Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2009

Manuel Cardoso: opinião sobre O Arquipélago da Insónia

Memórias de uma infância feita de fantasmas vivos, vidas entrelaçadas numa insónia única, a tristeza por todo o lado, porque dela se alimenta a vida e a terra, esperanças nenhumas, sonhos ausentes, apenas memórias…

Um poço que sepulta talvez um irmão, talvez um pai, talvez uma memória ou um desejo, uma planície que os sepulta a todos, vivos na insónia, na vida igual, no trabalho igual, na dor igual.

E a morte, por todo o lado, poderosa e indiscreta, brincando com o destino da gente, ora aqui ora ali, atacando descarada depois escondida, disfarçada, tão presente que por vezes nem se sabe quem morre (o que é que isso interessa?) a morte é mais forte que os mortos, estes calados obedientes respeitosos… os mortos que morrem mas vivem, teimam porque a memória persiste. Esperança nenhuma nem Deus, só a memória, só os mortos que persistem…

Três gerações, um tempo só, indefinido, único no entanto, sem início nem fim como a tristeza.

Memórias, esquecimento, revolta, solidão, nunca futuro, nunca es…

Germán Gullón: opinião sobre Mi Nombre Es Legión

Autor de livros onde não cabem nem a utopia nem a esperança de um futuro melhor, António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) regressa com este romance aos subúrbios miseráveis de Lisboa. Ali, os habitantes vivem fora da fronteira que separa o bem do mal, segundo a linhas marcadas pelo direito. Os romances do português fazem raras concessões ao leitor, já que o escritor apenas se preocupa em encher os espaços vazios da narrativa, que salta de uma personagem para outra, de um tema para o seguinte. Se o público não está disposto a centrar-se no texto, tentando preencher os vazios, deixará o livro de lado. Lobo Antunes nunca oferece uma simples leitura, trata-se de literatura em estado puro.

É sempre mencionada a profissão de psiquiatra de Lobo Antunes pela utilidade em explicar o seu peculiar modo de narrar. De facto, os seus textos parecem confissões de divã. Aqui trata-se de uma história contada a várias vozes, a partir de diversas perspectivas, um polícia, Gusmão, uma prostituta branca, uma me…

Carla Ribeiro: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

São irmãos e a mãe está às portas da morte. Esta é a história deles, do passado e do presente, das memórias, das emoções, dos amores e dos ódios. Pequenas e grandes coisas, rasgos de emotividade e crueldade, silêncios e palavras. E, neste livro, cada um deles tem voz, desde o que pretende roubar tudo aos irmãos, à que tem um rosto estranho e, por isso, não tem ninguém.

Este foi o meu primeiro encontro com a escrita de António Lobo Antunes e devo confessar que também uma das opiniões mais difíceis de transmitir em palavras. A escrita do autor tem um estilo muito próprio, como se divagasse pelos sentimentos e memórias das personagens, transcrevendo-as à medida que surgem, por vezes aleatoriamente. O lado positivo deste aspecto é a visão clara e quase palpável do que se passa na mente das personagens. O negativo é que a história fica, a maior parte das vezes, perdida entre as divagações e reflexões, tornando este livro numa obra difícil de acompanhar.

Sabendo de antemão que a escrita deste…

Paulo Neto: Para um começo da leitura de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Para um começo da leitura de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?
Boa pergunta, embora a posteriori saibamos ser verso de toadilha de infância.
O título do último livro de António Lobo Antunes. Os cavalos, a sombra e o mar. Uma família ribatejana. A mãe que aguarda a morte à hora marcada, um pai finado, marialva também dado ao jogo e os filhos: 3 raparigas e outros tantos rapazes. Todos com sua cruz. Ana é toxicodependente. Rita que um cancro matou. Beatriz que os homens deixam para trás. João é pederasta. Francisco consome-se em ódio. O bastardo que é invisível.
Mas… o que me ocorreu de imediato foi a isotopia da morte. Não inúsita, em LA. Pelo contrário, desde sempre de atalaia. E o desde sempre remete para há 30 anos, aquando da saída de “Memória de Elefante” e “Os cus de Judas”. Mas aqui, a morte mistura-se com a “Fiesta”. E esta lembra E. Hemingway, aquele que não exorcizou a morte, embora a tentasse desalmadamente. E onde está a “fiesta”? Na organização do romance. Senão vejamos:
Um curto …

Daniel Benevides: opinião sobre O Meu Nome É Legião

Em "O Meu Nome é Legião", António Lobo Antunes dá mais um passo para mudar a literatura
Mudar a literatura, criar uma nova linguagem. Simples assim, e bastante ambicioso, é o objetivo do português António Lobo Antunes, que veio ao Brasil no início do último mês de julho para a Flip.
Não se pense porém que o escritor, sempre lembrado para o Nobel, é um mero arrogante. Na verdade sua postura é até meio espartana e relativamente modesta, a julgar por outras declarações. Obstinado, fica feliz quando consegue escrever uma página em um dia -- para ele, "ficção é trabalho árduo". Corrige incansavelmente tudo o que faz até sentir que descobriu o "som" do texto. E, num lance de anti-vaidade (que também pode ser uma vaidade), divide a responsabilidade com os leitores, considerando-os "co-autores".

Tudo isso fica mais ou menos evidente em "O Meu Nome é Legião", livro de 2007, agora lançado no Brasil (juntamente com "Explicação dos Pássaros"…

Márcia Valadares disserta sobre O Esplendor de Portugal

Antunes, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
A obra do escritor português António Lobo Antunes (também psiquiatra e ex-combatente na Guerra de Angola) não é, ainda, muito conhecida no Brasil, onde somente sete de seus dezenove romances foram publicados até o momento.

Pouco a pouco, entretanto, vemos surgir ações que contribuem para a difusão de sua obra em nosso país, como é o caso, por exemplo, da presença de seu segundo romance,Os cus de Judas (lançado em Portugal, em 1979), entre os livros indicados para o vestibular 2006 da UNICAMP.
Romance após romance, percebemos que a perplexidade e horror frente a guerra e a sociedade contemporânea ganham corpo não só nas situações narradas – que envolvem ex-combatentes ou pessoas comuns que seguem sua vida sem estímulo, abandonadas pelas instituições nas quais confiavam; como também na linguagem e na estrutura dos textos, principalmente com o uso do disfemismo como procedimento de escrita predominante.
No contato c…