24/11/2016

Crítica de Isabel Lucas a Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

Quando já se perdeu o nome


“Eu não tenho personagens”, afirmou António Lobo Antunes numa entrevista a este jornal [Público], em 2014, quando publicou Caminho Como uma Casa em Chamas, um romance centrado num prédio de Lisboa e nos seus habitantes. Podia-se acrescentar que também não tem enredos, ou que os livros têm cada vez menos aquilo a que se convenciona chamar uma acção, com princípio meio e fim. São antes deambulações acerca do que é a vida, íntima e de um colectivo, contadas a partir de uma voz interior, quase sempre errática, que recorre a outras vozes convocadas pela memória nas suas falhas ou momentos iluminados, e que preenchem um vazio que vai ganhado sentido(s). Não há início ou epílogo. Há um percurso que o leitor apanha num dado ponto e segue, tantas vezes tacteando, até ele se extinguir. O livro é o que fica entre esses dois momentos.

Como este, o 27º romance de António Lobo Antunes. Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera acompanha um período que se adivinha derradeiro da memória doente, alterada e muito fragmentada, de uma mulher de 78 anos, ex-actriz com uma carreira mediana que passou a infância em Faro e se mudou para Lisboa porque queria trabalhar no teatro. O nome da doença nunca é revelado, mas é a doença que determina a forma e o conteúdo. “e que doença senhor doutor, nem sequer sou velha, aos setenta e oito anos ninguém é velho ainda, qual velha, sou uma actriz a descansar durante esta peça para, como diz o director do teatro, entrar na próxima num papel à minha medida…”

É esta a voz, a voz que profissionalmente decora outras vozes até esquecer a sua, a que o leitor tem acesso privilegiado. Frágil, mas o único meio para se situar num livro que se passa todo ele no espaço mais privado de uma mulher cuja identidade se vai revelando em espasmos à medida que essa identidade também se dilui. Ela é “Dona Celeste”, “filhinha”, “miúda”, mulher do tio, “minha senhora”. Depende do tempo cronológico ou do interlocutor. Se quem a chama ou se lhe dirige é o médico, o pai, a mãe, o sobrinho do marido, a senhora de idade que vai lá a casa dar-lhe comida, mudar-lhe a fralda, ou um dos dois maridos que lhe suplica afecto. Ela nunca gostou mesmo de nenhum. Com um casou-se por interesse, era familiar do director do teatro, e o outro porque sim. “… de há tempos para cá, começo agora a notar, escapam-me episódios, pessoas, até o meu nome palavra…” E a memória recente a perder para a memória remota num jogo literário que se ajusta ao modo de escrita de Lobo Antunes, cada vez mais próximo do que parece ser a deriva da mente, ele que se diz na literatura uma espécie de mediador ou tradutor de vozes.

Esta mulher, como o homem doente, internado num hospital em Sôbolos Rios Que Vão (2010) é tudo o que temos, numa solidão em véspera de fim, perspectiva única ao contrário do que acontece, por exemplo, no monumental romance anterior, Da Natureza do Deuses (2015), onde em vez de uma voz interior existem várias que se cruzam e revelam o tal colectivo tão comum em Lobo Antunes: um país na sua história, com personagens tipo e modos de o verbalizar; e sempre a linguagem, mesmo quando já resta só silêncio, a dizer mais do que qualquer outra coisa sobre o que se é, o que se pensa, e sente e faz.

Sexo, outro por exemplo, de que se sabe porque há um crucifixo que abana no espaldar da cama. Ela nunca amou. A não ser o pai, que além de filhinha lhe chamava cotomiça. “… uma tarde encontrei o meu marido e simpatizámos, ao segundo ou terceiro encontro levou-me para casa dele, sentia-se sozinho, coitado conforme eu me sentia sozinha, passado tempos casámos e pronto, umas palavras, uns papéis, o foguete de um carimbo a estalar no fim, sem estrelinhas, só tinta…”

A doença avança e o tempo e os espaços encadeiam-se numa vertigem de sentidos. As pessoas de uma vida cruzam-se nas suas falas e sabemos de tudo por isso, pelo modo de dizer que confere identidade e que Lobo Antunes conhece e como ninguém nas suas nuances: a língua portuguesa nas suas múltiplas manifestações, apropriações de classe ou género, urbanas ou rurais. E diz-se que continua cada vez  mais próximo da música, pelo modo como tudo soa, do que propriamente da literatura. Sem condescendência para com o leitor que se quiser o acompanha, se estiver para esse exercício de concentração profunda, onde a biografia do escritor aparece muito menos do que nos livros iniciais, mas a metáfora permanece crucial. Entra-se num livro de Lobo Antunes e reconhece-se o lugar onde se está mesmo sem ver a sua assinatura. Neste não é diferente. Há uma toada, ora harmoniosa ora obsessiva, disruptiva, tantas vezes. É uma memória a desfazer-se num livro divido num prólogo e três andamentos — terminologia  musical — e uma espécie de dormência onde todas as associações são permitidas. Serve tão bem ao actual Lobo Antunes que explora mais uma vez os limites dessa semi-consciência onde parece situar-se ao escrever, e onde está a tal mão que o guia, como costuma repetir nas entrevistas.

Antunes escreve sempre contra Antunes, já se sublinhou em relação ao romance anterior. Há um livro e a comparação inevitável com os anteriores. Ele falha quando não se supera? Da Natureza dos Deuses foi um livro grande de Antunes. Ele sabe disso. Neste seguinte, confirma que continua a perseguir a perfeição e a retratar um modo de ser português — seja lá isso o que for, nem que seja só uma maneira de dizer — como nenhum outro escritor em português o faz. Também por isso é injusto dizer que não arrisca, que se limita a ir com a tal voz única que parece sempre a mesma, ainda que seja múltipla. Este não será o seu melhor romance, mas é mais um grande romance e se nem todos os leitores estão para Antunes, os que estão sabem nunca sair a perder.


por Isabel Lucas
em Público
23.11.2016

22/11/2016

Melina Balcazar Moreno sobre Da Natureza Dos Deuses

António Lobo Antunes ou o núcleo das trevas

Edição Christian Bourgois, 2016
tradução de Dominique Nédellec
«O mundo foi feito ao contrário», proferiu um dia um velho, num hospital psiquiátrico, a António Lobo Antunes.  Um homem a quem «os médicos chamavam «esquizofrénico» e que, atormentado por tais palavras que o torturavam, ofereceu ao jovem escritor a mais simples lição de escrita de sempre:  não se pode escrever senão a partir do que antecede as palavras. Ou seja, as emoções, as pulsões que lhe conferem forma e, ao mesmo tempo, deformam a memória. Assim, em «Receita para me lerem: «as palavras não passam de signos das nossas emoções, e as personagens, as situações, e as intrigas, pretextos aparentes para atingir o avesso escondido da alma. A verdadeira aventura que persigo é a de que narrador e leitor partilhem as entranhas do inconsciente, sede da alma humana» (Livre de chroniques III *). Uma vez que, e tal como Lobo Antunes faz questão de nos lembrar, não há nada de mais contingente, mais imprevisível, que o passado.

Em Da Natureza Dos Deuses, o seu último romance – ou talvez devêssemos antes dizer um longo poema, já que a fronteira entre os géneros parece tão frágil –, o escritor aborda o destino de uma importante família portuguesa, com fortes ligações ao poder e ao dinheiro. Uma história repleta de incertezas, lacunas, de sombras, contada de modo fragmentário por um cruzamento de vozes, tempos e de níveis de consciência. O leitor vê-se, por conseguinte, confrontado com frases sincopadas, marcadas pela ausência de vírgula ou de maiúscula, arrastado por esta sucessão de vozes, atormentadas por outras vozes, que se interrompem  e permanecem frequentemente em suspensão. Estes monólogos tendem, todavia, a dirigir-se à figura de um homem, que nunca será designado senão por «senhor doutor», detendo, porém, um poder de decisão sobre a sua vida, quer na qualidade de patrão, dono, marido, amante ou pai. Aliás, o próprio Senhor acabará, por sua vez, por tomar a palavra, deixando emergir a sua própria angústia perante a solidão e a morte: «se além dos bancos mandasse na vida das pessoas proibia-as de morrer». Mais do que uma reflexão sobre os mecanismos do poder, Lobo Antunes explora [neste romance] de forma magistral o seu avesso, a sua fragilidade, até mesmo a sua impotência.

Sobre a infância e o medo do escuro

A escrita de Lobo Antunes procura, pois, situar-se para além da narrativa, para se concentrar no modo como as recordações, em particular as da infância, se apoderam do presente, a ponto de o fazer vacilar. «veja-se o poder que a infância tem, enfia-se no interior da gente e, sem que se espere, zás, salta». Da Natureza Dos Deuses apresenta-se, assim, como «um espelho no qual nos vimos [reflectidos] tal qual somos, nus e sem  defesa». É sem sombra de dúvida o desafio mais importante lançado por este romance ao leitor, que se encontra incessantemente confrontado com as suas lembranças, com o seu (próprio) «núcleo de trevas», com a sua solidão: o que se encontra no âmago das personagens, no centro da sua fala, é evidentemente o ferrete que a infância neles deixou e que se prolonga pela sua vida adulta. Apesar dos conflitos e da violência patente nos seus relacionamentos, a hierarquia que rege a sua existência, esta infância continua a fermentar, a amadurecer, acabando mesmo por juntá-los. As alegrias e as feridas da infância emergem e minam silenciosamente o papel que (eles) desempenham nas representações sociais. É o caso do senhor doutor que, na intimidade, com a sua mulher, torna-se uma criança:
                                           
«despindo-se no outro canto do quarto e eu surpreendida de que os homens assim, imaginava-os menos indefesos, mais fortes e então dei-me conta de que não é connosco que estão, é a criança que foram, estendida ao meu lado sem se atrever a agarrar-me
– Não vais fazer-me mal pois não?
sou tão pequeno, protege-me, toma conta de mim, o meu marido, dono de bancos, de companhias, das empresas todas do mundo
– Não cresci
(…)
e o meu marido meu marido a pouco e pouco enquanto se vestia, ao apertar a gravata autoritário, feroz» 

O poder do sofrimento da infância e o medo do escuro é com efeito imenso. Toma de assalto o sujeito, fazendo-o regredir à vulnerabilidade própria desta idade: crianças submetidas ao domínio dos adultos, vítimas da sua indiferença, da sua violência, testemunhas silenciosas dos seus fracassos.

A infância tem também uma ligação única com a linguagem, que actua em profundidade com a questão da rememoração de que são feitas as personagens. São palavras que se «pegam, entranham-se, não nos deixam jamais», como aquela que o pai do senhor doutor lhe dirigia, «sevandija», e a que regressa incessantemente, pontuando a injustiça e a violência dos seus actos, cometidos apesar dele, como se nada mais fizesse que submeter-se, de algum modo, à infâmia do mundo.

Da ferida secreta de todo o ser

Por ocasião de uma  entrevista, António Lobo Antunes evoca um diálogo na obra de Dickens que lhe terá provocado uma forte impressão: um homem pergunta à sua mãe moribunda, «tens dores mamã?»; ao que ela responde: «tenho a impressão de que há uma dor no quarto, mas não sei se sou eu que a sinto». O mesmo parece ser uma das questões principais que atravessa este romance. A quem pertence, afinal, a dor que se sente? Porquanto se trata de uma dor que ultrapassa o sujeito, uma dor que se estende aos lugares, aos animais, e cuja presença se encontra tão impressa ao longo do livro: “muito choram alguns bichos, quebram-se no mesmo ruído do que as pedras, agonizam calados”. Homens, animais, crianças se parecem assim pela sua vulnerabilidade, pelo abandono e indiferença a que estão sujeitos: “a gaivota na estrada sem uma alma que a salvasse”.

Os fluxos de falas das personagens cristalizam-se então à volta de um núcleo de sofrimento, cuja origem remonta a um tempo ancestral que poderíamos descrever, com Georges Didi-Huberman, enquanto «jogo impuro, tenso, este debate das latências e das violências» que mina desde o interior a tirania da ordem social. E é sem dúvida o que a figura silenciosa, mais persistente, do sem abrigo que atravessa as narrativas das personagens e tenta fazer-nos compreender. Parece lembrar-nos esta solidão, esta lassidão originárias que, a exemplo dessas vozes do romance, tentamos ocultar por falsas aparências: «não podia tocar no sem abrigo no caso de ele passar por mim e verificar se era um anjo conforme o senhor doutor sugeriu uma vez, examinando-lhe as costas à procura de asas apesar de ele nunca próximo de ninguém, desviava-se sempre, da mesma forma que Deus nunca perto de mim em nenhuma época da vida, ora aí está outro que não calculo o que Lhe fiz para não me ligar».

Que permanece pois neste mundo abandonado pelos deuses? 

Permanece, apesar de tudo, este livro, que nos é aconselhado, entretanto, a deitar fora: «larguem o livro no lixo já que a sombra do voo dos pássaros lá fora escureceu as páginas». É certamente uma grande lição de trevas que Lobo Antunes nos oferece aqui, neste romance, e que finalmente nos deixa escutar o rumor dos mortos.


por Melina Balcazar Moreno
16.06.2016

tradução do francês por Olga Maria Carvalho Santos Fonseca revista por Dominique Nédellec
texto final traduzido revisto por José Alexandre Ramos

Nota da tradução:
* refere-se ao terceiro volume de crónicas publicado em França pela Christian Bourgois (Livre de chroniques III, traduzido por Carlos Batista), cuja compilação de textos não corresponde ao volume Terceiro Livro de Crónicas editado pela Dom Quixote em Portugal.

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...