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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2008

Ente Lectual: Memória de Elefante - as personagens e a pessoa

Mais do que a persistência tenaz e manietante das imagens (o miúdo do circo que rasga listas telefónicas, os pianos que alguém carrega), muito mais do que isso, uma galeria sem fim de personagens reais, positivamente reais, em último recurso porque as ponho em letras.

Uma funcionária a quem, para os devidos efeitos, trataremos por Emily Brontë; o amigo que - tal como eu, médico, meia-idade, recém divorciado, eterno retornado da África onde deixámos os dentes e os tomates a troco de pensões risíveis ou invisíveis - um Sandokan, um verdadeiro Sandokan, mas sem sabre ou tigrezinhos ou Mompracem, nos quais um refúgio, uma garantia que seja; a espera por ti, como um cego espera que lhe enviem olhos pelo correio, escreve Molero; a divisão do sexo frágil em 5 categorias, 5 marcas de cigarros.

Uma mãe que garante, peremptória, a gente não damos conta do recado, sôtor; os agentes de propaganda médica, como cães, ou antes primos afastados dos vendedores de automóveis, de comum verborreia e indume…

José Alexandre Ramos: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes: Antes e depois

O décimo primeiro título da obra de António Lobo Antunes é, antes de tudo, agora que vão mais de uma vintena de livros escritos, uma ponte que liga a obra anterior à mais actual. Pode muito bem servir como ponto de partida para o leitor iniciante neste autor: prepara-o para prosseguir cronologicamente a fim de se inteirar da evolução do estilo da escrita até aos dias de hoje, ao mesmo tempo que lhe inspira curiosidade para ler a obra anterior, de mais fácil leitura mas nem por isso menos densa e rica. Para os leitores menos acostumados a um discurso analéptico onde muitas vezes se perde o fio condutor – porque a António Lobo Antunes não lhe interessa contar uma história mas expor o ser humano que somos –, onde uma única voz interpreta a voz de todas personagens, e resumindo: para o leitor que não está habituado a outro tipo de escrita diferente da do romance comum, com personagens, actos, cenários, espaços e tempos clar…

Gregório Dantas: Todos ao caldeirão

Conhecimento do inferno, de António Lobo Antunes, em tom mordaz e de zombaria, não poupa ninguém numa viagem pelo horror da existência

[...] Memória de elefante, Os cus de JudaseConhecimento do inferno foram lançados em um prazo muito curto, entre 1979 e 1980. Enredos e temas se assemelham: nos três romances, a ação transcorre em curto período de tempo (cerca de um dia) enquanto o protagonista, um médico psiquiatra que tem muito de Lobo Antunes, às vezes até o nome, rememora sua vida. O texto é essencialmente um longo monólogo interior, em que se entrelaçam memórias da infância, da família, do hospital psiquiátrico, da guerra colonial em Angola.
[(no Brasil)] Conhecimento do inferno não parece estar entre os títulos mais festejados do autor. Talvez exatamente por ser o fecho de uma assim chamada trilogia, carregue certa impressão de cansaço da forma ou do tema adotados. Essa impressão é falsa: trata-se de um grande romance. Além disso, a leitura em conjunto dos três livros promove uma r…

Do leitor Rodrigo Simeão Versos

Dr. Lobo Antunes.

Acabo de ler uma crónica sua, na Visão, e de facto V. Exa. é um dos poucos escritores nacionais - vivos - que se conseguem ler sem se ficar com a sensação de que, quem escreveu o que se lê, não pensou minimamente no que escreveu, escreveu aquilo que escreveu como podia ter escrito qualquer outra coisa, no fundo são aqueles que “não desconfiam sempre no caso das palavras” lhes chegarem depressa de mais.
Um dia destes ouvi uma tal Dr.ª Rita Ferro, teoricamente escritora, dizer que os seus livros são absolutamente ininteligíveis, - anda-se de um lado para o outro para os perceber; pois eu digo-lhe que é esse dita ininteligibilidade que torna os seus livros absolutamente fascinantes, bons de ler e reler, de parar de ler para pensar o que se leu, pensar no que se leu e retomar a leitura, em suma de os ler. A leitura dos livros ditos inteligíveis – não sei se é o caso dos livros de tal Sr.ª Dr.ª, pois nunca os li – deve ser uma actividade maçadora, desmotivante, e boa par…

LN: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

Foi o primeiro livro do António Lobo Antunes que li, e achei o universo do escritor fascinante.
O que me pareceu mais marcante, o que melhor caracteriza a escrita do autor, são as suas descrições muito violentas dos factos e das situações, descrições cruéis que incomodam o leitor, e que nos levam a interrogarmo-nos e a tentar entender estes personagens.
O Livro é composto por uma sequência de relatos e testemunhos dos diferentes personagens que intervêm na "história" principal que gira em torno da vida do Ministro de Salazar (Francisco) e de todos os personagens que passam pela vida da família, a mulher (Isabel), o filho(João), a governanta, a cozinheira, a filha , o caseiro, o motorista. Estes diferentes relatos dos acontecimentos vistos por a cada um dos personagens, torna a visão dos acontecimentos pelo leitor múltipla e revela muito sobre as características de cada personagem. Este permanente confronto de visões diferenciadas dadas pelos personagens permite uma visão geral…

Do leitor Luís Correia

Não li muito de António Lobo Antunes, o suficiente para afirmar: o principal objectivo dele é entender-se a si próprio, ler-se, perceber-se, ver-se, analisar-se, comparar-se, olhar para dentro de si, de todos os lados, em todas as perspectivas possíveis, consoante o seu sentimento de cada momento. Na descoberta de si. O porquê de sentir isto e não aquilo agora e não amanhã. Sinto o seu mundo interior como a única verdade importante e necessária na vida. Ele sofre imenso com essa forma de estar a vida. Mas e essa mesma dor o motivo, ao mesmo tempo, da sua maior alegria porque sente que chega lá. À verdade dele. (Só dele ou de todos nós?). Sou leigo na matéria, felizmente, o que me obriga a senti-lo e a vê-lo só comigo próprio, com aquilo que sou, penso e sinto. António Lobo Antunes é um mundo, o meu mundo.
Luís Correia


Luís Correiae-mail de 15.04.2008

Evelyn Blaut Fernandes: Por um inferno histórico

Resumo: Por um inferno histórico trata do romance Conhecimento do Inferno (1980), do escritor português António Lobo Antunes. O livro encerra a primeira trilogia do autor e privilegia as temáticas da Guerra Colonial em África (1961-1975) e do hospital psiquiátrico em Lisboa como topos do locus horrendus clássico. A partir de uma possível comparação entre a Guerra e a Psiquiatria como experiências atrozes, pretende-se estudar o hospital psiquiátrico, na narrativa, como metáfora do inferno e metonímia do país. Palavras-chave: Romance Português Contemporâneo; Inferno; História.

Estamos debaixo da terra, sabe? Isto aqui é o
purgatório dos vivos, cheio de gente a arder.
(António Lobo Antunes. Conhecimento do Inferno).

O que fazer quando se está diante de um autor que não privilegia o espaço da casa – ideia tão cara aos portugueses – como um simulacro do seu texto, mas elege um hospício para simbolizar o seu país? É o que faz António Lobo Antunes, no seu Conhecimento do Inferno, romance que abo…

Ellen Wernecke: Knowledge of Hell

Com a primeira publicação inglesa, por via da tradução de Clifford E. Landers, o romance de António Lobo Antunes publicado em 1980, Conhecimento do Inferno, será reunido aos trabalhos de outros realistas de línguas românicas como Gabriel García Márquez. Mas a melhor comparação será com o romancista turco Orhan Pamuk, cujos romances, por todas as suas filosofias, nunca se desligam de uma corrente perpétua de medo que corta qualquer personagem que fale em determinado momento. Mas as imagens inócuas de Pamuk, como a aldeia vítima das intempéries de Neve, não têm par com as investidas de pesadelos multi-sensoriais de Lobo Antunes.
Com a extensão que importa ao romance, o enredo segue um psiquiatra – que partilha o nome do autor – que viaja pelo interior português de regresso ao hospital de Lisboa onde trabalha. O regresso ao seu trabalho enche-o de medo; enquanto avança, cada paragem na sua viagem inunda-o de memórias do seu trabalho com os soldados e as baixas na guerra de Portugal em Ang…

Alan Gilbert: Terapeutas maltratados (sobre Conhecimento do Inferno)

É seguro dizer que o romance de António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno, não o tornará convidado para discursar em nenhuma conferência de psicanalistas. Muito do seu livro cativante é um rol vicioso de críticas contra a profissão: «De todos os médicos que conheci, psicanalistas, uma congregação de padres leigos com Bíblia, rituais, e os crentes, constituem a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies». A ironia aqui é que António Lobo Antunes trabalha ele próprio como psiquiatria em Lisboa quando não está a escrever os vários romances pelos quais recebeu acalamação internacional (pelo menos nos Estados Unidos) – incluindo, dizem os boatos, ser incluído na lista de nomeados para o Prémio Nobel de Literatura.
Conhecimento do Inferno demonstra as impressionantes técnicas de Lobo Antunes para derrubar as barreiras entre passado e presente, realidade e ilusão. Tal como nos seus romances anteriores, o livro alterna com destreza entre várias personagens, cenários, e mom…