Mostrar mensagens com a etiqueta 2004 Eu Hei-de Amar Uma Pedra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2004 Eu Hei-de Amar Uma Pedra. Mostrar todas as mensagens

28 de fevereiro de 2015

«O prodígio do prodígio», opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra

António Lobo Antunes: Eu Hei-de Amar Uma Pedra  - O prodígio do progídio

Precisamente quando eu achava que "O Manual dos Inquisidores" seria sempre o meu romance preferido de António Lobo Antunes, "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" vem contrariar-me. "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" é, desde logo, um romance diferente no processo de escrita. Em vez de uma história imaginada, tem como enredo uma história verídica. António Lobo Antunes encontrava-se a escrever num gabinete de hospital, quando um colega seu, psiquiatra o chamou para ouvir o relato da bizarra história de amor de uma mulher. Descrita no livro como

"Doente de 82 anos, sexo feminino, idade aparente coincidindo com a real, Orientada no tempo e no espaço, alo e heteropsiquicamente, memória conservada de acordo com os parâmetros etários, contacto adequado, sintónico embora retraído, com dificuldade em verbalizar o motivo da consulta"
é a sua história que faz "Eu Hei-de Amar Uma Pedra".

A mulher, cujo nome nunca sabemos, conhece o homem, de quem também não conheceremos o nome, quando ambos são ainda jovens. Posteriormente, ela é internada num sanatório em Coimbra. Ele escreve-lhe, ela responde-lhe, mas as cartas não são enviadas. Ele deduz que ela morrera.

Casa. Tem duas filhas. Vive em Lisboa, com a família, quando reencontra a mulher, que saíra do Sanatório, e era agora costureira. Iniciam uma bizarra relação.

Durante as férias de Verão que o homem passa em Tavira, Algarve, a mulher está sentada dois toldos adiante, tapada com um interminável crochet. Olham ocasionalmente um para o outro. Ás quartas feiras encontram-se numa pensão rasca na Graça, e, na Primavera, encontram-se por vezes num hotel em Sintra, de onde observam as acácias em flor.

Depois, o homem morre, e a mulher decide consultar um psiquiatra, dado o estado de perfeita melancolia em que mergulha.

É o tipo de história bonita que nunca pensei que António Lobo Antunes fosse escrever. Não me interpretem mal, a dureza e crueza e realismo que são a imagem de marca deste escritor continuam lá, mas agora inseridos numa comovente história de amor.

Analisando as situações através de fotografias, consultas (no psiquiatra), visitas e narrativas, vai modelando os seus personagens, cada um com o seu lado bom, e com o seu lado negro.

A personagem da mulher da praia, é introduzida de uma forma tão discreta que, mais tarde, quando percebemos que se trata da protagonista, é difícil acreditar.

O último capítulo, e o único em que a narradora é essa mulher, é de uma beleza tocante, poética mesmo, e única no contexto dos romances de António Lobo Antunes.

Não é um livro perfeito apenas por perder demasiado tempo com a vida do psiquiatra, que, para o enredo, não interessa rigorosamente nada, mas essa é uma marca a que Lobo Antunes há muito nos habituou, e, devo dizer, não é de todo mau, uma vez que descentraliza o romance, e torna-o mais vívido, mais real, por explorar também a vida de uma pessoa que não está directamente envolvida na intriga principal.

É bonito ver uma relação que durou sessenta anos, que vivia destas pessoas se olharem as tardes que passavam na praia nas férias, e as tardes de quarta-feira numa pensão perdida na capital. Quantos de nós poderiam ter uma relação assim, tão forte, tão estoica? Era verdade que, com tão pouco tempo juntos, acabavam por disfrutar apenas do bom lado da relação, uma vez que não tinham sequer tempo para discutir; mas se virmos bem, esta mulher deu a sua vida toda a este homem, não casou com outro, nunca aceitou dinheiro deste "porque o amava", ou seja, arriscou tudo por ele.

E, sinceramente, não resisto em transcrever apenas um pouquinho do final, como se um poema fosse, porque se não é, poderia ser...

"Se calhar Tavira já não existe. Nem Sintra. Há quanto tempo isto foi? Terei inventado tudo? Sonhado tudo? Demoro na resposta, mas penso que não..."

por Supermassive Black-Hole
20.05.2006

22 de setembro de 2009

Ieda Magri: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


edição Alfaguara, Brasil

António Lobo Antunes, em Eu hei-de amar uma pedra, radicaliza sua forma esquizofrênica de escrita dando voz a múltiplos narradores que se revezam ao contar ao leitor os lampejos de uma história de amor – e muitas de rancor – entre um homem e uma mulher maduros que se encontram semanalmente numa hospedaria barata em Lisboa.

Se digo lampejos é porque, ao contrário do que possa parecer aos que não leram Lobo Antunes ainda, Eu hei-de amar uma pedra não é a história desse amor apenas. Esse escritor português, desafeto de Saramago, não investe em enredos, em clímax, no desenrolar de uma história bem contada no intuito de fisgar o leitor. Em seus livros – e neste de forma mais radical – são convocados os fantasmas de narradores diversos e o fio da história é a eles entregue para que, aparentemente, apenas sintam e lembrem. A voz feminina sempre está em destaque, como, por exemplo, em Exortação aos crocodilos, em que quatro mulheres nos colocam a par do que se passa dentro delas para também nos envolver com a história de Portugal, com a Guerra de Angola, com um grupo de homens terroristas, seus maridos, com o câncer de uma delas, com a mudez, enfim, com toda dor latente nas salas de conversas bem arrumadas. Em Eu hei-de amar uma pedraessa atmosfera não é diferente. O que se intensifica é o ritmo da passagem do microfone entre os narradores – digamos assim, embora as personagens de Lobo Antunes falem bem baixinho, quase um murmúrio, quase uma fala sem mover os lábios. É como se o Pimpolho, sua mulher, suas duas filhas, o marido da mais nova, o amor de infância recuperado por acaso depois do casamento, o primo ido embora, o pai esperado, a mãe que não se sabe onde e ainda uma outra mulher muito misteriosa, uma narradora especial, meio autora, meio Ariadne na distribuição de seus fios, estivessem todos na mesma sala evocando suas lembranças e reconstruindo para si mesmos os acontecimentos passados. A sala, no caso, sendo o livro, porque essas personagens não têm mais vontade de conversar entre si, de chegar a qualquer entendimento, apesar de toda dor, solidão e culpa.

Apesar da organização formal do livro, como que a indicar ao leitor o que se passa na superfície do que é contado e o lugar que ocupam os narradores no tempo presente, o tempo da partida que leva ao tempo psicológico mais profundo, localizado no passado, as vozes estão embaralhadas e a cada capítulo que começa o primeiro desafio é saber quem fala. Para complicar, e penso também que para exigir que se desligue um pouco o comportamento detetivesco do leitor, Lobo Antunes coloca na mesma página pessoas diferentes fazendo parte do mesmo acontecimento e expondo seus pontos de vista no envolvimento com aquelas vivências. Dessa forma, o leitor é chamado a prestar atenção, a se entregar mesmo, à linguagem cuidadosamente elaborada de Lobo Antunes. Lançando mão de um ritmo e mesmo de elementos gráficos que se assemelham à forma poética, a grande personagem de António Lobo Antunes é a linguagem: o fluxo dos discursos e a natureza sensível das palavras. Os diversos narradores se pegam a desconfiar das lembranças, como se a memória falhasse, mas também se pegam às voltas com os sentidos das palavras e seus usos, isto implicando, e muito, com o desenrolar da história que se vai fazendo, numa afirmação de autonomia de cada personagem na forma de contar que não pode ser estendida à forma de sentir cujo determinante se localiza no passado e, portanto, não pode ser mudado.

Ao ler Eu hei-de amar uma pedra, participamos fortemente de uma verdade, aquela que envolve o passado dos diversos narradores; mas essa verdade é relativizada a cada momento por aquela narradora que chamei de especial e que, encontrando-se num asilo, já velhinha, dá voz à enfermeira que nos abre os olhos: “Nessa idade inventam tudo, não ligues”. Vemos as personagens se construindo, se mostrando a nós com toda sua complexidade de gentes acrescidas ainda da complexidade da ficção, como em: “O essencial de minha natureza, hão-de comprová-lo no livro quando a estima que entre nós vai crescendo”. E o essencial é visível apenas como sensação, não é feito de matéria palpável, assim como o livro, que se define muito mais que pelo enredo, pelo papel e suas 558 páginas. Depois de lido, Eu hei-de amar uma pedra vai sempre existir mesmo se queimado, fisicamente perdido sem remédio, porque sem começo e sem final. As personagens, mesmo quando optam por sair de cena, continuam ali como lembrança, como algo construído uma vez e condenado a habitar o mundo ou a página à revelia de seu autor, que faz questão de participar, ele mesmo: “(ou sou eu que imagino ou o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore)” ou seu duplo, mostrando o embate entre criador e personagem:

“não, enganei-me, isto não comigo, com a da arvéloa e da praia, a que me ordenou
– Tu é que fechas o livro a que manda na gente ou a quem mandaram que mandasse na gente, um fulano que não conheço a desesperar-se connosco, a alterar, a trocar-nos
(–Não é assim que gaita)
a voltar ao princípio, o fulano que decidiu não há muito, acho eu
– És tu que fechas o livro e embora arrependido de eu a fechar o livro continua por teimosia a escrever,”


por Ieda Magri
citado de Educação Pública (Brasil)
30.06.2009

6 de março de 2009

República do Livro: Alfaguara [Brasil] lança novo romance de António Lobo Antunes, vencedor do Prêmio Camões 2007.


Um homem examina antigas fotografias de família e se recorda do tempo passado. De quando era criança, de um primo de partida para os Estados Unidos, de um fotógrafo no estúdio a ajustá-lo no colo da mãe, do farmacêutico pesando-o numa balança. Recorda-se, aos poucos, do que ocorreu desde então.

Mas há outras lembranças mais profundas e dolorosas: um amor impossível, interrompido na juventude e restabelecido décadas mais tarde, quando o casal se reencontra casualmente na rua. Ele, já na faixa dos 50 anos, havia se casado, tido duas filhas, mas não se esquecera daquela mulher. Os dois, então, voltam a se encontrar clandestinamente numa pensão de baixa reputação em Lisboa.
 
Em Eu Hei-de Amar uma Pedra, António Lobo Antunes apresenta um texto radical e inovador, como poucas vezes se viu na literatura contemporânea. Numa história em que passado e presente se fundem, acontecimentos paralelos à vida do protagonista são narrados por personagens que giram em torno dele: suas duas filhas, sua mulher, a amante e um médico. Juntas, essas narrativas compõem uma visão multifacetada e rica dos acontecimentos, na qual passado e presente se fundem num constante fluxo de pensamento.
 
Na ocasião do lançamento de Eu Hei-de Amar uma Pedra, em 2004, Lobo Antunes falou ao jornal português Diário de Notícias sobre o tema que permeia este romance: o amor.

Ele explicou que, embora o título Eu Hei-de Amar uma Pedra venha de uma cantiga popular, diz respeito também às impossibilidades do amor. "Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstratos são perigosos", revela.
 
Sobre a fotografia, ponto de partida deste seu romance, Lobo Antunes diz que vive com ela numa relação conturbada. "Conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento".
 

autor não identificado
não datado (2007?)

3 de setembro de 2007

Leandro Oliveira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


O Amor no Livro de António Lobo Antunes

O amor idealizado é um tema que marca a tradição literária portuguesa desde a lírica trovadoresca, com as antigas cantigas de amor entoadas a musas inalcançáveis, até os principais autores portugueses contemporâneos como António Lobo Antunes. São os ecos dessa tradição que dão título ao lançamento do escritor, o romance Eu Hei-de Amar uma Pedra, um verso de um antigo cancioneiro português. A ligação da tradição portuguesa feita no título realça o trabalho ousado de Lobo Antunes ao renovar a literatura portuguesa e mundial, mesmo ao falar mais uma vez da impossibilidade de certas relações amorosas, um tema recorrente, mas que pelas mãos do escritor conseguimos perceber novos detalhes. Apoiado no passado, a obra é poeticamente construída e marca o leitor com um texto montado a partir de estilhaços da memória.

António Lobo Antunes é um exímio escritor que cada vez mais se tem destacado não somente pelos prêmios literários acumulados, mas principalmente por uma obra que apresenta uma produção consistente, que se recusa a propor facilidades ao leitor. Numa de suas crônicas, reunida em seu Segundo Livro de Crónicas e ironicamente intitulada Receita para me lerem, o escritor diz que suas obras são compostas "apenas por largos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor respirarmos." Tal sufocamento, apesar do hermetismo que inicialmente se apresenta ao leitor, produz o que o autor diz ser um "contágio por uma doença" que faz o leitor "convalescer após a última página".

As obras do escritor se caracterizam por essa tentativa de contagiar o leitor, sendo bem-sucedido em maior ou menor grau, equilibrando suas expectativas e as expectativas de um leitor mais exigente. Na sua primeira fase, a trilogia Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, os livros são quase uma catarse, com o tema da guerra na África sendo atravessado pela linguagem (Lobo Antunes serviu como médico militar na guerra de Angola durante quase três anos), dum modo que chama a atenção do leitor mas cujo 'contágio' parece ainda reticente. Daí, em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, há ainda uma preocupação em exibir seu domínio da linguagem e o resultado é um livro excessivamente hermético, onde o leitor quer se deixar 'contagiar', mas muitas vezes é afastado. Sendo assim, é possível dizer que Eu Hei-de Amar uma Pedra é mais bem-sucedido em atingir esse objetivo, um livro que conseguiu equilibrar sua maneira de evocar o passado à bela linguagem, apresentando dificuldades, mas não de maneira gratuita, resultando no reconhecimento do leitor e produzindo enfim seu 'contágio'.

Na primeira parte, o narrador introduz o leitor na história através da descrição de fotografias, onde cada detalhe serve para fazer com que o passado venha à tona e seja invadido por vozes que tentam recompô-lo. Uma voz masculina apresenta ao leitor sua infância, sua participação como soldado em Guiné-Bissau, seu casamento, suas filhas e um amor da juventude interrompido pela internação da mulher num sanatório em Coimbra. No entanto, resumir a história somente a esses fatos pode dar uma idéia errônea do romance, já que é na linguagem utilizada que a recordação do passado se transforma em algo tão sublime. À medida que a leitura avança, o leitor percebe que há uma circularidade em sua narrativa. Como rodas dentadas de um relógio, onde cada dente representa um personagem, a narrativa dá voltas, apresentando em cada volta estilhaços da história, que aproximam alguns personagens, mas que no momento seguinte são afastados por um novo estilhaço. Lobo Antunes consegue fazer com que primeiro sintamos a beleza da linguagem para depois compreendermos o significado da narrativa. Ou seja, enquanto os autores ruins procuram esconder sua incapacidade de cuidar da linguagem através de uma história que chama atenção do leitor, o escritor faz justamente o contrário: realça o domínio que tem da linguagem bela e poética, fazendo com que a história sempre permaneça em segundo plano. Um recurso ousado que somente os grandes escritores podem se dar ao luxo de utilizar.

Um outro recurso que contribui para embaralhar o entendimento do leitor sobre a história é o de mudar o ponto de vista narrativo em meio aos acontecimentos narrados. Por exemplo, em determinado trecho a narração é feita por um personagem masculino e subitamente percebemos que uma mulher assume o relato, fazendo com que o leitor pare e reordene a compreensão que tinha da história até ali, tentando discernir que fatos se referem a um personagem e que fatos se referem ao outro.

No entanto, a maior dificuldade desse romance surge quando uma voz de narrador consciente aparece misturando tudo e colocando em xeque todo o entendimento que possuíamos. Apesar de tudo ser ficção, geralmente, quando nos são apresentados personagens, cada um possuindo um passado e com um ponto de vista, construímos em nosso imaginário aquele mundo descrito. Mas daí vem o narrador consciente de seu papel e diz: "Não se empolgue, isso é apenas uma história de ficção que procura dominar suas emoções!" Por exemplo, na página 127 do romance, a voz masculina solta a frase:

"(ou sou eu que imagino ou é o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore)"

Há, portanto, um narrador que se reconhece como um narrador de ficção. Avançando, novamente encontramos a figura tecendo comentários sobre detalhes da história contada até ali:

"ia dizer abanando a cabeça mas não caio num lugar-comum tão grosseiro, a queixar-se em silêncio, de cabeça bem firme, da ingratidão da filha, não da Alemanha
(que teimosia)
que desgaste para mim obrigarem-me a repetir que na Bélgica, que esforço idiota, e não em Bruxelas nem em Bruges
(tão pouco caio nessa)
em Gand, que isso contaram ao alfaiate
(com a história de lhe terem contado resolvo a questão)"

Passamos então a conhecer não somente os detalhes da história, mas também os embates que o narrador passa a encontrar para narrá-la da melhor forma. A circularidade, portanto, que víamos na história passa a penetrar até mesmo no conceito que possuíamos do texto que estava sendo lido. Antes era um texto de ficção, agora passa a ser uma ficção sobre o que é escrever um texto de ficção, inserindo mais uma camada de dúvidas e questões literárias. Tantas questões e tantos recursos fazem com que o leitor passe pelas mais de quinhentas páginas do livro sem perder o interesse, pelo contrário, ao chegar à última página a vontade é de recomeçar a leitura para apanhar os detalhes que não foram percebidos. Sensações que se misturam, assim como a história, resultando num livro delicado e complexo, leve, porém, marcante. Para o leitor que ainda não conhece a obra, o convite para se contagiar está dado.

 
por Leandro Oliveira
30.07.2007

28 de setembro de 2006

Jorge Mayer: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Leer a Lobo

Ler Lobo Antunes foi para mim uma experiência perturbadora. Isento de preconceitos e de boas intenções, numa manhã fria - não tão distante como quisera - não pude resistir ao chamamento de um volume - o pormenor de Os Amantes de René Magritte na capa - com um título que operou sobre mim uma espécie de encantamento: Eu Hei-de Amar Uma Pedra, engodo de uma frase do dogma da religião que escolhi professar. Amar uma pedra que nada pode dar em troca do meu amor, uma pedra que - preciosa ou não - nunca será mais que uma pedra. Todas as pedras, a pedra.

Leitor cego por uma curiosidade que confina com a anarquia, sem pensá-lo, lancei-me a ler os últimos parágrafos. Fi-lo como quem, sabendo-se envenenado, engole vorazmente a primeira coisa que se lhe pareça um antídoto. O acaso não podia ter feito por mim nada melhor. Levei com uma machadada certeira à altura de uns olhos que não chegaram a assombrar-se e já estavam feridos sem remédio. Tinham visto que o murro póstumo do escritor se permitia a uma última insolência, afinal credora da minha mais terna indignação.

Mas de que se valeu este livro - pensei - para dizer-me que se trata somente de um livro, para despedir-se de mim - à hora cinzenta das doze badaladas - que me sentia uma folha em branco, que guardava para ele todas as perguntas. Que desplante, que falta de respeito, que maus modos, fazê-lo sentir a um convidado de pedra, um intruso. Quem escreve isto, o que me está propondo. A fome pediu-me mais e para lhe valer contei os dias e as noites, as moedas e as privações, até que reuni todo o dinheiro para comprá-lo. Desde então tem andado comigo para toda a parte.

Quem é o Lobo? António Lobo Antunes é um prolífico romancista português, autor de títulos como Tratado das Paixões da AlmaA Ordem Natural das Coisas ou Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, médico psiquiatra de profissão, um tipo que aos quinze anos aprendeu a ser agradecido com o povo. A manifestação deu-se com a volta do correio de uma carta sua a Louis-Ferdinand Céline a propósito de Viagem Ao Fim da Noite.

Os livros de Lobo são o registo de uma paciência de ourives. Disse que trabalha até doze horas por dia. De manhã no estúdio de José, um seu primo, pintor, e quem sabe daí não haja a pretensão de igualar As Meninas de Velázquez, "a pintura das pinturas", como gosta de exemplificar; de tarde num consultório do hospital psiquiátrico onde dava as suas consultas, talvez buscando a resposta à pergunta deleuziana: que sanidade bastaria para libertar a vida lá onde está encarcerada no e pelo homem, nos e pelos organismos e os géneros?

O leitor não encontrará nos livros de Lobo a hospitalidade que gostaria de receber de um bom anfitrião. Pelo contrário, deverá lidar com enxames de palavras ligadas com uma gramática cheia de prodígios - Lobo dirá que isso que outros lêem como maravilha "é o que se teve de fazer para encontrar a solução para um problema técnico" - com que representa os atritos entre personagens atormentados por ambientes tensos. Muitas vozes são uma única voz que salta de eu em eu, de angústia em angústia, no dorso de um discurso que longe de esclarecer ao leitor acerca de situações e personagens forja uma espécie de cristal poético que desdenha todas as aparências. Sua escrita flúi. De novo Deleuze, que desta vez fala da escrita como fluxo: "um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio diante dos outros, e que mantém relações corrente e contracorrente ou de remoinho com outros fluxos de merda, de esperma, de diálogo, de acção, de erotismo, de dinheiro, de política, etc.".

Sobre que é Eu Hei-de Amar Uma Pedra? Isso é algo impossível de colocar em poucas palavras. Primeiro ocorreu-me que fosse um romance cheio de interrupções mas, talvez contagiado pela atmosfera do livro, comecei a colocar em dúvida cada uma das minhas convicções a seu respeito. É um romance e vários outros na sua vez, um romance que chove como um poema de meio milhar de páginas no qual se alternam vozes que denunciam medos  como estribilhos, como bordões. Que exige uma leitura que não se confine a desnudar uma intriga mas a acção inversa: juntar todos os pedaços estilhaçados  de um espelho e nesse caso a dificuldade antes aludida bem poderia ler-se como a última defesa que esboça um eu - desconhecido pelo leitor - antes de se ver reflectido.

Ler Lobo Antunes, finalmente, tem muito em comum com uma cura de sono. Basta passar uma noite de insónia invernal para comprovar que dormir é uma questão térmica. Só superando um limitado horizonte de tibieza é possível deixar-se conquistar. Mais próximo da linha do horizonte, mais profundo o sono. A partir daí, o suave declive até ao novo despertar - porque não nascer? - da intempérie.

por Jorge Mayer
12.06.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

30 de agosto de 2005

Bruno Carriço: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Eu hei-de escrever assim (quem dera)

Terminei hoje de ler "Eu hei-de amar uma pedra", de António Lobo Antunes. Foi a primeira vez que li algo deste autor, mas duvido que seja a última!

Quando comecei o livro, estranhei bastante a escrita, confesso. A pontuação é quase inexistente e as apóstrofes são abundantes, o que requer alguma adaptação de quem lê (falo por mim, claro). Ultrapassada esta "fase" de adaptação, a leitura já se faz de forma mais natural e começa-se a apreciar verdadeiramente o génio de Lobo Antunes.

Folha a folha, fui descobrindo autênticas preciosidades nesta obra. Preciosidades, sobretudo, na descrição de gestos/coisas banalíssimas. Tenho pena de não ter marcado várias destas passagens, para agora ilustrar o que me "seduziu", mas são tantas páginas que mais me valia ler o livro de novo, se as tentasse procurar. Marquei apenas dois pequenos excertos, quando me apercebi que queria partilhá-los com o blog (e convosco, por consequência).

Começo por perguntar: como descreveriam um negativo de fotografia?

Parece uma coisa sem jeito, mas Lobo Antunes atira-nos com "...a minha mãe a esmiuçar negativos onde fantasmas, não pessoas, com o branco e o preto ao contrário, feições pretas, roupas de aparição que flutuavam...".

Dei por mim a imaginar negativos e a verificar como estas palavras traduzem o que vejo neles. Que simplicidade...

Relógios de estações de comboio/metro são outra coisa que nos fartamos de ver e que só nos interessam se precisarmos de saber as horas. É natural.

A atenção de Lobo Antunes é que é outra!

"...disseste nove menos vinte no instante em que o impulso do ponteiro nove menos dezanove, não o traço grosso, um traço fininho, o relógio sem números, quatro traços fininhos entre dois traços grossos ou seja quarenta e oito traços fininhos e apenas doze grossos..."

Arrisco-me a dizer que, além de grande escritor, Lobo Antunes dava um fotógrafo fantástico, pela sua capacidade de observação.

"...e o relógio do metropolitano prestes às nove menos dezoito que se percebia no ponteiro a vibrar para o salto, não mudava para o traço seguinte
(traço fino neste caso)
cobria-o por completo, apoderava-se dele, anulava-o..."

Sempre reparei naquele instante em que o ponteiro dos minutos se prepara para avançar, nestes relógios, e naquela pequena tremedeira, naquela hesitação. Nunca me passou de uma simples e patética observação. Até à altura em que li esta passagem!

E podia demorar-me aqui mais umas horas, enumerando estes deliciosos registos, mas acho que já mostrei a minha admiração de forma clara e o post já deve estar a dar sono a muita gente! :)

O título desta entrada é uma ambição, nunca uma obsessão!

por Bruno Carriço
15.04.2005

18 de agosto de 2005

Gonçalo Mira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Este ano celebram-se os 25 anos de carreira de um dos mais importantes e incontornáveis nomes da literatura portuguesa: António Lobo Antunes. E que melhor forma de celebrar a efeméride do que com um novo romance? Foi, exactamente, o que fez Lobo Antunes, presenteando os seus fiéis leitores com um novo romance, intitulado “Eu hei-de amar uma pedra”.

É uma boa sensação quando acabamos de ler este livro. E isto é paradoxal porque eu adorei o livro. E, supostamente, quando se gosta muito de um livro, queremos que nunca acabe. Mas Lobo Antunes é diferente de tudo o resto. O livro é belo, aliás belíssimo, mas dói. Dói porque as suas personagens sofrem e fazem-nos sofrer. Vivem uma existência angustiante, sentimentos inconfessados, segredos, medos, saudades, amores. Um turbilhão de sentimentos que nos deixa completamente atordoados. Depois há um constante apelo ao passado, aquilo que marcou a infância de cada e que nos mostra exactamente porque é que aquela pessoa é como é. E nisto António Lobo Antunes é exímio. A sua obra vive de personagens fortíssimos, no sentido em que são construídos na perfeição. Simplesmente na perfeição. Têm os seus defeitos, as suas virtudes porque são humanos. Precisamente humanos. E é essa outra palavra chave para este romance e para a obra de Lobo Antunes. Neste romance existem humanos iguais àqueles que moram no nosso prédio, iguais àqueles que costumam ir ao nosso café,  iguais àqueles com que nos cruzamos todos os dias. E é isso que torna Lobo Antunes, na minha humilde opinião, o maior escritor português e um dos maiores a nível internacional, na actualidade: sabe criar personagens que nós conhecemos.

Quando comprei o anterior romance do autor, "Boa tarde às coisas aqui em baixo", foi-me oferecido um pequeno livrinho onde estava uma “receita” para ler Lobo Antunes, escrita pelo próprio. Dizia ele que os seus livros não são para ser lidos, mas sim apanhados, como se apanha uma doença. E é mesmo verdade. Além disso dizia também que o que importa não é a história mas sim as personagens e o que elas sentem. Lobo Antunes viaja ao âmago dos sentimentos humanos como nenhum outro escritor.

Este romance, "Eu hei-de amar uma pedra", conta uma história de amor entre um senhor e uma senhora que já não são jovens, que se encontram depois de passados muitos anos sem se verem. Ele julgava-a morta e, portanto, fez a sua vida: casou, teve filhos. E ao encontrá-la de novo, viva, a paixão que tinham vivido renasce e começam a encontrar-se numa pensão. Mas este belíssimo romance conta muito mais do que isto. Descubram-no por vós próprios. Recomendo vivamente a toda a gente que ainda não descobriu este maravilhoso autor, que o descubra, pois ainda vão a tempo.

Para quando o Nobel deste senhor?

por Gonçalo Mira
2003

8 de agosto de 2005

Belém Barbosa: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


«o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente»

Fotografias, Consultas, Visitas, Narrativas - quatro partes onde se organizam histórias individuais de solidão e desamor, de impossibilidade de amar gerada por carência profunda, por rejeição, por abandono.

Um colega de Lobo Antunes ter-lhe-á contado uma história de um amor impossível que se manteve ao longo de mais de 50 anos em encontros secretos numa hospedaria de Lisboa: um casal que se reencontra casualmente, depois de uma separação abrupta por razões de saúde, a que ela supostamente não teria sobrevivido.

O escritor deixou-se seduzir e, pela primeira vez nos seus livros, um homem (que nunca tem a palavra) sabe que é amado; uma mulher mantém-se firme a seu lado, sem nada aceitar em troca, renovando semanalmente a sua intenção de não o deixar nunca. A envolvente é de uma solidão urbana extrema, que mais sublinha a impossibilidade deste amor.

Quanto à forma, mantém-se o apurado rendilhado narrativo de Lobo Antunes, mais difícil na primeira parte, em que os fragmentos da história se apresentam soltos, as personagens desligadas do enquadramento social e localizadas nas fotografias que nos vão sendo mostradas. Depois, pouco a pouco, penetramos nos segredos e no passado emocionalmente devastado de cada um dos seres, de que não se conseguem libertar.
  
por Belém Barbosa
Abril 2005

1 de junho de 2005

Rafael Conte: sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Amor e morte em Lobo Antunes

No romance do autor português confluem duas histórias: a relação com sua mulher e a fascinante história de uma doente mental de quem tratou como psiquiatra. Narrativa, poesia e ensaio, na sua obra mais autobiográfica.
   
António Lobo Antunes - talvez o escritor mais importante e original do romance de hoje a nível mundial, recentemente premiado com o União Latina e o Jerusalém 2005 - persiste e assina de novo o seu último livro, o décimo sétimo ou décimo oitavo segundo creio, imperturbável a todas as mudanças que sucedem à sua volta, dedicado até à exasperação numa escrita que o "abduz" (não encontro outra palavra) por inteiro.

António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) é um escritor muito complexo, de acesso difícil mas que fascina os seus leitores quando o são de verdade, pois acabam arrebatados pelo poder da sua escrita, que os arrasta para além da sua compreensão lógica "normal". Uma escrita "poética", que vem de um pré enamoramento da poesia que escreveu na sua juventude mas que destruiu por completo; porém este pressuposto do poético é o que preside sempre em toda a sua narrativa. Ao mesmo tempo, a sua experiência africana - foi médico militar durante quase três anos na guerra de Angola, uma das suas grandes experiências vitais, que surge em vários romances seus - fê-lo experimentar um novo conceito do tempo: em África aprendeu a simultaneidade do tempo (pois o passado só vive no presente e o futuro desconhece-se) que nos seus livros se entrecruza com a multiplicidade dos cenários, das vozes e das personagens, o que converte a sua prosa em algo muito complexo para quem procura ler romances "normais", com argumentos seguidos na sua cronologia e discurso narrativo, segundo o que é habitual no mercado do nosso consumo literário.

O seu discurso é no fundo "poético" e pratica a simultaneidade contínua de tempos, vozes e cenários em que o leitor pensa que existe um discurso intelectual que o nutre totalmente e o sustenta, como se o ensaístico se filtrasse assim mesmo no narrativo. O que não é, poesia, ensaio e narrativa são os três pilares que sustentam à sua vez esta obra singular, sem que possamos separá-los do enredo. Daí que os seus livros tenham de ser lidos com a máxima atenção, e não perder qualquer detalhe, incluindo as entrelinhas que acompanham o discurso, pois tudo quer dizer algo. Um exemplo: ao iniciar o novo livro, há uma dedicatória digamos que "negativa" que se afirma na sua ausência: "Nesta página estava uma dedicatória aos meus pais. Ainda está." Com ela se manifesta um dos vectores principais do romance, na formação das relações difíceis (pouco dedicadas, raramente carinhosas, mas sempre irrepreensíveis) do autor com os seus próprios pais, com quem teve sempre uma falta de comunicação, repleta de reticências (diziam que não o liam, ou não o entendiam), mas sempre tão irrecusáveis que a sua ausência futura não as interromperá mais.

Como no título se diz também que o narrador (o poeta que nos fala, por quem os outros nos falam, as vozes à sua vez narradoras que surgem em cada situação ou cenário, buscando-se a si mesmas através delas - e deles) "há-de amar uma pedra" (verso de um antigo cancioneiro português) que conclui: "Beijar o teu coração". Assim temos o segundo vector para entender o romance, pois trata-se, como acontece quase sempre com este escritor, de uma história de amor implacável, e que venha a terminar com a morte. É outro elemento autobiográfico no romance (os detalhes autobiográficos abundam nos seus últimos livros, muito mais que nos primeiros [...] ainda que elementos da sua própria experiência abundem em toda a obra desde o princípio, daquela Memória de Elefante - 1979 - que era a sua própria) e que não é mais do que a evocação do seu amor com a sua primeira mulher e mãe das suas duas filhas mais velhas, com quem se casou muito jovem, compartilhou os primeiros segredos e aventuras da juventude, do sexo à aventura africana, e de quem se separou inopinadamente depois da "revolução dos cravos"  (revolução de que estava certo, mesmo sem ter participado) com a explosão de liberdades que Portugal conheceu entretanto. O matrimónio desfez-se, ainda que o casal se desse razoavelmente bem, mas mais tarde sua esposa ficou fatalmente doente que o marido, médico sempre, ficou do lado dela, regressando ao seio familiar. Com esta segunda linha narrativa - a do amor destruído pela morte - completa-se a história da incomunicação paterno-filial inicial, mas ainda falta a história central, surgida da doença mental de uma paciente já idosa (de quem se diz reiteradamente que a sua idade pôs de acordo os seus anos e o seu corpo) e de quem tratou no seu exercício da medicina.

Para ordenar este caos aparente, Lobo Antunes divide o livro em quatro partes que facilitam os leitores precipitados, ainda que depois, em cada uma das partes, faça as suas devidas correspondências (ou interferências). A primeira, intitulada As fotografias, baseia-se em imagens da sua própria existência, que começa com uma foto da sua mãe tirada num dos seus aniversários - como digo, este é um livro claramente autobiográfico - e logo se complica, debulhando a sua vida ao longo de mais dez fotografias. Mas logo vêm "as consultas" (cinco) e "as visitas" (três) que se referem às consultas médicas com a doente encontrada no hospital lisboeta onde tratou a citada paciente, primeiro como profissional e depois prolongando o seu trabalho sobre um tema cuja personagem o fascinou. Por último, sete "relatos" completam a história deste livro no fundo inesgotável, baseado em três pilares incontestáveis - a relação com seus pais, o amor pela sua primeira esposa falecida e a paciente inexaurível que o importuna até a um final que talvez não venha a chegar. Três relações difíceis e de certo modo impossíveis, que se entrecruzam no interior da existência de um narrador infatigável, e que reaparece em ocasiões com o seu apelido inicial (o "pimpolho" que cresce) e até com o seu nome próprio ou para fechar um livro numa verdade inesgotável. É o mesmo livro de sempre? Talvez, mas as histórias seguem encavalitadas como sempre, tropeçaremos na mesma pedra em que se convertem os sucessivos rostos cegos dos amantes - e a imagem de Magritte do frontispício que nos mostra cegos é perfeita - que estão condenados a não ver-se, a converterem-se na pedra que têm que beijar por meio da autodestruição e frente à morte, porque trata-se de uma história condenada a repetir-se até ao final, pois é essa a sua esperança, a última a morrer, e menos mal, mas continuar amando a pedra e beijando o coração, haja coragem.

por Rafael Conte
14.05.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...