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20 de maio de 2012

Nuno Martins: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Mais um fantástico livro de António Lobo Antunes...

Seguindo o meu périplo pela leitura de Lobo Antunes, cheguei "à vez" de "A Morte de Carlos Gardel", por ventura um dos seus livros mais conhecidos (e agora ainda mais devido ao filme, que infelizmente ainda não vi).

A história inicia-se e centra-se na personagem de Nuno, um jovem toxicodependente que dá entrada num hospital em fase terminal e a partir daí a acção evolui e passa para as pessoas que a ele estão ligadas.

O pai, Álvaro, que se separou da mulher quando o filho era pequeno, um homem sem ambições, "mole" e introspetivo, apenas com a sua paixão pelo tango e principalmente por Carlos Gardel, que o acompanha ao longo de toda a sua vida e que o liga ao mundo.

Claúdia, a mãe, independente, cuida do filho sozinha, tem vários casos depois de se separar de Álvaro, estando na altura numa relação com Ricardo que tem a praticamente a idade do filho.

Graça, a tia, irmã de Álvaro, médica e homossexual é a (suposta) "pedra" mais forte neste conjunto de personagens, e que está junta com Cristiana, uma professora muito instável emocionalmente e ciumenta.

Para além destas há mais umas quantas personagens que também contribuem e muito para a estrutura e desenvolvimento da história.

O livro está dividido em cinco capítulos, cujos títulos são tangos famosos de Gardel e cada capítulo é a estória e visão dos acontecimentos de cada personagem. Mas Lobo Antunes como escritor genial que é, neste livro utiliza uma espécie de "confrontação dos factos" em que as mesmas situações são vistas e relatadas sob a perspectiva dos diversos intervenientes, o que torna o livro ainda mais apetecível e profundo.

Lobo Antunes, também e como já fez nos seus livros anteriores, mostra-nos um Portugal "cinzento", onde as pessoas são mesquinhas, falsas, problemáticas, vivendo nos subúrbios, com falta de gosto e decadentes, ou seja, o Portugal real do nosso dia a dia.

Dos vários livros que já li de António Lobo Antunes, este é dos melhores, é muito profundo e bem estruturado e comovente, vale bem a pena ler. (Entretanto fiquei muito curioso de ver o filme).


por Nuno Martins
O que eu leio
20.05.2012

4 de dezembro de 2011

Liliana Costa: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Além de escritor, António Lobo Antunes é médico psiquiatra. A dor e o desespero, sentimentos que se enfrentam ao lidar com a loucura e fragilidade humanas, estão visíveis no mundo que recria. O autor destaca de forma insistente que as carências afectivas, não sendo resolvidas, vão sempre cobrar no futuro. O médico sabe que as cicatrizes não se fecham por magia, há que curá-las e cuidar para que as feridas sejam menos profundas.

O romance conta a saga de uma família da classe média portuguesa: a narrativa estende-se por quatro gerações. Lobo Antunes narra de forma fragmentada, com uma aparente incoerência ou dificuldade formal, que reflecte a falta de fluidez e harmonia do mundo interior das personagens. O tecido das frases, intercalando diferentes épocas e cenários, resulta estranho e nebuloso no início da leitura; o relato vai seguindo com saltos atrás no tempo, enquanto repete elementos que giram sobre si de forma obsessiva. Aos poucos, o leitor entra em sintonia com o proposto e familiariza-se com as mudanças de ritmo.


ESTRUTURA SIMÉTRICA:

A estrutura deste romance é quase matemática: o relato tem cinco partes, cada uma dedicada a um protagonista. Ao mesmo tempo, cada parte é composta por cinco monólogos: três deles correspondem aos protagonistas, os outros dois, sempre intercalados, correspondem a personagens que não pertencem à família, salvo uma excepção.

É interessante esta ordem simétrica entre a desordem inerente ao mundo narrado. Os recursos estilísticos tentam limar as arestas do conteúdo num esforço sistemático para impedir a explosão da loucura. Esta rompe com toda a sua força no final, após o desenlace do drama familiar, que é a morte de Nuno.

A estrutura simétrica introduz harmonia e, ao mesmo tempo, fornece instrumentos que orientam o leitor, dando-lhe pistas. Ao familiarizar-se com a estrutura, ele pode apoiar-se nela para chegar aos temas de fundo.

Através dos monólogos, temos diferentes vozes narrando, o que implica, necessariamente, diferentes pontos de vista. Estas visões distintas sobre a vida da família e das suas personagens, ajudam a compor o cenário geral. E quando aquele que fala está fora do núcleo familiar, enriquece-o com novas perspectivas.


O ELEMENTO REPETITIVO:

A narrativa apoia-se em frases que se repetem uma e outra vez em diferentes contextos, aumentando, em cada repetição, a sua carga semântica. As palavras reiteradas destacam-se a partir do contexto como sublinhadas a vermelho no sentido de anunciar um significado oculto.

Este recurso é utilizado de duas formas diferentes: por vezes as frases repetidas pertencem a um diálogo que marcou a personagem no passado; outras que se repetem são palavras que descrevem cenários que acompanharam a personagem ao longo da vida e que lhe são queridos ou traumáticos de maneira sintomática. As duas versões intercalam-se para reforçar o efeito.

Estas palavras ou frases tentam resumir ou definir a personagem, escolhendo alguns elementos da sua história num esforço para sintetizá-la. Resgatando o essencial não serão necessários detalhes supérfluos. Tudo aquilo que está fora do relato não é substancial, ou será desnecessário. Lobo Antunes selecciona os termos que são suficientes para apresentar as suas personagens e expor as características da sua dor. É por isso que todas essas expressões têm uma componente traumática.

A intenção do autor é colocar-nos em contacto com as obsessões das suas personagens. Daí a importância da repetição. Procura concentrar-se em conseguir que a narrativa se sustenha com umas quantas palavras que representem o todo e que o discurso não avance, que seja monótono e brutal nessa monotonia. A acumulação tem um efeito imediato: a atenção concentra-se e o conteúdo carregado, o ambiente é claustrofóbico, envenena o ar de emoções não expressas senão em voz baixa, nas entrelinhas, quase com pudor.

Analisemos algumas destas frases:

"- O que foi, Álvaro?
- Nada. Dorme. Nada."

Este é, talvez, o diálogo que se repete com mais frequência, e tem maior alcance. Porque o que transmitem estas duas frases aparentemente quotidianas, não se limita às duas personagens dialogantes (Álvaro e Cláudia), mas pode ser atribuído a qualquer um dos casais da família em questão.

Num contexto diferente, estas duas frases poderiam exprimir a cumplicidade de um casal, um entendimento tácito do tipo: sossega que vou lá eu, descansa tu agora. Porém, em A Morte de Carlos Gardel, as frases exprimem uma quebra de comunicação crónica, uma absoluta falta de interesse. Perante o choro do seu filho Nuno, Álvaro levanta-se para vê-lo, e quando a mulher lhe pergunta o que se passa, ele mantém-na fora da situação: "Nada. Dorme. Nada". Os leitores intuem que o seu desejo é que ela o deixe a sós com o filho.

O diálogo soa sem parar, como um refrão que resume e evidencia a falta de comunicação. A presença da palavra "nada", no início e no fim, é importante e decisiva. Resume o vazio.

Para ambientar este diálogo temos alguns objectos chave: um limoeiro e a pilha de roupa por lavar, no sótão de Benfica. E a imagem da "cidade cor de laranja imóvel nas vidraças como um anjo esquartejado numa cruz", que se funde na febre de Nuno.

"Vai para a sala, some-te, sai daqui"

É uma frase de Cláudia ao responder a Álvaro quando ela lhe conta que está grávida. Ele, em vez de celebrar como seria de esperar, confessa a sua falta de amor.

A determinação da Cláudia (vai, some-te, sai) é fruto do seu carácter independente, mais notório em relação aos outros membros da família que são personagens dependentes e com falta de iniciativa. Ela, pelo contrário, toma decisões, reage coerentemente, age pensando em si, não em ferir quem lhe ofenda, que é a tónica de todos os outros.

E como pano de fundo para este diálogo temos a chuva, e os baldes, panelas, tachos e caçarolas para amparar as goteiras que provoca.

"Que piroseira pegada"

Esta expressão é de Nuno para tentar resumir a relação díspar entre o seu pai e Raquel. O insulto, ou a insolência, são o resultado do ressentimento: Nuno não suporta que o pai o tenha abandonado ainda por cima por uma mulher vulgar, e lamechas. A fealdade de Raquel é o sinal, para Nuno, da decadência do pai. "Que piroseira pegada" exprime o seu desgosto pela escolha de Álvaro, a sua rejeição da mulher que o pai escolheu, e do mundo que a rodeia, a sua classe social.

Os objectos que definem a piroseira são: os leques, as máscaras, os arlequins, os almofarizes de bronze, a cantoneira das chávenas, as tigelas chinesas com o friso doirado, etc.

"Pareces uma noiva, Raquel"

É com estas palavras que o pai de Raquel resumia o carinho e a ilusão que tinha ao contemplar a filha, o seu futuro. Ao recordá-las com insistência, podemos intuir a frustração de Raquel. O pai acreditava nela, elogiava-a, desejava-lhe um bom marido. No entanto, a vida desiludiu-a com Álvaro, a quem ela chama desesperadamente "fofo". Álvaro corrige-a irónico e enfastiado, "Não me chames de fofo".

O objecto evocado para ilustrar esta memória é o vestido branco.

"Sorriam" e "Olhe para ali"

São duas frases da infância de Silvina, a empregada de Raquel. Seu pai, fotógrafo, trabalhava em casa. A criança cresceu ouvindo estas duas ordens cujo sentido era ficar-se alheio à realidade para que a foto fosse bem conseguida. Silvina amava o pai cujas palavras ficaram como um ideal impossível de concretizar.

De cada vez que Silvina lembra as ordens do pai atrás da câmara, evoca também a sua morte, sempre com estas palavras: "Morrer é quando os olhos se transformam em pálpebras".

"... o apito da fragata ..."

No monólogo de Joaquim, esta imagem auditiva é repetida nove vezes. É o som do navio que o levou à Madeira. Para Joaquim era um sinal, porque desde que embarcou, a sua vida foi arruinando. Esta é a razão para que o apito, intimamente relacionado com a sua partida, se tenha tornado como a lembrança da sua infelicidade. É a imagem da ruptura: haverá um antes e depois da Madeira.

Para que Joaquim entre em cena só falta o pijama, o cão, o baralho de cartas, as faias e os loendros da casa da Gomes Pereira. Elementos que por si só, uma vez enumerados, descrevem a solidão e a decadência.

O cão arranhando os azulejos da cozinha é uma imagem carregada de desespero, aparece muitas vezes como um grito sufocado. Também tem a conotação de um ambiente claustrofóbico. Quando Joaquim morre, o animal recusa-se a comer. E para evitar o seu sofrimento, decidem dar-lhe uma injecção de potássio. Álvaro reclamará a mesma injecção redentora para ele a fim de evitar o sofrimento que lhe provoca a agonia do filho, um tratamento dado aos animais por piedade e não ao homem.

"Teresinha"

É a palavra que Cristiana evoca constantemente. Era assim que o pai chamava pela mãe quando queria fazer amor com a mulher. Ao ouvir o nome de sua mãe, Cristiana sentia-se a mais entre o casal, o que lhe provocava ciúmes e raiva. Por isso também é repetida a frase em que a criança reclama um lugar para si: "Deixem-me dormir com vocês".

O objecto que acompanha esta cena é o colchão da cama e o ruído que produz.
  
"Temos tudo a nosso favor para recomeçar a vida do princípio e ser felizes"

A afirmação é como que uma cantilena de Raquel. Estas palavras revelam o seu optimismo, por um lado, e o seu desejo de negar a realidade, por outro. O leitor sabe que não é assim, eles nada têm a seu favor para recomeçar a vida do princípio e ser felizes.

Alzira define-se como uma pessoa senil, não tanto por estar alojada num asilo, mas pela imagem recorrente de passear pela casa com a trela do cão sem o cão, ou pela segurança com que sustenta de que os loendros chamam por si.

As memórias da guerra na Alemanha resumem-se em poucos elementos para Cláudia: o esconderijo no sótão, os aviões que passam, o sangue dos coelhos, as muletas do pai e o anel que a mãe furtou a um cadáver.

As amigas de Cláudia estão contidas em duas frases: "... pior que um marido só um ex-marido", e "pareces uma domadora de chimpanzés".

A debilidade e a imaturidade de Ricardo são expressas na afirmação que Cláudia pronuncia com algum desprezo: "Não chores, Ricardo, não chores". E a dependência que ele tem em relação a uma mulher mais velha resume-se a estas duas: "Não se esqueça de o mandar lavar os dentes antes de se deitar" e "Se por acaso me separar de ti na semana seguinte estás a viver com a tua mãe".


O PESADO FARDO DA HISTÓRIA

Em A Morte de Carlos Gardel, o passado das personagens é uma âncora, um peso do qual não se podem livrar. Estão constantemente retrocedendo, farejando e agitando os pesadelos das vivências, de forma que o passado será sempre a única explicação das suas misérias. A infância marcou estas personagens a sangue e fogo, as experiências negativas são estigmas que as condenam à infelicidade. Mesmo os momentos felizes surgem como paraísos perdidos dos quais só se pode voltar através da memória.

Devido a esta constante regressão no tempo, a narrativa tem de girar necessariamente sobre si mesma, não há projecções do futuro, as personagens aceitam a sua herança como uma fatalidade e não aspiram converterem-se em alguém distinto, não consideram a possibilidade de mudar os padrões familiares.

A primeira frustração ou trauma afectivo desta saga é o abandono de que sofre Joaquim, avô de Álvaro. Tinha estado onze meses na Madeira e quando regressou da ilha (devido a um problema obscuro), a mulher deixa-o para ir viver com outro. A dor imensa que lhe causa a traição da mulher é o ponto de partida de todos os males, a origem da decadência de Joaquim e das três gerações que se lhe seguem.

Também o filho, Tó Mané, sofre o mesmo abandono quando a mãe saiu de casa, tendo sido uma criança que cresceu sem amor. O pai não soube protegê-lo uma vez que ele próprio não suportava a sua dor, o sentimento de perda isolou-o. A falta de afectos será então uma constante; um veneno que os converte em seres murchos, sem vida.

Após Ester abandonar Joaquim e Tó Mané, será este que abandonará os seu filhos Álvaro e Graça. Álvaro depois abandona Cláudia, sua mulher, e o filho Nuno, e mais tarde Raquel mais ao filho que terá com ela, fruto do casamento.

A perda da sua mulher provoca em Joaquim uma reacção negativa: não voltar a amar para não voltar a sofrer:

"Deus me livre de gostar das pessoas" (pág. 33)

Esta posição é falsa, não é verdade que Joaquim não goste, tanto que acaba por cuidar dos netos quando Tó Mané os abandona. Porém, o que tem a dar está contaminado pela perda não superada, e nega-se a criar laços:

"- Gostar dos outros que é a melhor receita para um mau bocado, eu graças a Deus salvei-me disso e sou feliz...

- ... O segredo, senhores, é não gostar, reparem em mim que por não gostar sou livre..."

É interessante assinalar como o diálogo anterior está intercalado no romance com as acções de Tó Mané, seu filho, que procura angustiado pela mãe, atitude à qual Joaquim (aquele que não gosta) reage com ternura tentando acalmar o filho (ele que não gosta de ninguém), ao mesmo tempo que esconde as lágrimas delatoras atrás de uma revista para que o filho não o veja a chorar.

Lobo Antunes consegue transmitir os sentimentos das suas personagens sem dizê-los directamente, nem narrando ou descrevendo-os, apenas reproduzindo palavras e cenários como que em colagens, para que o leitor tire as suas próprias conclusões e compreenda as estranhas acções das personagens.

O dramático é que a atitude de Joaquim, que é uma atitude defensiva, em vez de o proteger, ainda lhe faz pior, empobrece-o de sentimentos, e esta pobreza será transmitida de geração em geração, como uma pesada herança. Não sendo capazes de amar e ser amados, serão vazios e sós. O desafecto em A Morte de Carlos Gardel destrói, anula, enlouquece e mata.

Lobo Antunes enuncia a situação dramática para que o leitor note a gravidade da falta. Os traumas não resolvidos são nocivos e destroem quem temos por perto. É importante o diálogo, a compreensão e a confiança em nós próprios, é o que escreve nas entrelinhas o autor psiquiatra para nos alertar.

Outra personagem interessante para análise é Graça. Foi abandonada pelo pai quando da morte da mãe, em casa do avô Joaquim. As duas pessoas que a ampararam foram o seu irmão Álvaro e a criada Alzira.

A orfandade partilhada faz com que ganhe amor pelo irmão protector, ("Lembras-te de quando o pai me trouxe como te trouxe a ti?"), um amor que a preenche e satura, ao ponto de não conseguir apaixonar-se depois por qualquer outro homem. Graça viverá com uma mulher, Cristiana, mas a relação com ela não parece de uma mulher apaixonada, mais parece uma acto voluntário de rejeição dos homens. Álvaro foi carinhoso com sua irmã desamparada, mas Graça interpreta mal esse afecto que recebe e distorce-o. Ela não o ama como uma irmã, ama-lo como uma mulher.

Acaba por ser ainda mais doloroso o abuso que Graça inflige a Alzira, que foi quem cuidou dela ternamente desde criança. Infelizmente este amor de Alzira humilha Graça, fá-la lembrar a ausência dos pais, e a saudade que deles tem. Já sei que gostas de mim, mas eu não quero o teu amor, é o amor de outros que me faz falta, parece dizer Graça à velha criada.

Por outro lado, trocando as disposições, Alzira lembra-lhe os seus problemas da juventude, a falta de charme, os óculos, a sua fealdade, de forma absurda: negando-os. Para Alzira, Graça é a sua menina bonita, e traz ao pescoço um fio com uma foto de Graça que a esta lhe parece horrorosa. Esse desfasamento provoca a agressão de que Alzira é vítima, porque irrita a pessoa querida, violenta-a e coloca em evidência a ignorância contra a qual se despedaça, na incapacidade de compreender-se, o amor cego e não desejado.

Quando existe carinho em A Morte de Carlos Gardel, é contra-producente. Graça afirma:

"Na nossa família as pessoas nunca precisam de ninguém" (pág. 96)

Certamente precisam, mas os que acodem não são quem deviam acudir. Não é que não precisem, é que não contam com quem deviam, e isso é algo muito diferente.

E fora da família também há desencontros: Cláudia é abandonada por Álvaro e quem a consola é Ricardo, que a mima, ouve-a, dá-lhe afecto. No entanto, quando Cláudia decide regressar a Alemanha, nem sequer se despede de Ricardo. O único que a ama nem existe para ela.

Raquel gosta de Álvaro, mas Álvaro não a suporta.

Cristiana quer visitar a mãe e regressar a casa, mas é a mãe que já não a quer ver.

Enquanto o texto se torna tenso pela angústia das personagens, o autor faz uma ruptura com belas descrições do mundo exterior: a natureza, as praias, as vistas de uma varanda, o rio, etc. São cenas refrescantes: a paisagem exterior embeleza esse mundo interior tão atormentado.


O FRACASSO DO PRESENTE

A morte de Nuno é o desenlace da narrativa, facto que ocorre no presente da narração. A agonia do tóxico-dependente está na origem do romance. Quando as personagens enfrentam este facto, a experiência da agonia, remete-os para o passado onde viveram situações idênticas:

- Álvaro recorda a perda da mãe ("um rosto num travesseiro / gente de luto / uma mulher que me oferecia sopa") e do avô ("... o meu avô a lutar contra o baralho nas paciências do serão, ambos surdos para o cadelo que raspava os azulejos da cozinha com as unhas, o cadelo que recusou comer após a morte do velho, ganindo de cócoras de reposteiro em reposteiro").

- Graça, a perda da mãe: "... e vem-me à memória a minha mãe na clínica".

- Silvina, a do pai: "porque morrer é quando os olhos se transformam em pálpebras".

- Cláudia recorda os mortos na guerra.

E também lembram doenças: Álvaro da operação ao coração, Cláudia das muletas do pai, Álvaro e Cláudia de uma febre que Nuno quando pequeno, etc.

As imagens surgem por associação de ideias, sensações (odores, visão da clínica, etc.), ou palavras. E o movimento é sempre para trás, o futuro não existe, nem sequer para Raquel que dará à luz o último membro da saga.

As regressões são por vezes agradáveis, aprecia-se o que se evoca com nostalgia. Por exemplo, quando Graça se lembra do irmão vestindo-a, Raquel da sua meninice vestida de branco, Beatriz da sua infância em Luanda ("Gosto da minha mãe", "Ai, rapariga, rapariga"), Silvina da presença do seu pai no estúdio de fotografia.

Em A Morte de Carlos Gardel é impossível alienar-se do passado. O presente depende dele, que o molda e condiciona. Os membros desta família não são livres de voar longe, herdam o trauma e a dor do avô e assumem-nos como seus. Estão tão feridos que são incapazes de notar o erro, e sem querer, ainda o multiplicam.

Em Nuno os erros somam-se acumulados e ele entrega-se às drogas. Não é capaz de sobreviver à situação. Nem o pai foi capaz de assumir a paternidade, afastou-se de Cláudia quando esta ficou grávida. Não estava à altura da responsabilidade. Mas o quadro é ainda mais complicado para Nuno porque Cláudia nem sequer é uma mãe carinhosa, o rapaz tem medo de ficar só, de ser substituído pelos amantes da mãe, da escuridão, do abandono. Nuno sente o ambiente, intui o que lhe espera. Por isso foge.

Nuno representa o presente da família, exemplo claro de um ser que não sabe relacionar-se com o mundo:

"Não gosto de ninguém e ninguém gosta de mim" (pág. 282).

Há uma mensagem velada nesta imolação de Nuno: com amor, a tragédia ter-se-ia evitado. Diz Álvaro:

"... se eu pudesse voltar atrás, ter ficado com a tua mãe, não me casar com a Raquel..." (pág. 46).

O outro desfecho é a loucura de Álvaro. Quando morre o filho, e assumindo a culpa, descontrola-se. A sua obsessão com Carlos Gardel, já antiga, transtorna-o por completo. Os episódios com Albino Seixas e a mulher são patéticos e as cenas delirantes.

Cláudia é a personagem com maiores recursos. Ela, que não pertence à família senão através do casamento, decide, após a morte do filho, afastar-se e recomeçar em outro lugar.. Nela existe um plano de futuro, uma vontade de renovação.


As citações foram tiradas da edição de bolso de Random House Mondadori, ano 2004, tradução de Mario Merlino.*


* Para a tradução do artigo as citações são da 3ª edição, 1994, Dom Quixote. Os itálicos e negritos não são do texto original


Liliana Costa
07.11.2006
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

21 de agosto de 2011

Maria Celeste Pereira: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Decidi ler agora (Fevereiro deste ano) este livro de Lobo Antunes, um dos muitos que ainda não li, pelo facto de ter sabido, há já uns tempos atrás, estava o argumento ainda em fase de preparação, que a realizadora sueca Solveig Nordlund iria realizar um filme não só homónimo do livro como tendo por base a sua história.


Ora, sem dúvida, tal conhecimento espicaçou-me a curiosidade em relação ao livro. E agora, confesso, tenho a curiosidade ainda mais encarniçada para ver o resultado final. Neste caso, do filme.

E então o livro:

É mais um livro com a marca inconfundível de António Lobo Antunes. Um livro em que a narrativa se encontra fraccionada, surgindo sem sequência temporal ou espacial, intercalando tempos, espaços, acontecimentos (reais ou do mundo imaginário), e personagens.

Encontra-se dividido em cinco partes sendo que cada uma delas tem por título um tango de Carlos Gardel. Começa com “por una cabeza”, vai seguindo com a “milonga sentimental”, passa para a “lejana terra mia”, até “el dia que me quieras” para terminar com a belíssima “melodia de arrabal”.

Devo dizer que fui ouvir estes tangos (um prazer, gosto de tango, confesso) procurando ver se havia alguma ligação entre as suas letras e o que ocorria naquelas, também cinco, falas. E, realmente, penso que posso com facilidade estabelecer algumas ligações entre os sentidos dos textos. Ou então será mera vontade minha de o fazer. Deixo ao critério, ou à imaginação de cada leitor encontrar, ou não, essa intertextualidade, essa coincidência de sentidos.

Cada uma dessas partes está dividida em, chamemos-lhe capítulos, em que é dada voz a uma personagem. Uma estrutura também já habitual em alguns dos livros de ALA.

E é ao seguirmos essas vozes de cada um que se vai desenrolando perante nós uma história que é, no fundo, o somatório de muitas e, todas elas, gestas tristes onde a desesperança, o isolamento, a insegurança, o desamor, um passado de desilusões são denominadores comuns a todas as personagens.

Nuno, o filho toxicodependente de Álvaro e de Cláudia, encontra-se internado em estado terminal (acabando por morrer). À sua volta vamos encontrando os familiares e relativos que vão soltando as suas existências, os seus pensamentos, as suas fantasias traçando-nos, com elas, um quadro tremendamente deprimente em que a iminente morte do Nuno acaba por se ir diluindo no dramatismo acabrunhante de todas aquelas vidas.

Temos a Cláudia, mãe do Nuno, abandonada por Álvaro que lhe diz que não gosta dela, que nunca gostou, e que, depois de outras, acaba por manter uma relação com um indivíduo da idade do filho.

Graça, tia de Nuno, irmã de Álvaro, com uma relação homossexual assumida com Cristiana, que apenas suporta, pois, na verdade, por quem sempre esteve apaixonada foi pelo irmão.

Cristiana, insegura e exigente. Tremendamente infeliz.

Raquel, a actual esposa de Álvaro, socialmente muito diferente deste, a qual ele não aguenta e não se coíbe de o demonstrar…

E Nuno que, de facto, nunca esteve verdadeiramente ligado a ninguém.

Álvaro é apaixonado pela música de Carlos Gardel que ouve repetidamente. Esta obsessão vai piorar e entrar num caminho sem retorno no dia em que encontra o Sr. Seixas, um velho que, com a sua mulher (agora imobilizada por uma trombose), se apresentava em bares de categoria cada vez mais duvidosa, imitando a imagem e o cantar de Carlos Gardel e dançando os seus tangos. E seguindo-o, lidando com ele como se do verdadeiro Gardel se tratasse, negando a morte deste, Álvaro procura prolongar o mito. Quiçá o único ao qual se sente ainda ligado, o único fio de ilusão que ainda lhe resta.

Mas, na verdade, nem isso ele consegue…

Como sempre a escrita de ALA encanta-me pela perfeição que nela se acha. Todas as palavras estão ali mesmo, onde deviam estar.

E a poesia que dela emana!!!!


Maria Celeste Pereira
21.08.2011

14 de agosto de 2011

José Alexandre Ramos: Milonga niilista (A Morte de Carlos Gardel)


Quando António Lobo Antunes escrevia o seu 10º romance, já havia vincado o seu estilo inconfundível, da desconstrução do discurso (embora ainda faltassem alguns anos e livros para chegar a um discurso mais fragmentado), feito na primeira pessoa do singular, em narrativas paralelas ou sobrepostas das personagens que falam sobre as suas experiências e sentimentos num – por vezes árduo – exercício da memória. A Morte de Carlos Gardel fecha o chamado “ciclo de Lisboa” começado em Tratado das Paixões da Alma, seguido de A Ordem Natural das Coisas.
 
Divide-se em cinco grandes capítulos, correspondendo a cinco temas do cantor de tango argentino Carlos Gardel, cuja escolha não é acidental nem aleatória: “Por una cabeza”, “Milonga sentimental”, “Lejana tierra mía”, “El día que me quieras” e “Melodía de arrabal”. Sendo o tango um estilo de grande intensidade dramática, de base triste, sentimental, mas ao mesmo tempo agressivo e sensual, repercutido na sua dança, de que a submissão da mulher ao seu par masculino é consequência, representa muito bem o que nos diz o livro
 
(diz e não conta, que é marca literária de António Lobo Antunes, embora se possa sempre tirar uma história comum a todos as personagens da qual só nos damos conta ou podemos urdi-la após terminar a leitura do livro).
 
Estes cinco capítulos subdividem-se nos vários relatos das personagens: um núcleo de familiares de Nuno, jovem toxicodependente que está em coma num hospital e acaba por morrer. Embora esta seja a personagem central, cuja situação dá o mote, logo no início do livro, para os relatos do pai (Álvaro), da tia (Graça) e da mãe (Cláudia), personagens do referido núcleo, não podemos afirmar que exista no livro uma personagem principal e as secundárias, da mesma forma que não existe um fio narrativo (pelo menos formal e intencional), mas antes personagem e motivos centrais, tronco comum para as várias intervenções em que o núcleo deixa fluir o seu discurso. Portanto, nenhuma das personagens é dispensável, em qualquer dos seus relatos, ou o livro já não seria o mesmo. E mesmo que quiséssemos achar uma personagem mais evidenciada, nem seria Nuno, pois não é das que mais discursa; a personagem que mais intervém quer a nível narrativo quer na sequência dada à acção é Álvaro, o pai ausente nos afectos, o fã de Gardel, o marido inconstante de Cláudia e mais tarde de Raquel, e irmão de Graça.
 
Ao bom estilo antuniano, cada personagem vem à boca de cena para um monólogo onde evocam memórias da infância, ou outros episódios e factos do passado mais recente das suas vivências, cruzando com a experiência vivida no tempo actual do livro. Os capítulos e subcapítulos sucedem-se a um ritmo que vai aumentando a sua cadência à medida que a tensão entre as personagens se torna mais densa e se precipita para o fim. Assim, vamos conhecendo a inadaptação de Álvaro como pai e marido, que sucessivamente é incapaz de gerir uma relação familiar, primeiro com Cláudia com quem tem o filho Nuno, e depois com Raquel; dos conflitos de interesse em torno da personagem Nuno – desde a desordem emocional da relação com Álvaro a quem não reconhece como figura paternal, até aos conflitos com as relações amorosas da mãe, e a nova companheira do pai, estranhos com quem em criança é obrigado a conviver e que o vai marcar, embora aparente indiferença e desprezo durante a adolescência que é quando se vicia na heroína. Também a cumplicidade passiva de Graça, irmã de Álvaro e tia de Nuno, que no livro sabemos que vive com um mulher (Cristiana), mas nutre um sentimento algo incestuoso pelo irmão, e por consequente o iliba da culpa do desarranjo emocional do filho e sua preponderarão para se alienar da vida social e consumo de drogas, vindo a atribuir essa culpa a Cláudia, mãe de Nuno. Afinal, como no tango, as mulheres são aqui submissas e resignadas ora por compaixão a Álvaro, ora porque a insignificância das suas vidas não lhes permite grandes exigências para com os parceiros que escolhem (ora Álvaro, ora outros homens como os que a mãe de Nuno convive). E toda esta conflitualidade, exasperação, altruísmo e egoísmo misturados, e resignação a vários níveis, são retratados com bastante ironia e sarcasmo, em pequenos episódios roçando o grotesco, e com um pendor niilista como se a vida, por ser assim, não valesse a pena ser vivida. Assistimos ao fim de tudo não com a morte de Nuno, mas com o abandono das personagens que se vão despedindo da narrativa sem que demos conta e com a suposta loucura de Álvaro (nunca assumida quer pelos personagens quer pelo autor – terá que ser o leitor a decidir) que, transtornado com a morte do filho (e ao fim ao cabo com todo o seu percurso emocional arruinado), julga conhecer Carlos Gardel sobrevivente num imitador – Albino Seixas, a personagem final do livro, um velho artista de cabaret que luta para manter a subsistência e a da sua mulher entrevada, após muitos anos como dançarinos de tango. De realçar que as personagens – de uma baixa classe média – vivem todas nos subúrbios de Lisboa, que no livro e através dos relatos são apresentados como lugares feios e desinteressantes – um factor mais a sublinhar a resignação.
 
A composição deste romance, em que as narrativas têm altos e baixos picos de intensidade, assemelha-se à de uma composição musical
 
(como viria a ser notado dali para a frente na obra de Lobo Antunes),
 
ou não tivesse sido construído sob a base de cinco temas de Carlos Gardel, este ainda uma personagem abstracta do livro mas sempre presente, que silencia todos os relatos quando Álvaro, presumivelmente já recuperado do seu estado delirante, reconhece finalmente o cantor argentino como morto.
 
Escrever sobre qualquer que seja o livro de António Lobo Antunes é, para mim, ingrato e difícil, acabo sempre por não achar as palavras certas. Porém, a terminar, devo dizer que foi um prazer reencontrado reler A Morte de Carlos Gardel, pela mestria com que foi escrito e por, como sempre, estar a falar de nós e para nós próprios – isto já é António Lobo Antunes, reconhecidamente. Particularmente, e por uma questão de gosto pessoal, este livro é um dos que mais aprecio deste mestre da literatura.
 

José Alexandre Ramos
14.08.2011

8 de dezembro de 2006

Sílvio Mendes: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Espanto, fascínio. Das palavras mais barrigudas, porque compostas por justa-precisão.

É justo que as gaste em elogios às garras do Lobo. Associadas a este António é impossível que se gastem, na verdade. Numa verdade que não se impõe, nem na pretensão de sonhar imposições, de tão humilde que é, a verdade, tanto que nem chega a ser certo que não nos minta a todos. Renovam-se a cada estucada selvagem da pata do escravo literário, escravo livre, mas escravo, linha a linha, descarrilada ou nem por isso, verbo a verbo, na conjugação de espinhos e de lanças.

Espanto e fascínio mas sem doçura. Vida dentro de cabeças que a perdem sem saber. Vida a marcar passo nas árvores de Lisboa, no barco que avança sobre o Tejo, vida que avança sobre o escuro, para a morte, vida que pára, parada até à morte. Não dócil, não doce e, parando, livre. A morte de Carlos Gardel não sei o que é. Porque ele está vivo, como é sabido, os aviões não caem e, se caíssem, não seria para o lado terrestre. A lei da gravidade nasce invertida para os que voam. E, portanto, a morte de Carlos Gardel (o maior cantor de tangos de todos os tempos!) só pode ser isso, uma órfã das coisas que não são.

Entre uma homenagem (disfarçada? assumida? qual homenagem qual quê? o Tejo é uma grande lágrima de um só homem) ao grande cantor da brilhantina no cabelo e uma Lisboa sem pele, uma Lisboa que só vive dentro de cada dor, na esfera do inalcançável sentimento de cada ser humano, estaciona esta obra de António Lobo Antunes. Dito por não saber o que é, ainda não, nunca saberei o que é. Obra inadaptável para qualquer outro formato (impossível filmar o pensamento, impossível cantar a perna que balança, o pedaço de perna nu entre as calças e as meias, enquanto os braços agarram o jornal), onde nada é externo, apesar dos prédios, das árvores, da descrição do Tejo e dos palhaços de porcelana, apesar dos nomes de ruas, das espécies de verdura, tudo é memória, tudo vive dentro. De cada abraço falhado por falta de coragem, de cada canção de Gardel, do Livro.

Por una cabeza, Milonga Sentimental, Lejana Tierra Mial, El dia que me quieras e Melodia de Arrabal – cinco celebrações de alma do mago de Buenos Aires - dão nome e timbre e luz e drama e trovões de demência e ternura e sal e bico de pássaro (não pares de cantar, por favor) aos cinco capítulos. Dentro deles (sempre dentro, nada é externo) há a personagem, esquecida da vida, como um corpo esmagado pela cabeça demasiado pesada, que só encontra o nascer do sol num disco de Gardel (homenagem disfarçada ou assumida?), volume máximo, vizinhos a barafustar com vassouras contra a parede, contra o chão e contra a sanidade. E depois, e antes, e sempre, a morte de um rapaz como epicentro – a morte dos que ficam sem saber viver. O combate das emoções às escuras. Um apaixonado por Gardel e outras tantas que nem tanto. Sempre num discurso de dentro, em primeira pessoa, em várias primeiras pessoas que se cruzam no tempo numa convulsão de memórias e emoções e sensibilidades. Para cada uma, um por do sol diferente. A vida não lhes foi prometida com as mesmas cores. E a morte, a vida, um livro cru, na asfixia das páginas.

«Não estou a ser cruel no livro, estou a dizer como é», afirmava Lobo Antunes ao Público, em Abril de 1994. E esse “dizer como é” fica atravessado na ressaca de querer ler mais. Espanto, fascínio – mas dói.


por Sílvio Mendes
não datado

31 de janeiro de 2005

Alexandre Montaury disserta sobre A Morte de Carlos Gardel


O testemunho impossível em A Morte de Carlos Gardel

"Milonga pa recordarte, milonga sentimental
Otros se quejam llorando, yo canto pa no llorar
" [1]
 

O célebre cantor de tangos morreu em um acidente de avião em 1935. Na ocasião, os jornais relataram o choque de dois aviões no céu da Colômbia anunciando assim a morte de um mito. O título do romance de António Lobo Antunes [2] não remete propriamente à morte de Carlos Gardel, evento sobre o qual paira - assim como sobre as mortes de Sá Carneiro e Humberto Delgado, trabalhadas em Exortação aos crocodilos e em O manual dos inquisidores, respectivamente - o tom da tragédia. O título surge em 1994 e simula um falso atentado à condição ficcional do livro, até a constatação de que nada, no conteúdo das narrativas, vem remeter à morte de um intérprete de tangos. Gardel surge apenas como um "título simbólico" [3] , emblema lateral da obsolescência do afeto no universo ali representado, do que trataremos mais adiante.

Focalizando, porém, "para-além do começo" [4] , deparamos com o pressuposto central do título, a idéia de desaparição - a palavra morte, que adquire sentido frontal no curso do romance e vem afetar particularmente o universo familiar. Testemunha-se esta desaparição na instância da casa familiar, no "núcleo afetivo e físico de abrigo ou recurso e metonímia do corpo do ente que lhe está ligado e que desaparece também [5] ." Para compreender melhor esta síntese, podemos antes, num breve sobrevôo, esclarecer que o romance se articula em torno da morte de Nuno, um jovem viciado em droga, hospitalizado em estado terminal. Sua agonia é testemunhada por uma família desfeita, reduzida agora a algumas duplas desligadas, que evocam isoladamente as marcas do passado, articulando-as à indiferença de suas vivências atuais.

A narrativa deste romance retoma o formato que particulariza a escrita do autor e, assim, é conduzida por seqüências de relatos dos personagens que se interpretam entre si e mutuamente se relêem a partir de uma pretérita convivência. Cada um "entra em cena" uma vez com seu "monólogo" para ocupar a função de narrador até que um outro personagem venha, a partir de um ponto de vista diferente, tomar a palavra e ocupar a mesma função. Neste romance, não há um elo entre os personagens. Sua impossível aliança, que deriva de sua mútua indiferença e cansaço recíproco, resultaram de uma "expropriação" que remete à morte. Na visão do autor, o livro trata:

da morte de mitos, de idéias e de aspirações românticas que desapareceram na minha geração: o mito do casamento, o mito do amor entendido de uma certa maneira, o mito das idéias de esquerda... Mitos que herdamos já sob a forma de escombros [6] .

É a partir da agonia de Nuno - que em vida foi deslocado de todos os contextos familiares, sem pertencer a nenhuma rede - que o autor escreve os personagens ligados a esta morte, como depoentes, testemunhas de uma tragédia. Em A morte de Carlos Gardel todos os personagens convivem com a morte ou com o próprio desaparecimento, o que faz realçar os contornos trágicos da circunstância. Tudo se assemelha à derrocada da "dimensão mítica do indivíduo que - segundo Gianni Vattimo - é vertiginosamente afetada pela falência de uma idéia de verdade" [7] . Traduzida esta sentença para a realidade portuguesa, podemos compreender que a falência do tríptico "sagrado" do discurso salazarista - Deus-Pátria-Família - põe os valores portugueses numa mobilidade que parece confundir os personagens do romance, relegados à absoluta orfandade de quem se amparava nos mitos da tradição. Para Gianni Vattimo,

assim como os mitos na sociedade mítica, dita primitiva ou anterior à modernidade, pretendem atingir a verdade, nós temos uma reação mais estética diante do mito, na medida em que sabemos que não temos uma verdade última, que temos muitas interpretações da verdade e que devemos continuamente repensar nessa multiplicidade, fazendo interpretações.

No romance de Lobo Antunes, isto se traduz na formulação de algumas indagações. Quem morre quando morre um mito? De que maneira um olhar multifacetado, capaz de registrar os lados diversos de uma realidade, poderia interpretar testemunhos ficcionais da morte de um mito? Que forças subjazem a este romance? Ali, a vida e a morte são interpretados e testemunhados em abismo: o leitor diante de um livro que anuncia intempestivamente um testemunho de morte.

Ao longo da narrativa, esta idéia é ampliada e assume uma posição que lembra a questão central com que Jacques Derrida deparou em Morada [8] , na leitura que propõe de O instante de minha morte, de Maurice Blanchot. Em torno deste "romance autobiográfico", Derrida levanta questões acerca do testemunho da morte, pressuposto para uma representação dela.

Os testemunhais são já uma conhecida técnica nos romances de António Lobo Antunes. Sabemos que ele escreve as falas e, com elas, escreve o personagem que vem prestar o testemunho. A partir disto, interessa-nos verificar o modo com que as idéias de testemunho e de ficção estão imbricadas na possibilidade de formulação do "estou morto" [9] , conjugação com que Lobo Antunes trabalha nos relatos de - podemos quase afirmar - todos os personagens do romance e principalmente no de Nuno "que está sempre presente, a morrer, como ele próprio diz, durante a agonia" [10] .

Para Derrida, "um testemunho presta-se sempre na primeira pessoa" mas "do ponto de vista do bom-senso, é evidente que a minha morte, não a posso testemunhar - por definição [11] ." Diante desta impossibilidade, com que depara na análise do romance de Blanchot, ele afirma que testemunhar a própria morte é "a própria paixão da literatura", o cotidiano dos autores de ficção, um dos instrumentos de escrever, ligado à pulsão de morte. Bem antes disto, Barthes, em uma das entrevistas que compõem O grão da voz [12] , associava a escrita a um processo semelhante ao da "toalete do morto", uma vez que o processo é de desvitalização da experiência. Enquanto a fala é viva, a escrita padeceria sepultada na escritura, morta. Se uma é testemunho, a outra é representação. A fala seria privilegiada porque é "corporificação do logos" [13] , palavra que se faz presente e presença. Escrever, ao contrário, é tardio, é uma queda da presença na ausência, o significado de um significado, inferior, pois duas vezes mediado. Derrida inverte essas afirmações em Gramatologia, onde proclama o início de uma época "gramatológica" na qual a escrita seria privilegiada em lugar da fala, uma vez que, para Derrida, a escrita inclui não somente marcas na página mas esses "traços" profundos no interior da psique. Residindo num nível mais fundo do que o que palavras podem alcançar, o traço de Derrida permanece inacessível à verbalização direta e é o que permanece, particularizando o sujeito. "O traço está 'sempre já' presente, é a diferença incaptável, inapreensível, fugidia e inefável da qual todas as inscrições subseqüentes derivam" [14] . É justamente a leitura destes traços subjacentes às falas e aos pensamentos dos personagens que a escrita de Lobo Antunes impõe. O leitor vem para testemunhar uma simulação destas inscrições prévias que são como permanências que irrompem no relato de cada um. Na base deste processo é a simulação que sustenta o estatuto ficcional do livro, fazendo com que o leitor depare com uma ficção de testemunhos costurada por testemunhos de ficção. O processo de escrita que ali presenciamos simula a própria linguagem a se instalar na fala, criando a dinâmica da voz em cada relato, incorporando os pensamentos, as vozes interiores e as suspensões dos personagens que testemunham a morte de Nuno.

A seqüência de relatos é divida em cinco partes, "cada uma tem o nome de um tango de Gardel" [15] , que podemos chamar de capítulos. Os relatos que se apresentam coincidem, não são apresentados ao acaso. Todos eles dão conta do declínio e da morte de Nuno, mas nenhum dos personagens demonstra um comprometimento frontal com esta morte. Suas falas dão conta de representações do passado particular de cada um, em contraponto com a vivência do atual, num emaranhado de interpretações e ressentimentos, encenados como testemunhos de morte. Lobo Antunes elabora, com a sua escrita, uma representação do processo de construção discursiva através do que podemos chamar de gestos verbais. Nas palavras de Derrida,

A essência do testemunho não se reduz necessariamente à narração, isto é, às relações descritivas, informativas, ao saber ou à narrativa; é, em primeiro lugar um ato presente.

É a partir da simulação deste ato presente que Lobo Antunes escreve, subvertendo o sentido da poética de Paul Celan, onde "ninguém testemunha pela testemunha". Uma vez que testemunhar é individual, Lobo Antunes como se emprestasse suas mãos à transcrição instantânea, se põe a "escrever estas falas" gerando uma obra de ficção que se presta, possivelmente, à encenação de um testemunho do que se observa na vida contemporânea, onde Álvaros, Nunos, Graças, Cláudias, Raquéis e Joaquins, como se reproduzissem enredos de tangos para suportar suas pequenas "tragédias miniatura" [16] , tornam-se provas concretas de uma morte anunciada: a de certos princípios sagrados da burguesia contemporânea, especialmente a portuguesa. No romance, o desmoronamento de mitos modernos é a morte.

É neste contexto que Álvaro, pai de Nuno, principal personagem masculino do romance, se apresenta como um aficcionado de Gardel, o que aos olhos de Cláudia lhe confere um ar inadequado, como a presença de uma morte tardia:

e o Álvaro limpava um disco com a escovinha, colocava-o no prato, premia um botão, Carlos Gardel começava a cantar, e ele - Se eu fosse capaz de um grito assim era feliz[17]

Esta presença de morte tardia nos é trazida em várias situações. Por vários e claros indícios, o leitor é levado a entender a imagem "Carlos Gardel" como um dos emblemas da concentração afetiva, uma das mais poderosas representações do afeto latino arrebatador, o clichê a transbordar e a convidar para uma tragédia. A atração que esta força terá despertado outrora já não dá conta das vontades contemporâneas, num mundo em que já não se morre de amor. No romance, a falência da expressão afetiva é assumida e o fato de não fazer falta não escandaliza ninguém. Os personagens vão sendo revelados como indivíduos acostumados ao esvaziamento das suas experiências, resignados diante da impossibilidade de combatê-lo. Como nesta frase fundadora de Álvaro, repetida diante da ressonância vocal de Gardel: "Se eu fosse capaz de um grito assim, eu era feliz". Apresentada como um refrão no livro, a frase soa como atestado de óbito. A impossibilidade do grito, substituída pelo bizarro gosto do tango, faz lembrar o final do poema "Pneumotórax", de Manuel Bandeira, quando o doente, diante de um péssimo diagnóstico, pergunta: "- Doutor, seria o caso de tentarmos um pneumotórax? Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino" [18] . O "doutor" do poema de Bandeira, diante do incurável, como se emitisse um diagnóstico reservado, sem qualquer esperança, vem receitar a única coisa a fazer: tocar um tango argentino.

Numa lógica semelhante, Lobo Antunes, diante talvez do seu "testemunho do incurável", propõe-nos o seu diagnóstico, oferece-nos um livro "muito pouco inventado" [19] - como "um retrato do que as pessoas em geral vivem" [20] - dividido em cinco tangos.

As cinco letras de tango são trazidas para prestar um testemunho musical a cada uma das cinco partes, compostas por sua vez de cinco relatos. Passo a chamar estas partes de capítulos para uma obter uma divisão mais clara.

As relações que se estabelecem entre os relatos e os tangos são sempre significantes. De certo modo, eles contam a história do romance. Não é complicado identificar os pontos em que esta intertextualidade se estabelece, trazendo uma outra camada de sentido aos capítulos, somando os tangos aos relatos ligados ao capítulo. Não será necessário nos determos excessivamente neste ponto. Apenas queria realçar alguns aspectos presentes neste diálogo. Logo no primeiro capítulo, "Por uma cabeza" [21] , Álvaro - sob o impacto da internação do jovem Nuno - parece "não apostar" numa recuperação do filho e pensa em pedir à sua irmã Graça que

Tu és médica, tu trabalhas numa clínica, podias arranjar uma seringa e duas ou três ampolas de potássio e aliviares-lhe a agonia. [22]

A descrença de Álvaro vai ao encontro do tango de Gardel que dá nome ao capítulo. Na letra do tango, deparamos com o testemunho de um apostador desiludido que parece associar seus arrebatamentos amorosos às corridas de cavalos, instâncias onde a idéia trágica de perda é subjacente:

Por uma cabeça de um nobre potrinho / Que justo na raia afrouxa ao chegar / E que ao regressar parece dizer / Não esqueça, irmão, você sabe que não tem que jogar... [23]

O personagem do tango diz que parece ouvir do próprio potrinho uma frase que o dissuade à aposta, pois, apostador experiente, diante das imensas perdas - "Quantos desenganos, por uma cabeça / Eu jurei mil vezes não volto a insistir" - parece que desta vez, cedendo à desistência e à deserção, vem aceitar que:

Basta de carreiras, acabou-se a peleja / um final renhido eu não volto a ver / Que importa perder-me mil vezes a vida / para quê viver?

É apenas na última frase do tango que o apostador, ao contrário de Álvaro, confessa que "se algum cavalo chega a ser certo no domingo, eu me jogo inteiro, que vou fazer?" Não há nada em que Álvaro se jogue inteiro, o seu grito é impossível. Nos capítulos subseqüentes, a estratégia do autor permanece a mesma. Criar um testemunho articulado ao tango como numa espetacularização daquela morte. No segundo capítulo, "Milonga Sentimental" [24] , os relatos giram em torno de Graça, irmã de Álvaro, tia de Nuno, e de sua relação conjugal com Cristiana, rompida no período simultâneo à morte do sobrinho. Cristiana, muito dependente e ciumenta, parece cantar também a sua monótona milonga [25] , ao se lamentar que

seu amor se secou de golpe, nunca disseste porquê
eu me consolo pensando que foi traição de mulher.


Com esta "milonga que fez [tua] ausência, milonga de evocação", Cristiana espera a chegada de Graça dos intermináveis plantões - agora, na interminável agonia do sobrinho - na varanda do apartamento de Carcavelos com esta

milonga pra que nunca cante na tua varanda
Pra que voltes na noite e te vás com o sol.


A personagem central do terceiro capítulo é Cláudia, mãe de Nuno, uma imigrante alemã que, em seus relatos, articula sua difícil relação com os homens e com o filho à sua infância conturbada em Colônia. Após um relacionamento traumático com Álvaro e após a morte de Nuno, ela voltará à sua "Lejana terra mía" [26] :

Distante terra minha, sob o teu céu quero morrer um dia.
Com teu consolo, com teu consolo 

[...]
Não sei se ao contemplar-te ao voltar saberei rir ou chorar. [27]

É neste capítulo que poderemos perceber o comportamento afetivo de Cláudia, que se manifesta sempre como a busca de uma impossibilidade. O ideal romântico e a terra ficaram distantes e agora "tu não estás, faltas tu". Na voz de Gardel, a frase "bem sabes tu, que pronto hei de voltar a meu velho querer" vem ao encontro da situação de Cláudia, antecipando seu retorno a Colônia e revelando as suas ligações amorosas como um verdadeiro nó que envolve a imagem do pai, a figura do filho e as presenças de Ricardo e Hélder. No capítulo seguinte, o quarto, lemos os testemunhais de Hélder, um homem casado sem maior interesse, que se envolve sem maior interesse com Cláudia; de Ricardo, namorado de Cláudia, cuja imagem e idade refletem escandalosamente a figura de Nuno, este sim o narrador central do capítulo, personagem que morre e presta o seu impossível testemunho de morte no capítulo "El dia que me quieras" [28] . Na voz de Gardel, passamos sem todo este emaranhado afetivo. O que há é apenas uma voz que afirma que "no dia em que me queiras, florescerá a vida e não existirá a dor". Mas é um canto de morte sem dor. No último capítulo, a mulher de Álvaro é a personagem central dos cinco relatos. Raquel "insiste em que agora podem ser felizes, embora o marido, que se espanta com a estética kitsch da própria casa, dê mostras de não gostar dela" [29] . O capítulo "Melodia de Arrabal" [30] revela o fado de Raquel: grávida aos quarenta e seis anos de um marido que se quer divorciar, desaconselhada por um prognóstico negativo de gravidez. É neste contexto domiciliar que, em sua casa, a sua prima Beatriz grita que Carlos Gardel está morto, fazendo Raquel compreender que Gardel representava, afinal, o sonho ou o pesadelo de cada um deles. No tango "Melodia de Arrabal", Gardel canta as "penas e as súplicas" de alguém em relação a um bairro. Ainda que "berço de escândalos e confusões",

velho bairro perdoa que ao evocar-te lacrimejo,
que ao rodar no teu pavimento
é um beijo prolongado que te dá meu coração.
 [31]

Não é por acaso que os tangos escolhidos pelo autor contam a história do romance. No momento em que nos perguntamos quem morre quando morre Carlos Gardel, poderemos aproximar-nos um pouco mais da leitura que pretendemos deste romance. Seria difícil ousar um redimensionamento da formulação com que Nietzsche explicou O nascimento da tragédia entre os gregos, e repetir com ele o "para quê - tragédia?" Lobo Antunes admite ter escrito "tragédias miniatura" [32] Como devemos entender este testemunho? No século XIX, Nietzsche formulava uma busca das motivações que geram a necessidade da tragédia:

Será o pessimismo necessariamente o signo do declínio, da ruína, do fracasso, dos instintos cansados e debilitados - como ele o foi entre os indianos, como ele o é, segundo todas as aparências entre nós, homens europeus modernos? Há um pessimismo da fortitude? Uma propensão intelectual para o duro, o horrendo, o mal, o problemático da existência, devido ao bem-estar, a uma transbordante saúde, a uma plenitude da existência? Há talvez um sofrimento devido à própria superabundância? [33]

Com estas indagações, ele se aproximava da formulação do seu conceito de dionisíaco, voltado para uma leitura dos processos artísticos europeus, buscando compreender o que significava "entre os gregos da melhor, da mais forte, da mais valorosa época", o mito trágico. A tragédia ou o tango, na obra de Lobo Antunes, penso que é, antes, promover o contato do leitor com a falta do chão, realizando finalmente não a perda, mas a ausência da estabilidade que vinha acoplada às confortáveis narrativas modernas. Os "sentidos exclusivos" e a "verdade" jazem junto a outros mitos, como o mito da família. Este é o testemunho legítimo. Legítimo porque dirigido a leitores, legítimo porque fala de uma sociedade que se vê. Em "Receita para me lerem", no que diz respeito aos portugueses, Lobo Antunes parece indicar um caminho pedindo que:

Abandonem as vossas roupas de criaturas civilizadas, cheias de restrições, e permitam-se escutar a voz do corpo. Reparem como as figuras que povoam o que digo não são descritas e quase nem possuem relevo: é que se trata de vocês mesmos. [...] Por isso não existem nas minhas obras sentidos exclusivos nem conclusões definidas: são, somente, símbolos materiais de ilusões fantásticas, a racionalidade truncada que é a nossa. É preciso que se abandonem ao seu aparente desleixo, às suspensões, às longas elipses, ao assombrado vaivém das ondas que, pouco e pouco, os levarão ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito". [34]
 
Para concluir, queria recorrer mais uma vez à análise de Derrida ao livro de Maurice Blanchot para justificar o título deste texto, afirmando que chamo testemunhos impossíveis aqueles que são dirigidos para ninguém, como os que estão representados no romance pelo autor. A desqualificação das partes indispensáveis a um pacto de testemunho está na superfície do texto, onde os personagens não se encontram entre si. Não encaram o outro, não se estabelece diálogo, não dividem o indispensável "fazer-se ouvir" [35] de quem testemunha. Ao contrário do que Derrida afirma ser o princípio do testemunho, "estar presente, falar na primeira pessoa e no presente, isso para testemunhar [...] um momento indivisível", os personagens de Lobo Antunes seguem na sua "experiência inexperienciada, como morte sem morte que não se poderia dizer nem entender de outro modo, isto é, através de uma fantasmaticidade" [36] . Derrida, comentando o "romance autobiográfico" de Blanchot, parece estar falando do pensamento de Graça, irmã de Álvaro, observando o sobrinho que morre:

Agora sou e estou aqui, agora já não sou e fui-me embora, morrer é apenas este sono, esta ausência, esta espécie de paz ou, sei lá, uma paz verdadeira, tornar-me objecto, coisa, pedra dura [37]

Entre as cristalizações deste vazio existencial, entre suas relíquias empoeiradas, seus valores vencidos, seus mitos violentamente saqueados e apagados, os personagens seguem "tropeçando nos astros desastrados" [38] e observando a vida com suas imagens que parecem a imagem da morte. O testemunho que Álvaro dirige a Nuno - impossível porque ocorre na ausência deste - dá conta de uma situação em relação à qual só mesmo o "titular" poderia testemunhar:

A casa cessou de existir da mesma forma que deixei de existir para a tua mãe, a casa inteiramente esquecida como, aposto, a minha irmã a esqueceu, e, de inteiramente esquecida inteiramente morta, a casa morta, os loendros mortos, a nespereira morta, o meu pai morto, eu morto para a tua mãe. [39]

O esquecimento é a morte, a memória um lugar de extravio, uma instância de enganos. No tempo em que Álvaro levava Nuno ao Jardim Zoológico, após sua separação, não era o interesse pelo filho que demonstrava, nem sequer o gosto que o filho teria, por sua vez, em estar com ele. Antes tudo era, de parte a parte, o cumprimento de um ritual incômodo para seres afastados pelo ressentimento e pela incomunicabilidade do afeto, um hábito de repetição sem sentido mas que a morte do filho vai consagrar, para ambos, em jeito nostálgico de uma felicidade que para nenhum deles chegou a existir [40] . Tudo neste romance "reverte-se em vazio" e adquire uma "consistência oca", a "passividade de uma não-existência", "corpos objetuais e insensíveis" [41] , impossibilitados para o testemunho e para a vida.

 
Bibliografia:

ANTUNES, António Lobo. A morte de Carlos Gardel. 3. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1994.

---. Receita para me lerem. Visão. 2 de janeiro de 2002.

BARTHES, Roland. O grão da voz Trad. Anamaria Skinner Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1996.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

DERRIDA, Jacques. Morada Maurice Blanchot. Lisboa: Vendaval, 2004.

DI COLLA, Flávio. Vattimo de A a Z. Revista da Com-Pós. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.

HAYLES, N. Katherine Caos bound: orderly disorder in Contemporary Literature and Science. Ithaca/London: Cornell University Press, 1990.

NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 14

SEIXO, Maria Alzira. Os romances de António Lobo Antunes Lisboa: Dom Quixote, 2002.


[1] Letra de "Milonga sentimental", de Homero Manzi, tango interpretado por Carlos Gardel. "Milonga pra recordar-te, milonga sentimental/Outros se queixam chorando, eu canto pra não chorar". A milonga é um gênero musical que se assemelha a uma toada popular simples e monótona.

[2] António Lobo Antunes, A morte de Carlos Gardel, 3. ed., Lisboa, Dom Quixote, 1994.

[3] Cf. António Lobo Antunes, Público, Lisboa, 24 de setembro de 1993.

[4] Jacques Derrida, Morada Maurice Blanchot, Lisboa, Vendaval, 2004, p. 114.

[5] Maria Alzira Seixo, Os romances de António Lobo Antunes, Lisboa, Dom Quixote, 2002, p. 255.

[6] Cf. António Lobo Antunes, Público, Lisboa, 24 de setembro de 1993.

[7] Cf. Flávio Di Colla, "Gianni Vattimo de A a Z", Revista da Compós, Rio de Janeiro, Mauad, 2002.

[8] Jacques Derrida, Morada Maurice Blanchot, Lisboa, Vendaval, 2004.

[9] Id., ibid., p. 44.

[10] Maria Alzira Seixo, Os romances de António Lobo Antunes, op. cit., p. 259.

[11] Jacques Derrida, op. cit., p. 35.

[12] Roland Barthes, O grão da voz, trad. Anamaria Skinner, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1996.

[13] N. Katherine Hayles, Caos bound: orderly disorder in Contemporary Literature and Science, Ithaca/London, Cornell University Press, 1990.

[14] Id., ibid., p. 179.

[15] Cf. António Lobo Antunes, Público, Lisboa, 24 de setembro de 1993.

[16] Cf. António Lobo Antunes, Público, Lisboa, 4 de abril de 1994.

[17] António Lobo Antunes, A morte de Carlos Gardel, op. cit., p.160.

[18] Manuel Bandeira, Estrela da vida inteira, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993.

[19] Cf. António Lobo Antunes, Público, Lisboa, 4 de abril de 1994.

[20] Cf. id., ibid.

[21] Música de Carlos Gardel e letra de Alfredo Le Pera.

[22] António Lobo Antunes, A morte de Carlos Gardel, op. cit., p. 44.

[23] As traduções são minhas. Por uma cabeza de un noble potrillo / que justo em la raya afloja al llegar / y que al regresar parece decir: / No olvidés, hermano, vos sabés que no hay que jugar...

[24] Tango interpretado por Gardel. Letra de Homero Manzi e música de Sebastián Piana.

[25] Ver nota 1

[26] Música de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera.

[27] Minha tradução para "Lejana terra mía, / bajo tu cielo / bajo tu cielo / quiero morirme um día / con tu consuelo, con tu consuelo / y oír el canto de oro / de tuas campanas / que siempre añoro; / no sé si al comtemplarte, al regresar / sabré reír o llorar".

[28] Música de Carlos Gardel, letra de Alfredo Le Pera.

[29] Maria Alzira Seixo, Os romances de António Lobo Antunes, op. cit., p. 601.

[30] Traduz-se por Melodia de Subúrbio. Letra de Alfredo Le Pera e Carlos Gardel e música de Batistella.

[31] Minha tradução para "Viejo...Barrio...Perdoná que al evocarte / se me planta um lagrimón / que al rodar en tu empedrao / es un beso prolongao / que te dá mi corazón".

[32] Cf. António Lobo Antunes, Público, Lisboa, 4 de abril de 1994.

[33] Friedrich Nietzsche, O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo, trad. J. Guinsburg, São Paulo, Companhia das Letras, 2003, p. 14.

[34] António Lobo Antunes, "Receita para me lerem", Visão, Lisboa, 2 de janeiro de 2002.

[35] Jacques Derrida, Morada Maurice Blanchot, op. cit.

[36] Jacques Derrida, Morada Maurice Blanchot, op. cit., p. 100.

[37] António Lobo Antunes, A morte de Carlos Gardel, op. cit., p.133.

[38] Caetano Veloso, trecho da letra de "Livro" do CD Livro.

[39] António Lobo Antunes, A morte de Carlos Gardel, op. cit., p. 75.

[40] Maria Alzira Seixo, Os romances de António Lobo Antunes, op. cit., p. 260.

[41] Id., ibid.

 

por Alexandre Montaury
Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses
2004
citado do site Revista Semear 10

12 de novembro de 2004

Nuno Barbosa: Comentário - A Morte de Carlos Gardel


"Deus me livre de gostar das pessoas."

A frase é da pertença de Joaquim, uma das personagens deste livro. Poder-se-ia afirmar que qualquer uma das figuras que desfilam perante o leitor não o faz.

Não é que elas até não queiram amar, o facto é que não o são capazes: "a minha mãe e eu não nos abraçávamos, que patetice, não era um filme, era a vida tanto quanto me lembro não nos abraçámos nunca, se era preciso um beijo encostávamos a bochecha uma à outra, beijávamos o ar e ela abria logo uma caixinha de tartaruga e recompunha a maquilhagem, ao meio-dia."

Sempre expectantes de algo mais, procuram agarrar-se a qualquer coisa, a qualquer foco de aparente conforto, a uma promessa débil de companhia, de modo a combater o que realmente mais os aterra - estarem sós, viverem sós, acabarem sós - acabam por preencher o vazio com o que têm mais à mão: "e pouco me importa a opinião da Dona Silvina e da minha prima, e das minhas amigas, sobre se o Álvaro gosta ou não gosta de mim, pouco me importa que me supliquem que me separe dele e, para ser completamente sincera, pouco me importa se me ama dado que (...) não suporto a ideia de não encontrar ninguém na sala mesmo contrariado, mesmo sem fazer amor comigo, mesmo sem conversar, mesmo sacudindo-me quando venho do quarto, não suporto a ideia de uma única toalha na banheira, de um único prato na mesa, de uma única escova de dentes no copo."

O que resta ao ler a palavra FIM é uma incómoda sensação de frustração, visto não haver nem uma situação em que a amargura não se imponha, em que a dor não esteja presente, em que o cansaço não seja tónica dominante.

Assim, necessariamente, não é de estranhar sermos confrontados com afirmações desta natureza: "o casamento no fundo é isto, duas pessoas sem alma para cozinhar e nada para dizer partilhando peúgas em detergente e frangos de churrasco".

A ausência de um sentimento forte e vivificador, de uma união que surge porque as pessoas que se interessam e não por interesse, leva inevitavelmente à fadiga, ao enfartamento eventual do outro e ao suplício da convivência, sintomático na procura de outros (salvaguardando mais ou menos a permanência do poder sempre regressar a), no afastamento gradual e, muito importante, na indiferença.

Esta sim, a verdadeira assassina, a causa da mágoa, a operadora da transformação das pessoas em algo como objectos, desinteressantes, monótonos, prescindíveis até: "- Vai-te embora desta casa como quem decidiu mudar os sofás ou as cortinas das janelas".

Afinal, o sofrimento é a condenação destes seres fracos, incapazes de revolta, de uma insurreição cobarde ou meramente projecto ("eu a feri-la ferindo-me"; "apetecia-me bater-lhe como se me batesse"), sem a vida, a força, ou a pujança de um Carlos Gardel ("e o Álvaro limpava um disco com a escovinha, colocava-o no prato, premia um botão, Carlos Gardel começava a cantar, e ele - Se eu fosse capaz de um grito assim era feliz"), sendo afinal eles quem o assassinavam e não a queda do avião em que seguia.

António Lobo Antunes, implacável, dá-nos a conhecer uma família e os que em seu torno gravitam, num retrato árido e cruel, que leva o leitor, pelo menos, a repensar as relações entre os homens num Portugal prestes a entrar no século vinte.

Fica, então, o desânimo/pessimismo (?) do autor como alerta, para que não se surpreenda se lhe suceder presenciar o mesmo que Cláudia: "e nisto vi a mulher da moradia ao lado, uma vivendinha com saguão e um pátio de cimento, encostar, cantarolando, uma escada à parede, trepar os degraus, alcançar o telhado, e no instante em que o meu pai surgiu na cancela, agarrado à muleta, com a calça da perna que não tinha dobrada para cima e presa à virilha com uma mola de roupa, a mulher, muito alegre, inclinou-se para a frente, abriu os braços, e sem uma palavra despenhou-se no pátio."

Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]

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