrário do psicopata, em que a emoção é nula, o soldado sofre porque o sentimento da emoção o enfraquece (Goleman, 2006:148) até ao suicídio. Este resulta de uma lacuna de inteligência emocional (Goleman, 2006: 54), de uma incapacidade para se auto-motivar e de “persistir a despeito das frustrações”.
Ao invés do suicida, o sobrevivente (aquele que não se suicida, mas que sente estar “morto como os suicidas”, J. 121), manifesta um autodomínio das paixões perturbadoras, o que não requer, porém, a superação ou compreensão dos seus sentimentos. O não suicídio omite problemas de representação do eu, sobretudo porque o sobrevivente assiste ao suicídio de alguém que lhe era gregário. Esta situação agrava a sua fragilização, levando-o a procurar uma cognição incognoscível: “- Por que é que as pessoas se matam?” (I. 253) Esta é uma demanda infrutífera. Por exemplo:

“A gente mata-se porque somos os mendigos desta guerra” (I. 205);
“As pessoas matam-se porque estão fartas. [...] Fartas de não perceberem porque é que morrem.” (I. 206)

Portanto, o não suicida pode incorrer numa incapacidade, comummente apelidada de desordem de stresse pós-traumático, de que o protagonista (muito associado ao autor empírico) dos primeiros romances de António Lobo Antunes padece.



Para ler o artigo completo consultar:


Estética das Emoções (organização de Fernanda Gil Costa e Igor Furão), Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, V.N. Famalicão, Húmus, pp. 213-224.

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...