Mostrar mensagens com a etiqueta adaptação da obra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta adaptação da obra. Mostrar todas as mensagens

24 de agosto de 2016

Público: «Cartas da Guerra: um filme que se ergue»

Cartas da Guerra, de Ivo Ferrreira, que tem hoje a antestreia antes de chegar às salas a 1 de Setembro, aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Delicado e temerário, cria o seu mundo.


Uma “cena original” luminosa: o realizador Ivo M. Ferreira a entrar em casa de madrugada – como contou -, avançando para o quarto, guiado pela voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, o volume que em 2005 juntou as cartas escritas pelo alferes médico António Lobo Antunes, de 28 anos e destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa, Maria José.

Mesmo correndo o risco de a “cena” se imobilizar como cliché à força de tanto ser “vista” (mas é belíssima, e por isso é irresistível voltar a ela ou começar por ela...), guarda um potencial anunciador que parece regenerar-se sempre que é de novo contada: a intimidade (do cineasta) como espaço de transmissão de uma memória da História portuguesa – para o já singular Águas Mil, longa-metragem anterior do realizador (2009), em que Gonçalo Waddington corria atrás de quem guardava as memórias das aventuras revolucionárias do pai, Ivo M. Ferreira já deixara a sua vida ser tocada, interceptada, por histórias que não viveu, pelas biografias e memórias dos outros que fez suas.

A questão era saber se a singularidade e a delicadeza tinham resistido no que aí vem, o filme Cartas da Guerra (estreia na próxima quinta-feira, dia 1 de Setembro, mas com antestreia marcada para esta quarta-feira). Porque era um projecto cheio de armadilhas: adaptação literária, figura pública (e seus guardiões) a condicionar, directa ou indirectamente, um património simbólico e figurativo e a obrigar, provavelmente, a negociações várias, e a imaginação do espectador (quando não mesmo a liberdade do realizador) a poder ser afectada por uma presença intimidante, bigger than life. Ou seja, facilmente o filme e as suas expectativas seriam reduzidas ao biopic de prestígio, de interesse escolar, ilustrativo.

As notícias do Festival de Berlim, onde Cartas da Guerra esteve a concurso, foram razoavelmente ambíguas, aliás: mais ou menos entusiásticas, mais ou menos reservadas, pareciam dar conta de um filme que não se libertava das prisões que tinha criado para si próprio, como que vergado pelo seu peso. Como se as suas mais-valias fossem os obstáculos que criara e que não conseguira ultrapassar: a saber, uma voz-off e um trabalho fotográfico esmagadores – de João Ribeiro. Havia, além disso, uma contiguidade incomodativa com outro filme português, da mesma produtora, O Som e a Fúria, também a preto e branco, também com vozes, também memória das Áfricas: Tabu, de Miguel Gomes, que estivera em concurso no mesmo festival e que, disse-se, por pouco não chegou mais alto no palmarés final da edição de 2012 (teve o prémio Alfred Bauer pela sua contribuição artística inovadora). Como se Cartas da Guerra fosse, então, uma “jogada” e uma possibilidade de remake.

Correndo o risco de súmula injusta do que se escreveu, avizinhava-se então a chegada de uma natureza morta.

E eis que nos devemos preparar para um filme que foge das armadilhas colocadas no percurso e, mais surpreendente ainda, que tacteia no escuro atrás da sua vida interior, permanecendo fiel à voz que ouve. É filme simultaneamente delicado e temerário. Por isto: aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António (interpretada por Miguel Nunes) e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Aventura-se a criar e organizar o (seu) mundo, como se não houvesse pré-existências.

Voz-off? Não, a voz não vem de fora a sublinhar ou a demonstrar, impossibilitando assim a vida própria dos planos. A voz vem de dentro, é o próprio filme a construir-se, a falar (-se). É voz in, à procura de um lugar out. Isto vale para Cartas da Guerra e vale para António – as cartas são o desejo de um encontro erótico com uma mulher (Margarida Vila Nova), num espaço que anule a guerra, que a derrote, que faça o mundo, que é essa história de amor, recomeçar do zero. A personagem e o filme querem estar num outro lugar.

Muito cedo António deixa de ser prisioneiro das expectativas “criadas” pelo facto de ser o escritor António Lobo Antunes quando jovem e parte para a sua própria aventura de personagem. Quer ganhar corpo. Figura frágil, inicialmente presença diáfana, vai conquistando progressivamente (o seu) espaço, a consciência política, a dimensão como escritor. Essa é exactamente a aventura de Cartas da Guerra: filme à procura de si próprio, de um corpo que chame seu. Este corpo a corpo filiam-no menos no Tabu de Miguel Gomes do que, por exemplo, nas aventuras malickianas. Há um filme para que este remete, se assim o quisermos, A Barreira Invisível/The Thin Red Line. Mas mais do que um título em especial, é com a experiência da criação do mundo que está nos filmes de Terrence Malick – como se todas as matérias se organizassem num caos inicial, e o filme fosse o testemunho vivo, a prova, de um nascimento – que Ivo M. Ferreira caminha. De forma desassombrada, aliás. Por isso a meia hora final de Cartas da Guerra pode mesmo ser qualquer coisa de triunfante. É um filme que não só sobrevive a si próprio, como se ergue. É uma personagem que se afirma. A guerra foi de Ivo M. Ferreira, o filme é dele.


citado do site do Público
texto de Vasco Câmara
24.08.2016

30 de abril de 2016

«Uma Via Láctea de Galos», crónica com ilustrações de Nicoleta Sandulescu


          E, de manhã, tínhamos os galos. Uma Via Láctea de galos, neste quintal, no outro, junto à vinha do presidente da Câmara, mais adiante, no sítio dos ciganos, com rulotes e mulas e trapos
pendurados e discussões à noite, de forma que o único sem cantar era aquele que a minha avó segurava pelas asas para lhe cortar o gasganete, e o bicho, sem cabeça, a remexer-se activísssimo.
Depois desistia, depois a minha avó despia-o e o galo afinal esquelético, duas, três penas castanhas e azuis permaneciam a bailar no pátio, às vezes sumiam-se a tremer por cimas das nespereiras, cheguei a recuperá-las, séculos depois, na lama do inverno, sujas, sem cor alguma, reduzidas a meia dúzia de filamentos tristes. Portanto, de manhã os galos, o gato a escorrer a sua seda furtiva no intervalo dos móveis: se me chegava a ele tornava-se dúzias de unhas que assobiavam uma chaleira de ódio antes de se transformar num pulo, deixando de existir a meio do salto. Os galos, o gato, eu a avançar com a muleta porque o joelho murchou. Encheu-se de água, o enfermeiro deu-me uma injecção e os ossos secaram: recusam a dobrar-se mas não sofro muito com isso e a muleta, além do mais, dá-se ao respeito. Conheço vários que me invejam, fico importante e trágico como um soldado que sobreviveu à guerra, as mulheres gostam de acompanhar comigo, sobretudo a viúva do despachante: de quinze em quinze dias encosto-lhe a muleta à cabeceira, resolvo o assunto, fumo um cigarrinho e andor. A minha avó
          – Cheiras a drogaria que tresandas
          dado que não é grande espingarda em perfumes franceses,
dos caros, dos finos, que a viúva comprava em garrafões na drogaria, com o rótulo  made in Paris e a torre Eiffel por cima dos Jerónimos. Com os trocos do perfume abastecia-se de pó-de-arroz em caixinhas de folha com Napoleão na tampa, isto é uma palma na barriga e um bvaque atravessado. A minha avó indignava-se porque as nódoas do pó-de-arroz Napoleão eram dificílimas de tirar do colarinho, quer-se dizer saíam com facilidade das bochechas da viúva para a camisa, a viúva tornava-se pálida e com rugas, quase mãe dela mesma, mas largarem a popeline está quieto. Sem o pó-de-arroz a viúva parecia um drácula na aurora, toda olheiras e pêlos, e, graças às olheiras e aos pêlos, dei conta que apesar da muleta eu não faria má figura numa corrida de velocidade: há certos estímulos a que as muletas respondem, de modo que chegava a casa a tempo da Via Láctea dos galos e da minha avó a censurar-me
          – Vens do espantalho, não é?
         com a faca esquecida a meio de um gasganete na agonia. O gato, que em geral não me ligava nenhuma, aproximava-se a farejar-me, interessado: sacudia-o com a muleta antes da chaleira e das unhas.
          Quando penso nessa época acho que podia ter sido feliz. A
viúva tratava-me por
          – Meu pombinho
         dava-me chá de macela, volta não volta enfiava-me uma nota no bolso, juntamente com um bilhetinho simpático assinado com o nome completo, trazia a campa do despachante num asseio que dava gosto e quando eu chegava voltava-lhe, por delicadeza, o retrato para a parede:
          – Nunca se sabe
          explicava ela e nesse ponto dou-lhe razão: nunca se sabe de facto e há mortos que não brincam em serviço. Pelo sim pelo não continuo a evitar o cemitério. Podia ter sido feliz. A minha avó e a viúva foram-se embora uma atrás da outra, no espaço de um mês, aminha avó de um problema no sangue, disse o médico, que a envenenou e a tornou negra num instante, a mostrar-me os carvõezinhos das mãos e a gritar
          – Olha isto
          a viúva porque o garrafão de perfume francês caiu, em má hora, de uma prateleira alta. O cabo da Guarda desconfiou de mim
          – Foste tu com a muleta?
          por a ter encontrado na cama com uma camisinha azul transparente e aboca, coitada, tentando um
          – Meu pombinho
          derradeiro. De garrafão espalmado na cara não se lhe notavam as rugas nem os pêlos: colocaram-na ao lado do despachante que parece não a ter recebido mal. Eu fiquei por aqui
mais o galos. Uma Via Láctea de galos neste quintal, no outro, junto à vinha do presidente da Câmara, mais adiante, no sítio dos ciganos, com rulotes e mulas e trapos pendurados e discussões à noite. A rua foi deixando de cheirar a perfume francês, nunca tive as camisas tão limpas. De tempos a tempos o cabo da Guarda para mim
          – Empurraste o garrafão com a muleta, diz lá
          e, embora já não faça diferença, eu moita. Podia contar-lhe que não aprecio que me tratem por
          – Meu pombinho
          mas moita. Sento-me no jardim a assistir às abelhas, o cabo da Guarda cala-se. Dúzias de abelhas. Quais dúzias: centenas. Só tenho medo que a minha avó me apareça, toda negra
          – Olha isto
          a mostrar-me os carvõezinhos das mãos, e me corte o gasganete de um golpe. Não acredito: tirando as manchas do pó-de-arroz Napoleão não nos dávamos assim tão mal.


António Lobo Antunes
em Terceiro Livro de Crónicas, 2005, 1ª edição. pp 213-215

Ilustrações de Nicoleta Sandulescu, do trabalho realizado como aluna da disciplina de ilustração na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, sob orientação do Professor Pedro António dos Santos Saraiva. Estas ilustrações foram gentilmente cedidas pela sua autora, e faz parte das 18 ilustrações interpretativas do texto de António Lobo Antunes.

3 de julho de 2015

«Ivo Ferreira filma as cartas de amor do alferes Lobo Antunes»

Notícia do Público




D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra compila as cartas que um alferes de 28 anos, destacado para Angola, escreveu à mulher. A voz de um namorado, pai e escritor em construção, hoje o autor António Lobo Antunes, tornada personagem colectiva num filme em rodagem.


O homem entrou em casa, de madrugada, avançou para o quarto, como que guiado pela voz da mulher grávida que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de amor que integram um livro: aquele que compila as cartas escritas por um alferes médico de 28 anos, destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa.

Esses dois homens existem, o mise-en-abyme não é pura ficção. São Ivo Ferreira, realizador, e António Lobo Antunes, escritor. O primeiro, que na tal noite entrou em casa e ouviu a mulher a ler ao bebé por nascer páginas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, volta – isto é, se pensarmos numa longa-metragem anterior, Águas Mil (2009) – a deixar a sua vida ser interceptada pelas biografias dos outros como quem tacteia fantasmas, segredos da História recente de Portugal, seguindo o fluxo das histórias contadas de pais para filhos e destes para os seus filhos. O segundo, o autor das cartas, um jovem médico com sonhos de escritor mas atirado para a guerra, refugiando-se nas cartas à mulher que o esperava em Lisboa, é hoje o autor António Lobo Antunes mas era ali, no livro e no filme que Ivo adapta e que por estes dias termina a rodagem, um autor, um pai, um marido em construção – personagem interpretada pelo actor Miguel Nunes.

“O filme tem a ver com coisas que me interessam, um país a agonizar no fascismo, mas nesse cenário algo que tem a ver com crescimento”, diz Ivo Ferreira, “o crescimento de um autor, de um pensador, alguém que caminha para ser melhor, como namorado, como marido, como pai” – foram as filhas do escritor, Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, que publicaram em [2005] a edição de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra por vontade expressa da mãe de ambas que morreu em [1999].

“Embora eu não tenha tido qualquer experiência biográfica, família em África ou pai que foi para a guerra, a verdade é que a guerra vive comigo há uma vida, até pela opção política dos meus pais, pelo exílio”, continua o realizador. “E parece que continuamos com pudor em filmar isso. Eu próprio, quando miúdo, achava que aqueles homens tinham ido para a guerra porque eram pessoas más, quando afinal tinham sido empurrados. O que me interessa é saber como é que um país pode atirar os seus homens para uma situação que não faz sentido.”

Com mais de quatro dezenas de personagens, esta produção O Som e a Fúria, a partir de um argumento de Ferreira e de Edgar Medina, teve uma primeira rodagem em Abril e Maio na província do Kuando Kubango, em Angola (“numa pequena aldeia onde não havia água, não havia nada, foi uma rodagem com acidentes, doenças e tragédias”) e está agora aquartelada no campo de tiro de Alcochete para a última semana de filmagens.

É um projecto que se afigura cheio de singularidades e delicadezas: é a adaptação de uma obra, constitui o passado biográfico de quem não só ainda pertence ao mundo dos vivos como se agigantou na esfera pública e, claro, tudo isso é material de que o realizador se quis apropriar. “Também é um filme sobre a forma como as cabras num monte dão lugar às girafas na selva.” E como filmar as cartas, como evitar a reiteração pelas imagens do que uma voz-off “escreve”?

“As cartas são a nossa estrela polar”, responde Ivo Ferreira – “nossa” porque é autor, com Edgar Medina, do argumento resultante de um trabalho de investigação histórica, de entrevistas a antigos combatentes, de recolha documental, iconográfica e musical do período. “Mas fomos buscar coisas aos primeiros livros [de Lobo Antunes, Memória de Elefante e Os Cus de Judas], porque há temas recorrentes. As cartas ajudam a estruturar a narrativa. Mas não é um filme com muita voz-off, e é uma voz colectiva. As cartas são um refúgio. Escreve-se pelo amor, é pelo amor que se sobrevive. As cartas de amor surgem aqui quando o presente não pode ser vivido.”

A delicadeza do projecto está, afinal, na possibilidade de negociação entre uma história que é património dos seus protagonistas e o desejo de apropriação de um realizador. “Sei que estava a pegar numa história de pessoas que eu conhecia e que falava das suas vidas, da história de amor entre o pai e a mãe. Só quereria fazer o filme se houvesse [da parte de Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes] desejo disso, mas simultaneamente se me deixassem livre. Tive uma primeira conversa com elas, imediatamente desenhei o filme, e a partir daí foi trabalhar no argumento. E ver até que ponto continuava o interesse delas. Estou consciente do imenso compromisso e da imensa responsabilidade de não trair a confiança que me foi depositada.”


fonte: Público
texto de Vasco Câmara
foto Público
02.07.2015

2 de julho de 2015

"Sugestões para o lar" a partir de António Lobo Antunes no palco em Gaia


A ideia de adaptar crónicas de António Lobo Antunes partiu da companhia As Boas Raparigas e Nuno Pino Custódio aceitou o desafio, cujo resultado vai estar em cena no Armazém 22, em Gaia, neste primeiro fim de semana de Julho.

A peça desenrola-se a partir de vários textos do escritor português como "O Natalzinho" ou "Crónica descosida porque me comovi", falando-se de "famílias que desembocam em casas numa felicidade que o autor descreve como 'assim-assim'", explicou aos jornalistas o responsável pela dramaturgia e encenação, Nuno Pino Custódio.

"Ainda estamos a descobrir que espectáculo é este", reconheceu o encenador da peça que volta a estar em cena de 10 a 27 de Setembro.

Notícia Lusa
01.07.2015

7 de maio de 2015

PÚBLICO: Lobo Antunes, autor de adolescência de Maria Rueff | ANTÓNIO E MARIA NO CCB


Levando para palco a sua gratidão por um livro que lhe abriu o mundo, Maria Rueff atira-se para o palco do CCB com palavras de António Lobo Antunes. António e Maria estreia-se esta quinta, assente num universo feminino e numa heroicidade doméstica.
António e Maria. António é António Lobo Antunes. Maria é Maria Rueff. A peça que se estreia esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém é um encontro entre os dois, nascido da relação da actriz com o seu autor de adolescência.
“Não sou uma especialista, sou uma daquelas fãs tipo dos Beatles”, confessa Rueff. E, por essa mesma razão, por estar longe de quaisquer tentações académicas, propôs-se entrar no mundo do seu autor através do olhar de leitora, de uma leitora atraída “pelas vozes das mulheres e pelo humor” que encontra na escrita de Lobo Antunes. “Profundo conhecedor da alma feminina”, chama-lhe; “uma mão na tragicomédia que me encanta especialmente”, gaba-lhe.
Ainda hoje, muitos anos depois, se lhe pedem que nomeie o livro da sua vida, é fácil a Rueff colocar Memória de Elefante à frente de todos os outros. Foi um livro que lhe “abriu o mundo”. “O mundo”, concretiza, “no sentido de como a dor se pode transformar em acidez, ironia, de como se pode focar aquilo que nos interessa.” O que a interessou, desde então, não foi tanto a Guerra Colonial que parece estar sempre apensa ao nome do escritor, mas antes a forma como Lobo Antunes “dá heroicidade aos aparentemente simples e pouco importantes”. E lista, de cor e sem ordem particular: “a porteira, o taxista, a amante do capitão, a donazinha de boutique”. António e Maria é, por isso, uma peça de teatro real, uma confluência de vozes femininas que se instalam no corpo de Maria Rueff, mas também uma peça de teatro camuflada, uma forma menos evidente de a actriz manifestar a sua gratidão.
Rueff fala da passagem para o palco de um universo “doméstico”. Sentado à mesma mesa, o escritor Rui Cardoso Martins acrescenta-lhe um ponto: “doméstico sublime”. E o encenador Miguel Seabra, do outro lado da mesmíssima mesa, contribui com a ideia de que “Lobo Antunes mostra as feridas, as evidências – algumas incómodas – em que reparamos mas não vemos”. “Ou seja, põe a nu o macaco no nariz, aponta a remela, mas ao mesmo tempo diz que isso não é mais do que uma remela.” “Todos temos remelas”, desvaloriza Rueff. “Todos temos um armário cheio de pó e insectos mortos”, diz ainda Cardoso Martins.
Escrita com tesoura
Há cinco anos que Maria Rueff falara originalmente ao encenador do Teatro Meridional, Miguel Seabra, nesta sua vontade de se lançar para dentro dos livros de Lobo Antunes. Mas o projecto foi ficando no frigorífico. “Neste momento de vida em que tenho o caminho feito, como mulher e criadora”, justifica, “apeteceu-me voltar ao ringue, à escola, procurar que cordas não toquei até hoje. Uma das coisas que me assusta profundamente é a ideia de cristalizar e fazer mais do mesmo. E encontrei no Miguel um apoiante a este voo às estranhas.” O desafio respondia em pleno às características das produções do Meridional, cuja actividade se centra no recurso a textos de autores lusófonos, preferencialmente não teatrais e com uma forte ênfase na interpretação do actor.
O outro apoiante de Maria Rueff seria o autor Rui Cardoso Martins, amigo próximo de Lobo Antunes e a quem foi pedido que criasse um texto de teatro a partir daquela vastíssima escrita romanesca e cronista. Assim fez, declarando que escreveu este espectáculo com uma tesoura. “Peguei nos livros todos dele, num trabalho que se pode dizer que é mais ou menos a maneira como ele trabalha, coisas que saltam de um lado para o outro, numa linguagem muito simples.” E foi recortando as frases do mestre, até encontrar “uma única voz múltipla” que misturasse António e Maria “numa construção do mundo que tem muito que ver com Portugal, com os modestos, com os pobres”. Eis António e Maria. Ou António em Maria.

06.05.2015
texto de Gonçalo Frota
fotografia Público

6 de maio de 2015

António e Maria pelo Teatro Meridional - a partir da obra de António Lobo Antunes



Centro Cultural de Belém, Pequeno Auditório

Para os dias 7, 8, 9, 11, 14, 15 e 16 de Maio às 21h e no dia 10 às 16h

Monólogo de Maria Rueff a partir da obra de António Lobo Antunes

Encenação - Miguel Seabra
Interpretação - Maria Rueff

Autor - António Lobo Antunes
Dramaturgia e adaptação - Rui Cardoso Martins

Espaço cénico e figurinos - Marta Carreiras
Música original e espaço sonoro - Rui Rebelo
Assistência de encenação e direcção de cena - Vítor Alves da Silva
Assistência de cenografia - Marco Fonseca
Operação técnica - Rafael Freire
Produção executiva - Natália Alves
Assessoria de gestão - Mónica Almeida
Direcção artística do Teatro Meridional - Miguel Seabra e Natália Luiza

Co-produção | CCB | Teatro Meridional

4 de maio de 2014

Notícias ao Minuto: CCB Wagner e Lobo Antunes inspiram Côrte-Real para os Dias da Música

A Orquestra Sinfónica Portuguesa estreou ontem, sábado, dia 3 de Maio, nos Dias da Música no Centro Cultural de Belém (CCB), uma obra escrita pelo compositor Nuno Côrte-Real, inspirada nas obras do compositor alemão Wagner e do escritor António Lobo Antunes.

foto: Lusa
"Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?", o mesmo título de um romance de António Lobo Antunes, é a composição escrita por Nuno Côrte-Real que vai ser interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção artística de Rui Pinheiro.

Seguindo a tradição europeia do poema sinfónico, trata-se de um instrumental para orquestra, a maior de sempre para quem Côrte-Real diz ter escrito, com cerca de 90 elementos.

"É uma espécie de poema sinfónico para levar quem está a ouvir a pensar num acontecimento que é narrado. A música tem esse poder narrativo" adianta Nuno Côrte-Real, à agência Lusa, acrescentando que quis incutir na sua composição a emoção dos romances de António Lobo Antunes.

A obra foi encomendada pelo Centro Cultural de Belém para integrar o programa do bicentenário do nascimento de Wagner, em 2013, mas acabou por não ser estreada nessa altura.

"A ideia inicial foi pegar numa música original de Wagner e incorporar essa música dentro da minha própria música. O trecho escolhido foi a Cavalgada das Valquírias. Quando comecei a trabalhar a peça, uma das coisas que me veio imediatamente à cabeça foi a obra de Lobo Antunes Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?. É uma dupla homenagem", explica o compositor de Torres Vedras, que não esconde o gosto literário pelos romances de António Lobo Antunes.

O compositor refere que quis juntar as heroínas de Wagner, as valquírias que eram guerreiras armadas e montadas em cavalos, às de Lobo Antunes, mulheres do quotidiano. [...]


24 de março de 2014

«Autos da Revolução» homenageia 25 de Abril em Évora e em Faro


Inspiradas na obra de António Lobo Antunes, sete personagens "revivem" o 25 de Abril de formas distintas em "Autos da Revolução", espectáculo que duas companhias de teatro de Évora e do Algarve se preparam para levar à cena.

O espectáculo, numa co-produção do Centro Dramático de Évora (Cendrev) e da ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, é dirigido pelo encenador francês Pierre-Etienne Heymann e assinala os 40 anos do 25 de Abril. 

"Pretendemos alertar ou despertar as pessoas para um acontecimento ímpar na nossa vida recente e contribuir para que as novas gerações possam confrontar-se com um olhar sobre um momento histórico não tão distante quanto isso", explicou hoje à agência Lusa José Russo, director do Cendrev.

Construído a partir de textos de cinco romances de António Lobo Antunes, o espectáculo reúne os relatos cruzados destas personagens que, com diferentes olhares sobre o 25 de Abril, recordam o que lhes aconteceu.

Um operário carregador de mudanças, uma burguesa caridosa, a esposa de um contra-revolucionário, um militante político que foi preso em Caxias, uma camponesa explorada numa quinta, um banqueiro e a governanta do dono da quinta são os protagonistas.

"As personagens são muito diferentes e o interesse vem das relações entre os relatos. Cada um tem, com certeza, uma lembrança e uma visão da revolução muito diferente", disse Pierre-Etienne Heymann.

O encenador, "profundo conhecedor e apaixonado" pela obra de Lobo Antunes, como o apresentou José Russo, "bebeu" a sua inspiração dos livros "Auto dos Danados", "Conhecimento do Inferno", "Fado Alexandrino", "O Manual dos Inquisidores" e "Exortação aos Crocodilos".

No total são "nove cenas que são como nove movimentos de uma obra musical, porque a dimensão musical da obra de Lobo Antunes parece-me muito importante", disse.

E se os textos daquele "imenso escritor" foram material de trabalho natural para Pierre-Etienne, também a revolução de 1974 é especial para estas duas companhias teatrais descentralizadas.

"Queremos celebrar o teatro que a liberdade tornou possível porque, se não tivesse havido o 25 de Abril, não haveria hoje em Portugal um conjunto de projectos teatrais como o do Cendrev e o da ACTA", salientou José Russo.

Perante os "momentos muito difíceis" vividos na área da cultura, pois, os financiamentos do Estado "são ridiculamente reduzidos", a peça é ainda "um grito contra esta situação" e ganha mais "significado" nos 40 anos do 25 de Abril, frisou Russo.

Em fase de ensaios em Évora, a peça estreia no centenário Teatro Garcia de Resende, na cidade alentejana, na quinta-feira, Dia Mundial do Teatro, com o público a beneficiar de entrada gratuita.

"Autos da Revolução" fica em cena em Évora até 20 de Abril e, depois, "ruma" para o Teatro Lethes, em Faro, onde vai ser apresentado a partir do dia 25 de Abril e até 11 de Maio, seguindo-se uma digressão pela Galiza (Espanha).

Mário Spencer, Rosário Gonzaga, Maria Marrafa, Bruno Martins, Tânia da Silva e Jorge Baião são os actores que "vestem" as personagens da história.


por LUSA, citado do site
23.03.2014

foto: LUSA

20 de março de 2014

Teatro "Autos da Revolução" em Évora

"AUTOS DA REVOLUÇÃO, a partir de textos de António Lobo Antunes"Co-Produção: CENDREV/ ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve
27 de março a 20 de abril

Local
Teatro Garcia de Resende
Horários; qua
rta a sábado, às 21h30 | domingos às 16h00


17 de setembro de 2012

«Guarda Chuvas de Chocolate», pelo Teatro Rápido



Inspirado em crónicas de António Lobo Antunes. Espectáculos de 15 minutos. Mais duas semanas em palco. Mais informações aqui.

19 de agosto de 2012

Estreia no dia 1 de Setembro «Guarda-Chuvas de Chocolate», espectáculo de teatro baseado nas crónicas de António Lobo Antunes

ESTREIA: 1 de Setembro de 2012

SESSÕES: de 5ª a 2ª -  18:15h | 18:40h | 19:05h | 19:30h | 19:55h | 20:20h

LOCAL: SALA 3 - Teatro Rápido – Rua Serpa Pinto, 14 – 1200-445 Lisboa (CHIADO)

M/12
bilhetes a 3€

FICHA ARTÍSTICA
INTERPRETAÇÃO Luciano Gomes | DRAMATURGIA E ENCENAÇÃO Paulo Morgado & Ruy Malheiro CENOGRAFIA Joana Patrício | DESIGN GRÁFICO Elisa Gomes


SINOPSE
monólogo
António, consciente da proximidade do fim do seu tempo, reflete sobre o que restou: a derradeira solidão recheada de memórias de uma vida passada.
Como quem visita um álbum fotográfico repleto de cores, texturas e aromas de outros tempos, partilha com o espetador essas memórias com que dá corpo à sua história e o que ficou do seu pequeno mundo… memórias que são também as de um Portugal recente, comum a todos nós!
Uma viagem no tempo que nos resta através do tempo que já vivemos…


“A infância atravessada é como uma espinha,
a gente engole bolas de pão e não passa…”
                               António Lobo Antunes

[press release por cortesia de Ruy Malheiro]

6 de agosto de 2011

Filme adaptando A Morte de Carlos Gardel

Filme de abertura da 3ª edição do Festival Douro Film Harvest (5 e 11 de Setembro 2011), com pré-apresentação ao público no ciclo sobre António Lobo Antunes, no Teatro S. Luiz, a 17 Setembro 2011

Nos cinemas a 22 de Setembro 2011.

Género: Drama

A Morte de Carlos Gardel, um filme de Solveig Nordlund, adaptado do romance de António Lobo Antunes

Solveig Nordlund ("A Filha", "Aparelho Voador a Baixa Altitude") gosta de fazer filmes que nos surpreendam intelectual e formalmente. Com a primeira adaptação cinematográfica de uma obra de António Lobo Antunes, a realizadora sueca radicada em Portugal teve uma oportunidade única de empreender "mais uma prodigiosa aventura".

Sinopse:

Um jovem (Carlos Malvarez) toxicodependente está a morrer num hospital. Junto a ele, à medida que vão vivendo a evolução da sua agonia, cada um dos seus familiares mais próximos evoca uma teia de recordações, de memórias obsessivas e de vivências actuais. Todos eles são portadores de sonhos e desalentos da vida. O pai do jovem (Rui Morisson), apaixonado pelo tango e pela figura de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango argentino, percorre simbolicamente um rosário de situações dolorosas. Delirante, confunde-o com um cantor parecido (Ruy de Carvalho).




Com Rui Morisson, Carlos Malvarez, Teresa Gafeira, Celia Williams, Ruy de Carvalho, Joana de Verona, Elmano Sancho, Miguel Mestre, Ida Holten Worsoe, Carla Maciel, Diogo Dória, Teresa Faria, Cecília Henriques, Maria Arriaga, Albano Jerónimo e Maria João Pinho

Dirigido por Solveig Nordlund
Escrito por António Lobo Antunes
Produzido por FADO FILMES

Sites:

http://carlosgardelfilme.blogspot.com/
http://www.facebook.com/amortedecarlosgardel

(texto citado do Youtube)

19 de fevereiro de 2011

«Cartas da Guerra» adaptado ao cinema por Ivo M. Ferreira

Citando o site Ponto Final:


Existe uma iconografia do que foi o conflito no Vietname, uma guerra feita ao tempo em que ainda não passava na TV. Foi o cinema que recriou as imagens, criou o imaginário colectivo. Em Portugal, não há disso – a guerra colonial portuguesa continua presente, 50 anos depois, mas o lado iconográfico não está lá. Para Edgar Medina, co-argumentista de “Cartas da Guerra”, o filme de Ivo M. Ferreira que será rodado no próximo ano, o desafio da adaptação da obra de Lobo Antunes ao cinema também passa pela criação desta imagem que falta a quem é português. E não foi à guerra.
Edgar Medina colabora frequentes vezes com Ivo M. Ferreira e a ideia de construir um argumento com base nos aerogramas enviados de Angola por Lobo Antunes à sua jovem mulher foi, desde logo, recebida com entusiasmo. “Além de gostar muito da obra de Lobo Antunes conhecia já as cartas e a hipótese de estar a lidar com um momento importante da história contemporânea portuguesa é algo que considerei bastante interessante”, conta o co-argumentista, a trabalhar agora em Macau. O interesse foi crescendo à medida que a investigação se foi fazendo e se descobriram outros lados da guerra.
Medina atribui à ditadura – e depois à necessidade de se viver em paz que o 25 de Abril trouxe – o facto de a sociedade portuguesa nunca ter lidado de “forma adequada com os problemas e os fantasmas da guerra colonial, apesar de continuar muito presente no dia-a-dia de muitos portugueses, de muitas famílias, e de ser um assunto que tem de ser abordado”.
O trabalho para o filme “Cartas da Guerra” levou à descoberta de algo que não chega ao grande público, mas que existe: os muitos livros que antigos combatentes têm publicado nos últimos anos, as tertúlias mensais de escritores do Ultramar, uma realidade à qual Medina e Ferreira foram “beber muita informação”.
Porque é de Lobo Antunes que se trata neste projecto, que seduziu o Instituto do Cinema e do Audiovisual de Portugal, mas também toda uma geração, o labor não foi simples: “Por uma questão ética, por se tratar de um trabalho com uma certa importância histórica, um trabalho biográfico”.
A “muita investigação” ajudou, porque “as coisas tornaram-se relativamente claras” e “todo o percurso de Lobo Antunes, nomeadamente o primeiro ano da comissão de serviço é, do ponto de vista dramático, muito cinematográfico”. Edgar Medina desenvolve: “A progressão do jovem médico que é afastado da sua mulher e a sua descida ao Inferno em África, a progressão de quartel para quartel que vai fazendo em Angola, foi uma certa surpresa verificar que tudo aquilo era profundamente adequado às regras dramáticas e como era uma realidade muito cinematográfica”.
Quanto à metodologia para a construção do argumento, houve um “trabalho paralelo que extravasou as cartas, um trabalho de investigação histórica, que passou pelo batalhão de Lobo Antunes e pelo arquivo militar”. Medina destaca ainda algo que considera muito importante: a obra que António Lobo Antunes fez enquanto escritor de ficção – nas suas crónicas, nos seus romances – em torno da guerra colonial.
Embora “Cartas da Guerra” seja um filme sobre uma história que pertence à dimensão colectiva, “há visões muito díspares de antigos combatentes do que foi a guerra colonial”, constata. “Achei sempre muito importante que a história que contamos de Lobo Antunes fosse uma história que estivesse impregnada da sua visão.” E esta visão é a de uma geração “a quem foi cometida uma imensa infâmia, que aos 17, 18, 19 anos foi mandada para a guerra, separada da família e sujeita a uma verdadeira barbárie”. Em “Cartas da Guerra” é disto que se fala. E do imenso amor que Lobo Antunes levou de Lisboa para Angola, fixado e vivido em pedaços de papel.


18.02.2011

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...