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4 de agosto de 2016

Fátima Bento sobre Memória de Elefante... ou sobre António Lobo Antunes?

Ui, escrever sobre ALA é um risco; para mim e para os outros. Para mim porque me perco, para os outros porque ficam nauseados da admiração que transborda em qualquer texto que escrevo com alusão ao autor.

Escritor com E grande.

A ver se consigo cingir-me ao essencial sem pegar nas palavras do seu primeiro livro,
os meus livros não são autobiográficos. Não escrevo sobre mim nos meus livros pois não Piedade*? Não... bem, escrevi os primeiros, o Memória de Elefante e Os Cus de Judas são autobiográficos, mas foi só. Não escrevo sobre mim nos meus livros...
 assumidamente autobiográfico e desatar a dissertar sobre o que penso, acho e sinto.

ALA escreve, mais que ao correr da pena, ao correr do pensamento. E se nós começamos por pensar no bolo de chocolate que vamos fazer para o lanche de domingo, e de enfiada, às tantas acabamos a recordar o último dia de praia do verão de 2001, e tudo faz sentido na nossa cabeça, o que é que a escrita do autor tem? que o transforma no 'bicho-papão' dos livros-difíceis-de-ler-e-compreender,
Os meus livros não são difíceis. Acha, que os meus livros são difíceis? Não, não são difíceis...
que se compram e deixam na estante, pequeninos que nos sentimos em face a uma obra de tal envergadura, a olhar para a lombada como se temêssemos que ao lhe pegarmos, ele nos engula de um trago. Isso e se oferecem no Natal, peito cheio de presunção intelectualóide para o pai, o tio, o senhor doutor, o último livro do Lobo Antunes!, porque fica bem - e a Dom Quixote sabe, que escolhe dezembro para lançar o novo, o último, que está nos escaparates dois meses antes, mas assim reacendem-se os ânimos e recorda-se a resposta fácil à prenda difícil.

Quanto ao livro que dá titulo ao post, é o primeiro que ALA escreveu. Ou melhor, publicou, que quando lemos as cartas de Angola que escreveu à mulher, entendemos que escrever, sempre escreveu, mas nada que considerasse suficientemente bom para publicar, e lá estou eu a perder-me nas curvas outra vez, dizia então que é o primeiro livro que escreveu - e eu ainda não tinha lido, apesar de o ter recomendado a não sei quantas pessoas que me diziam o habitual, que-ALA-é-difícil-por-isso-só leio-as-crónicas, então começa pelo inicio, nem tentes agarrar num dos últimos, que é mergulhar de cabeça sem conhecer o rio e a profundidade do mesmo.
As pessoas dizem que a minha escrita é difícil de entender porque pegam no livro e querem entendê-lo usando a SUA chave; ora cada livro tem a sua própria chave, e temos 'de nos deixar ir' até a encontrar...
Memória de Elefante dá-nos uma chave para o estilo de escrita/leitura das obras de ALA: seguimos a linha de pensamento do narrador, com as suas subidas, descidas, curvas e contracurvas, com memórias em mistura com expetativas... como cada um de nós pensa. Sem UMA forma concreta à laia de sujeito e predicado, mas a perder-se nas pregas da memória, nos arrebites da vontade caprichosa que a mente exige como prerrogativa.

Memória de Elefante é o primeiro na prateleira. Outros se lhe seguem, perfilados como soldadinhos de chumbo à espera da troada de carga!! saída dos pulmões de um general em miniatura.

E é isto.

António Lobo Antunes deixa-me à deriva nas palavras, perdida na ideia que quero passar. Se o livro é bom? Não mo vão perguntar, pois não?

Opiniões há que apontam ALA como o menino bem a desmultiplicar-se na arte do palavrão fácil, e que reduzem a sua escrita a um exagero de metáforas alinhavadas entre si por um discurso inútil. Quem advoga tais argumentos, nunca o leu, mesmo que tenha ido da primeira à última página de todos os livros que publicou.

ALA não se lê palavra a palavra: sente-se nos espaços.


Nota de rodapé:
em itálico, parafraseadas, frases de António Lobo Antunes aquando do lançamento de 'Da Natureza dos Deuses', em dezembro último. 
*nome da sua editora, que o acompanhava na mesa, aquando do referido lançamento, e a quem se dirigia como que ancorando-se à presença (re)conhecida numa sala cheia de admiradores desconhecidos.
{e assim passo três horas e meia, a polir o que queria perfeito. Ler ALA faz-me disto...}


por Fátima Bento
em Porque eu posso
02.08.2016

23 de janeiro de 2016

Rute Marques sobre Memória de Elefante

[Memória de Elefante, o primeiro livro publicado por ALA - já lá vão 36 anos! - continua a marcar pontos para os leitores mais jovens. Aqui um novo testemunho.]

“Memória de Elefante” foi o primeiro livro escrito por António Lobo Antunes e a primeira obra que eu li dele também. Depois de pesquisar um pouquinho sobre a vida de António Lobo Antunes percebi que esta é uma biografia do próprio autor.

A história tece-se em torno do quotidiano de um médico psiquiatra, desde o início da manhã, quando começa o seu trabalho no Hospital, até à madrugada seguinte, no seu apartamento. Ao longo dos episódios e do seu quotidiano, o médico vai libertando o seu pensamento e as suas mágoas.

Acabado de regressar da guerra de Angola e separado da mulher e das filhas, sente-se solitário e deprimido, no ‘fundo do poço’, tal como afirma várias vezes ao longo do livro. O autor resume toda a sua experiência de vida num único dia, envolvendo o passado com o presente.

Para além de ter vivido a guerra, que com certeza deve deixar marcas bem profundas e imagens perturbadoras na nossa mente, apercebemo-nos também em alguns capítulos que o psiquiatra não viveu uma infância muito feliz.

No geral, e resumindo, o psiquiatra ainda não se encontrou, não sabe quem é nem o que faz neste mundo. Sente-se perdido e solitário, abandonado num mundo hipócrita e numa sociedade demasiado mesquinha. Tudo para ele é confuso: a incompreensível separação da mulher, os fantasmas da infância que o perseguem, a vida profissional… Ele vive entre loucos e ele próprio se sente um louco.

Confesso que no início demorou a ler o livro, simplesmente porque não me identificava com a escrita de António Lobo Antunes. Não é uma escrita fácil. É pouco usual. O autor desabafa os seus pensamentos e questões em frases e parágrafos sem interrupções, muitas vezes não se distingue uma linha de pensamento. Diálogos surgem entre diálogos, o passado mistura-se com o presente. Torna-se assim uma escrita confusa, mas própria do autor e que o distingue de tantos outros.

Esta não é uma leitura leve que se leia do dia para a noite. Apesar de ser um livro pequeno, precisa de ser percebido, precisa de se ler nas entrelinhas, perceber se ainda estamos no presente ou se já viajámos para o passado. Muitas vezes parei a leitura para ver o significado de inúmeras palavras que não entendia. Esta é uma leitura desafiante e eu desafio-vos a ler!


por Rute Marques
em Vamos a Charlar!
Janeiro de 2016

13 de junho de 2015

Francisco Venâncio - opinião sobre Memória de Elefante

edição brasileira Folha de S. Paulo,
2012
[...]

O título do texto ora resenhado é bem sugestivo: trata da memória. Alguns críticos o classificaram como um texto fragmentado cuja narrativa é recheada de rememorações autobiográficas e fantasmagóricas. De facto, o texto é extremamente fragmentado, como o próprio título sugere e pode ser interpretado como uma autobiografia, pois assim como o protagonista desta história, Lobo Antunes também se formou em Medicina Psiquiátrica e exerceu sua actividade durante a guerra colonial em Angola.

A narrativa tece-se no decorrer de um dia e uma noite em torno da trajectória de um médico psiquiatra que trabalha no Hospital Miguel Bombarda: o nome do hospital não é fictício, este é o mesmo hospital no qual Lobo Antunes trabalhou. O texto tem início com a sua chegada ao hospital e término na madrugada do dia seguinte em seu apartamento no Monte Estoril. O médico psiquiatra, recém-divorciado da esposa, tem duas filhas e se mostra um sujeito deprimido, irónico, angustiado com a vida e apaixonado pela ex-esposa - dentre as declarações de amor uma que destaco:

Amo-te tanto que não sei te amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio”.

Trata-se notoriamente de uma tragédia, conforme a definição de trágico contida na Poética de Aristóteles, para quem tragédia é a imitação de uma acção acabada e inteira. Na concepção do crítico grego, inteiro é aquilo que tem começo, meio e fim, assim se um dia inteiro é composto por vinte e quatro horas, logo um texto trágico se passa no decorrer deste período, isto é, um texto trágico se passa no decorrer de um único dia. Daí, podermos afirmar que o médico psiquiatra encontra-se em uma tragédia. Também pela tessitura das acções, dramáticas e levemente melancólicas. A acção trágica dar-se-á na perda do amor: ao término do dia o médico psiquiatra “cai no canto da sereia” e se deixa enganar pelo amor superficial de uma prostituta.

Afora os detalhes apontados até aqui, Memória de Elefante é um texto excelente para quem deseja passear pelas ruas de Portugal sem sair de casa. O olhar atento e observador de António Lobo Antunes é capaz de nos transportar para além-mar em questão de minutos e conhecer não só Portugal, mas seus grandes nomes.


por Francisco Venâncio
em Indique um livro
18.05.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

26 de abril de 2015

Margarida Contreiras - opinião sobre Memória de Elefante

Psyché é uma palavra de origem grega que se traduz na linguagem actual para mente. É neste tronco terminológico que encontramos as ramificações para os termos psicologia, psiquiatria, psicose, psicanálise, psicoterapia, todos eles viventes nas páginas deste livro. Na verdade, toda a história é contada com a objectiva presa à psyché de um médico, obrigando-nos a captar a realidade filtrada pelo seu olhar. Por isso, este é um livro peculiar.

O médico que protagoniza a história é um psiquiatra de um hospital lisboeta, cuja mente carece ela mesma também de terapia. A acção nasce na fonte sensorial e sentimental do protagonista e desenvolve-se à luz do sua experiência de vida e da consequente visão denegrida que tem do mundo. Ao virar as primeiras páginas, apercebemo-nos imediatamente que esta deturpação está profundamente ligada a uma distanciação familiar que revela, simultaneamente, necessidade de afastamento e aproximação. É por isso que as grandes sensações que fazem este livro são a frustração, a cobardia e o conformismo.

O narrador não corresponde à personagem principal por não encarnar assumidamente a sua alma, no entanto a consciência dos dois está tão próxima que podemos questionar se a narrativa se tratará de um auto-retrato na terceira pessoa. Por outro lado, as personagens secundárias são praticamente inexistentes, surgindo apenas pontualmente e como voz da consciência alternativa ressonante na cabeça do psiquiatra e actuando também elas como psiquiatras através dos seus juízos de valor. Existem sim muitos figurantes que passam pela acção da história como meio de ilustração corroborante do pensamento da personagem principal e que se traduzem, na narrativa em si, como resultado de uma observação reprovadora. Normalmente, estes figurantes agem com indiferença perante o protagonista, em movimentos frios como os dele mesmo.

O desenrolar da história é feito com marcada lentidão, concentrando-se no decorrer de apenas dois dias, e o enfoque da acção é centrado mais na descrição sensorial do que no desenvolver de acontecimentos. Esta descrição é extremamente particular: o autor descreve-nos, não a realidade com as suas cores e relevos, mas através das sensações que essas cores e relevos (eventualmente existentes) provocam no protagonista da história. Por outras palavras, o autor diz-nos o que aparenta ser em vez do que é, indicando-nos a consistência dos acontecimentos num entrançado de emoções e pensamentos, todos eles desembocando na distante memória da mulher e das filhas que nunca chegamos a perceber se é longa ou curta no tempo. A visão do protagonista através da qual assistimos à narrativa mostra uma perspectiva negra do mundo, em que é dada especial referência aos distúrbios e anomalias do âmbito da sexualidade: jovens mulheres seduzem homens velhos por interesse, prostituição, pedofilia, entre outros, embora estes sejam assuntos abordados apenas para uma representação de quimeras de um mundo simultaneamente real e abstracto e não porque sejam importantes para a acção central.

Lobo Antunes apresenta-nos uma escrita erudita e extremamente sensorial num livro que se lê sobretudo para o desfrute da palavra e da descodificação de uma mente turbulenta. Esta obra pode ser lida pelo leitor comum familiar com o mundo literário, no entanto, as suas potencialidades disparam até aos campos mais profundos da psicologia. O final será dificilmente conclusivo para um trivial leitor, convidando a uma análise desta memória de elefante que deverá ser feita de olhos semicerrados e mente aberta.


por Margarida Contreiras
08.11.2013

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

21 de março de 2015

Consuelo Triviño Anzola sobre Memória de Elefante

Fazia muito tempo que não escutava um escritor “de casta” falar de seu ofício, que para mim é aquele tipo de autor que assume o trabalho criador com todos os riscos. Não me refiro só aos que deixam uma carreira paralela para se dedicar a escrever como um profissional da escrita (escritores / escrevinhadores – Barthes); mas aos que se submergem nas águas do seu idioma e vão cada vez mais fundo, além da aparência das coisas, na tentativa de desvendar os seus mistérios. Escrever é traduzir o intraduzível, o gemido, a solidão, a angústia, a culpa, a felicidade, emoções que se expressam sem palavras, que assomam ao rosto, modificando com o gesto, o trejeito ou a observação, a nossa percepção do outro. Um nó de emoções nos funde ou nos salva, e o escritor é esse artesão paciente que desfaz a rede para que saibamos quão longa é a corda, de onde surge, até onde chega, o que aprisiona e porquê.

Porém, uma coisa é o que diz um autor, o que opina sobre a escrita, sobre a arte e a literatura; e outra é a forma como concretiza a sua postura vital na obra, o que transmite a nós os leitores. No caso de Lobo Antunes, é possível entender e inclusive viver nos seus livros esse esforço de querer "ir mais além" na procura de uma verdade que nos isente do peso de uma educação, de uma história, de um passado que limita a nossa ânsia de existir tal como somos e não como os outros esperam de nós.

Memória de Elefante, um livro que o autor diz apreciar pouco por ser dos primeiros, entranhou-se em mim como todos os primeiros livros que padecem dessas imperfeições que tanto os humanizam. A perfeição é desumana para muitos povos. De facto, até os fabricantes de tapetes deixavam um fio fora do tecido para que a geometria da forma se desfizesse.

A história é o que menos interessa, declarava Lobo Antunes na palestra dada [em 2011] no Instituto Cervantes de Madrid. O que importa em Memória de Elefante é a forma como o autor recorre à terceira pessoa para penetrar na consciência do seu alter ego, o psiquiatra sobre quem pouca informação temos, mas a suficiente, ao longo do relato.

É verdade que o discurso se torna difícil, enquanto nos vemos imersos nesse nó emocional que se dissipa à medida que entendemos as circunstâncias vitais de uma criatura que ama e não sabe como expressar esse sentimento; a rebeldia de alguém que se nega a seguir os ditames familiares, as rígidas normas sociais e que o faz perder tudo por não corresponder ao modelo imposto.

A sensação de abandono é maior quando se renuncia voluntariamente a quem se ama, sem saber como sustentar uma ponte. Talvez porque a solidão seja a condição do ser, como intui a personagem.

Guiados pela voz do narrador, que nos leva até ao outro extremo da corda por vias travessas, no meio de um emaranhado de sentimentos, concluímos que a ironia é a única arma com que se pode contar e com a qual nos podemos defender da pergunta "Que faria eu se estivesse em meu lugar?", a mesma com que o protagonista se questiona no final do relato.


por Consuelo Triviño Anzola
09.02.2011
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

19 de junho de 2012

Pedro Fernandes: opinião sobre Memória de Elefante


Memória de Elefante é o primeiro romance escrito por António Lobo Antunes, em 1979, depois de voltar de uma permanência na Guerra Colonial na África, experiência que irá perpassar como material temático boa parte da sua obra. É o primeiro romance de uma trilogia que continua com Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno; os três, talvez se configurem como os mais importantes da sua carreira, não por razões estéticas, certamente, Lobo Antunes terá outros mais bem acabados romances [...], mas, estes dizem a que veio o médico meter-se com a escrita. Os três são sucessos de crítica e inauguram em Portugal uma visão nada romântica da desenhada entre os daquele país sobre o que foram os anos de ocupação portuguesa nos territórios africanos. Não que estejam esses romances reduzidos a esse propósito, mas é o tema um dos mais caros à ficção contemporânea que se forma no pós-74.  

O romance dá contas de um médico psiquiatra que, por ironia, não está bem da mente; encontra-se profundamente deprimido e sai perfazendo na sua trajectória diária, entre a rotina e o desvio dela, uma busca pelo real sentido de tudo, já que se encontra numa Lisboa desencantada, recém-separado da mulher e das duas filhas, desencantado também com a profissão e nada, absolutamente nada, parece convencê-lo a ter razões boas e próprias para se manter nesse mundo. Não é que seja uma personagem em crise existencial, mas padece de um augúrio perante a vida e traz consigo um caudal de dúvidas sobre si e seus actos cuja explicação parece, a todo tempo, escapar-lhe sorrateiramente por entre os dedos e indo esconder-se num lugar indeterminado, cabendo-lhe um esforço além do seu limite para alcançá-la. 

O conjunto das suas ações, engendradas aí, denotam uma aventura psíquica tal qual outras personagens da literatura universal: o Ulisses, do James Joyce, que o diga. Está o escritor imerso nas divagações da personagem que busca uma leitura do vivido e o que poderia ter sido vivido. Difere, entretanto, do Ulisses de Joyce pela razão simples de sentir-se incapaz de captar todos os movimentos mentais, expressivos e gestuais. A personagem é alguém que não está bem psicologicamente e o que ela busca é a razão das coisas, por que elas são como são. Talvez aí, possamos ler o título desse livro como uma ironia muito bem elaborada do seu autor para com os próprios romances que têm nas volições psíquicas o seu espaço de representação mais adequado à contemporaneidade. Lobo Antunes quer dizer com ele, como esses romances são incapazes de uma apreensão totalizadora do real empírico.

Sobressai a densidade da sua escrita, porque o escritor português segue o ritmo psicológico da fala. E faz uma coisa que até hoje não me dei conta noutros escritores: o constante cambiar da pessoa narradora, sendo ora de primeira ora de terceira pessoa. E a troca dada de um parágrafo a outro ou mesmo no próprio parágrafo. Temos aí a grande cilada que nos leva a perder-se no enredo e, não poucas, ter de voltar ao princípio do que líamos para recuperar o fio narrativo. Essas idas e vindas de quem narra cria no livro estantes tencionais em que a voz que narra se confunde com a da personagem narrada, criando uma empatia entre ambos que só pode ser lida como nalguns casos como uma sendo a outra. Processo que primeiro torna as fronteiras das duas categorias narrativas mais frouxas e segundo desestabiliza as bases entre o ficcional e a realidade. 

A leitura de Os Cus de Judas trará o entendimento de que este é, sim, um romance introdutório; a consciência abalada do médico psiquiatra do Memória terá motivos mais que suficientes para o estágio de apatia sobre o mundo e o desencanto sobre si próprio.


por Pedro Fernandes
13.06.2012

10 de junho de 2012

Marco Caetano: opinião sobre Memória de Elefante


Tudo o que é bom deve ser saboreado. É esta a minha relação com a obra de António Lobo Antunes, algo que quero ir degustando a pouco e pouco.

Desta vez optei por ir onde tudo começou, ler o primeiro romance do autor. À partida pensei encontrar neste livro um estilo de escrita muito diferente do utilizado nos seus romances mais recentes. Apesar de uma outra nuance em que de facto se nota diferença, não encontrei nada de muito significativo. Na minha opinião, a capacidade de nos fazer sonhar em cada metáfora e de nos permitir viajar entre cada frase estava já bem patente neste livro.

Embora eu não seja um conhecedor profundo da biografia do autor, facilmente percebi, logo nas primeiras páginas, que as semelhanças com a realidade não eram meras coincidências.

Tudo se passa num dia da vida de um médico, um psiquiatra, que se mostra na primeira ou na terceira pessoa. Este psiquiatra vive desiludido com uma angústia que o perturba e restringe. Trabalha, às vezes sem paciência, no mesmo Hospital Miguel Bombarda em que o pai trabalhou e o seu irmão João. Satiriza o sistema de saúde sem se esquecer das meninas da segurança social ou dos delegados de propaganda médica, mas é de si que tem vergonha.

É divorciado e a separação da mulher, como qualquer separação, deixou marcas profundas. As filhas. Um homem afectado por ter participado na guerra em África (não esquecer que este livro foi escrito pouco depois do 25 de Abril), não só por ter ido para guerra, mas também por ter sido obrigado a deixar a mulher para trás, as suas filhas, o seu emprego, a sua vida.

O casino. A sua vida parece-se com um jogo em que se anseia um prémio. Uma caminhada pelas ruas da Lisboa de que fala com carinho, em busca de um refúgio ou de coragem para pegar no telefone e tentar remediar o passado. Mas assumir sentimentos perante os outros não é tarefa fácil. Todos estes pensamentos a borbulhar na cabeça de um homem durante um tão curto espaço de tempo, só mesmo para quem tem Memória de Elefante.

Para mim, a escrita de António Lobo Antunes é pura magia. Assim, não resisto a partilhar duas passagens para deixar um pouco de água na boca a quem tem receio de avançar para este autor:

"e vieram-lhe à memória longas noites na praia desfeita dos lençóis"
"a forma como o corpo dela se abriu em concha para o receber, vibrando tal as folhas do cume dos pinheiros agitados por um vento invisível e tranquilo"

Sublime, não é?
Superior é também a forma subtil e inteligente que o autor tem de nos fazer arrancar um sorriso dos lábios, ainda que a intenção fosse chocar. Que o diga o slogan da Funerária Martelo: Para Que Teima Vossa Excelência Em Viver Se Por Quinhentos Escudos Pode Ter Um Lindo Funeral?

Penso que este poderá ser um excelente livro para quem queira começar a entrar no mundo deste Mestre da literatura nacional contemporânea. 

Termino este pequeno texto com uma expressão muito utilizada por um ilustre são tomense que outrora tive o prazer de conhecer, e que tão bem traduz o que sinto pela obra de Lobo Antunes: Lindo, lindo, lindo.
Quanto mais a conheço, mais me sinto cativado por ela.


por Marco Caetano
31.05.2012

26 de agosto de 2010

Pedro Tavares: opinião sobre Memória de Elefante

Não vale a pena esconder que não comprei este livro apenas pela minha "curiosidade" em conhecer a obra de Lobo Antunes. Comprei o livro acima de tudo pela edição. Ler António Lobo Antunes era um interesse que foi alimentado com essa aquisição, não antes disso.


Escrito em 1979, "Memória de Elefante", juntamente com "Os Cus de Judas" (escrito no mesmo ano) figuraram juntos numa edição limitada numerada e autografada pelo autor (num conjunto de 500 packs). Curiosidade: o meu número é o 42. As capas são bastante bonitas, a qualidade do papel é impecável, só restava saber o que escondiam as suas páginas.

Há umas poucas noites espequei-me à frente das minhas estantes, cheias de livros por ler. Peguei, num acto cego, neste livro. Não escondo que adorei o que me foi apresentado.

Este livro não se trata de um enredo em busca de uma solução, mas sim de um homem em busca de um sentido. O psiquiatra (irónico sem dúvida o seu emprego) é um homem profundamente deprimido, recém-separado da mulher e das duas filhas, vivendo numa Lisboa pós-fascista e com a Guerra do Ultramar bem presente na sua memória. Tudo isso faz dele não só uma pessoa extremamente observadora como alguém capaz de se afogar a si próprio num monte de dúvidas existenciais ao questionar a realidade, a lucidez, o sentido dos seus actos.

Se formos a contar os dias que passam no livro, uma semana é demasiado. É um livro pequeno, que se passa em pouco tempo, que se debruça totalmente nas divagações do psiquiatra, no pouco que o seu quotidiano tem para oferecer e no muito que ele próprio é capaz de captar. Porque é isso mesmo a "memória de elefante": alguém que consegue lembrar-se de tudo, adquirir facilmente informações à sua volta e guardá-las. Isso pode ser uma mais valia para muitos, mas para este psiquiatra é a causa da sua desgraça.

Fiquei absolutamente admirado com a obra. Não esperava encontrar o que encontrei, nem de perto nem de longe.

António Lobo Antunes tem uma escrita extremamente densa. Não é para todos. Já ouvi muitos queixarem-se não da densidade do texto, mas de como o autor se aproveita disso para se gabar da "capacidade de escrever". Não digo que, como pessoa, não aconteça isso, mas o que encontrei foi um tipo de escrita bastante denso mas com todo o sentido. Ultimamente aparecem autores portugueses que "copiam" a escrita de Lobo Antunes, contudo facilmente caem na armadilha de se contradizerem constantemente, ou utilizarem vocabulário e expressões que, no fim de contas, não têm qualquer sentido nem ligação com o que estamos a ler. Não foi isso que encontrei em "Memória de Elefante". Encontrei, sim, um tipo de escrita bastante difícil de seguir, que talvez faça a maioria dos leitores perder-se ou cansar-se antes do parágrafo acabar, mas que a mim me cativou absolutamente. Por muito difícil que o vocabulário fosse, nenhuma expressão me pareceu fora do contexto, tudo teve um sentido de estar escrito, e a maneira como o texto corre, com bastantes apartes entre vírgulas, bastantes apartes próprios de uma personagem observadora, nunca me fizeram perder o fio à meada. Aliás, apenas contribuíram para me "encher" completamente as medidas, encontrando aqui uma escrita digna de explorar não só uma personagem mas obras inteiras. Para mim, um leitor que gosta de ir analisando o livro e as situações descritas, que gosta de ler uma frase e tentar perceber o que o escritor quer dizer com aquilo, esta foi a escrita mais compensadora que poderia encontrar.

Para o tipo de tema que é discutido neste livro, esse existencialismo todo, um vórtice de observações que arrastam o pobre psiquiatra, apenas uma escrita assim alguma vez conseguiria concretizá-lo.

"Memória de Elefante" é, também, curioso pelo seu carácter autobiográfico. E António Lobo Antunes deixa transparecer isso através da maneira como o narrador vai mudando, originalmente na terceira pessoa mas muitas vezes desviando-se para a primeira pessoa, entrando na mente do psiquiatra como se fossem um só. Cativante essas passagens. É uma técnica pelos vistos frequente nos seus livros, que pessoalmente gostei de encontrar aqui.

Finalmente, o que acima de tudo me deixou totalmente ligado ao espírito melancólico, dramático, do livro: Lisboa. Eu próprio sou um observador, um divagante, tal como o psiquiatra, e delicio-me a percorrer as ruas de Lisboa, quer pelas praças e avenidas como pelas pequenas ruas que entram directamente no coração da cidade. E Lisboa não é uma cidade alegre: é uma cidade nostálgica, quase melancólica, muito boémia. Eu encontrei essa Lisboa nesse livro! Nunca vi alguém transmitir tão bem o espírito de uma cidade como António Lobo Antunes aqui fez. E a Lisboa que ele observa é uma que eu encontro, com a qual eu sonho, na qual me identifico. Isso deixou-me irremediavelmente cativado.

Não posso aconselhar "Memória de Elefante" a toda a gente devido ao seu estilo de escrita. Embora seja bastante lido, não deixa de ser demasiado denso, e facilmente nos perdemos. Para além disso, é um livro muito melancólico, nada alegre, e para muitos isso pode ser ainda menos animador. É difícil de recomendar. Por outro lado... Há poucos assim. A partir de agora, vou ler as obras de António Lobo Antunes, pois quero mais desta escrita, quero mais deste sentimento.


Pedro Tavares
O Cantinho do Bookaholic
18.08.2010

19 de maio de 2010

Maria Celeste Pereira: Memória de Elefante - releitura


Terminada a leitura do livro “Os Cus de Judas” e ainda um pouco sedenta de ALA, dei de imediato início a uma nova “releitura”.

Desta vez foi “Memória de Elefante” , livro que havia adquirido junto com o anterior apenas pela beleza desta “Edição Comemorativa”.

É que eu também sou apreciadora dos próprios livros como objectos. É evidente que a prioridade vai para o conteúdo. Mas, quando a um bom conteúdo ainda se junta um invólucro atractivo, considero então ter uma jóia nas mãos. Não exagero. É precisamente isso que sinto.

Bom, reler Lobo Antunes sobretudo quando se trata das suas primeiras obras (a primeira, neste caso) julgo poder ser um risco.

Em primeiro lugar porque a impressão que me havia deixado pode ser completamente destruída ou não tivessem passado quase trinta anos por mim e muitos livros lidos. Depois porque julgo que um autor que se mantém activo durante tanto tempo tem, necessariamente, que evoluir (resta saber em que sentido). E, por fim, juntas as condições anteriores, essa leitura pode levar-nos a uma desilusão…

Afinal nada disso aconteceu comigo. A verdade é que não sou possuidora de uma memória tão elefantina assim e, uma boa parte das deambulações, das considerações, das reflexões, das lembranças a que o personagem foi sujeito naquele dia ou dia e meio, já se me tinham apagado da mente.

Lembrava-me sim do fio do enredo; um psiquiatra que, em pleno pico de uma crise existencial (se isso existe, um pico…), faz um périplo pelas suas lembranças, sofrimentos, momentos de vida desde a infância até às suas experiências na guerra que nos vão revelando o personagem.

Devo dizer que me deu um prazer grande a sua leitura dado que, como já referi, havia esquecido os belíssimos momentos de prosa, por vezes simples e com linguagem do quotidiano (grosseira até), outras vezes num registo quase poético, com que o autor nos brinda. É precisamente o tipo de prosa, mais do que o enredo que, no meu ponto de vista, valoriza o livro.

Livro que julgo de pendor francamente auto-biográfico, tal como julgo também ser “Os Cus de Judas”, leva-nos pela mão ao âmago do personagem. É certo que ainda não da forma extraordinária que virá a fazê-lo nos seus livros mais recentes, muito mais burilada, mas dando já mostras inequívocas de um estilo muito próprio que virá a caracterizá-lo.

Enfim, de algum modo e passe o atrevimento da afirmação, senti-me espectadora atenta do despontar, se bem que em força já, de um génio da escrita.
 

por Maria Celeste Pereira
19.05.2010

21 de novembro de 2009

José Alexandre Ramos: Memória de Elefante "a primeira angústia"


A primeira vez que li Memória de Elefante, ainda desconhecendo factos da vida do seu autor, estava longe de perceber que este livro era uma biografia. Revisitado muitos anos depois, e com o que fui aprendendo sobre António Lobo Antunes, sinto-me à vontade para apontar sem qualquer sombra de dúvida este livro como um testemunho autobiográfico de um autor que embora não se estreava na arte de escrever, era estreante entre os autores portugueses publicados no final da década de 70. Os conhecedores da história desta estreia já sabem que o autor foi de férias e quando regressou ficou surpreso pois havia muita agitação à volta do livro, estava a ser um sucesso de vendas.

Não é difícil entender esse sucesso se o enquadrarmos na época (1979). O livro surgiu contra muitos cânones, empregando um discurso pouco usual para o romance instituído, embora já tivessem havido excepções à regra uma década antes com Nuno Bragança ou José Cardoso Pires. E como o próprio Lobo Antunes já disse em entrevistas, todos esperavam as grandes obras literárias que antes não se escreviam por causa da censura, e afinal nada de novo surgira após a instauração da democracia. É natural que, numa época ainda muito confusa de um país acabado de se livrar dos grilhões de uma ditadura de meio século, o barroco metafórico de Memória de Elefante, com bastantes críticas sociais feitas com ironia e caricatura, incluindo o uso de vocabulário tido como obsceno, tivesse despertado a curiosidade de muitos leitores.

Como já referi, trata-se de um livro bastante biográfico - um facto por todos reconhecido, incluindo o próprio autor - onde se torna difícil separar a ficção do realmente vivido (ou confessado em entrevistas pelo escritor). Conta um dia na vida de um psiquiatra desde que começa uma jornada de trabalho até à alvorada do dia seguinte, um homem angustiado por uma variada ordem de factores: a mal explicada separação da sua mulher e duas filhas, a frustração profissional no exercício da psiquiatria no mesmo hospital onde trabalhara o seu pai, a solidão e o desespero, o jogo como fuga à realidade, os fantasmas do passado (guerra e infância), a procura de uma voz para a sua escrita. Ou, em poucas palavras, a terrível procura de si mesmo. Nessa circunstância, o livro vai criando uma tensão à volta das indagações interiores do psiquiatra que se esgota nos dois capítulos finais.

Não é na história que conta que está o valor do livro (facto que só será mais evidente uma década depois), apesar do notório interesse do escritor que era então Lobo Antunes de retratar com uma história condensada em um só dia toda a sua experiência. Está antes nas sementes do seu engenho que se tornará cada vez mais claro depois da catarse feita com este livro e mais dois (Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno):Memória de Elefante usa o discurso na terceira pessoa, mas há fugas para o relato na primeira pessoa, que será a marca do estilo do autor. São essas ainda tímidas fugas para o discurso do eu que ajudam a criar a tensão no livro, em que sentimos que o narrador se mistura com a personagem narrada, ocupando-lhe o lugar, para compreendermos que afinal não é história de um dia da vida de um psiquiatra que se pretende falar, mas o que o próprio tem a dizer de si mesmo, acentuando a falta que lhe faz a presença da mulher de quem se separou, das filhas que só vê aos fins-de-semana, a sua indiferença para com os valores padrão da sociedade e dos colegas do hospital, a sua indisponibilidade psicológica para atender os doentes, a ironia com que observa o comportamento dos outros, e a busca dos afectos ainda que termine o dia numa sala de jogo onde se deixa assediar por uma mulher com o dobro da sua idade, com as mesmas carências e com quem acaba por passar a noite.

Referi ao início o barroco metafórico de que é composto o livro. Existem tantas referências culturais e artísticas quantas as abordagens ao pitoresco quotidiano, recorrendo a um verdadeiro rendilhado metafórico que tanto pode impressionar o leitor menos experiente como enfastiar quem já conheça o melhor da obra de António Lobo Antunes. Na realidade, voltar a ler Memória de Elefante depois de ler as obras mais recentes, é como regredir, onde verificamos a veracidade das declarações do próprio escritor: que é preciso limpar bem o livro de toda a ganga, de toda a sujidade. Ora, não entendendo porém este rendilhado metafórico como lhe chamo como algo negativo do livro (pois sem isso o livro nem sequer poderia existir), já não posso qualificá-lo como uma das melhores produções deste escritor, por haver recurso, direi escusado, a tanta comparação e variada metáfora. Enquadrado no contexto da sua obra, percebe-se que é um dos primeiros livros do escritor António Lobo Antunes muito verde onde se encontram, ligeiramente escondidas, as garantias que o autor amadurecerá.

É a primeira das angústias, falando num todo: a catarse do escritor, os primeiros passos para encontrar a mão e a voz que lhe ditará o estilo sui generis que toda a vida vai obcecadamente procurar, a intenção de contar não histórias mas o interior psicológico e afectivo das pessoas, buscando as palavras para o indizível (segundo a sua noção de que os sentimentos são anteriores às palavras), apanhar a vida toda entre as capas de um livro. Memória de Elefante é, de facto, o início disso tudo.
 

por José Alexandre Ramos
21.11.2009

20 de novembro de 2008

Milu: opinião sobre Memória de Elefante


“Memória de Elefante” é o primeiro romance da autoria de António Lobo Antunes, uma obra autobiográfica se avaliada à luz de acontecimentos que tiveram lugar na vida do escritor, os quais constam da sua biografia. A principal personagem desta narrativa é o próprio narrador, médico psiquiatra que após a separação da sua mulher e filhas, mergulha num estado depressivo profundo, chafurdando incessantemente e sem piedade nos recônditos da sua consciência, arrancando à memória tristezas do passado, remoendo-as incansavelmente, numa espiral de tortura, espicaçando a alma até fazer sangue. Incapaz de resolver as suas angústias, vive o tormento de ter de si uma imagem distorcida, sente-se um homem acabado, melhor ainda, um merdoso de merda, julgando-se indigno da sua própria mulher. Provavelmente terá sido a sua instabilidade emocional, que o levou a afastar-se da família numa errante procura de si mesmo, encetando uma caminhada que o arrastaria ao fundo de um negro e solitário poço. Evoca, exaustivamente, recordações de um passado que teimam em permanecer vivas e dolorosas, marcado pelo abominável de uma guerra, luta por exorcizar as imagens que se lhe impuseram aos olhos de forma tão desumana. No meio deste turbilhão emocional, que descamba num mar de reflexões, sobressai a admirável mestria com que o médico perscruta os meandros da mente humana. A linguagem obtusa que aqui e ali pontua o discurso serve, tão-só, para derramar um mar de raiva contida, que deveria ter sido expulsa em seu devido tempo. Termino esta minha dissertação, confessando que, durante a leitura deste livro tive momentos em que me ri e, livro que me faça rir, é um livro abençoado!


por Milu
31.10.2008

26 de abril de 2008

Ente Lectual: Memória de Elefante - as personagens e a pessoa


Mais do que a persistência tenaz e manietante das imagens (o miúdo do circo que rasga listas telefónicas, os pianos que alguém carrega), muito mais do que isso, uma galeria sem fim de personagens reais, positivamente reais, em último recurso porque as ponho em letras.

Uma funcionária a quem, para os devidos efeitos, trataremos por Emily Brontë; o amigo que - tal como eu, médico, meia-idade, recém divorciado, eterno retornado da África onde deixámos os dentes e os tomates a troco de pensões risíveis ou invisíveis - um Sandokan, um verdadeiro Sandokan, mas sem sabre ou tigrezinhos ou Mompracem, nos quais um refúgio, uma garantia que seja; a espera por ti, como um cego espera que lhe enviem olhos pelo correio, escreve Molero; a divisão do sexo frágil em 5 categorias, 5 marcas de cigarros.

Uma mãe que garante, peremptória, a gente não damos conta do recado, sôtor; os agentes de propaganda médica, como cães, ou antes primos afastados dos vendedores de automóveis, de comum verborreia e indumentária; o velho treinador de hóquei que, enternecido, recorda as diatribes do velho pai do velho protagonista, 'fractura craniana', relembra em saudosismo e comoção indiscutíveis; o médico empenhado em investigar meticulosa e responsavelmente os tampos inferiores das secretárias do serviço, onde, dizem-lhe fontes seguras, o KGB por negras e desconhecidas artes conseguiu colocar microfones; Sr. Joaquim, prestimoso e fiel servidor do tiranete que carrega já com dez anos de pó e esquecimento, que jura a mãos juntas, que o sô professor ainda vive, que tudo um isco para a oposição, o nosso professor Oliveira ainda vive, fez-me seu ministro das finanças ontem, bem vê, aqui que ninguém nos ouve, ele come-lhes as papas na cabeça.

Dóri, a adiposa e necessitada sexagenária que fala nas 36 primaveras de cada membro, enquanto afasta os problemas existenciais em casinos, álcool e voluntariosos indivíduos do sexo oposto, qual gesto de mão que empurra debilmente o fumo não desejado de um cigarro próximo e apenas o impele num novo jogo de carambolas e movimentos insinuantes que não findam nunca. Não finda nunca o movimento (perpétuo?) do torvelinho de ressaca, escrevia Brandão, este ponto e esse contraponto dado por um protagonista a que poderemos, sem erro, dar o nome do autor, na senda de um equilíbrio tão desejado como falhado, na fuga precipitada e sem sistema da racionalidade convencional, em paralelo (em coincidência?) com um jogo pessoano entre os binómios sentir/pensar e, sobremaneira, a sinceridade e o fingimento.

Esta personagem, este autor, meia idade, a entrar na curva descendente da vida que, até então, lhe levara uma educação aburguesada no centro da capital, por entre salas de estar de tias e fotografias de coronéis de bigode e porte esbatido e amarelecido, ou a inconstância das relações familiares, nas quais convergem vontades e sentidos extremados que não levam vazão, e que perduram para lá da idade adulta; uma vida que lhe trouxe também, eficiente e amável, o sabor acre de uma guerra que nunca entendeu, de um divórcio com a mulher que ainda ama, seguida da separação das filhas. Uma continuidade angustiante de dias que se somam, firmada em hábitos questionáveis, apoiada na derisão e na ironia em que se afunda, pelo terror compreensível de se confessar frágil, e relançada indefinidamente pela perseguição em ponto morto do desejo antigo de escrever, acompanhado pelo também ele antigo medo (‘Mas se começar a escrever de facto e parir merda que me resta?’). Em suma, um homem numa crise existencial – se bem que recuse, sem dúvida, a designação – movida contra tudo aquilo que de firme, material, positivo, exista.

E, no início e no fim de tudo isto, a presença da memória como escape, como lenitivo, ao contrário de Pessoa que se refugia num passado ficcionado, o protagonista refugia-se na certeza tranquilizante de que, qualquer passado é, em si próprio, uma ficção: uma verdade erguida acima das demais, sem que precise (por isso mesmo?) de sistemas e prateleiras a sustentá-la e onde toda a parafernália de truques, de mecanismos de que se muniu o organismo para sobreviver são destituídos de funcionalidade – onde a própria fingida ferocidade da ironia ou do sarcasmo cedem lugar ao sentimento simples que lhes dá origem. No início e no fim de tudo isto: a memória que terminava em garantir-lhe, contrariando o peso oficial da tabuada, quem sabe se no sótão do sótão, ou na cave da cave, a afirmar que 2 e 2 não são 4.


por Ente Lectual
26.02.2008

3 de maio de 2007

Ricardo Turnes: opinião sobre Memória de Elefante


Em "Memória de Elefante", primeiro romance de uma obra já extensa, António Lobo Antunes escreve e expõe, com alguns rodeios mas sem papas na língua, muito exactamente aquilo que lhe vai na alma, e nós, leitores, sorvemos o texto como vindo de alguém que se utiliza da escrita com o único propósito de exorcizar fantasmas pessoais; é um livro auto-biográfico e auto-examinatório, em que o personagem central, um psiquiatra à beira dos quarenta anos a braços com uma aguda crise de consciência, dorido consigo próprio e descrente no mundo que o rodeia ("bati no fundo, bati no fundo, bati no fundo"), retornado da guerra do ultramar, divorciado há pouco tempo de uma mulher que ainda ama sofregamente, deambula por uma cidade de Lisboa decadente, sombria, viscosa, e que parece ser a metáfora exterior, reflexo maldito e irrecuperável, da dor que o aflige.

A acção, toda ela murada de nauseabundos contornos citadinos, decorre ao longo de um ou dois dias, durante os quais seguimos a par e passo as acções do psiquiatra, ao mesmo tempo que penetramos na sua caixa de memórias de infância, memórias da guerra, e recordações de uma vida de casado de onde sobressaem a saudade de duas filhas-criança e a angústia de um amor presente, ainda que apenas em sentidos, porque ausente de presença.

Todo o turbilhão de recordações vai surgindo na cabeça do psiquiatra em catadupa, cada fragmento do passado pescado à laia de ganchos descendo da realidade quotidiana urbana - pormenores da vida real que por uma ou outra razão captam a atenção do protagonista, lançando-o num passado de amarga efervescência, prendendo-o a um lodo do qual não se consegue libertar. Sobra espaço, no meio de um certo narcisismo teatral, para uma crítica atenta ao costume social, ao hábito bairrista, e à decadência de valores numa sociedade essencialmente hipócrita.

No estilo, que de início se nos afigura como macarrónico e prolixo, Lobo Antunes serve-se de imagens, metáforas e comparações até à exaustão - uma exaustão a que nos habituamos com algum desconforto mas que acaba por se tornar familiar a ponto de ser bem-vinda, e é nessa quase confusão de palavras que insere, não sabemos nós como, o mais impressionante conjunto de referências sociais e culturais de que há memória, com evidente destaque para temas da literatura e da música. É também um estilo que transpira a poesia, com belos momentos de criação literária, mesmo quando é expressa vontade do autor enveredar pelo sórdido e pelo rasca seboso, deixando-nos as narinas afogadas em odores peganhentos, como aqueles lançados aos lençóis por uma mão frenética em noite escura e solitária. E se é verdade que começamos por nos rir do uso ostensivo de vocabulário-calão, às páginas tantas a coisa já não tem qualquer piada; fala-se então muito a sério de dor e de saudade.

Este Lobo Antunes de "Memória de Elefante" assemelha-se a um enorme diamante em bruto, sujo nas faces, por lapidar, um diamante que mais tarde virá a ser trabalhado pelo mais dotado dos artesãos, dando então origem a uma valiosíssima peça de museu; por enquanto, conserva ainda uma quantidade de arestas irregulares, uma sujidade térrea característica de alguns anos de erosão, e uma certa refulgência fosca e distorcida - propriedades que, não lhe retirando preciosidade, o tornam numa raridade verdadeira e incomum (e desculpem-me o pleonasmo).

É uma surpresa intensa, este livro, mesmo para quem à partida não espera nada, nem sequer ser surpreendido. Talvez que seja altura, agora que o autor foi galardoado com o prémio Camões, de descobrir Lobo Antunes – comece-se pois pelo início…

Ricardo Turnes
21.03.2007

7 de outubro de 2006

Gregório Dantas: Primeiro Pesadelo



Memória de elefante, livro de estréia do consagrado Lobo Antunes, é marco do romance português pós-Revolução dos Cravos.

António Lobo Antunes é um escritor singular. Arredio a modismos, premiações e entrevistas, o autor de Esplendor de Portugal já se mostrou um crítico mordaz não apenas de José Saramago, com quem é constantemente comparado, mas de muitos autores de sua geração: Agustina Bessa-Luís, Virgílio Ferreira e Lídia Jorge são alguns representantes do que Lobo Antunes já chamou de uma literatura menor, chata, interessante apenas à crítica universitária. Tais julgamentos (injustos, é preciso que se diga), além de anedotas com sabor de fofoca, ajudam a compor uma imagem bastante particular, de artista original e algo excêntrico, que não faz concessões ao bom gosto e a literatices. Imagem confirmada por sua literatura, que já foi chamada de anti-acadêmica e barroca, e escapa aos padrões mais correntes de definição. Não à toa, seu Não entres tão depressa nessa noite escura (2000) recebeu, um pouco provocativamente, o subtítulo de "poema".

Médico "por acaso" (leia-se: conveniência familiar), Lobo Antunes pôde se dedicar exclusivamente à literatura após o sucesso de seu primeiro livro, Memória de elefante(1979). Trata-se, de fato, de um marco no romance português pós-Revolução dos Cravos. Após a revolução, em 1974, seguiram-se alguns anos de silêncio criativo, e os esperados títulos que se julgava estarem escondidos no fundo das gavetas, aguardado o fim da ditadura para se revelarem, custaram um pouco a sair.  Talvez de início favorecido por certa avidez por novos títulos, o romance de Lobo Antunes foi um sucesso de crítica e público, junto ao hoje pouco comentado O que diz Molero (1977), de Dinis Machado. A estes se seguiram os próprios livros de Lobo Antunes Os cus de Judas (1979) eConhecimento do inferno (1980), além de Levantado do chão (1980), de José Saramago, O dia dos prodígios (1980), de Lídia Jorge, e um sem-número de títulos de qualidade, responsáveis por aquilo que muitos chamaram de boom do romance português. Além dos estreantes, mantinham uma produção intensa autores como José Cardoso Pires, Fernando Namora, Maria Velho da Costa, Almeida Faria e Augusto Abelaira. Tratava-se, convenhamos, de um time nada desprezível de ficcionistas.

Hoje em dia, Memória de elefante não parece agradar ao seu autor. Lobo Antunes o julga um livro de principiante, charmoso em seus defeitos, cujo mérito seria guardar alguns dos procedimentos desenvolvidos em sua obra posterior. Falsa modéstia ou não, é aparentemente comum entre os críticos de sua obra considerar seus primeiros três romances (que, segundo o autor, comporiam um grande romance em três partes, e não uma trilogia) como textos de aprimoramento de sua obra posterior, mais madura. Mas apenas uma leitura comparativa mais detalhada nos daria a real dimensão destas afirmações. De qualquer forma, é preciso deixar bastante claro que romances comoMemória de elefante e Os cus de Judas são muito mais do que projetos literários incompletos: são obras de uma força narrativa e uma originalidade de que poucas vezes se aproximou a literatura contemporânea.

Lembranças de guerra

O enredo de Memória de elefante, com forte inspiração autobiográfica, é relativamente simples: acompanhamos a vida de um médico psiquiatra durante 24 horas, no hospital, na rua, em um bar. Após uma dolorosa experiência na guerra colonial em Angola, seu casamento se desfaz e o psiquiatra se encontra em um estado de depressão e autocomiseração que se alterna com ataques irados contra a sociedade portuguesa e as instituições de que faz parte.

Logo nas primeiras páginas delineia-se um personagem rancoroso, envolto numa "revolta que o transcendia": revolta contra o porteiro do hospital, com seu gordo sorriso "a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar"; revolta contra a classe dos psiquiatras, estes "etiquetadores pomposos do sofrimento", cuja atividade consiste em recolher dinheiro e exercer a "única forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade da loucura alheia"; e revolta contra si mesmo: "puta que pariu a mim", pragueja, depois de maldizer todo o hospital.

A narrativa inicia-se em terceira pessoa, mas é de tal modo contaminada pela voz do protagonista que, por vezes, estabelece-se um único fluxo de pensamento, que discorre sobre pequenas observações do espaço e das pessoas à sua volta, ao mesmo tempo em que é assaltado por esta memória "de elefante", que não pode simplesmente ignorar. Misturam-se lembranças da guerra, de um núcleo familiar desfeito e de uma infância não idealizada: "Quando é que eu me fodi?", pergunta a si mesmo, em busca de um "trauma" primordial na infância que tivesse provocado seu atual estado.

O conflito básico desta personalidade tumultuada está condensado no fragmento abaixo:
Entre a Angola que perdera e a Lisboa que não reganhara o médico sentia-se duplamente órfão, e esta condição de despaisado continuara dolorosamente a prolongar-se porque muita coisa se alterara na sua ausência [...]: no fundo era como se, através dele, se repetisse um Fr. Luís de Sousa de blazer.

No drama de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, dado como morto na batalha de Alcácer Quibir, retorna à sua casa e encontra sua esposa novamente casada. A vida prosseguiu sem ele, que não se encaixa na nova ordem da família e do país: daí ele se dizer "ninguém". Em sentido semelhante, psiquiatra de Lobo Antunes é um estrangeiro, um estranho em sua própria cidade, em seu trabalho, em sua família.

A comparação revela também um dos procedimentos mais marcantes do romance, o da intertextualidade. Sem forças para racionalizar a crise que enfrenta, o psiquiatra só consegue dar forma a determinadas impressões e sentimentos por meio das referências literárias: em um momento particularmente curioso, ele se compara à gaivota de Anton Tchekhov, aproximando a angústia da referida peça à escrita de F. Scott Fitzgerald. Estão presentes ainda nomes considerados centrais na literatura de Lobo Antunes, como Louis-Ferdinand Celine e Dylan Thomas, além de Cesário Verde, Luís de Camões, e até Charlie Parker e Paul Simon.

E as referências à música popular e a ícones da cultura pop, como John Wayne, não são discriminadas da cultura mais letrada. Da mesma forma, o tom elevado e solene de determinadas reflexões alterna-se com um rebaixamento de tom que pode beirar o escatológico, e expressões de repertório poético substituem palavras do mais baixo calão. Tais contradições compõem não apenas um quadro de oscilações de temperamento, como também a dificuldade em achar um registro que represente sua crise pessoal. Resultam dessas contradições laivos de uma cínica ironia, passível até mesmo de gerar humor, mesmo que amargo.

Mas a característica formal mais marcante de Memória de elefante é o ostensivo uso da linguagem metafórica, da prosopopéia, e da animalização de coisas e pessoas. A cidade é transfigurada metaforicamente, em um procedimento que já foi apontado (equivocadamente) como tributário do realismo mágico latino-americano. Alternam-se muitas metáforas visuais, algo absurdas, fruto de um estado de quase delírio. Assim, os óculos da arquivista do hospital "lhe aumentavam os olhos até às proporções de hirsutos insectos gigantescos cercados de enormes patas de pestanas"; os internos flutuam "na claridade das janelas como viajantes submarinos entre duas águas"; uma estante rotativa é um "pinheiro de metal adubado por um estrume de jornais de direita empilhados no chão"; e, na rua, os carros se movimentam lânguidos, "à maneira de grandes gatos ávidos, tripulados por senhores que envelheciam como as violetas murcham, numa doçura magoada". O resultado é de pesadelo.

O mundo do qual se está alheio se transforma, monstruosamente. Encadeiam-se idéias, imagens, em associações regidas pelo ritmo da memória, e que deixam entrever a angústia de não conseguir se comunicar, a assumida incapacidade em abandonar seu estado de isolamento interior, o adiamento constante de um novo início (que ainda é possível):

O psiquiatra desejou com desespero um esperanto que abolisse as distâncias exteriores e interiores que separam as pessoas, aparelho verbal capaz de abrir janelas de manhã nas fundas noites de cada criatura como certos poemas de Ezra Pound nos mostram de súbito os sótãos de nós mesmos num maravilhamento de revelação: a certeza de ter topado um companheiro de viagem em banco à primeira vista vazio e a alegria da partilha inesperada.

Talvez a saída seja mesmo escrever, apesar de tudo: não por acaso, no romance seguinte, Os cus de Judas, o protagonista assume a narrativa, em primeira pessoa. E foi assim com o próprio Lobo Antunes, que consolidou uma vasta produção literária, uma das mais originais dos últimos 30 anos.

Sobre o autor

Antonio Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. É psiquiatra e escritor, autor de cerca de 15 livros, entre eles Os cus de JudasBoa tarde às coisas aqui de baixo eEsplendor de Portugal. Lutou em Angola, na Guerra Colonial Portuguesa, entre os anos de 1970 e 1973, fato que marcou profundamente a sua obra.


por Gregório Dantas
em RascunhoO jornal de literatura do Brasil
Junho de 2006

11 de setembro de 2006

Moacyr Godoy Moreira: opinião sobre Memória de Elefante


“Entre a Angola que perdera e a Lisboa que não reganhara, o médico sentia-se duplamente órfão (...) Fizera da vida uma camisola de forças em que se lhe tornava impossível mover-se atado pelas correias do desgosto de si próprio e do isolamento que o impregnava de uma amarga tristeza sem manhãs...”

Assim caracteriza-se o protagonista de Memória de elefante, livro de estreia de António Lobo Antunes, recém lançado no Brasil com 26 anos de atraso. Já bastante conhecido por aqui, a obra demonstra a força narrativa do autor português, um dos mais traduzidos e respeitados em terras ao redor do globo. A quarta capa do volume ressalta, a propósito, uma citação da revista Vogue: “O maior escritor vivo da língua portuguesa.” Critérios de valor à parte, trata-se de um escritor com amplo domínio técnico e que produz livros de particular força inventiva e narrativa.

Considerado pelo próprio autor como parte de uma trilogia, junto com Os cus de Judas e O esplendor de Portugal, que seriam na verdade um único romance em três partes, Memória de elefante narra um dia na vida de um psiquiatra de Lisboa, mergulhado nas tramas do passado em busca de elementos que o façam sentir-se vivo. A existência angustiante que tortura o personagem, assombrado pela culpa da separação da mulher e a distância insustentável das duas filhas, o ambiente profissional degradado no qual segue imerso e as rememoração da infância e adolescência, também conturbadas, alinhavam os movimentos lentificados deste homem, ao largo do dia que dolorosamente se desenrola.

Mesmo em meio à degradação humana, imagens de dentes postiços, gengivas nuas e dentaduras, e a abundância de termos como melancolia, tristeza e solidão, há esparsos momentos de beleza: “Uma claridade mediterrânea aureolava as grades da varanda como se banhassem num aquário iluminado pela lâmpada intensíssima de uma primavera irreal.” E mais adiante: “ E lembrou-se do momento exacto antes da ejaculação, quando o corpo, transformado numa vaga que sobe em sucessivos roldões de prazer, cada vez mais forte, mais pesada, mais densa, estoira de súbito numa explosão de espuma do tamanho do mundo, em que pedaços nossos voam independentes de nós para cada canto do lençol, e adormecemos liquefeitos, numa moleza sem cor, náufragos jubilosos da ternura.”

Porém o leitor vai, ao longo do volume, deparar-se muito mais com a dor, a incompreensão e a incompletude constitutiva que assola a personagem, que belas paisagens lusitanas ou momentos de deleite. Há mesmo instantes beirando o desespero que assombra as tendências suicidas, aqui e ali.

Ao contrário do herói problemático de Lukács, que caracteriza o romance romântico e realista, o médico aqui, mergulha cada vez mais em florestas de incertezas e desconecta-se significativamente de um projeto supostamente edificante proposto pelos autores do século XIX. Considerando-se o contexto em que surge o livro, o aspecto de modernidade do texto multiplica-se de maneira notável, visto que surgiu imediatamente após a Revolução dos Cravos, momento memorável em que Portugal livrou-se da nefasta ditadura de Salazar.

Neste nascer de uma nova nação, empenhada em fazer-se destituída do ranço do totalitarismo, a fragmentação narrativa que surge em variados momentos (“e de repente vi-me multiplicado até à náusea nos espelhos biselados, dezenas de eus aflitos mirando-se uns aos outros em pasmo de pavor”; “como se o cotovelo da esquerda e o da direita funcionassem como talas que agüentavam unindo os ossos estilhaçados de seu desespero e os impediam de se espalhar no chão”) reflete a fragmentação da estrutura psicológica das personagens, que numa leitura sustentada por pensadores como Theodor Adorno e Walter Benjamin, permitem acessar o conteúdo oculto da história recente do país, possibilitando reconstruir verdadeiramente a devastação causada pela violência política progressiva.

A angústia do personagem exacerba-se ao lembrar as filhas e da situação atual, após a separação: “A imagem das filhas, visitadas aos domingo numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos do sótão transformaram numa espécie triste de alegria.” Em meio à dificuldade de lidar com a situação insustentável da rotina trabalho-lembranças-culpas, o narrador segue como que em transe, colado ao personagem, como se a narrativa fosse em primeira pessoa, sobrevivendo mais que vivenciando suas experiências. Em seus diálogos imaginários com a ex-mulher, torna-se cada vez mais perturbado, odiando a pessoa de Dylan Thomas, por exemplo, poeta por quem ela nutria grande admiração, em termos literários.

A névoa da perturbação adensa-se e o onírico, a memória e os fatos reais passam a não ter um limite muito claro, misturando-se; fluindo de um domínio a outro sem a preocupação da lógica, lógica esta que inexiste quando se trata do universo interior e abalado pelo sofrimento que habita o íntimo de cada um de nós.


por Moacyr Godoy Moreira
10.08.2006

18 de dezembro de 2005

Arancha Oña Santiago: Heróico anti-herói

Memória de Elefante é a primeira obra da galardoada carreira literária de António Lobo Antunes; entre os múltiplos prémios recebidos destacam-se: o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Rosalía del Castro do PEN Club Galego, o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, o Prémio União Latina de Escritores e o Prémio Jerusalém.

No presente romance, a personagem principal comunica com a voz grave de débeis ressonâncias a partir da subjectividade mais profunda do seu ser, através de uma prosa poética plena de analogias artísticas insuspeitas e surpreendentes, angustiadas metáforas, alegorias, paradoxos, diálogos opacos e fustigantes monólogos existencialistas, numa ambiguidade dualista plena de incerteza, dirimindo entre a banalidade e o transcendental.

Fugindo do excessivo e exuberante racionalismo matemático, do pragmatismo, da autoridade idealista e positivista, do por vezes presunçoso espiritualismo e do avassalador materialismo, em suma, contra qualquer autoridade, o protagonista apresenta-se num mundo de desorientação, de confusão e de uma crise fertilíssima.

Como processo iniciático e por trás da claridade ofuscante do excessivo racionalismo tradicional, o protagonista lança um grito desesperado de sinceridade no concavo espaço do silêncio, sem arrogância, questionando a realidade sem receber uma resposta convincente, pendendo sem equilíbrio algum e contorcendo-se sobre si mesmo numa corda entre o determinismo e a liberdade, entre a fé e o agnosticismo, entre o absoluto e o relativismo moral.

Exorta o inanimado e o animado, metamorfoseando a existência para a compreender, jogando com a fantasia e a realidade da percepção, formando um puzzle de elementos congruentes e incongruentes. Evoca o caos dentro de uma ordem aparente e uma ordem dentro do caos, expulsando tudo isso através desenlaçado novelo da liberdade.

Psiquiatra de profissão, sendo um fardo por vezes difícil de carregar, a personagem principal apresenta-se como um indivíduo frágil por condição mas duro por necessidade, desterrado à vida de cabeça ajudado por fórceps, exaltado na análise do seu instável projecto de existência face à aparentemente titânica essência do passado. Projecto de existência individual que só encontrou estabilidade no útero materno e que existe no ermo de um mundo em que não entende as leis da sua harmonia e para o qual são inúteis os ecos harmónicos da tradição.

Na sua subsistência, desliga-se melancolicamente de qualquer memória de autoridades geométricas e ressonâncias de leis universais, sendo incapaz de erguer com suas intenções outra jurisdição que o guie em sua dispersão, aceitando uma desordem que o leva à quase perversa aniquilação do seu próprio ser. Desesperançado perante o rosto de uma realidade a que é incapaz de fazer um diagnóstico definitivo, conforma-se com meros e aproximativos juízos, acalmando a dor com leves analgésicos cujo excesso o leva ao atordoamento, sem encontrar um medicamento contundente que a elimine de raiz.

Enfrentando a realidade com uma vontade dilacerantemente individual agredida por um trágico pessimismo, defende sem muita contundência e com eterna e angustiada dúvida o seu fado de sinuosos acontecimentos, entre os quais a sua participação numa guerra; incorporado de uma solidão dissonante, desmoronada como uma estátua da antiguidade e dissimulada dos fedores do passado.

A nossa personagem enfatiza de forma literária a unicidade da sua pessoa e a sua luta pelo significado da lua liberdade, uma liberdade sem bússola, que ao  mesmo tempo que o oprime, o converte num ser singular e individual, separado da ordem cósmica, permitindo-lhe ajustar a sua identidade sobre a base do sofrimento e do tormento, comunicando existencialmente com a alteridade.

Liberdade cuja cruz é a responsabilidade pela qual sofre uma angústia e uma ansiedade existencial gerada como mecanismo de defesa perante a construção da sua identidade e do seu destino em harmonia ou dissonância com a liberdade dos demais, e como resposta às ameaças e tensões que sofre no seu sistema de valores.

O nosso protagonista é singular na medida em que actua e se realiza com algum pessimismo na conquista e na imputação dos seus próprios actos. Escolhe o seu caminho sem se deixar levar por modelos universais e objectivos, escolha livre unicamente limitada pelas circunstâncias que o rodeiam, pela implicação com compromissos e responsabilidades sem garantias.

Sem uma predisposição ou predestinação prévia, o protagonista experimenta a responsabilidade das suas acções e a subjectividade da sua existência se reconstrói e configura em si mesmo, sobre a base do tormento, reconhecendo tenuemente a alteridade, e na busca da aparentemente prismática verdade. Alteridade na qual de sujeito se converte em objecto, de onde se reflecte um mundo de incompreensíveis estereótipos humanos, alguns confinados ao psiquiátrico, outros na liberdade de movimentos pela vida, mas todos sem manual de instruções.

O nosso psiquiatra luta pela procura de uma linguagem universal que o faça comunicar com a realidade e com os outros, pela saída do labirinto da sua existência. Sensação e experiência linguística mantida única e exclusivamente com a sua saudosa ex-mulher a quem continua amando e não consegue esquecer, mas paradoxalmente não consegue dizê-lo. Experiência que nem sequer teve com sua mãe, que quase morria depois do seu parto, além de sofrer de uma surdez metafórica ou real que o levou à sua incompreensão.

Como os castigos míticos da condenação a uma eternidade infernal, o nosso protagonista sente-se condenado a uma existência angustiosa e incompreensível, através dos rígidos parâmetros da razão herdada.

Submerso nas águas do dualismo, entre a existência e a essência, entre a racionalidade e suas consequências, entre a credulidade e incredulidade, o nosso protagonista vai vogando sobre a decadência da razão, sem forjar ilusões e tocando o fundo do desencanto da existência, encalhando na dor e na crueldade da realidade sincera que marca o seu destino até... ao nada?

por Arancha Oña Santiago
Novembro 2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

26 de outubro de 2005

Francisco Solano: Primeiros abalos


Aos 37 anos, António Lobo Antunes publicou o seu primeiro romance e deixou clara a sua intenção de renovar a maneira de contar. Memória de Elefante é uma indagação à alma humana.

O estilo não é um dom, mas sim fruto de muitíssimas horas de trabalho, de escrever constantemente, de emendar e cortar páginas, de não encontrar nunca satisfação. E, não obstante, há que chegar à máxima exigência e precisão, até que seja a mão quem escreva - a mão -, não a vontade. Lobo Antunes tem insistido, mais que uma vez, em que escrever é deixar que a mão busque as palavras: "Os livros já estão escritos, e tu apenas os descobres porque estendes a mão". Surpreende tanta humildade, tanta cuidadosa paciência. Não há nesta opinião qualquer vaidade sobre a qualidade do escritor, nem auréola de distinção de uma tarefa que se reduz a imenso trabalho. E isto disse um escritor que, na última década, tem vindo a publicar romances perturbadores, no limite do prodígio verbal, carregados de emoção e calamidade, que imprimem o processo de desconstrução da memória, revelam as maranhas dos sentimentos e nos hipnotizam com a expressão do indizível. Porém se os últimos livros do escritor português, empenhado em alargar ao limite o território do romance, subvertem o rito conciliador da leitura, na sua primeira obra já se aprecia o embrião do que viria a ser o seu estilo, a forma rebelde do seu talento, o seu fastio perante a convenção narrativa e, pode dizer-se, o pesar de ter que se dobrar numa composição de índole autobiográfica. Publicado em 1979, quando contava com 37 anos - Lobo Antunes poupou-se antes de aparecer em público -,Memória de Elefante anuncia um escritor perplexo, cuja introspecção da sua própria crise matrimonial se transforma na matéria efervescente e delirante de um homem cuja única garantia de estar vivo é a omissão do seu nome na página de necrologia dos jornais e que deve sobrepor-se, contra todos os prognósticos, à "vontade de se vomitar a si mesmo".

O protagonista é um psiquiatra na agonia da mudança, que não sabe que vai ser de si, em que se vai converter, depois de ter decidido separar-se da mulher que ama. Perdido em Lisboa, que se configura como uma cidade de estímulos tão mórbidos como inúteis, rival de si mesmo ("detestava cada vez mais emocionar-se"), ressentido contra a sua profissão ("o psiquiatra assemelha-se aos vendedores de automóveis na sua loquacidade demasiado delicada e bem vestida") e raivoso contra todos ("que se defendiam melhor do polvo gelatinoso da depressão"), assistimos à emergência dos atributos mais inextrincáveis do ser humano, aos impulsos mais desesperados e à suspicácia existencial de que não há saída, de que "é realmente muito fodido ser homem, não é?". Contada por uma voz só aparentemente externa, já que surge das entranhas da personagem, a narrativa desenvolve-se à maneira de uma confissão mortificante que, ao pôr-se por escrito, permite suportar a angústia de uma solidão aborrecida e desejada, único lugar de onde se reconhece e mitiga, paradoxalmente, a angústia da autodestruição.

Assim o tormento do psiquiatra, causa da sua depressão, não radica na sua crise conjugal, nem na sua beligerância contra o homem comum, mas tem origem na sua vocação radical pela escrita, uma paixão que antecipa o fracasso ao comprovar que "os romances e poemas que perpetrava sem escrever formavam como que uma prolongação narcisista sem conexão com a vida, arquitectura oca de palavras, desenho de frases vazias de emoção". Contra essa separação entre escrita e vida se estenderá depois toda a obra posterior de Lobo Antunes. Mas em Memória de Elefante essa ruptura, como o divórcio dolorosamente assumido do psiquiatra, está bem apetrechada de belas imagens, metáforas engenhosas e piruetas verbais - tudo temperado, ainda, com nutridas menções culturais - , que se acumulam para decorar o texto de "efeitos literários" e povoar a narrativa com um barroquismo falseado. Não obstante, incluindo esses mimetismos e excessos, o romance alcança um nível e intensidade admiráveis, e se impõe com tal convicção na análise da alma humana que invejariam Camus ou Dostoievsky. Primeiro abalo de uma novelística excepcional, poder-se-ia dizer sem presunção que aqui está já Lobo Antunes por inteiro.


por Francisco Solano
01.10.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...