17/10/2016

Crítica de Bruno Vieira Amaral a Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

Que voz é esta, Lobo Antunes?

Em várias entrevistas no início da sua carreira literária, António Lobo Antunes afirmou que só publicou o primeiro livro quando encontrou uma maneira pessoal de dizer as coisas. Ao longo dessa carreira, que conta com vinte e sete romances e cinco livros de crónicas, a concepção que o escritor tinha da literatura e do seu ofício sofreu alterações. Na década de 80, dizia, por exemplo, que as suas referências eram os escritores norte-americanos, que sabiam contar uma história. Longe vão esses tempos. No entanto, aquela afirmação inicial não perdeu relevância. Lendo os livros – chamemos-lhes romances ou, como o autor, “exercícios de ambição” – torna-se claro que o escritor foi apurando – e também depurando – aquela maneira pessoal de dizer as coisas. Uma maneira pessoalíssima, única e, no entanto, contagiosa, ao ponto de uma geração inteira ter contraído, a certa altura, uma espécie de lobo-antunite, a olhar para o mundo da perspetiva de Lobo Antunes e a tentar descrevê-lo através daquela forma de expressão muito pessoal e, aparentemente, muito transmissível.

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera, vigésimo-sétimo romance de Lobo Antunes, é mais um capítulo desse labor contínuo. A certa altura, generalizou-se a ideia de que o escritor se repete e, no fundo, está a escrever o mesmo livro há muito tempo. É uma ideia popular, sobretudo junto daqueles leitores que se apegaram aos primeiros livros e, depois, desistiram ou não conseguiram acompanhar o ritmo de publicação de Lobo Antunes. Havendo um fundo de verdade nessa ideia – e lá chegaremos – o certo é que nenhum outro escritor contemporâneo trouxe tanto Portugal e tantos Portugais para os seus romances. Obedecendo à máxima de Balzac, que o próprio Lobo Antunes por várias vezes citou, segundo a qual o verdadeiro romancista tem de ter vasculhado toda a vida social porque o romance é a história privada das nações, o escritor português vasculhou e escreveu sobre o Portugal suburbano, a burguesia lisboeta das Avenidas Novas, a classe média urbana, a velha fidalguia rural, os esquecidos dos bairros periféricos, os pornograficamente ricos das moradias de luxo, os banqueiros e os delinquentes menores, os deslocados do campo para a cidade, os deslocados das colónias para a metrópole, as cabeleireiras e os empregados de balcão, os políticos, os enfermos, os traficantes de diamantes e de influências. Portanto, quer se fale dos temas ou do meio social retratado, a acusação de repetição não tem fundamento.

Aquela dicção inconfundível

Veja-se o caso deste romance. A protagonista da história (e estes termos têm de ser utilizados com cautela) é uma ex-actriz de setenta e oito anos que na juventude veio de Faro para Lisboa, onde conheceu um moderado sucesso nos palcos e foi casada por duas vezes, a primeira por conveniência económica e a segunda, digamos, por desinteresse. Agora, num processo de degenerescência mental, aos cuidados do sobrinho do marido e de uma senhora de idade, recorda o que lhe aconteceu, os tempos de infância no Algarve, os passeios com o pai, a carreira no teatro, os casamentos e olha para o mundo com a confusão de um cérebro devastado, incapaz de se lembrar onde é o quarto e com as memórias antigas mais vivas e luminosas do que nunca, como o pavio de uma vela que se aproxima do fim.

Então, a protagonista é esta, o cenário é este, a história é esta. O livro, bem, o livro é outra coisa. Porque aquelas coisas estão no interior do livro, mas são tanto o livro como um ser humano é o seu esqueleto. Estão no seu interior, mas não são a sua essência. Estão dentro mas, para o que interessa, são exteriores ao livro. O romance olha para muitas coisas lá fora, mas avança às ordens da voz que o constrói. Essa voz está no centro do romance e, ao mesmo tempo, paira sobre ele, organiza-o e, ao mesmo tempo, flui, arrastando para si as outras vozes – das personagens, da narradora, do autor – tornando-a uma só. Porque aqui não há polifonia, no sentido em que As Ondas, de Virginia Woolf, ou Na Minha Morte, de William Faulkner, são romances polifónicos. O que há é uma monofonia em vários tons em que a mesma voz atravessa todo o romance e atrai para si tudo o que encontra pelo caminho: os detritos e as pérolas, os trejeitos linguísticos que assinalam uma personagem e as imagens poéticas que denunciam o criador.

Por isso a narradora que numa página diz “derivado à doença” noutra fala de “uma casita de madeira onde me dava a impressão de ferver uma colmeia de horas”; numa, “o avental de não me sujar”, noutra, “a gravata um nó de suicida hesitante”; a certa altura diz “não entendo o motivo de se haver encrençado por mim” e, mais à frente, “um rafeiro parecia conversar erguendo uma pata traseira em confidências de pingos” sendo esta construção aquilo a que poderemos chamar de lobo-antunismo, uma forma peculiar de dizer, uma dicção inconfundível que, apesar de menos recorrente do que os excessos de virtuosismo metafórico das primeiras obras, continua a pontuar os romances do escritor, como uma assinatura. Há vários exemplos:

o meu cabeleireiro apagado com os capacetes de astronauta à espera das viajantes interplanetárias da manhã”; “as cadeiras de alumínio encaixadas umas nas outras numa procissão de vértebras”; “os uivos de bebé de uma ambulância na rua”; “tudo aquilo se despenhava num rebuliço de folhas”; “escolhia entre cápsulas em gestos de açucareiro com a pinça de dois dedos e engolia numa delicadeza de comunhão”.

Essa voz dobra o tempo, relativiza-o, amachuca-o, traz o passado para a porta de casa, intromete fiapos de diálogos nas frestas do discurso, faz assomar as recordações à janela da memória, sendo que a memória devastada da velha actriz torna credível o caos cronológico pois ela logo de início nos avisa que há muito que o tempo se fixou, “dá a ideia que se altera mas é o mesmo sempre e é no interior desse tempo que continuo a esmorecer devagar”. A voz, como tal, constrói o tempo e é também ela feita de tempo, um tempo que não é o tempo real (se é que tal coisa existe) nem é o tempo da ficção, não é o tempo da sanidade nem o da loucura, é uma amálgama de todos esses tempos derretidos. Essa voz que, mais do que construir um edifício narrativo, compõe um movimento musical (embora às palavras falte o rigor matemático das notas musicais), sustenta-se em motivos ou repetições. No caso deste livro, há o motivo do galgo do avental, do “motor” do gato, do comprimido, do relógio de cucos e do crucifixo a bater na parede como sinalizador do sexo, todos a marcar o compasso da voz e do tempo.

A realidade nos pormenores

Os romances de Lobo Antunes são, portanto, gestos radicais que não obedecem a nada que lhes seja exterior, apenas às exigências da voz, dessa forma voraz de ver, apreender e devolver o mundo. O maior problema dessa condição – e a razão de se acusar o escritor de escrever sempre o mesmo livro e de se repetir – é que, por muito diferentes que sejam as realidades que lhe servem de ponto de partida, todas elas são sacrificadas no altar da voz que as assimila e depois recita como se fossem idênticas. É como se a cada romance Lobo Antunes olhasse para diferentes realidades e as submetesse ao mesmo tratamento indistinto. É aqui que se trava o combate decisivo do escritor e, diria, de toda a literatura. Partindo do princípio que há uma realidade fora dos romances, realidade da qual eles partem (e é inegável que os romances de Lobo Antunes partem de realidades históricas e sociais concretas), até que ponto os romances se devem organizar em função dessa realidade? Nos romances de Lobo Antunes encontramos o Portugal real, com os naperons e os bibelôs, as Cátias do Seixal e as mulheres que tratam o marido pelo apelido, ou uma construção literária autónoma, um país de linguagem a que, por conveniência, chamamos de “Portugal”?

Sobre os romances, diria que o país neles retratado é uma construção daquela voz, embora semeada de pormenores colhidos na realidade e que, pela forma como são distribuídos pelo texto, dão a impressão de resultarem mais de um cruzamento do instinto, da capacidade de observação e da memória com a imaginação do que de uma investigação aturada, digamos, sobre os teatros de Lisboa ou sobre as ruas de Faro em meados do século XX, como acontece em Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera. Nos romances de Lobo Antunes, o real – o das personagens, o do país, o da humanidade – manifesta-se nos pormenores, nos pequenos gestos, objectos e frases que permitem que o leitor vislumbre o mundo que tem por realidade:

uma Nossa Senhora fosforescente numa prateleirinha”, “uma mulher de roupão a apanhar lençóis de um estendal guardando as molas no bolso”; o “carrito de rodas de pano de xadrez que vai saltando no passeio na sensação de quando era pequena e puxava um pato de brinquedo pelo cordel”; “a maneira de coçar uma perna com o tornozelo da outra”; “o interruptor junto à porta que deitava sempre faíscas”; “um tubo de pastilhas para a garganta destinado aos alfinetes”; o pai a correr e “a segurar as algibeiras do casaco com as palmas”; “uma capela onde se guardavam batatas” (diz a narradora de uma capela que, no entanto, só vê de passagem); “um albino de bicicleta com pinças de estendal a apertarem as calças”; “duas alianças na mão esquerda e portanto viúva”; “o peixe de baquelite que me punha na banheira”.

Não se trata meramente de um artifício literário para assegurar a verosimilhança, para que o leitor diga “isto é mesmo assim”, é a prova de que a voz que arrasta tudo consegue, ainda assim, reparar nas pequenas coisas, segurá-las com delicadeza e oferecê-las generosamente. É, pois, uma questão de atenção, de vasculhar toda a vida social e trazer à superfície os fragmentos aparentemente insignificantes que a revelam.

Com este gesto, a voz que devora e anula as realidades que se propõe descrever, redime-se. Sem início, sem enredo e sem desfecho, o romance é uma voz que se acende e que, lida a última página, se extingue, deixando o leitor abandonado ao silêncio a que aquela voz, mais do que a qualquer tradição literária, mais do que a qualquer realidade, pertence. “A minha casa ergue-se no cruzamento de dois silêncios”, escreveu Antoine Blondin, escritor que Lobo Antunes já apontou como uma das suas grandes influências. O que está neste livro não é uma história – o autor já renunciou a essa missão – mas uma voz que se ergue entre dois silêncios, uma casa de sombra entre duas escuridões profundas. Nesse sentido, consideremo-los mais ou menos realistas, os romances de Lobo Antunes parecem-se muito com a vida.


por Bruno Vieira Amaral
17.10.2016

14/10/2016

Artigo de Norberto do Vale Cardoso sobre Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (publicado no Jornal de Letras)

António Lobo Antunes:

Os misteriosos matusaléns do escritor


O novo romance de António Lobo Antunes, Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, realça um tema sobejamente importante na obra deste autor: a memória. Numa linha de continuidade, este romance retoma aspectos de obras anteriores, em constantes reenvios e alusões que devem ter em conta o corpus textual antuniano (constituído hoje por 27 romances publicados).
Alguns desses aspectos passam por: referência a cantilenas («– Pico pico sardanico quem te deu tamanho bico» ou «– Dança o cão dança o gato dança o feijão carrapato», que é título de uma crónica) e passagens bíblicas (a parábola do grão de mostarda, a título de exemplo), bem como intertextualidades (citação de excertos do poema “A lua de Londres”, de João de Lemos, autor do século XIX); e, acima de tudo, uma profusão de temas e lateralizações, quase sempre presentes nos romances de Lobo Antunes, tais como: o suicídio (de que encontramos, em Para Aquela…, três situações); a casa (lugar matricial, também aqui presente através da casa dos pais da protagonista, em Faro); alusões onomásticas (a prima da protagonista chama-se ‘Antonina’; o pai da personagem principal teria tido uma relação extra-conjugal com a ‘filha do Antunes’); a exclusão social (a homossexualidade, o travestismo e a miséria); a importância do voar (a entidade feminina recorda como a mãe lhe dava de comer enquanto ela voava) e da figura paterna (o pai era o único que a tratava por «- Filhinha» e não pelo nome próprio); as menções ao mundo do espectáculo (a protagonista foi actriz; o pai parece-se a um ‘Charlot’; um amigo do pai pertence a uma companhia de teatro ambulante); e a doença (a irmã chamava-se Corália e faleceu de difteria, o que intensificou a responsabilidade de viver da narradora que, aliás, também padece de uma doença).
Não obstante todos esses temas e micro-narrativas, é em torno da memória que gira a temporalidade da narrativa de Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, romance que não é estruturado apenas em narrativas descontínuas ou emaranhados, mas especialmente numa fruição da própria memória, feita, afinal, de descontinuidades, incertezas, interditos, elipses, avanços, recuos, esquecimentos e recordações. A protagonista e narradora do romance é de facto alguém que sofre de perdas de memória que a incapacitam para a vida profissional (era actriz e principia a esquecer-se das falas, tendo ‘brancas’ quando procura as palavras) e – paulatinamente - para a vida pessoal, o que a impede de viver sem o auxílio de alguém, aguardando-se, em última análise, o seu falecimento. A memória, como os três andamentos em que o romance se estrutura (tendo cada um deles oito capítulos), tem graus de velocidade e a personagem recorda, a partir da doença que a assola no presente, a infância passada em Faro, a relação entre os pais (com destaque para o ‘crucifixo’ que ora se move ora se silencia), um amigo que andara com o pai na tropa e que augurava para ela um futuro promissor nas artes dramáticas, os ex-maridos e uma coterie de objectos (animados e inanimados, mudando e suspendendo-se de forma a meio da noite, como a estatueta de uma rapariga agarrada a um cisne) que, entre a luz e as sombras da recordação, vai cruzando o mundo do espectáculo com o da memória.
A memória é, pois, o compasso que controla o ritmo do presente, tendo em conta que a ex-actriz padece de Alzheimer (palavra não pronunciada, sempre subentendida), oscilando entre perdas de memória e espantosas recordações. Podemos dizer que essa situação conduz ao que William Faulkner diz numa passagem de Uma Luz Em Agosto: «A memória acredita antes de o conhecimento recordar. Acredita por mais tempo que recorda, por mais tempo até que o conhecimento se interroga (…)» (ed. D. Quixote, 2016, p. 107). Assim, em Lisboa, ao cuidado de uma senhora de idade, sob a supervisão do sobrinho do marido já falecido, a voz feminina recorda todos os que estão mortos, mas, ainda assim, vivos dentro dela, como se constata: «que estranha forma de viver têm os mortos» (Para Aquela…, p. 74). Ora essa capacidade de a memória acreditar antes de o conhecimento recordar, leva a mulher a pensar que os seus pais (mortos há anos) tocam à campainha e se regozijam por ela estar prestes fazer setenta e oito anos. Estabelece-se aqui uma ligação entre a memória do que aconteceu e a memória do que se imaginou acontecer, potencializando-se, na escrita ficcional, um abalo na fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos:

[…] a senhora de idade para a minha mãe
– Não lhe pergunte seja o que for que ela para além de não falar
não se recorda de nada
o meu pai para a senhora de idade espantado
– Não se recorda de nada?
mortos há tanto tempo e no entanto aqui, como deram comigo em Lisboa no apartamento que não conhecem de uma rua que não conhecem também […]
(Para Aquela…, p. 263)

Esse esbatimento torna-se evidente quando se refere que a própria actriz faleceu antes dos pais (Para Aquela…, p. 311), o que coloca o leitor perante a impossibilidade de toda a narrativa memorialística. As fugas da memória conduzem a deslizamentos da verdade. A referência central poderá ser Pedro Páramo, de Juan Rulfo, que nos revela como a fronteira entre a vida e a morte é ténue na literatura. Em Pedro Páramo, a procura da mãe há-de traduzir-se num encontro insólito, para, no final, tudo ser colocado em dúvida. Ora em Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, é a filha quem procura o pai, partindo da doença, que – não o descuremos – metaforiza o processo da criação romanesca, ligado à memória. Daí também a importância da noite ou do escuro, pois a entidade feminina procura o seu quarto no escuro da casa, acorda de manhã e apercebe-se de que as coisas mudam durante a noite, desde o olhar do gato (símbolo heterogéneo da ligação entre o terreno e o além) ao rosnar do galgo (o que lembra a raposa de A Ordem Natural das Coisas). Não há apenas rememoração, mas uma construção imagística.
Escrita, espectáculo e memória – três motivos interligados e centrais no romance. Ora a actriz foi perdendo as palavras até ficar muda, mesmo que no seu interior ela não acredite nessas perdas. Como em Pedro Páramo, o silêncio permite que se apaguem de nós os ruídos e as vozes dos outros para escutarmos a nossa própria voz, o que sucede com a entidade feminina que deixa de verbalizar o que, afinal, passa a falar interiormente. O sobrinho do marido e o médico acham que ela não fala, mas essa (in)aptidão para usar as palavras liga-se ao ofício da escrita como uma criação inquietante. Não deixa, pois, de ser curioso que, no romance de Lobo Antunes seja aquela que duvida e se esquece das coisas (a irmã existe e não existe; o gato morreu com uma injecção dada pelo veterinário; o galgo que desaparece e é apenas uma imagem num avental) quem se ocupe da escrita do livro (p. 193).
A escrita-espectáculo-memória aparece-nos em todo o seu esplendor quando Lobo Antunes encontra ligações entre elementos díspares. A título de exemplo, a mulher doente que vai ao cabeleireiro, que se pinta, que se reinventa para parecer e se sentir sã, é comparada ao travestismo; os aplausos do público no teatro são comparados aos do médico e do sobrinho por afinidade quando ela se lembra de algo que a doença parecia ter apagado em definitivo. Isto sem esquecermos que ela desejava que «as pessoas» aplaudissem o pai «ao aplaudirem-me» (Para Aquela…, p. 60), e também que, no final do romance, o pai é referido como um ‘palhaço’ e um ‘pateta’ na direcção de quem ela corre, pois deverá ser ele quem a espera no escuro. O jogo burlesco faz parte da mundividência antuniana, servindo de base para o entendimento do que é a memória:

– Há meses que não a via assim bem disposta a falar do teatro a
falar dos pais dá ideia que recuperou a memória lembra-se das traineiras das gaivotas
lembra-se de praticamente tudo o estafermo, que misteriosos os matusaléns, dão ideia que a cair e quando menos se espera arrebitam (Para Aquela…, p. 231)

Eis que a memória, definida como misteriosos matusaléns (recordando aqui o Livro do Génesis, onde se afirma que Matusalém viveu novecentos e sessenta e nove anos), será, afinal, a palavra que se deseja longeva, ou seja, a sobrevivência da literatura à passagem do tempo, às brancas que a memória possa ter no espectáculo da vida. 


por Norberto do Vale Cardoso
em Jornal de Letras nº 1201 (ano XXXVI)
Outubro de 2016

Este texto foi disponibilizado para o acervo de antonioloboantunes.pt por cortesia do seu autor.

07/10/2016

Bruno Carriço sobre Da Natureza dos Deuses

Quando estamos a dias do lançamento de mais um livro da já longa bibliografia de António Lobo Antunes (Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, 18 de Outubro), acabo de ler o seu mais recente romance editado, Da Natureza dos Deuses. Admirador confesso da escrita deste autor, admito que os últimos títulos que lhe li, com uma ou outra excepção, pareciam caminhar para uma espécie de autismo, para um universo cada vez mais fechado. Ia lá cabendo Lobo Antunes e iam-se apertando conforme possível os seus mais devotos leitores, aqueles que já dominam as particularidades da sua escrita, as suas vozes dispersas e sobreposições temporais. É o próprio escritor quem melhor define os seus livros, quando diz que estes não são para ser lidos, que são para se apanhar, como se apanha uma doença. É também ele o primeiro a afirmar que não lhe interessa contar uma história, que quer, isso sim, enfiar a vida entra a capa e a contracapa. E é por estes motivos que eu, mesmo apaixonado por esta escrita (com um ou outro desgosto, como em qualquer paixão), não recomende livros de Lobo Antunes a quem me pede sugestões de leitura. Simplesmente porque é preciso estar disposto a mais do que ler. Avançando até este Da Natureza dos Deuses, não há surpresa na prosa poética com que este se enche, não há surpresa no rendilhado de frases e pensamentos que o autor cria e interrompe a qualquer momento, para concluir adiante. A técnica narrativa é a que vem evoluindo ao longo de toda a obra do autor, com as palavras escolhidas a dedo e as metáforas a alcançarem, quase sempre, o espanto. A vida volta a caber toda num livro. Da pobreza ao triunfo, da solidão às relações, da infância ao envelhecimento e à doença. Do que parece ser aos olhos dos outros até ao que realmente é, ao mais profundo de cada personagem. O que poderá haver de surpreendente neste Da Natureza dos Deuses é a facilidade com que, apesar das inúmeras vozes que o compõem, dos muitos tempos em que é narrado, se segue com clareza a história (sim, aquela que nem sequer é pedra basilar das ideias do autor), feita das muitas histórias individuais (essas sim, uma preocupação de Lobo Antunes) das personagens.  Este será, ao contrário dos últimos títulos do autor, um livro mais aberto, mais à feição de leitores que não dispensem um fio condutor na narrativa. Lobo Antunes continua a explorar o poder da palavra, mas deixa bem visível o retrato de um país e de um tempo. A admirável galeria de personagens deste Da Natureza dos Deuses é, salvo  raras excepções, desprovida de nomes próprios. Portugal está nas mãos do senhor doutor, que representa o poder económico, e do senhor presidente, que será Salazar sem que em algum momento se diga que é Salazar. É um tempo em que o volfrâmio se negoceia com ingleses e alemães. Também procuram o poder o adjunto do senhor doutor, a secretária do senhor doutor e a secretária do adjunto do senhor doutor. Neste romance quase sem nomes, entre as raras excepções encontra-se Marçal, o empregado do casaco branco, único homem da confiança do senhor doutor. As personagens são muitas, mas todas elas se apresentam de forma única. Sobra uma sobre quem pouco se afirma e tudo se questiona, o enigmático sem abrigo, que eu tomei como a figura do leitor a surgir no livro, mas que pode muito bem ser apenas o sem abrigo, alguém que passa ao lado dos jogos de poder, despojado de haveres, um contraste. Sem revelar mais, por ter já revelado mais do que queria, afirmo que António Lobo Antunes tem, neste livro, um dos melhores livros que lhe li. Um livro Da Natureza dos Deuses. Dos Deuses que só poucos autores conseguem ser.


por Bruno Carriço
03.10.2016

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...