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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2006

artigo do suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (Brasil) Sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo [excerto]

[...] Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, em termos de invenção ou criação literária, é uma espécie de último degrau a que um escritor, que opta pela prática experimental, consegue chegar. Podemos arriscar qualificá-lo como um escritor que se propõe ir além das conquistas experimentais até então cristalizadas por Rabelais, Sterne, Lewis Carroll, Édouard Dujardin, James Joyce e Cortázar.

António Lobo Antunes empreende uma luta titânica contra o Minotauro no labirinto do texto. De posse do fio de Ariadne, na busca da saída, ele trava uma batalha decisiva. Para encontrar a saída, Antunes usa de vários pretextos, entre eles fratura, mutilação, adulteração e bifurcação do fio da meada, para convencer o Minotauro de que está perdido, deixando no ar a idéia de que o fio se partiu em inúmeros pedaços. Mas apenas quebra o fio e se esconde, sempre numa pequena volta. E, quando o Minotauro, que já conhece o caminho de cor e salteado e, com certeza, já está cansado de trilhá-lo, e guardá-lo indefini…

Federico Mengozzi: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo

Boa Tarde, Angola
António Lobo Antunes é feito para ser lido, não para ser ouvido. Quem quiser que o escritor português, um dos mais aclamados de seu país, esclareça um ou outro aspecto de seu novo romance, o 16o, Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo, vai esbarrar em dificuldades. Lobo Antunes não é de pegar na mão do leitor e dar o mapa da mina. Ao contrário: imaginando que formou seus leitores ao longo de 25 anos de literatura, acha que eles podem andar com as próprias pernas. 'O escritor ensina seu leitor a ler', arrisca, falando a ÉPOCA. Por isso, depois de muitas delongas, ele sugere que não lhe perguntem nada e dirijam-se ao livro. Mesmo porque ele apenas o escreveu. 'Não o li. Ao menos não com olhos de leitor.'
Em Portugal, 200 mil pessoas seguiram sua recomendação e foram ao livro, recém-lançado e já na sexta edição. É um sucesso. Mas Lobo Antunes, assim como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto (brasileiros que ele cita), não escreve para fazer suc…

Rafael Narbona: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Lobo Antunes fez-se romancista porque era incapaz de escrever poesia. A sua impotência perante o versejar tem produzido, não obstante, uma escrita deslumbrante que impregnou toda a sua obra de um forte tom lírico. A complexidade dos seus romances nasce desta peculiaridade, mas tal não significa que o fio narrativo tenha sido sacrificado em benefício da imagem ou da metáfora. Nada mais longe de Lobo Antunes que o esteticismo vulgar.
A sua maneira de narrar nada tem de malabarismos verbais, mas sim a busca da palavra essencial. A intenção de fundo está em exceder a simples aparência das coisas para revelar a verdade de personagens incapazes de compreender a natureza dos seus actos. Este propósito justifica o desvio dos assuntos, os espaços em branco, a destruição da sintaxe ou o recurso ao inacabado. Todos estes elementos se juntam em Não entres tão depressa nessa noite escura, compondo uma história que avança entre memórias, fantasias, confissões e surpreendentes rectificações, onde se …

Mario Merlino: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Como se lendo a noite fermentasse
edição Siruela (Espanha), 2002
Em português, o título tem sete palavras: Não entres tão depressa nessa noite escura. Sete, como os dias da criação que servem de tecido base, linha divisória entre as partes do extenso relato de António Lobo Antunes. Em castelhano são oito, por ser língua menos rica em contracções. Neste caso o tradutor não encontrou melhor saída que a literal, porque o título acarreta estas palavras.
NÃO. O "não" da desagregação. Uma personagem, Maria Clara, que se dispersa nas vozes das outras, que se escreve a si mesma e escreve os outros como se fosse eles, como autora do universo. O "não" que impõe limites ao leitor para que substitua a preguiça por outro prazer talvez mais voluptuoso: o de deixar-se levar, fazer do seu corpo o corpo de Maria Clara que por sua vez é feito dos fragmentos de outros corpos. O "não" da atenção dispersa, o não do abismo que alude a si mesmo uma entrega amorosa. De modo que, le…