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21 de abril de 2016

Bruno (em GoodReads): opinião sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Num regresso à polifonia exteriorizada, António Lobo Antunes constrói neste romance uma nova iteração do seu universo literário. Desta vez, a tempestade de vozes e rememorações fundamenta-se num prédio residencial algures em Lisboa. A revelação da narrativa transporta o leitor num vagar irregular de um andar ao outro, de apartamento em apartamento, até que eventualmente se conhecem os oito (mais um) protagonistas: Judeus vitimados pela Segunda Grande Guerra; um comunista atropelado pela fúria do Estado Novo; uma funcionária pública exilada pela censura da sua obesidade; um bêbado, sacrificado pelas próprias falhas e excomungado pela família; Joaquim, um viúvo que sempre se sentiu aquém das expectativas, que nunca conseguira ser um homem; uma juíza que tenta evadir o tempo e o envelhecimento; Augusto, um antigo militar em Angola que se sente incapaz de resistir a nostalgia e a saudade; e, entre parentes, no sótão, uma transfiguração de um Salazar que tenta sobreviver, mesmo que numa condição atenuada, mesmo que numa total decrepitude. 

Entre estas reduções e simplificações esconde-se (e revela-se) tudo o que realmente sempre importa nos romances antunianos: a força da memória, a morte, as sobreposições espácio-temporais, a melancolia, o silêncio, a história e as histórias, a cultivação inovadora da linguagem, a cuidadosa elaboração da diegese e, enfim, as tragédias das nossas vivências tão nuas e cruas perante a nossa vontade tão forte de as ignorarmos. Desde os detalhes mais minuciosos da cultura portuguesa que patenteiam o tanto que nos une, mesmo quando nos revemos tão distintos, aos rompimentos metaficcionais que projectam um simples livro para patamares mais profundos e reveladores, está tudo presente, tudo o que, livro após livro, cimenta António Lobo Antunes como um caso à parte da literatura portuguesa. 

Esqueçam as polémicas, as entrevistas, os soundbytes, as produções mediáticas inerentes à ultra comercialização da literatura contemporânea, deixem-se, ao invés, submergir nesta maré puramente literária e verão que, mais do que o conhecimento alheio, encontrarão o caleidoscópio do vosso próprio ser. Há algo mais valioso que isto?


por Bruno
06.02.2016

21 de junho de 2015

Tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas finalista do Europese Literatuurprijs (Prémio da Literatura Europeia)

Harrie Lemmens com António Lobo Antunes
foto de João Céu e Silva - Diário de Notícias
Harrie Lemmens, tradutor holandês de António Lobo Antunes, está nomeado para o Europese Literatuurprijs - Prémio da Literatura Europeia -, que é atribuído anualmente na Holanda ao melhor livro traduzido do ano anterior publicado num país europeu.

Als een brandend huis, a tradução de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, de António Lobo Antunes, pela mão de Harrie Lemmens, está na shortlist dos 6 títulos escolhidos de entre a primeira selecção dos 20 melhores títulos traduzidos que fora anunciada em Março. Esta shortlist foi conhecida no passado dia 9 de Junho e um mês depois, a 9 de Julho, será revelado o vencedor do prémio.

O semanário holandês De Groene Amsterdammer, um dos organizadores do prémio, publicou críticas aos títulos seleccionados logo após o anúncio da lista em 9 de Junho. Citamos de seguida excertos da crítica a Als een brandedend huis, feita por Christiaan Weijts. Estes excertos foram traduzidos por Ana Carvalho.

Relembramos que a tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas foi a estreia mundial para a primeira publicação deste livro de António Lobo Antunes, semanas antes de ser publicado pela Dom Quixote o texto original em português, em Outubro de 2014.

*

A alma das coisas (excerto)


Uma pintura camada a camada, pensamentos que emergem para logo desaparecer, recordações, impressões, sonhos, farrapos de diálogos. Por vezes, repetições literais que, sendo temas recorrentes, reforçam a musicalidade. Este ziguezaguear sem pontuação procura imitar a ininterrupta corrente interior que é um misto de pensar, sentir, falar, sonhar e recordar.

Traduzir um livro destes requer uma mão extremamente segura, um ouvido musical e uma sensibilidade especial para encontrar o ritmo certo. O tradutor Harrie Lemmens dispõe visivelmente de todas essas qualidades, tendo sabido criar uma linguagem que traz à superfície uma camada de energia singularmente íntima.

Surpreendentamente, esta linguagem não é, de modo algum complicada. Até mesmo a gramática, embora algo caprichosa, não descamba em nenhum momento em poesia experimental conhecida pelo seu carácter impenetrável. Contrariamente ao que se poderia pensar na primeira abordagem, esta obra é justamente o oposto de impenetrável e confusa. É uma prosa certeira, esmerada, que, através de detalhes concretos, penetra naquilo que Flaubert diz ser “a alma das coisas”.


por Christiaan Weijts
em De Groene Amsterdammer
10.06.2015
[traduzido do holandês por Ana Carvalho]

19 de abril de 2015

Maria Gonçalves - opinião sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Caminho Como Uma Casa em Chamas: será possível ler Lobo Antunes sem que cada leitor faça a sua e particular leitura e entendimento? E que ainda assim lhe restem dúvidas e pedaços algo perdidos, como se de um filme complexo se pudessse reter tudo vendo-o apenas de uma só vez? 

Este é o sexto livro que leio deste autor e considero-o grandioso. Uma súmula apurada do seu estilo literário que me parece, aliás, ter-se ultrapassado. Dei comigo a pensar algo: por regra os seus personagens são de certo modo fatídicos e praticamente impotentes face às suas circunstâncias. Cogitam sobre várias formas do “se” no sentido de perceberam como alterar ou ainda efectuar algumas formas de melhoramento, mas, na verdade, vivem esmagados pela inacção, perante um passado que usurpa todos os tempos e oportunidades de vida, incluindo a alteração da mesma. O passado torna-se um presente ad eternum e o futuro é sempre o fim. O fim da infância, o fim da agilidade do corpo, o fim dos dias. Caminhar como uma casa em chamas é estar constantemente a aguardar a derrocada de todas as vigas, em particular das que ainda sustêm a estrutura.

Esta casa é um prédio cujos personagens vão sendo apresentados pelos respectivos andares de residência. Os capítulos são, portanto, o 1º esqº, o 1º dir, o 2º dir, ... até ao sotão onde, curiosamente, (não se sabe, nem ele próprio, se ainda é vivo, se ainda manda...), (sobre)vive Salazar e todas as caraminholas que alimentam medos, justificam o "cruzar de braços" e assaltam os pensamentos dos habitantes deste prédio cuja geração é a que hoje ainda guarda uma mente no passado: um passado inexorável e, portanto, impotente para o presente e para o futuro, qualquer que fosse a acção. 

Claro, e com todas as dúvidas de quem precisava ler este livro outra e outra e outra vez, esta não deixa de ser a minha própria leitura. Recomendo e reconheço ser este, dos livros que li do autor, um dos mais exigentes quanto à atenção do leitor.


por Maria Gonçalves
em Goodreads
04.01.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

5 de março de 2015

AM - opinião de leitura sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Este livro, último de António Lobo Antunes, tem como capítulos os diferentes apartamentos. É descrito a várias vozes, os vários narradores e a polifonia tão característicos da sua escrita.

Segundo direito. "sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados...e um bêbado  com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa...um prédio sem elevador nem garagem". "Até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que falta uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo". " Nem no meu casamento bebi, apesar de tão aflito não bebi"." Não sei se sou infeliz, como se mede a infelicidade, devo ser infeliz..."

Segundo esquerdo. Juíza maltratada por todos os namorados mais novos. O marido deixou-a quando as crianças eram pequenas. 59 anos. Morou em Castelo Branco. Com peso a mais. Acha-se feia: "demoro-me numa loja até os espelhos me expulsarem, o rosto que se alterou, a cintura que já não tenho, a forma de andar que não acredito ser minha". Usa placa. Os filhos desprezam-na: "os meus filhos não telefonam, não escrevem, a indiferença deles magoou-me, não me magoa já", ... " os meus filhos adormeciam com o meu dedo na mão e hoje nem um postal me escrevem quanto mais um telefonema ou um retrato". Pedem-lhe dinheiro emprestado. Sente-se sozinha: "em certas noites quando as vozes do silêncio nos inquietam". A quem os namorados batem e chamam "pudim de banhas". E velha: "o meu cheiro a velha porque a pele se alterou, o cabelo grisalho, as rugas, a coluna...". "A idade roubou-ma, a minha pele, o meu marido, o meu avô, quase tudo, não refiro os filhos porque não são nossos, emprestam-nos e vão-se, os meus emprestaram-mos durante vinte anos e a seguir perdi-os, primeiro custou, depois habituei-me, hoje é-me igual, estiveram aqui, não estão aqui, não me pertencem mais". Tem um piano que frequentemente interrompe o silêncio. 

Primeiro esquerdo. Bêbado. "Bebe para espertares miúdo". "Aceitava por obediência porque me ardia na garganta, depois calor, depois os ossos fosforentes, depois o corpo que demorava a tornar a ser meu e o coração no umbigo"."O silêncio depois de pancadas e gritos". "Nunca encontrei degraus tão complicados, sempre a mudarem de posição e cada vez mais altos". "Na altura não era do sabor que gostava, era de sentir-me feliz, bastava-me um golinho para conseguir voar, tão simples tudo, tão real! Se me perguntassem qualquer matéria na escola não falhava um resposta". Tem uma filha chamada Alexandra. A mulher e a filha riscaram-no do mapa, se se cruzarem na rua não se conhecem.

Primeiro direito. Judeus. "Falam em estrangeiro".

Terceiro esquerdo vive o tenente velhote, xenófobo e racista: "não se conhece a razão, alguns pretos dedicam-se, não pedem, não reclamam, não falam, acompanham a gente e obedecem", "mesmo mulatos alguma coisa lhes há-de entrar na cabeça até os animais aprendem".

Sótão: "uma tosse, um cochicho", "oiço-lhe os passos". "Contam que Salazar não faleceu, se esconde por aí continuando a mandar".

Terceiro. A actriz "lançando flores invisíveis ao público invisível". "Adoram-me". "Sou uma estrela", "encho plateias". "Mostra a esse vizinho simpático o cartão que o Salazar me enviou". " jantamos uma sopa e para chegarão fim do mês é o cabo dos trabalhos". A actriz tem 91 anos. Há muito tempo que não sai de casa, vive com a pseudo sobrinha amarradas pela pobreza. Poupam na luz para não gastar electricidade. Delírio puro: "tanto ruído no interior de mim onde actualmente silêncio que só os aplausos à minha tia que não é minha tia interrompem, tanta gente de pé na sala deserta e ela a sorrir para a direita e para a esquerda enviando beijos".

Os personagens e as vozes alternam entre o bêbado, os judeus, o cego, a actriz decadente que acha que o Salazar tem um fraquinho por ela, a cuidadora da actriz: "mora com uma velha maluca a cair da tripeça e trata-la por tia...dama de companhia de uma actriz que foi quase esposa de Salazar"), o militar, maus tratos infligidos pelos filhos, violência doméstica... Um universo de solidão ("Manhãs mais compridas, tardes curtas, noites longuíssimas", "apesar de tudo prefiro as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhado"), decadência, depressão, envelhecimento que é comum a todos os personagens ("esses fluidos dos idosos...que o corpo não segura, cuspos, suores, gotas no nariz, misérias, pingos vermelhos sem relação com as lágrimas...não choram, babam-se apenas", " o suplício das escadas, sapatos que se elevam puxados pelas gruas das pernas". Todos eles vivem amarrados ao passado. Alguns com terror do passado. Gente psicótica com a mania da perseguição. Gente com muita falta de afecto. A temática da guerra sempre presente, mesmo que de forma subtil. Há, também, sempre um médico. A maioria dos personagens não tem nome. A narrativa do livro parece passar-se no outono, não por acaso, a mais triste das estações do ano.

António Lobo Antunes parece usar as suas memórias reais, como por exemplo, o seu pai, professor conceituado de Medicina e assistente de Egas Moniz, quando consultou Salazar aquando da sua  célebre queda da cadeira: "-Salazar um gigante - disse o professor. - Vi-o como daqui para aí." E dos tempos de aluno de Medicina: "cerebelo hipotálamo calcâneo". O prédio situa-se algures em Lisboa. O enredo  divide-se, ou refere-se pontualmente, a Castelo Branco, Portalegre, Carcavelos, Barreiro ou a "genérica" província ("todas as terras da província se assemelham mais igreja menos igreja").

Sempre com pormenores detalhados sobre o comum quotidiano e sempre com um revivalismo e saudosismo dos anos 70/80: "a lavar a marquise com a esfregona". "O horror dos domingos quando as vozes da infância nos visitam". Os poucos nomes de personagens, alguns são pindéricos: Sofia Rosa. Descreve sempre situações com uma memória fotográfica surpreendente. A descrição pormenorizada de sensações como a náusea: "o corredor às voltas, no quarto um abismo e eu agarrado ao colchão". Analepses e prolepses constantes entre a infância e o presente.


por AM
04.03.2015

25 de fevereiro de 2015

Ana Fernandes sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas (blog Delfos)

Até a pedra mais pequena encerra um mundo em si. Até a mais corroída pela erosão, até a mais invisível. Ver o que está para lá dessa pedra desgastada, observar os seus mundos em conflito, saber que esses mundos existem, é o que a literatura nos pode ensinar. A partir daí, para mim, todas as discussões sobre o que a literatura pode ou não pode, deve ou não deve, não têm importância nenhuma.

Se para João Botelho o cinema se resume “a luzes e sombras e seres-humanos aflitos no meio”, a literatura não é muito diferente uma vez que todas as personagens procuram um lugar ao sol para se aquecerem. Mesmo as mais comuns, mesmo as que vivem no mais banal dos prédios no mais banal dos bairros. Ir além da aparente erosão dos rostos, além do que transbordam para fora, significa encontrar um mundo não menos verdadeiro nem menos válido. Só alguém com mestria é que o consegue descrever com uma tal sensibilidade que põe tudo a descoberto e desarma. A literatura também é isso, desarmar e ganhar o péssimo vício de se ver tudo de todos os ângulos. Olhar para alguém, virá-lo do avesso, desarrumá-lo e ver o seu todo. Presas entre o desencanto, o passado e o presente, entre a solidão e as desilusões, entre os desejos e ilusões, as personagens que se dão a conhecer na primeira pessoa em ‘Caminho como uma casa em chamas’, de António Lobo Antunes, reflectem isso mesmo – mundos desfragmentados que pertencem a um quotidiano demasiado perto de nós. Mundos demasiado fortes a oscilarem pelo tempo desconexo sem, no entanto, deixarem de ser comuns e palpáveis. Mundos que poderiam, muito bem, habitar no prédio em que vivo. Este é um dos livros em que, estranhamente, há uma familiaridade que fala mais alto, uma acessibilidade que o leitor sente quase de forma invasiva porque todos nós cabemos ali. Se as personagens têm um lado pitoresco e se escondem na sua sombra e ilusão? Claro que sim. O que temos são mundos fechados em si mesmos, afastados do seu presente e quotidiano, afastados do que já não podem ter. Não deixa de ser curioso, no entanto, que seja um pouco desse lado pitoresco que nos aproxima delas. Somos nós, enquanto sociedade portuguesa, que ali estamos. Desde a juíza, passando  pelo combatente da  Guerra Colonial, até ao simples bêbado (este último protagonista da melhor e mais comovente narrativa que já li), estas pessoas, embora perdidas na sua sombra, carregam consigo o desejo mais democrático, humano, concreto e palpável que há — a necessidade de amor. Por instantes, é como se estivéssemos a olhar para crianças grandes e desajeitadas, com os braços no ar, a pedir da melhor forma que sabem, ‘ama-me, fica comigo’. É o reconhecimento dessa necessidade que não escolhe formas nem feitios e a mestria em descrevê-la que torna A.L.A um escritor da humanidade, de toda a humanidade, daquela palpável e banal que se cruza connosco nas ruas de todos os dias.


por Ana Fernandes
23.01.2015

11 de janeiro de 2015

João Tunes - opinião de leitura sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Mais Lobo Antunes e nós

No último romance de Lobo Antunes ("Caminho como uma casa em chamas", Dom Quixote), o seu sempre igual olhar pessimista de lucidez que primeiro dói e depois nos envolve e aquece porque somos animais de carne quente mas, no caso, com o culminar da maturidade feita obra maior. E tal como aos velhos e aos camponeses, aos escritores maduros também se lhes topam as manhas desde que se saiba dar-lhes a volta ou perceber essas neles. Assim, Lobo Antunes, com a sua cena pessimista, já a poucos "enganará". Ele vai por aí, pelo descarnar das nossas misérias e descrenças, para nos chegar ao osso e ao nervo. E depois, sabichão é o tipo, sabe bem que não temos outro remédio que para sairmos daquele mau estado na fotografia do que voltarmos a nós, que se temos sombras (e temo-las, é claro) é porque não nos falta luz. E, no final (não do livro, mas de cada parágrafo, senão não sobrava fôlego), recompomos as coisas dizendo para nós (e para o escritor): «pois, dás-me um lado porque sabemos, nós e tu, que há outro, o que achas desnecessário mostrar».

Neste romance, obra de mais velho, Lobo Antunes repete o estilo da "escrita incompleta" pronta para ser feita a quatro mãos, ele e o leitor. E só assim se consegue lê-lo. Ou seja, ele como que come nas palavras (aparentemente, sim) para que nós, os leitores, possamos também completar-lhe o livro. Em resultado, ler Lobo Antunes dá trabalho mas premeia, e que bem, o esforço em o ler, levando-nos para dentro do acto literário. Ele não nos dá leituras grátis. Só lhe podemos agradecer por isso. A quem quiser leitura sossegada deixo-lhe uma dica de amigo: parece que o Miguelito (também conhecido como MST) pariu mais um livrito para vender como prendinha de natal.


por João Tunes
13.12.2014

9 de janeiro de 2015

Ecos de silêncio numa casa em chamas - artigo de Agripina Vieira no Jornal de Letras

Que melhor maneira poderia um escritor ter de comemorar a atribuição de um doutoramento honoris causa (mais um), neste caso pela Universidade Babes-Bolyai de Cluj, na Roménia, e o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, de que oferecer aos seus leitores mais um dos seus admiráveis textos? Foi exactamente isso que António Lobo Antunes fez, dando-nos a oportunidade de mergulhar novamente no mundo ficcional, intenso e envolvente, por ele criado.

Com Caminho como uma Casa em Chamas, [...] o autor propõe-nos uma visita guiada aos diferentes apartamentos de um prédio com quatro andares e um sótão, levando-nos a descobrir a existência dos vários inquilinos (dois em cada piso), que em discurso na primeira pessoa desvendam não só as suas angústias, medos e emoções, mas igualmente a percepção que têm da vida dos seus vizinhos. Desta visita fica arredado o ocupante do sótão que, apesar de diversas vezes referido (a vizinha do primeiro direito diz ouvir passos mesmo não acreditando numa presença, o militar do terceiro esquerdo percebe uma tosse e um cochicho, enquanto o irmão da criada da actriz do terceiro direito fala em “sonzinhos mínimos”), só se faz ouvir no derradeiro capítulo.

Desta breve apresentação ressalta desde logo a presença de ecos inter-textuais com a obra excepcional de Georges Perec, La vie mode d’emploi, com a qual Caminho como uma Casa em Chamas tece indeléveis ligações, ao nível da arquitetura da diegese e também da construção das personagens.

A partir desses espaços fechados (o prédio; os apartamentos) e pelo poder da memória, a efabulação alarga-se a tempos anteriores e a espaços outros, convocando acontecimentos, objectos e indivíduos que marcaram decisivamente as existências dos habitantes do prédio. A importância da memória para a economia da narrativa está espelhada em inúmeros trechos, como na seguinte constatação do judeu do rés-do-chão direito: “Que curioso o tempo, volta e meia marcha ao contrário recuperando cenas perdidas”.

São, pois, essas cenas perdidas, que se apresentam como fragmentos de uma vida passada, peças de puzzle de um mosaico que na narrativa vai tomando forma, que as personagens vão recordando. Embora estejamos em presença de histórias individuais, a efabulação ganha um sentido mais preciso através do diálogo que entre si entretecem, já que a narrativa da história individual se completa e consolida através do olhar e da percepção que os outros dela têm.

A construção da diegese alicerça-se, assim, numa alternância de vozes que, sucessivamente, vão relatando os acontecimentos à luz das suas vivências, dando corpo a uma narração fragmentada e polifónica. Neste jogo de vozes e de olhares sobre o mundo, somos guiados de apartamento em apartamento, o mesmo é dizer de vida em vida, por uma entidade que apenas surge mencionada pontualmente pelo viés da referência à sua actividade, a de estar a registar as falas das personagens ou de pedir para que façam o seu registo, patente como nos seguintes excertos: “ponham anuir que impressiona”; “não escrevo que uma gargalhada, escrevo que divertido”; “não arranjei  maneira de escrever isto bem mas espero que entendam”; “ia escrever violência e acertou em cheio”; “não me obriguem a escrever isso”.

Lobo Antunes recupera deste modo a composição discursiva já utilizada em O Manual dos Inquisidores, que decorre de um processo de questionamento ou inquirição, o qual dá azo a que as diferentes narrativas apareçam como testemunhos ou respostas a uma voz que não se faz ouvir, mas cuja existência está implícita nas respostas obtidas pelas outras personagens, que deste modo revivem um passado, que muitas vezes prefeririam esquecer ou calar.

Cada um dos moradores dos oito apartamentos, a que se associa uma panóplia de personagens ímpares que com eles (con)vivem ou (con)viveram, traz para o presente da narração recordações obsidiantes, nas quais reencontramos os grandes temas que marcam o universo ficcional do escritor; a guerra colonial, o processo de descolonização, o governo do Estado Novo, a desagregação da família, a solidão. A estes junta-se uma temática menos presente no universo romanesco antuneano: a II Guerra Mundial e o seu cortejo de horrores e perseguições, que surge associada à história dos ocupantes do rés-do-chão direito.

Apesar de terem tido percursos de vida assaz diferenciados, o homem doente do segundo direito, a juíza do segundo esquerdo, o ex-militar do terceiro esquerdo, o bêbedo do primeiro esquerdo, os dois irmãos judeus do rés-do-chão direito, o comunista forçado a colaborar com a polícia do rés-do-chão esquerdo, a funcionária das finanças do primeiro direito, a velha actriz do terceiro direito e até “o eco atenuado de uma autoridade extinta, no caixote do sótão” (no qual reconhecemos a representação da figura de Salazar) partilham uma semelhante angústia e uma igual dor, a solidão, que leva o bêbado a afirmar: “caminha-se como uma casa em chamas, caminhamos todos como casa em chamas e o telhado do cérebro a arder”. 

É porque “as vozes do silêncio [a] inquietam”, que a juíza se deixa explorar por um jovem funcionário do tribunal a troco de uma ilusão de sedução e carinho, depois de ter sido abandonada pelo marido e pelos filhos. Também o inquilino do rés-do-chão esquerdo, o comunista/colaborador, prefere “as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhado”. Se todos padecem de igual temor, é pela voz da velha e louca actriz que encontramos a mais pungente constatação do tormento que a solidão causa: “ - Só necessito de um bocadinho de companhia amigo / não palavras, não comida, não conforto, uma presença apenas, outros passos além dos seus no soalho e outra voz mesmo que eu não falasse consigo, um estar ali que parecendo que não tranquiliza”.

A clausura que determina e condiciona a existência destas personagens é tanto mais ampla quanto diferenciada, já que sendo antes de mais física (os moradores estão confinados ao espaço fechado do prédio) é também, e sobretudo, emocional. Cada um dos indivíduos que habita o prédio (“que prédio este caminhando como uma casa em chamas”) vive enclausurado na solidão, nos segredos e nas recordações que incessantemente presentificam um passado.

Particularmente expressiva é a “presença atenuada de uma autoridade extinta” que se adivinha no sótão do prédio. Apesar de encontrarmos referências subtis e dúbias a essa figura ao longo de toda a obra, a sua identidade apenas toma contornos mais definidos nos dois últimos capítulos do romance, revelando-nos um Salazar decrépito, pobre e só, que vive da benevolência da criada da actriz louca do terceiro direito que lhe leva todos os dias um prato de sopa. Na construção desta personagem perpassa uma trágica ironia, confinando a um espaço que é por excelência de clausura e de isolamento quem pautou as suas atitudes e decisões por ideários de conservadorismos e pequenez, condenando um país a um enclausuramento político, social e até cultural.

Com Caminho como uma Casa em Chamas, António Lobo Antunes propõe aos seus leitores mais uma viagem aos sótãos das (nossas) existências, oferecendo-nos um texto que se abre à complexidade identitária do indivíduo, numa efabulação que se constitui como uma interrogação da nossa vida, uma inquirição das nossas práticas enquanto indivíduos mas sobretudo enquanto sociedade.


por Agripina Vieira
15 a 28.10.2014

texto do artigo disponibilizado por cortesia do Jornal de Letras (na pessoa de Leonor Nunes) e de Agripina Vieira.

[revisão do texto por José Alaexandre Ramos]

1 de janeiro de 2015

Rui Fonseca: "Um país como uma casa em chamas"

Há neste 25º. romance de A Lobo Antunes uma casa habitada por personagens condenados à amargura das suas vidas desesperadas. Conversas dispersas, suspensas, cruzadas, no tempo e no espaço, interrompidas, inacabadas, compõem uma colagem que obriga o leitor a uma identificação, frequentemente labiríntica, dos fios com que o autor tece um texto amargo do princípio ao fim ainda que pontuado por notas de humor cáustico, por vezes divertido. 

É uma metáfora do país que habitamos neste final de 2014? 
Em certo sentido sim. Mas não me parece que essa identificação, que já vi referida numa ou outra apreciação crítica, possa ser transposta do tempo do romance (meados do século passado) para o Portugal de hoje sem alguma ressalva. Certamente que aqueles personagens enclausurados num espaço comum repartido caracterizam uma sociedade que subsiste ainda que os fantasmas que as habitam tenham mudado de pele e de nome. Mas não são estes os personagens que ocupam a cena deste país em chamas que habitamos hoje, não são estes zombies que atearam o fogo e colocaram uma parte da população em fuga. 

"Caminho como uma casa em chamas", repete obsessivamente o autor, num quadro onde as alusões, os traumas dos residentes da casa (Quem manda, quem manda, quem manda, Salazar, Salazar, Salazar, repetições que lhe retiram intemporalidade) não remetem para o Portugal actual, saqueado por políticos sem escrúpulos, banqueiros gananciosos, crápulas com máscaras que ninguém, por mais que o deteste, confundirá com o ditador de Santa Comba.

Portugal caminha como uma casa em chamas. É do título que destaco a maior actualidade desta obra de A Lobo Antunes.


por Rui Fonseca
31.12.2014

25 de novembro de 2014

Citações da crítica à edição holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas (Als Een Brandend Huis)

Por cortesia de Maria da Piedade Ferreira, transcrevemos aqui algumas citações de crítica à edição holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, Als Een Brandend Huis. Relembramos que a edição da Ambos Anthos antecedeu a edição em português da Dom Quixote, tendo sido a estreia mundial do livro. Estas citações foram recolhidas e traduzidas por Ana Carvalho, esposa de Harrie Lemens, o tradutor em holandês da obra de António Lobo Antunes.

*

«Como sempre, Lobo Antunes é capaz de delinear qualquer situação através de uma imagem inesperada, por exemplo, o momento da despedida de dois amantes desiludidos (Despedimo-nos num aperto de mão de negociações políticas sem acordo.)

A maior força de Lobo Antunes é ele conseguir arrebatar o leitor com uma intensa e crescente compaixão pelas suas personagens.»

por Ger Leppers
em Trouw

*

«...saiu antes da edição portuguesa, graças à interferência do seu tradutor de sempre, Harrie Lemmens, que uma vez mais soube verter primorosamente para o neerlandês essa prosa tão densa.

Neste livro ele disseca com uma precisão cirúrgica a psique de um país traumatizado.

O que torna “Caminho como uma casa em chamas” num romance inconfundivelmente Lobo Antunes é o seu estilo evocativo, a esvoaçar de uma situação para a outra, mas escrito e traduzido de tal forma que o leitor jamais perde o fio da história. Os diálogos são aqui entrecortados pelos ecos do passado.

“Caminho como uma casa em chamas” lê-se como um jogo de sons, quase como o roteiro de uma produção radiofónica.»

por Ger Groot
em NRC

*

«António Lobo Antunes é um escritor extraordinário. Deixe-se levar pela leitura: António Lobo Antunes é um mestre da narrativa.»

por Maarten Moll
em Parool

*

«António Lobo Antunes escreveu um romance caleidoscópico em que não incomoda o facto de não haver praticamente enredo.

Ler António Lobo Antunes é uma escolha deliberada. Porque numa conjuntura literária em que domina a narrativa (anglosaxónica) plot driven, a sua prosa coloca outras exigências ao leitor. Exigências muito maiores. O grande crítico literário Harold Bloom disse uma vez considerar a literatura como um prazer penoso, e esta definição aplica-se plenamente à obra de ALA.

A abundância de metáforas dos seus primeiros livros deu, entretanto, lugar em romances posteriores ao estilo único que ele foi desenvolvendo com o tempo. Poder-se-ia aqui tirar da gaveta o termo stream of consciousness, mas é muito mais do que isso. Estilo único, sim, porque, na minha opinião, é impossível compará-lo com quem quer que seja. Só talvez com Faulkner, no seu manejar de vários tipos de linguagem, nos farrapos de pensamentos que ora se impõem ora se desvanecem.

Fica-se com uma estranha sensação de sincronia, como se ao lermos nos encontrássemos dentro de uma mente omnisciente de que emanam as oito mentes narradoras.

Li as primeiras páginas lentamente, voltando sempre atrás com receio de perder alguma coisa. Ora isso é o pior que se pode fazer. A prosa de Lobo Antunes exige do leitor uma entrega total. Notei que a leitura passou a fluir melhor a partir do momento em que decidi deixar-me levar pelo ritmo da voz narradora. A leitura transformou-se então numa espécie de transe, numa experiência em que pouco importa se neste romance caleidoscópico há ou não um enredo.

A prosa de Lobo Antunes provoca fortes emoções, sobretudo pela forma como ele consegue evocar imagens que nos ficam gravadas na mente. Em frases que nos tocam profundamente.

Basta de divagações: quem quiser saber do que a literatura é capaz sabe agora qual o caminho a seguir.»

por Jeroen Vullings
em Vrij Nederland

*

«António Lobo Antunes explora as cavernas sombrias da mente humana. Os seus romances são tão complexos como a própria vida.

Nesta polifonia ensurdecedora o passado e o presente entrecruzam-se continuamente culminando numa simultaneidade aparentemente estranha. Este método, embora brilhante, exige o máximo do leitor a quem não resta outra alternativa senão deixar-se levar pelo turbilhão da torrente de pensamentos.

Ler António Lobo Antunes (...) exige a máxima concentração, mas o que se recebe em troca compensa plenamente esse esforço.

Um romance brilhante e vertiginoso.»

por Marijke Arijs
em De Standaard

*

Um agradecimento especial da nossa parte dirigido ao casal Harrie Lemens e Ana Carvalho pela recolha destas citações.

15 de novembro de 2014

José Mário Silva, "Um remexer no escuro" - crítica a Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Um remexer no escuro
 
Os dois romances anteriores de António Lobo Antunes – Comissão das Lágrimas (2011) e Não é Meia Noite Quem Quer (2012) – centravam-se numa personagem feminina muito forte. Era dentro das protagonistas, no seu espaço mental, que as coisas aconteciam e as histórias, próprias ou alheias, se misturavam. Em Caminho Como Uma Casa Em Chamas, o escritor preferiu uma estrutura aparentemente mais convencional, já utilizada por muitos outros autores (de Georges Perec a Alaa El Aswany, passando por Nuno Camarneiro, um recente Prémio LeYa, e até pelo Saramago de Claraboia), e que consiste em descrever a vida dos habitantes de um prédio. Neste caso um edifício lisboeta, «a um canto da cidade, longe do rio».

Tratando-se de Lobo Antunes, era improvável que o romance se deixasse enclausurar em esquemas formais rígidos. De facto, isso não acontece. Cada capítulo leva-nos a um dos oito apartamentos (do R/C esquerdo ao 3.º direito, mais o sótão supostamente desabitado) mas depressa percebemos que os inquilinos vivem em casulos quase estanques, interagindo pouco uns com os outros. Eles sabem bem «a quantidade de coisas de que o passado é feito», porque só se podem agarrar à memória. São quase todos velhos mais ou menos próximos da morte, solitários com tendência para o delírio, deserdados do amor, esquecidos pelos filhos que só aparecem, quando aparecem, para lhes exigir dinheiro.

Nesta pequena galeria há lugar para um advogado viúvo, submisso toda a vida à mulher, que o humilhava; para uma actriz indiferente às «traições do tempo», alucinada, julgando-se ainda rainha de um público invisível («eles adoram-me!»); para uma juíza com medo da decadência física, a quem um amante mais novo chama «esquilozinho gorducho», e que toca piano rodeada de um «excesso de tralha», enquanto evoca a infância em Castelo Branco e os «vapores da Gardunha ao longe»; para dois judeus ucranianos, irmão e irmã, assombrados pelo terror de que fugiram; para um coronel que esteve em Angola e amou uma mulata (deixada para trás no regresso, talvez grávida), e cuja imagem, mesmo «agora que tudo acabou», ainda o persegue; e para outras figuras igualmente trágicas, patéticas, ou apenas sujeitas à «ruína das coisas».

O mais admirável neste romance é a forma como Lobo Antunes cria a sua habitual polifonia em cada um dos núcleos – essa complexa sobreposição de tempos e espaços que está na matriz da sua escrita – mas depois os consegue misturar através de ecos e estribilhos, rastos de frases que saltam de uma casa para outra. Apesar das diferenças entre os vários planos narrativos que coexistem debaixo do mesmo telhado, há também muito em comum: uma mesma «poeira ténue de imagens, vozes, sons» a «atravessar-nos a cabeça misturando os pensamentos e diluindo as ideias», a permitir «um remexer no escuro», uma exploração do que há de mais íntimo e secreto em cada personagem.

No final, a figura de Salazar, omnipresente ao longo do livro enquanto memória do Portugal em que estas pessoas cresceram, materializa-se no sótão, «cubículo sujo» onde se esconde o «senhor doutor sempre de fato e gravata, sempre bem penteado», mesmo se a roupa já está no fio e as botas gastas, «uma das solas aberta com os preguinhos ao léu». Ele é «a presença atenuada de uma autoridade extinta», convencido de que ainda dirige o país, quando na verdade depende da «sopinha» quotidiana, trazida pela dama de companhia da actriz que mora mesmo em baixo, e terá sido um dia sua amante.

Além de uma síntese dos principais temas lobo-antunianos (famílias em ruínas, África e os restos do império, solidão, miséria existencial, trabalho da memória), este romance é também o retrato duro de um país que ainda tem, sobretudo em gerações mais velhas, as marcas do salazarismo no seu subconsciente colectivo.


por José Mário Silva
11.11.2014

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

31 de outubro de 2014

Isabel Lucas: crítica a Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Contra mim eu escrevo

Quatro andares, oito inquilinos mais um, num romance com os elementos de Lobo Antunes: o tempo, a velhice, a morte, um país às voltas com a sua identidade e o delírio de existir

António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) contou numa crónica como lhe surgiu este romance: a desenhar uma casa na página que tinha em frente, incapaz de escrever uma frase. A casa ganhou pisos, que o escritor dividiu em esquerdo e direito, e tornou-se um prédio, um “edifício a um canto da cidade, longe do rio, com um salão de cabeleireiro à esquerda”. Depois foi arranjar inquilinos para esse prédio, dar-lhes um quotidiano e uma relação de vizinhança, paredes que deixam passar falas e com elas a hipótese, quase sempre fracassada, de adivinhar cada existência interpretando sinais. É uma tarefa semelhante à do leitor do romance, alguém que neste caso tem mais acesso a cada habitante do que a um seu vizinho, mas que nunca está na posse de todos os elementos para resolver o enigma de cada vida, apesar de ela lhe ir sendo narrada na primeira pessoa.

O “eu” de Lobo Antunes constrói-se do mesmo elemento de que é feita a memória, pouco cronológica, por vezes de uma precisão avassaladora, outras difusa, alterada por estados de alma, dispersa, múltipla. Entre o delírio e a visitação de outras vozes, todas as que compõem cada vida, num puzzle que cabe ao leitor ir montando com a sensação de que está a partilhar o ritmo e o fôlego do escritor, a seguir as pistas que este lhe vai dando, com a certeza (intuída) de que no fim vão faltar peças e o enigma há-de persistir.

Apesar de se tratar de um romance polifónico — uma característica dos livros de António Lobo Antunes (e mesmo das crónicas) —, da leitura subsiste a sensação de que podia ser apenas a uma voz, a história de gente que vive num prédio com quatro andares mais sótão numa rua de Lisboa contada por um habitante imaginário que tem acesso a quase tudo. Cada capítulo, um andar, direito e esquerdo, com quem o habita. O viúvo de uma mulher que nunca o amou e a quem o filho mais velho pede dinheiro; uma juíza solitária angustiada com o envelhecimento e as memórias; dois irmãos judeus fugidos do Holocausto; uma velha actriz ex-amante de Salazar; um bêbado sempre a gritar pela filha; o ex-combatente em Angola, racista, às voltas com o amor de uma mulata que lá deixou e com uma guerra que não o deixa; a gorda do primeiro direito que demorou anos a perceber que existiam “arrepios sem gripe”; o velho à espera de morrer, como afinal todos os outros.

Essa é a única certeza da existência humana, parece querer escrever o escritor, que tem sempre muito próxima (pelo lado essencial) a sabedoria popular como guia, do que resulta uma paródia de sentidos, uma lengalenga, uma cantilena tantas vezes alucinante. “Rei capitão soldado ladrão”, entoa uma personagem que diz ter “miolos de ferro velho”. Não se cala: “Dança o cão dança o gato dança o feijão carrapato.” O escritor pega em cada frase como numa ideia e desconstrói-a, seja mudando-lhe a perspectiva, alterando-lhe o contexto, ou repetindo-a até se tornar numa quase abstracção: o que é estar aqui e envelhecer até a morte chegar? No fundo tudo se resume a isto. Neste e em cada um dos 25 romances de António Lobo Antunes. Uma interrogação-síntese onde cabem um país e os seus fantasmas, uma memória recente doída, cada vez mais sentida do que a dor que a foi alimentando.

Mas nada é só passado. As percepções são presentes, só que quem é que as agarra? Caminhar como uma casa em chamas é andar nesse desequilíbrio existencial. Seja um indivíduo, um prédio ou um país. “Caminho como uma casa em chamas, reparem nas minhas empenas, nos meus algerozes e nas minhas paredes a arderem, somos todos irmãos”: é a voz da juíza com medo do fim aos 59 anos, a ouvir o bêbado gritar “Alexandra”, o nome da filha, “dobrando o cinto no pulso”, com medo de acordar sem companhia e também a caminhar como uma casa em chamas. Como todos. A frase repete-se como o coro numa tragédia. Um baralhar de sentidos sem sair do mesmo em que o escritor se tornou exímio — e a pergunta que se faz é: até que ponto, sem cansar, sem soar a já visto? No dosear está muita da sua arte de manipular emoções. Não revela cartas, mas sempre que elas vão a jogo são reconhecíveis como suas. Sempre a loucura de estar aqui num sem-sentido. Quem não se reconhece? É vertiginoso.

Já se percebeu que estamos perante todos os ingredientes de Lobo Antunes nesse tratar o delírio existencial que, mais uma vez, nos coloca perante a sua capacidade de trabalhar a língua, captando-lhe tiques, socorrendo-se de cada um dos seus utensílios, da fala de rua ou da erudição, para criar um universo onde a ironia entra em doses curtas mas letais e a angústia do fim surge no seu peso eterno. Onde vive isso neste prédio? Em cada um dos que o habitam, mas sobretudo no sótão, onde mora a “presença atenuada de uma autoridade extinta”, um Salazar tornado divindade, porque “infinito”, que décadas depois continua a achar que comanda o país.

E o país ainda a tentar perceber o que é depois dele, com ele “no sótão” — pese todo o facilitismo da expressão. Fascistas, comunistas e outra geração, a que nasceu depois da memória do fascismo, sem identidade. “O que é ser eu?”, interroga-se a sobrinha da actriz do terceiro direito, e a pergunta é um espelho para quem a lê. Para os vizinhos, ela é “a criada da maluca”, sem saberem que ela é também a que leva a “sopinha” ao sótão.

Ao [25].º romance, António Lobo Antunes toma um tema batido na literatura — um prédio e os seus habitantes — para mostrar o que se pode fazer com ele. E é muito bom. Mas António Lobo Antunes tem-se a si mesmo como termo de comparação. Caminho Como uma Casa em Chamas é um excelentíssimo livro, mas a memória traz outros onde foi capaz do tal arrebatamento, da surpresa maior. Estarão os grandes escritores sempre a escrever contra si mesmos?


por Isabel Lucas
31.10.2014

27 de setembro de 2014

Caminho Como Uma Casa Em Chamas: a capa do novo livro a publicar em Outubro

Após divulgarmos a capa da estreia mundial com a edição holandesa da Ambos Anthos, esta é a capa da edição Dom Quixote.


O livro, o 25.º romance do autor, tem como fio condutor um prédio algures em Lisboa e as vidas das pessoas que nele vivem, mas este é apenas um pretexto para António Lobo Antunes nos maravilhar com a sua escrita única e a sua descida cada vez mais fundo ao que de mais íntimo há em cada um de nós.

Em estreia mundial, o livro será primeiro publicado pela holandesa Ambos Anthos, previsto para dia 14 de Outubro, e só depois será publicado em português pela Dom Quixote (LeYa), previsto para o dia 21.

Entretanto, dia 6 de Outubro, António Lobo Antunes estará em Cluj-Napoca, na Roménia, para receber as insígnias de Doctor Honoris Causa pela Universidade Babeș-Bolyai.

9 de maio de 2014

PRÉ-PUBLICAÇÃO: CAMINHO COMO UMA CASA EM CHAMAS


O novo livro de António Lobo Antunes, Caminho Como Uma Casa Em Chamas, será publicado em Outubro deste ano pela Dom Quixote, duas semanas após a sua «estreia mundial», com a publicação pela editora holandesa AMBOS ANTHOS (com tradução de Harrie Lemmens). O livro, segundo havia adiantado o DN em 28.10.2013 (pela altura do dia do escritor no Centro Cultural de Belém - ler artigo), «passa-se num prédio onde os moradores, narradores solitários de si mesmos, são incapazes de compreender e de ser compreendidos».

O livro, o 25.º romance do autor, tem como fio condutor um prédio algures em Lisboa e as vidas das pessoas que nele vivem, mas este é apenas um pretexto para António Lobo Antunes nos maravilhar com a sua escrita única e a sua descida cada vez mais fundo ao que de mais íntimo há em cada um de nós.

Por sugestão e cortesia de António Lobo Antunes e da sua editora Maria da Piedade Ferreira (LeYa), foi-nos cedido o texto que abaixo citamos, como pré-publicação das primeiras páginas do primeiro capítulo deste novo título, o 30ª na bibliografia oficial.

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ANTÓNIO LOBO ANTUNES | CAMINHO COMO UMA CASA EM CHAMAS


Segundo Direito

     Não gosto do apartamento porque não me encontro, pequeno,a brincar na marquise, alugámo-lo ao casar e o resultado estes filhos, a tua asma, sobretudo eu tão desajeitado, tão fraco, em solteiro a minha mãe protegia-me não do meu pai que nem me via, das minhas irmãs e do meu irmão, gabava-me às visitas
     – Tira os óculos para a dona Adelaide reparar nesses olhos azuis
     o mundo uma névoa difusa, a dona Adelaide surpreendida
     – Quem havia de dizer que são lindos?
     e logo a seguir com dó
     – Que pena tantas dioptrias
     não gosto do apartamento nem dos móveis, a água da jarra mais murcha que as flores, gritos de obrancelhas rápidas na janela a que chamam andorinhas, a minha mãe de súbito nova
     – Primavera miúdo
     como se a primavera se visse, talvez um tinir de faiança nas folhas ou mais raparigas lá fora e eu inexistente para elas, as sobrancelhas do professor subiam do caderno até à minha cara sumindo-se a desprezarem-me nos telhados
     – Em cada frase três asneiras
     não gosto do quarto de que não tirei a poltrona na qual te sentavam com a máscara de oxigénio, um chinelo num pé, o segundo perdido, eram as tuas pálpebras que respiravam sobre a máscara, não os pulmões, as tuas pálpebras dois sapos com barrigas de pregas zangados comigo
     – Nunca valeste nada
     sob o cabelo também mais murcho que as flores, uns caulezitos cinzentos, umas pétalas húmidas, o pé do chinelo teu, o pé sem chinelo de uma estranha, durante meses a fio devolveste-me as cartas onde em cada frase três asneiras
     – Que teimosia escrever-me
     o pé sem chinelo desconhecido, vermelho, inchando e desinchando igualmente ao ritmo das pálpebras, o que não inchava e desinchava aqui, as paredes, a cama, os trinta anos que passámos juntos, escrevo-lhe porque aprecio a menina e não fui capaz de melhor que esta prosa idiota, não desejava ofendê-la, não gosto do quarto consoante não gosto do quarto dos meus filhos, foram-se embora e o contorno dos armários permanece no reboco, sinto-lhes e não lhes sinto a falta, não lhes sinto a falta, a janela deles para as traseiras, outrora um descampado com cordeiros a mastigarem o som dos badalos e agora um largo, a farmácia, Farmácia Salutar que nome, uma agência de viagens, o teu ombro num sorriso de troça
     – Se lhe apetece continuar a escrever é consigo
     de óculos como eu, nem sequer bonita, nem sequer simpática, o que achei em ti, não gosto do cão de loiça comprado num armazém de velharias no meio de estribos, lanternas, aparadores, foste direitinha ao animal
     – Que giro
     e embora não fosse giro calei-me, calei-me sempre, a cabeça do bicho a acenar
     – Palerma
     desde o primeiro dia até hoje
     – Palerma
     um buldogue com as bochechas pendentes da dona Adelaide, no caso de lhe perguntar
     – Disseste o quê?
     uma pausa perplexa, o queixo que hesita, reflecte, se decide por fim
     – Palerma
     sacudia-se a barriga oca e um parafuso a tilintar enquanto a água da jarra murchava, animava-se com o sol e tornava a murchar, não gosto do apartamento à noite porque tenho a certeza de ir morrer sozinho, o meu filho mais velho exige dinheiro que não há, a impressão que a minha mãe a chamar-me num agosto de outrora, no norte
     – Joaquim
     os meus cunhados na varanda, depois da varanda a vinha a descer, troçavam-me
     – Tótó
     e o meu pai não os desmentia, nos bolsos dele dúzias de palitos, a minha mãe indignada
     – Qualquer dia não te sobra um dente na boca
     e não me recordo de lhe assistir a um sorriso, lia o jornal o tempo inteiro ou seja na minha opinião não lia nada, não conversávamos ele e eu, a vinha e sem neblina os candeeiros de Manteigas ao longe, conversar de quê, tão parecidos, desajeitados, fracos, o que fez você de útil pai, o que se aproveita, o que fiz eu de útil pai, o que se aproveita, fitamo-nos e vazio, se ao menos a gente, para quê dizer, não interessa, moro neste segundo direito desde que casámos, a minha mulher sem óculos a descer as escadas da igreja agarrada ao meu braço
     – Há mais algum degrau?
     na sala o tapete que vai perdendo a cor, o sofá que me crava molas nas costas e a bandeja de cobre para o correio na arca da entrada, a lua de mel numa hospedaria em Sintra com estrangeiros para cá e para lá no corredor, a vergonha dos meus ossos saídos
     – Não repares em mim
     Sintra à noite, Manteigas à noite, o meu cunhado arquitecto
     – Não é Manteigas é Seia
     a minha mulher admirada
     – Afinal é só isto?
     apanhando os óculos da mesinha de cabeceira
     – Só isto?
     a camisa de dormir com laçarotes e rendas que a tua mãe te obrigou a dobrar na bagagem
     – Os homens pescam-se com truques assim
     e pescar-me-ias se eu um homem a sério, pernas em excesso que me embaraçavam, um botão solto
     – Só isto?
     pronto a esconder-se numa frincha e uma lasca de madeira a enterrar-se-me na palma, tiraste-a com a pinça dos pêlos
     – Não sejas maricas não dói
     de mistura com o
     – Não sejas maricas
     os estrangeiros sem descanso no corredor, Seia ou Gouveia, o meu cunhado médico
     – Pelos meus cálculos Gouveia
     e tu
     – Não pode ser só isto
     a cuba puxada do poço junto à cozinha, o bule de prata com pega de mogno e três malmequeres em relevo por cima, a minha mãe de mão na pega e o indicador da outra mão na tampa
     – Mais chá senhor Fonseca?
     chá para eles, leite para mim, o pires de biscoitos
     – Não te sirvas antes dos crescidos
     a minha palma
     – Uma lasca que mal se nota não sejas maricas
     a retirar-se amuada, quando segredos com as amigas e eu entrava a minha mulher
     – Vamos mudar de conversa
     e soslaios de escárnio
     – Não é homem não é homem
     a água, então viva na jarra, a espreitar-me como elas, ao despedirem-se gargalhadinhas no patamar, suspiros da minha mulher antes de mais gargalhadinhas
     – Tomara eu
     a minha mãe pronta a pegar-me ao colo salvando-me
     – Joaquim
     dizer
     – Mãe
     e continuar a dizer
     – Mãe
     até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que faltava uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo, o meu cunhado médico para o meu cunhado arquitecto
     – É capaz de ser Seia
     candeeiros não fixos, indo e vindo, como o norte respira, uma via láctea de grilos campos fora cada qual com uma lanterna invisível de som, Gouveia ou Seia, grilos ou ralos, os sons alcançam distâncias infinitas nas trevas, olha a Beira Alta inteira a cantar, olha o cajado do louco de capote a quem os cães ladravam mais escanzelados que eu, comem galinhas, coelhos, Salazar não foi um ditador, foi, no vestíbulo um par de apliques de velas tortas, endireitava-as e inclinavam-se de novo, foi um patriota que pôs este país na ordem, em Portugal precisamos de um governo firme, não se tratava de eu haver perdido o emprego, com os funcionários do ministério a insultarem‑me
     – Fascista fascista
     tratava-se do abandono de África entregue de mão beijada aos comunistas, o teu pé sem chinelo de outra pessoa, a ausência de patriotismo, o desrespeito, a anarquia, por sorte os meus pais não assistiram
     – Porque teima em escrever-me?
     quando em cada frase três asneiras, aquilo em que esta terra se tornou, a tua família mais modesta que a minha, um dos meus avôs general, os teus não me contaste, a tua mãe a que a minha chamava senhoreca, mínimos em argola encaracolando-lhe os gestos, instalava‑se na borda das cadeiras cerimoniosa, lenta, a escolher palavras difíceis, os meus cunhados em coro Susana se sair saia só sim? Sou só seu Serafim Sá Sousa e eu envergonhadíssimo, a dona Susana numa amabilidade furibunda
     – Que divertido
     enquanto pelo ângulo da boca
     – Parvalhões
     idêntica ao meu filho mais velho se não lhe dou dinheiro
     – Parvalhão
     de modo que eu não em Lisboa com vocês, na varanda do norte agarrado ao leão, o marido da dona Susana de chapéu com peninha, palavra de honra, a partir de certa altura as árvores não verdes, azuis e após a linha do comboio, no início da encosta, quase negras, o café num cruzamento, a merceariazita, a estação e de repente surgiu-me
     na cabeça o setembro das gralhas, não supunha que os eucaliptos, a minha mãe para a tua, não uma senhora, uma senhoreca e a filha daqui a vinte anos a mãe chapadinha
     – Os meus genros adoram brincar conhece algum homem que tenha crescido não ligue
     não supunha que os eucaliptos, o avô general de condecorações na moldura, importantíssimo
     – Uma senhoreca sem cura e a tua noiva uma senhoreca também
     aguentassem dúzias de gralhas, centenas, milhares que não imitam só os outros pássaros, nos imitam a nós, no setembro das gralhas eu ainda mais desajeitado e elas a macaquearem-me
     – Mamã
     não
     – Mãe
     como as minhas irmãs e o meu irmão
     – Mamã
     um senhoreco perfeito, de quem foste herdar isso, moro num segundo andar pretensioso, sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados não sei de que sítio de um lado e um bêbedo com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa, de que lugar vieram as gralhas expliquem-me, um prédio sem
     elevador nem garagem e a minha mãe obrigada a subir aquilo aos setenta e seis anos no seu luto de viúva
     – Dão-me setenta e seis anos vocês?
     implorando que lhe adiássemos a morte
     – Não aguento a ideia do fim
     o lábio a tremer, as pupilas misturadas, a mão das alianças corrigindo as feições conforme corrigia os retratos dos netos na camilha, Irina Jorge Sebastião e o abajur de pergaminho contra a parede de modo a que se notasse menos o buraco do cigarro
     – Dão-me setenta e seis anos a sério?
     que preferíamos nem sonhar quem o fez, não gosto do apartamento, gralhas a espiarem os sermões do senhor vigário e o chiar das carroças a espiarem a minha mãe
     – Dão-me setenta e seis anos?
     na hospedaria em Sintra a semana inteira o mesmo arroz de pato e o mesmo pudim servidos pela mesma empregada de alpercatas estalando contra os calcanhares, as almofadas húmidas, um cinzento constante, no caso de avançar a perna o teu tornozelo inerte nos lençóis fingindo que dormia e eu a sabê-lo desperto, se me aproximava um protesto na fronha
     – Queres que eu caia no chão?
     e o vento mudando o sentido da chuva, uma tarde uma gaivota num feto, a gerente com uma mancha vermelha na bochecha
     – Tiveram azar com o tempo
     
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Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...