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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2006

Ana Marques Gastão: opinião sobre Terceiro Livro de Crónicas

Laboratório do romance
Uma palavra e depois outra, a origem que designa o texto, o movimento de algo para nascer. Palavras que se geram umas às outras. Às crónicas - um outro conjunto é agora[Fevereiro de 2006] publicado num terceiro volume -, António Lobo Antunes já chamou "prosinhas". Vivem, no entanto, como espaço de continuidade, contaminação e até no interior do labirinto dos romances. São um laboratório da literatura, ou mesmo um diário, conforme lhes chama, escrito ao correr da pena. Há sempre, no entanto, uma voz fugitiva, a do autor de Que Farei Quando Tudo Arde?, escapando-se, fragmentária, sombra difusa de infâncias várias que passam da mão para o papel, partitura de silêncios que resiste, porém, contra a mudez.
"A arte é ser absolutamente si próprio", disse Baudelaire. A condição do escritor passa por ser o mesmo saindo de si mesmo, esse "cego de mãos vazias a tropeçar", a "tentar vencer Deus a toda a largura do tabuleiro". O registo p…

António Lobo Antunes, A arte de não cair

Diário de Notícias - suplemento 6ª - entrevista de Ana Marques Gastão 17 Fevereiro 2006


Caçador de Infâncias

O romance que já não é romance, a crónica de galope curto, a escrita a correr como água no sobrado. O amor, a amizade, a infância, a morte, Deus. A entrevista com António Lobo Antunes, no momento em que lança o Terceiro Livro de Crónicas (Dom Quixote), fala dos livros, essa coisa “enterrada debaixo de um aluvião de palavras”.
Este diálogo poderia iniciar-se pelo espaço entre as palavras. Muito da sua obra passa por aí, seja no romance seja na crónica? Aquilo que se escreve tem de ser suficientemente poroso para que o leitor possa criar o seu livro. Leva-se tempo a compreender que a retenção da informação é o mais importante. Os bons escritores policiais fazem-no bem. Por snobismo não os lemos e perdemos muito do ponto de vista técnico, porque isto é um ofício e, como qualquer outro, requer trabalho. Perguntaram um dia a João Cabral (de Melo Neto), um homem que parece ter nascido sem…

Antônio Panciarelli: Fado Alexandrino - um romance em versos dodecassílabos

Um dos mais complexos e fascinantes romances de Lobo Antunes é Fado Alexandrino (Rocco editores, 2002), escrito em 1983. É o seu quinto livro de prosa e se trata de uma obra romanesca, com estrutura de poema alexandrino, ou seja, com versos de doze sílabas, cujo texto compõe-se de três partes: antes da revolução, a revolução e depois da revolução. Cada uma delas está dividida em doze capítulos, que podem ser visualizados como uma métrica poética do verso dodecassílabo. Assim, cada uma das partes forma um grande poema; isto é, a história é contada em três grandes poemas. O romance tem ao todo 600 páginas, que representam 50 estrofes. 
As personagens de Fado Alexandrino não carregam o traço de herói, nem possuem o destino predefinido. São ambíguas, construídas durante a diegese em que a estratégia narrativa é encenar a perda ou a ausência de modelos organizadores de sentido linear. Através de fendas, as pequenas narrativas em estado de desordem montam e desarrumam a seqüência para o rece…