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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2011

ALA no evento da Figueira da Foz

Tomamos de empréstimo o ficheiro áudio que Carlos Júlio partilhou no seu blog A Cinco Tons, bem como as suas palavras, sobre o evento na Figueira da Foz no passado fim de semana.

António lobo antunes final by carlos.julio

«Na semana passada estive, em trabalho, vários dias na Figueira da Foz. Por acaso, coincidiu com a ida do escritor António Lobo Antunes ao Casino Figueirense apresentar o seu último livro "Comissão das Lágrimas". [...] Respondeu às questões de alguns dos presentes, numa resposta circular em que abordou os mais variados temas. Eu gravei a conversa. Ei-la quase na íntegra (tirei apenas uma parte dedicada à tradução e à literatura, mesmo claro e acentuei com música os cortes que fiz). António Lobo Antunes fala da guerra, dos hospitais psiquiátricos, da loucura, dos livros, das mulheres óbvias, de António Barreto, do ser português, da mestiçagem, da cultura que não interessa a nenhum poder, de Rodrigues dos Santos, do periscópio, dos programas culturais na televi…

Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O Manual dos Inquisidores é uma inquisição do passado sobre o presente obscuro. Esse presente que padece com o peso da memória e sofre a debilidade quotidiana do simples existir. A trama procura desenvolver uma saga familiar fixada na ideia da casa, na figura do pai, o fantasma da mãe ausente e as mudanças impostas pelo tempo.

O livro fala sobre o fascismo em dois momentos: antes e depois da Revolução dos Cravos, cuja narração é feita por personagens que se sucedem e se alternam. É um romance escrito pelos próprios personagens que se revezam em depoimentos e comentários.

Lobo Antunes trabalha o romance no sentido de torná-lo intemporal, construindo uma amálgama do ontem e hoje. Os personagens são tipos sociais que não mostram nenhuma evolução com o passar dos anos, juntamente com a sociedade, e tornam-se difíceis de serem julgados. Não há personagens revolucionários, mesmos os pobres são conservadores. Eles têm o ponto de vista dos dominadores, reproduzem o discurso competen…

Dilma Barrozo: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Que livro é esse que nos faz ...?

Confesso que não conhecia o António Lobo Antunes e o nosso primeiro contacto foi simplesmente mágico, do tipo amor à primeira vista. Na verdade fui fisgada pelo fascinante título do livro "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Estava na livraria , escolhendo o que comprar e quando me deparei com ele, não hesitei, já sabia que tinha achado algo especial. Com um título tão poético e sugestivo, que nos leva a interagir de imediato, porque faz uma pergunta, não há como resistir: todos vamos querer saber qual a resposta para essa pergunta ou, pelo menos, que caminhos nos levam a ela.

É um livro apaixonante em que a trajectória de uma família é narrada pelas diferentes vozes de seus integrantes (vivos ou falecidos). Essas vozes se alternam, se misturam, se enroscam na narrativa, disputando espaço e combatendo durante todo o texto como o fizeram ao longo de suas vidas. A mãe em seu leito de morte, uma filha drogada, outra, a i…

Sílvia Frota: opinião sobre Os Cus de Judas

Como sempre, é difícil mergulhar na narrativa de Lobo Antunes. Sempre me enrosco nas palavras que se enovelam e me confundem. Fico tensa, nervosa. Mas sigo adiante. Logo passa e, enfim, paro de resistir e me deixo levar por ele.

Uma história triste, violenta, dura. Sobretudo real. Não que a guerra pela libertação de Angola tenha sido assim. Não que se trate de um registo fidedigno da história de uma nação. Não é dessa realidade que falo. É da realidade humana.

Os dramas, as tragédias, as atrocidades são todos tratados num mesmo tom. Incorporam-se ao dia a dia da tropa. Como acordar e tomar café. Banal. Trivial. A força da narrativa de Lobo Antunes provoca impacto. Endurece e enternece ao mesmo tempo. A história é narrada numa noite, num encontro casual com uma mulher qualquer, num bar qualquer, vivendo uma vida qualquer. E o leitor segue de Angola a Lisboa e vice-versa sem se dar conta.

O nonsense da guerra contraposto ao dilaceramento daqueles que tomam parte nela, directa ou…

Felipe Damasio: opinião sobre Os Cus de Judas

Linguagem e conteúdo

Confesso que [foi] a fama do autor que me levou a ler esta obra, pois Lobo Antunes é considerado por muitos o melhor autor vivo em nosso idioma, [...]. Optei por ler “Os Cus de Judas” por muitos considerarem sua obra-prima, tinha enormes expectativas, todas positivas.

A obra trata da guerra de independência de Angola, mas para aqueles que querem ter um relato fiel da guerra, o livro decepciona. Ele é quase uma autobiografia ou talvez uma visão egocêntrica da guerra. Os relatos dizem respeito à angústia e experiência de uma pessoa no campo de batalha, em nenhum momento existe uma reflexão sobre o outro lado ou as causas colonialistas que levaram o exército português a Angola. É a visão do colonizador sobre a estranheza da colónia rebelde que não aceita a invasão de um povo estrangeiro. Com certeza o livro não atingiu sua fama pelo conteúdo que deixa um leitor crítico irritado com a falta de sensibilidade do autor-personagem.

O grande mérito de Lobo Antunes …

Ler Mais Ler Melhor: o livro da vida de Pedro Abrunhosa - O Esplendor de Portugal

Antonio Danise: opinião sobre As Naus

Le navi viajam no nevoeiro de um inconsciente confuso, atordoado por anos de guerra colonial inútil, da Angola independente a um império já desaparecido, para uma Lixboa capital de um dos países europeus mais pobres.
Angola e as consequências da guerra colonial mudaram a vida a Lobo Antunes, uma experiência como médico na linha de combate em Luanda, no início dos anos setenta, entre hospitais psiquiátricos e pessoas desesperadas: de uma parte os angolanos, divididos em facções rivais, entusiasmados com a longa e desejada independência finalmente conquistada, após anos de lutas e combates e que pouco depois haviam desencadeado uma longa e sangrenta guerra civil, e do outro lado os portugueses, obrigados a fugir de Luanda, com a perspectiva do regresso, depois de anos de guerra, perdidos, a uma Lisboa onde não conhecem mais ninguém, onde não possuem nem mesmo um lugar para viver, e muito menos um emprego.
A tragédia destas pessoas que regressam a um país que não lhes pode acolher, é o que…

Maria Alzira Seixo em Ler Mais Ler Melhor sugere Sôbolos Rios Que Vão

Liliana Costa: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel

Além de escritor, António Lobo Antunes é médico psiquiatra. A dor e o desespero, sentimentos que se enfrentam ao lidar com a loucura e fragilidade humanas, estão visíveis no mundo que recria. O autor destaca de forma insistente que as carências afectivas, não sendo resolvidas, vão sempre cobrar no futuro. O médico sabe que as cicatrizes não se fecham por magia, há que curá-las e cuidar para que as feridas sejam menos profundas.
O romance conta a saga de uma família da classe média portuguesa: a narrativa estende-se por quatro gerações. Lobo Antunes narra de forma fragmentada, com uma aparente incoerência ou dificuldade formal, que reflecte a falta de fluidez e harmonia do mundo interior das personagens. O tecido das frases, intercalando diferentes épocas e cenários, resulta estranho e nebuloso no início da leitura; o relato vai seguindo com saltos atrás no tempo, enquanto repete elementos que giram sobre si de forma obsessiva. Aos poucos, o leitor entra em sintonia com o proposto e fam…

Margaret Carson: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O romancista português António Lobo Antunes dedicou grande parte de sua carreira literária para evocar o período da história de seu país a partir dos anos finais da ditadura de Salazar, que terminou em 1968, com a transição tumultuosa para a democracia após a Revolução dos Cravos de 1974. Em O Manual dos Inquisidores, Antunes traz ao leitor a o relato impiedoso de um regime ditatorial brutal derrubado por uma revolução que capturou a atenção do mundo quando fotografias de civis colocando flores nas espingardas dos soldados foram passadas. Apesar de desenvolver um trabalho ficcional, Antunes incorpora as especificidades desse tempo no seu romance, usando funcionários governamentais da vida real como personagens secundárias, e recriando crimes e abusos que estão ainda vivos na memória de muitos portugueses.
À primeira vista, o romance parece imitar a estrutura de um estudo clínico, com passagens organizadas por capítulos intitulados de "Relato" ou "Comentário", mas o …