Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2015

Denis Leandro - dissertação sobre Que Farei Quando Tudo Arde?

“Quis escrever um livro sobre a identidade, fazendo várias interrogações que se colocam de um modo especial num travesti.”[1] Assim António Lobo Antunes resume [o] seu 15º romance, Que farei quando tudo arde?, publicado em 2001 [...]. O livro é, de facto, uma narrativa sobre a identidade e, sendo sobre a identidade, é também sobre o passado, sobre a origem e todo o emaranhado inextrincável que essa questão arrasta consigo.
Sobre o abismo da origem lança-se Paulo, narrador privilegiado no texto, que elege como pai um travesti de nome Soraia – que quando livre das plumas, lantejoulas e cabeleira postiça, dos enchumaços nas nádegas e no peito e da boca pintada, chama-se Carlos. A origem está já rasurada, tão indefinida e insondável, tão improvável como a sexualidade de Carlos/Soraia, a origem “suposta”.
O romance conta a conturbada história da personagem-narradora, atravessada por uma infância caótica, marcada pela indiferença paterna, pela dor e revolta de aperceber-se filho de um pai des…

Mário Santos - crítica a Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

A água nas trevas

António Lobo Antunes tem toda a razão ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Obra de um virtuoso, e dos mais extraordinários.
O mais difícil é começar. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura"[...] , começa assim: "O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago" (p. 15). O mais difícil é acabar. Mais de 500 páginas depois, o 14º romance de António Lobo Antunes acaba assim: "Ir-me embora é como tapar os espelhos todos sobre mim. [...] À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro." (pp. 550/551). 
À sombra, ou à luz, destas duas citações podia instalar-se – talvez, sem dúvida, má iluminada, precária, sombriamente redutora – uma leitura de…

Emanuel Moreira - opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Em sete actos Deus criou o Universo e a Terra, e nesses sete actos criativos o autor criou a Maria Clara. Maria Clara, o homem da casa, Clarinha, menina, e tudo menos Clara.
Ao longo do livro há toda uma sucessão de criação e destruição, cenários idílicos de um universo de fadas que alberga uma quantidade imensa de fotões no meio de uma real noite escura, onde manchas de óleo, que não óleo, impregnam o universo da narradora. Falar do enredo pouco importa em Lobo Antunes, Maria Clara, entre o psicólogo e o seu diário dá espaço a que toda a sua história tome lugar nas mais variadas perspectivas, e no balanço do enleio fica difícil perceber até que ponto a Clarinha não é apenas louca. Um sotão com um passado supostamente fechado. Um pai no hospital em que vai ser operado ao coração, acordando, uma lâmpada no tecto. A irmã, Ana Maria, que tão bela, loira, e ao contrário da Clarinha, tão filha de sua mãe. Uma avó que se perde no vício do jogo e do álcool e que para a empregada Adelaide, men…

Sinopse de Comissão das Lágrimas (para a edição brasileira Alfaguara)

Tido como o maior autor vivo na literatura de Portugal, António Lobo Antunes tem uma abordagem detalhada, em diversos de seus romances, sobre factos marcantes na década de 1970. Em seu (...) romance, Comissão das Lágrimas, ele utiliza a história verídica de uma guerrilheira presa e executada em Angola como ponto de partida para uma narrativa sobre dor, memória e identidade.
Nascida no país africano e paciente de uma clínica psiquiátrica em Lisboa, Cristina é uma mulher cuja história é repleta de sofrimento. Afastada de Luanda aos cinco anos, ela tem vagas lembranças de seus pais na infância: a mãe, portuguesa, havia partido para a turbulenta Angola como dançarina. Ela se relacionara com um homem local, ex-padre e membro do emancipatório Movimento Popular pela Libertação de Angola.
O envolvimento do pai de Cristina com a Comissão das Lágrimas - tribunal responsável pela execução sumária dos que haviam supostamente ajudado na tentativa de derrubar o governo revolucionário do MPLA - revela…

PÚBLICO: Lobo Antunes, autor de adolescência de Maria Rueff | ANTÓNIO E MARIA NO CCB

Levando para palco a sua gratidão por um livro que lhe abriu o mundo, Maria Rueff atira-se para o palco do CCB com palavras de António Lobo Antunes. António e Maria estreia-se esta quinta, assente num universo feminino e numa heroicidade doméstica. António e Maria. António é António Lobo Antunes. Maria é Maria Rueff. A peça que se estreia esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém é um encontro entre os dois, nascido da relação da actriz com o seu autor de adolescência. “Não sou uma especialista, sou uma daquelas fãs tipo dos Beatles”, confessa Rueff. E, por essa mesma razão, por estar longe de quaisquer tentações académicas, propôs-se entrar no mundo do seu autor através do olhar de leitora, de uma leitora atraída “pelas vozes das mulheres e pelo humor” que encontra na escrita de Lobo Antunes. “Profundo conhecedor da alma feminina”, chama-lhe; “uma mão na tragicomédia que me encanta especialmente”, gaba-lhe. Ainda hoje, muitos anos depois, se lhe pedem que nomeie o livro da sua vida,…

António e Maria pelo Teatro Meridional - a partir da obra de António Lobo Antunes

Centro Cultural de Belém, Pequeno Auditório

Para os dias 7, 8, 9, 11, 14, 15 e 16 de Maio às 21h e no dia 10 às 16h

Monólogo de Maria Rueff a partir da obra de António Lobo Antunes

Encenação - Miguel Seabra
Interpretação - Maria Rueff

Autor - António Lobo Antunes
Dramaturgia e adaptação - Rui Cardoso Martins

Espaço cénico e figurinos - Marta Carreiras
Música original e espaço sonoro - Rui Rebelo
Assistência de encenação e direcção de cena - Vítor Alves da Silva
Assistência de cenografia - Marco Fonseca
Operação técnica - Rafael Freire
Produção executiva - Natália Alves
Assessoria de gestão - Mónica Almeida
Direcção artística do Teatro Meridional - Miguel Seabra e Natália Luiza

Co-produção | CCB | Teatro Meridional
www.ccb.pt

Silvie Špánková - dissertação sobre Auto dos Danados

PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA: CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO EM AUTO DOS DANADOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

da Introdução:

O romance Auto dos Danados de António Lobo Antunes foi publicado em 1985 e[,] como a primeira obra deste autor[,] foi aplaudido em unanimidade pela crítica, sendo galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. O júri da APE, ao defender a escolha do livro de Lobo Antunes, afirmou que se tratava de um romance que abria novas perspectivas e inaugurava, no contexto da obra do autor, os processos de escrita inovadores.
Na realidade, o romance Auto dos Danados mantém muitas características da escrita prévia do autor, sobretudo no que diz respeito, tematicamente, à observação minuciosa da sociedade portuguesa, focada nos seus aspectos mais desagradáveis e vulneráveis. Quanto ao tratamento formal, o presente romance revela inovações a nível da estrutura narrativa, em que assistimos a uma maior objectivação do mundo ficcional, conseguida pela…

Cannibale Claro sur Au bord des fleuves qui vont

Une exaltation inédite

Dans Au bord des fleuves qui vont, le dernier roman d'António Lobo Antunes paru récemment en traduction, le lecteur est confronté à une défragmentation du récit d'une impressionnante subtilité. Le dispositif est le suivant: un homme, qui porte le nom de l'auteur, est traité à l'hôpital suite à la découverte d'une grosseur possiblement maligne – une "bogue". Abruti par les médicaments, éprouvé par l'opération, hanté par la peur de mourir, l'esprit du narrateur va alors se changer en kaléidoscope, et toutes les couleurs et nuances du passé – le sien, celui des siens, de ses ancêtres – seront projetés à même la page selon une alternance surprenante: à un paragraphe où les souvenirs s'enchâssent et se bousculent succède une phrase prononcée, dans le présent ou le passé, instaurant un rythme de contraction et de dilatation. Bien sûr, dit comme ça, on pourrait avoir l'impression d'une immense confusion. Mais précisémen…