19/09/2015

El País - António Lobo Antunes: «Os meus livros nascem do lixo»

El País - Entrevista de Javier Martín
19.09.2015

António Lobo Antunes: «Os meus livros nascem do lixo»

foto de João Henriques
O eterno candidato português ao Nobel publica em Espanha Comissão das Lágrimas

Os livros devoram as paredes. "Já não cabem. Tenho de mudar-me para um andar ainda maior". E porque não retira alguns? "Nunca; a maior parte são muito maus, mas não posso. Tenho muito respeito pelos livros". A casa de António Lobo Antunes enche-se apenas com as traduções da sua trintena de livros. Há um professor canadiano especializado que escreve sobre a sua obra. Na Holanda, o seu último livro Caminho Como Uma Casa Em Chamas já vai na quarta edição. Agora em Espanha publica-se Comissão das Lágrimas, pela Random House, um retrado da condição humana, ambientada na guerra de libertação de Angola. Como em cada um dos seus livros, quando Lobo Antunes escreve, dói; e quando fala, também.

Obrigado por receber-nos em sua casa aqui em Lisboa, a cidade de Pessoa.
Não sou admirador de Pessoa.

Como assim!?!? O Livro do Desassossego... !
O livro do não sei o quê que me aborrece de morte. A poesia do heterónimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Witman; a de Ricardo Reis, de Vergílio. Questiono-me se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.

Não há nada novo em Portugal?
Não se trata de um problema de Portugal ou de Espanha. O problema é que hoje não existem grandes escritores na Europa - na Irlanda, talvez -, mas não em Inglaterra ou em França, que no século passado tinha dois génios, Proust e Céline. No século XIX havia 20 ou 30 génios na Europa...

Nem sequer na América?
Na América latina, sim; nos Estados Unidos, não; ainda que goste de Cormac McCarthy. É um problema geral, basta ver os que ganharam os últimos prémios Nobel.

O senhor não.
Não, nunca o ganharei, ainda que me veja sempre no meio das apostas, como os cavalos. Ganhei quase todos os prémios, mas o que me interessa neles é o dinheiro.

Certo, como quando lhe comunicaram que tinha ganho o Juan Rulfo, respondeu: "Quanto é?"
Fui terrível. Anunciaram-me por vídeo conferência em directo [numa conferência de imprensa local]; e os jornalistas mexicanos partiram-se a rir. Foram cem mil euros.

E o prestígio do prémio não lhe interessa?
O prestígio são os escritores que dão ao prémio, não ao contrário.

Sendo psiquiatra, foi escritor tardio; até aos 37 anos, quando saiu Memória de Elefante (1979), nunca tinha publicado.
Ninguém me queria; nem em Portugal nem em parte alguma; mas um editor americano, que não leu o livro, publicou-o. Fez primeira página no The New York Times, no Los Angeles Times e no Washington Post e quando se tem estes jormais, tem-se o mundo. O primeiro que me chamou em Espanha foi Jacobo [Martínez de Irujo], da Siruela, com quem comecei a publicar. Passei semanas a escrever na sua casa do Ampurdán.

Aquele livro baseava-se nas suas experiências enquanto psiquiatra, Comissão das Lágrimas bebe do seu passado militar em Angola.
Não me interessa escrever romances de guerra por respeito aos mortos. Interessam-me as pessoas em circunstâncias extremas. Pensei em desertar quando lá estive, mas o meu capitão disse-me: "Não vás que a revolução se faz por dentro, não nos cafés de Paris".

E teve razão.
Sim, não há nada mais duro que uma guerra. Aos 18 anos decretei que viria a ser um génio, mas chegas à guerra e isso desaparece imediatamente; és apenas um entre muitos. Há duas coisas magníficas do espectáculo da guerra: a beleza da coragem física e, o mais horrível, a covardia. Após sessenta anos continuas a ter pesadelos por causa das coisas horrível em que participaste. O que me espanta é a ausência de culpabilidade, por que é tão fácil matar e morrer.

A crítica disse que Comissão das Lágrimas trata das torturas feitas a Virinha, a capitã do Movimento de Libertação de Angola.
Não se entendeu bem, na realidade é sobre a morte de Jonas Savimbi num atentado cometido pelos serviços de inteligência portuguesa, israelita e norte-americano que o localizaram pelo telefone móvel.

Era uma vida sempre em alerta.
Quase sempre. Quando jogava o Benfica, escutávamos os jogos na rádio e orientávamos os altifalantes do quartel para o exterior. Durante 90 minutos não faziam nem um tiro. Os guerrilheiros eram do Benfica, como nós.

É do Benfica?
E do Atlético de Madrid, duas equipas do povo. Estou muito contente de tenha voltado El Niño. Já não é o que era, mas demonstrou ser um homem de palavra, que é coisa rara entre os homens.

Compromisso, coragem, covardia... Fixa-se muito nos valores básicos das pessoas.
E a honestidade. O escritor tem que ser honesto. Mario Vargas Llosa, por exemplo, é um escritor honesto e um prémio Nobel merecido. Dizia Frank Sinatra: "Posso ser um canalha, posso ser mafioso, mas quando canto sou completamente honesto".

Gosta muito de música.
Gosto muito, mas já não ouço os agudos, não ouço os violinos.

Diga-me que gosta do fado.
Não me interessa muito. Depois de ouvir dois torna-se monótono.

E o flamengo?
Ah!, isso sim, muitíssimo. Aquela sensualidade, aquela beleza; Jacobo [Martínez de Irujo] costumava chamar-me quando descobria um novo cantor para que fôssemos ouvi-lo juntos. Aprendi mais com alguns saxofonistas de jazz como John Coltrane ou Charlie Parker do que com escritores.

Aprendeu o quê?
O frasear, a musicalidade do frasear. Ao fim e ao cabo sou um ladrão, um homem que procura coisas no lixo. Os meus livros nascem do lixo.

E não encontrou um livro que lhe tenha mudado a vida?
Sim, quando jovem, não sei como, caiu-me nas mãos Nueve Novísimos Poetas Españoles (José María Castellet, 1970). Li-o e percedi que não podia continuar a escrever a merda que escrevia. Cada um dos nove era melhor que eu. Como poderia comparar-me a Oda a la Venecia ante el Mar de los Teatros de Pere Gimferrer?

E hoje, que livro salvaria da sua obra?
Nunca falo dos livros que acabei. Não leio as provas nem o que é publicado. Quando os entrego, esqueço-os. Acabou-se. Não pense mal de mim, mas orgulho-me da minha obra.

Não lê as críticas?
Eu sei o que escrevo. Não preciso de lê-las. Nem as de Harold Bloom, ainda que nesse sentido acho mais importante Steiner, o maior génio que existe. Sabe que em casa tem o piano de Darwin? É frequente confundir os nossos gostos com as nossas paixões. Borges é bom, mas não gosto; Roberto Bolaño é bom, mas não compreendo o fenómeno, talvez seja porque morreu jovem, talvez não goste porque o conheci. É esse o problema da crítica. Se coincide com os teus gostos, é bom; se não, é mau.

Escreveu trinta livros em trinta e sete anos. Não vai parar?
Que posso fazer? Quando não escrevo não me sinto bem, sinto uma angústia; uma coisa física difícil de explicar. Tenho a impressão que fui feito para escrever.


19.09.2015
texto de Javier Martín

traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz
foto de João Henriques - fonte: site do El País
capa da edição em castelhano de Comissão das Lágrimas, Random House, 2015

05/09/2015

"Portugueses estão a ser tratados como cães", afirma António Lobo Antunes - Esquerda.net

Durante a apresentação do livro Las Cosas de la Vida, que reúne alguns dos seus textos, o escritor português lamentou ainda que em Portugal só existam “prémios para portugueses darem a portugueses”.

Nove anos após ter sido distinguido com o Prémio Ibero-Americano de Letras José Donoso, atribuído pela Universidade de Talca, no Chile, António Lobo Antunes recebeu esta quinta-feira das mãos do reitor da instituição, do responsável da colecção, do representante do governo do Chile e do director do Instituto Cervantes, o volume intitulado Las Cosas de la vida, que reúne algumas das suas crónicas.

Na cerimónia, que teve lugar no Instituto Cervantes, em Lisboa, o escritor português criticou os últimos anos de governação da maioria de direita, salientando que os "portugueses estão a viver de forma muito dura e a ser tratados como cães". "São os artistas que devolvem a dignidade às pessoas", acrescentou.

Assinalando a importância que as principais figuras da cultura da América Latina, como Juan Rulfo, tiveram na sua formação e no prazer da leitura, lamentou ainda que em Portugal só existam “prémios para portugueses darem a portugueses”.

Lobo Antunes foi o primeiro escritor europeu a receber este prestigiado prémio literário que tem o nome de um dos mais importantes romancistas chilenos do século XX.

O júri, que escolheu o escritor por unanimidade, destacou a sua “crítica forte à identidade portuguesa, não isenta, no entanto, de amor ao país”, bem como a sua capacidade de captar “com profundidade e originalidade o papel das culturas periféricas no mundo contemporâneo”.

Foram ainda assinaladas “a grande variedade de temas, linguagens e estruturas” da sua obra, a “singular sensibilidade” de Lobo Antunes para “explorar a complexidade psicológica das suas personagens” e a forma como “dá conta de experiências que correspondem de muitas maneiras a um contexto semelhante ao dos conflitos da América Latina”.

O escritor é autor de mais de cerca de 50 títulos, entre crónicas, poesia e romances.

No ano passado, recebeu o Doutoramento Honoris Causa da Universidade Babes-Bolyai, o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, em Cluj-Napoca, na Roménia, e o Prémio Nonino Internacional, em Udine, em Itália.

Lobo Antunes foi ainda distinguido, entre outros, com os prémios France Culture de Literatura Estrangeira (1996), Médicis Para o Melhor Livro Estrangeiro (1997), Literatura Europeia do Estado Austríaco (2000), Rosalía de Castro (2001), Internacional da União Latina (2003), Ovídio (2003), Jerusalém (2004), Juan Donoso (2006), Camões (2007), Terence Moix (2008), Juan Rulfo (2008) e da Extremadura Para a Criação (2009).


04.09.2015

04/09/2015

Las Cosas de la Vida, em Cerimónia no Instituto Cervantes de Lisboa

foto de Gerardo Santos /Global Imagens
Lobo Antunes: "Portugueses tratados como cães"

Nove anos após ter recebido o Prémio José Donoso, António Lobo Antunes tem desde ontem um volume com textos seus na colecção com o nome do mais importante escritor chileno, editada pela Universidade de Talca. Em cerimónia em Lisboa, o autor recebeu das mãos do reitor da instituição, do responsável da colecção, do representante do governo do Chile e do director do Instituto Cervantes, o volume intitulado Las Cosas de la vida, entre elogios à obra do escritor português que desde 2006 integra uma lista de 16 artistas que receberam o Prémio José Donoso.

Em resposta às afirmações da comitiva chilena, Dom António Lobo Antunes, como era referido amiúde, agradeceu e num final de cariz político disse que "são os artistas que devolvem a dignidade às pessoas", após ter referido que os "portugueses estão a viver de forma muito dura e a serem tratados como cães", numa alusão aos últimos anos de governação.

Durante a sessão, Lobo Antunes enumerou as principais figuras da cultura da América Latina e explicou a importância que tiveram na sua formação e no prazer da leitura. Jorge Luis Borges não é o seu preferido, ao contrário de Juan Rulfo e do seu livro Pedro Páramo, que disse já ter lido umas cinquenta vezes. Quanto ao Prémio, lamentou que no nosso país não existam galardões destes para homenagear artistas estrangeiros: "Só temos prémios para portugueses darem a portugueses. É uma pena."


fonte: Diário de Notícias
04.09.2015
texto de João Céu e Silva [revisto por José Alexandre Ramos]

02/09/2015

Quem sou eu? Ensaios sobre António Lobo Antunes - colecção ALA Ensaio, 6º volume

Já se encontra disponível o 6º volume da colecção ALA- Ensaio, da Texto Editora. O autor é Sérgio Guimarães de Sousa.


O livro de Sérgio Guimarães de Sousa, é o mais recente volume de uma colecção de estudos universitários e de outras proveniências que tentam estabelecer uma ponte de acessibilidade entre a obra de António Lobo Antunes e todos os tipos de leitores, atendendo a graus diversos de formação.
Dirigida por Maria Alzira Seixo, esta colecção tem por objectivo ajudar a compreender e iluminar o universo muito próprio de António Lobo Antunes.

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...