18/02/2009

Entrevista em exclusivo para o nosso site


Entrevista em exclusivo
por José Alexandre Ramos com a colaboração de Teresa Brandão
18 de Fevereiro de 2009


«Não creio que haja poucos leitores em Portugal»

António Lobo Antunes, como forma de reconhecimento do trabalho feito neste site, concedeu-nos uma entrevista. Foi realizada via telefone e falou da repercussão sobre as suas declarações há dois dias no Diário de Notícias em que afirmou deixar os livros. Não deixará de escrever, mas possivelmente deixará de publicar. Irá continuar (ou recomeçar) o projecto da Biblioteca António Lobo Antunes com a publicação a baixo preço de obras de grande vulto, pela Dom Quixote. Crê que os portugueses lêem mais do que se diz, mas lamenta não haver dinheiro para os preços praticados nos livros em Portugal.



Na entrevista da passada segunda-feira, no Diário de Notícias, afirma que vai deixar de escrever. Isto é efectivamente verdade?
Eu julgo que isso está melhor explicado na crónica que sai amanhã na Visão. Não é bem como ele [João Céu e Silva] diz, ele tinha ali material muito bom para uma entrevista, mas é muito difícil fazer entrevistas. Agora, eu julgo que digo isso mais claramente no artigo da Visão. Eu vou continuar a escrever, o que provavelmente não vou fazer é continuar a publicar. Tenho um livro que acabei agora, que estou muito contente com ele, acho que nunca escrevi um livro assim. Queria ainda fazer um último livro e depois não sei...

Disse em algumas entrevistas que temia "estar a rapar o fundo ao tacho", foi isso que aconteceu?
Isso eu sei não dizer... Eu pensava que não tinha força e ontem entreguei este livro, estive a vê-lo com a [nova] editora, com a Maria Piedade Ferreira, que é muito boa. Como sabe, a Tereza Coelho morreu, foi uma coisa muito difícil para mim, gostava muito dela e trabalhávamos juntos há muitos anos, foi muito difícil para mim. Esta editora é muito boa - olhe, é curioso, por coincidência, ela dirigia a Bertrand [nos finais da década de 70] e foi ela que recusou a Memória de Elefante. É engraçado como as coisas são. Pensava que eu estaria zangado com ela, mas nada, acho completamente natural, o Gide não percebeu o Proust e recusou-o, mas depois também aceitou o Conrad e compreendeu-o logo quando era difícil compreendê-lo. O Gallimard recusou o Céline, é uma coisa que acontece... Aparece um primeiro livro - sobretudo na altura - em que é tão estranho, tão diferente do que se publicava, que é perfeitamente natural a atitude dela. E portanto, acabei ontem de ver o novo livro com ela e foi muito agradável, estou muito contente, acho que nunca escrevi um livro assim. E o que tinha pensado era uma espécie de trilogia. O Arquipélago da Insónia, sem nunca ser nomeado, passa-se claramente no Alentejo, e este sem nunca ser nomeado, passa-se claramente no Ribatejo. E queria fazer um último que se passasse claramente na Beira Alta que é o sítio que eu melhor conheço e onde mais feliz fui. Eu sinto-me muito mais de Nelas do que de qualquer outro lugar. Aliás, há referências constantes a Nelas e à Beira Alta nos livros.

Os seus livros são genuinamente portugueses – e como refere sempre, escritos para os portugueses –, porque tem muito da nossa condição, muito da nossa idiossincrasia. Como entende o sucesso dos seus livros no estrangeiro? São assim tão bons os tradutores ou há uma parte de nós, portugueses, com que os leitores estrangeiros também se identificam?
Eu acho que estes livros são impossíveis de traduzir. Porque a nossa língua, o português, ao mesmo tempo é vago e preciso. Então isto põe imensos problemas de toda a ordem. Por exemplo, estava a ver ontem uma expressão com a tradutora, que era "não dar uma p'ra caixa". Isto para um tradutor é tremendo. Lembro-me de uma dúvida de um tradutor que era "alto lá com o charuto" ou "coisíssima nenhuma", isto é impossível de traduzir, a nossa língua é muito difícil de traduzir, e a maneira como eu a uso, torna muito difícil a tradução, isto é um tormento para os tradutores. Eu não sei, porque não costumo ler as traduções, mas julgo que as traduções francesas, de uma maneira geral, não são boas, mas dizem-me que as alemãs são muito boas. O problema dos tradutores, sabe, não é a língua de partida, é a língua de chegada. Por exemplo, o último livro que saiu nos Estados Unidos, eles fizeram cinco traduções ao longo de quatro anos, sempre a corrigir. É muito difícil, os livros põem problemas de tradução muito grandes. E então sobretudo a maneira como eu escrevo, é muito complicado.

Mas então como entende esse sucesso que obtém no estrangeiro?
Não lhe sei explicar. Isto agora é muito curioso, porque tornou-se uma unanimidade por todo o lado - mesmo nos tempos de crise que há agora - estão a aparecer livros no estrangeiro a uma cadência que me deixa de boca aberta. E todos estes prémios que têm vindo, cada ano vêm mais prémios. Mas os prémios nada têm que ver com a literatura, no sentido em que não torna os livros bons ou maus, melhores ou piores. Isso é uma coisa que me surpreende. Essa entrevista no Diário de Notícias nem imagina o que produziu, começaram a chover telefonemas para a editora, e até para aqui [atelier onde escreve], de Espanha, de França, daqui e dacolá. Nunca pensei que tivesse esta repercussão toda. Fico muito espantado. A gente no século XIX tinha trinta génios a escrever ao mesmo tempo, e agora se encontrarmos cinco bons escritores no mundo inteiro já não é mau, não sei se já deu conta disso. Para os editores é um problema. Esta senhora, Maria Piedade Ferreira, estava a dizer-me ontem que o que lhe aparece não é bom, seja de onde for, e não tem a qualidade que tinham esses grandes escritores do século XIX, que de certa maneira estendeu-se até à primeira metade do século XX, e depois começaram a rarear. Se começar à procura de livros bons escritos por autores vivos será muito difícil encontrar. Concerteza já deu fé disto... é muito difícil.

Quais os livros mais importantes que aconselharia qualquer pessoa ler?
Isso os mais importantes não sei dizer... Agora vamos começar com uma biblioteca na Dom Quixote, em que eu faço pequeninos prefácios, usando o meu nome de maneira a tentar com que esses livros sejam lidos, de grandes escritores. Livros que estejam no domínio público e vão começar a sair este ano. Tinha feito um ensaio com o Tolstoi e com o Daudet, mas aquilo não saiu como eu gostava. Agora vamos começar com o Svevo, A Consciência de ZenoO Coração das Trevas do Conrad, e A Letra Escarlate de Hawthorne. Portanto, este ano vamos publicar seis ou nove livros e depois, se o público aderir, usando um pequeno prefácio que não pretende ser crítico, pretende ser apenas uma coisa que dê vontade aos leitores de ler esses grandes livros. Se acontecer assim, vamos continuar. Publicar desde os latinos até - porque não? - ao Capitão Blood, que é um excelente livro do Sabatini, ou Salgari, isto misturado com o Vergílio, Ovídeo, Balzac, Melville, e por aí fora.

Mas vai ser uma colecção à parte, nova, ou a continuação da que já existe no género?
Não, é uma coisa que se vai chamar Biblioteca António Lobo Antunes. Ninguém vai ganhar dinheiro nenhum com isto, é só no sentido de poder haver três ou quatro mil exemplares vendidos de grandes livros. Porque por vezes saem livros bons e que ninguém nota, que passam despercebidos. Por exemplo, a Cotovia tem feito um trabalho notável, há pouco publicaram as Odes do Horácio. Não sei quantas pessoas compraram. E a tradução é boa. É feita por um rapaz muito novo que eu não conheço, terá 28 ou 29 anos, certamente será muito melhor daqui a vinte anos, mas a tradução já é muito boa. E eu gostaria muito que esses livros vendessem. Porque, sabe, as obras de arte são como os tigres, não se matam entre elas, e ver publicar um livro bom para mim é uma alegria.

E a propósito, disse há pouco tempo que os livros em Portugal são "indecentemente caros". Como se pode contrariar isso?
Isso basta comparar com os preços que se fazem lá fora, não é? Os nossos livros são muito mais caros, o que é terrível. Por exemplo, o Fado Alexandrino custa seis contos... Neste momento de crise quem são os portugueses que têm dinheiro para o comprar? Portanto, o que se fez nessa biblioteca foi escolher livros que estão no domínio público em que não é necessário pagar direitos nenhuns. Permite tornar os livros mais baratos, fazê-los com capa dura e sobrecapa, de maneira a haver dignidade nisso. Agora vamos ver. Claro que os livros são caríssimos. Quantas vezes nas sessões de autógrafos as pessoas vêm ter comigo e dizem "Ah, só pude comprar um livro, não tenho dinheiro para comprar mais", o que é verdade! Três, quatro contos, para muitos portugueses é muito dinheiro neste momento. E as pessoas não têm dinheiro, isto é terrível! Porque não acabam por exemplo com o o IVA sobre os livros? (Faço perguntas porque não sei dar as respostas) Porque é que as editoras não abdicam um pouco da sua margem de lucro? Eu não sei o que é que se pode fazer, o que sei é que os livros são muito caros. E isso sempre me custou. Por exemplo, quando eu ia para o Liceu, ia a pé para poupar no dinheiro que os meus pais me davam para o transporte, para depois ir comprar livros em segunda-mão ao fim de semana, ia juntando dinheiro. É terrível o preço dos livros. Depois vêm com o argumento que o futebol é caro, ou que um concerto é caro... É possível, mas que há poucos leitores em Portugal, isso não creio. Há muita gente nova a ler, e quando digo gente nova, é adolescentes, dezasseis, dezassete, dezoito, dezanove anos... Isso é uma coisa extraordinária. Diz-se que os portugueses não lêem, eu não estou  nada de acordo, nada. Parece-me que os portugueses lêem. Agora, simplesmente devia haver uma política diferente da parte das editoras também. Muitas vezes impingem gato por lebre. Livros sem qualidade a vender muito é um fenómeno que sempre existiu, simplesmente os meios de comunicação agora são outros, os meios de difusão são outros. E pode-se impor um tipo, e depois as caras tornam-se visíveis com as televisões, com isto com aquilo com aqueloutro... E não são os autores que interessa, são os livros. Os autores não têm importância nenhuma, o que me interessa são os livros.

Tem consciência que há muita gente que "lê" na internet actualmente...
Não faço a menor ideia, isso não sei.

... e o livro electrónico pode vir a ter maior relevo. 
É possível, é possível, mas o livro objecto não vai desaparecer nunca. Porque nós gostamos do objecto. E podemos ler na cama, eu gosto de ler na cama, por exemplo. Eu gosto do objecto, gosto do cheiro do papel, gosto disso tudo. Eu creio que o livro não acaba. É possível que isso vá fazer concorrência à venda dos livros, mas não se vai passar como com os discos. Julgo eu, não sei, quem sou eu? Mas penso que as pessoas continuam a gostar do objecto. E é tão agradável ver uma parede forrada de livros. Eu vivo rodeado de livros e sinto aquilo muito aconchegante para mim. O meu problema é já não ter parede para os livros, mas é agradável para mim ver os livros na estante. Ver aqueles amigos que ali estão, é bonito também. Do meu ponto de vista, enfim.

Quer deixar uma mensagem para os seus leitores que o procuram neste site? São muitos... 
Não tinha a menor ideia. Sim, uma palavra de gratidão por me lerem. É para eles que eu escrevo. Ninguém escreve para si, isso é uma mentira. É para eles que eu escrevo, é para as pessoas do meu país que eu escrevo. Fico muito grato porque, sabe, numa altura em que se gasta oito horas num emprego ou numa faculdade, e mais não sei quanto tempo nos transportes, e depois a televisão, e a internet que falou, e o telefone, e os jornais, o marido ou a mulher, e os filhos, tudo é feito para as pessoas não lerem. E no entanto as pessoas continuam a ler e eu não posso deixar de estar grato às pessoas que me lêem, porque são elas que me permitem viver dos livros. Portanto, é uma gratidão para mim muito, muito grande. As pessoas têm sido de um calor e de um entusiasmo muito grandes. Espero não os desiludir com os próximos trabalhos. E sobretudo um grande abraço para si. Até breve, espero.

Está para breve uma visita sua ao Porto?
Eu penso que em Março talvez vá aí ao Porto. Tenho ido várias vezes, não para assinar livros, só porque gosto do Porto. E tenho uma grande dívida de gratidão para com o Porto, aliás disse isso quando lá estive. Porque quando estava doente, foi o sítio de onde vieram mais mensagens, e que foram extraordinárias, que me deram muita força. Fizeram-me sentir uma coisa muito boa, que são os amigos desconhecidos que os livros trazem, isso é o mais importante de tudo. É a coisa mais importante da vida a amizade. Um homem sem amigos é um pobre.

Obrigado António.
Um grande abraço para si.



entrevista exclusiva
18.02.2009

17/02/2009

«Tenho sempre medo de secar a fonte»


Diário de Notícias - entrevista de João Céu e Silva
16 Fevereiro 2009


Quando acaba um livro esquece-se dele.
Exactamente.

Deste ainda se lembra bem. Está fresco!
Ainda, foi há tão poucos dias. Se calhar, é por isso que não tenho nada na cabeça. Neste momento estou vazio como uma mula parida, uma égua, ou seja o que for. Normalmente, quando estou a acabar um livro aparecem-me umas palpitações de outro livro, que na maior parte das vezes estão erradas e depois desaparecem. Desta vez, apareceu-me uma coisa, mas não sei se é isso, tenho que me esvaziar...

O que está a fazer enquanto não escreve?
Não faço nada! Estou aqui sentado a olhar para a parede, para o tecto, meio alegre. São aqueles momentos que os ingleses traduzem por silent evolution, uma evolução interior e silenciosa, em que qualquer coisa se vai formando durante três/cinco meses. Quando acabei o Arquipélago fiquei cheio de medo de não vir mais nada, mas marquei o dia 25 de Fevereiro [de 2008] para recomeçar e este novo livro foi rápido. Não é muito grande: 300, 350 páginas.

Mas é muito diferente!
Fiz um primeiro que era Alentejo, este é Ribatejo e estou a pensar fazer um da Beira Alta para completar a trilogia...

Não falo no aspecto geográfico!
Estou muito contente com o livro. Se calhar estou a ser inconsciente, mas as poucas pessoas que leram gostaram. Acho que marca um grande progresso em relação aos anteriores.

Faz lembrar o Coração das Trevas, do Conrad, vários livros dentro de um livro.
Sim.

Há também as antigas polifonias…
Porque é um romance mais tradicional, menos exigente, aparentemente, para o leitor e com as personagens vincadas. É uma prosa que não deve ser muito difícil de se ler.

Parece escrito de um jacto, com algo de Os Cus de Judas, de As Naus e daExortação aos Crocodilos?
Não tinha pensado nisso, mas quando estava a revê-lo fiquei de boca aberta.

Ouve-se a sua voz a dizer "não vou entrar por aí, seria fácil de mais nas emoções".
Há um diálogo porque, entre muitas coisas - e agora estou a olhar de fora -, é também um livro sobre como fazer um livro. As personagens interpelam o autor, querem ser autónomas e há um capítulo onde uma diz: "Não sei se sou pessoa se sou uma personagem, não sei quem é que eu sou. Serei só uma voz, terei densidade de carne, quem é que eu sou?"

Fala directamente com o leitor. Porquê?
Eu não falo com o leitor! As personagens e o autor é que se interpelam entre eles. E, por vezes, o autor interpela-se a si porque talvez seja também um livro sobre teoria da literatura, que é uma coisa sobre que gostava de escrever e nunca o farei porque só tenho uma vida. Precisava de ter dez vidas: oito para escrever, uma para ser médico e outra para escrever sobre teoria da literatura. O livro é muito ambicioso e talvez seja o mais ambicioso que escrevi porque queria que fosse muitas coisas.

O que pretendia deste livro?
Queria que fosse tudo! E queria que fosse também um livro sobre o que é escrever. NoCoração das Trevas há aquela passagem do nevoeiro - onde eles não vêem nada - da qual se pode perguntar o que é a arte de escrever? Até que ponto as vozes ou as pessoas que povoam o livro existem ou serão apenas invenções do autor? Até que ponto o autor as inventa ou cria ou existem de facto? Serão ou não reais? Aliás, elas interrogam-se a esse respeito também.

As personagens pedem para ter voz?
Há uma guerra e uma interacção entre as personagens e o autor e, normalmente, este tenta esconder-se nos livros. Aqui está exposto, com as suas incertezas e fraquezas. E quem é que comanda a escrita? É o autor, é aquilo que o habita, aquilo a que Llorca chamava o duende e o demónio que o habita? De onde vêm os livros é uma coisa que sempre me intrigou. De que região nossa? Ou será que é uma região de outra pessoa? Quem escreve? É a minha mão que escreve, é outra mão na minha mão? É meditado?

As personagens questionam essa origem…
Exactamente. Até que ponto o livro é do autor ou ele foi apenas um meio de que o livro se serviu para existir? É um problema que sempre se me pôs enquanto leitor em relação aos grandes livros. A Guerra e Paz é feita pelo Tolstoi ou através do Tolstoi? A grande literatura, a grande pintura e a grande música é feita pelos autores dos livros, dos quadros ou das sinfonias ou por uma outra entidade que, por hipótese, é comum a todos e que toma diferentes tonalidades consoante a personalidade?

Mas que outra entidade é que poderia ser?
Não sei, será Deus que escreve pela nossa mão?

Porque sentiu desta vez estas questões?
Essas perguntas sempre existiram em mim, mas agora já estou à vontade para as fazer e, também, à vontade do ponto de vista técnico para o fazer. Os outros livros têm-me obrigado, como diz o Beckett, a entender que "pensar é ouvir com mais força" e se estivermos atentos começamos a ouvir. Tinha-me dado conta de que as minhas duas/três primeiras horas de escrita são perdidas porque estou demasiado atento e só quando a atenção está difusa e ao mesmo tempo fixa - é quase um paradoxo - é que tudo começa. Há pessoas que escrevem de outra maneira, mas julgo que as grandes obras têm que ser produzidas assim, como os filhos que não são nossos, mas também não são de mais ninguém. Isso põe-me outro problema que é: até que ponto é legítimo ter o meu nome enquanto autor do livro.

Mas é o corpo usado para escrever o livro!
Pois. Uma vez o Eduardo Lourenço disse-me: "O que tu escreves faz-me lembrar aquele soneto do Pessoa que começa 'Emissário de um rei desconhecido'." Isto é muito curioso porque me torna modesto em relação ao que fiz, porque não o tenho como meu e a única coisa que fiz foi trabalhar. É evidente que houve uma parte minha, porque sempre me construí para escrever, mas, por exemplo, tenho muita dificuldade em ler seja o que for que escrevam sobre mim. Tenho sempre medo de secar a fonte, tenho de me proteger como a galinha protege os ovos e, acabados os livros, não olhar mais para eles, não ler textos de análise. Tento preservar esse mistério porque se o compreendesse deixaria de escrever. Cada vez mais me parece que sou apenas um meio e que qualquer outra pessoa que tivesse feito o mesmo caminho escreveria exactamente as mesmas coisas que eu escrevo.

Isso é pouco plausível.
Eu acho que pode ser assim e se alguém vivesse tão totalmente para isto como eu escreveria as mesmas coisas, as mesmas palavras pela mesma ordem e este livro era inevitável.

Não precisava da sua vivência para ser assim escrito?
Não sei, as nossas vivências são todas tão parecidas. Os problemas e as angústias fundamentais são sempre as mesmas, as questões que se nos põem também. Os primeiros livros provavelmente eram autobiográficos, os factos eram todos reais e não havia ali quase nada inventado, mas agora não. Isto não é autobiográfico, é nada eu sendo tudo eu - não sei explicar isto melhor - e, portanto, não me pertence. Daí não poder existir vaidade e o único orgulho é ter trabalhado muito. Este livro foi muito trabalhado, mas espero que o leitor não o perceba porque quando o leitor entende é porque o livro está falhado. Quando iniciei tinha duas frases: "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?" e "Como esta casa é triste às três horas da tarde", mas andava há muitos livros a tentar a estrutura da corrida de toiros. Tinha-o tentado em vários, mas foi sempre impossível, este aguentou a estrutura e até parece que se foi encaixar nela. Era uma coisa que perseguia há anos e fiquei muito contente por o livro ter aceite esse desejo meu.

Sente-se que foi escrito mais depressa.
Talvez tenha demorado menos tempo porque andava com tudo na cabeça, mas tive medo de começar. Então, fui ao calendário que tenho no bolso e disse "começo dia 25 de Fevereiro", uma data completamente arbitrária. Durante dois meses já tinha feito as vozes, que ocupavam uma folha de papel, mas faltava saber a ordem porque falavam. Andei assim durante cinco meses, sem saber o que iriam dizer.

Desta vez as "vozes" impuseram-se mais?
Eram mais precisas, mas em relação ao pedófilo pensava: "Não vou ser capaz." Dá ideia que as fui aprendendo a ouvir melhor, o que é curioso no caso de um surdo. Aliás, a surdez foi modificando a maneira de escrever em mim porque passei a ouvir melhor o mundo.

Não consegue fugir à ordem das "vozes"?
Não quero escapar a nada, queria era estar dentro delas como chocos na tinta. Não se pode fugir a um livro, tem que se fazer o que o livro dá e quer porque o sinto como um organismo vivo. Se o leitor fizer surf por cima das páginas, vai ler isto como quem lê o livro mais simples que houver. Agora, se quiser mergulhar nele, tem muito trabalho porque não é como a porcaria que se vende nas estações dos correios.

Vai deixar de publicar quando o que mais surgem em Portugal são novos autores?
Surgem muitos? No nosso país?

Sim, que opinião tem dos novos "valores"?
Mas está a falar de escritores ou de livros? É que há pessoas que escrevem e há escritores. Não sei do que é que está a falar.

De livros...
Eu não os leio. Li os primeiros parágrafos de um nos Correios enquanto esperava pela minha vez.

E o que é que achou?
Acho que não vale a pena perdermos tempo nisso.

Mas vendem-se tantos livros em Portugal!
Isso sempre existiu, agora existem é outros meios.

Um sucesso que se deve ao marketing?
Penso que não. Uma tia minha quando via um quadro do Picasso dizia "aquilo também eu faço". Há livros que parecem esses quadros, daqueles que se compram nas feiras. Porque é que as televisões estão infestadas de novelas que são perfeitamente miseráveis? É o que as pessoas vêem! Na literatura sempre houve best-sellers e não acho mal que sejam publicados, dá alegria à pessoa que o escreve, dá alegria a uma série de leitores. O que não podem depois é dizer "pus os portugueses a ler". No outro dia vi uma apresentadora de TV a mostrar o seu novo livro e não tenho dúvida de que vai vender, mas daqui a 20 anos ninguém saberá quem foi essa senhora.

No último Natal houve um fenómeno, três irmãos Lobo Antunes publicaram um livro cada. Ficou surpreendido?
Julgo que o livro do João tem um pensamento original e é o melhor que publicou. O do Nuno, julgo que o escreveu com a alma e fico muito contente se vender muito porque gosto muito dele. Eu vejo-os essencialmente como médicos e faz parte da tradição médica escrever.

Nos últimos meses, perdeu vários amigos.
Chega a uma altura da vida em que se tem mais mortos do que glóbulos no sangue. O mundo vai-se despovoando… Foi o Zé Manel (Rodrigues da Silva) no princípio do ano, logo a seguir a Tereza (Coelho)… Morreu o Bourgois há pouco tempo, é sempre há pouco tempo... Com a Tereza Coelho era uma morte esperada mas uma situação muito complicada. Foi uma relação de anos, nunca tivemos uma discussão e tinha sempre razão nas críticas que fazia.


«Foi o miúdo de um ano que escreveu este livro»

Este livro poderia ter sido escrito por uma criança.
É uma coisa que ando a perseguir desde o princípio: o regresso a uma certa inocência primordial. Como aquele sorriso quase de criança de certas velhas de província as aldeias lá da Beira Alta, por exemplo, que sempre me fascinaram pelo modo como de repente ficam meninas. Há uma semana levei flores à minha mãe e parecia que tinha 15 anos e como ela mudou fisicamente! Nunca lhe tinha dado flores e, de um momentos para o outro, era uma miúda muito mais nova que eu - não sei que emoções estavam dentro dela! - e até os seus gestos mudaram.

Foi, então, uma criança neste livro?
Às vezes penso se a criança não tem logo ao nascer imensa experiência? Até que ponto não nascemos com uma sabedoria primordial que vamos perdendo com a educação que nos dão?

Porque o olhar da criança atravessa todo o livro!
Porque não? As crianças são tão assustadoras às vezes. Há uma fotografia minha de quando era um miúdo de um ano, e o olhar dele perturba-me imenso ainda hoje. Acho que foi essa criança que escreveu o livro. Não é extraordinário este olhar? (vai buscar aFotobiografia e mostra a foto) [ver na biografia a foto com um ano] Parece que tem o mundo inteiro dentro do olhar - perturbador - e essa fotografia continua a perseguir-me. Pergunto "quem é ele?" e parece que quanto mais observo esses olhos mais mundo encontro neles. Esta fotografia é, até hoje, a coisa que mais me perturbou na vida e que continua a perturbar, porque ele tem uma maneira de olhar que é terrível. Questiona, incomoda, julga. Parece estar a ver para além de si ou através de si. É engraçado porque a minha mãe tem em casa duas fotografias minhas, essa e outra que estava na contracapa de um livro e que a quando a viu num poster na montra de uma livraria - o meu pai ficou muito envergonhado -, entrou e disse que queria comprá-lo porque lhe lembrava esse olhar do miúdo. Não os acho parecidos, mas olhar a fotografia desse homem não me inquieta enquanto a do miúdo continua a sobressaltar-me. Faz-me sentir culpado quando não escrevo, parece que vem atrás de mim e acusa estar a ser infiel.

Não se libertou de todos os fantasmas?
Não são fantasmas, antes parece o mundo inteiro. Há livros que podem ser assinados por quem o fez mas este quem foi? O que é que isto tem a ver comigo, António Lobo Antunes? Nada! Porque não é meu, não me pertence, não tenho o direito de me sentir orgulho ou de dizer "fizeste uma obra-prima". Não fiz nada! Quer dizer, através de mim fez-se este livro mas é só isso. Portanto, todas as distinções que recebi e as que vão vir este ano fazem-me sempre sentir, ao recebê-las, a aldrabar as pessoas porque não me pertencem.

Quando não se sabe, é a Deus que se costuma atribuir as coisas!
Eu sou um homem religioso mas... Se calhar à entidade, seja ela qual for, que escreve todos os livros e que faz todas as sinfonias e pinta todos os quadros.

E que também faz a cadeira e a mesa?
Que faz tudo aquilo que é útil, porque ser arte é ser útil. Aqui estou a recuperar o conceito medieval de arte, daquilo que era imediatamente útil - fazia-se uma catedral para louvar a Deus - e não o actual conceito que aparece com os românticos. Embora Ovídio tivesse escrito "A minha obra há-de sobreviver ao tempo e ao fogo e ao ferro". E o Horácio dissesse "Construí um monumento mais duradoiro do que o bronze". E resiste.

Passou-se o século XX a dar ao Homem a autoria dos seus actos e agora nega-o.
Esses poetas latinos sentiam-se autores porque havia o furor poético de que Horácio falava: o presente dos deuses. Eram os deuses que se exprimiam através deles. Porque não recuperar isso? São os deuses que se exprimem através de nós. Escolhem uma pessoa ao acaso, um homem que não tem nada de especial. São assim uns escolhidos, que são muito poucos.

Aos cinco anos já queria escrever.
Aí não era querer, era tão natural como a pereira dar peras. "É isto que eu tenho que fazer, é isto que eu vou fazer, sou escritor!", pensava, mas havia muita vaidade e foi uma coisa de que demorei anos a livrar-me. Achava: "Eu trago uma coisa nova" - como é que dizia o profeta Isaías? "Eu trago um canto novo" - e estava completamente seguro disso. Agora compreendo que não me pertence a mim, o que é óptimo, porque há uma data de sentimentos que desaparecem: de competição, de inveja. No outro dia diziam-me: "Tu és muito afortunado, tiveste isso tudo em vida." E eu sinto que estou a enganar as pessoas porque que direito tenho de dizer "isto é meu"? O Bocage si, dizia "Isto é meu, isto não morre", e era dele de facto, e não morreu. Eu acho que não posso falar assim. Por outro lado , é péssimo, porque cada vez é mais difícil ler. Tudo o que leio é pior que aquilo que faço, tenho vontade de começar a corrigir tudo.

Cada vez há menos livros que o interessam?
Sim. Ao princípio pensava: uma pessoa vive com 500 livros. Há cinco pensava "vive com 100". Depois vive com 50, depois com 20. E agora chegava-me o Virgílio, o Horácio e o Ovídio. Há coisas que também gosto nos livros do Conan Doyle, não tanto pelo Sherlock Holmes, mas pela capacidade de recriar Londres muito melhor que Dickens. Eu não sou um grande amante do Quixote, como não sou do Fernando Pessoa, de quem tenho as maiores reversas, e penso que o tempo acabará por me dar razão. Acho o Livro do Desassossegoum amontoado de lugares comuns. Não é isso que os deuses cantam, não é assim que os deuses falam.


Diário de Notícias
16.02.2009

14/02/2009

Tiago Sousa Garcia: opinião sobre O Arquipélago da Insónia


A obra de António Lobo Antunes nunca será consensual. O Arquipélago da Insónia não é ainda a obra que marcará a unanimidade de opiniões à volta do autor. Quem gosta continuará a gostar, quem detesta tem mais um livro para deitar à fogueira.

O livro questiona a tradicional divisão literária. Não será dramaturgia, lírica também não. Sobra a narrativa – e como encaixá-lo? Romance talvez seja o mais próximo, mas nada há aqui de romance. É, por assim dizer, um livro inclassificável.

O enredo, chamemos-lhe assim, conta a história de uma família burguesa, dona de uma herdade no Ribatejo. Como as fotografias que estão na sala da casa, o livro retrata três gerações. É difícil identificar a que geração pertence cada personagem. As palavras não seguem qualquer tipo de ordem cronológica, cenas de hoje misturam-se com cenas de ontem, os que permanecem vivos são muitas vezes interrompidos por lembranças dos que já morreram. Nas páginas de O Arquipélago da Insónia está a biografia da família, desde o crescimento da herdade pelo braço do Avô e do seu amigo de infância, que se tornou no feitor, até ao declínio e à inexistência com que chegou aos seus netos. É pelos olhos de um desses netos que o leitor vê grande parte da acção. Pormenor de fundo, esse neto não tem uma mente comum, subentende-se a certo ponto que sofre de autismo. Pormenor que se torna num dos pontos mais importantes do livro.

Enquanto está a olhar para uma fotografia do seu irmão, o narrador salta repentinamente para a recordação de uma história de infância do avô, para logo depois passar para uma memória da sua própria infância, para em seguida se lembrar de uma criança que amava, Maria Adelaide, e que acredita piamente que está morta mesmo sabendo que está casada com o irmão. Este alucinante trocar de acção é substituído, no terço final do livro, por visões mais comuns, por assim dizer, de alguns dos outros membros do clã.

É, sem dúvida, fascinante a maneira como Lobo Antunes simula o trabalhar de uma mente especial. O grande ponto negativo – será que queria mesmo escrever ponto negativo? – é que este não é um livro de boa digestão. É absolutamente desaconselhável interrompê-lo a meio de um capítulo, corre-se o risco de perder completamente o fio condutor que, vai-se a ver, nem existe. Por outro lado, os capítulos, quase estanques entre si, podem ser lidos e relidos isoladamente sem grandes perdas.

A magia dos livros de António Lobo Antunes é que são quase peças de arte. Cada vocábulo tem o mesmo valor lido individualmente ou numa frase, cada palavra é burilada até à exaustão, um trabalho quase silencioso que não escapa aos olhos de ninguém.Percebe-se que onde está aquele verbo não poderia estar outro, onde está aquele substantivo não há lugar para mais nenhum. Talvez por isso as palavras e as expressões se repitam ad eternum, estão perfeitas, não há necessidade de procurar outras. Dizem uns. Outros dizem que Lobo Antunes escreve o mesmo livro há trinta anos. Indiferente a O Arquipélago da Insónia é que ninguém fica.


por Tiago Sousa Garcia
2009

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...