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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2004

Acho que já podia morrer

Público - entrevista de Adelino Gomes 09 Novembro 2004


Vira as folhas onde escreve, quando entramos. Só falta escondê-las dentro de um livro de Geografia ou História, como, não tarda, nos contará que fazia no tempo da adolescência, em que os pais lhe censuravam a ambição literária.
Passaram 25 anos sobre o lançamento dos seus dois primeiros livros, "Memória de Elefante" e "Os Cus de Judas", em 1979. Aparentemente alheio à azáfama com que a editora prepara a celebração da efeméride, numa festa marcada para o fim do dia de hoje, em Lisboa, António Lobo Antunes debruça-se, desde o princípio da manhã, sobre o tampo de vidro da pequena secretária, quase escondida à esquerda de quem entra na vastidão da garagem emprestada, onde tem trabalhado os seus últimos livros.
A meio da entrevista tomará a iniciativa de mostrar, fugazmente, o resultado da sessão. Frases escritas à mão, numa letra miudinha, delimitadas por traços que parecem marcar deixas das personagens. As quatro hora…

Diário de Notícias: «Saber ler é tão difícil como saber escrever»

Diário de Notícias - entrevista de Maria Augusta Silva
18 Novembro 2003

Saber ler é tão difícil como saber escrever



Podemos começar por falar de amor? Se eu souber responder...
O título do seu novo romance, Eu Hei-deAmar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor? Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.
Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre... Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim - e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediat…

Nuno Barbosa: Comentário - A Morte de Carlos Gardel

"Deus me livre de gostar das pessoas."
A frase é da pertença de Joaquim, uma das personagens deste livro. Poder-se-ia afirmar que qualquer uma das figuras que desfilam perante o leitor não o faz.
Não é que elas até não queiram amar, o facto é que não o são capazes: "a minha mãe e eu não nos abraçávamos, que patetice, não era um filme, era a vida tanto quanto me lembro não nos abraçámos nunca, se era preciso um beijo encostávamos a bochecha uma à outra, beijávamos o ar e ela abria logo uma caixinha de tartaruga e recompunha a maquilhagem, ao meio-dia."
Sempre expectantes de algo mais, procuram agarrar-se a qualquer coisa, a qualquer foco de aparente conforto, a uma promessa débil de companhia, de modo a combater o que realmente mais os aterra - estarem sós, viverem sós, acabarem sós - acabam por preencher o vazio com o que têm mais à mão: "e pouco me importa a opinião da Dona Silvina e da minha prima, e das minhas amigas, sobre se o Álvaro gosta ou não gosta de mi…