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17 de dezembro de 2015

Entrevista à Visão: «Todos nós somos muito pirosos»

Visão
edição 1188
10 a 16.12.2015
Entrevista de Ana Margarida de Carvalho


«Todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra. Todos nós somos muito pirosos»


foto de Gonçalo Rosa da Silva | Visão

António Lobo Antunes detesta a palavra "viral", fica arrepiado quando lhe fazem o gesto das aspas com dois dedinhos no ar. No seu último romance, [Da] Natureza dos Deuses, em que acompanha a ascensão e queda de uma família de banqueiros que prefere nunca nomear (o leitor se quiser pode adivinhar), Antunes vinga-se. Até da clareza, da cronologia clássica, dos cânones da sintaxe. A força torrencial da linguagem alaga tudo, num emaranhado de vozes, obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem, atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num "delírio caótico". Como uma partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Ou como um ecrã com várias janelas abertas, em que um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em simultâneo. Logo ele que nem sabe abrir um computador (continua a escrever em caligrafia de formigueiro miniatural) e recusa o telemóvel. Porque, como dizia o (Umberto) Eco: "O telemóvel só serve a três classes de pessoas: os médicos ou os bombeiros; as pessoas portadoras de doenças, como diabetes; e os adúlteros."

Costuma ser o escritor da marquise e do naperon, mas desta vez detém-se numa família de milionários. Porquê?
Como dizia Flaubert, "é preciso vasculhar toda a vida social para ser um verdadeiro romancista, visto que o romance é a história privada das nações".

Vasculhou muito?
Não, porque não sou do século dele.

Os ricos do seu livro são tratados como sádicos na cama, que fazem das mulheres "os seus palhaços" e os empregados emprestam a mulher ao patrão…
Eu assisti tanto a isso na vida real, sobretudo no mundo dos ricos. Homens a oferecerem as próprias mulheres. Fitzgerald dizia a Hemingway que os ricos eram uma "espécie diferente", e o Hemingway "pois são, têm mais dinheiro". Mas não é só isso…

O desprezo?
Não desprezam, ignoram… Aqueles a que eles chamam "as criaturas"… A ambição de poder sempre me assombrou. Eu só queria fazer livros bons.

Onde se sentiu mais em casa: nos meios intelectuais, nos salões literários, na tropa, no hospital, quando era médico? 
Sei lá. Faz-me cada pergunta… Frequento pouco os meios literários… Mas é quando estou com pessoas de quem gosto. Passei a infância num bairro pobre que era Benfica. Estou muito ligado a essas pessoas. Mais do que supunha. Apanhei uma tuberculose porque passava os dias em casa do sapateiro e de uns vizinhos que nós tínhamos. Era gente muito pobre. A minha mãe dizia que tinha herdado isso do meu pai: só gostava dos pobres, mas sentia-me tão bem com eles. Quando ia para a Beira Alta e se tomava banho numa selha, era tão bom… Eu estava sempre a transbordar de ternura, ainda estou, só que escondo. Gosto de pessoas que tenham gostos diferentes de mim. Custa-me quando são do Sporting, mas enfim, ninguém é perfeito…

Passou pela guerra, por três cancros, agora a morte de um irmão e da sua mãe… E reverteu muito do seu sofrimento para a escrita?
A gente não inventa nada. Estes dois anos foram terríveis, e agora o cancro do meu irmão João, que aguenta tudo com uma dignidade, uma coragem, que eu sempre encontrei nos cancerosos, sem uma única queixa… Quando passei 19 dias no hospital lembrava-me do Proust, sempre a olhar para a janela à espera que fosse dia como se o dia me viesse salvar de alguma coisa, não me salvava de nada. Tenho passado muito. Mas começamos a relativizar muita coisa… Eu tenho uma ideia sobre o meu trabalho… Posso dizer em off?

Preferia que dissesse em on…
Eu acho que nunca ninguém escreveu como eu em Portugal. Mas é só uma opinião.

Já atingiu um patamar em que pode escrever como bem entender e até dizer o que lhe apetece, sem se preocupar com as consequências?
Está a pensar no Fernando Pessoa e de eu ter dito que ele não fodia?

Por exemplo.
Isto está cheio de patetas, as perguntas nunca são bem aquelas e as respostas também nunca são bem aquelas. Primeiro era uma boutade. Foi num almoço, estávamos a gozar, e de facto eu acho mesmo que ele teria sido melhor poeta se tivesse feito amor… Como se pode viver sem fazer amor? Não entendo. Mas só um palerma é que me vai atacar por eu dizer isso. Mas não. Não houve medíocre que não viesse morder. Não gosto da Mensagem, é evidente, como acho que o Livro do Desassossego é um conjunto de banalidades e lugares-comuns. Não sei para que estamos a falar do Fernando Pessoa, coitado, não tem culpa nenhuma… Isto é para dar matéria aos idiotas, para me virem morder os calcanhares, não chegam mais alto…

Pessoa e Eça são intocáveis?
Pois, e isso é extraordinário. Achava Eça um romancista extraordinário, já não acho. Tenho admiração pelo Antero e pelo Herculano. O meu pai citava Herculano: “Por meia dúzia de moedas Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita.” Não é bonito?

É.
Era um foco de discussão entre mim e o Zé [Cardoso Pires], ele achava que o Herculano era um chato. O que se faz agora é muito fraco, nem no estrangeiro há grandes escritores.

Os génios aparecem ciclicamente?
Pois, aparecem assim por revoadas. O milagre do século XIX, a quantidade de génios… só na Rússia havia dez ao mesmo tempo… [desfia os nomes com pronúncia russa], como em França e em Inglaterra. Agora não há. No século XX: Faulkner, Hemingway, Proust, Céline, Fitzgerald. O Thomas Mann é bom, mas chateia-me. O Musil chateia-me…

E o Joyce?
Admiro a proeza, mas às vezes penso se não será a proeza pela proeza.

O que encontra num livro bom?
O charme. Qualquer coisa indefinível que certos livros têm, certos homens têm, certas mulheres têm. É que não é ser bom tecnicamente. Têm que ter charme, não sei explicar. É qualquer coisa que nos faz tornar no verso do Neruda, "como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo". E depois como se racionaliza sobre emoções? Gosto porque gosto, porque era ele, porque era eu. As amizades são assim, como o amor. A gente conhece uma pessoa e fica amiga de infância. As minhas amizades foram sempre fulminantes, e depois duram para a vida, depois morrem antes de mim. É uma traição horrível um amigo morrer.

No seu livro diz: "A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado"…
Tem a ver com a memória. E sem memória não há imaginação. Aquilo que as pessoas chamam imaginação não é mais do que a maneira como nós arranjamos e desarranjamos os acontecimentos da vida. Nada se inventa. Pode-se misturar as coisas, ou mostrar só metade, mas todos os livros falam da mesma coisa. E todos os escritores são uniformemente infelizes. Porque se fossem felizes não tinham necessidade de passar 16 horas por dia a escrever. Há uma dor com que se nasce… Os artistas sofrem muito.

Não é uma pessoa alegre?
Conhece pessoas alegres?

Conheço. Do seu livro, também: "Este atraso mental das pessoas felizes que dá vontade de corrigir ao estalo, o que vale é que passa depressa."
Isso é alguém a falar lá dentro. Não tenho de subscrever isso [risos]. As taxas de suicídio entre os humoristas são muito grandes… Um sorriso é a tal lágrima entre parêntesis.

Já o vi a dançar, a cantar alto, pareceu-me feliz…
Estava a fazer muita cerimónia. É tão raro não haver inveja neste meio. No mundo provinciano, pequeno e saloio como é o meio literário em Portugal. Há muito poucas pessoas que me possam interessar e respeitar aqui. Tirando o Eduardo Lourenço. Rimo-nos imenso, ele tem muito humor. O Zé também, mas havia nele sempre uma amargura.

Uma vez disse que ninguém podia fazer um bom livro antes dos 24…
Ai, isso também gerou polémica?

Um bocadinho.
É verdade, não se pode escrever um bom romance antes de ter vivido. Poesia pode ser. Olhe, eu com essa idade só escrevia merda. Nunca tive pressa em publicar. Essa qualidade eu tenho. Não percebo porque isso causa polémica… mas cada vez que abro a boca…

Mas não faz de propósito?
Claro que não. Agora tudo tremelica. Há para aí umas criaturas, por causa das relações sexuais e poesias, ficaram insultuosos. Não era nada disso, aquilo passou-se num contexto diferente, quero lá saber se o homem fodeu ou não…

Tem teorias acerca disso?
Tenho lá… Olhe a Santa Teresa d’Ávila…

Também era virgem.
Não sei o que é pior, se isso, se aturar um homem… Deve ser terrível. Os homens não merecem as mulheres, reduzem tudo à genitalidade. Quando lhes deveria dar muito mais prazer estar sentado no sofá, de mãos dadas, a ver uma novela, do que um em cima do outro a esbracejar. O verdadeiro prazer vem do amor, que é uma coisa em que ninguém é bom, ninguém é mau. Tive de fazer muita sexologia… E o medo que os homens têm das mulheres? E como nós, homens, ligamos tudo à potência… Já comeste aquela gaja, e esta, e a outra?

Nunca entrou nesse registo?
Provavelmente entrei, não sou melhor que os outros. E no fundo os homens andam sempre à procura de uma outra coisa, andam tão perdidos como elas, querem ser amados, querem ser protegidos, gostados. Temos a ilusão de que assim afastamos a morte, porque ninguém está preparado para morrer.

Houve um cirurgião que lhe agarrou a mão durante a anestesia…
Foi um acto de amor, nem imagina como foi importante para mim. Há mãos de homem que apertam bem. As mulheres são muito mais exigentes. "O que fizeste da tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?" Se os homens conseguissem não abandonar a irmã gémea ao nascer… O sexo não é o mais importante numa relação. A gente entrar um no outro numa relação, sem precisar de recorrer a esse apêndice. Eu já não sou um homem bonito.

Dá assim tanta importância a isso?
Ai, eu gostava de ser bonito. Fazer uma cara sorrir para mim. Mas sob esse aspecto convivo bem comigo. O meu medo é começar a escrever porcarias e não ter consciência disso, o Simenon chegou aos 70 e, como ele dizia, resolveu partir o lápis.

Continua a ler muito?
Claro. Olhe, o primeiro livro que me fez chorar foi o Love Story [de Erich Segal], emprestado por um sargento, na guerra. Chorei como uma Madalena. Porque todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra. Todos nós somos muito pirosos.

Mas ainda lê os livros que a criada de servir que tem dentro de si lhe pede?
Às vezes, não sei se são bons ou maus. Um meu editor francês citava muitas vezes a frase de um general veneziano do século XVI: "É preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mas não esquecer que ela é careca.” A gente a escrever é assim, eu sinto-me um pobre… Gosto muito de ler, é um prazer enorme. O meu pai estimulou muito a leitura aos filhos e a minha mãe deve ser a única mulher que eu conheço que leu o Proust duas vezes.

Porque não disse a "única pessoa"? Dito assim pode parecer um comentário misógino...
Acha que eu falo mal das mulheres? Deus me livre. Isso era dantes, não era? Eu devo tanto às mulheres, à minha avó, à minha mãe… Estava aqui sozinho, a escrever, e de repente sai-me, sem eu dar conta, um berro: "Quero a minha mãe!" Todos os homens quando estão aflitos querem a mãe, tenham a idade que tiverem. Vi morrer tanta gente nos hospitais e nunca vi um homem chamar pelo pai. É espantoso. Velhos e doentes com mais de cem anos: "quero a minha mãezinha". Com mais de cem anos continuam a chamar pela mãe. É extraordinário.

Mas uma coisa são ‘as mulheres’, outra as nossas mães, irmãs…
Não tenho ideia de as tratar mal. Só tenho filhas, as pessoas que mais me marcaram foram todas mulheres, como é que eu poderia? O livro que estou a escrever agora anda todo à roda de uma mulher com Alzheimer, é também um desafio técnico, como é que eu vou descrever uma mulher que vai perdendo a memória? Sinto-me mais à vontade com mulheres. Ou então são elas que vêm ter comigo nos meus livros, sentam-se à boca de cena e começam a falar.

Dá ideia de que tem um ouvido absoluto para captar as marcas de oralidade, mas também repara tanto nos detalhes, nos pequenos pormenores… Também deve ter um espécie de olhar absoluto…
É só trabalho. Sou capaz, sem olhar para si, de dizer como está vestida, de cima abaixo. Se se tiver aberto aos outros, as coisas entram dentro de nós. E as pessoas são tão interessantes, mas depois há os chatos.

Fala dos políticos?
Fui infeliz durante este governo de direita, os erros, a maneira de falar, a arrogância, a ambição social que se notava naquela gente toda, e nos tipos que estão por detrás… É uma chatice, os alfaiates mudaram isto, porque dantes percebia-se quem eram as pessoas com dinheiro, agora vestem-se todos de igual.

Ficou contente com o acordo da esquerda?
Então não fiquei? Não pertenço a nenhum partido, mas estou mais à esquerda do partido socialista. Mas isso também não é importante: o pai do meu pai era conservador, salazarista, monárquico e era a pessoa mais democrata, bondosa e tolerante que eu conheci. Continuo a simpatizar com o Louçã. Gostei do Álvaro [Cunhal], era um homem irresistível, excepto quando se punha a falar de política, aí era impossível. Mas a falar de Bruegel era fascinante. A Catarina Martins tem uma inteligência cândida, que é uma coisa de que eu gosto. Uma cara, um ar e convicção que me é agradável. Parece-me a mim pureza. Oxalá não esteja enganado.


Revista Visão
16.12.2015
texto de Ana Margarida de Carvalho
foto de Gonçalo Rosa da Silva

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

fonte: http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2015-12-16-Todos-nos-temos-uma-criada-de-servir-ca-dentro-no-sentido-antigo-da-palavra.-Todos-nos-somos-muito-pirosos

5 de dezembro de 2015

Diário de Notícias, «Estou na recta final»

Diário de Notícias
05.12.2015
Entrevista de João Céu e Silva


«Estou na recta final»


Esta é uma entrevista de quem nada tem a perder. Do maior escritor de língua portuguesa vivo, que gosta de Putin mas despreza tanto os políticos saloios como a opinião da crítica portuguesa, e recusa ser vaidade o que sente pela própria obra. Que detesta quem lhe tenta morder as canelas por causa de uma entrevista ao El País, onde deitava abaixo Fernando Pessoa. E que não encontra concorrência entre os autores que têm aparecido na nossa literatura.

O mais recente romance de António Lobo Antunes marca o regresso a um dos pontos mais altos da sua narrativa que iniciou, em 1979, com o romance Memória de Elefante. Quase que se poderia caracterizar o registo deste livro como um romance policial - com a devida distância, claro -, tal é o modo como o argumento e as personagens se desenvolvem num cenário em que cada capítulo acrescenta mais uns pós à história, obrigando o leitor a avançar para saber o que se está a passar.

E de que trata o romance? Uma pergunta nem sempre fácil de responder, apesar de o autor achar que a sua narrativa é transparente e, ao mesmo tempo, garanta: "Nunca penso na história do livro." É sabido que António Lobo Antunes não aceita que se inscrevam os seus romances no formato típico da literatura - um protagonista e uma acção com contornos definidos. Mas, queira ou não, este é um romance em que o leitor antuniano que se tornou preguiçoso - o que diz "eu gosto é das crónicas dele" - volta a sentir-se desafiado na leitura de quase 600 páginas. Uma coisa é certa, há neste um paralelo com a dimensão monumental de Fado Alexandrino, de 1983.

Da Natureza Dos Deuses é também diferente porque introduz e aprofunda algumas das técnicas  de escrita que Lobo Antunes tem vindo a apresentar nos últimos trabalhos. A ser questionado, foge desse tema dizendo: "Para mim, o livro está acabado há dois anos. Depois disso já fiz mais um, A Última Porta Antes Da Noite, e agora estou a escrever outro." Prefere divergir e conversar sobre a má época que a literatura atravessa: "É um momento muito complicado, em que ninguém compra livros. Pelo menos no estrangeiro as editoras queixam-se." Curiosamente, a tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas já está na quinta edição. Contrapõe a situação nacional: "Cá em Portugal as livrarias estão vazias, porquê?" Ensaia a resposta: "Mesmo aquelas pessoas que escrevem livros e que vendem muito estão com vendas muito menores. Até parece que é o princípio do fim e que chega a hora de novos nomes neste tipo de livros. Não cito nomes portugueses, mas o leitor acaba por ter razão quando dá uma vida curta a certos livros. Quem lê o Dan Brown ou a Profecia Celestina agora?" A conversa que se segue está reproduzida no tom em que aconteceu. Sem grandes alterações no registo.

Este seu novo romance vai vender?
Não pensei nisso, tanto assim que ainda não dei nenhuma entrevista e por mim nem falava mais.

Este não é um livro habitual...
O que é que uma pessoa pode dizer de um livro? O que podia dizer está escrito no livro. Esperava que nenhum romance fosse habitual, gostava que fosse uma surpresa para mim e para os leitores.

Enquanto o lia lembrei-me do seu pai reclamar sobre os seus livros e achar que só tinha feito um, o Fado Alexandrino.
Antes de escrever o Fado Alexandrino ele dizia isso... Este é mais ou menos um livro do mesmo tamanho, que no plano inicial tinha 40 capítulos e acabou com 37. Tirei três da última parte. Tenho sempre um plano muito vago e depois não sei o que vou escrever. Não faço a menor ideia do que vai acontecer neste que estou a escrever.

Se o seu pai lesse este livro diria que era um escritor?
Acho que a resposta dele era afectiva. Ficou muito surpreendido com Memória de Elefante, que lhe ofereci, tendo-me dito: "Isto é um livro de principiante." Pensei nunca mais lhe oferecer nenhum porque fiquei muito ofendido. Tinha 36 anos. Creio que já não lhe dei os outros, mas sei que os leu porque o disse aos meus irmãos. Sobre o Fado Alexandrino também não foi a mim que disse alguma coisa. Ele queria que eu fizesse um romance com a amplidão que estava na cabeça dele enquanto leitor. Ele tinha uma segunda edição de Mort à Crédit, de Louis-Ferdinand Céline, e passou-me aquilo para as mãos. E os livros do Céline eram grossos! Foi uma revelação ler aquilo.

Memória de Elefante ainda vende!
Vai em 30 e tal edições. No outro dia vi uma edição de um deles que estava na 17ª. São long sellers.

Mas era um livro de principiante?
É, na medida em que foi o primeiro livro que publiquei.

Que já tinha um registo próprio.
Nunca tinha publicado e um dia aquilo veio. Nunca li um livro meu e há uns anos saiu uma edição de bolso e, como tinha que almoçar sozinho, levei-a e pus-me a folhear aquilo. E fiquei pasmado! Claro que já não escrevo assim, nem deveria ter escrito assim, mas fiquei espantado com a força que aquilo tinha. E pensei: se fosse editor publicava isto? Sim, porque tenho a certeza do que este gajo pode vir a fazer. O rapaz que escreveu isto. Não pelo livro em si, mas porque está cheio de força, mesmo que ainda mal dominada. Tem um punch do caraças. O livro andou por aí a passear e ninguém queria aquilo, depois saiu e foi o que se sabe. É natural a surpresa porque as pessoas a seguir ao 25 de Abril estavam à espera das obras-primas guardadas nas gavetas por causa da ditadura e não apareceu nada. A primeira pedrada é em 1977 com o Dinis Machado e O Que Diz Molero. Que é um belíssimo livro. Os de antes continuaram a escrever como até então - ser escritor nessa altura devia ser terrível - e não foram capazes de se libertar. O leitor não aderia, não se vendiam muitos livros. Talvez o Fernando Namora, e olhe como ele desapareceu. Não sei se é injusto referir, mas quem é que lê o Vergílio Ferreira e esses escritores todos, que são tantos?

Não se sente um pouco abandonado e só na sua geração?
Ainda há muitos. A Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, a Teolinda Gersão... O problema é que um bom escritor é uma coisa muito rara e agora não os há. Três ou quatro no máximo no mundo inteiro. Não estava a pensar em Portugal, onde nas gerações mais recentes não há nenhum que entusiasme especialmente. Até porque estão muito abandonados e os editores não fazem o seu trabalho.

Aceita opiniões da sua editora?
Isso nunca se passou. Aceito as opiniões todas, mas depois faço o que me apetece. Muitas vezes até pode ser que as pessoas tenham razão.

Não se tem dado mal com isso?
Não, só sei que nunca foi dessa maneira. Julgo ter consciência do que valho e do que estou a fazer. Posso estar enganado. Faço uma primeira versão à mão, depois corrijo para outras folhas com dez correcções em cima, dou para dactilografar e volto novamente às revisões. Portanto, o livro é muito trabalhado.

Este será o próximo [uma pilha de folhas próxima]?
Será, se valer a pena.

Era capaz de pôr de lado um livro depois de estar pronto?
Claro. O problema é sempre o reescrever e corrigir. É como dizia aquele meu amigo, de quem tenho muitas saudades, o Eugénio de Andrade. Tem um livro que se chama Ofício de Paciência... Ele era muito lento a escrever e a poesia dele era muito trabalhada. Não interessa se era bom ou mau, o homem suava sangue para fazer uma linha. Nem o imagino de outra maneira. Basta ver os manuscritos de Tolstói, onde não há uma página sem ter correcções. Estive com um manuscrito do Cortázar na mão e está cheio de correcções. Aquilo parece que é feito como quem mija.

Neste livro usa novas técnicas. Há palavras cortadas a meio...
Isso já havia nos outros...

Mas neste é mais intenso.
Sim, há uns cogitus interruptus... Estava a tentar experimentar uma nova técnica, a ver se dava ou não, porque juntei isto das palavras cortadas a outras coisas. A técnica da escrita interessa-me cada vez mais. Na altura, quando entreguei o livro, pareceu-me que estava bem, mas como nunca o li não sei. Nunca leio um livro meu da primeira à última linha, tenho medo, mesmo que agora comece a sentir curiosidade. Porque, é claro, estou na recta final e é neste momento que temos de dar tudo.

Na recta final porquê. Não tem mais livros para escrever?
Não faço a menor ideia. Talvez porque nestes últimos dois anos a minha família tenha sido muito fustigada e morreram-me muitas pessoas. Da família, amigos muito grandes, como um meu camarada na guerra e o homem mais corajoso que conheci. As últimas palavras que lhe ouvi foram: "Amo-te, meu querido." A morte dele custou-me horrivelmente. E morreu também um soldado, a quem lhe aconteceu esta história quando estávamos em Marimba, na Baixa do Cassange: a população vinha até ao arame farpado pedir comida em latas velhas e enferrujadas e havia um miúdo de 5 anos que também aparecia. O José Mendes tinha pena do menino e metia-lhe comida na lata. Há relativamente pouco tempo, o menino apareceu-lhe em Lisboa, agora um homem muito rico que vive entre Angola e Portugal. É extraordinário como aquela criança andou 40 anos à procura de um rapaz de 20 anos que lhe dava de comer. Nunca o esqueceu.

No seu caso, está de boa saúde?
O Tolstói, a certa altura, escreve: "Lutei comigo para ser melhor do que o Shakespeare.E depois? Ser melhor que o Moliére. E depois?" Eu sei que esta obra vai ficar, Os Cus de Judas vão existir por milhares de anos. A obra fica e eu não serei nada. Por que carga de água a obra vai sobreviver e eu vou morrer? Ninguém está preparado para morrer, mesmo sabendo que está próximo. Nunca vi ninguém preparado para morrer, é uma surpresa e uma injustiça. Então, de que me serve? Já reparou que cada vez me vêem menos, que não apareço nos jornais e nada digo. Porque não tenho importância, mas os livros poderão ter independentemente do autor. Sabemos lá quem ele era!

Não é por mau feitio ou impaciência que não quer aparecer?
Não tenho muita coisa para dizer. Nos livros nem digo nada. Acho que escrevemos livros porque se sofre. E os intervalos entre os livros é um sofrimento ainda maior. Mas à medida que o tempo passa existem muitas coisas que começam a ser claras e a pessoa despe-se da vaidade. Não tenho dúvida em dizer que ninguém escreve como eu, mas não sou eu, é o António Lobo Antunes, que é uma pessoa que ninguém sabe quem é. Porque o eu é um menino assustado, muitas vezes com medo e por vezes perdido. A medicina ensinou-me que em qualquer idade que o homem esteja, quando está doente ou não, quer a mãe. A mãe vai salvá-lo, só a mãe. A  minha mãe morreu há pouco mais de um ano e, no outro dia, estava a escrever sozinho e de repente saiu-me da boca alto e em voz forte "Quero a minha mãe". É extraordinário como depois da morte as pessoas que criticávamos tanto e de quem achávamos que gostávamos pouco ficam diferentes. Temos saudades. Às vezes parece que sinto o cheiro dela. A sua presença. Mas não está cá, como tive a impressão de que ela nunca estivera a vida toda comigo. E vem o remorso, porque somos muito injustos e ingratos com pessoas que nos deram muita coisa. Só o compreendemos quando é tarde demais. Há uma frase do Joseph Conrad, no Coração das Trevas, em que deveríamos pensar mais: "Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela, que chega sempre tarde demais." Agora podia dizer "tenho muitas saudade de si, mãe, amo-a". Coisa que nunca fui capaz de lhe dizer antes. Vejo agora o que devo aos meus pais. A criarem aqueles filhos todos, a preocuparem-se que lessem e comessem. Havia pouco dinheiro. Era a minha mãe quem nos fazia a roupa, adaptava as dos meus tios. O meu pai ganhava pouco, estava sempre com o olho no microscópio e não era capaz de cobrar dinheiro aos doentes. Na altura eu não reparava. Fui egoísta, vaidoso nunca fui. O que é que deixo? Papel e palavras, é o que vai ficar de mim.

A sua mãe preocupava-se que acabasse a vender Bordas d'Água e pensos rápidos nas esplanadas...
Sim, queria que eu tivesse uma profissão em vez de inventar histórias e escrever versos. Não sei se ela conhecia escritores... Conheceu o professor Bento de Jesus Caraça em miúda e ficou maravilhada. Infelizmente, não tive na infância pessoas miraculosas - só mais tarde. Sentia-me sozinho, como o meu pai se sentia, sempre só. E os filhos herdaram um pouco disso.

Também não força a sua solidão?
Quando estou a escrever não tenho tempo. Isto come tudo. A sensação que sempre tive é que me tinham dado uma coisa que não me pertencia, esta coisa de escrever, e tinha a obrigação de a devolver em forma de livros. Era emprestada e a qualquer momento podiam tirá-la. Tenho de forçar quando não aparece nada e esperar que as coisas venham. Acabam sempre por vir. Ao mesmo tempo tive muita sorte porque quando toda a gente me atacava aqui em Portugal - o que não me interessa nada - os livros eram um sucesso. Logo que o primeiro livro saiu, um senhor que não conheço chamado Vasco Pulido Valente escreveu assim: "Um livro de um desconhecido publicado por uma editora desconhecida." ou "O herói romântico dos anos 70". Contra o Memória de Elefante foi logo pancadaria e bofetada de meia-noite. Era só uma história e essa animosidade levou vários livros. Percebo porquê: inveja. Ninguém sofre tanto como um invejoso com os sucessos do objecto da inveja. Eu era mais bonito, tinha mais talento, as mulheres andavam atrás de mim em quantidade que não acabava - sempre as tive, para que é que havemos de esconder isto? -, e três meses depois daquele sucesso louco sai Os Cus de Judas e aumentou ainda mais. Por mais que tentemos esconder no mais fundo de nós, a sensação de derrota dos outros é a nossa vitória.

Também sentiu isso em relação aos seus colegas escritores?
Não senti, porque sabia desde o princípio que era o melhor. Isto era evidente: eu era o melhor. E se não o era então, iria ser se me dessem mais livros e espaço. Não tinha motivo para ter ciúmes de ninguém, pois se escrevesse faria melhor. Isto dito assim parece um exercício de vaidade mas não é, até porque vou morrer. Não sei quando, mesmo que já tivesse tido a morte muito perto e continuasse a querer escrever. A seguir à primeira operação, garanto, a vaidade foi-se toda. Depois, há dois anos e tal, tive um cancro em cada pulmão e um tinha um prognóstico fodido, mas estou aqui e bem. Tive muita sorte. A quimio é um coice enorme, mas as pessoas com quem me encontrava lá ainda ficavam mais bonitas quando tiravam a cabeleira postiça.

Neste livro nota-se muita crueza...
Em que sentido?

O de ser um livro cruel...
Cruel implica um desejo de fazer sofrer as outras pessoas e não queria fazer sofrer ninguém.

Há personagens que o fazem...
Ficamos melhor quando passamos pela provação do sofrimento. Mais tolerantes. É evidente que este livro tinha uma ideia de partida que não pude concretizar.

Porquê?
Por razões que não têm que ver com literatura. Adorava poder agarrar em certas pessoas que existiram e existem e escrever sobre elas uma coisa absolutamente demolidora, mas não o posso fazer porque iria magoar pessoas - sobretudo uma que me é muito próxima. Não o posso fazer, mas aquele material daria um romance extraordinário. Tenho muita pena, mas não quero magoar pessoas de quem gosto.

Não quer ser cruel?
Não quero magoar. É claro que me agradaria escrever um livro com estas pessoas... E não me seria difícil. Ou, por exemplo, um livro sobre políticos. Também não seria difícil, mas são tão reles que me enojam. Tinha de tomar banho após escrever. Não consigo conceber uma pessoa que toma decisões irrevogáveis e que não as cumpre. Isto é um exemplo. Podia multiplicá-los.

Agora tem um novo governo...
Claro que estou mais contente, já estava farto de mentiras e de mediocridade de quem nem português sabe falar. Isto é um grande pecado. Os meus avôs era os dois de direita feroz, salazaristas e monárquicos, no entanto eram as pessoas mais doces, democratas e tolerantes que encontrei. Quando estava com o George Steiner em Cambridge, lembro-me de ele dizer: "Nenhum dos bons alunos daqui vai para a política." Realmente, quem está agora na política é medíocre. Todos, não importa se são de direita, centro ou esquerda. Compare-se este François Hollande ou Mariano Rajoy com Olaf Palm, Willy Brandt, De Gaulle ou Churchill... No meio disto, a senhora Merkel é um génio. E nós levamos lá uns saloios, no sentido antigo da palavra porque saloio sou eu que venho de Benfica. Não é no sentido social mas mental. O que Eça de Queiroz diria desta gente, ou o Herculano? Discursos, ideias e personalidades miseráveis.

Sente-se mais um escritor do mundo do que de Portugal?
Eu sou português, é para eles que escrevo. Nunca imaginei que me iriam alguma vez traduzir. E com estes prémios todos, até na China. Agora foram cinco livros para os Estados Unidos. Está por todo o lado. Na Suécia, há duas editoras a publicar-me. É muito estranho isto que se passa comigo! Foi lento, depois aquela explosão em França, com os teatros a darem durante seis meses António Lobo Antunes. Logo eles que são tão chauvinistas, que nos consideram um povo de mulheres-a-dias. Fiz mais por Portugal do que estes políticos juntos, pus a bandeira nos mastros das principais capitais da Europa. Vaidade não é, trata-se do que aconteceu. Da Áustria a Isarael, e com o meu nome vem Portugal. Eu pouco interesso, é o país. Ainda hoje dava a vida pelo meu país - não na guerra de África, onde não tínhamos razão nenhuma -, mas se houvesse uma como a Primeira Guerra Mundial. É o meu país, deu-me tanto, gosto tanto dele. Não é o Portugalzinho do meu amor! Ou o daquela quantidade de parvos que se entretém a escrever sobre mim. No El País disse que não era possível ser bom escritor sem se ter fodido. É o que penso, mas não daquela maneira, nem naquele contexto. Tudo quanto é cachorro vadio andou a tentar morder-me as canelas. Vão para a puta que os pariu. Porque têm de saltar muito alto para chegar aos meus pés. É evidente que aquilo era dito num determinado contexto e sentido. Fui logo avacalhado. Parece que há pessoas que não suportam o talento dos outros quando deveriam era ficar contentes. Eu só não fico contente quando o Sporting ganha, porque prefiro que seja o Benfica.

Não reconhece valor a Pessoa?
Não gosto e sou capaz de fundamentar, mas não me parece importante falar disso. Continuem a morder-me, é-me indiferente. Insultaram-me e não respondi a nada. Podem ladrar à vontade. A mim não me ouvem dizer mal de ninguém.

Quando publica um livro e lê as críticas não se irrita com a recepção nesse "Portugalzinho"?
Não, não sei como é por cá porque não as leio. Há países onde não tenho críticas, são mais adjectivos, e também não as leio.

Qual é a língua em que mais estranhou que o quisessem ler?
A Etiópia e o Irão surpreenderam-me. Agora sou viral, como dizem os parvos! Há certos países e pessoas que funcionam como referências, e se eles falam é-se replicado por todo o lado. Nos Estados Unidos é O Harold Bloom, em Inglaterra o Steiner. Opiniões decisivas.

Porque não participa nos muitos festivais literários em Portugal?
Não vou porque falta tempo. Agora recusei um convite para Buenos Aires. Tantas horas de viagem! As viagens são muito compridas e tenho de estar sempre a responder às mesmas perguntas. E nos jantares ficam a ver como pego nos talheres. Tenho sempre os olhos em cima!

É o terrorismo que o preocupa?
Nunca pensei nisso. Uma bomba no avião? Nisso não penso, até porque gosto muito da comida dos aviões. Faz-me voltar  à infância! Como vou em executiva é óptimo porque tem talheres, imensas coisas para abrir e vermos o que há lá dentro. Gosto muito de andar de avião! Devia haver um restaurante que servisse comida de avião naquelas bandejas. Tem um lado de brincar aos jantarinhos que gosto.

Voltemos aos festivais literários em Portugal. Porque não vai?
É a mesma coisa que me faz não ir a Munique agora. E a minha editora alemã é muito preocupada com as traduções, porque já lá vai o tempo em que os livros eram traduzidos do francês, como faziam o João Gaspar Simões e a Isabel da Nóbrega. Podemos ficar com uma ideia do livro, mas é impossível traduzir Tchekhov! E a língua deles é lindíssima, veja-se como é bonita a língua russa falada pelo Putin. Aliás, uma das coisas que os russos admiram nele é o seu russo, o modo como maneja a língua com aquela voz bonita. É quase impossível traduzir e quanto melhor é um escritor mais simbólica é a sua língua.

Então, vamos ao simbolismo. Se está tão fechado em casa, como é que sabe do mundo que aparece em Da Natureza Dos Deuses?
Viajei bastante até agora e não me fecho ao mundo. Não tenho é tempo fora dos livros.

Vai buscar muito ao passado?
Sei lá onde vou buscar...

Então, as viagens deste livro não são só do passado?
Ir a Cascais não é uma grande viagem, são 20 minutos. Só se formos a pé e descalços.

Repito. Porquê um livro tão cruel?
Eu não sou um homem cruel.

Falo das personagens.
Ah são... Vou tentar lembrar-me delas... Sim, algumas são. Há o homem que fecha a mulher no quarto. É um monstro mas é um desgraçado, um infeliz que pede ao criado para fazer o filho por ele. É esse, não é? Queria concentrar nessa figura várias pessoas, 15 ou 20 homens diferentes, que gostava de ter podido espalhar por outras personagens. Mas isso é um coisa que não posso fazer. O Thomas Mann pôde escrever Os Buddenbrook, mas eu não posso. Talvez o faça num livro para ser publicado depois da morte, sobre pessoas que não quero que sofram com isto. Não farei, chateia-me escrever um livro e ficar por publicar. Mas haverá alguma coisa de real nas pessoas e vozes que habitam os livros. Vêm de onde? Ninguém é como aquela gente, mas há pessoas pelas quais tenho dificuldade em sentir piedade. Temos a mania de que a inteligência é a maior virtude, mas a bondade é maior. O meu irmão João diz isso: "O pior defeito que um homem pode ter é a ingratidão."

As mulheres sofrem muito neste livro. Qual é a razão?
Elas sofrem muito em todos os livros. Sobretudo, na vida. Porque as coisas mais pesadas caem sobre elas. O tempo tem-me ajudado a respeitar as mulheres, mesmo que nenhum homem as conheça bem.

É um livro que tem uma particularidade literária: os decotes das mulheres. Mais ou menos abertos conforme são as personagens!
Os decotes. Não reparei nisso.

Há um broche que fecha a vista...
Não tenho nada contra os decotes. Falo muito em decotes?... Elas podem ter muitas toiletes, mas isso não lhes compensa a solidão.

Quando elabora as personagens...
... Eu não as elaboro, elas já chegam inteiras.

Então, distrai-se a vesti-las?
Falo muito em roupa? Não me lembro... Não é assim na vida também? Se é, então não está mal.

Tem mais personagens do que é habitual e dá-lhes nome. É para se orientar?
Não é nada premeditado, eram muitos e as pessoas podiam confundi-los. Quanto à escolha dos nomes, é de grande dificuldade. Nas classes mais altas é assim: o Senhor ou a Senhora. Os empregados é que têm nome. Neste livro que estou a escrever agora, nenhuma tem nome. É sobre gente muito pobre. Este, é da burguesia.

A palavra mais repetida neste livro é "puta". Porquê?
Puta? Tem a certeza? E não é sempre a mesma pessoa a dizer isso? Terá que ver com os habitantes do livro e da maneira como olham para as mulheres. É uma determinada classe social que as vê como coisas que se utilizam e deitam fora. Encontrei pessoas assim, todas da mesma classe social. E as mulheres são objectos, com ambição, que de certa maneira se comportam como eles. É um livro sobre uma certa camada social, onde as relações homem/mulher não são como as entendemos, mas muito diferentes.

É uma relação de poder?
O poder que elas têm só existe se forem provocantes numa forma primitiva, através dos brincos, dos anéis e das roupas. Esses homens só pensam em cobri-las de joias e não percebem que o empregado é mais amado do que eles. Este é um livro sobre os senhores do mundo em Portugal. Eles não obrigam só as mulheres a obedecer, também os homens que estão abaixo deles, até quando entram para a família são humilhados. É o poder que vem com o dinheiro. Não é em vão que tem havido tanto escândalo financeiro em Portugal. Eles dão dinheiro aos partidos antes das eleições mas desprezam as pessoas. Continua a haver uma oligarquia na sombra que é quem realmente manda. Havia determinadas pessoas que nos últimos governos tinham lá três/quatro ministros que lhes pertenciam. Podia ser ministro mas era apenas um empregado. O poder deles é quase ilimitado e não é exercido frontalmente, chega por trás até quem de direito. Era empurrado, dava três cambalhotas e caía num ministério. Só lendo o livro é que se percebe do que estamos a falar. E não vale a pena estar a empurrar-me para essa questão porque não quero ir mais longe.


05.12.2015
texto de João Céu e Silva

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

19 de setembro de 2015

El País - António Lobo Antunes: «Os meus livros nascem do lixo»

El País - Entrevista de Javier Martín
19.09.2015

António Lobo Antunes: «Os meus livros nascem do lixo»

foto de João Henriques
O eterno candidato português ao Nobel publica em Espanha Comissão das Lágrimas

Os livros devoram as paredes. "Já não cabem. Tenho de mudar-me para um andar ainda maior". E porque não retira alguns? "Nunca; a maior parte são muito maus, mas não posso. Tenho muito respeito pelos livros". A casa de António Lobo Antunes enche-se apenas com as traduções da sua trintena de livros. Há um professor canadiano especializado que escreve sobre a sua obra. Na Holanda, o seu último livro Caminho Como Uma Casa Em Chamas já vai na quarta edição. Agora em Espanha publica-se Comissão das Lágrimas, pela Random House, um retrado da condição humana, ambientada na guerra de libertação de Angola. Como em cada um dos seus livros, quando Lobo Antunes escreve, dói; e quando fala, também.

Obrigado por receber-nos em sua casa aqui em Lisboa, a cidade de Pessoa.
Não sou admirador de Pessoa.

Como assim!?!? O Livro do Desassossego... !
O livro do não sei o quê que me aborrece de morte. A poesia do heterónimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Witman; a de Ricardo Reis, de Vergílio. Questiono-me se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.

Não há nada novo em Portugal?
Não se trata de um problema de Portugal ou de Espanha. O problema é que hoje não existem grandes escritores na Europa - na Irlanda, talvez -, mas não em Inglaterra ou em França, que no século passado tinha dois génios, Proust e Céline. No século XIX havia 20 ou 30 génios na Europa...

Nem sequer na América?
Na América latina, sim; nos Estados Unidos, não; ainda que goste de Cormac McCarthy. É um problema geral, basta ver os que ganharam os últimos prémios Nobel.

O senhor não.
Não, nunca o ganharei, ainda que me veja sempre no meio das apostas, como os cavalos. Ganhei quase todos os prémios, mas o que me interessa neles é o dinheiro.

Certo, como quando lhe comunicaram que tinha ganho o Juan Rulfo, respondeu: "Quanto é?"
Fui terrível. Anunciaram-me por vídeo conferência em directo [numa conferência de imprensa local]; e os jornalistas mexicanos partiram-se a rir. Foram cem mil euros.

E o prestígio do prémio não lhe interessa?
O prestígio são os escritores que dão ao prémio, não ao contrário.

Sendo psiquiatra, foi escritor tardio; até aos 37 anos, quando saiu Memória de Elefante (1979), nunca tinha publicado.
Ninguém me queria; nem em Portugal nem em parte alguma; mas um editor americano, que não leu o livro, publicou-o. Fez primeira página no The New York Times, no Los Angeles Times e no Washington Post e quando se tem estes jormais, tem-se o mundo. O primeiro que me chamou em Espanha foi Jacobo [Martínez de Irujo], da Siruela, com quem comecei a publicar. Passei semanas a escrever na sua casa do Ampurdán.

Aquele livro baseava-se nas suas experiências enquanto psiquiatra, Comissão das Lágrimas bebe do seu passado militar em Angola.
Não me interessa escrever romances de guerra por respeito aos mortos. Interessam-me as pessoas em circunstâncias extremas. Pensei em desertar quando lá estive, mas o meu capitão disse-me: "Não vás que a revolução se faz por dentro, não nos cafés de Paris".

E teve razão.
Sim, não há nada mais duro que uma guerra. Aos 18 anos decretei que viria a ser um génio, mas chegas à guerra e isso desaparece imediatamente; és apenas um entre muitos. Há duas coisas magníficas do espectáculo da guerra: a beleza da coragem física e, o mais horrível, a covardia. Após sessenta anos continuas a ter pesadelos por causa das coisas horrível em que participaste. O que me espanta é a ausência de culpabilidade, por que é tão fácil matar e morrer.

A crítica disse que Comissão das Lágrimas trata das torturas feitas a Virinha, a capitã do Movimento de Libertação de Angola.
Não se entendeu bem, na realidade é sobre a morte de Jonas Savimbi num atentado cometido pelos serviços de inteligência portuguesa, israelita e norte-americano que o localizaram pelo telefone móvel.

Era uma vida sempre em alerta.
Quase sempre. Quando jogava o Benfica, escutávamos os jogos na rádio e orientávamos os altifalantes do quartel para o exterior. Durante 90 minutos não faziam nem um tiro. Os guerrilheiros eram do Benfica, como nós.

É do Benfica?
E do Atlético de Madrid, duas equipas do povo. Estou muito contente de tenha voltado El Niño. Já não é o que era, mas demonstrou ser um homem de palavra, que é coisa rara entre os homens.

Compromisso, coragem, covardia... Fixa-se muito nos valores básicos das pessoas.
E a honestidade. O escritor tem que ser honesto. Mario Vargas Llosa, por exemplo, é um escritor honesto e um prémio Nobel merecido. Dizia Frank Sinatra: "Posso ser um canalha, posso ser mafioso, mas quando canto sou completamente honesto".

Gosta muito de música.
Gosto muito, mas já não ouço os agudos, não ouço os violinos.

Diga-me que gosta do fado.
Não me interessa muito. Depois de ouvir dois torna-se monótono.

E o flamengo?
Ah!, isso sim, muitíssimo. Aquela sensualidade, aquela beleza; Jacobo [Martínez de Irujo] costumava chamar-me quando descobria um novo cantor para que fôssemos ouvi-lo juntos. Aprendi mais com alguns saxofonistas de jazz como John Coltrane ou Charlie Parker do que com escritores.

Aprendeu o quê?
O frasear, a musicalidade do frasear. Ao fim e ao cabo sou um ladrão, um homem que procura coisas no lixo. Os meus livros nascem do lixo.

E não encontrou um livro que lhe tenha mudado a vida?
Sim, quando jovem, não sei como, caiu-me nas mãos Nueve Novísimos Poetas Españoles (José María Castellet, 1970). Li-o e percedi que não podia continuar a escrever a merda que escrevia. Cada um dos nove era melhor que eu. Como poderia comparar-me a Oda a la Venecia ante el Mar de los Teatros de Pere Gimferrer?

E hoje, que livro salvaria da sua obra?
Nunca falo dos livros que acabei. Não leio as provas nem o que é publicado. Quando os entrego, esqueço-os. Acabou-se. Não pense mal de mim, mas orgulho-me da minha obra.

Não lê as críticas?
Eu sei o que escrevo. Não preciso de lê-las. Nem as de Harold Bloom, ainda que nesse sentido acho mais importante Steiner, o maior génio que existe. Sabe que em casa tem o piano de Darwin? É frequente confundir os nossos gostos com as nossas paixões. Borges é bom, mas não gosto; Roberto Bolaño é bom, mas não compreendo o fenómeno, talvez seja porque morreu jovem, talvez não goste porque o conheci. É esse o problema da crítica. Se coincide com os teus gostos, é bom; se não, é mau.

Escreveu trinta livros em trinta e sete anos. Não vai parar?
Que posso fazer? Quando não escrevo não me sinto bem, sinto uma angústia; uma coisa física difícil de explicar. Tenho a impressão que fui feito para escrever.


19.09.2015
texto de Javier Martín

traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz
foto de João Henriques - fonte: site do El País
capa da edição em castelhano de Comissão das Lágrimas, Random House, 2015

14 de fevereiro de 2015

Entrevista de 2001, ao El Cultural - «Em literatura gosto de sentir o sangue»

Uma entrevista com treze anos, dada a um jornal espanhol, nunca publicada aqui, mas que agora passa a fazer parte do nosso acervo. António Lobo Antunes falava de temas de que viria a voltar em entrevistas posteriores (até mesmo nas mais recentes), mas é curioso ler da sua posição iberista versus a europeísta; da sua parca experiência como candidato comunista; da sua conhecida obsessão em desmitificar o papel do escritor, e também dos prémios literários, como o Nobel; da sua paixão pelos clássicos; e, enfim, da sua irreverência em pequenos detalhes que muito gostaríamos de ver reunidos num suposto livro de memórias suas. Posições e afirmações em (quase) oposição ao que tem proferido em entrevistas recentes. 



«Em literatura gosto de sentir o sangue»

El Cultural
Entrevista de Martín López-Veja
07.11.2001


Lobo Antunes escreve com esferográfica. Pousa-a no papel e pelo rio de tinta navegam as personagens de um mundo ora real, ora ficcional, um mundo de trágicos dias em Angola e nos trilhos de Benfica que levam sempre às mesmas pessoas.

Deixou a psiquiatria (sua anterior ocupação principal) a partir do momento em que pode viver da literatura. No entanto, continua passando pelo seu consultório de um hospital lisboeta onde trabalhou. Foi ali que conversámos com ele, interrompidos apenas pela sua filha. «Nunca cá vem, mas viu o meu carro estacionado e veio dar-me um beijo». Em Portugal publica agora o seu romance Que Farei Quando Tudo Arde? e, em Espanha, na semana que vem, será publicado o livro de entrevistas de María Luisa Blanco, Conversas com António Lobo Antunes.


O seu novo romance acrescenta certas novidades à sua obra.
Acha? Aprofunda o trabalho com a prosa que tenho vindo a fazer com os anteriores. É o livro que me parece mais bem acabado, o que mais gosto até hoje. Este mês comecei outro romance, que continua nessa procura da linguagem. Talvez seja novidade pelo tema em si, pelas personagens (trata do tema do travestismo), mas é a mesma procura.

O título vem do verso de um soneto de Sá de Miranda, que falava de um amor contrário à razão.
Nunca tenho um título antes de terminar um livro, e ao terminar este apareceu o maravilhoso soneto de Sá de Miranda. A ideia é: não somos mais do que um desejo intenso. Desde que o homem existe, as perguntas, os problemas, são sempre os mesmos. Por isso são tão actuais Quevedo, Cervantes, Camões.

As perguntas são as mesmas mas, de vez em quando, somos sacudidos com acontecimentos como o atentado em Nova Iorque.
Um acontecimento trágico, sem dúvida, mas enquanto vivemos, os bombardeamentos continuam, e tão violentos que de alguma forma nos afectam. Tudo isto é extremamente complexo para nós, ibéricos, que tanto devemos aos árabes. Exerce em nós uma terrível divisão interior. Não é agradável ver bombardear um país onde quase todos são inocentes.

Homens à medida de Deus

Tudo isto tornou necessária a reposição do papel do escritor na sociedade actual?
O escritor deve dar a sua opinião como cidadão, e escrever.

Há uma dimensão ética na sua literatura.
Sim, claro. Faz uns dois anos, na Feira do Livro de Madrid, que veio ter comigo um homem para que lhe autografasse um livro. Quando lhe perguntei o nome, disse: «Miguel de Unamuno». Fiquei perplexo, claro. Era um neto. Unamuno é o melhor exemplo de dimensão ética da literatura. Não apenas os seus livros, também a sua vida. O seu discurso em Salamanca perante Millán Astray é um grande exemplo. De vez em quando, Deus faz homens à sua medida.
Se fores um bom escritor deves ensinar os teus leitores a ler; se dizes algo novo, ao princípio vai haver uma resistência natural por parte do leitor, o que é preciso é vencê-la, é preciso seduzir o leitor: a literatura é a arte do rigor. Pouca vezes falei mal de outros escritores: quando o fiz foi porque lhes senti uma ausência de sentido ético na sua forma de escrever. Não podes dedicar-te a repetir uma fórmula de êxito: cada novo livro deve ser um desafio novo. É a única maneira de seres honesto para contigo mesmo, e para com os leitores.

Portugal  é sempre o cenário da sua obra: a Revolução dos Cravos, a Guerra de Angola, a história íntima do bairro de Benfica… Mas sempre com uma perspectiva crítica. Até mesmo o título de O Esplendor de Portugal é muito irónico. O que entende por ser português?
Precisava de um cenário para ambientar os meus livros, inventar uma língua. O meu país não é esse chamado Portugal. O meu país é o país de Tchékov, de Beethoven. Em Angola, na guerra, senti na minha pele todos esses substantivos elevadíssimos, Pátria, Honra, Identidade… Merda, esse é que é o verdadeiro sentido dos nacionalismos. Não acredito em nacionalismos. Amigos meus espanhóis vêm a Portugal e dizem: «É igual a Espanha». A mim também me parece. Torga, de quem tenho imenso respeito, insistia nessa ideia: eu sinto-me, como ele, ibérico. Em Madrid, na Galiza, sinto-me como que em casa. São bairros da minha cidade. Mas já não sinto o mesmo na Alemanha ou em Inglaterra. Por essa razão me inquietava o fraco êxito dos meus livros em Espanha; porque sempre me pareceu que o público espanhol faz parte do meu público natural.
Graças a Deus que não sou político. Só posso dizer uma coisa: do mesmo modo que afirmo que me sinto ibérico, posso afirmar que não me sinto europeu. Quando estive em África, sentia-me mais próximo daquelas gentes do que quando estive na Suécia. No europeísmo há uma certa tendência de menorizar o que fazemos. Iremos falar todos inglês daqui a 50 anos? Soa a exagero, mas quem sabe… Da mesma forma que há que evitar os nacionalismos estéreis, há também que saber valorizar o que fazemos. Creio que o nível médio da poesia e romance que se escrevem em Espanha está acima do que tem vindo a ser feito no resto da Europa, qualquer país gostaria de ter um Javier Marías, um Marsé, uma Ana María Moix. E tem excelentes pintores, arquitectos. Eu sinto-me como parte disso, muito mais do que se passa em outros países.

Antes africano que europeu.
Dumas questionava por que é que há tantas crianças inteligentes que acabam por se converter em adultos imbecis. É o resultado de uma castração educativa tipicamente europeia que impõe tantas proibições que acaba por fazer paralisar.

A dignidade e a guerra

As suas personagens vêem-se enredadas nos becos da História portuguesa.
Sim… Mas eu escrevo romances, “epopeias líricas”, como alguém disse. Os meus romances estão cheios de erros, de lapsos históricos, mas isso não me importa. Dá-me medo cair no documentário, na reportagem: isso é coisa para gente sem talento.

Não gosta de falar da sua experiência na guerra de Angola.
Sabe o que é que mais me espanta? Não ter qualquer sentimento de culpa pelas coisas horríveis em que participei. Questiono-me muitas vezes e não o entendo. Uma vez, na Alemanha, um jornalista perguntou-me o que tinha sentido ao matar gente e se não sentia vergonha por isso. Nessa noite tive pesadelos. Mas só nessa. Gostava daquele povo, não entendo por que é que não sentia algo de mal.

Uma vez referiu-se à sua relação com Ernesto [Melo Antunes], o seu capitão em Angola, de que a filha dele vos dizia: «Como podem dois amigos passar o dia sem dizerem nada um ao outro?»
O Ernesto era um homem realmente admirável, o mais corajoso que vi debaixo de fogo, o único capitão que era contra a guerra, o único que foi candidato contra as listas da União Nacional. «A revolução faz-se por dentro», dizia. Partilhámos muitas coisas, entre elas o amor pela literatura. Era um modelo de coragem, de dignidade. Pouco antes de morrer, disse-me: «Esta noite acordei mijado. Não me deixes morrer sem dignidade».

Nunca falavam da guerra?
Nunca, jamais depois de regressar de Angola.

Nunca?
Mais só no fim, quando o cancro já o tinha tomado. Mas depois vinha a sua mulher e então dizia: «Não falemos mais». Jogávamos xadrez, conseguíamos passar muitas horas sem trocar uma só palavra. Às vezes a amizade é tão perfeita que não faz falta falar para que se diga tudo.

Outro grande amigo seu era o escritor José Cardoso Pires.
Outro homem duro, que sofreu muito durante o fascismo. Ligava-me todas as manhãs e passados cinco minutos voltava a ligar e dizia-me: «Que se passa contigo? Pareces-me triste». Eram homens muito másculos sem vergonha de mostrar o seu lado feminino, o seu lado maternal. Na amizade não há ciúmes, não há inveja, não é como no amor. Aceito a infidelidade no amor, mas nunca a aceitaria na amizade.

O poder e a literatura

Esteve metido na política, inclusive foi candidato pelo Partido Comunista.
Sofri uma grande desilusão. O Partido Comunista carecia de democracia interna, havia por todo o lado um certo espírito conspirativo. Foi como com a literatura: tinha uma ideia muito romântica e descobri que, por dentro, todos os partidos são execráveis. Só existem projectos de poder pessoal, um jogo de partidas e contrapartidas. Chegaram a dizer-me: se ajudares o partido, o partido apoiará a tua carreira literária. Mas o escritor deve ser sempre um contrapoder. Gostava de ser do Partido Comunista, mas para mim era impossível. Há um lado eclesiástico no partido que me repugna.

Parece muito empenhado em desmistificar a figura do escritor.
Sim, desde cedo. Repugna-me a ideia do escritor como entidade superiora, por muito talento que tenha. Conta-se da actriz Sarah Bernhard que ia certo dia pela rua e um homem a interpela. «Você é Sarah Bernhard?», ao  que ela terá respondido: «Serei esta noite, quando subir ao palco». Celaya dizia num poema da importância que é estar no meio das pessoas, mas também só às vezes.  Eu sou António, e, somente nos livros, Lobo Antunes. Claro que nem sempre são maus os efeitos secundários de ser-se um escritor. Um amigo meu dizia: fiz-me escritor para estar rodeado de mulheres bonitas. Porém, as mulheres bonitas acabam sempre preferindo os banqueiros ricos e barrigudos.

Converteu Lisboa, nos seus romances e nas suas crónicas, num “território literário”: Lisboa aparece muito diferente depois de lê-lo, mais verdadeira, mesmo que, se calhar, a sua opinião seja diferente.
[Risos] Bem, as ruas existem, não lhes mudei o nome, e aparecem tal como são, não mudei as casas de sítio. Há uns anos, apareceu na Alemanha um livro intitulado Geografia de Lisboa no qual se reconstruia, através dos meus romances, a cidade. Já lhe disse, ruas, casas, tudo é, geograficamente falando, precisamente igual, nos meus livros. Outra coisa é o que ocorre nesses ambientes, inclusive que o espírito das minhas personagens seja realmente o da cidade. Mesmo assim, é claro, tudo isso, sendo talvez ficcionado, não é mais que o resultado do que a vida  deixou em mim, a vida em Lisboa.

Mas você conhece bem Lisboa.
Não, não acredite nisso. Eu cresci em Benfica, uma bairro periférico que no tempo dos meus pais nem sequer fazia parte de Lisboa. Eu ia estudar para a cidade. Benfica era um microcosmos diferente. Ia-se ao cinema a Lisboa, à discoteca com os amigos quando havia dinheiro, às livrarias… Em Benfica conhecia-se toda a gente. Passava a linha do comboio e parecia que se encontravam as mesmas pessoas. Como se fosse um cenário, seguindo um caminho circular onde estavam os mesmos actores ou figurantes. Lisboa é uma palavra muito grande. Prefiro falar de algumas ruas, de algumas esquinas…

Portugal visto por um português

Disse que detesta o fado, que não gosta de Pessoa… Não deixa um símbolo português de pé.
Estou farto do fado. Cansa-me o seu saudosismo, é reacionário. Era a canção do regime, e ainda é. Quanto a Pessoa, não negaria que é um grande poeta, mas não me maravilha. Prefiro Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto. Na literatura (e na arte em geral), gosto de sentir o sangue, e Pessoa era muito intelectual. A arte que é somente trabalho cerebral não consegue apaixonar-me.
Portugal é injusto. Cada século vão encontrando um poeta melhor que Camões.  Mas todos passam e Camões fica. Foi ele que inventou o nosso idioma, tal como o falamos hoje. Ele é o grande poeta português.

Às vezes dá a impressão de que fala mais de futebolistas portugueses do que de escritores.
O desporto sempre foi muito importante para mim. Tinha um colega no liceu (hoje prestigiado crítico literário) a quem eu via com os seus amigos, muito inchados, falar de literatura enquanto eu jogava hóquei. Não faziam desporto, não iam a putas. Tinham uma vida asséptica. Não sujavam as mãos de merda, de esperma. Esse modo de vida nunca me interessou.
Lembro-me de ir patinar para o Jardim Zoológico, todas aquelas miúdas vestidas de branco, fazendo piruetas debaixo das árvores… Pareciam anjos.

Muitos defendem que o Nobel português devia ter sido seu.
Bom, há que desmitificar um pouco esse prémio. Não é Deus quem o atribui, mas uns quantos senhores que se reúnem uma vez por ano. Há tantos escritores de quem gosto (Tolstói!) que nunca o receberam… e depois há casos absolutamente ridículos, como o de Cela. Os prémios são agradáveis e aleatórios. Antes a minha vida era um tormento a partir de Setembro. Depois ficou mais sossegada, quando o deram ao Saramago, mas agora está a voltar o tormento. Não penso nisso. Foi divertido há três ou quatro anos, na Holanda. Estavam todos convencidos que me seria dado, e estava rodeado de jornalistas. Assim que se desfez o engano, desapareceram. Divertido e absurdo. Continuamos a ser o mesmo escritor com ou sem o prémio, não? Naipaul conheci em Londres. Não o admiro especialmente, na verdade. Mas o prémios… Coisas como o tema dos prémios Planeta, que levantam muitas reservas não só intelectuais, mas também morais.

Não se pode queixar, o seu êxito em Portugal foi rápido, mesmo sendo um romancista tardio.
Publiquei o primeiro romance tinha eu 37 anos, mas na altura já o haviam recusado vários editores e eu estava a escrever o terceiro. Após a queda da ditadura, toda a gente esperava a publicação das obras-primas que até então se julgava estarem escondias nas gavetas; mas essas obras nunca existiram. E depois, aqueles que escreviam submetidos à censura não superaram os vícios que foram adquirindo: narrativas situadas na antiguidade, em países imaginários. Não conseguiam falar sobre a actualidade. Penso que essa foi uma das razões para o meu êxito. Houve quem me elogiasse mas também quem me insultasse frontalmente, o que me pareceu bastante estranho. Era apenas um romance!

Mesmo assim, hoje existe unanimidade sobre a sua obra.
Em Portugal agora há um certo sentimento de má consciência a meu respeito, por certas atitudes do passado. Agora sou qualquer coisa assim como “o escritor”. Publicam-se estudos sobre mim, este ano sairá uma fotobiografia… Acaba por ser divertido, porque eu não mudei. No princípio, a minha atitude chocava. Lembro-me de uma entrevista na televisão. O apresentador dizia-me: «Natália Correia disse que a poesia serve para comer», ao que eu respondi: «Por isso ela está tão gorda». Coisas assim. Não era caso para tanto, mas vieram pedir-me contas. O meu prestígio em Portugal vem do meu prestígio lá fora. Nunca aceitei jogos com o poder, como os aceitou, e os aceita, Saramago…

Agora vai a Espanha para participar nas jornadas “Perfil de Portugal”, sobre o seu país. Parece-lhe necessário este tipo de jornadas?
Não. Aos escritores é preciso lê-los, não ouvi-los. A reputação de um escritor consegue-se publicando-o, lendo-o… Vou porque gosto de Espanha, porque me sinto como que em casa, porque sempre me receberam muito bem. Quem são os outros escritores? Carlos Reis é um pesado. E mais que escritores, há portugueses que apenas escrevem livros… Bom, será divertido.

Ainda se lembra daquele poema de Drummond que fala do envelhecimento?
Sim. Conhece-o?


«Talvez uma sensibilidade maior ao frio,
«Desejo de voltar mais cedo para casa». É muito bonito esse poema. A única coisa que me dá medo é não ter tempo para escrever o que quero escrever. Somente mais dois romances, dois, e estará tudo feito. Um sobre seitas religiosas e, finalmente, outro autobiográfico… E então partirei a esferográfica. Espero que pelo menos tenha tempo para isso…


07.11.2001
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]


nota de edição: apesar de estarmos a partilhar a entrevista após treze anos da sua publicação original, ela será indexada no nosso acervo de acordo com a ordem cronológica: portanto, entre as entrevistas que disponibilizamos do ano de 2001.

1 de fevereiro de 2015

Entrevista à LER Dezembro 2014 «O que importa é que a gente escreva»

Revista LER
Entrevista de Francisco José Viegas
Dezembro de 2014

Pouco importa que o tempo julgue. O que importa é que a gente escreva.

Depois da publicação de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, António Lobo Antunes já terminou um novo romance, A Natureza dos Deuses, e está a escrever outro. No entanto, diz, não há «sentimento de urgência» - pelo contrário, trata-se de serenidade e plenitude.



Veio agora da Holanda e da Bélgica, onde foram lançados livros seus em festivais literários. Li uma entrevista sua ao Diário de Notícias, na qual diz que queria regressar a Lisboa porque precisava de continuar a escrever o livro, esse que está aí. É como se tivesse um sentimento de urgência em relação ao livro que está a escrever. Isso é de agora ou é de sempre?
É de sempre. Porque já me aconteceu, por exemplo, interromper um livro por 15 dias e não ser capaz de retomá-lo. Tive de atirar o material todo fora. É que já tinha perdido o ritmo… No fundo, tinha perdido o livro. Porque eu não escrevo com um plano muito detalhado,  às vezes é uma coisa muito vaga, dispersa… E tinha perdido o livro, estava com medo. Em relação a este, que provavelmente não vai ser publicado, estou cheio de dúvidas e de reticências. Um livro precisa de atenção permanente, precisa de que o seu autor esteja ali, dedicado, à espreita, de sentinela. Enfim, é preciso escrevê-lo todos os dias.

Uma dedicação permanente.
Sim, mas eu penso que isso acontece com todos.

É por isso que tem esse método mais ou menos rígido, de escrever das dez à uma, das duas às seis, das dez à meia-noite? É uma dedicação inteira.
Sim. Tem de ser. Eu não sei muito bem como é que as outras pessoas trabalham, mas aqueles escritores que eu conheço melhor trabalham assim. Até me aconteceu estar em aviões com escritores, em viagem, e um deles virar-se para mim e dizer «agora tenho de trabalhar», voltar-se para o lado e começar a escrever. O García Márquez escrevia nos aviões.

O António precisa estar em casa?
Não, não. Escrevo em qualquer lado.

Mas reparei que esse sentimento de urgência não o angustia nada. Pelo contrário, deixa-o com um sentimento de plenitude…
E de culpabilidade também. Sinto-me culpado quando não o estou a fazer. O que é estranho, porque eu não sei  em relação a que é que me sinto culpado, mas sinto-me culpado. A sensação que eu tenho é a de me terem dado uma tarefa, de me terem dado um compromisso para assumir, e eu tenho de cumprir. Porque um livro é dado. E eu não posso falhar esse compromisso.

Quem é que dá?
Não sei.

O António dizia, numa entrevista magnífica à Isabel Lucas, que os livros nascem dentro de si, acontecem, é como se os tivesse guardado lá dentro. Isso é um pouco aquela ideia muito romântica de que o escritor transporta um génio, uma voz, um certo número de livros…
Eu acho que todos nós sentimos a mesma coisa. Que temos uma coisa dentro de nós. O meu problema é para começar a escrever. Por exemplo: eu sento-me a este mesa, preparado para escrever, mas é preciso que uma parte da cabeça se feche para abrir uma outra parte que, normalmente, nunca está aberta, e que só se abre para escrever. E julgo que isso se passa, mais ou menos, com quase todos.

Acho que isso explica que, desde os seus livros da década anterior se tenha aproximado cada vez mais da poesia e da linguagem da poesia…
Acha? Eu não sou poeta, infelizmente.

Este último livro é muito marcado pela linguagem poética. Ou pela procura de expressão poética…
Se disser «pela procura de uma expressão», estou de acordo. Mas «expressão poética», não tenho. Não posso ter essa pretensão, porque eu até aos 19 anos só escrevia poesia. E então descobri que era má, muito má. E não imagina o sofrimento que isso foi para mim. Sentia-me completamente perdido, era um miúdo que estava na faculdade, completamente perdido e depois, eu tinha para aí vinte, vinte e um… não sei que idade é que eu tinha, quando o Almeida Feria publicou o primeiro livro. Que era muito melhor do que aquilo que eu fazia. Todos eram melhores do que eu. E então comecei a tentar escrever outras coisas. Não sei se é um vício, se o que é, mas depois já não era capaz de largá-lo. Eu escrevia todos os dias desde os 12 ou 13 anos. Nunca pensei em publicar. Foi tudo por acaso, como sabe… Claro que na vida de um autor há também um compromisso com o editor, como aquele que eu tive a certa altura, ainda no princípio: tantos livros para escrever, uma pessoa recebe dinheiro por isso, o que me permitiu deixar a medicina bastante cedo. Esse até pode ser um motivo…

É o seu motivo?
Não. Eu vivo com muito pouco.

Eu queria dizer que a obrigação de escrever não tem a ver com a existência de um contrato…
Claro que não, eu escreveria de qualquer maneira, mesmo sem publicar. Aliás, é uma coisa em que penso muitas vezes. Escrever, escrever, e não publicar. Guardar.

Mas consegue planear os livros que tem que escrever durante os próximos anos?
Ah, isso não. Neste momento, só tenho este. Há pessoas que têm dois ou três livros na cabeça mas isso nunca me aconteceu, nunca tive nenhum na cabeça. Eu acabo e fico sem nada. Normalmente fico dois ou três meses à espera. Leio, leio para aí oito ou nove horas por dia, suponhamos, mas, ao fim de uma semana, uma pessoa está farta de ler oito horas. E fico à espera. Faço exactamente a mesma vida que fazia antes, sento-me à mesa, e fico à espera.

Fica à espera. Mas precisa ter companheiros par ao ajudarem a esperar. Antigamente tinha o José Cardoso Pires, por exemplo. Ele era uma presença quase diária na sua vida.
Saíamos todos os dias… O Zé era muito generoso. Nunca se falou de livros, é engraçado. Nunca. Só no fim, ele dava-me para eu ler e corrigir, digamos assim, e eu dava-lhe a ele. Ele entregava-me páginas e páginas com sugestões e… Faz-me muita falta. Tinha um outro amigo, precioso, que era o Eugénio [de Andrade], que dizia que não gostava de prosa mas que era um óptimo leitor. Óptimo. O meu mal, foi gostar sempre de homens vais velhos. E o Zé não morreu velho. Tenho muitas saudades dele… Ainda hoje, quando toca o telefone às 10 da manhã, penso que é o Zé, porque era a hora a que ele ligava. O Zé, você conheceu-o, era um homem muito rugoso… Difícil. Mas nunca discutimos, nunca discuti com um amigo, nunca tivemos uma desavença, nada, nunca. Foi uma amizade extraordinária. Andávamos de braço dado, ele dava-me o braço, ele que era um homem duro e pouco demonstrativo. Só de vez em quando falávamos sobre os outros escritores. Uma vez mostrou-me uma coisa muito íntima, pessoal: ele tinha uma grande admiração pelo Redol, uma grande admiração e amizade pelo Redol. Aliás, ele nunca dizia «Redol», dizia sempre «o António». E o António morreu com 59 anos numa cama do Hospital de Santa Maria, com um cancro. Eu vi-o lá. Estava a acabar o curso e a fazer o estágio. E ver o Redol numa cama de hospital fez-me muita impressão. Senti aquilo de uma maneira tão injusta. E é engraçado, porque toda a gente conheceu o Redol. O Eugénio falava dele com uma admiração extraordinária. E o Zé falava-me muito de um romance que ele achava muito bom, que era o Barranco de Cegos, e depois dizia-me «mas há outros livros, enfim». Aí temos opiniões diferentes, o problema do António era que ele documentava-se tanto que ficava atolado debaixo da documentação e não conseguia voa com aquele ciclo «Port Wine». Ficava atolado. E então o Zé mostra-me uma carta. Na altura ele estava em Londres, no King’s College, tinha fugido à polícia, e o Redol escreveu-lhe uma carta de despedida porque ia morrer. A carta era em papel timbrado de um hotel, com uma coisa muito barroca, e na carta ele despede-se do amigo. «Zé, vou morrer, queria dizer-te o quanto, o quanto gosto de ti…» e por aí fora. A carta é comovente. E depois, no fim, uma coisa assim: «PS: já viste papel de carta com mais mania?» Isto é extraordinário, não é? Eu nunca o conheci, nunca falei com ele. Só vi ali deitado. Mas pela forma como as pessoas falavam dele… Só ouvi dizer bem desse homem. E como escritor não acho que ele seja mau, como as pessoas estão sempre a dizer. Longe disso.

Há uma série de autores que desapareceram das livrarias, das escolas. Fala do Alves Redol, mas há outros, como o Soeiro Pereira Gomes, Namora, Ferreira de Castro, uma série de autores… Mas agora a responsabilidade é usa. A figura do cânone é sua. Já imaginou que tem essa responsabilidade?
Nunca pensei nisso. Mas às vezes falam-me de escritores que me imitam. Não sei se é verdade ou não. Não é só em Portugal. Em França, um bocado por todo o lado. Agora há Antunes por todo o lado. Isso não é bom. A gente tem que escrever contra o escritores de quem gosta.

Sente essa responsabilidade?
Não, só tenho que fazer aquilo que consigo fazer, e fazê-lo o melhor que posso. Não, não sinto nada disso, responsabilidade e isso. Por exemplo, esse Ricardo Adolfo, não tem nada a ver, e parece-me que esse rapaz, se fosse editado… Ele precisava era de um editor, que é uma coisa que não há cá e faz muita falta. Nunca tive um editor. Nunca tive. Por exemplo, na Alemanha, a editora faz um editing com a tradutora. E corrige o alemão e muda… Aqui, os escritores precisam disso. Qualquer escritor precisa. Há ali um livro espantoso chamado The Sons of Maxwell Perkins, que é a correspondência entre o Maxwell Perkins e três dos seus «filhos», Hemingway, Scott Fitzgerald e o Thomas Wolfe. As cartas dele são de uma delicadeza espantosa. Como ele consegue modificar o Great Gatsby sem nunca magoar o autor, é extraordinário… Vale a pena ler esse livro, não sei se conhece…

Não, não conheço.
The Sons of Maxwell Perkins, vale a pena ler.

E o António aceitaria esse trabalho de editor?
Claro que aceito. Tomara eu. Estou sempre à procura.

É nisso que penso quando vejo os seus manuscritos… Como é que se passa desta folha minúscula, que não consigo ler, até à folha impressa? É um trabalho de minúcia. Como é que lê esta folha pequena, de um bloco do hospital?
Com uma lupa. Tem de ser com uma lupa, às vezes, mas foi assim que eu a escrevi. Depois vou trabalhar sobre esta [formato A4], não é? Normalmente, faço 10 revisões. Depois da prova ter sido passada à máquina, quando vem assim, direitinha, parece uma coisa escrita por outro, é mais fácil continuar a corrigir. E vou corrigindo e corrigindo. Depois entrego, e não vejo mais, nem provas, nem nada.

Há uma certa impiedade nisso, de não ler mais o livro. O António estava a dizer que não está a gostar do que está, neste momento, a escrever, e colocou a hipótese de deitar tudo fora…
É sempre uma a primeira hipótese que eu ponho, mas depois desisto da ideia e passo para a fase de corrigir tudo. E, finalmente, voltar a escrever tudo.

Essa ideia de deitar tudo fora não é demasiado cruel?
Se o livro não presta, não. Mas é sempre preciso voltar a escrever, uma e outra vez, e depois outra. Quando a gente pensa que só primeiro capítulo de Guerra e Paz tem 14 versões… É extraordinário. Uma editora espanhola publicou duas versões de Guerra e Paz, versões intermédias, que nada têm que ver com a versão definitiva. Estas versões já são muito boas, e o homem continuava a corrigir, a corrigir. E é um livro que ele publica aos 40 anos, sem parar de corrigir. Tenho ali fotocópias de páginas de Tchekhóv, e não há uma linha que não esteja corrigida. Uma linha.

Continua a apreciar Tolstói, os russos, Tchekhóv, o Turguenév… Balzac, também. Já o ouvi dizer coisas maravilhosas sobre Balzac. Mas, por outro lado, isso também é um pouco amargo. É como se tivéssemos perdido a grandeza do grande romance do princípio do século XX. Pelo menos em duas ou três entrevistas declarou uma grande saudade desse tempo, do tempo literário de Tolstói.
Isto não é um desporto de competição. E um bom livro é uma alegria enorme, venha de quem vier. Mesmo de uma pessoa com quem eu não simpatizo. Há escritores com quem não simpatizo e gosto da obra deles. E escritores de quem gosto muito – e não gosto da obra. Gosto da pessoa e não dos livros. Sabe, às vezes uma pessoa sente-se muito sozinha, e eu precisava de alguém que lesse os meus livros, que ajudasse a melhorar os livros. Tive a Tereza Coelho, que foi extraordinária e muito importante para mim. Ela dizia-me: «Isto não está bem, você pode melhorar aqui, você pode fazer isso de outra maneira». E tinha razão, normalmente. Enquanto trabalhámos juntos, ela foi extraordinariamente importante, ajudou-me muito a fazer coisas melhores e tinha razão nas coisas que dizia. Nós, às vezes, ficamos magoados, mas acho que aceito bem as críticas. Não gosto das críticas de jornal, que têm muito mais a ver com a simpatia e a não simpatia.

Mas o António tem dois bons leitores, o Steiner e o Bloom, por exemplo. Quem tem essa sorte não pode queixar-se de mais nada.
O Steiner era terrível, tivemos duas conversas, estávamos a falar de literatura inglesa. A certa altura eu disse que gostava de Emily Brontë [ou do seu único romance O Monte dos Vendavais], ele fez um silêncio muito comprido… Eu não sei se o conhece pessoalmente, mas estar com ele é espantoso, é um homem muito amável, um homem único, tudo o que faz é bom. Bom, menos os romances. Bom, eu digo isto da Emily Brontë, ele faz um silêncio comprido e pergunta: «Não acha que é um bocadinho histérico, o livro?» Isto nunca me tinha ocorrido. Então eu dei por mim a olhar para a Emily Brontë com os olhos do Steiner. Porque é um grande crítico. E, de facto, ele tem razão, o livro é um bocado histérico.

Por acaso, quando falou de literatura inglesa pensei que ia gostar mais de Orgulho e Preconceito
E gosto. Da Jane Austen eu gosto muito mas não sei porquê falou-se de Emily Brontë, e eu disse: «Olha, era uma mulher com quem eu nunca me casava.»

Mas ter dois leitores tão extraordinários, como Steiner e Bloom, isso não o deixa contente?
Deixa. Sobretudo o Steiner porque o conheço. Foi na LER que saiu uma entrevista. A cara dele, a maneira como ele se comportou comigo. Depois, chegar lá, olhá-lo… ele tinha um piano na sala: «Este piano era do Darwin.» Fiquei a olhar para o piano. A serenidade dele. A humildade. Aquele homem, eu sou só um postino, um carteiro… Ele é muito mais do que isso.

Mas é engraçado, porque tanto o Steiner como o Bloom, que não são amigos…
… O Bloom sente uma grande competição em relação ao Steiner. O Steiner provoca muita inveja.

Porque o Steiner é brilhante na capacidade de relacionar a literatura com outras coisas. Com a matemática, com a música…
E é um homem pequenino e aleijado. O braço direito dele é deste tamanho [metade do braço esquerdo]. E a mãe, que detestava a auto-piedade, obrigava-o, em criança, a escrever com a mão direita.

Bom, mas apesar de eles não se darem, não se conhecerem, tanto um como outro partilham a noção de que o romance de hoje tem pouca consistência.
E nós temos de concordar com eles.

Que a velocidade e o ressentimento têm destruído o próprio juízo sobre a literatura.
Qual dos dois?

Bloom…
Ah, logo vi. Essa é mesmo à Bloom. Bom, mas havia um crítico que eu prezava muito, um tipo espanhol, que morreu novo, e que escreveu algumas coisas maravilhosas, Rafael Conte. Em Itália, há um homem que escreveu sobre mim coisas extraordinárias, um tipo que eu admirava já há muito e nunca imaginei que ele pensava aquilo de mim: Claudio Magris. O tipo escreveu umartigo, no Corriere della Sera, tão inteligente e generoso. Tive essa sorte. Isto deixou-me um bocado aflito. Tenho um medo de os desiludir.

O António é o nosso decano?
Está a chamar-me velho?

Não. Estou a dizê-lo porque é um «autor forte» no sentido em que Bloom usa essa noção…
Eu não conheço muito bem a obra de Bloom. Do Steiner conheço toda, do Bloom dois ou três livros. E têm visões muito diferentes sobre a literatura.

Vamos então entrar neste livro…
Eu preferia que entrasse no que vem a seguir a este, e que está pronto. Julgo que é a melhor coisa que eu já fiz. Sairá talvez para o ano, no fim do ano que vem.

E já tem título?
Tem. A Natureza dos Deuses.

Como é que chega aos títulos?
Normalmente, chego ao fim e não tenho nenhum. Normalmente, é já no fim, mesmo no fim. Nunca comecei pelo título, mas gostava de começar. Este que estou agora a escrever, se chegar a ser livro, tinha pensado numa homenagem ao Bartók e ia chamar-lhe A Última Porta Antes da Noite. Não sei se é um bocadinho policial. Que é um dos meus sonhos, escrever um livro policial. Aliás, tinha combinado escrever um policial a meias com o Zé [Cardoso Pires], cada um com capítulos alternados. Não foi possível.

A certa altura, no meio das entrevistas que deu agora, disse uma coisa que me surpreendeu. Que foi, a certa altura da sua vida…
Posso só interromper? Eu queria que esta fosse a última e depois não houvesse mais entrevistas na minha vida. Em Portugal. Porque não faz sentido. As pessoas têm direito aos livros, mas aquilo que eu digo são banalidades.

Isso é diferente, um bocadinho, das apresentações. Já disse que não deve haver sessões de lançamento de livros, apresentações…
Sim, nunca mais fiz…

Mas há pessoas que querem falar consigo, ouvi-lo falar.
As pessoas têm direito aos livros, não têm direito a nós. Nós somos sempre uma desilusão. As pessoas esperam de nós coisas bestiais, que a gente diga coisas muito inteligentes. A maior parte das vezes não diz. Uma vez, um homem encontrou a Sarah Bernhardt na rua, reconheceu-a e perguntou: «Ah, Vossa Excelência é a Sarah Bernhardt?» Resposta: «Vou ser esta noite.» Quando nos pedem que digamos coisas inteligentes é como pedir a um acrobata para dar saltos mortais no meio da rua.

Ou que estejam sempre a falar dos seus livros. E que estejam sempre a falar de livros. Esta ideia de que os escritores só falam de livros é um bocadinho cansativa, também.
Com o Zé, nunca falávamos de livros. Às vezes, falávamos de outras pessoas, do género «gosto, não gosto». Não passávamos daqui. Por exemplo, ele não gostava do Scott Fitzgerald. Pronto. Dizia que não gostava, e acabou. Eu dizia que gostava e pronto, não andávamos muito mais do que isso. Eu gostava do Hemingway, mas eu não tenho, de maneira nenhuma, a paixão que ele tinha.

E gostava de Mailer.
O [Norman] Mailer é uma pessoa extraordinária. Estive uma semana em Gotemburgo com o Mailer e com o [Günter] Grass. Tinha um humor, aquele homem… O Mailer era engraçadíssimo e tinha um sentido de humor lixado. Eles não percebiam francês e o Mailer não falava francês, mas só discursava em francês. Um francês inventado por ele que ninguém percebia, e ficava tudo ali quieto, durante um quarto de hora, enquanto ele discursava, e no fim aplaudiam. E ele piscava o olhos para nós. Piscava o olho para nós e continuava. E os discursos eram todos assim, num francês que não existia, e depois vinha nos jornais suecos que ele tinha feito um discurso interessantíssimo sobre literatura. Ele não sabia dizer uma frase em francês.

Os Duros Não Dançam é um grande livro. Curiosamente, acho um livro muito contaminado pela poesia. É uma tentação em Mailer. Até naquele livro sobre a CIA, Harlot’s Ghost, 1400 páginas, há essa contaminação em muitas páginas… Sempre achei que as pessoas que não liam Mailer é que achavam que ele era o rei da insensibilidade.
Ele ficava muito contente, se tivesse ouvido isso. Estou a falar a sério. Ele vivia amargurado porque não era muito considerado por certa crítica poderosa, com razão ou sem ela. É difícil fazer juízos de valor sobre pessoas de que a gente gosta. Agora, um escritor é um escritor, e ele é muito bom. Essa questão da insensibilidade é muito interessante… Olhe, uma vez fui dar uma entrevista, daquelas que fazem na Public Library, em Nova Iorque. Era com duplas, éramos dois. E foi considerada a melhor entrevista do ano, fiquei todo contente. O meu parceiro era o Mike Tyson. Ganhámos os dois. Ele deu uma entrevista brilhante. A gente pensa que o Mike Tyson é uma besta, um monte de músculo e indiferença. Mas é de uma candura notável. Uma inteligência cândida. Mas é como os grandes jogadores de futebol: cândido mas não é ingénuo.

A Joyce Carol Oates gostava dele.
Por causa do boxe. Mas eu para o boxe já não tenho muita paciência.

O Normam Mailer tinha aqueles textos sobre o boxe…
Ah, esse livro é fundamental, extraordinário. Aquele sobre o combate em África [The Fight]. É um grande livro.

Não gostava de fazer uma grande reportagem? Um livro-reportagem.
Andei a pensar nisso, sobre a Volta a Portugal. Mas há um livro do Dino Buzzati sobre o Giro, e acho que já não vale apena. Era no tempo do [Gino] Bartali e do [Fausto] Coppi. E tenho ali um livro também sobre a primeira Volta à França que é muito bom, muito bem feito. Uma reportagem feita por um escritor. Isso tinha vontade de fazer. O problema é que eu escrevo muito devagar. Quem escreveu maravilhosamente sobre isso foi o [Antoine] Blondin, que é um autor que está agora a ser recuperado, de repente. É um francês a quem ninguém liga. E sem o Blondin não tinha havido Memória de Elefante nenhuma. As pessoas apontam grandes nomes como influências para esses meus primeiros livros, andam à procura não sei de quê, mas eu acho que é o Blondin. Tenho dificuldade em distinguir qual dos livros dele me marcou mais, tenho para ali o Blondin todo porque foi muito importante para mim. Na adolescência e ainda hoje. Foi uma porta tão feliz.

Lembro-me dele, muito envelhecido, de boina…
Ah, horrível e feio…

… e lembro-me de uma entrevista. Uma conversa fantástica.
Uma grande facilidade de expressão, quando falava e quando escrevia. Mas estava tão alcoolizado e destruído… Morreu novo. Viu fotografias dele em novo? Era de uma grande beleza física. É um homem bonito. Os seus últimos anos foram vividos com o cancro, até já não dizer coisa com coisa. Mas este homem para mim, foi decisivo. A gente pensa que são os Shakespeares que são importantes para nós… Para mim foram estes escritores que eu ia descobrindo com 14, 15 anos.

Quem são esses escritores? Além de Blondin.
O Blondin foi decisivo. Ninguém falou do Blondin porque não o lêem, nem aqui nem em França. Um outro livro que foi decisivo para mim, e que se nota é de um autor de quem estão a fazer a reedição da obra, e estão a sair biografias: foi o A Queda, do [Albert] Camus. Esse livro foi muito importante para mim, lido para aí com 15 anos. E continua a ser importante.

Passados estes livros todos, o António não pode dizer que escreve porque não pode dançar como o Fred Astaire…
Isso é evidente.

Então para que serve tudo isto?
Cada vez para menos. Eu tive três cancros nos últimos sete anos. Tive um há sete anos. Nos intestinos. Cheguei lá e perguntei: «Que chances é que eu tenho? Trinta, quarenta por cento?» O meu sentimento era de espanto. Nesse mesmo dia, disseram-me que tinha ganho o Camões. Eu queria lá saber do Camões para alguma coisa. Foi uma operação complicada. Estive 18 dias em Santa Maria. Era horrível. E era exactamente como Proust contava: passava as noites à espera da manhã. Como se a manhã me fosse salvar de qualquer coisa. Não me salvou de nada. E depois a quimio. Tudo aquilo. Há um ano e tal, dois anos, um cancro em cada pulmão. Um tinha cinco milímetros e o outro oito. Foi a minha sorte. Falei com o oncologista, que é um professor da faculdade, que é muito bom. Segundo o Professor Sobrinho Simões, é o nosso melhor oncologista, Luís Costa. Um homem novo, com 50 anos. Fui operado. Tiraram-me os dois tumores. Ele disse: «Vou fazer-lhe uma quimioterapia muito dura. Que pode dar barraca. Se não der barraca, você fica curado.» Então, os meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro do ano passado foram quatro meses a fazer quimioterapia. Depois daquilo, eu não podia sequer mexer-me. E fiquei curado. Agora estou à espera da próxima. Isto tudo relativizou muito a importância da literatura. Percebi que, sim senhor, ia haver imortalidade, mas que eu ia morrer como um cão. E vou morrer como um cão, como toda a gente. E eu pensava sempre: «Vão ficar os livros, vou ficar vivo através dos livros.» Mas ninguém fica vivo através dos livros. Os livros podem ficar mas são independentes de nós. Oxalá fiquem. Mas os livros não ficam o tempo todo. Dos grandes dramaturgos de que Aristóteles fala, não sobra nada. E não estão lá o Sófocles, nem o Ésquilo, nem o Eurípedes, nem outros nomes que se perderam completamente entretanto. Mesmo do Ésquilo restam fragmentos. Vai desaparecer, enquanto o Euclides vai continuar vivo. De qualquer forma, por muito bom que seja o nosso trabalho, ele vai acabar por desaparecer. É uma questão de tempo.

Neste livro há uma personagem que diz: «Não aguento a ideia do fim.» Todas as suas personagens temem a ideia do fim?
Como toda a gente. Estou a lembrar-me do Professor Luís Sobrinho, da Faculdade de Medicina, que me disse várias vezes: «Ninguém está preparado para morrer.» Ninguém. E se nós pensarmos um bocadinho, é verdade. Nós vivemos pequenas eternidades. E pensamos que não vamos morrer nunca. Estamos certos de que não vamos morrer nunca. Mas vamos morrer. E o que vai acontecer à nossa obra? Por outro lado: isso será importante? Quando eu estava doente não era importante.

O que era importante?
Viver. Olhar, ver o sol, andar. A primeira vez que saí, que fui à rua. Mal podia andar, amparado às duas miúdas. Mas andava. E depois, a humilhação da doença. Por exemplo, estarmos numa cama de hospital e vir a enfermeira e levantar-me as partes para limpar o rabo. Eu estava com fraldas. Como se fosse uma coisa qualquer. E era uma coisa qualquer. Isso mudou muito a minha maneira de olhar para as coisas.

Mudou muito a sua forma de escrever?
Isso eu não sei dizer. Acha que também mudou?

Mudou. Por isso é que falei desta ideia. Não queria falar da sua doença, mas há um crescimento na direcção da poesia. Muito mais na direcção da poesia.
Das coisas anteriores às palavras?

E aparece Deus, curiosamente. Nessa altura, o António disse que não queria que Deus o salvasse da morte. E eu pensei: «Ele não quer que Deus o salve da morte porque não quer ficar a dever-lhe nada.»
Isso é maldoso, porque é verdadeiro. Sabe como me aproximei de Deus? Foi através dos físicos. Dos grandes físicos, matemáticos, etc. Eram homens profundamente crentes. Simplesmente, o Einstein dizia: «É completamente estúpido, porque temos a ideia de um deus  vertebrado e gasoso» - o que eu acho uma definição espantosa. Que é uma coisa que Deus não é. E também não temos o direito de pedir a Deus, porque Deus tem mais do que fazer do que ocupar-se de nós. Há um provérbio húngaro, que diz que «na cova de um lobo não há ateus». E quando perguntaram a Hemingway se ele acreditava em Deus, lembra-se da resposta dele? «Às vezes, à noite.» Não tem necessariamente que ver com a morte, mas todas as religiões, mesmo as religiões sem Deus, garantem a vida eterna. A gente não consegue viver sem o corpo, sem os sentidos. Como será isso? Não sei. Lembre-se de Tolstói, no diário: «Lutei para ser melhor do que Moliére. E sou. E depois?» O que há de angústia naquele homem, que era tão vaidoso… O Gorki conta, nas recordações sobre escritores, que estava em Yasnaya Polyana para passear com o Tolstói; a certa altura aproximaram-se de um bando de cavalos selvagens e o Tolstói continuava a aproximar-se dos animais, e o outro disse: «Leon Nikoláievich, pára aí!» Mas não: «Os cavalos afastam-se para Tolstói passar». Ele tinha perfeita consciência do que estava a fazer. No fundo, não há ninguém que escreva, que não ache que é o melhor do mundo. Tem que achar que é o melhor, senão não escrevia. É inevitável. Tem de ser. Senão, para quê este trabalho todo?

E com quem é que, nessa altura, se vai comparar?
Com ninguém, porque nessa altura se percebe melhor aquilo que eu dizia: isto não é desporto de alta competição. E há muitas maneiras diferentes de se ser muito bom. Isso tudo (a doença, a angústia desse período, mas também a sensação de liberdade) foi óptimo para mim, porque me deu uma coisa boa, um sentimento que eu cada vez acho melhor em mim: a capacidade de admirar pessoas diferentes de mim, que não têm nada que ver com o que eu faço, ou comigo. De perceber que escritores de que eu não gosto, são bons. Por exemplo, o [Robert] Musil chateia-me de morte, mas é bom; o Thomas Mann chateia-me de morte, mas é bom. E há escritores de quem eu gosto, e que são maus. Eu não tenho dificuldade, agora, em dizer isso. E faz-nos ganhar, ao mesmo tempo, uma humildade, uma distância, uma vaidade diferente – porque não vai ficar nada. Ficar nos livros, de que é que serve?

Não vai ficar nada? Acho que não pensa mesmo isso…
De nós ficam as saudades dos amigos. Como eu sinto do Melo Antunes, do José Cardoso Pires, por aí fora, dos poucos amigos que tive. A morte de um amigo é uma perda tão grande. E que um amigo não seja lido também é uma dor enorme. Quem é que lê o Zé agora? E os livros do Zé são fantásticos. Há um de que gosto muito: a Balada da Praia dos Cães. É muito bem montado. Muito bem construído. Ele não merecia estar tão esquecido. Ele e outros.

E esse novo livro, aquele que já terminou e que vai sair no próximo ano… Que inquietações é que o levaram a escrevê-lo?
Foi um livro que veio. Podia ter feito aquilo de forma diferente. E gostava de continuar naquele tema. É  um livro acerca de uma grande família, muito poderosa, cheia de ramificações… Acho que é uma coisa bem feita. O melhor livro que escrevi, para ser honesto. Deixo as máscaras, para quê? Acho que é um livro do caraças.

Porque é que esse livro é tão maravilhoso? Porque é que vai ser tão bom? Porque é a melhor coisa que já escreveu?
Ao nível da escrita. Acho que consegui ir mais longe do que das outras vezes. Faz-me lembrar um crítico francês muito maldoso que, quando o Malraux publicou Les Noyers de l’Altenburg, disse: «Malraux está, finalmente, na plena posse de todos os seus defeitos.»

Quer isso dizer que é um «livro definitivo»?
Que é uma coisa a que eu cheguei muito tarde. Eu andei anos, e anos, e anos a dizerem-me que toda a gente andava a fazer coisas melhor do que eu. Levei anos até ganhar confiança. E foi tudo à custa de trabalho. No Scott Fitzgerald aquilo parece cristal de rocha. E eu tenho que conquistar isso. Consegui isto. No caso de Fitzgerald os livros estão trabalhados porque o Malcolm Cowley o obrigava a trabalhar e a trabalhar, mas ele tinha 29 anos quando do seu melhor livro. Era uma criança, quase. Não tinha atingido a maturidade. E há outra coisa de que eu tenho medo, que é o declínio, os últimos livros, as últimas tentações. Já falei do Tolstói, mas angustia-me aquela período de Ressureição e todos os textos finais. E a gente não ter consciência disso. Como o Jorge Amado não tinha. O Amado era um homem maravilhoso e a quem devo muito, muito, pessoalmente. Dava-me beijos. E a mulher perguntava-lhe: «Porque estás sempre a beijá-lo?» ‘Eu gosto de lamber os meus filhotinhos.» E depois tinha frases extraordinárias, assim em conversa… Estávamos a falar de mulheres e lembro-me de ele dizer: «A última mulher que andou na linha, o trem matou.» Era um homem alegre.

Na sua «galeria de personagens», o António tem uma grande ternura para com os derrotados da História. Aqueles que perderam os combates.
Mas não é esse o nosso destino? Encaminharmo-nos para a derrota. Havia um mestre de psiquiatria francês, que nunca conheci, mas tive que estudar pelo tratado dele. Chamava-se Henry Ey, e dizia que nós triunfamos na derrota. Nas nossas vidas não podemos triunfar na vitória. Triunfamos na derrota. Porque vem sempre o fim, a ameaça do fim. Não estou a ser pessimista, e acho que estar vivo é um privilégio tão grande, podermos estar aqui a conversar. Só o facto de estar sentado passou a ser uma alegria na minha vida. E comecei a ter pequenas alegrias que não tinha. E que são tão grandes. Um dia de sol. Um dia tão grande para mim. E eu não tinha estes prazeres. Antes de ter estado doente, não tinha. E julgo que isso me ajudou a escrever. Por exemplo, o sentimento da inveja, aquele sentimento tão rasca, julgo que deixei de ter, e fiquei melhor pessoa. Não se podia dizer mal em casa do meu pai, fosse de quem fosse, mesmo de pessoas de quem ele não gostava. Não se podai falar da vida dos outros. «Quem és tu para julgar?», perguntava ele. Eu, realmente, não sou ninguém. Que direito tenho eu de julgar? E, então, em literatura, que é a nossa vida… Sem a literatura nós não vivíamos. Não vivia bem. E a literatura não é uma coisa de gente que viveu bem, porque a angústia é permanente. E o sofrimento é permanente. E está cá sempre dentro.

Mas diz que a doença…
… me tornou mais alegre. É a primeira vez que eu estou a falar nisto. Se um dia for comigo à sala de quimioterapia do Hospital de Santa Maria, não vê uma pessoa a chorar. É um hospital do Estado, há pessoas pobres, mas as pessoas sorriem, dizem «boa tarde», conversam, têm esperança. Devem sofrer muito, mas não são tristes. Nunca ouvi uma queixa. Foi uma grande lição. Quando estava a fazer radioterapia, no primeiro cancro (aquilo é uma sala enorme com gente à espera), estava lá um homem, vindo da província. Naquela altura ainda os podiam trazer de ambulância, agora não podem porque as câmaras não têm dinheiro, e as pessoas morrem… Era um senhor de oitenta e tal anos, de fatinho de vir ao médico, de uma ladeia do Alentejo. O fato estava cheio de nódoas, muito velho, não tinha gravata, e quando chamavam o nome dele, avançava como um príncipe. E eu nunca vi uma gravata tão bonita como aquele que ele não tinha. E a gente fica com uma admiração pelas pessoas, pelos portugueses. As pessoas são extraordinárias. A coragem, a dignidade. Sentia-me rodeado de príncipes quando lá estava, e pensava: «Eu não chego aos calcanhares destes tipos.» Então, comecei a pensar que não podia esmorecer, nem que seja em nome desta dignidade, desta coragem. Quando lá vou, vejo pessoas que não conheço de parte alguma, pessoas que ficam tão contentes com uma palavra. Sabe, antes de ser operado da primeira vez (foi uma operação muito comprida, de bastantes horas, porque tiraram o intestino e também o apêndice, a vesícula, aquilo já tinha apanhado várias coisas, bexiga e por aí fora), eu estava na sala para entrar, na maca, à espera da anestesia final e, de repente, sinto que me estão a dar a mão. Era o cirurgião. Não imagina como foi importante para mim. Ele ficou de mão dada comigo até eu adormecer. E, então, pensei: «Bolas, a função da literatura é esta: estar ali com uma mão apertada na nossa.» Um bom livro é isso. É uma coisa que nos dá a mão. E é uma fonte de alegria, de prazer. Há uma frase do Faulkner de que gosto muito. É quando ele diz: «Descobri que escrever é uma coisa extremamente nobre, faz-nos levantar sobre as patas de trás, e projectar uma enorme sombra.» É tão bonito, isto. E tão verdadeiro. Quando nós lemos um escritor de que gostamos, um livro de que gostamos, é isto que a gente sente. Ou ouvimos um músico. Ou vemos um quadro. Quando eu vejo um quadro de Rothko fico logo mais importente. E é isso que a literatura me tem dado nestes últimos tempos. Depois da doença, esta frase do Faulkner começou a fazer muito sentido para mim. «Faz-nos levantar sobre as patas de trás, e projectar uma enorme sombra.» É preciso admirar os escritores, é preciso amá-los. Eu teria imensa dificuldade em fazer crítica, porque, acho que não era capaz de dizer mal de um livro. Porque nós nos confundimos com o livro. Porque nós escrevemos para ser amados.

Mas é como se me dissesse que a doença e o confronto com a morte nos podem tornar melhores – mas, provavelmente, não o amor…
Ainda não tínhamos falado do amor. O amor é uma coisa tão privada… É muito diferente da literatura.

No seu plano, nunca pensou em escrever as memórias?
A minha vida não tem nada. Quando a Tereza estava a fazer aquela fotobiografia foi falar com o meu pai. Falar com a família e tal… Então apanhou o meu pai. «Vai fazer uma coisa sobre o António? Mas ele não tem nada. São só livros e a guerra. O resto, não lhe aconteceu mais nada, passou o tempo todo a escrever.» E tem uma certa razão.

Conheceu pessoas. Tem a memória destes anos todos, desde 1979 até agora, como autor. Ainda sente alguma tensão quando fala da guerra?
Não falo da guerra. Mas, por exemplo, a minha mãe morreu há um mês, e voltaram-me os sonhos da guerra. Tudo misturado com muito remorso. Nunca tive uma relação muito quente com ela. Achava que não gostava muito dela. Pus ali o retrato dela, na sala. Afinal, gostava dela.

E, portanto, nunca pensou em escrever as memórias?
Não, não tenho nada para contar. É isto. É estar sentado a uma mesa a fazer isto. De onde é que vem, aquilo que acontece nos livros? Não sei. Este livro [em manuscrito] é sobre gente muito pobre. Uma aldeia qualquer que nem tem nome. De onde é que eles vêm? De que parte de nós? Não sei. E também não sou um bom entrevistado, não digo coisas muito interessantes. Este livro comecei-o a 15 de Maio. Ainda falta tanto. Esse é o problema, não tenho tempo. Não tenho tempo. Não tenho tempo. Tal como o Mozart escrevia no Requiem, à margem: não tenho tempo, não tenho tempo. E o Évariste Galois, o prodígio da matemática, que passou a noite antes do duelo em que morreu, a escrever, a escrever. Escreveu as descobertas dele, que levaram a dividir a matemática entre antes de Galois e depois de Galois. Com 19 anos e aquele tipo morre. E é assim. A vida é uma coisa, os comentários sobre ela são sempre tão imperfeitos.

Por isso eu achei extraordinária essa urgência, aquela coisa de dizer: «Quero voltar para casa, quero voltar hoje, quero ir-me embora porque quero escrever…»
Eu costumo levar o livro quando é mais tempo. Mas era pouco tempo e ia com a Cristina. É difícil. Quando viajo sozinho, é mais fácil, peço sempre ao editor que me dê quatro horas para escrever…

Mas essa ideia, essa tranquilidade, esse gosto em andar, o gosto em ver a manhã, acho-o numa espécie de plenitude sem mágoa.
Eu fui muito afortunado. Até na doença. Tive doenças muito graves. Tive uma meningite, tuberculose, três cancros. E fui muito afortunado. E tenho amigos, poucos. A gente dá-se cada vez com menos gente, o nosso universo parece ficar cada vez mais pequeno. E fazer novos amigos é muito difícil. Embora a amizade seja como o amor: é instantânea e absoluta. É do Faulkner, também. Que é um belo escritor. Como diz o Steiner, «quem não é influenciável pelo Faulkner»?

E dos seus livros, quais são aqueles de que mais gosta?
Sinceramente, não tenho nenhum…. Eu não os li.

Contou-me que, outro dia, releu o Memória de Elefante
Não foi reler… Vi assim, a correr, enquanto almoçava. É curioso como foi um livro importante, porque veio a Revolução e a gente estava à espera das obras-primas que estavam nas gavetas e que os autores não podiam publicar (e depois apareceu quase nada…). Mas nessa altura os cenários eram coisas distantes, países da Antiguidade, imaginários, tudo de ficção pura. Como Walt, do Fernando Assis Pacheco. E aquilo foi, praticamente, um primeiro livro. Tinha havido antes O Que Diz Molero, que é um livro de que eu continuo a gostar. E era muito amigo do Dinis [Machado], como sabe. Que era um homem extraordinário, espertíssimo. O Molero continua um belo livro. E nós ficámos sem amigos porque, quando o livro saiu, em 1979, convidaram-me para ir à Associação Portuguesa de Escritores, que era ali na Rua do Loreto. Aquilo estava cheio, tudo queria conhecer o António Lobo Antunes. Para mim foi importante também porque estava lá o Dinis. E ficámos amigos para a vida. Estavam lá todos.

Como recorda agora esses momentos? Qual era a sensação? O António era muito tímido mas, por outro lado, estava na força da idade…
E sou, sou tímido na mesma, sou mais ainda. Não me vê em parte nenhuma. Na altura tinha 30 anos, saía, andava, escrevia… E apaixonava-me. Saía à noite. Depois tive uma altura muito difícil, que foi o vício do jogo. Aí, durante um ano não escrevi. Tinha muitos doentes, tinha 30 anos mas tive a sorte de ter professores que gostavam de mim e me mandavam os doentes que não queriam. Então, eu saía do consultório e, como nessa altura morava no Monte Estoril, passava pelo Casino. Todas as noites ficava ali. Para largar aquilo foi horrível. Eu tinha lido O Jogador [Dostoiévski], mas não acreditava que fosse tão difícil sair daquilo. Eu vi-me à brocha para sair daquela merda. E agora não entro.

Eram conhecidos os seus jantares desse tempo…
Nessa altura morava num apartamento pequenino, que tinha uma sala e um quarto. Sozinho. Não tinha telefone. E atravessar gripes sozinho era uma chatice. Depois, jantávamos à sexta ou ao sábado. Era com o Zé, com o Dinis e com o Artur Semedo. Nunca conheci muitos escritores, quer dizer, conhecia-os todos de apertar a mão. Eu ria-me o tempo inteiro porque eles tinham muita graça. O Artur tinha imenso humor. O Zé tinha um humor frio mas às vezes tinha mau vinho, era uma chatice. Ele era muito corajoso e era valente. O Artur chamava ao Dinis «o magala». «Dinis, és um magala, filho. És um magala.» Isto num bar que estava muito na moda – porque eles bebiam e eu não – que era o Procópio. E o Artur era um bonito homem, com uma voz tonitruante, às vezes alta demais. «O minete é uma coisa muito difícil, toda a gente fala em boas fodas, quem fala em bons minetes?» Tudo a olhar. «É uma coisa como uma concha, pões as mãos nas nádegas e bebes». E no entanto, era um homem que vivia para a mulher, só para a mulher. Interrompia as filmagens para ir dar o almoço à mulher. A mulher morreu, ele meteu-se na cama e morreu passados meses. E foi assim desde que a conheceu: até ao fim da vida, o Artur nunca mais dormiu com mulher nenhuma. Eu tinha uma inveja daquilo. Tinha uma tuberculose, estava em casa, e era o Artur que tomava conta dela. E aquele homem que dormiu com toda a gente, com a Amália Rodrigues, com actrizes do seu tempo, que teve para aí romances tórridos com senhoras da sociedade, em barda, ficou rendido à Pilar até ao fim da vida. Lia muito. Parecia inculto, mas não era nada. Espertíssimo.

Ainda se lembra dessa sessão na Associação Portuguesa de Escritores?
Lembro-me muito bem. Estava tanta gente, tanta gente. E eu muito espantado, porque não conhecia ninguém. Não conhecia escritores. Ficava ali a olhar para eles, na Cervejaria Coral, quando vinha do liceu para casa, e lembro-me de ver lá o David Mourão-Ferreira, que era um homem de quem gostei muito. Era um homem bom, generoso, extraordinariamente sedutor. Ele fez bem a tanta gente, foi generoso para tanta gente, desde o Urbano à Maria Alzira Seixo, sei lá, tanta gente. Depois em 1985 deram-me aquele prémio que, na altura, fazia vender muito, o prémio da APE – e eu disse que não havia crítica em Portugal, aquelas coisas… Estava ali cheio de tesão, a querer afirmar-me, coisas da época… E o David disse: «O António, ao dizer isso, já está a tomar uma posição crítica…» Tinha toda a razão. Ele sabia dizer as coisas, nunca era agressivo. Era um senhor, uma cavalheiro, e um bom poeta.

Fala cada vez mais de poetas…
Sempre foi a minha fixação. Aquela estante [aponta] é só poesia. A poesia continua a ser, para mim, uma fonte de prazer. A quantidade de poemas que eu sei de cor. E depois descobri umas coisas. O João Luís Barreto Guimarães é muito bom. E nós temos grandes poetas. Agora, grandes ficcionistas já é outra conversa. Mas isto é um problema mundial. Os editores perguntam-me: «Diz lá alguém que valha a pena editar, para a gente comprar.» E um gajo vê-se à rasca para dizer um nome.

A que atribui essa falência na ficção?
Não sei. Não percebo. Será o computador? Já viu como é dramático? Porque, dantes, a gente sabe a visa do século XVIII, XIX, pelas cartas. Os diários. Aquelas cartas intermináveis que eles escreviam uns aos outros. A correspondência do Balzac, isto e aquilo. O que vestiam, o que comiam. Agora são e-mails, que são coisas mais orais. Ninguém vai saber nada de nós. Bom, há as entrevistas… Agora estou a ler as entrevistas da Paris Review. Quase todos eles são muito melhores a escrever do que a responder às perguntas. As respostas são muito mais pobres do que os livros deles. Eles entrevistaram centenas de escritores. Não há um que me tenha enchido de entusiasmo. Há coisas pequeninas que eles contam. Mas, de resto, são fracas. Mesmo quando eles as revêem, como a do Saul Bellow. Eu não sou grande fã do Bellow, mas os seus livros são muito superiores. E há uma, a do Borges… Olhe, aí está. É um bom escritor. Eu não gosto, mas ele é bom. O cabrão é bom. Há uns anos, eu diria «não presta». Mas é bom.

O que se alterou na sua leitura de Borges?

Deve ter sido a minha experiência como leitor. E perceber como é difícil fazer aquilo que ele faz, e que parece tão simples na mão dele. Eu acho que o tempo nos traz uma disponibilidade muito maior. Ficamos mais selectivos, mas ficamos mais humildes. E, sobretudo, uma coisa óptima, que é perceber que não estamos sozinhos. Que há pessoas a fazer o mesmo trabalho. Com o mesmo sofrimento, com as mesmas dores, com resultados diferentes. Que o tempo julgará. Mas pouco importa que o tempo julgue. O que importa é que a gente escreva.



Revista LER
nº 136 - Dezembro 2014

transcição e revisão do texto original por José Alexandre Ramos
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fotografia sobre o interior da publicação por José Alexandre Ramos

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...