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Juan Soto Ivars: opinão sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Fazer uma resenha de um romance de António Lobo Antunes é de uma estupidez suprema, uma resenha pretende demonstrar que se compreendeu o livro, e por isso alguns escritores incipientes como manchas cancerosas na pele da literatura tentam com que os críticos e os leitores não entendam nada, pois assim poderão salvaguardar-se das más críticas afirmando "não entenderam", o que vem a ser mentira: seguramente o crítico não terá entendido outra coisa, se o romance, se o desejo de fazer um romance, mais do que o romance em si; não terá entendido que um romance mau não merece nem crítica nem resenha, merece perder-se no silêncio com todos os outros romances que têm entrado nesse forno onde as chamas não crepitam,
«eu que não suporto pássaros, pega-se-lhes e o coração, de tão frágil, dá medo»

talvez fazer um resenha de Lobo Antunes sirva para matar esse silêncio ou para demonstrar o entusiasmo que produz cada novo livro, para enviar um postal de agradecimento a António Lobo Antunes, que se permite ao luxo de escrever aos seus leitores, de escrever-lhes, havia de fazer-se cursos onde se explicasse como ler Lobo Antunes, cursos onde se dissesse: é preciso abrir o livro e começar a ler, passar as páginas com o olhar atento às palavras que nem sempre compõem frases, às imagens que nem sempre chegam no momento esperado,

«não escancaramos armários nem tombamos copos, não perguntamos- Fico aqui a eternidade inteira?»

e também há que estar louco para fazer-se uma resenha de Lobo Antunes que não escreve romances, ainda que tenha escrito a palavra romance antes, mas não escreve romances, os romances são livros que começam na primeira página e acabam na última, porém se os livros de história são livros feitos em pedaços porque a história não cabe num só livro, se os livros de poemas são livros que se podem abrir numa qualquer página, se os ensaios são livros suportados pelo andaime dos índices, então agora decido: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? é um livro de poemas, Lobo Antunes um livro de história, uma crítica sobre os livros de Lobo Antunes não pode

«percebia Deus no compartimento à esquerda dando corda aos planetas»

ser um ensaio, há que escrever como Lobo Antunes como se fosse Lobo Antunes a escrevê-lo, há que deixá-lo tomar as rédeas, é preciso embriagar-se de Lobo Antunes para escrever sobre os seus livros qualquer que seja, e dirigir-se aos demais com uma máscara ridícula de Lobo Antunes mas sem a pose a empurrar-nos para um entusiasmo bem longe de Lobo Antunes, a primeira vez que li os seus apelidos pensei mas que má sorte chamar-se António e ainda por cima apelidar-se Lobo Antunes, e desde então li todos os livros de Lobo Antunes publicados pela Mondadori e outros e disse à mulher que faz os comunicados da editora: envia-me o novo livro que quero fazer uma crítica, porque já era hora, e tinha lido o suficiente amar uma pedra morte de Carlos Gardel em Babilónia boa tarde

«previa o passado pois prever o futuro qualquer idiota consegue»

pois devo estar louco para fazer uma crítica, para dar ares de académico ou jornalista, e não acertar no livro nem num milímetro com o leitor, dizer que este é o pior romance de Lobo Antunes porque consegue-se entendê-lo, é preciso estar louco, que é um livro cuja estrutura é a de uma corrida de touros, louco varrido, que a família rural que fala com voz de Lobo Antunes no livro desabou há muito tempo e não tem personagem principal, tolo da cabeça, que a filha toxicodependente da família se chama Ana, insensato, que o irmão mais avarento se chama Francisco e acelera a falência, desvairado, que ao desfolhar as páginas da primeira à última presencia-se o colapso completo de uma família com todos os seus membros e ninguém sabe que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar, não ponhas, põe

«e sou eu, tudo protesta na gente, se levanta, recusa, no caso de me buscarem no parque não tornarão a achar-me, acham sujeitos que se escapam e os rapazes sem mim, evaporei-me conforme as notas dos defuntos se evaporaram das páginas, o livro de cozinha a que alguém colou a lombada com um sujeito de barrete alto e colher de pau a dilatar-se na capa, o caderno de receitas com notas a lápis e as últimas folhas vazias aguardando uma salada, uma sopa, uma complicação francesa, os pesos da balança a decrescerem na caixa de pau como as unhas dos pés, se tivesse de falar no pior que em aconteceu na vida não mencionava a doença nem os problemas com os rapazes nem o desprezo dos outros que em evitam, se tivesse mesmo de falar(espero não ter mesmo de falar)do pior que me aconteceu na vida lembrava a minha mãe de tesoura em riste- Chega aquideterminada, feroz- Queres que te aleije é isso?eu a pedir em lágrimas- A pequenina não a pequenina nãoenquanto me puxava no sentido do candeeiro e me torcia o ombro
- Não me dá jeito assimeu com a certeza de pingar sangue no tapete, sem dedos, a minha mãe juntando(Varela, Pereira, Rebelo, Taborda)aparas no cinzeiro, um perfume diferente daquele que usa agora, mais forte(a minha mãe não Julinha, Maria José)e sob o perfume não um cheiro de velhice e doença(não sou doente)cheiro de carne que hoje sei que nova(você nova senhora, você nova)e a nuca tão branca, que estranho as idades, se tivesse tocava-lhe mas não tenho, cortou-mos de modo que eu onze ou doze apenas que de pouco me servem, poiso-os na beira do lençol perto da almofada(é fantasia minha ou a chuva abrandou?)e não vejo ninguém a salvo(as minhas mãos com menos osso que as do padre)a minha irmã Beatriz no automóvel diante das luzes dos barcos a escrever o próprio nome no vidro embaciado».


por Juan Soto Ivars
11.02.2012
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

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