27/06/2015

António Lobo Antunes na primeira edição do FIC - Festival Internacional de Cultura de Cascais


Organizado pela LeYa e pela Câmara Municipal de Cascais, o Festival Internacional de Cultura (FIC) decorre entre 3 e 12 de Julho, com a curadoria da escritora Lídia Jorge.

«Celebrar os livros olhando-os a partir da poesia, da música, do teatro, das actividades em família, dos percursos temáticos, das artes plásticas e de outras disciplinas» é o objectivo do Festival Internacional de Cultura 2015 (FIC), que decorre em Cascais de 3 a 12 de julho, sob a curadoria da escritora Lídia Jorge. O evento é inédito e integra a programação do Bairro dos Museus. A entrada é gratuita.

Juntando todas as actividades, o FIC promoverá também uma nova Feira do Livro de Cascais onde se pode encontrar os nomes mais marcantes da literatura portuguesa. Esta será também uma oportunidade do grande público privar com escritores, artistas e outras personalidades que marcam presença no festival sob curadoria de Lídia Jorge, para quem este festival irá fazer a diferença. “Aqui há uma proposta de enraizamento das actividades culturais ligadas a Cascais de forma multidisciplinar que vão, certamente, marcar o festival onde o livro é o elemento estrutural” revela a escritora.

O comunicado do festival anuncia ainda que o evento «começa com o ciclo "Escritores em Diálogo", com António Lobo Antunes a ser entrevistado pelo irmão, o neurocirurgião João Lobo Antunes».

Do programa: 

4 de Julho, 21h30, Casa das Histórias Paula Rego | Escritores em diálogo | ANTÓNIO LOBO ANTUNES Entrevistado por JOÃO LOBO ANTUNES | Colaboração: Teatro Meridional | Participação especial: Natália Luiza


26/06/2015

Pedro Fernandes: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Certa vez, Miguel Real, uma das figuras mais lúcidas da crítica literária portuguesa, afirmou que António Lobo Antunes trata-se de um caso singularíssimo e alguém não igualado por ninguém, nem antes e nem na contemporaneidade, no cenário das letras portuguesas; “seus livros revelam uma nova dobra na língua portuguesa, um novo horizonte estético para esta, uma nova forma de combinação de palavras até então nunca descoberta”, diz o crítico. Provam-no a extensa obra romanesca que tem escrito, o exercício da crónica, os mais singulares na literatura em língua portuguesa contemporânea. Muito recentemente, escreveu Caminho Como Uma Casa Em Chamas que, certamente, merecerá atenção por aqui, noutra ocasião. Este texto agora publicado é, no entanto, um conjunto de notas sobre um de seus romances mais conhecidos, e um dos mais densos e mais difíceis também (António Lobo Antunes não escreve para leitores comuns, aliás não escreve para, desafia-os).

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escurafoi publicado em 2000. E ao longo desse período tem já acumulado uma série de textos críticos, sobretudo teses de doutoramento e dissertações de mestrado, parte delas certamente encantadas com o acurado fôlego com que o escritor português dedica à língua e a destituição da natureza comum do romance ou ainda por certo hermetismo linguístico. É um texto que preferiu chamá-lo de poema (está como subtítulo da obra) e que amplia um exercício de interseção dos géneros que já demonstrei noutras ocasiões, quando falei sobre Auto dos Danados e Fado Alexandrino, dois romances que incorporam na sua estrutura elementos definidores do género textual que dão título à obra. Bem, no caso desse livro ora comentado, tudo corrobora para ser uma espécie de longo poema em prosa (a escrita versicular, a predominância do uso das minúsculas para início de frase e, sobretudo, a construção linguística capaz de produzir no leitor o contacto constante com blocos de texto que são exímia poesia).

Em Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura o escritor quase se aparta do contexto histórico e ergue um universo que é mônada no universo quotidiano. É evidente que não deixa de vir a lume certos fluidos da história recente portuguesa, temas de predilecção do escritor dos primeiros romances, mas, o que se amplia aqui é a capacidade de acompanhamento do travellingmental: uma linguagem surda, como disse certa vez, que aspira dizer tudo a uma só vez, assim como é cada vez mais impressionante a capacidade de provocar no leitor uma aproximação com as movimentações do nosso interior. É um romance que se faz pela intercalação de uma diversidade de acontecimentos e cuja estrutura é fracturada, assinalada por interrupções bruscas, os cortes, elipses, e entrecortar de vozes que ora aparecem ora se dispersam sem qualquer ligação aparente com um centro de comando de um facto principal.

O facto principal é a morte do pai da narradora. Situação do acaso, mas que ampliará a ruína da casa. Estamos, pois, diante de dois temas primordiais na obra de António Lobo Antunes. É o contacto com o fim que levará Maria Clara, primeiro, a futricar o passado do pai, sempre guardado a sete-chaves e sempre apresentado como o que não tem nada a esconder seja pelo excesso de cuidado com a aparência seja pela imagem de homem sério e provedor do lar. Mas, a narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura não é uma figura comum; tem parte com aquelas criaturas que diz confiar no que vê quando na verdade está em busca da primeira oportunidade para conseguir bisbilhotar o que não se revela a olho nu.

E todo [o] romance finda por ser uma tentativa sua de buscar reconstruir o passado da família (e logo reconstruir a si), sobretudo, o desse enigma que é a figura paterna, olhando-a desde as provas (coisa pouca) que reúne sobre ele (algumas fotografias, um registo de nascimento rabiscado, uma agenda com uma ou outra anotação, e um baú de notas fiscais e restos de armas que a leva a perscrutar sobre o trabalho escuso de Luís Filipe com o contrabando de armas). No final desse parêntesis, gostaria de abrir outro para justificar uma posição contrária às acusações de que, por se aproximar demais de um subjectivismo António Lobo Antunes tenha, desde então, produzido uma obra cujo interesse sobre a realidade histórica, social e política não se constitui em elemento para compreensão de sua obra.

A afirmativa corroborada muitas vezes por parte de uma crítica mesquinha é errónea, por vários factores: um deles, já evidenciado pela própria teoria da literatura, a de que não há obra literária fechada em relação ao contexto a que pertence, sobretudo, porque a linguagem, seu instrumento, é um aparelho histórico, político e social. Outro, evidenciado nessa suspeita costurada pela narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Não seria Luís Filipe um modo de denunciar certa parcela do capital que vive às custas da dor e do horror alheio? Não seria Luís Filipe uma figura sobre o que foram as relações escusas entre as Forças Armadas, a Indústria Armamentista e o Governo sempre juntos a dizer sobre a utilidade do conflito armado em África?

Depois de Luís Filipe, a obsessão de Maria Clara, o leitor encontrará Amélia, sua mãe, a irmã Ana Maria, a avó Margarida, sempre torrando o exíguo património com os jogos de roleta no casino, Adelaide, uma figura das mais emblemáticas do romance e peça-chave no imbróglio narrativo que Clara tenta erguer e talvez uma das melhores figuras de empregada desde a Juliana de Eça de Queirós, entre outros. É um romance para envolver-se, não é dado para mentes preguiçosas. O romancista exige a presença do leitor na extensa bricolage de situações a fim de construir uma linha de enredo que, desde então, o adopte para compreender a obra sobre algum acontecimento, mesmo sabendo que a literatura antuniana não é registo, é provocação.

Por fim, e os romances que sucederam a esse cada vez mais provam isso, depois do lugar do crítico mordaz da realidade histórica e um revelador da hipocrisia que vela os mais variados recantos da sociedade e o torna para os indivíduos em pura aparência, António Lobo Antunes instala-se, agora, ao modo do que fizeram os escritores realistas, na mínima unidade institucional que é a família. Depois percorrer outras instituições, como as forças armadas e o aparelho médico, como já disse, esse núcleo parece servir de medida certa na elaboração de uma metonímia através da qual pode observar o pormenor de uma sociedade à beira de um colapso ou fim agonizante de uma civilização.


por Pedro Fernandes
em Letras in.verso e re.verso
25.06.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

21/06/2015

Tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas finalista do Europese Literatuurprijs (Prémio da Literatura Europeia)

Harrie Lemmens com António Lobo Antunes
foto de João Céu e Silva - Diário de Notícias
Harrie Lemmens, tradutor holandês de António Lobo Antunes, está nomeado para o Europese Literatuurprijs - Prémio da Literatura Europeia -, que é atribuído anualmente na Holanda ao melhor livro traduzido do ano anterior publicado num país europeu.

Als een brandend huis, a tradução de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, de António Lobo Antunes, pela mão de Harrie Lemmens, está na shortlist dos 6 títulos escolhidos de entre a primeira selecção dos 20 melhores títulos traduzidos que fora anunciada em Março. Esta shortlist foi conhecida no passado dia 9 de Junho e um mês depois, a 9 de Julho, será revelado o vencedor do prémio.

O semanário holandês De Groene Amsterdammer, um dos organizadores do prémio, publicou críticas aos títulos seleccionados logo após o anúncio da lista em 9 de Junho. Citamos de seguida excertos da crítica a Als een brandedend huis, feita por Christiaan Weijts. Estes excertos foram traduzidos por Ana Carvalho.

Relembramos que a tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas foi a estreia mundial para a primeira publicação deste livro de António Lobo Antunes, semanas antes de ser publicado pela Dom Quixote o texto original em português, em Outubro de 2014.

*

A alma das coisas (excerto)


Uma pintura camada a camada, pensamentos que emergem para logo desaparecer, recordações, impressões, sonhos, farrapos de diálogos. Por vezes, repetições literais que, sendo temas recorrentes, reforçam a musicalidade. Este ziguezaguear sem pontuação procura imitar a ininterrupta corrente interior que é um misto de pensar, sentir, falar, sonhar e recordar.

Traduzir um livro destes requer uma mão extremamente segura, um ouvido musical e uma sensibilidade especial para encontrar o ritmo certo. O tradutor Harrie Lemmens dispõe visivelmente de todas essas qualidades, tendo sabido criar uma linguagem que traz à superfície uma camada de energia singularmente íntima.

Surpreendentamente, esta linguagem não é, de modo algum complicada. Até mesmo a gramática, embora algo caprichosa, não descamba em nenhum momento em poesia experimental conhecida pelo seu carácter impenetrável. Contrariamente ao que se poderia pensar na primeira abordagem, esta obra é justamente o oposto de impenetrável e confusa. É uma prosa certeira, esmerada, que, através de detalhes concretos, penetra naquilo que Flaubert diz ser “a alma das coisas”.


por Christiaan Weijts
em De Groene Amsterdammer
10.06.2015
[traduzido do holandês por Ana Carvalho]

13/06/2015

Francisco Venâncio - opinião sobre Memória de Elefante

edição brasileira Folha de S. Paulo,
2012
[...]

O título do texto ora resenhado é bem sugestivo: trata da memória. Alguns críticos o classificaram como um texto fragmentado cuja narrativa é recheada de rememorações autobiográficas e fantasmagóricas. De facto, o texto é extremamente fragmentado, como o próprio título sugere e pode ser interpretado como uma autobiografia, pois assim como o protagonista desta história, Lobo Antunes também se formou em Medicina Psiquiátrica e exerceu sua actividade durante a guerra colonial em Angola.

A narrativa tece-se no decorrer de um dia e uma noite em torno da trajectória de um médico psiquiatra que trabalha no Hospital Miguel Bombarda: o nome do hospital não é fictício, este é o mesmo hospital no qual Lobo Antunes trabalhou. O texto tem início com a sua chegada ao hospital e término na madrugada do dia seguinte em seu apartamento no Monte Estoril. O médico psiquiatra, recém-divorciado da esposa, tem duas filhas e se mostra um sujeito deprimido, irónico, angustiado com a vida e apaixonado pela ex-esposa - dentre as declarações de amor uma que destaco:

Amo-te tanto que não sei te amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio”.

Trata-se notoriamente de uma tragédia, conforme a definição de trágico contida na Poética de Aristóteles, para quem tragédia é a imitação de uma acção acabada e inteira. Na concepção do crítico grego, inteiro é aquilo que tem começo, meio e fim, assim se um dia inteiro é composto por vinte e quatro horas, logo um texto trágico se passa no decorrer deste período, isto é, um texto trágico se passa no decorrer de um único dia. Daí, podermos afirmar que o médico psiquiatra encontra-se em uma tragédia. Também pela tessitura das acções, dramáticas e levemente melancólicas. A acção trágica dar-se-á na perda do amor: ao término do dia o médico psiquiatra “cai no canto da sereia” e se deixa enganar pelo amor superficial de uma prostituta.

Afora os detalhes apontados até aqui, Memória de Elefante é um texto excelente para quem deseja passear pelas ruas de Portugal sem sair de casa. O olhar atento e observador de António Lobo Antunes é capaz de nos transportar para além-mar em questão de minutos e conhecer não só Portugal, mas seus grandes nomes.


por Francisco Venâncio
em Indique um livro
18.05.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...