26/04/2008

Ente Lectual: Memória de Elefante - as personagens e a pessoa


Mais do que a persistência tenaz e manietante das imagens (o miúdo do circo que rasga listas telefónicas, os pianos que alguém carrega), muito mais do que isso, uma galeria sem fim de personagens reais, positivamente reais, em último recurso porque as ponho em letras.

Uma funcionária a quem, para os devidos efeitos, trataremos por Emily Brontë; o amigo que - tal como eu, médico, meia-idade, recém divorciado, eterno retornado da África onde deixámos os dentes e os tomates a troco de pensões risíveis ou invisíveis - um Sandokan, um verdadeiro Sandokan, mas sem sabre ou tigrezinhos ou Mompracem, nos quais um refúgio, uma garantia que seja; a espera por ti, como um cego espera que lhe enviem olhos pelo correio, escreve Molero; a divisão do sexo frágil em 5 categorias, 5 marcas de cigarros.

Uma mãe que garante, peremptória, a gente não damos conta do recado, sôtor; os agentes de propaganda médica, como cães, ou antes primos afastados dos vendedores de automóveis, de comum verborreia e indumentária; o velho treinador de hóquei que, enternecido, recorda as diatribes do velho pai do velho protagonista, 'fractura craniana', relembra em saudosismo e comoção indiscutíveis; o médico empenhado em investigar meticulosa e responsavelmente os tampos inferiores das secretárias do serviço, onde, dizem-lhe fontes seguras, o KGB por negras e desconhecidas artes conseguiu colocar microfones; Sr. Joaquim, prestimoso e fiel servidor do tiranete que carrega já com dez anos de pó e esquecimento, que jura a mãos juntas, que o sô professor ainda vive, que tudo um isco para a oposição, o nosso professor Oliveira ainda vive, fez-me seu ministro das finanças ontem, bem vê, aqui que ninguém nos ouve, ele come-lhes as papas na cabeça.

Dóri, a adiposa e necessitada sexagenária que fala nas 36 primaveras de cada membro, enquanto afasta os problemas existenciais em casinos, álcool e voluntariosos indivíduos do sexo oposto, qual gesto de mão que empurra debilmente o fumo não desejado de um cigarro próximo e apenas o impele num novo jogo de carambolas e movimentos insinuantes que não findam nunca. Não finda nunca o movimento (perpétuo?) do torvelinho de ressaca, escrevia Brandão, este ponto e esse contraponto dado por um protagonista a que poderemos, sem erro, dar o nome do autor, na senda de um equilíbrio tão desejado como falhado, na fuga precipitada e sem sistema da racionalidade convencional, em paralelo (em coincidência?) com um jogo pessoano entre os binómios sentir/pensar e, sobremaneira, a sinceridade e o fingimento.

Esta personagem, este autor, meia idade, a entrar na curva descendente da vida que, até então, lhe levara uma educação aburguesada no centro da capital, por entre salas de estar de tias e fotografias de coronéis de bigode e porte esbatido e amarelecido, ou a inconstância das relações familiares, nas quais convergem vontades e sentidos extremados que não levam vazão, e que perduram para lá da idade adulta; uma vida que lhe trouxe também, eficiente e amável, o sabor acre de uma guerra que nunca entendeu, de um divórcio com a mulher que ainda ama, seguida da separação das filhas. Uma continuidade angustiante de dias que se somam, firmada em hábitos questionáveis, apoiada na derisão e na ironia em que se afunda, pelo terror compreensível de se confessar frágil, e relançada indefinidamente pela perseguição em ponto morto do desejo antigo de escrever, acompanhado pelo também ele antigo medo (‘Mas se começar a escrever de facto e parir merda que me resta?’). Em suma, um homem numa crise existencial – se bem que recuse, sem dúvida, a designação – movida contra tudo aquilo que de firme, material, positivo, exista.

E, no início e no fim de tudo isto, a presença da memória como escape, como lenitivo, ao contrário de Pessoa que se refugia num passado ficcionado, o protagonista refugia-se na certeza tranquilizante de que, qualquer passado é, em si próprio, uma ficção: uma verdade erguida acima das demais, sem que precise (por isso mesmo?) de sistemas e prateleiras a sustentá-la e onde toda a parafernália de truques, de mecanismos de que se muniu o organismo para sobreviver são destituídos de funcionalidade – onde a própria fingida ferocidade da ironia ou do sarcasmo cedem lugar ao sentimento simples que lhes dá origem. No início e no fim de tudo isto: a memória que terminava em garantir-lhe, contrariando o peso oficial da tabuada, quem sabe se no sótão do sótão, ou na cave da cave, a afirmar que 2 e 2 não são 4.


por Ente Lectual
26.02.2008

25/04/2008

José Alexandre Ramos: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes: Antes e depois

O décimo primeiro título da obra de António Lobo Antunes é, antes de tudo, agora que vão mais de uma vintena de livros escritos, uma ponte que liga a obra anterior à mais actual. Pode muito bem servir como ponto de partida para o leitor iniciante neste autor: prepara-o para prosseguir cronologicamente a fim de se inteirar da evolução do estilo da escrita até aos dias de hoje, ao mesmo tempo que lhe inspira curiosidade para ler a obra anterior, de mais fácil leitura mas nem por isso menos densa e rica. Para os leitores menos acostumados a um discurso analéptico onde muitas vezes se perde o fio condutor – porque a António Lobo Antunes não lhe interessa contar uma história mas expor o ser humano que somos –, onde uma única voz interpreta a voz de todas personagens, e resumindo: para o leitor que não está habituado a outro tipo de escrita diferente da do romance comum, com personagens, actos, cenários, espaços e tempos claramente definidos, iniciar-se na leitura de Lobo Antunes deverá ser gradual, começando do princípio, para que se habitue a incarnar os livros um a um para poder digerir os mais ricos e complexos sem grande dificuldade, principalmente a partir de Que Farei Quando Tudo Arde?. Essa iniciação pode ser feita com O Manual dos Inquisidores, cujo tema do antes e pós 25 de Abril, recorrente mais ou menos na maioria dos livros publicados até 2000, entusiasmará o leitor curioso para saber de nós portugueses durante todo esse período e para além dele.

Porém, desengane-se quem poderá pensar que se trata apenas de um romance de carácter político ou social, e desengane-se também quem procura aqui indícios de um romance histórico. O Manual dos Inquisidores, na continuidade dos anteriores, retrata personagens que nos são próximas, não tanto pelo que viveram na transição do regime político, mas pela sua condição humana: a vaidade, o poder, a frustração, a resignação, a fraqueza, a desilusão, a sua soberania e o desamparo, a ascensão e a degradação. Ingredientes que misturados num caldo de factores psicológicos e morais nos dá a matéria de que somos feitos, nós os portugueses: com muita facilidade nos podemos ver retratados, nos reconhecemos nas personagens que vão surgindo gradualmente, como que se apresentando umas às outras. Um jogo de espelhos, de que muito fala o autor nas suas entrevistas.

Se quiséssemos resumir o livro à história que tem por trás como argumento, diríamos que é um livro sobre um influente ministro do antigo regime, traído pela sua mulher e que após algum tempo se resigna, abusando do seu poder, tendo casos com as empregadas da sua quinta em Palmela, quinta onde recebia Salazar para orientações de como governar o país e que acaba num lar de idosos, na sua fase de decadência, depois de se ter isolado durante o período da revolução na sua quinta lutando contra a ameaça comunista, colocando todos os seus empregados na rua. Tem dois filhos: João, fruto do seu casamento, que cresce desamparado e medíocre, e Paula, nascida da aventura com a cozinheira e que é dada aos cuidados de uma viúva. Mas é tão pouco para dizer do que este livro trata, porque cada personagem, isto é, cada voz que vem falar, traz consigo outras histórias paralelas, uma vez que abordam, em constantes analepses, vivências passadas e presentes, entrelaçando-se com o que disse a personagem anterior e o que dirá a personagem que a seguir vem falar. As vozes mais presentes, no entanto, são do ministro Francisco, da sua Governanta Titina, do filho João e da filha Paula, e também da sua amante Milá. Todas estas personagens trazem consigo outras vozes que enriquecem não uma trama mas a vivência humana e o estado psicológico destas pessoas que atravessaram um momento conturbado da nossa história recente. Nota a salientar é que estas vozes, estas vivências e finalmente estas pessoas pretendem ser a voz de uma facção da sociedade desse momento histórico. Como disse o autor, o livro “é visto sempre pelas pessoas que estão todas de um lado só”, ou seja o “retrato daquilo que se chama direita visto pela própria direita” não havendo qualquer “personagem revolucionária”, mesmo incluindo as personagens que são mais pobres, os subordinados do ministro, a viúva que toma conta da filha bastarda, a mãe da amante, etc.

O humor, não sendo uma característica exclusiva deste livro uma vez que está presente em praticamente toda a obra de Lobo Antunes, faz com que O Manual dos Inquisidorestenha uma faceta alegre, algumas vezes assumindo a caricatura para desanuviar possíveis tensões na narrativa. Não há vilões e heróis: comovemo-nos com a ternura do ministro carente do amor da sua mulher, vivemos a angústia do filho na sua solidão, do seu grito mudo, da sua frustração por ser manipulado, sorrimos com a ambição medíocre da filha depois de tomar consciência de quem é o pai, condoemo-nos do amor silencioso da governanta pelo seu patrão, rimos das atitudes mesquinhas das personagens face às circunstâncias. São todas estas personagens pessoas, de osso carne sangue e nervos, capazes de ternura e atrocidade, de amor e violência, de piedade e indiferença para com os outros.

É um livro rico em fabulações, imagens e metáforas de toda a ordem que faz a delícia do leitor que só tem a ganhar com a sua leitura. Porque aprende. Definitivamente aprendemos a conhecermo-nos ao lermos António Lobo Antunes. Somos nós que lá estamos, antes e depois deste livro.



José Alexandre Ramos
25.04.2008

Reportagens sobre a entrega do Prémio Camões 2007



23/04/2008

Gregório Dantas: Todos ao caldeirão

edição Alfaguara - Brasil

Conhecimento do inferno, de António Lobo Antunes, em tom mordaz e de zombaria, não poupa ninguém numa viagem pelo horror da existência

[...] Memória de elefanteOs cus de Judas e Conhecimento do inferno foram lançados em um prazo muito curto, entre 1979 e 1980. Enredos e temas se assemelham: nos três romances, a ação transcorre em curto período de tempo (cerca de um dia) enquanto o protagonista, um médico psiquiatra que tem muito de Lobo Antunes, às vezes até o nome, rememora sua vida. O texto é essencialmente um longo monólogo interior, em que se entrelaçam memórias da infância, da família, do hospital psiquiátrico, da guerra colonial em Angola.

[(no Brasil)Conhecimento do inferno não parece estar entre os títulos mais festejados do autor. Talvez exatamente por ser o fecho de uma assim chamada trilogia, carregue certa impressão de cansaço da forma ou do tema adotados. Essa impressão é falsa: trata-se de um grande romance. Além disso, a leitura em conjunto dos três livros promove uma rica visão de como obsessões formais e temáticas de um grande autor podem adquirir novos contornos, em um rico jogo de auto-referência e reavaliação literária. Jogo que, no limite, persiste em seus livros até hoje.

Muitas vezes, um bom romance começa na epígrafe. A de Conhecimento do inferno é a transcrição do trecho de uma resenha publicada no The Quarterly Review, em 1860, sobre um romance de George Eliot. O resenhista, conservador e rigoroso, condena o tipo de ficção que se ocupa de vícios, crimes imaginários, fantasias e perplexidades, assuntos que podem invadir e corromper as mentes dos leitores, "com o conhecimento desnecessário do inferno". Em certa medida, (re)conhecer o inferno é precisamente ao que se propõe a literatura de António Lobo Antunes.

O enredo gira em torno de uma viagem de carro que o narrador empreende pelo sul de Portugal, do Algarve em direção a Lisboa. Cada localidade que atravessa corresponde aproximadamente a um capítulo do livro, até a chegada na casa dos pais, na madrugada do mesmo dia. A ação dura, portanto, parte de uma tarde e de uma noite. Como nos romances anteriores, a memória pode ser deflagrada voluntária ou involuntariamente, por imagens ou palavras que remetam, mesmo que de maneira tortuosa, a eventos da infância do narrador, da guerra colonial, da família. A rememoração, porém, nunca é linear e é sempre carregada de um alto grau de estranheza. Colabora, para esse estranhamento, o requinte dos detalhes e de certas metáforas incomuns que fazem de objetos cotidianos imagens aterradoras, provocando a transfiguração quase surreal do cenário e dos personagens.

Logo no início do romance, por exemplo, chama atenção a artificialidade caricatural da paisagem. Na região de veraneio, tudo é falso, e apenas os turistas estrangeiros parecem não se dar por isso: "O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem". Sob o "sol de papel", os turistas compram "colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo", e consomem "bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas da televisão". O narrador, rancoroso, não poupa a vulgaridade das classes média e alta, ao atravessar os lugares "onde pessoas de plástico passavam férias de plástico no aborrecimento de plástico dos ricos, sob árvores semelhantes a grinaldas de papel de seda".

Torna-se evidente o contraste destas imagens kitsch com as impactantes memórias do narrador. Em Conhecimento do inferno, prevalecem as lembranças de sua passagem pela guerra colonial em Angola e da experiência no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, onde ingressou em 73, "para iniciar a longa travessia do inferno".

Sem noite
Um episódio em particular merece especial atenção. Na África, um nativo ensina ao narrador que em Lisboa não há noite, e que o dia europeu se divide em dois: o do sol e o dos candeeiros. Já Angola, diz o narrador, "é um país de leprosos e de treva, um país de vultos inquietos, de rumorosos fantasmas (...) É o país onde os defuntos assistem sentados aos batuques, frenéticos da presença invisível dos deuses". No país da guerra, os homens são "animais de sombra", e a natureza assume contornos de um pesadelo sombrio. Em Portugal, contudo, o narrador reencontra as sombras e o pesadelo nos recônditos do hospital, onde a noite se esconde. Nas esquinas dos corredores, na prática médica ou nos efeitos dos remédios encontram-se "absolutas trevas, de um negro tão completo como os das noites dos cegos, cujas órbitas se assemelham a pássaros defuntos estendidos nas gaiolas das pestanas".

Mas o tom grave e de pesadelo dessas imagens ganha ares cômicos em diversas passagens. Em relação aos livros anteriores, em Conhecimento do inferno é mais evidente o tom de zombaria, de uma mordacidade que não dispensa imagens fortes e não poupa ninguém, principalmente a classe médica. O conhecimento dos médicos é reduzido a "palavrões imbecis" ou um "Reader's Digest pretensioso" e sua atividade é comparada à da Inquisição. Pessoalmente, seus colegas são verdadeiras caricaturas sinistras: uma médica possui feições de égua, uma "psicóloga feia" esconde "múltiplos membros aracnídeos de unhas roídas", além daquele médico com uma "barba Colóquio Letras & Artes" (em referência à prestigiada revista acadêmica portuguesa), "que possuía a compostura dos estúpidos, essa espécie de comedimento imbecil que faz às vezes do bom senso".

A prática psiquiátrica é ridicularizada a ponto do próprio médico ser confundido com um paciente, sem que haja qualquer indício de que o equívoco será corrigido. São demolidas definitivamente as fronteiras entre sãos e doentes: depois de assistirmos aos vôos dos pacientes, o próprio narrador perde os pés do chão.

Os meus próprios ossos adquiriam uma textura de espuma, a carne ornava-se fibrosa e leve como a madeira dos barcos. (...) Uma bolha de gás escapou-se-me do ânus. Deixei de sentir o chão nos sapatos. O corpo inclinou-se a pouco e pouco até se tornar horizontal, e desatei a remar na luz, piando desesperadamente na direcção dos outros.
Acho que nunca tinha voado.

Mas a principal fronteira a ser derrubada é outra: o recorrente paralelismo entre as memórias de guerra e as do hospital confere a ambas um caráter cada vez mais insólito. A prática canibal sugerida em um momento extremo no interior da África é transposta para uma reunião elegante entre os médicos, e estes compartilham com os soldados a prática da tortura e o exercício do poder pelo medo.

Entre os procedimentos mais comuns usados por Lobo Antunes para tornar quase indissociáveis as memórias de guerra e as do hospital consiste na repetição constante de uma frase ou uma expressão que ecoa entre os dois mundos. À certa altura, o narrador afirma, peremptório: "Nunca saí do hospital". Afirmação instigante, que sugere de imediato que a experiência do inferno hospitalar jamais o abandonou. Inferno cujo conhecimento o autor promove através dessa literatura forte, violenta, que não admite concessões.

Descrito assim, o romance perde muito. E essa trilogia "autobiográfica" de Lobo Antunes pede inevitavelmente uma releitura: haverá sempre imagens ou associações de palavras que, perdidas das sombras do texto, passaram despercebidas, mesmo ao leitor mais atento. Que a ficção de António Lobo Antunes mudou muito desde então, somos forçados a concordar. Mas seus livros iniciais são muito mais do que mero rascunho para as obras mais maduras. Como poucas narrativas contemporâneas, esses livros elaboram uma sofisticada rede de imagens e sentidos dos quais não é permitido se expor impunemente. [...]


Gregório Dantas
não datado

17/04/2008

Do leitor Rodrigo Simeão Versos

Dr. Lobo Antunes.

Acabo de ler uma crónica sua, na Visão, e de facto V. Exa. é um dos poucos escritores nacionais - vivos - que se conseguem ler sem se ficar com a sensação de que, quem escreveu o que se lê, não pensou minimamente no que escreveu, escreveu aquilo que escreveu como podia ter escrito qualquer outra coisa, no fundo são aqueles que “não desconfiam sempre no caso das palavras” lhes chegarem depressa de mais.

Um dia destes ouvi uma tal Dr.ª Rita Ferro, teoricamente escritora, dizer que os seus livros são absolutamente ininteligíveis, - anda-se de um lado para o outro para os perceber; pois eu digo-lhe que é esse dita ininteligibilidade que torna os seus livros absolutamente fascinantes, bons de ler e reler, de parar de ler para pensar o que se leu, pensar no que se leu e retomar a leitura, em suma de os ler. A leitura dos livros ditos inteligíveis – não sei se é o caso dos livros de tal Sr.ª Dr.ª, pois nunca os li – deve ser uma actividade maçadora, desmotivante, e boa para quem quer bater recordes de leitura do tipo x livros por mês, ou para quem quer substituir programas de televisão idiotas por livros igualmente idiotas, sem ideias e rápidos de ler que é para o os “miolos” não torrarem nas primeiras páginas.

Permita-me que lhe diga, na senda da sua cónica: “Aguente-se” e escreva, pois terá sempre quem leia com gosto.

Com os meus cumprimentos,

Rodrigo Simeão Versos


Rodrigo Simeão Versos
e-mail de 17.04.2008

15/04/2008

LN: opinião sobre O Manual dos Inquisidores


Foi o primeiro livro do António Lobo Antunes que li, e achei o universo do escritor fascinante.

O que me pareceu mais marcante, o que melhor caracteriza a escrita do autor, são as suas descrições muito violentas dos factos e das situações, descrições cruéis que incomodam o leitor, e que nos levam a interrogarmo-nos e a tentar entender estes personagens.

O Livro é composto por uma sequência de relatos e testemunhos dos diferentes personagens que intervêm na "história" principal que gira em torno da vida do Ministro de Salazar (Francisco) e de todos os personagens que passam pela vida da família, a mulher (Isabel), o filho(João), a governanta, a cozinheira, a filha , o caseiro, o motorista. Estes diferentes relatos dos acontecimentos vistos por a cada um dos personagens, torna a visão dos acontecimentos pelo leitor múltipla e revela muito sobre as características de cada personagem. Este permanente confronto de visões diferenciadas dadas pelos personagens permite uma visão geral dos acontecimentos e da situação social e politica que é o cenário que atravessa todo o livro.

A história passa-se ao longo de todo o período de ditadura com descrições impressionantes da violência da Policia Politica (PIDE), e da morte do general Humberto Delgado. Mas também do período pós revolução de abril com as mudanças e consequências que tiveram na vida das personagens.

Outra das grandes características do Lobo Antunes é o seu fantástico sentido de humor, e que percorre todo o livro utilizando uma grande ironia, fazendo caricaturas das personagens. É uma grande visão da sociedade portuguesa, uma imagem muito profunda da segunda metade do século vinte português. Penso que o que a obra de ALA representa hoje, será muito semelhante ao que representa a obra de Eça de Queiroz para o final do século XIX, é um grande observador da realidade, um grande cronista de costumes, e que sintetiza muito bem em algumas personagens certos "tipos" sociais marcantes do nosso tempo.
15.04.2008

Do leitor Luís Correia

Não li muito de António Lobo Antunes, o suficiente para afirmar: o principal objectivo dele é entender-se a si próprio, ler-se, perceber-se, ver-se, analisar-se, comparar-se, olhar para dentro de si, de todos os lados, em todas as perspectivas possíveis, consoante o seu sentimento de cada momento. Na descoberta de si. O porquê de sentir isto e não aquilo agora e não amanhã. Sinto o seu mundo interior como a única verdade importante e necessária na vida. Ele sofre imenso com essa forma de estar a vida. Mas e essa mesma dor o motivo, ao mesmo tempo, da sua maior alegria porque sente que chega lá. À verdade dele. (Só dele ou de todos nós?). Sou leigo na matéria, felizmente, o que me obriga a senti-lo e a vê-lo só comigo próprio, com aquilo que sou, penso e sinto. António Lobo Antunes é um mundo, o meu mundo.

Luís Correia


Luís Correia
e-mail de 15.04.2008

10/04/2008

Evelyn Blaut Fernandes: Por um inferno histórico


Resumo: Por um inferno histórico trata do romance Conhecimento do Inferno (1980), do escritor português António Lobo Antunes. O livro encerra a primeira trilogia do autor e privilegia as temáticas da Guerra Colonial em África (1961-1975) e do hospital psiquiátrico em Lisboa como topos do locus horrendus clássico. A partir de uma possível comparação entre a Guerra e a Psiquiatria como experiências atrozes, pretende-se estudar o hospital psiquiátrico, na narrativa, como metáfora do inferno e metonímia do país. Palavras-chave: Romance Português Contemporâneo; Inferno; História.
 

Estamos debaixo da terra, sabe? Isto aqui é o
purgatório dos vivos, cheio de gente a arder.

(António Lobo Antunes. Conhecimento do Inferno).
 

O que fazer quando se está diante de um autor que não privilegia o espaço da casa – ideia tão cara aos portugueses – como um simulacro do seu texto, mas elege um hospício para simbolizar o seu país? É o que faz António Lobo Antunes, no seu Conhecimento do Inferno, romance que aborda, de uma forma geral, o Portugal pós-colonial como espaço, a viagem e a linguagem como conhecimento e o inferno como metáfora.

Fialho de Almeida, escritor do Decadentismo português, médico por formação e escritor por vocação, acabou como crítico por exercer o papel do médico que traça o diagnóstico das doenças, não dos indivíduos, mas da sociedade portuguesa finissecular. Habituado desde a adolescência aos preparos farmacêuticos, Fialho trazia seu conhecimento de medicina para aplicar, pelas letras, no corpo doente do país. A sua formação médica contribuiu para que o escritor oitocentista visse os indivíduos, sobretudo, como casos clínicos e o mundo como um grande hospital.

Do mesmo modo, Lobo Antunes, que também fez da medicina a sua formação profissional, privilegia, neste romance, o espaço de um hospício e, neste sentido, talvez, a crítica seja mais grave, mas indubitavelmente lúcida e pertinente, já que não se está mais a perceber, pela crítica do escritor, um país de doentes, mas de doentes mentais: uma “nação decrépita e louca” , pelas palavras de Oliveira Martins, historiador do século XIX.

António Lobo Antunes, que esteve em Angola entre 1971 e 1973, como clínico de um batalhão operacional, regressando de África, especializou-se em Psiquiatria e exerceu funções no Hospital Miguel Bombarda. O próprio escritor, ou melhor, o narrador-personagem de Conhecimento do Inferno , também psiquiatra, justifica a sua escolha por essa especialidade médica:

ao observar a sua estranha naturalidade e a estupefacção entre o riso e o alarme dos outros, decidira ser psiquiatra para entender melhor (..) a esquisita forma de viver dos adultos (...) resolveu ser psiquiatra a fim de morar entre homens distorcidos como os que nos visitam nos sonhos e compreender as suas falas lunares e os comovidos ou rancorosos aquários dos seus cérebros, em que andam, moribundos, os peixes do pavor(CI, p. 17-18).

A presença da medicina, neste romance de Lobo Antunes, parece ser, para além de um dado autobiográfico, uma forma de contestação pela constatação. Sendo escritor, ele é, sobretudo, um observador das relações humanas e, por isso, o Conhecimento do Infernoaponta, de algum modo, para a necessidade de reconstituição de uma pátria falida. Porque o escritor do século XX não se esquece da existência de uma imagética organicista da nação doente, apodrecida e espectral, abordada, principalmente, no século XIX português, e, portanto, descreve a nação não só como um corpo doente, mas, de certa forma na esteira de Antero de Quental, como um espírito bloqueado.

É assim que o escritor português constrói, do seu modo, uma representação para um inferno histórico. António Lobo Antunes, em 1980, a partir da sua experiência vivida em campos de batalha em África e no Hospital Miguel Bombarda em Lisboa, traça o contorno de um inferno relacionado ao topos do locus horrendus clássico, ao trazer para as suas páginas o frio e a sujeira, o sofrimento e a desolação.

Conhecimento do Inferno é o nome do livro que encerra a primeira trilogia de António Lobo Antunes, cuja proposta central talvez seja a da reflexão sobre o poder e o seu exercício fascista. De índole autobiográfica, os três primeiros romances compõem uma espécie de “trilogia da memória”, memória que perpassa dois lugares fulcrais da existência do narrador-personagem. Angola e Lisboa são, pois, espaços que suscitam os dois planos da memória do narrador-personagem – o da guerra e o do hospital, respectivamente. Assim, os três primeiros livros de António Lobo Antunes – Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1979) e Conhecimento do Inferno (1980) – ocupam-se das temáticas por ele experienciadas: a guerra colonial, o exercício da psiquiatria, os laços familiares, a perturbada e problemática relação do ser com o mundo após o regresso da guerra e, também, a questão da crise de identidade causada pela guerra colonial e pelas práticas do colonialismo.

O último romance desta trilogia dá conta da trajetória solitária de um médico psiquiatra que traz à tona, durante a sua viagem da Balaia, no Algarve à Praia das Maças, em Lisboa, pensamentos e lembranças que condensam sua atividade clínica num hospital psiquiátrico e a sua estadia em África, na época da guerra colonial portuguesa. Todo narrado como um monólogo interior, o protagonista do romance é, pois, um ex-combatente, aspirante a escritor e em ruptura com o seu casamento. O percurso, que dura parte da tarde e parte da noite de um único dia, empreendido por este personagem, sozinho, de carro, por Portugal, é uma viagem de retorno à casa dos pais: “Devia ir à Praia das Maçãs buscar os meus livros, a minha roupa, os meus papéis, e regressar no dia seguinte ao hospital e ao meu trabalho de carcereiro, monótono e inútil” (CI, p.262-263).

Condensando memórias e relatos referentes às experiências da guerra e do exercício da psiquiatria, em algum momento do romance, o narrador-personagem se dá conta de que o hospital psiquiátrico, como principal ponto de convergência das linhas de construção ficcional, funciona como microcosmo sombrio e negativo do país e assume a condição de lugar infernal, local de aprisionamento e “acumulação grotesca de corpos em ruína” (Oliveira, 2004:212). Esta experiência, segundo o narrador-personagem, supera em horror e desumanidade, a experiência da guerra em África:

E só em 1973, quando cheguei ao Hospital Miguel Bombarda para iniciar a longa travessia do inferno, verifiquei que a noite desaparece de facto da cidade, das praças, das ruas, dos jardins e dos cemitérios da cidade, para se refugiar nos ângulos das enfermarias, como os morcegos, nos globos do texto das enfermarias e nos velhos e esbeiçados armários de medicamentos, nos aparelhos de electrochoque, nos baldes de pensos nas caixas de seringas, até os internados regressarem em silêncio do refeitório e ocuparem as camas de ferro por pintar, o servente rodar o comutador da luz e ela desdobrar o feltro nojento das asas, o feltro nojento e pegajoso das asas sobre os homens deitados que a fitam de entre os lençóis numa irreprimível náusea. A noite que desaparece da cidade estava no rosto inclinado para o ombro do doente que se enforcou por detrás das garagens e cujas sapatilhas rotas oscilavam de leve à altura do meu queixo, estava nos óbitos que verificava nas horas de serviço, passando o diafragma gelado do estetoscópio por peitos imóveis como barcos finalmente ancorados, estava nas feições atónitas dos vivos encerrados nos muros e nas grades do asilo, na poeira dos pátios de Verão, nas fachadas das casas em volta. Em 1973, eu regressara da guerra e sabia de feridos, do latir de gemidos na picada, de explosões, de tiros, de minas, de ventres esquartejados pela explosão das armadilhas, sabia de prisioneiros e de bebés assassinados, sabia do sangue derramado e da saudade, mas fora-me poupado o conhecimento do inferno. (CI, p.27-28).

Considerado pela crítica como um dos livros mais atrozes de António Lobo Antunes, cujas cenas de carnificina constituem a paisagem da violência vivida na guerra e no hospital, oConhecimento do Inferno traz imagens insuportáveis. O que parece ser peculiarmente fascinante, em António Lobo Antunes , é que, no seu romance, todos, colonizadores e colonizados, médicos e pacientes invariavelmente sofrem, vivem (n)o inferno. Por isso, todo discurso sobre a violência é ambivalente, como explica Jacques Leenhardt, no Prefácio ao Violência e Literatura, de Ronaldo Lima Lins: “Daí que todo discurso sobre a violência é dela necessariamente uma representação e não uma descrição, mostrando-se, por essência, da ordem da ficção. É por essa via, enfim, que violência e literatura se acham tão intimamente ligadas” (1990:15).

É, portanto, possível afirmar que o Conhecimento do Inferno pode ser lido pelo viés da atrocidade , uma vez que o seu autor fez refletir na sua literatura a realidade insuportável da segunda metade do século XX português, concentrando-se nas temáticas da guerra colonial e da psiquiatria. Reconstruindo um universo de violência, este romance de Lobo Antunes constitui um espaço literário que abriga o horror e o sofrimento e aborda, de forma cáustica e humana, o que, para Ronaldo Lima Lins, consiste na grande temática do nosso tempo: a violência. Por tratar de temas que fazem parte da memória cultural de um país, mas questionando, também, conceitos que perpassam e interessam a toda a humanidade, como a violência, a destruição humana, a alteridade e a morte, oConhecimento do Inferno “reflete a vida e reflete sobre a vida” (Lins, 1990:31):

O século da bomba atómica é também, como não poderia deixar de ser, o século dos temas e das narrativas explosivas. É o século em que nos indignamos contra a opressão e endereçamos nosso pensamento no sentido de solucioná-la mesmo que para tanto tenhamos de enfrentar a dor. Que outra literatura esperar da nossa força criativa? (Lins, 1990:26).

Mas, unido ao viés da atrocidade, António Lobo Antunes constrói uma ficção de tratamento poético. Para um autor que entende os seus romances como possíveis “textos poemáticos” , o Conhecimento do Inferno pode ser lido, deste modo, como um romance de carga lírica e fisionomia saturnina. Segundo João Barrento, o “astro baço”, “este ‘estranho estado de alma' da poesia portuguesa em tempo de mal-estar, terá aberto o caminho a essa forte presença da melancolia como disposição e dispositivo poético” (1995:159). A escrita de Lobo Antunes dá conta, portanto, de um estado de alma e de um estado político melancólico e de temperamento sombrio. O seu romance nada mais é que a representação dessa linha de tristeza pessoal e coletiva que transforma, de maneira poética, a apoteose da decadência em espetáculo risível do sofrimento humano:

Há médicos, Joana, cruéis e trágicos como anões, como aleijados, como corcundas, como músicos soprando trombone de varas na cauda dos cortejos, entre anjos que choram e feios Cristos de pastas. Cruéis, trágicos e comedidos voam com as rémiges das batas brancas em torno do balão de soro do sol. Sempre que uma pessoa vai morrer agrupam-se, guiados por qualquer estranho instinto de insectos, à volta de um doente emagrecido e pálido, compulsando alegremente radiografias, análises, relatórios de biopsia, prontos a discutir aquilo que denominam eufemisticamente um caso bonito: cancros complicados, leucemias esquisitas, infecções incuráveis, farejando radiantes a iminência de um cadáver (CI, p. 213).

Mas o que possa mais nos interessar nesta narrativa de Lobo Antunes é, talvez, a sua proposta que vai na contramão de um pensamento filosófico a partir das relações de poder. Roberto Machado, no Prefácio ao Microfísica do Poder , de Michel Foucault, no que tange às relações entre saber e poder, assegura:

Não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, ‘máquina de curar', mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão do saber. Do mesmo modo que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. E, em contrapartida, todo saber assegura o exercício de um poder (1986: XXI-XXII).

Deste modo, se o hospital psiquiátrico é, segundo uma tradição filosófica que passa por Michel Foucault, lugar onde uma relação específica de poder mantém indivíduos enclausurados e detidos com uma tecnologia própria de controle, Lobo Antunes, atenciosamente humano, mostra uma outra forma de saber, ou antes, inverte as posições canônicas e bilaterais em que se encontram médicos e pacientes, poderosos e sem poder, saudáveis e ensandecidos. Como bem observa Ronaldo lima Lins, “impedir que o outro saiba significa impedir que o outro tenha acesso, algum dia, ao poder” (1990:171). Lobo Antunes, portanto, inverte tal situação hierárquica de um modo, a meu ver, particularmente, terno e poético:

Nas reuniões do hospital, de dia, assaltava-o a impressão esquisita de que eram os doentes quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras, iludir um pouco a sua triste condição de cadáveres que se ignoram, de mortos que se supõem vivos e cirandam lentamente pelos corredores na gravidade comedida dos espectros, não os espectros autênticos, os que às varandas das casas abandonadas espiam o movimento da rua ocultos pela renda das cortinas, mas espectros falsos, de suíças de estopa e narizes de cartão, espectros ridículos opados de sabedoria inútil (CI, p. 64).

A experiência colonial faz parte da História Portuguesa e da história pessoal de António Lobo Antunes. De importância determinante na obra deste autor, principalmente, dos seus três primeiros livros, a questão colonial aparece como o sofrimento daquele que não quer se destruir nem destruir o outro, o confronto com a morte, a separação da família e da pátria, o abandono irremissível a que são relegados os retornados da guerra colonial em África e o provável não-lugar ocupado pelos que dela regressam, já que o olhar sobre África define uma distância suficientemente estrangeira, enquanto a impressão que se tem quando da volta a Portugal, é a da dúvida com relação ao sentimento de pertença. Neste sentido, a obra de António Lobo Antunes pode ser considerada um espaço literário privilegiado para o estudo dessas relações humanas.

A guerra colonial em África durou quinze anos e foi mobilizada por um país economicamente desfasado, politicamente falido e industrialmente atrasado. Demasiado longa, violenta e sem vencedores, a guerra colonial portuguesa foi silenciada e ignorada tematicamente pelo resto do mundo, abafada pela Guerra do Vietname, mundialmente mais importante, já que lideravam esta batalha China e Vietname, de um lado, e Estados Unidos, de outro. A guerra colonial portuguesa foi uma guerra histórica e simbolizou o fim de cinco séculos de ocupação. Ficcionalizar uma guerra de opressão e nunca de pacificação não deve ser, portanto, uma fácil tarefa, porque terá que fazer da escrita um reflexo da experiência vivida. Nas narrativas de António Lobo Antunes, de um modo geral, a ficcionalização da guerra colonial revela uma nova visão de um país desejado e criticado. Se o distanciamento possibilita uma crítica ferrenha, só um imenso amor pela sua pátria pode permitir uma visão tão clara e intensa do seu país.

O retorno de África foi vivido pelos portugueses que estiveram na guerra de forma extremamente traumática, uma vez que o espaço metropolitano tornou-os cidadãos marginalizados e relegados ao sentimento de perda da pátria pela experiência colonial vivida em outra terra. Mas o que Lobo Antunes parece querer mostrar, e no Conhecimento do Inferno isto está, de algum modo, claro, é que se viver meses de guerra em África provoca uma sensação de não pertencimento da pátria, retornar a Portugal acaba sendo, pelas suas letras, uma experiência muito mais violenta.

No Conhecimento do Inferno, a experiência colonial surge como um dos espaços revisitados pela memória do narrador-protagonista. Pode-se dizer que este romance condensa, sobretudo, três temas que, de algum modo, se cruzam com a vivência do seu autor. São eles: a guerra de África, o hospital psiquiátrico como “universo concentracionário” e “exemplo de uma realidade esquizofrénica” e, ainda, a incapacidade de amar. Este texto pode ser um exemplo emblemático da problemática da literatura pós-colonial, mas o que mais pode nos interessar, nesta narrativa, talvez seja uma outra guerra, mais brutal, mais sofrida, constantemente comparada, pelo narrador, aos campos de concentração nazista. E viver o inferno do hospital leva o protagonista a voltar-se para Angola com olhar reminiscente:

tenho quase saudades da guerra porque na guerra, ao menos, as coisas são simples: trata-se de tentar não morrer, de tentar durar, e achamo-nos de tal modo ocupados por essa enorme, desesperante, trágica tarefa, que nos não sobra tempo para perversidades e pulhices (CI, p.96-97).

Em Conhecimento do Inferno, cruas cenas de carnificina se cruzam com a loucura dos que adoeceram, com a loucura dos médicos que, assim como os pides na guerra, não passam de carrascos, “carrascos de cadáveres, carrascos destes cadáveres inertes e moles, destes cadáveres calados, abstractos, indefesos, imóveis nos quartos na leveza das estátuas” (CI, p. 102).

O hospital é-nos apresentado, bem como o espaço da guerra, como lugar onde o poder é concebido como violência legalizada. “O poder”, ensina Roberto Machado (1986:XV), “é luta, afrontamento, relação de força, situação estratégica. (...) Ele se exerce, se disputa. E não é uma relação unívoca, unilateral; nessa disputa ou se ganha ou se perde”. E, no caso português, irremediavelmente, seja no hospício, seja na guerra sofrida em outro território, não há ganho, ninguém vence. Definitivamente, este não é um livro que elege vencedores e perdedores. Todos, ao contrário, estão humanamente desgraçados e sofrem com a realidade vivenciada.

Conduzido a viver uma experiência de alteridade, o jovem combatente é enviado a África, e foi isso o que aconteceu a António Lobo Antunes e ao narrador-protagonista doConhecimento do Inferno. Lutando, no final de contas, contra si mesmo, contra a sua ideia de independência das colônias, o combatente é enviado a África para guerrear ou cuidar de feridos, alienado do absurdo, de no final do século XX, alguns países africanos ainda serem mantidos como colônias, e de outro absurdo igualmente bizarro, de que Portugal, conseguindo ainda colonizar outras nações, era também ele colonizado, dada a situação político-econômica precária do país, por potências estrangeiras ocidentais.

Deste modo, o jovem combatente parte para África, politicamente alienado, e só depois do regresso à pátria, é que passará por um processo de “sensibilidade pós-colonial” (Seixo, 2002:85), relatando, numa espécie de confessionário interno, as suas atitudes desumanas, tanto na guerra, como no hospital.

Não tinha coragem de me mandar à merda para não me mandar à merda, de mandar à merda a medicina, a psicanálise, os tranquilizantes, os antidepressivos, a psicoterapia, o psicodrama, a puta que os pariu. Recebia o cheque pontualmente todos os meses e fingia acreditar no meu trabalho. Fingia acreditar na insulina, nas curas de sono, na terapêutica ocupacional, fingia acreditar nos psiquiatras e instalava-me atrás da secretária no edifício da Caixa do Montijo, perto da escola e das amoreiras antigas do largo, a fim de receitar pílulas que ajudassem os chacineiros, as operárias da cortiça, os camponeses que aravam em vão o nevoeiro e a humidade, imersos no odor putrefacto, enjoativo, do rio, a durarem sem sonhos até à madrugada seguinte, pálida e gelada como o olhar de vidro cego dos defuntos (CI, p. 168-169).

Com teor autopunitivo, uma espécie de auto-culpabilização, o narrador-personagem arrepende-se, a posteriori , pelas atrocidades cometidas por ele na guerra e no hospital psiquiátrico. Daí porque o narrador-personagem de Conhecimento do Inferno será confundido com um internado, sendo, portanto, igualmente humilhado e torturado pelos médicos. Talvez não seja gratuito que ele tenha sido confundido com um doente no mesmo capítulo em que recorda dos abusos que ele mesmo havia cometido, na guerra e no hospital psiquiátrico. E isto não pode ser lido de outro modo que não seja uma forma de auto-crítica:

De forma que quando o enfermeiro se aproximou de mim de seringa armada e me ordenou
- Ora baixa lá as calcinhas ó artista
desfiz o laço de nastro do pijama e ofereci as nádegas à agulha como se tentasse pagar um pecado inexpiável
 (CI, p. 170).

António Lobo Antunes introduz, neste romance, a imagística do inferno, correlacionando-a com a doença, o sofrimento dos doentes e a indiferença dos médicos, a crueldade e a solidão, sempre relacionada com a guerra colonial, mas, sobretudo, com a experiência do manicómio, que, pior que a guerra, pode ser entendida como o microcosmo de um país doente.

Uma tradição oitocentista, que passa por Oliveira Martins, descreve a nação portuguesa como aquela composta por uma “rainha doida”, por “altas classes ensandecidas”, por um “povo faminto, indiferente e sebastianista”, uma pátria que “nem já era o esqueleto: era apenas o pó de um cadáver” (Martins, 1977:516). Como afirma Ronaldo Lima Lins, “a partir do século XIX, a grande viagem realizada pela criação literária em seu conjunto indicará, ao mesmo tempo, uma descida ao inferno, um inferno que arderá fora e dentro de nós” (Lins, 1990:211).

Conhecimento do Inferno apresenta, pois, uma importante lateralidade: se a história da Literatura Portuguesa ergueu, com mestria, a imagem de Portugal como um país de viajantes, Lobo Antunes, seguindo uma linhagem, especialmente do decadentismo português, reafirma a imagem de um país de doentes, o que não deixa de ser uma forma de inserir no seu texto ficcional algum discurso histórico.

Se a linhagem existencialista de Sartre e o pensamento psicanalítico de Freud consideram ser o outro o inferno, Lobo Antunes acaba por lançar, em ficção, a teoria de que, talvez, a relação mais difícil de ser mantida pelo ser humano é consigo mesmo, reconhecendo que “o pior caos se esconde no interior da alma” (Lins, 1990:204). É como se o Conhecimento do Inferno anunciasse que o inferno não são os outros, somos “nós”: “nós” portugueses, numa dimensão nacional, e nós humanos, numa dimensão ontológica. Neste sentido, Lobo Antunes apresenta, na sua narrativa, um inferno historicamente datado vivido pelo Portugal dos anos 60 e 70 que foi a guerra colonial em África, mas também acaba por afirmar que, sendo o hospital em Lisboa o núcleo central do romance, a pior relação que pode haver, não é a do eu com o outro (no caso, portugueses e africanos, colonizadores e colonizados, médicos e pacientes), mas do homem consigo mesmo e, neste sentido, não é privilégio dos portugueses estar detido ou ser detentor de um inferno, já que cada ser humano abriga em si o seu inferno: “o inferno, afinal, não se situava no além. Estava nas ruas, em casa, nas pessoas, em toda parte” (Lins, 1990:210):

talvez que a guerra continue, de uma outra forma, dentro de nós, talvez que eu prossiga unicamente ocupado com a enorme, desesperante, trágica tarefa de durar, de durar sem protestos, sem revolta, de durar a medo como os doentes da 5ª enfermaria do Hospital Miguel Bombarda, fitando os psiquiatras num estranho misto de esperança e terror (CI, p.97).

Lobo Antunes fala, em seu livro, de homens doentes que representam, metonimicamente, uma nação e um mundo doentes. Contudo, não se trata de qualquer doença, já que o fio condutor do romance está atado a um espaço sintomático que é o hospício. Deste modo, o romance de Lobo Antunes está a tratar de “homens distorcidos” (CI, 1983:17), e, por extensão, de uma nação doida. Procurando responder a pergunta “O que é Psiquiatria”, o professor e ensaísta Emmanuel Carneiro Leão acaba por encontrar possíveis caminhos e algumas definições:

umas são demasiado idealistas: reduzem candidamente o esforço da Psiquiatria apenas à busca desinteressada da saúde bio-psico-social dos homens. Então a Psiquiatria é a brancura e limpidez do jaleco dos psiquiatras. Outras são demasiado materialistas: a Psiquiatria não passa de um extraordinário instrumento de dominação a serviço das diversas instâncias de poder. O hospital psiquiátrico é o cárcere de todos os marginais que a repressão dos sistemas ideológicos já não consegue manter marginalizados (2002:76).

A pátria não está doente nem precisa de cura psiquiátrica. Parece que é isto que nos diz o narrador de Conhecimento do Inferno , até porque, para ele, o inferno “são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança” (CI, p.65). E é com um humor ácido, que o narrador faz críticas à Psiquiatria, à Psicanálise, à Psicologia, enfim, aos meios de investigação e de pretensão de cura dos processos mentais humanos.

Sorria da nossa ingenuidade, da nossa inexperiência: há maneiras de se fazer as coisas sem se deixar marcas. Um electrochoque, por exemplo, não deixa marcas. Um coma de insulina não deixa marcas. Dez anos de psicanálise não deixam marcas: são formas educadas de matar as pessoas, formas decentes aceitáveis. Nem uma cicatriz e os cadáveres continuam a falar, a trabalhar, a produzir filhos, definitivamente assassinados mas completamente bons (CI, p. 221-222).

ria dos psicanalistas detentores da verdade a jogarem xadrez na cabeça das pessoas com o seio da mãe e o pénis do pai, e o seio do pai e o pénis da mãe, e o seio do pénis e a mãe do pai, e o peio do seis e o pãe do mai, ria (...) dos que se juntam em círculo para dissertar sobre a angústia e cujas mãos tremem como folhas de olaia, brandidas pela zanga do vento. Ria-me de pensar que éramos os modernos, os sofisticados polícias de agora, e também um pouco os padres, os confessores, o Santo Ofício de agora (...) (CI, p. 131-132).

António Lobo Antunes, com a sua peculiar acidez lírica, inscreve, no Conhecimento do Inferno , o espaço de um hospício que pode ser a metonímia de um país doente e a metáfora de um inferno histórico, numa manifestação estética que privilegia a própria escrita como espaço possível de concentração grotesca e lírica da humanidade. Neste texto ficcional estão inscritas, sobretudo, a “dolorosa aprendizagem da agonia” (Antunes, 2003:43) e a travessia do inferno: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos” (Calvino,1990:150).


Referências Bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. Conhecimento do Inferno. 6ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1983.
______. Os Cus de Judas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
BARRENTO, João. “O astro baço: a poesia portuguesa sob o signo de Saturno”. Colóquio / Letras , nº 135-136, Lisboa, 1995.
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. “Psiquiatria e Filosofia”. In: Aprendendo a Pensar . 5º edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2002, vol. I.
LINS, Ronaldo Lima. Violência e Literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.
MACHADO, Roberto. “Por uma genealogia do poder”. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder . 6ª edição. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
MARTINS, Oliveira. História de Portugal . Livro Sétimo . Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1977.
OLIVEIRA, Silvana Maria Pessôa de. “Sob o céu de Lisboa. Espaço e Negatividade na Ficção de António Lobo Antunes”. In: CABRAL, Eunice et alli. (org.). A escrita e o mundo em António Lobo Antunes. Actas do Colóquio Internacional da Universidade de Évora . Lisboa: Dom Quixote, 2004.
RIBEIRO, Margarida Calafate. “Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes: dos ‘Tristes Trópicos' à ‘Feira Cabisbaxa'”. In: Uma história de regressos: império, guerra colonial e pós-colonialismo. Porto: Edições Afrontamento, 2004.
SARTRE, Jean-Paul. Entre quatro paredes. São Paulo: Abril Cultural, 1977.
SEIXO, Maria Alzira. Os romances de António Lobo Antunes. Lisboa: Dom Quixote, 2002.



por Evelyn Blaut Fernandes
da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Edição nº 13 vol. II Abril-Junho 2007

02/04/2008

Ellen Wernecke: Knowledge of Hell


Com a primeira publicação inglesa, por via da tradução de Clifford E. Landers, o romance de António Lobo Antunes publicado em 1980, Conhecimento do Inferno, será reunido aos trabalhos de outros realistas de línguas românicas como Gabriel García Márquez. Mas a melhor comparação será com o romancista turco Orhan Pamuk, cujos romances, por todas as suas filosofias, nunca se desligam de uma corrente perpétua de medo que corta qualquer personagem que fale em determinado momento. Mas as imagens inócuas de Pamuk, como a aldeia vítima das intempéries de Neve, não têm par com as investidas de pesadelos multi-sensoriais de Lobo Antunes.

Com a extensão que importa ao romance, o enredo segue um psiquiatra – que partilha o nome do autor – que viaja pelo interior português de regresso ao hospital de Lisboa onde trabalha. O regresso ao seu trabalho enche-o de medo; enquanto avança, cada paragem na sua viagem inunda-o de memórias do seu trabalho com os soldados e as baixas na guerra de Portugal em Angola, bem como dos doentes com que lida agora. A narrativa alterna com fluidez da priemira para a terceira pessoa, mas nunca abandona a perspectiva do médico: «Ele examinou-se ao espelho, assegurando-se da sua gravata, do seu casaco, do risco no cabelo, e pensou “Sou um médico” tal como uma criança repete “Sou crescido”... Vou finalmente ser uma pessoa respeitável inclinado sobre um bloco de receitas numa nobreza abstraída e apressada». (Honra seja feita à tradução de Lander, que faz estas transições sem aumentar a confusão inerente à história do médico).

O inferno do médico está presente mesmo em memórias que deveriam ser calmantes, como imagens da sua mulher durante a lua-de-mel há muito passada e visões momentâneas de paisagens marítimas ao longo da estrada, e a curiosa abertura da sua cabeça para que os leitores possam experienciar esta cadeia de imagens cada vez mais horríveis faz Conhecimento do Inferno agarrar o leitor do princípio ao fim das páginas. Nos pesadelos elaborados do médico, também, está sentido de que a sua história é demasiado terrível para ser directamente comprometida. Ele tem uma recusa de Jean Rhysian em aceitar o valor normal das coisas por que passa; elas podem apenas recordar-lhe choques passados. A cumplicidade do médico faz parte da onda nauseante que o empurra para o seu odioso trabalho, construído no sentido de responsabilidade que ele nunca poderá representar completamente. Apenas a entrega lírica destas memórias, camada sobre camada, faz os leitores avançarem através dos seus sonhos sonâmbulos delirantes.

 
Ellen Wernecke
27.03.2007
[traduzido do inglês por Gonçalo Figueiredo Augusto]

01/04/2008

Alan Gilbert: Terapeutas maltratados (sobre Conhecimento do Inferno)


É seguro dizer que o romance de António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno, não o tornará convidado para discursar em nenhuma conferência de psicanalistas. Muito do seu livro cativante é um rol vicioso de críticas contra a profissão: «De todos os médicos que conheci, psicanalistas, uma congregação de padres leigos com Bíblia, rituais, e os crentes, constituem a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies». A ironia aqui é que António Lobo Antunes trabalha ele próprio como psiquiatria em Lisboa quando não está a escrever os vários romances pelos quais recebeu acalamação internacional (pelo menos nos Estados Unidos) – incluindo, dizem os boatos, ser incluído na lista de nomeados para o Prémio Nobel de Literatura.

Conhecimento do Inferno demonstra as impressionantes técnicas de Lobo Antunes para derrubar as barreiras entre passado e presente, realidade e ilusão. Tal como nos seus romances anteriores, o livro alterna com destreza entre várias personagens, cenários, e momentos históricos, resultando num narrador – uma pouco velada substituição autobiográfica – dividido em «eu» e «ele». A dissociação num sentido ao mesmo tempo cínico e estilístico é um tropo dominante. Enquadrada por uma viagem que dura um dia inteiro, a narrativa consiste numa série de encontros, analepses, e quase-alucinações em torno do trabalho do narrador num hospital psiquiátrico, o seu serviço no início dos anos 70 como médico na guerra colonial em Angola, e diversas memórias da infância e relações anteriores.

Inferno não são as outras pessoas; é o que as instituições fazem às pessoas. Lobo Antunes oscila entre a complacência e a sordidez, mesmo transcrições brutais de quase toda a gente no livro, incluindo ele próprio: «Asilos são nada menos que jardins regados com injecções de fertilizante». Os leitores mais apaixonados abrirão eventualmente sorrisos nos lábios perante o humor perverso e a compaixão que sublinham uma visão negra tão implacável. Este humor dissipa-se parcialmente após a meia-noite, perto do final da viagem depois de parar para uma vodka, altura em que o narrador começa a sentir sentimentos de ternura, especialmente quando pensa na filha, a quem o romance é dedicado. A felicidade pode ser exagerada, mas o futuro que as crianças encarnam leva a visão mais pessimista a dar lugar à esperança.

Knowledge of Hell (Trad: Clifford Landers) acaba de ser publicado nos EUA (18 Março 2008).

Alan Gilbert
18.03.2007
[traduzido do inglês por Gonçalo Figueiredo Augusto]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...