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La Vanguardia: «Vivemos num mundo de simples desconhecidos»

La Vanguardia
entrevista de Núria Escur
21.02.2012

«Vivemos num mundo de simples desconhecidos»

O escritor português apresentou o seu último romance [em catelhano]: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

foto de Marta Perez
Está cansado, caminha cansado. Resiste cansado. Chega o último romance de António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) em castelhano: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? (Mondadori) com a mesma cadência de sentimentos que é já o selo do autor.

Na sua estadia em Barcelona o escritor português - que só pensa em passar um pouco com Marsé e Moix - deixa a sua opinião sobre um mundo que o desagrada cada vez mais: "Não há quem o entenda. A política, por exemplo, em abstracto, não sei bem o que é".

O seu olhar, borgiano, cada vez mais de soslaio, é cego àquilo que não o interessa. Lobo Antunes está de volta. Mas na sua catadupa de palavras com personagens que carregam os seus fantasmas continua criando desassossego como ninguém, cria excepções de silêncios e pontuações, cavalga. "Nunca leio o que escrevo".

Lobo Antunes é o mestre do mecanismo do inconsciente. E essa desordem de frases tão sua, segmento que retira das suas entranhas, neste romance trabalha para servir a exposição cruel de uma família e a morte da sua matriarca. Ler Lobo Antunes é por vezes como engolir sem mastigar, e que nos faz sentir bem.

Chegou a ver essa sombra de um cavalo no mar?
Nos meus sonhos.

É uma canção antiga.
A primeira vez que a ouvi fiquei surpreendido. É tão bonita! Porque é uma canção popular feita por camponeses que nunca viram o mar...

Não há paralelo entre a sua família e a do romance. A família é engano ou abrigo?
Nem uma coisa nem outra. Tenho muito sangue misturado: o meu pai era brasileiro, a mãe do meu pai era alemã, existem portugueses, italianos... e há uma coisa que aprendi muito cedo: existe gente loira, morena, mestiça, mas os seus problemas "fundamentais" são sempre os mesmos.

A sua educação foi singular...
Muito! À maneira da Amazónia mas em Portugal. Educação muito rígida, que nada tem que ver com o carnaval brasileiro.

Neste romance anuncia "é o teu último livro, António, o teu testamento". Mas depois ainda escreveu outros dois. Um escritor jubila-se?
Tem-se sempre medo que este que se está a fazer seja o último livro. [...]
Que se vá secando... a fonte, que não haja mais água, que não haja mais nada... É algo que me acompanha faz tempo, temes que a magia se acabe, porque não se sabe de onde ela vem, e eu não sei. Para mim é sempre um milagre.

No que escreve lemos não o que as personagens dizem, mas o que pensam. Para isso ajuda ser psiquiatra?
Fui psiquiatra pouco tempo e além disso não queria sê-lo. Mas sim, nas minhas obras aparece sempre a mesma voz que fala, e que me ajuda a entender o mecanismo dos sentimentos. É um mistério. Na vida só há perguntas.

E se lhe chega uma resposta
É sempre uma resposta em forma de pergunta.

Então diz-me o que menos gosta do mundo que o rodeia
Pergunta-me se ainda creio em algo?

Houve uma altura em que acreditava no Partido Comunista. Até que o decepcionou, penso.
O partido comunista em Espanha tem alguma expressão? Em todo o lado tem pouca... Não acredito nos políticos, precisamente. É já uma classe que nada me interessa. Mas entendo as multidões que saem à rua indignadas, isso ainda compreendo.

Por exemplo
Por exemplo, aqui em Espanha... não entendo o presidente do PP, não entendo o presidente do PSOE, nem o que dizem, nem aos políticos de outros países, nem entendo porque queiram ser políticos... a minha impressão em absoluto é que seguem um projecto de ambição pessoal. Podem dizer que têm amor pela humanidade, mas não me parece que tenham amor aos homens.

A si que lutou na guerra de libertação de Angola, justifica-se dar a vida por um ideal?
Aquilo foi uma guerra colonial, colheram miúdos de 18 e 20 anos e mandaram-nos para a guerra. Não tivemos opção, não havia ideologia.

A literatura proporcionou-lhe mais momentos de felicidade ou de insatisfação?
Já percebi que não sei bem o que é a felicidade, mas ao ler um bom livro, algo se parece.. Mas, sabe? está-se sempre solitário. E esse solitário só vê as caras de quem o lê, nas filas de gente...

Que entretanto esperam um autógrafo
Sim, mas não há tempo para falar, não há tempo para ouvir. Vivemos num mundo de simples desconhecidos.

A esta altura já não o deve preocupar o Nobel.
Nada. Ganhei tantos prémios sem ter pensado em nenhum deles! E aos meus escritores preferidos, Tolstoi ou Conrad, nunca o deram.

"Escrevo romances porque não sei escrever poesia". Mantém a afirmação?
Gostava de ter sido poeta, mas não tenho talento. Tentei fazer poesia, como todos os adolescentes, mas era tão má! Então tentei fazer à minha maneira.

O que se aprende quando se chega aos 70 anos?
Nunca pensei nisso. Mas posso dizer-lhe que me sinto velho. Os meus netos fazem-no sentir.

Tem medo da morte?
Ninguém está preparado para morrer, ninguém é capaz. Nem um velho centenário com sífilis. Quando era médico, com trinta anos, tive doentes que... sempre me surpreendeu o conceito de mortalidade das pessoas que tentavam suicidar-se.

Compreende o suicídio?
Sim, sim. Mas perguntar se já pensei nisso seria demasiado íntimo.

Conseguia resumir a história de amor mais bonita da sua vida?
Impossível. Sabe porquê? Porque confundimos amor com outras coisas: com gratidão, com acomodação, com a defesa contra a solidão. Nunca encontrei uma definição satisfatória do que é o amor entre um homem e uma mulher.

Dizem que é muito difícil traduzi-lo
Só falo cinco ou seis idiomas. Mas nunca li nada meu traduzido. Penso que toda a tradução é impossível: é como a fotocópia a preto e branco de um quadro, creio que muita coisa se perde pelo caminho...

Preocupa-o como passar para a posteridade?
Já cá não vou estar, portanto... Que diferença faz a Quevedo o modo como o vêem?

Ainda escreve no escritório que lhe deixaram umas freiras?
Agora escrevo em casa. Já não há netos. Estou só comigo mesmo.

E convivem em paz?
Divertimo-nos


citado do artigo on-line
21.02.2012
[tradução do castelhano por José Alexandre Ramos]

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