31/08/2006

Lourenço Bray: opinião sobre Fado Alexandrino


A melhor escrita resulta essencialmente de um desequilíbrio. É por isso verdade o velho cliché de que as pessoas quando estão “deprimidas” ou em estados considerados frágeis criam mais, estão num estado mais introspectivo e por isso mais próximas das questões básicas do quem sou eu, de onde vim e para onde vou. Porque precisam de pensar nisso. Se a vida fosse feita de praia, surf, peixinho fresco assado, bom vinho, fogueiras crepitantes onde um grupo de eternos jovens se reúne para tocar guitarra e fumar cigarros que não dão cancro no pulmão, de olhos postos nas faúlhas de fogo que espiralam em direcção ao firmamento, se fosse assim, a literatura morria.

O escritor reage ao que o rodeia, transformando as suas experiências em escrita. A experiência de vida, a par da leitura, é fundamental para a escrita. É muito difícil escrever algo com substância com menos de 30 anos porque não se viveu o suficiente, nem se leu o suficiente. O escritor quase nunca pode agir para se rodear daquilo que em princípio o estimulará a escrever textos melhores, isso é a vida que escolhe. A vida do Lobo Antunes estará marcada por experiências extremas, elas aparecem no Fado Alexandrino. Não há limites, Lobo Antunes escalpeliza as relações humanas como se lhes fizesse autópsias e sentimos que estamos perante um limite da arte: a perfeição. Não existe outro escritor que domine melhor a escrita e a palavra como Lobo Antunes. Se fizessem o equivalente no cinema seria algo do calibre de um Ingmar Bergman.

Mas quero evitar autopsiar eu o Fado Alexandrino até porque não tenho jeito para isso. O problema evidente que a obra de Lobo Antunes suscita a qualquer escritor é que se pode ler muito e ser culto mas que não se pode fugir de uma vida completamente banal, estéril e desinteressante. Pode-se transformar a literatura que se leu, e o cinema e tudo mais em textos, até em mais literatura, mas faltará sempre uma marca, uma voz única, uma espécie de assinatura de vida que distingue um grande escritor de um assim assim erudito que nunca consegue escrever uma só linha sincera.

É verdade que enfrentei estas 600 páginas do Fado Alexandrino com o incentivo extra do livro me ter sido oferecido pelo Lobo Antunes na futuramente mítica sessão de autógrafos da Feira do Livro.

Estava um pouco amuado com ele, comecei a ler o Esplendor de Portugal e desisti às 100 páginas, aborrecido de morte com “mais do mesmo”. O Lobo Antunes exige uma aprendizagem progressiva para a sua linguagem e universo muito particulares. Este Fado Alexandrino é um excelente ponto de partida. Fica-se viciado. Não conhecem viciados em Lobo Antunes? Aquelas pessoas que estão sempre a ler um livro de Lobo Antunes? (…)

 
Lourenço Bray
04.07.2006

30/08/2006

Da leitora Conceição Ramos-Lopes: «Apetece-me chamar-te Estrangeiro»

Apetece-me chamar-te Estrangeiro
mas não te sigo
é madrugada agora
e diluo-me de te não ter
Das janelas dos teus olhos
nasceu uma vela branca
e a tua língua
escorreu uma gaivota
Os teus braços
desfraldaram mares de espuma
e um medo azul
ancorou-me a este cais
onde acenas sem partir

Amanheceu e eu já não sou
 
A António Lobo Antunes

Conceição Ramos-Lopes
e-mail de 30.08.2006

29/08/2006

José Romero P. Seguín: Impressões sobre o romance «El Resplandor de Portugal»


Ler o romance de António Lobo Antunes, "O Esplendor de Portugal", é como ler espelhos inquietos. Mas não num lugar asséptico, cómodo e decente para tão plácida tarefa, mas sim lê-los de pé ou de cócoras lá onde eles apodrecem já esquecidos e também lá onde mal vivem não menos esquecidos.

Luanda e Lisboa, Lisboa e Luanda, África e Europa definitivamente, malditas ambas na sombria e decadente imagem da memória ao menor fulgor de esperança. Assim são as personagens. Sente-se que as imagens entram e saem em si confundidas como na forja do espelho corrompido as silhuetas que não sabem onde começa a sombra que são e a sombra que foram. Para ir dotando de sentido o que não tem sentido, das vidas derrotadas para lá da culpa. Vidas atadas a um esplendor urdido sobre a miséria dos outros e como tal miserável.

África ofereceu-lhes para além da ambiciosa oportunidade de medrar economicamente, a possibilidade de serem um grotesco arremedo desse estatuto de dignidade que na orgulhosa e decrépita Europa lhes era negado. Procuravam, e assim o exprimem, em África, algo mais que riqueza, a estima social, a necessária reafirmação pessoal da sua singular condição, e um dia descobrem nos fracos e humilhados olhos dos negros que os servem e que não são senão os negros dos brancos filhos da metrópole. E o que é mais terrível, é que em tão pobre viagem tenham dilapidado não só as suas vidas como também a de milhares de homens. Mas como compreendê-lo, simplesmente não podem permitir-se a tal, devem-se à legítima vontade de sobreviver, e que melhor para eles que viver através da memória para recordar sem outra culpa que a de não permitir nunca que a imagem os mostre terríveis e completos no espelho de sua alma.

Os povos derrotam-se homem a homem, e uma vez derrotados, tudo quanto nasce das suas mãos é feito sob este terrível desígnio, até que homem a homem se levantam como povo, para um esplendor fugaz mas capaz de dotá-los da dignidade que como povo merecem. A colonização junto com a ditadura sufocou e derrotou Portugal, a revolução dos cravos elevou-o à mais digna das vitórias. Essa é uma flor oculta que Antunes não define, mas sobre a qual cimenta a magnífica catedral dos seus sonhos.


por José Romero P. Seguín, escritor
enviado por e-mail em 29.08.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

10/08/2006

Da leitora Conceição Ramos-Lopes: «Neo-»

Neo-


Olhos de se cumprir
um pouco
Portugal
Prosa sem cabresto
Páginas de génio
pessoano
a quantas (?) décadas
de intervalo
Olhos de destilar
surrealismo
Ou álcool
O fascínio
de recônditas
etílicas
profundezas
Associações
para mim
tudescas
Longínqua herança
de azul
e laivos de ouro
Associações...

Ao Escritor português meu fétiche.
Bruxelas, 1992

Conceição Ramos-Lopes
e-mail de 10.08.2006

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...