30/09/2014

Universidade romena distingue António Lobo Antunes com Honoris Causa

Citado do site Observador:

A universidade romena de Babes-Bolyai vai distinguir o escritor português António Lobo Antunes com o Doutoramento Honoris Causa e com o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia.
O escritor António Lobo Antunes vai receber na próxima segunda-feira o Doutoramento Honoris Causa da Universidade Babes-Bolyai e o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, em Cluj-Napoca, na Roménia, anunciou a sua editora.
A distinção académica, afirma a editora do grupo LeYa, é “resultado de uma decisão unânime dos membros do senado daquela universidade, uma das mais antigas e prestigiadas da Europa central e oriental”. O doutoramento é atribuído ao autor de “Auto dos Danados” pela sua “contribuição excepcional para a literatura mundial” e pela “difusão da cultura portuguesa no mundo”, afirmam as Publicações D. Quixote, citando o documento da universidade romena.
A Universidade Babes-Bolyai, em Cluj-Napoca, atribuiu igual distinção, entre outros, ao escritor Mario Vargas Llosa, ao historiador Jacques le Goff, à chanceler alemã Angela Merkel, e ao teólogo Joseph Ratzinger, actual papa emérito.
Na terça-feira, na abertura do Salão do Livro da Transilvânia, que se realiza também em Cluj-Napoca, onde serão apresentadas as edições romenas dos livros do autor, António Lobo Antunes receberá o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro.
Lobo Antunes, de 72 anos, tem editados mais de trinta títulos, entre romances, poesia e crónicas, tendo-se estreado literariamente com “Memória de Elefante”, em 1979, e logo nesse ano publicou “Os Cus de Judas”. A editora anunciou que o próximo romance de Lobo Antunes, “Caminho Como Uma Casa Em Chamas”, será publicado no dia 21 de Outubro.

fonte: Observador / Agência Lusa
29.09.2014
texto revisto por José Alexandre Ramos
foto de Georgina Noronha editada por José Alexandre Ramos

27/09/2014

Caminho Como Uma Casa Em Chamas: a capa do novo livro a publicar em Outubro

Após divulgarmos a capa da estreia mundial com a edição holandesa da Ambos Anthos, esta é a capa da edição Dom Quixote.


O livro, o 25.º romance do autor, tem como fio condutor um prédio algures em Lisboa e as vidas das pessoas que nele vivem, mas este é apenas um pretexto para António Lobo Antunes nos maravilhar com a sua escrita única e a sua descida cada vez mais fundo ao que de mais íntimo há em cada um de nós.

Em estreia mundial, o livro será primeiro publicado pela holandesa Ambos Anthos, previsto para dia 14 de Outubro, e só depois será publicado em português pela Dom Quixote (LeYa), previsto para o dia 21.

Entretanto, dia 6 de Outubro, António Lobo Antunes estará em Cluj-Napoca, na Roménia, para receber as insígnias de Doctor Honoris Causa pela Universidade Babeș-Bolyai.

20/09/2014

Entrevista de 2006 em Espiral do Tempo: "Exortação à vida», por Anabela Mota Ribeiro

Revista on line Espiral do Tempo nº 21
Entrevista de Anabela Mota Ribeiro
Verão 2006


Falámos dos livros. Do silêncio. Da alegria. Da guerra. Da dificuldade em dizer o amor. Da necessidade de se apropriar do coração dos homens. Falámos da sua nudez, vulnerabilidade, do medo e do desejo. E da fé que tem nos homens. A explicação do mundo de António Lobo Antunes é tão caleidoscópica como a luz da tarde. Nela cabe, agora, a felicidade. Eis o retrato de um homem que a mãe diz ter sido sempre assim. Mas o tempo passou por ele. 

«Agora já não. Ao princípio sim. Continuo a achar que os livros deviam ser publicados sem o nome de autores. Havia uma data de problemas que desapareciam. Pelo menos ao nível de competição, inveja, ciúme – tudo isso que nada tem que ver com livros e que eu entendo mal.»

*

«Havia uma certeza que eu tinha, era que se trabalhasse muito ninguém escrevia como eu. Mas depois fazia coisas muito más. Havia uma distância tão grande entre aquilo que eu sentia e os 
resultados, que eram tão pobres. Continua a haver.»

*

«Tenho agora alguma virgindade. Virgindade no olhar, uma capacidade de surpresa muito maior 
do que tinha há dez ou 15 anos. E também o amor. Demorei muito tempo a aprender o que era o amor. Amor, estou a falar em lato sensu

*

«Estava convencido de que tinha nascido para grandes feitos, que não sabia bem quais eram. Para citar o seu querido Goethe, “a nossa única grandeza possível é não chegar. Não chegar nunca”. 
Não me apetece nada falar, acho que você percebe sem eu dizer as coisas.»




nº 21 Verão 2006
fotos originais de Augusto Brázio
entrevista de Anabela Mota Ribeiro

07/09/2014

O encontro de António Lobo Antunes com George Steiner em 2011

Saiu na revista LER em 2011 a reportagem sobre este encontro. Em 2012 pedimos permissão para reproduzir o texto publicado no nosso espaço. Foi-nos recusado, com o argumento, se bem me lembro, de que havia um acordo de não difundir para outros meios a conversa entre os doisvultos da literatura que se queria privada. Hoje, por mero acaso, acabo de descobrir que está há meses disponível no Youtube (o vídeo do encontro, não apenas o texto), publicado pelo canal do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Critérios.

O que é importante é que agora podemos ver esse encontro:

06/09/2014

Entrevista a José Alexandre Ramos sobre o projecto «António Lobo Antunes na Web»

Entrevista de Joana de Paulo Diniz a José Alexandre Ramos, sobre o projecto António Lobo Antunes na Web - Agosto 2014 - Porto

Agosto de 2014 e o Verão a fazer-se de difícil. Nada que me impeça, porém, de visitar a minha cidade natal, o Porto, e re-encantar-me com a sua beleza feita de luz sombra granito e neblina. E com um outro objectivo, tentado outras vezes antes e sempre recusado: entrevistar a pessoa que idealizou este projecto de, segundo as suas palavras, afirmação da obra de António Lobo Antunes na internet. Modesto e tímido, como quem nada tem a dizer, indeciso sobre "se vale a pena uma coisa destas para a página", José Alexandre Ramos deixou-me que o convencesse. Penso, e ele acabou por concordar comigo, que faz todo o sentido de, passados praticamente dez anos desde que iniciou este projecto (completa-os no dia em que o Lobo Antunes fará 72 anos [dia 1 de Setembro]), saber o que tem ele a dizer da sua experiência. Fim de tarde bem passada, numa esplanada à beira-rio que ele confessou já não desfrutar há imenso tempo, sorvendo devagar um gin tónico, conversamos sobre isto de ter uma página na web sobre o escritor que tanto admira. Munida de um telemóvel e bateria extra para a enventualidade de a tecnologia malograr a intenção, fiz as perguntas que achei necessárias (nem todas, que a conversa acabava desviada) e ele foi respondendo, sempre naquela teimosa e humilde atitude de que a sua pessoa não é importante. "Nem penses que vais colocar fotografias!", advertiu-me quando lhe tirei o retrato. Aceitei. Fica apenas o texto. Agora que terei de parar por tempo indeterminado a colaboração que tenho dado ao projecto, decidi que algo novo havia de ser feito. E, como arrancado a saca-rolhas, lá consegui que José Alexandre Ramos fosse, por uma vez, o centro das atenções num sítio que afinal é dele, mas onde só se fala de António Lobo Antunes. Que, por sinal, é o seu escritor preferido, de há muitos anos.

...............

Joana de Paulo Diniz (JPD) - Há muito que tive esta ideia de entrevistar-te, mas só agora te dispuseste...
José Alexandre Ramos (JAR) - Vais começar a entrevista assim?!

JPD - Não tenho formação jornalísitica nem nunca fiz entrevista alguma... está mal?
JAR - Não tem que ver com estar bem ou mal... Vá... é que assim parece que o que é importante aqui sou eu, e a minha vontade, e não o projecto em si...

JPD - Sem ti e a tua vontade o projecto não existia...

[risos, mais de timidez do que por achar graça]

JPD - De qualquer forma, se calhar a pergunta até faz sentido com isso que dizes: negaste umas quantas vezes quando me surgiu esta ideia...
JAR - Estamos a ser redundantes... porque não sou eu, é o projecto. Também ele não exisitiria se não houvesse alguém na rede que referisse António Lobo Antunes e o que escreve. Principalmente o que escreve. O que eu faço, praticamente, desde o princípio, é reunir esse material disperso.

JPD - Surgiu assim, não é? Pessoas que escreviam em sites sobre Lobo Antunes e que resolveste compilar.
JAR - Em sites... em blogs, principalmente. Era o ano de 2004, e já havia muitos blogs na chamada blogosfera portuguesa. Mas, sim, foi por aí. Lia o António Lobo Antunes desde 1992 e - creio que foi por altura da publicação do "Boa tarde às coisas aqui em baixo", de que, confesso, tive alguma dificuldade ao início para o ler como devia ser...

JPD - Como assim?
JAR - Não sei, quando comecei a lê-lo não me prendeu tanto, como os outros... mas lá consegui. Penso que por ter referências a coisas que se passavam ou passaram em Angola de que eu sabia pouco, acho que foi isso. Bom, mas acabei por lê-lo com o mesmo prazer que li os anteriores... Acontece que, até então, eu era apenas um curioso na net, tinha feito algumas coisas, páginas e blogs, mas, sinceramente, acabei por não dar muita importância ao que se fazia e passava na internet.

JPD - Porquê?
JAR - Simplesmente porque achava, e continuo a achar, que isto na internet é tudo muito efémero, ou estamos sempre a mudar de sítio... vais naquela onda, toda contente, mas tens de ter noção que outras ondas virão, umas melhores, outras piores, mas... o imperativo, digamos assim, é saltar para essa outra onda que vem. Se não fazes isso, és colocada de lado...

JPD - Por essa razão queres o projecto em mais que uma frente, ou "onda".
JAR - Sim... não por uma questão de estar na moda, mais para que se não perca a referência, e que a página sobre o António Lobo Antunes [ALA] não acabe obsoleta... Se eu ainda continuasse com a mesma homepage do SAPO, creio que hoje não faria sentido... nem teria visitas, certamente.

JPD - Ok, mas voltando atrás: pensaste numa página com críticas a ALA, foi isso?
JAR - Foi um blog... era mais fácil. Quando terminei a leitura do "Boa tarde" quis saber da opinião de outras pessoas sobre o livro e, na altura, frequentava alguns fóruns... Chamam-lhe fóruns... uma plataforma em que as pessoas responsáveis por essas páginas colocam assuntos de discussão e os utilizadores respondem ao tema... Nessa altura frequentava um que, embora houvesse bastantes tópicos literários, nada encontrava - ou muito raramente e quase sem grande discussão - algo sobre os livros de ALA. Acabei por colocar um tópico, penso que sobre aquele livro - não estou bem certo se sobre o livro ou se sobre os livros de ALA de uma forma geral...

JPD - E tiveste muitas respostas...
JAR - [risos] Nada! Qual quê?! Nada! A adesão foi quase nula. Não sei se por eu ser um utilizador novo daquele sítio, se por ser sobre ALA... Tenho a impressão que as pessoas que frequentavam aquele fórum nem eram sequer admiradores de autores portugueses...

JPD - E então?...
JAR - Como não tive resultados ali, fui procurar e, para espanto meu, encontro logo à cabeça uns dez artigos brasileiros a falar sobre livros de ALA...

JPD - Procuraste no Google, ou parecido?
JAR - Acho que sim, procurava em vários motores de busca, mas creio que foi no Google, sim...

JPD - Opiniões de leitores brasileiros...
JAR - Sim! Os primeiros resultados apontavam para artigos de "revistas on-line" brasileiras que se referiam ou a um livro, ou à obra em geral.

JPD - E começaste a coleccioná-los.
JAR - Ia colocando nos favoritos do navegador. A certa altura eram tantas as páginas nos favoritos que acabei por ficar com aquilo "desarrumado"... já não sabia o que tinha lido e o que me faltava ler. Então, surgiu a ideia de compilar essas ligações - com um menu dos títulos de cada artigo - num blog. Sempre que encontrava algo novo, acrescentava um post e colocava os links... Organizado por temas, era o que me preocupava, para não me perder...

JPD - Mas eram sempre brasileiros?
JAR - Não, depois fui descobrindo páginas portuguesas... institucionais, blogs pessoais ou colectivos, outros fóruns, etc. Havia mesmo muita coisa. E também percebi que havia páginas em espanhol... Bom, no fundo, tinha que ver com as palavras que colocava na procura, eram em poruguês, tipo "opinião sobre" tal... ou "resenha", que é uma palavra que os brasileiros usam mais que nós... é evidente que me surgiam mais resultados em português, fosse de cá ou do Brasil, e algumas vezes, em espanhol.

JPD - Avançando, quando é que o projecto de uma página sobre ALA surgiu mesmo?
JAR - Aí mesmo. Eu ia colocando os links sobre os artigos que ia encontrando mas já a pensar que o melhor era ter esses textos num só sítio para que eu e outras pessoas pudessem ler em vez de procurar aqui e ali... até porque houve alguns artigos que perdi. Lá está: a tal efemeridade das coisas na net. Então, há dez anos, as coisas ainda eram algo provisórias e/ou improvisadas. Páginas e blogs pessoais duravam pouco tempo, caducavam, não sei... ou as pessoas deixavam de lá escrever, ou, por que se procurava serviços gratuitos e com poucas garantias, algumas páginas, e blogs, deixavam de existir. Foi então que pensei que fazia todo o sentido transcrever esses textos numa só página e, mesmo que os links de onde eles vinham caducassem, eles, os textos, continuariam disponíveis ali. Como tinha conhecimentos de html, para fazer uma simples homepage, fui, com muita paciência, fazendo esse trabalho. Que era praticamente de "copy/paste", seja dita a verdade. Mas levava o seu tempo, organizar por tópicos, etc.

JPD - Já não era só sobre os livros, também entrevistas...
JAR - Sim, tive a ideia de também "salvaguardar" entrevistas que iam saindo nos jornais e as colocavam on-line. Só mais tarde é que me dispus a transcrever do que saía só em papel para a página. Até entrevistas televisivas. Havia poucas ferramentas para transformar o vídeo num ficheiro audiovisual, que pudesse ser carregado. Tanto que, o que possivelmente ia existindo, fora do Youtube, era bastante grande para caber nos poucos "megas" de espaço que os serviços de hospedagem de sites ofereciam.

JPD - A adesão foi grande?
JAR - Também para meu espanto, foi mais do que esperava. Eu não sei dizer se foi, ou se é, actualmente, uma adesão grande, ou que haja bastante procura. Comparando com outros sítios não é, mas como podemos comparar um sítio que tem essencialmente opinião de leitura sobre os livros de um escritor com outro sobre... enfim, culinária, viagens, fotografia, cinema, etc.? Ou até mesmo sítios de teor literário mas que abrangem mais que um autor e um estilo?... O que sei é que, na altura em que tive o site num alojamento pago, com o domínio web com que ficou mais conhecido - "ala.nletras.com" -, era uma referência na net. Referido em blogs pessoais e colectivos, sites de instituições como o IPLB, na Wikipedia, até mesmo num site da Leya... e resultado de topo quando se procurava o nome do escritor no Google. Por isso tudo, creio que teve uma boa adesão; se grande ou pequena para uma página daquelas não sei avaliar, mas foi muito mais do que eu estaria à espera.

JPD - Hoje já não é assim...
JAR - Não... também porque o projecto esteve um ano suspenso. Por outro lado, o facto de ter deixado esse tal domínio "ala.nletras.com" resultou em que muitos dos visitantes achassem que simplesmente a página havia acabado, apesar de ter alertado para a mudança.

JPD - Por que foi essa mudança?
JAR - Cheguei à conclusão que não fazia sentido estar a pagar um alojamento para um sítio que começava também a ficar...ia a dizer obsoleto, mas não é nada disso. O que acontece é que os meus conhecimentos na área de programação e construção de páginas web é quase elementar, e então enfrentava muitas dificuldades como, por exemplo, tornar aquilo mais dinâmico. Ser mais prático quando o editava. Mais concretamente: num dos picos de maior afluência que é quando ALA publica novo livro, e dá entrevistas, se tivesse alguma informação que quisesse partilhar logo, tinha ainda de trabalhar essa informação, ver onde cabia, saber o que retirar caso necessário, e isso demorava tempo... E mesmo assim, dependendo do sítio onde fizesse sentido colocar o texto, ou o que fosse, nem sempre ficava visível ou destacado o suficiente... ou como desejaria.

JPD - E um blog veio solucionar isso.
JAR - Sim. De uma forma geral, na estrutura de um blog, quando colocas um artigo novo, essa informação é a primeira que se apresenta ao utilizador. Ficou realmente resolvido o problema. Portanto, voltando à questão, embora durante um ano tivesse a homepage "nletras" a funcionar a par com o blog, que começou por ser apresentado como um apêndice ao site, uma espécie de feed de notícias, cheguei à conclusão que não precisava da homepage e ter o custo do alojamento, já que tudo podia caber no blog, ainda com essa vantagem, que as várias plataformas de blog passaram a oferecer, que é a de ter menus à parte do corpo central dos artigos colocados diariamente.

JPD - Mas nunca deixaste de ter uma homepage, que hoje é "ala.pt.la"...
JAR - Por considerar que era bom ter um local que apresentasse o projecto, tipo cartão de visita, embora não fosse lá nada colocado, tudo era redireccionado para o blog. É assim que continua, 
actualmente, a par da página de facebook. Há forma de num só sítio fazer tudo, homepage, blog e mais não sei quê. Porém, nesse campo tenho conhecimentos técnicos limitados e, pior que isso, pouca disponibilidade de tempo.

JPD - Na cronologia da página de facebook explicas que quando o site foi suspenso...
JAR - Não quero falar sobre isso. Já não tem importância.

JPD - Não cheguei a formular a questão...
JAR - A razão de ter suspendido? Razões particulares. Aconteceram várias coisas, simultaneamente. Assuntos particulares misturados com um mal entendido que envolveu a primeira página de facebook. Senti-me desamparado em muitos sentidos e resolvi parar. Mas, apesar de ter chegado a eliminar o blog, acabei por manter o seu conteúdo num blog novo, com outro endereço. Foi apenas esse o meu pecado, ter tido o impulso de apagar o blog para não pensar mais naquilo, mas não se apaga oito anos de trabalho assim, nem se deixa de pensar, de maneira que deixei todo o material disponível, apenas sem actualizar.

JPD - Está bem, fica então a explicação para quem, eventualmente, ao ler esta entrevista, tenha alguma dúvida sobre isso. Mas a minha questão era outra, falei na suspensão porque, quando a ela te referes nos eventos cronológicos da página de facebook, dizes que havia planos para fazer o site em outras línguas... Isso ficou de lado, ou ainda o queres fazer?
JAR - A sensação que tenho, olhando para trás, é que fui tendo cada vez maiores expectativas quanto ao projecto. Ambicionava ir muito mais além. Fazer versões do site - algo resumido, não tudo - em outras línguas era coisa que já estava a preparar, de facto. Ia avançar em castelhano, como uma espécie de agradecimento aos colaboradores e leitores que falam esse idioma e que escreviam ou escrevem sobre os livros de ALA. Depois era só replicar para inglês e talvez francês. Mas sabia que 
teria de procurar ajuda. A trabalhar sozinho não ia conseguir, evidentemente.

JPD - Acabaste por desisistir, então...
JAR - Não é desistir, é ir mais devagar. E, com paciência, encontrar pessoas que se voluntariem para me ajudar a levar adiante essa e outras iniciativas mais arrojadas. Basta que sejam pessoas com grande vontade de trabalhar nisto, sem pensar em compensações e, vá, que tenham a mesma paixão que eu. Ah, e tempo, disponibilidade, isso é muito importante.

JPD - Para finalizar, uma questão que é inevitável: como reage António Lobo Antunes a este trabalho que fazes? Com certeza haverá, entre os seguem o projecto, quem gostasse de saber...
JAR - Já me fizeram essa questão várias vezes. Os mais próximos penso que sabem qual é a opinião do escritor. No entanto, não posso dar um resposta simples. Não é que seja algo de complicado, mas convém que as pessoas percebam, antes de tudo, que esta inciativa é particular, e o trabalho feito foi, e é, para os leitores de ALA. Há dez anos não pensava como reagiria o escritor sobre o que eu tinha em mente. Era tudo muito claro: recolher opiniões sobre a sua obra, ponto. À medida que o site foi crescendo, e a responsabilidade maior, no sentido de eu próprio me pressionar para fazer o melhor que podia, começou a gerar dúvidas em mim. Como disse, passou a ser, na net, uma grande e única referência sobre ALA. E sempre afirmei que se fosse do desagrado dele, eu parava. Isto é, parava de querer ir mais além, e ficava-se por conter as tais opiniões de leitura, sem mais nada. A primeira reacção que tive não foi dele, mas das filhas. Publicaram o livro das cartas da guerra [D'este viver aqui neste papel descripto - Cartas da Guerra, organização de Maria José e Joana Lobo Antunes, Dom Quixote, 2005], e, não sei como foi, souberam do site, na altura ainda alojado no SAPO. Elogiaram, agradeceram, até me forneceram dados mais concretos para o esboço biográfico que eu tinha no site. Apesar de ser por via indirecta, sentia que havia uma espécie de aprovação, pois se as filhas sabiam disto, possivelmente ALA também já sabia; e se não era contra, para mim bastava. Continuei a trabalhar, até chegar ao momento em que na net tanta gente referia o "site não oficial de António Lobo Antunes". Já o conhecia pessoalmente, das apresentações de livros e sessões de autógrafos, mas nunca me tinha apresentado como aquele que estava por trás do tal site não oficial. Sentindo uma certa "pressão", e continuando com aquela coisa de não querer ser abusivo e de nada fazer contra a sua vontade, resolvi, e pela primeira vez, escrever-lhe. Eu, por natureza, sou pessoa que não gosta de incomodar quem quer que seja e, apesar de ficar tentado algumas vezes, rejeitei sempre isso de lhe escrever - para dizer o quê? - e mesmo abordá-lo pessoalmente. Afinal, e já que o trabalho era para os seus leitores, que importância teria para ele um site de internet sobre a sua obra? Ainda por cima quando ele dizia publicamente que nem sabia mexer num computador! Porém, chegado esse momento em que tinha muita atenção virada para o meu trabalho, lá decidi escrever-lhe e dizer o que fazia. Nem sequer estive à espera de resposta, senti que tinha feito o correcto, que era: faço isto sobre si e seus livros, espero que seja do seu agrado, se não for diga-me. Passadas nem duas semanas recebi a resposta, e foi a primeira vez que senti orgulho, sem vaidade, do que tinha até ali feito. António Lobo Antunes disse que já conhecia o meu trabalho, que lho tinham mostrado e agradeceu muito. Não só agradeceu como se ofereceu para que lhe fizesse uma entrevista, via telefone, exclusivamente para o site. Fiquei, obviamente, muito contente. Fiz essa entrevista, no início de 2009, e meses depois, quando voltei a encontrá-lo pessoalmente, numa sessão de autógrafos - como sempe acontecia, nunca combinamos qualquer encontro -, mal disse o meu nome ele reconheceu e voltou a agradecer, conversamos como se sempre nos conhecessemos. A última vez que estive com ele foi em 2011, aqui no Porto, depois disso não falei mais com ele. A história é esta. Mais recentemente, fui contactado pela sua editora em que ele havia sugerido pré-publicar no site as primeiras páginas do livro que sai este ano. Disse-me a Maria da Piedade Ferreira, a actual editora, que ALA estava contente com o regresso do site, e é esta a última reacção. So far, so good. Para mim é o bastante.

JPD - E quanto ao futuro? O que vem a seguir?
JAR - A seguir vem outro dia, e depois outro, e mais outros seguirão. Vou continuar, mas desta vez sem fazer pressão sobre mim mesmo. Trabalharei com aquilo que surgir. Provavelmente vai acontecer, em Outubro, mais um pico de trabalho, com a publicação de Caminho como uma casa em chamas. Ou não. Não sei. 

JPD - E se lhe dão o Nobel? Aí vai ser um trabalhão, ou não?
JAR - Já estive mais preocupado com isso... mas ia ser um trabalhão mesmo, que nem é bom falar! Se acontecer ele receber o Nobel, espero que surjam colaboradores, ou não darei conta de toda a informação e dos eventos previsíveis... Ou então talvez venha a ser tão pacífico que nem dê assim muito trabalho, não sei! Insisto: tem de ser um dia de cada vez, já não faço planos.

JPD - Queres deixar uma mensagem aos que visitam e consultam as páginas do projecto?
JAR - Nada mais do que tenho dito sempre: partihem, colaborem, o mínimo que seja, toda a ajuda é bem vinda. Que continuem a ler António Lobo Antunes, e a sugerir os seus livros... sem isso, este projecto não fará sentido, como é óbvio. Ah, só para terminar: o projecto é sobre ALA e não de ALA. Não é ele que gere o blog ou a página de facebook, não é ele que está por trás de qualquer iniciativa ou decisão. Quando isso acontece - como foi o caso da pré-publicação do livro que sai este ano, é uma excepção devidamente informada, o resto é tudo da minha responsabilidade e da bondade dos colaboradores. Apenas isto. E obrigado por fazerem parte.

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...