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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2010

Norberto do Vale Cardoso: crítica a Sôbolos Rios Que Vão

O Livro dos Viventes, António Lobo Antunes e Sôbolos Rios Que Vão
No colóquio A Escrita e O Mundo Em António Lobo Antunes, Carlos Reis havia referido que a obra de António Lobo Antunes é uma “casa de onde se vê o rio”, frase que, de certo modo, parece prenunciar o título do mais recente livro do autor: Sôbolos Rios Que Vão. Baseado num poema de Luís de Camões, este romance demonstra que a obra de Lobo Antunes não se cinge a ser uma casa de onde se vê o rio. A verdade é que a obra antuniana, como o rio - e como a vida -, flui e reflui num continuum, eterno projecto do autor fazer da sua uma obra “redonda” (crónica “As Mãos são as folhas dos gestos”), porque para António Lobo Antunes a vida é a obra e a obra será como um rio.
Como bem o entrevê Maria Alzira Seixo, em Sôbolos Rios, a importância atribuída à visita à nascente do Mondego “adquire aqui a força de um simbolismo vital, porque a personagem está imobilizada numa cama hospitalar, padecente de cancro, sujeita a cirurgias e a tratam…

Justo Navarro: sobre El Archipiélago del Insomnio

Música de obsessão



Perguntaram ao poeta Gabriel Ferrater se não lhe parecia terrível a realidade, e Ferrater, que sabia do assunto, respondeu imediatamente: "E a irrealidade é o quê?". António Lobo Antunes escreveu O Arquipélago da Insónia para se entender com a irrealidade, esse assunto terrível, tão solidário com a insónia, com a vigília e os seus sonhos. Inventou um narrador que, insignificante, ergue um mundo, uma quinta, uma casa, quartos, móveis. De fotografias antigas retira uma mãe, um pai, os pais dos pais, um irmão, as criadas, os caseiros de uma quinta, e as figuras dos retratos começam a falar e a mover-se, espíritos nervosos de carne.
Alguém conta uma história, e avisa que é apenas um conto, nem sequer o seu, e logo sabemos que é outra mão que vai escrevendo. Lobo Antunes conta a história de uma casa e de uma família, promíscua, quase incestuosa, patriarcal, de amos e servos, uma casa onde ninguém olha para ninguém. Quem se aproxima do outro, fá-lo por medo. Nesta…

Fernando Martins: crítica a Sôbolos Rios Que Vão

"Sôbolos rios que vão"... (desaguar num atoleiro?)
“Sôbolos rios que vão” é o primeiro verso das célebres redondilhas em que Camões faz o balanço da sua vida passada e projecta o futuro através da superação mística das contingências humanas. Sôbolos rios que vão é também o título do vigésimo segundo e mais recente romance de António Lobo Antunes.

Deste romance, diz a professora Maria Alzira Seixo, entre outros encómios, que “é um dos mais maravilhosos que o autor escreveu até hoje. É um dos casos em que a reflexão sobre a vida pessoal (enfim, a autobiografia!) consegue aliar-se, em ambos os escritores [Camões e Lobo Antunes] à expressão literária de um modo artístico insuperável” (Jornal de Letras n.º 1044, 6-19/10/2010). Já Rui Catalão, aparentemente menos indefectível admirador de ALA do que a professora Alzira Seixo, tempera a sua análise crítica falando-nos de “um livro muito belo e muito desequilibrado”, livro este em que “a maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacr…

Catarina Homem Marques: sobre Sôbolos Rios Que Vão

António Lobo Antunes 25 - Morte 0

“Estou a negociar livros com a morte.” Uma e outra vez, em cada novo lançamento, a frase é repetida por António Lobo Antunes. Com mais intensidade desde 2007, por ter sido o ano em que um cancro nos intestinos tornou todos os negócios com a morte mais urgentes. Sôbolos Rios que Vão é mais uma negociação que pendeu para o lado do escritor. Ele com mais um, num total de 25 romances já publicados, a morte a perder com um zero no marcador. Mas nunca como neste livro o “estou a negociar livros com a morte” fez tanto sentido.

Sôbolos Rios que Vão é, em si mesmo, um espaçado e calmo negócio com a morte. Um homem que passa 15 dias no hospital, perdido entre um corpo que morre e uma mente que procura mais a vida passada do que uma perspectiva concreta de vida. “O que se quer escrever é aquilo que se perdeu”, disse o autor no lançamento. Ele que parece dizer-nos a cada página o que de biográfico tem este narrador. É António Lobo Antunes que o vai chamando:

– Anton…

Rui Catalão: crítica a Sôbolos Rios Que Vão

Fantasia de morte
Ou de como um romance de ossos partidos pode ser composto da melhor poesia

As peças acumulam-se e é uma tentação encaixar a nova peça do puzzle nas já existentes (este é o 22.º romance de António Lobo Antunes). Outras tentações interpretativas provocadas pelo novo livro do escritor (Lisboa, 1942): o título camoniano, que cita o primeiro verso de "Babel e Sião" (esse mesmo em que tudo é "bem comparado, Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado"); e a autoreferencialidade (a personagem principal é um "Sr. Antunes", que em criança tratavam por "Antoninho" e que no ano de 2007 foi operado a um cancro no intestino).
Deixemos de lado a literatura comparada e as ligações autobiográficas e concentremo-nos nas menos de 200 páginas de "Sôbolos Rios que Vão". No que ao título diz respeito, há alusões suficientes no interior do texto. Como esta: "Dei por mim sobre os rios do Mondego que sem cessar se dividiam e tornavam …

José Mário Silva: crítica a Sôbolos Rios Que Vão

Deste sonho imaginado
Para título do seu 22.º romance, António Lobo Antunes (ALA) escolheu o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Luís Vaz de Camões, poema extraordinário que fala dos «enganos» que o tempo faz às «esperanças» e do triste fim que aguarda quem «se fia da ventura». Além de anunciar desde logo a principal metáfora do livro, Sôbolos Rios que Vão revela-se um título particularmente feliz porque a proximidade temática entre a prosa de ALA e as 37 estrofes camonianas permite que algumas funcionem como sinopses perfeitas do romance. É o caso, por exemplo, da segunda redondilha:

«Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.»

Fechado num quarto de hospital, o protagonista tem «a morte a cercá-lo sob um céu de catástrofe». O cancro nos intestinos assume para ele a forma de um…

Joaquim Gonçalves: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão

“Ou não havia comboios ou não paravam ali” (pág. 170)
Os comboios, poucos, passam numa estação deserta. É raro o que pára até que, por falta de passageiros, deixam de o fazer e passam rápidos deixando o funcionário da estação triste, cabisbaixo, bandeirola sem serventia debaixo do braço. Como a vida que se vai esvaindo mas a assistir à pujança de outras ainda em trânsito, em velocidade de cruzeiro. Até que cheguem à meta.


Ler um livro é ler a vida. Vidas – outras vidas. Vividas, inventadas, ou vividas e transformadas em história. Em histórias. Com verdades e mentiras. Com mentirinhas que a imaginação transforma em verdades no seu contexto. Com verdades que desejamos mentiras. E o contrário.

Para chegar a esse ponto é preciso que alguém o escreva. Escrever um livro digno de ser lido por outrem é um processo alquímico ao alcance de apenas alguns. Não direi que iluminados mas, sim, com arte para trabalhar as palavras e juntá-las em ideias. E daqui se criou a profissão de escritor que, para …