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30 de abril de 2016

«Uma Via Láctea de Galos», crónica com ilustrações de Nicoleta Sandulescu


          E, de manhã, tínhamos os galos. Uma Via Láctea de galos, neste quintal, no outro, junto à vinha do presidente da Câmara, mais adiante, no sítio dos ciganos, com rulotes e mulas e trapos
pendurados e discussões à noite, de forma que o único sem cantar era aquele que a minha avó segurava pelas asas para lhe cortar o gasganete, e o bicho, sem cabeça, a remexer-se activísssimo.
Depois desistia, depois a minha avó despia-o e o galo afinal esquelético, duas, três penas castanhas e azuis permaneciam a bailar no pátio, às vezes sumiam-se a tremer por cimas das nespereiras, cheguei a recuperá-las, séculos depois, na lama do inverno, sujas, sem cor alguma, reduzidas a meia dúzia de filamentos tristes. Portanto, de manhã os galos, o gato a escorrer a sua seda furtiva no intervalo dos móveis: se me chegava a ele tornava-se dúzias de unhas que assobiavam uma chaleira de ódio antes de se transformar num pulo, deixando de existir a meio do salto. Os galos, o gato, eu a avançar com a muleta porque o joelho murchou. Encheu-se de água, o enfermeiro deu-me uma injecção e os ossos secaram: recusam a dobrar-se mas não sofro muito com isso e a muleta, além do mais, dá-se ao respeito. Conheço vários que me invejam, fico importante e trágico como um soldado que sobreviveu à guerra, as mulheres gostam de acompanhar comigo, sobretudo a viúva do despachante: de quinze em quinze dias encosto-lhe a muleta à cabeceira, resolvo o assunto, fumo um cigarrinho e andor. A minha avó
          – Cheiras a drogaria que tresandas
          dado que não é grande espingarda em perfumes franceses,
dos caros, dos finos, que a viúva comprava em garrafões na drogaria, com o rótulo  made in Paris e a torre Eiffel por cima dos Jerónimos. Com os trocos do perfume abastecia-se de pó-de-arroz em caixinhas de folha com Napoleão na tampa, isto é uma palma na barriga e um bvaque atravessado. A minha avó indignava-se porque as nódoas do pó-de-arroz Napoleão eram dificílimas de tirar do colarinho, quer-se dizer saíam com facilidade das bochechas da viúva para a camisa, a viúva tornava-se pálida e com rugas, quase mãe dela mesma, mas largarem a popeline está quieto. Sem o pó-de-arroz a viúva parecia um drácula na aurora, toda olheiras e pêlos, e, graças às olheiras e aos pêlos, dei conta que apesar da muleta eu não faria má figura numa corrida de velocidade: há certos estímulos a que as muletas respondem, de modo que chegava a casa a tempo da Via Láctea dos galos e da minha avó a censurar-me
          – Vens do espantalho, não é?
         com a faca esquecida a meio de um gasganete na agonia. O gato, que em geral não me ligava nenhuma, aproximava-se a farejar-me, interessado: sacudia-o com a muleta antes da chaleira e das unhas.
          Quando penso nessa época acho que podia ter sido feliz. A
viúva tratava-me por
          – Meu pombinho
         dava-me chá de macela, volta não volta enfiava-me uma nota no bolso, juntamente com um bilhetinho simpático assinado com o nome completo, trazia a campa do despachante num asseio que dava gosto e quando eu chegava voltava-lhe, por delicadeza, o retrato para a parede:
          – Nunca se sabe
          explicava ela e nesse ponto dou-lhe razão: nunca se sabe de facto e há mortos que não brincam em serviço. Pelo sim pelo não continuo a evitar o cemitério. Podia ter sido feliz. A minha avó e a viúva foram-se embora uma atrás da outra, no espaço de um mês, aminha avó de um problema no sangue, disse o médico, que a envenenou e a tornou negra num instante, a mostrar-me os carvõezinhos das mãos e a gritar
          – Olha isto
          a viúva porque o garrafão de perfume francês caiu, em má hora, de uma prateleira alta. O cabo da Guarda desconfiou de mim
          – Foste tu com a muleta?
          por a ter encontrado na cama com uma camisinha azul transparente e aboca, coitada, tentando um
          – Meu pombinho
          derradeiro. De garrafão espalmado na cara não se lhe notavam as rugas nem os pêlos: colocaram-na ao lado do despachante que parece não a ter recebido mal. Eu fiquei por aqui
mais o galos. Uma Via Láctea de galos neste quintal, no outro, junto à vinha do presidente da Câmara, mais adiante, no sítio dos ciganos, com rulotes e mulas e trapos pendurados e discussões à noite. A rua foi deixando de cheirar a perfume francês, nunca tive as camisas tão limpas. De tempos a tempos o cabo da Guarda para mim
          – Empurraste o garrafão com a muleta, diz lá
          e, embora já não faça diferença, eu moita. Podia contar-lhe que não aprecio que me tratem por
          – Meu pombinho
          mas moita. Sento-me no jardim a assistir às abelhas, o cabo da Guarda cala-se. Dúzias de abelhas. Quais dúzias: centenas. Só tenho medo que a minha avó me apareça, toda negra
          – Olha isto
          a mostrar-me os carvõezinhos das mãos, e me corte o gasganete de um golpe. Não acredito: tirando as manchas do pó-de-arroz Napoleão não nos dávamos assim tão mal.


António Lobo Antunes
em Terceiro Livro de Crónicas, 2005, 1ª edição. pp 213-215

Ilustrações de Nicoleta Sandulescu, do trabalho realizado como aluna da disciplina de ilustração na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, sob orientação do Professor Pedro António dos Santos Saraiva. Estas ilustrações foram gentilmente cedidas pela sua autora, e faz parte das 18 ilustrações interpretativas do texto de António Lobo Antunes.

10 de agosto de 2014

Caroline V. Becker: «A personagem na crónica»



As crónicas de António Lobo Antunes são híbridas: por vezes, aproximam-se da construção de um espaço biográfico, por meio do qual autor-cronista anuncia pensamentos, discorre sobre diferentes assuntos e, até mesmo, narra sua vida do passado e do presente; em outros casos (…), a crónica aproxima-se (e apropria-se) da narratividade e da ficcionalidade, por meio dos mundos possíveis ficcionais e, principalmente, por meio da figuração de personagens.

Como identificar qual dessas realizações está diante de nossos olhos? Simplesmente por meio da leitura. O primeiro pacto estabelecido refere-se à voz – que voz é essa presente na crónica? Trata-se da voz de António Lobo Antunes (ainda que como uma persona) ou trata-se da voz de uma personagem, um signo – para lembramos as palavras de Cristina da Costa Vieira –, inserido em um contexto específico, em uma diegese? Nesse pacto, desvendado apenas após a leitura da crónica na íntegra, verificamos se na materialidade textual há uma personagem ou há uma figuração do autor empírico António Lobo Antunes.
Quero ressaltar a deriva ficcional de tais personagens, construídas em um mundo possível; um recurso distinto daquele utilizado, por exemplo, por João do Rio, um dos cronistas brasileiros mais consagrados. Segundo Jorge de Sá, o cronista criou personagens que eram ficcionalizações de pessoas do mundo cultural carioca: “Com isso ele [João do Rio] também prenunciou que a crónica e o conto acabariam em fronteiras muito próximas. Sua linha divisória – às vezes muito ténue – é a densidade. Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, sem ter sequer a preocupação de colocar-se na pele de um narrador, que é, principalmente, personagem ficcional (como acontece nos contos, novelas e romances). Assim, quem narra uma crónica é o seu autor mesmo, e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem” (A crónica. São Paulo: Ática, 2008, p. 9, grifo meu).

As crónicas antunianas não seguem o perfil descrito acima. António Lobo Antunes cria narradores, quase sempre personagens, o que exige uma análise mais densa das vozes enunciativas. No corpus em análise, a impressão “tudo parece ter acontecido” existe, mas refere-se às crónicas analisadas no capítulo anterior. Quando há figuração de personagem, há, também, construção de narrador e de ficcionalidade.

Caroline V. Becker, António Lobo Antunes. Entre escritas de si e figurações de personagem. Porto Alegre: PUCRS, 2012, pp. 85-86 [Dissertação de mestrado]

citado do blog 

16 de novembro de 2006

Rui Catalão: opinião sobre Terceiro Livro de Crónicas


"Prosinhas"

É assim que o autor classifica as suas próprias crónicas. Pequenas, mas plenas de significado; simples, mas capazes de encantar qualquer um. Num registo em muito diferente do habitual estilo romanesco que patenteia, António Lobo Antunes conta-nos alguns excertos da sua vida, desde as recordações de elementos familiares tão importantes como o pai ou a mãe – aos quais agradece por não o terem enchido “de amor e atenção, o que teria matado em mim [António Lobo Antunes] o artista” –, aos momentos vividos na guerra [colonial]. Aborda ainda questões do quotidiano, pormenores que nem sempre nos saltam à vista, sendo contudo dotados de uma riqueza indubitável: o amor como um sentimento inigualável; a amizade como uma raridade com um valor inestimável; a saudade dos tempos de infância, dos lugares que marcam toda uma vida; a vida e a morte enquanto aliados separados apenas por uma linha ténue que tende a quebrar-se facilmente.
António Lobo Antunes é um génio, um homem consumido pela “doença” da escrita. Escreve compulsivamente, alertando que aquilo que escreve não é ditado pela sua vontade, mas sim por algo “superior” que controla a sua mão, por uma voz que dita cada palavra, cada frase. Justifica-se numa das crónicas, afirmando: “ (...) nunca os senti [os livros] meus enquanto os escrevi: vêm não sei de onde, não sei como, e apenas tenho que lhes dar todo o meu tempo e esvaziar a cabeça de tudo o resto para que cresçam por intermédio da mão no fim do meu braço: o braço pertence-me mas a mão, ao transcrevê-los, pertence ao romance, ao ponto de o seu empenho e a sua precisão quase me assustarem”. O autor acrescenta ainda que os seus livros “deveriam editar-se sem autor na capa, porque desconheço quem o autor é”. No entanto, as suas crónicas têm outros horizontes, mesmo seguindo a mesma linha de criação literária, veiculada também por Fernando Pessoa num soneto em que se considera um “emissário de um rei desconhecido” que cumpre “informes instruções de além”. Ainda assim, a sua dimensão reduzida (cerca de três ou quatro páginas) não inviabiliza que haja espaço para emoções, para risos, para pensar, para relaxar, para sentir. Há nas crónicas, acima de tudo, espaço para a subtileza de António Lobo Antunes, capaz de momentos geniais passíveis de prender o leitor da primeira à última página.   
           
Contudo, as “prosinhas” de António Lobo Antunes não foram criadas, pelo menos inicialmente, com propósitos literários. Num período em que passava algumas dificuldades económicas, mais especificamente na década de 90, o autor começou a escrever para o Público, a convite de Vicente Jorge Silva. Esses textos começaram a ganhar notoriedade e assim surgiram naturalmente as três colectâneas de crónicas publicadas entretanto. Do Público as fronteiras alargaram-se e as crónicas passaram a ser também publicadas em jornais estrangeiros como o El País. Actualmente, em Portugal, podem ser encontradas na revista Visão, com publicação quinzenal. Neste Terceiro Livro de Crónicas estão incluídas as crónicas publicadas entre 2002 e 2004.       
           
Este livro de crónicas, tal como os dois primeiros volumes, permite-nos traçar um fio condutor que as funde com o jornalismo. Não sendo António Lobo Antunes um jornalista, há pequenos detalhes que surgem ao longo do livro e que nos permitem estabelecer algumas analogias com a actividade jornalística, pela forma como descreve determinadas situações do quotidiano, como analisa os contextos, as pessoas, os gestos, os comportamentos. A guerra colonial é, talvez, o exemplo mais visível dessa capacidade que Lobo Antunes emprega nas suas crónicas “por encomenda”.

A crónica tem sido, ao longo dos últimos tempos, um estilo cada vez mais apreciado, o que se comprova não só pelo crescente número de leitores deste tipo de colectâneas, mas também pela aposta de jornais e revistas em textos deste estilo. Esta aposta reflecte-se nas personalidades convidadas a escrever para as referidas publicações e repercute-se, por conseguinte, nos encargos financeiros. Aos olhos do público leigo as dissemelhanças entre este estilo e um qualquer outro artigo de opinião podem parecer inexistentes, mas é essencial saber distingui-los: as crónicas são textos jornalísticos (com uma vertente literária) que têm uma certa periodicidade, uma aplicabilidade essencialmente utilitária, geradora de proximidade entre o autor e os seus leitores. Nas crónicas a escrita flui com maior facilidade, maior sugestibilidade, sem preocupações tão vincadas com o rigor dos factos nem com a estrutura típica dos romances. São como que um quadro em que os pingos de tinta se fundem com a tela da mesma forma que as gotas de chuva atingem qualquer um de nós na rua.
           
Gostaria de destacar ainda a última crónica, uma das mais emotivas de todo o livro, intitulada Ajuste de Contas, na qual António Lobo Antunes fala abertamente do seu pai, da sua relação com ele, da sua morte. A sua importância no António Lobo Antunes de hoje é, segundo o próprio, incontestável, pela forma como o educou, como lhe ensinou o que é o mundo, pela forma como (não) o amou demasiado. Sou, por isso, forçado a transcrever a parte final desta crónica e, por conseguinte do livro: “Tenho saudades de irmos de automóvel para Nelas. Tenho saudades de patinarmos no Benfica. O Nuno, aos três anos, com uma peritonite
- Eu vou morrer e quero o meu paizinho.
Isto nunca esqueci. Ia morrer
(foi um milagre não ter morrido)
e queria o paizinho dele. Sempre que lembro esta frase comovo-me tanto:
- Eu vou morrer e quero o meu paizinho
esta frase e a cara de sofrimento do meu irmão. Foi graças a si que ele não morreu. Foi graças a si que não morri da meningite. Não pense que me esqueço. Não esqueço. Paizinho.”         
           
Aqui se sintetizam várias dimensões das crónicas de António Lobo Antunes: o amor, da família, nem sempre manifestado, embora sempre presente; a saudade do passado longínquo, da infância, dos momentos de felicidade; e a morte, algo que o autor abomina, considerando que fomos feitos para viver, não para morrer.     

É este o homem que a crítica literária aponta como eventual sucessor de José Saramago na lista de galardoados nacionais com o Prémio Nobel. Um homem a quem se pode aplicar o velho ditado: “de génio e de louco, todos temos um pouco”. E efectivamente António Lobo Antunes tem um pouco de ambos. É indubitavelmente uma das grandes referências literárias nacionais do último século. Quanto às suas “prosinhas”, essas estão à espera de ser descobertas, lidas e relidas, amadas e odiadas, mas, acima de tudo, sentidas.


por Rui Catalão
enviado por e-mail em 16.11.2006

20 de fevereiro de 2006

Ana Marques Gastão: opinião sobre Terceiro Livro de Crónicas


Laboratório do romance

Uma palavra e depois outra, a origem que designa o texto, o movimento de algo para nascer. Palavras que se geram umas às outras. Às crónicas - um outro conjunto é agora[Fevereiro de 2006] publicado num terceiro volume -, António Lobo Antunes já chamou "prosinhas". Vivem, no entanto, como espaço de continuidade, contaminação e até no interior do labirinto dos romances. São um laboratório da literatura, ou mesmo um diário, conforme lhes chama, escrito ao correr da pena. Há sempre, no entanto, uma voz fugitiva, a do autor de Que Farei Quando Tudo Arde?, escapando-se, fragmentária, sombra difusa de infâncias várias que passam da mão para o papel, partitura de silêncios que resiste, porém, contra a mudez.

"A arte é ser absolutamente si próprio", disse Baudelaire. A condição do escritor passa por ser o mesmo saindo de si mesmo, esse "cego de mãos vazias a tropeçar", a "tentar vencer Deus a toda a largura do tabuleiro". O registo poético, o tom auto-irónico, a rememoração de tempos outros, mitificados ou dissecados à faca, avançam e recuam como peças de um puzzle de cheiros e retratos, sentimentos e ressentimentos, impossibilidades e incomunicabilidades e incomunicabilidades, expostas para dentro em nódulos dispersivos e, não obstante, coerentes. De construção arquitectónica exemplar, estes textos são povoados por figuras à solta nos romances. Não será por acaso que os títulos adaptam, por vezes, os da ficção: Explicação aos Paisanos ou  Tratado dos Crepúsculos.

Angústia e desejo de limpidez habitam as páginas numa caligrafia líquida. "Escrever consiste em trazer para cima", cavar. Mesmo nas crónicas, mesmo nas crónicas...


por Ana Marques Gastão
em Diário de Notícias (suplemento 6ª)
17.02.2006

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...