31/08/2012

Passatempo «Não É Meia Noite Quem Quer»

PASSATEMPO ENCERRADO!


Com o lançamento do novo livro de António Lobo Antunes, Não É Meia Noite Quem Quer, previsto para Outubro, vamos oferecer, em parceria com a D. Quixote, três exemplares deste título, num novo passatempo a decorrer em Setembro.

Para se habilitarem ao prémio, os interessados têm de nos enviar por e-mail um texto criativo sobre António Lobo Antunes (qualquer aspecto que entenderem), onde se utilize, aleatoriamente, as palavras não, é, meia-noite, quem e quer.

Os termos são os seguintes:
  1. Passatempo a decorrer entre hoje e as 24 horas do dia 27.09.2012;
  2. O participante deve escrever um pequeno texto, de forma criativa, em língua portuguesa, sobre qualquer assunto que diga respeito ao escritor António Lobo Antunes e utilizando, de forma aleatória, as palavras não, é, meia-noite, quem e quer (não será aceite a ordem da formação do título do livro);
  3. O texto deve ter um título e não deve vir assinado nem conter o nome do participante;
  4. O tamanho do texto deverá ser entre 300 a 800 caracteres (com alguma tolerância), e a enviar num ficheiro de Word ou outro processador de texto similar;
  5. Este ficheiro deve ser incluído numa mensagem de e-mail com os seguintes dados do participante: nome, apelido e localidade, sendo enviado para o nosso endereço alaptla@gmail.com, dentro do prazo estabelecido no ponto 1;
  6. Os textos serão avaliados por um júri constituído por duas pessoas: António Bettencourt e Norberto do Vale Cardoso;
  7. Nos dias seguintes ao término do passatempo, e logo que possível, os textos serão publicados no espaço do blogue num só artigo, e na página do facebook um por um;
  8. Os três textos considerados mais criativos serão os vencedores do passatempo, e os seus autores contactados via e-mail para nos fornecerem as moradas para onde endereçar cada exemplar premiado, tendo para isso 24 horas após a recepção do nosso e-mail;
  9. Confirmados os vencedores, anunciaremos os autores dos três textos mais criativos;
  10. Os textos são da inteira responsabilidade dos seus autores;
  11. Cada participante poderá apenas concorrer com um só texto, não sendo permitida a sua substituição;
  12. As participações que não reunirem as condições anunciadas nos cinco primeiros pontos não serão consideradas.

editado a 15.09.2012:
quanto ao ponto 4, o máximo de 800 caracteres pode ser ultrapassado, desde que não exceda uma página de Word.

Ficamos agora a aguardar pela vossa criatividade!

Bom trabalho!


27/08/2012

José Alexandre Ramos: opinião sobre Fado Alexandrino

Impressões da releitura de Fado Alexandrino

Lembro que quando li Fado Alexandrino a primeira vez, há vários anos, o livro andou semanas dentro de mim, sem que fosse capaz de iniciar outras leituras (de outros autores) que não me entediassem logo nas primeiras páginas. Foi de tal modo o impacto que desejei ser realizador de cinema para que conseguisse colocar tudo aquilo num ecrã, pois que não bastavam as descrições que fazia do que havia lido; para contar sobre ele, tinha que dar a conhecer as imagens exactamente como se tinham fixado na minha mente durante a leitura – uma das mais rápidas e devoradoras que tive, mesmo sendo um livro enorme (mais que seiscentas páginas).

A releitura, porém, foi mais morosa, por um lado devido a razões particulares que não interessam à questão, e, por outro, sem dúvida a razão mais válida, para absorvê-lo de maneira diferente. Obviamente que, depois de ter lido tudo o que António Lobo Antunes publicou até hoje, o impacto desta segunda leitura não foi tão forte como da primeira vez, mas não deixo de reconhecer que é, na generalidade da obra, um dos seus livros mais bem conseguidos.

Quem lê o autor pela sua ordem cronológica (é o método que estou a seguir para a  releitura da obra), não ficará indiferente ao facto de Fado Alexandrino ser um livro muito mais maduro que os seus antecessores (foi o quinto que publicou): no estilo, no discurso, no aproveitamento das personagens. Digamos que o autor deixa o tom de um certo queixume que marca os três primeiros livros, segue pela via experimentada em Explicação dos Pássaros (no sentido de já não ser uma catarse da sua própria experiência) e solidifica, neste seu primeiro longo romance, a linguagem cuidadosamente escolhida e o encadeamento de várias narrativas dentro própria narrativa – marca do seu estilo com que nos habituará na dezena de livros seguintes. Porém, ainda não é aqui que o uso do discurso na terceira pessoa do singular cai, o livro é narrado por uma personagem cujo papel é ouvir o que as outras personagens (essencialmente quatro) têm a dizer, personagem que pouco ou nada intervém com o seu discurso mas é o veículo para a expressão das que vamos conhecendo. Mesmo assim, e como já em Conhecimento do Inferno ou em Explicação dos Pássaros, assistimos à transformação do discurso para a primeira pessoa em longos trechos do texto, principalmente quando existe na narrativa a necessidade de introduzir maior subjectividade ao discurso ou experiência da personagem.

Outra grande inovação neste livro é a sua estrutura: divide-se em três grandes partes, cada uma delas subdividida em doze capítulos. É a primeira vez que o autor não dá tréguas ao leitor, já que cada capítulo (todos do mesmo tamanho) não se lê de uma assentada, tanto pelo seu comprimento, como pela forma como foi escrito. Daqui, sem dúvida, a razão do título: alexandrino diz-se de um verso de doze sílabas, e o que é aqui narrado senão um fado, o fado da sociedade portuguesa durante um período conturbadíssimo da sua história recente? As três partes correspondem cada uma delas, respectivamente, a três períodos históricos: antes da Revolução, durante a Revolução e após a Revolução (25 de Abril de 1974).

Resumindo a intriga ao seu mais básico: ex-combatentes da guerra colonial (em Moçambique) reúnem-se num encontro após dez anos do seu regresso. É este período de uma década em que a intriga e os relatos se desenvolvem, dividido pelas três partes de antes, durante e após a Revolução. O encontro é um jantar em que se destacam as vozes mais próximas do narrador (a quem as personagens tratam por capitão): um tenente-coronel, um tenente oficial de transmissões, um alferes e um soldado. Estamos no restaurante e são evocadas as vivências de cada um antes da revolução, quando do seu regresso da guerra; decidem depois do restaurante ir a uma boîte, que marca a transição para o durante a revolução; por fim acabam em casa do alferes, na companhia de prostitutas que trazem da boîte e entramos no depois da revolução. Bastante bebidos, descontrolados, e conhecidas as suas experiências durante os dez anos, em que constatam algumas coincidências de relações pessoais e factos entre si, acabam por assassinar um deles com uma faca de cozinha, e no final é relatado como uma caricatura o plano para se desenvencilharem do cadáver e esquecerem uma noite em todos os aspectos degradante, reflexo da maneira de estar de cada um e como cada qual foi reagindo às atribulações vividas durante esse período de tempo.

É curioso constatar que, mesmo não se tratando de um romance histórico, pois os factos reais da história nem são desenvolvidos, apenas servem de marcadores temporais, o autor acaba por deixar uma espécie de testemunho psico-sociológico da sociedade de então através das experiências subjectivas narradas por cada uma das personagens: a incerteza com que muitos homens, sobrevivendo à guerra, voltaram para casa, uns tentando readaptar-se, outros seguindo por caminhos mais tortuosos, e ainda com o peso de um regime que continuava a oprimir; a esperança de uma revolução que viesse a libertar as pessoas, a mudança prometida, os exageros cometidos em nome de ideologias extremas; e por fim o desencanto, a desilusão em que essa mudança se transformou, servindo apenas os novos donos do poder e dando a sensação de que para os que sofreram pouco ou nada havia mudado. O leitor que ainda não conhece este livro irá com certeza identificar estes elementos não só pelas marcas temporais mas também no que cada personagem representa, a nível sociológico.

E mais nada é dado a dizer pois, tratando-se de António Lobo Antunes, para se chegar à compreensão, é preciso ler de facto o livro. Não há resenha ou crítica que por si possa convencer à leitura. E neste Fado Alexandrino, o escritor respeita muito bem o leitor, pelo menos não subestima a sua inteligência, dando-lhe o prazer de conseguir ver, através da leitura, um mundo muito abrangente com estas personagens, não esquecendo que é do ser-se português que aqui também se fala.


por José Alexandre Ramos
27.08.2012

25/08/2012

3º volume da Colecção ALA - Ensaio (LeYa - Texto Editora) para breve

O 3º volume da colecção será publicado em breve, e é da autoria de Ana Paula Arnaut:


Como trata a mulher António Lobo Antunes?
As figuras femininas são abundantíssimas, na sua obra, marcadas por traços indeléveis de actuação e personalidade.
Mas agem elas com frequência ou são meras personagens comparsas, de procedimento subordinado ao dos homens? Têm vincado o carácter ou, ao invés, apresentam compleição débil, não alcançando voz activa na intriga do romance?
Ana Paula Arnaut, professora Agregada da Universidade de Coimbra e especialista desta obra, estuda com pormenor e rara argúcia, em todos os romances, as figuras femininas neles existentes, procedendo a finas análises do texto e de comportamentos nele representados, que impressionam pela tendencial exaustão do trabalho e pela justeza das conclusões, que nunca simplificam essa capacidade de sugestão e vaga impressividade que é dos encantos maiores da escrita de António Lobo Antunes.
Este é o livro que faltava, para uma melhor compreensão do universo ficcional do criador da Julieta de A Ordem Natural das Coisas, da Isilda de O Esplendor de Portugal e da Maria Clara de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, personagens femininas que marcam o romance português de todos os tempos.

por Maria Alzira Seixo, coordenadora da colecção

19/08/2012

Estreia no dia 1 de Setembro «Guarda-Chuvas de Chocolate», espectáculo de teatro baseado nas crónicas de António Lobo Antunes

ESTREIA: 1 de Setembro de 2012

SESSÕES: de 5ª a 2ª -  18:15h | 18:40h | 19:05h | 19:30h | 19:55h | 20:20h

LOCAL: SALA 3 - Teatro Rápido – Rua Serpa Pinto, 14 – 1200-445 Lisboa (CHIADO)

M/12
bilhetes a 3€

FICHA ARTÍSTICA
INTERPRETAÇÃO Luciano Gomes | DRAMATURGIA E ENCENAÇÃO Paulo Morgado & Ruy Malheiro CENOGRAFIA Joana Patrício | DESIGN GRÁFICO Elisa Gomes


SINOPSE
monólogo
António, consciente da proximidade do fim do seu tempo, reflete sobre o que restou: a derradeira solidão recheada de memórias de uma vida passada.
Como quem visita um álbum fotográfico repleto de cores, texturas e aromas de outros tempos, partilha com o espetador essas memórias com que dá corpo à sua história e o que ficou do seu pequeno mundo… memórias que são também as de um Portugal recente, comum a todos nós!
Uma viagem no tempo que nos resta através do tempo que já vivemos…


“A infância atravessada é como uma espinha,
a gente engole bolas de pão e não passa…”
                               António Lobo Antunes

[press release por cortesia de Ruy Malheiro]

05/08/2012

Folha de São Paulo: «Minha profissão é escrever sem camisinha»

[continuação daqui]

Para Lobo Antunes, que redige seus livros a caneta, criar na tela do computador é como fazer sexo com preservativo

Autor define a criação como momento de angústia e solidão; na infância, apaixonou-se pela obra de Lobato

DE SÃO PAULO
Folhas de papel A4 e caneta esferográfica. É o que basta para António Lobo Antunes escrever os seus livros. Avesso a celulares e cartões de crédito, ele não usa o computador para produzir.
"Gosto de desenhar as letras, de bordar. Ver vidro é como fazer amor com camisinha. Minha profissão é escrever sem camisinha", conta. "Nos dias bons a mão fica a fluir e escreve sozinha." Às vezes saem só cinco linhas em um dia.
Mas escrever, propriamente, não lhe dá prazer, revela ele. "Quando não escrevo me sinto culpado. A criação é um mistério. Há alturas de uma felicidade intensa, mas a maior parte do tempo é angústia. De tentar encontrar a palavra e a música e a cor. Talvez escrever seja a arte dos corantes."
E por que escreve dessa maneira, misturando poesia, prosa? "É a minha maneira. Nunca penso se é poesia ou prosa ou o que for. O importante é que sejam aquelas as palavras."
Seu mais recente livro, que será lançado neste ano em Portugal, chama-se "Não É Meia Noite Quem Quer". "É uma mulher falando o tempo todo. O livro não tinha título. Peguei um verso do [francês] René Char", explica.
Próximos livros? "Sei que precisava de mais 200 anos, mas não sei para escrever o quê. Cada livro é o primeiro. Porque a experiência é como os flutuadores dos hidroaviões. Não servem para nada quando você está no ar. E você está sempre muito sozinho quando está fazendo um livro", desabafa.
Nascido em plena ditadura de Salazar, foi lendo uma fábula de La Fontaine que Lobo Antunes aprendeu o que era democracia. "Tinha um verso em que um cão podia olhar para um bispo. E aqui os bispos é que podiam olhar para os cães."
LOBATO E MACHADO
Na biblioteca do pai se apaixonou por "Saci", de Monteiro Lobato. Lia José de Alencar, Aluísio Azevedo, Raul Pompeia, Machado de Assis. Aos 7 anos viajou pela Europa.
"Fui acumulando experiências de toda a ordem desde muito cedo. Ficava tudo dentro de mim. Aos 3 anos tive uma tuberculose e fiquei deitado numa cama durante um ano. Era um menino horizontal no meio de gente vertical", lembra.
De estudar ele nunca gostou. "Estava sempre procurando tempo para escrever", recorda. Quis fazer letras, mas acabou cedendo à pressão do pai, que o queria seguindo a tradição da família na medicina.
E foi um choque. "Os primeiros tempos eram só cadáveres, cadáveres, cadáveres. Para mim a morte não existia. Era o filho mais velho dos filhos mais velhos. Quando nasci, minhas avós tinham 40 anos. Então os mortos eram senhores de bigode nos retratos", conta.
E essa experiência na medicina foi importante para os seus escritos? "Não. Se tivesse sido engenheiro ou outra coisa teria sido igual. Drummond era farmacêutico", responde. E ele, que estudou psiquiatria, como define esses doutores? "Os psiquiatras são loucos tristes", ataca.
Como médico, Lobo Antunes foi com as tropas portuguesas para Angola, que lutava pela independência.
"É horrível, porque ninguém ganha uma guerra; todos perdem. Foi um desafio a mim mesmo. Aprendi o valor da coragem", afirma.
Na mesma época, do outro lado da batalha, com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), estava Pepetela, hoje escritor como Lobo Antunes. Ambos venceram o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa.
Beirando os 70 anos, como sente o envelhecer? A resposta é inusitada. "Cada pessoa tem a idade com que nasceu. Se nasceu com 20 anos, tem 20 anos; se nasceu com 80, tem 80." E com quantos anos Lobo Antunes nasceu? Ele escapa. "Essa é uma pergunta muito íntima."
Hoje, ele corre regularmente às margens do Tejo -"só o suficiente para ficar bonito".
Está curado do câncer? Sim. Depois de uma pausa, emenda: "Se é que alguém alguma vez fica curado seja do que for. Você se cura de um grande amor? Não sei."


texto de Eleonora de Lucena
19.07.2012

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...