27/11/2010

Norberto do Vale Cardoso: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


O Livro dos Viventes, António Lobo Antunes e Sôbolos Rios Que Vão

No colóquio A Escrita e O Mundo Em António Lobo Antunes, Carlos Reis havia referido que a obra de António Lobo Antunes é uma “casa de onde se vê o rio”, frase que, de certo modo, parece prenunciar o título do mais recente livro do autor: Sôbolos Rios Que Vão. Baseado num poema de Luís de Camões, este romance demonstra que a obra de Lobo Antunes não se cinge a ser uma casa de onde se vê o rio. A verdade é que a obra antuniana, como o rio - e como a vida -, flui e reflui num continuum, eterno projecto do autor fazer da sua uma obra “redonda” (crónica “As Mãos são as folhas dos gestos”), porque para António Lobo Antunes a vida é a obra e a obra será como um rio.

Como bem o entrevê Maria Alzira Seixo, em Sôbolos Rios, a importância atribuída à visita à nascente do Mondego “adquire aqui a força de um simbolismo vital, porque a personagem está imobilizada numa cama hospitalar, padecente de cancro, sujeita a cirurgias e a tratamentos.” A montante está a infância, naturalmente, em que o doente conhecera a nascente do Mondego com o pai, personagem fulcral, pois é este que o leva a esse lugar genesíaco (não se trata apenas da nascente do rio, mas também da sua formação enquanto um “ser vivente” e enquanto escritor). O caminho de regresso à nascente é, por isso mesmo, um caminho inverso ao que faz o rio (ou mesmo a vida), como se o senhor Antunes principiasse novamente o seu percurso de vida. Este regresso memorial à nascente do rio Mondego e à vila/ serra trata-se, pois, de um processo curativo, em que se imiscuem o hotel e o hospital. E ainda que nenhum deles possa ser uma representação estanque do passado ou do presente, pelo facto de ser operado no hospital, lugar onde o corpo está atido à realidade física e fugaz da matéria de que somos feitos, a memória e a imaginação transportam a personagem para um lugar da infância, o hotel dos ingleses, onde acaba por ser operado, como se, permita-se-nos a redundância, operasse uma fuga ou cura do espírito.



por Norberto do Vale Cardoso
enviado por e-mail
26.11.2010

20/11/2010

Justo Navarro: sobre El Archipiélago del Insomnio

Música de obsessão



Perguntaram ao poeta Gabriel Ferrater se não lhe parecia terrível a realidade, e Ferrater, que sabia do assunto, respondeu imediatamente: "E a irrealidade é o quê?". António Lobo Antunes escreveu O Arquipélago da Insónia para se entender com a irrealidade, esse assunto terrível, tão solidário com a insónia, com a vigília e os seus sonhos. Inventou um narrador que, insignificante, ergue um mundo, uma quinta, uma casa, quartos, móveis. De fotografias antigas retira uma mãe, um pai, os pais dos pais, um irmão, as criadas, os caseiros de uma quinta, e as figuras dos retratos começam a falar e a mover-se, espíritos nervosos de carne.

Alguém conta uma história, e avisa que é apenas um conto, nem sequer o seu, e logo sabemos que é outra mão que vai escrevendo. Lobo Antunes conta a história de uma casa e de uma família, promíscua, quase incestuosa, patriarcal, de amos e servos, uma casa onde ninguém olha para ninguém. Quem se aproxima do outro, fá-lo por medo. Nesta casa de desolação a morte entra e sai como mais um parente, quase com bom humor. Lobo Antunes foi ao centro de quase todos os romances:  família, uma casa, a terra, algo que disputam uns com os outros num espaço fechado, ainda que seja apenas o afecto, ou o favor sexual. Existem dois filhos, um amado e o outro não, um aceite e o outro idiota. O avô, o patriarca, é puro poder, e partilha a mulher do filho único. Vem de uma história que parece ter sido imaginada por Faulkner: chegou à aldeia um homem com o seu ajudante e "uma mulher de que se serviam os dois". Mal vivem num casebre e  convertem-no numa quinta riquíssima.

As mulheres matam-se com veneno. Os homens assassinam com espingarda, fuzil, enxada, navalha. Ardem celeiros enquanto os camponeses revoltosos degolam animais e derrubam depósitos de água e máquinas segadoras. Mas tudo parece uma visão, imagem interior, filme de palavras febris. Podíamos estar nos anos vinte do século passado, em Portugal, se não fosse por algum anacronismo que potencia a sensação de ilusão, de uma certa insegurança física. Os tucanos cruzam o céu, impossíveis, como se a quinta fantástica fosse no Brasil, por exemplo, num outro mundo. Aqui não há tucanos, diz ao narrador uma voz sensata. "Não existimos, o que digo não existiu", esclarece o narrador. O imaginário é maior que o real, porque no imaginário cabe a realidade.

E então Lobo Antunes abre um segundo nível: agora estamos na realidade do narrador, num hospital, muros, fechaduras, injecções, visitas de familiares. Chamam autista ao narrador os enfermeiros, ainda que outros poderiam considerá-lo esquizofrénico, pela sua memória fabulosa ou falsa. "Que disparate, tucanos", diz a mãe real. De que quinta nos fala? A única quinta é a consciência petrificada do suposto narrador, grande e ramificada como uma casa. É esta a árvore de palavras que cultiva António Lobo Antunes, esta angústia de frases harmónicas, fluidas, mais monólogo que diálogo: "Proíbo-lhes que me tirem o que me pertence, o que construi para defender-me de vocês", a quinta, diz o narrador, entre suas plantações sangrentas.

Qual quinta?, pergunta a mãe, e o narrador sente-se usurpado: constrói a casa às escondidas, uma origem mítica (como uma pátria), contra a imundície presente, para não ser, como todos os seus, um deserdado num andar humilde de Lisboa, com o avô aposentado, o pobre pai com cirrose, a mãe triste. A introversão extrema é uma forma de extroversão, um modo de fugir, mas não basta esta saída ao romancista. Leva-nos a um terceiro nível, mais fundo, e da épica miserável de Faulkner passamos para a miséria épica de Beckett. Aqui estão os dois irmãos da primeira parte. O cenário é Lisboa: alguém que escreve histórias acolhe em sua casa o seu irmão, e começa a escrever o que deve existir na cabeça do irmão autista, hermético, único habitante do seu estado mental. É como se quisesse dar-lhe companhia, uma família de seres interiores. Realidade e irrealidade são vasos comunicantes, e há peças que sobrevivem nos dois planos, prova de que a imaginação também é real: o mesmo brinco que, na quinta fantástica, a mãe perdeu num encontro adúltero, e agora é roubado no andar sinistro, para ser empenhado; e a rapariga morta a quem cortaram as tranças, Maria Adelaide, é agora a mulher do irmão são; e os irmãos continuam observando-se, como num espelho. As obsessões têm a sua lógica e a sua música: repetições, multiplicação de vozes, ecos, palavras insistentes como fantasmas ou remorsos. Lobo Antunes, que também é psiquiatra, descobriu na alucinação uma forma piedosa, quase afável, de se agarrar à realidade e narrar o impossível.


por Justo Navarro
13.11.2010
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

19/11/2010

Fernando Martins: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


"Sôbolos rios que vão"... (desaguar num atoleiro?)

“Sôbolos rios que vão” é o primeiro verso das célebres redondilhas em que Camões faz o balanço da sua vida passada e projecta o futuro através da superação mística das contingências humanas. Sôbolos rios que vão é também o título do vigésimo segundo e mais recente romance de António Lobo Antunes.

Deste romance, diz a professora Maria Alzira Seixo, entre outros encómios, que “é um dos mais maravilhosos que o autor escreveu até hoje. É um dos casos em que a reflexão sobre a vida pessoal (enfim, a autobiografia!) consegue aliar-se, em ambos os escritores [Camões e Lobo Antunes] à expressão literária de um modo artístico insuperável” (Jornal de Letras n.º 1044, 6-19/10/2010). Já Rui Catalão, aparentemente menos indefectível admirador de ALA do que a professora Alzira Seixo, tempera a sua análise crítica falando-nos de “um livro muito belo e muito desequilibrado”, livro este em que “a maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacrificar a construção das cenas, ou dos episódios, à montagem de frases dispersas e imagens fragmentadas”. E acrescenta: “o livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens” (Ípsilon, 15/10/2010).

Nutro grande respeito e admiração pela professora Alzira Seixo, de quem fui aluno, mas não consigo partilhar a sua simpatia por este romance de Lobo Antunes, que me faz lembrar o filme “Branca de Neve” de João César Monteiro, filme que, aliás, não vi, nem – julgo – poderia ter visto, uma vez que, depois de uma curta cena inicial em que se vê o realizador a colocar um pano sobre a objectiva da máquina de filmar, a tela escurece e nada mais se vê até ao fim, apenas se ouvindo vozes. Em Sôbolos Rios ouvem-se vozes, sobretudo a do protagonista, mas, quanto à possibilidade de visualizar, o que se passa é que as imagens são de tal modo fragmentadas e incoerentes que acabam por instituir o caos.

É certo que a narrativa contemporânea nos habituou às mais diversas infracções e desvios: as categorias que a enformam – tempo, espaço, acção, personagem – sofrem tratos de polé que poriam em pé os cabelos dos clássicos, ainda que alguns procedimentos agora banais não sejam novidade (basta lembrarmo-nos de Os Lusíadas, p. ex., com o seu começo in media res). Mas uma coisa são as analepses e prolepses, os encaixes e alternâncias, a sobrevalorização do stream of consciousness em detrimento da acção, a despromoção da personagem; outra é a desconstrução artificial do discurso e a sua redução a uma amálgama de segmentos disformes.

Admite-se um discurso incoerente, se é uma corrente de consciência torturada que se pretende reproduzir (ou criar) literariamente (o que acontece efectivamente com o protagonista de Sôbolos Rios), mas esse discurso há-de constituir um segmento relativamente curto dentro da estrutura do romance. Enformar toda a narrativa com o molde da torrente caótica de uma consciência doente (através da elipse frequentíssima de verbos e da justaposição de acções independentes ocorridas em tempos e espaços diferentes) é destrui-la. E já não falo da pontuação, pouco menos do que arbitrária, que faz da de José Saramago (tão vilipendiada!) algo de quase convencional...

Enfim, dir-se-ia que António Lobo Antunes se empenhou em concretizar o preceito de que quanto pior melhor. Mas o facto é que quanto pior pior.


por Fernando Martins
09.11.2010

14/11/2010

Catarina Homem Marques: sobre Sôbolos Rios Que Vão

António Lobo Antunes 25 - Morte 0

“Estou a negociar livros com a morte.” Uma e outra vez, em cada novo lançamento, a frase é repetida por António Lobo Antunes. Com mais intensidade desde 2007, por ter sido o ano em que um cancro nos intestinos tornou todos os negócios com a morte mais urgentes. Sôbolos Rios que Vão é mais uma negociação que pendeu para o lado do escritor. Ele com mais um, num total de 25 romances já publicados, a morte a perder com um zero no marcador. Mas nunca como neste livro o “estou a negociar livros com a morte” fez tanto sentido.

Sôbolos Rios que Vão é, em si mesmo, um espaçado e calmo negócio com a morte. Um homem que passa 15 dias no hospital, perdido entre um corpo que morre e uma mente que procura mais a vida passada do que uma perspectiva concreta de vida. “O que se quer escrever é aquilo que se perdeu”, disse o autor no lançamento. Ele que parece dizer-nos a cada página o que de biográfico tem este narrador. É António Lobo Antunes que o vai chamando:

– Antoninho.
– António.
– Senhor Antunes.

Também ele perante um cancro nos intestinos. Também ele deitado numa cama de hospital em 2007. Também ele, sempre, a negociar com a morte como negoceia com as memórias e as fotografias caladas nas molduras.

Os banhos que lhe dão no hospital despertam a mesma vergonha de exposição que sentia numa bacia da cozinha onde a mãe o lavava. Quem lhe tira o sangue, com dificuldade a encontrar a veia, não é um enfermeiro mas sim a Dona Irene, que lhe tocava harpa ao serão. Os lençóis do hospital deviam ter ursinhos com gorro e cachecol. “A minha mãe curava tudo com uma aspirina” e, por isso, para quê aquela operação? Se caiu e se se levantou logo depois, porque não lhe diz o médico que daqui a uma semana já pode voltar a fazer oitos com a bicicleta?

“...e não posso reparar no filme dado que me esfregam as nádegas, não um homem, uma enfermeira a humilhar-me – falta pouco enxugando-me as intimidades numa eficiência rápida, não intimidades aliás, trapos que tombam numa moleza atroz, estou a gostar imenso do filme garanto...”

Os dias no hospital – entre o medo, a inconsciência e a lucidez – misturam-se com a infância, com a mulher de quem já se divorciou, com aqueles que já são os seus mortos. A narração nem chega a ser uma narração: é mais um fio de pensamento, que se perde entre diferentes estados.

E há sempre uma janela, porque as janelas dos hospitais, que existem para aliviar, assustam toda a gente. Dali, o narrador, quem sabe o autor também, vê comboios vazios mas não vê dálias e uma lagartixa escondida no muro, como era suposto ver através de uma janela da infância.

A doença vai espreitando apenas, discreta mas inamovível: “Temos de tratar uma inflamaçãozita no rim” ou “o coração desacertou-se”. É só isso que se ouve no fundo do poço de divagações onde habita o narrador e onde o cancro é um ouriço, o médico o dono do hotel dos ingleses e o coração uma bomba de água.

António Lobo Antunes tem um amor assumido por um livro que juntou a uma colecção de livros de bolso coordenada por si: A Morte de Ivan Ilitch. Um pormenor, curioso apenas porque Sôbolos Rios que Vão partilha dos ecos de morte desse livro de Tolstoi. Ecos de morte que se colam aos nossos ouvidos, que nos magoam por exporem tanto aquela inevitabilidade que tentamos sempre ignorar mas que, de tão bonitos, nos deixam mais cheios de vida.

“A puta da Bovary vai viver e eu vou morrer.” Quem o disse foi Flaubert, e Lobo Antunes evocou-o no lançamento: Ficam as personagens, morrem os seus autores. A não ser quando ficam todos misturados: o Antoninho, o António, o Senhor Antunes.


Catarina Homem Marques
09.11.2010

10/11/2010

Rui Catalão: crítica a Sôbolos Rios Que Vão

Fantasia de morte
Ou de como um romance de ossos partidos pode ser composto da melhor poesia

As peças acumulam-se e é uma tentação encaixar a nova peça do puzzle nas já existentes (este é o 22.º romance de António Lobo Antunes). Outras tentações interpretativas provocadas pelo novo livro do escritor (Lisboa, 1942): o título camoniano, que cita o primeiro verso de "Babel e Sião" (esse mesmo em que tudo é "bem comparado, Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado"); e a autoreferencialidade (a personagem principal é um "Sr. Antunes", que em criança tratavam por "Antoninho" e que no ano de 2007 foi operado a um cancro no intestino).

Deixemos de lado a literatura comparada e as ligações autobiográficas e concentremo-nos nas menos de 200 páginas de "Sôbolos Rios que Vão". No que ao título diz respeito, há alusões suficientes no interior do texto. Como esta: "Dei por mim sobre os rios do Mondego que sem cessar se dividiam e tornavam a unir, dei por mim que faleci há tantos anos ou não eu, tudo aquilo que era e não existe mais, a flutuar sobre a água para longe de vocês." Ou esta: "O cabelo da Maria Lucinda a confundir-se com o seu e ele deslizando sobre os rios a fazer parte das ondas." Ou ainda esta: "Três quilos e duzentas que embrulhavam em linho e ele a ir sobre os rios no sentido da foz".

Neste livro, que arranca no primeiro dia de Primavera, metáfora e enredo são um só: o fio de vida que vai da nascente à foz. É a fantasia de morte de alguém que perde a identidade antes de ter chegado a perceber que identidade era essa; é a visão em arco de um velho com cancro no intestino a estudar as linhas da vida "nos ecrãs" e a fazer "zapping" com a memória. "Sôbolos Rios que Vão" salta do passado para o presente e depois outra vez para o passado, em círculos fechados, com as suas repetições, recapitulações e rememorações (o pai que pergunta "Sabes?", mas que não toca no filho; o ouriço que se desprende de um castanheiro para se instalar nas tripas em forma de cancro; o tio que não se julga homem que chegue para viver nem tem coragem para se matar; a criança que pede "pão, pão" à janela de crianças ricas que sonham com a fome dela; "o pingo no sapato" que vem a revelar-se um médico; o rabo do gato escutado pela avó na escuridão; etc). Dor e memória, doença e recordações negam a possibilidade de inexistência que uma voz no romance parece sugerir. O problema é quando a dor se escapa, e o paciente a busca para se reconhecer, ou é perseguido por ela, para ser identificado: "Dado que nenhuma intimidade entre eles, avaliavam-se, rondavam-se, não se cumprimentavam". Tudo existe, até o que é inútil, como o nome de alguém esquecido: "A tralha que arrastamos Santo Cristo, o que faço com o Amadeu das Neves Pacheco, expulso-o ou permito que se mantenha submerso juntamente com outros nomes e outros sucessos antigos."

Com a sua já familiar técnica de falsas concordâncias, duas orações que aludem a tempos e temas diferentes a criarem uma terceira unidade de sentido, o sr. Antunes maneja a todo o gás a máquina de emaranhar paisagens da sua escrita (cenários principais: uma cama de hospital, no presente; e as imediações do Mondego e das minas de volfrâmio, durante e depois da Segunda Guerra Mundial). Primeiro exemplo: "Uma maca a deslizar perto dele e mais ninguém senão o afinador [de harpas] emendando uma última cavilha no seu peito"; segundo exemplo: "Eu no centro da cama onde os enfermeiros me puseram à espera que me toques e tu na pontinha do colchão esperando que eu não te toque e não toquei a fim de não ser expulso por um cotovelo maçado"; terceiro exemplo: "a minha avó nas bancadas dos ourives e eu satisfeito por o passado continuar a existir salvando-me da ravina à beira do colchão".

O Sr. Antunes prodigaliza neste livro uma arte que domina com maestria: escrever nas entrelinhas. Desporto favorito de muitos leitores que fizeram a transição da ditadura para a democracia, é um jogo que teve cultores por altura das canções de protesto e que ainda sobrevive nas canções brejeiras. Reparem como o Sr. Antunes disfarça uma cena de sexo oral (entre a viúva de um major e o pai de Antoninho) através do acto de comer um salmonete fresco: "Mais perfeita que a avó a dividir o salmonete ao meio e a juntar a pele e a cabeça que o impressionavam num prato mais pequeno - Podes comer agora enquanto o avô perseguia as espinhas com a língua, todo ele à procura entre a gengiva e a bochecha, encontrava a aresta, perdia-a, voltava a encontrá-la, empurrava-a com precaução ao longo de um funil de lábios, apanhava-a com dois dedos, esfregava-os um no outro para se libertar dela, secava-os no guardanapo e recomeçava a pesquisa".

"Sôbolos Rios que Vão" é escrito num português que pesca à linha um vocabulário delicioso (em locuções populares como "mete-se-lhes uma cisma no raciocínio e não a largam mais atazanando os vivos"), assim como frases que fizeram uma época ("bochecha de menino me deu vida", diz o balão que ao encher revela a frase "Armazéns Victória Tudo Para A Mulher Moderna"). Mas a narrativa, a caracterização de personagens, a própria ideia de personagem, e já agora a ideia de narrativa, fazem fraca figura no livro do Sr. Antunes. Dele podemos dizer o que Nabokov dizia de Flaubert, que escreve um romance como devia escrever-se poesia, com a diferença de que o seu "Sôbolos Rios" é um romance de ossos partidos.

A maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacrificar a construção das cenas, ou dos episódios, à montagem de frases dispersas e imagens fragmentadas. O livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos, que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens.

Este não é bem um livro "sobre" a velhice nem sobre os prenúncios ou sintomas de morte; encarna antes a velhice e a morte numa sucessão de desmoronamentos, com a memória no papel do paramédico munido de um desfibrilador. As amigas senis da mãe do Sr. Antunes, Júlia, Alda e Clotilde (três nomes lindos, mas que já não se usam) dizem frase como "Vejo um niquinho", ou "Estive casada com quem?", e perdem-se na "angústia de buscar soleiras no cérebro sem as achar". Quanto a Maria Otília (outro nome fora de moda), que "perseguia cabelos brancos no espelho afastando madeixas" enquanto prometia a si mesma "Nunca serei velha", essa paixão do Sr. Antunes que ameaçava deixá-lo sozinho na cama se ele não parasse de tocar-lhe, impedindo-a de dormir, faz agora um tratamento com "as ampolas de beber da úlcera" e "o que cura a úlcera não é engolir aquilo, é cortar as duas pontas no lugar marcado a azul com uma serrinha que se descobre entre os vincos das instruções ou escondida na embalagem, eis a pequena recompensa da idade, abrir ampolas e assistir a uma mancha amarela num dedo de água mexido não com a colher, com o cabo da faca".

Se temos de aceitar que nas imagens está o olhar do autor, também não é menos verdade que na estrutura do texto nos deparamos com a sua visão do mundo. Para além do espaço-tempo polarizado pela infância a brotar de sensações confusas e da velhice repleta de memórias dispersas, pode dizer-se que o Sr. Antunes entrega qualquer outra possibilidade de ordem aos caprichos da visão poética. Quando esta se desorienta, só restam confusão ou afectações de estilo de um escritor mimalho. Felizmente, o Sr. Antunes ainda se lembra dos mimos mais antigos: "Ele ao colo da mãe de bochecha entre as rendas, ora à superfície ora protegido por um casulo no qual se lhe fosse consentido moraria eternamente". O Sr. Antunes oferece-nos neste livro muito belo e muito desequilibrado uma experiência do êxtase em que pavor e descoberta se confundem. Morte e vida e velhice e sofrimento podem ser muitas coisas, não são é desoladas, nem tão pouco vazias.


por Rui Catalão
Outubro de 2010

06/11/2010

José Mário Silva: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


Deste sonho imaginado

Para título do seu 22.º romance, António Lobo Antunes (ALA) escolheu o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Luís Vaz de Camões, poema extraordinário que fala dos «enganos» que o tempo faz às «esperanças» e do triste fim que aguarda quem «se fia da ventura». Além de anunciar desde logo a principal metáfora do livro, Sôbolos Rios que Vão revela-se um título particularmente feliz porque a proximidade temática entre a prosa de ALA e as 37 estrofes camonianas permite que algumas funcionem como sinopses perfeitas do romance. É o caso, por exemplo, da segunda redondilha:

«Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.
»

Fechado num quarto de hospital, o protagonista tem «a morte a cercá-lo sob um céu de catástrofe». O cancro nos intestinos assume para ele a forma de um «ouriço de castanheiro» a dilatar-se dentro das tripas e não há galho onde o «pássaro do seu medo» consiga poisar. Durante duas semanas, ele atravessará cirurgias, recobros e monitorizações clínicas como se já não estivesse no «abismo da enfermaria» mas num outro espaço, uma espécie de limbo no «centro do que não sabemos», talvez o «sonho imaginado» de que fala Camões, povoado de memórias e das tais «cousas ausentes» que se tornam presentes «como se nunca passaram».

Quando olha pela janela, este homem, a quem por vezes chamam Sr. Antunes e outras Antoninho (alimentando a tensão autobiográfica do livro, escrito por alguém que esteve internado nas mesmas datas, 21 de Março a 4 de Abril de 2007, pelas mesmas razões), este corpo em suspenso só consegue ver o seu passado: a infância na vila perdida por entre as serras, com os comboios a passar, a casa da família, o poço dos suicidas, o pilar de granito em volta do qual fazia oitos com a bicicleta, o hotel dos ingleses do volfrâmio, e uma série de defuntos que talvez prossigam «numa existência paralela a esta», como o avô eternamente a ler o seu jornal, a dona Irene que tocava harpa, o pai que lhe mostrou a nascente do Mondego, etc.

Tudo isto lhe chega em «revoadas de imagens», com histórias atropelando-se umas às outras, vindas de épocas muito afastadas para o turbilhão de um «tempo contínuo» em que se fundem «o passado remoto, o presente alheio, o futuro inexistente». Unindo esta amálgama por vezes confusa, uma metáfora: a do rio Mondego, «fiozito entre penedos» quando nasce mas que depois engrossa e se alimenta de outros rios a caminho do mar, tal como o protagonista acaba sendo o leito onde confluem as desordenadas águas das vidas alheias, dando sentido à sua.

Tecnicamente, a escrita de Lobo Antunes é irrepreensível. A cada dia corresponde um capítulo. A cada capítulo, uma única frase. E ninguém domina como Lobo Antunes o ritmo, a fluidez e a respiração da frase, ninguém faz dela uma unidade narrativa tão bem articulada e tão eficaz. O problema é que o trabalho com a linguagem deixa por vezes contaminar-se pela natureza do que descreve. E quando o protagonista se afunda no seu delírio, entre «formas que iam, vinham e tornavam a ir, se sobrepunham e afastavam, rodavam lentamente ou elevavam-se e caíam depressa, pareciam definir-se e em lugar de se definirem dissolviam-se», é a própria escrita que se dissolve e deixa o leitor às escuras, avançando às apalpadelas, tão maravilhado quanto perdido.

À semelhança do que acontece ao corpo preso às máquinas, Sôbolos Rios que Vãodesmorona-se enquanto o lemos. É uma experiência dura, difícil, mas magnífica. E estranhamente recompensadora, talvez porque entre as ruínas desta aproximação à morte, contra todas as expectativas, pulsa a vida.


Avaliação: 8,5/10
texto publicado no suplemento Actual do Expresso

José Mário Silva
01.11.2010

02/11/2010

Joaquim Gonçalves: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Ou não havia comboios ou não paravam ali” (pág. 170)

Os comboios, poucos, passam numa estação deserta. É raro o que pára até que, por falta de passageiros, deixam de o fazer e passam rápidos deixando o funcionário da estação triste, cabisbaixo, bandeirola sem serventia debaixo do braço. Como a vida que se vai esvaindo mas a assistir à pujança de outras ainda em trânsito, em velocidade de cruzeiro. Até que cheguem à meta.


Ler um livro é ler a vida. Vidas – outras vidas. Vividas, inventadas, ou vividas e transformadas em história. Em histórias. Com verdades e mentiras. Com mentirinhas que a imaginação transforma em verdades no seu contexto. Com verdades que desejamos mentiras. E o contrário.

Para chegar a esse ponto é preciso que alguém o escreva. Escrever um livro digno de ser lido por outrem é um processo alquímico ao alcance de apenas alguns. Não direi que iluminados mas, sim, com arte para trabalhar as palavras e juntá-las em ideias. E daqui se criou a profissão de escritor que, para sobreviver, tem de escrever muito. Umas vezes melhor, outras, menos bem.

Do muito que o obreiro escreva nem tudo terá a mesma qualidade. Até porque esse é um conceito com alguma carga de subjectividade balizada pelo gosto e disposição de quem lê. E também pelo saber. Mas também desse que escreve.

Não é fácil conjugar o espírito de quem escreveu, a disposição com que o fez, com o do leitor. O encontro entre o leitor e o escritor, por via do livro, é um momento único. Uma explosão.

Avaliar um escritor profícuo por uma ou outra – ou outras – obra menos bem conseguida será pretensiosismo ou imodéstia. Ou não. Será, sobretudo, injusto. Ler um autor é ler toda a sua obra. O que é certamente diferente de ler um ou outro livro. Mas só daquela forma se pode tecer uma crítica justa.

Por outro lado, e para o leitor que lê apenas por divertimento puro, despreocupado com a forma mas exigente com o enredo, é normal que caia a crítica dura quando o livro não tem aquilo a que se chama um enredo.

Acabar de ler um livro e não o largar. Ficar a olhar para ele. Passar com a palma da mão pelas capas num gesto carinhoso disfarçado de limpar o pó que não há. Volteá-lo nas mãos. Depois, pousá-lo na mesa como feito de cristal.

Este não é um livro para qualquer um. É um livro apenas para leitores privilegiados.
Falo de António Lobo Antunes e do seu último livro – reparem que não lhe chamo romance – “Sôbolos rios que vão”.

Entre 21 de Março e 4 de Abril de 2007, cerca de duas semanas, um homem que foi operado a um cancro, sob os efeitos da anestesia e de sedativos, intercala lapsos de memórias de infância, num discurso quase poético, com o momento que está a viver, o pragmatismo da doença identificado por frases curtas principalmente do pessoal médico, o ambiente que o rodeia, frases soltas largadas por visitantes de outros doentes.

Não tendo propriamente um enredo, o livro tem um pulsar sempre presente e crescente. Com menos fragmentação do que em obras anteriores Lobo Antunes cativa o leitor como um mestre de sensibilidade. “Sôbolos rios que vão”, título retirado de um verso de Camões é, ele também, um grande poema, com “grande” a utilizar todos os sentidos da palavra.

Este não é um livro para qualquer um. É um livro apenas para leitores privilegiados. E eu sou um dos que tiveram o privilégio de o ler.


por Joaquim Gonçalves
31.10.2010

01/11/2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...