21/12/2011

ALA no evento da Figueira da Foz

Tomamos de empréstimo o ficheiro áudio que Carlos Júlio partilhou no seu blog A Cinco Tons, bem como as suas palavras, sobre o evento na Figueira da Foz no passado fim de semana.




«Na semana passada estive, em trabalho, vários dias na Figueira da Foz. Por acaso, coincidiu com a ida do escritor António Lobo Antunes ao Casino Figueirense apresentar o seu último livro "Comissão das Lágrimas". [...] Respondeu às questões de alguns dos presentes, numa resposta circular em que abordou os mais variados temas. Eu gravei a conversa. Ei-la quase na íntegra (tirei apenas uma parte dedicada à tradução e à literatura, mesmo claro e acentuei com música os cortes que fiz). António Lobo Antunes fala da guerra, dos hospitais psiquiátricos, da loucura, dos livros, das mulheres óbvias, de António Barreto, do ser português, da mestiçagem, da cultura que não interessa a nenhum poder, de Rodrigues dos Santos, do periscópio, dos programas culturais na televisão, da pílula-Expresso, da falta de tempo para fazer amor, do povo do caraças que somos, de Tony Carreira, da coragem das mulheres na gravidez.... Um ror de coisas, bem encadeadas e com muito humor.»

11/12/2011

Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O Manual dos Inquisidores é uma inquisição do passado sobre o presente obscuro. Esse presente que padece com o peso da memória e sofre a debilidade quotidiana do simples existir. A trama procura desenvolver uma saga familiar fixada na ideia da casa, na figura do pai, o fantasma da mãe ausente e as mudanças impostas pelo tempo.

O livro fala sobre o fascismo em dois momentos: antes e depois da Revolução dos Cravos, cuja narração é feita por personagens que se sucedem e se alternam. É um romance escrito pelos próprios personagens que se revezam em depoimentos e comentários.

Lobo Antunes trabalha o romance no sentido de torná-lo intemporal, construindo uma amálgama do ontem e hoje. Os personagens são tipos sociais que não mostram nenhuma evolução com o passar dos anos, juntamente com a sociedade, e tornam-se difíceis de serem julgados. Não há personagens revolucionários, mesmos os pobres são conservadores. Eles têm o ponto de vista dos dominadores, reproduzem o discurso competente da ignorância em que vivem, devido a uma acomodação adquirida com o passar dos anos. Todos estão em um lado só. Todos são compostos a partir de monólogos interiores, delirantes, desagregados e fracassados, na finitude de seus próprios projectos existenciais, cauterizando sentimentos. As lutas sociais aqui não são o resultado da oposição entre a classe trabalhadora e o capital, mas um conflito de ordem cultural, religiosa e psíquica.

O romance é uma inquisição sobre a nulidade de um presente, cujo único projecto é a evocação do peso da memória. No entanto, o quotidiano é uma das forças maiores nos mecanismos da construção deste texto. O plano da representação ganha nele densidade social aguda e historicidade. O romance não é histórico, mas encontra em seu caminho a história. Razão e a desrazão confundem-se. O passado, o presente e o futuro são vividos simultaneamente, como filamentos da memória reflectindo-se no espelho quebrado das perdas da identidade. Uma fragmentada narrativa que, em vez de enfatizar a estética do fragmento, provoca a perda da comunicação de uma ideia, de uma representação distorcida do espaço comunicativo.

Relações de poder frustradas, relações amorosas fracassadas, que mostram um modus vivendi marcado por carências afectivas.

Quem são os inquisidores? Esse romance inquire sobre o passado, mas a partir da diversidade desconexa de identidades, ele inquire um país patriarcal, semi-agrícola, onde a corrupção, a ganância, a solidão, a ignorância generalizada, tanto dos poderosos quanto da gente humilde acabam por fazer um cocktail explosivo. O Manual dos Inquisidores nos fala sobre a relações de poder de um Ministro de Salazar - à volta do qual girará a própria narração do livro - que possuía “poderosas credenciais”, condecorado com a ordem nacional do: “você sabe com quem está falando?”

Mas, apesar de possuir tal “condecoração”, fora abandonado e traído pela esposa e a marca da traição estará presente em suas relações com as outras mulheres de uma forma ressentida. Um homem iludido, prepotente que acabará derrotado pela idade, pela senilidade. Um ministro despojado do amor e do poder, exilado numa clínica onde virá a perecer. Uma mistura da boçalidade camponesa e militar. Um perfil que reflecte a incultura, a passividade intelectual, as decepções afectivas e os impulsos do sexo, que representam parte da amostragem dessa história.

Todas essas facetas e uma narrativa envolvente montam o cenário plural que nos leva a acreditar na impossibilidade de uma comunicação efectiva nas relações humanas e a pensar na realidade que permeia o Manual e torna a todos inquisidores - réus de si mesmos.


Luiz Guilherme de Beaurepaire
Bons livros para ler
07.01.2011

10/12/2011

Dilma Barrozo: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Que livro é esse que nos faz ...?

Confesso que não conhecia o António Lobo Antunes e o nosso primeiro contacto foi simplesmente mágico, do tipo amor à primeira vista. Na verdade fui fisgada pelo fascinante título do livro "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Estava na livraria , escolhendo o que comprar e quando me deparei com ele, não hesitei, já sabia que tinha achado algo especial. Com um título tão poético e sugestivo, que nos leva a interagir de imediato, porque faz uma pergunta, não há como resistir: todos vamos querer saber qual a resposta para essa pergunta ou, pelo menos, que caminhos nos levam a ela.

É um livro apaixonante em que a trajectória de uma família é narrada pelas diferentes vozes de seus integrantes (vivos ou falecidos). Essas vozes se alternam, se misturam, se enroscam na narrativa, disputando espaço e combatendo durante todo o texto como o fizeram ao longo de suas vidas. A mãe em seu leito de morte, uma filha drogada, outra, a infeliz sobrevivente de dois casamentos desfeitos, um filho homossexual discriminado, o outro egocêntrico e ganancioso, o pai, (já falecido) frequentador assíduo de mesas de jogos e mulheres e a filha falecida na juventude. Além deles, membros oficiais da família, também narram a história a empregada (que também pertence à família) e um filho bastardo.

Não é um livro fácil. É preciso calma pois se trata de um texto para ser saboreado, até porque é dessa forma que avançamos na leitura: lenta e prazerosamente. A ausência de marcadores que definam de imediato de quem é aquela voz, nos obriga a constantes retornos a páginas anteriores.

Ressalto ainda outro aspecto super interessante da narrativa, a sua metalinguagem, as constantes referências ao ato de escrever, às palavras a serem utilizadas pelo personagem e principalmente ao autor, que várias vezes é citado nominalmente.

É um livro imperdível, daqueles que retomaremos várias vezes ao longo de nossas vidas.

por Dilma Barrozo
fonte: skoob
27.01.2010

Sílvia Frota: opinião sobre Os Cus de Judas


Como sempre, é difícil mergulhar na narrativa de Lobo Antunes. Sempre me enrosco nas palavras que se enovelam e me confundem. Fico tensa, nervosa. Mas sigo adiante. Logo passa e, enfim, paro de resistir e me deixo levar por ele.

Uma história triste, violenta, dura. Sobretudo real. Não que a guerra pela libertação de Angola tenha sido assim. Não que se trate de um registo fidedigno da história de uma nação. Não é dessa realidade que falo. É da realidade humana.

Os dramas, as tragédias, as atrocidades são todos tratados num mesmo tom. Incorporam-se ao dia a dia da tropa. Como acordar e tomar café. Banal. Trivial. A força da narrativa de Lobo Antunes provoca impacto. Endurece e enternece ao mesmo tempo. A história é narrada numa noite, num encontro casual com uma mulher qualquer, num bar qualquer, vivendo uma vida qualquer. E o leitor segue de Angola a Lisboa e vice-versa sem se dar conta.

O nonsense da guerra contraposto ao dilaceramento daqueles que tomam parte nela, directa ou indirectamente. O absurdo, a impotência. A desimportância das dores, do sangue, da devastação.

Uma guerra esquecida ou, como quer o narrador, inexistente. “Tudo é real menos a guerra que não existiu nunca: jamais houve colónias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafal, nem Pide, nem revolução, jamais houve, compreende, nada, os calendários deste país imobilizaram-se há tanto tempo que nos esquecemos deles, marços e abris sem significado apodrecem em folhas de papel pelas paredes, com os domingos a vermelho à esquerda numa coluna inútil, Luanda é uma cidade inventada de que me despeço, e, na Mutamba, pessoas inventadas tomam autocarros inventados para locais inventados, onde o MPLA subtilmente insinua comissários políticos inventados...” (págs. 193/194). E a certeza que fica é de nada mais existir além dela, da guerra. O narrador está lá, preso, encurralado, sem escapatória.

Este é o segundo livro de Lobo Antunes que leio. O primeiro foi “Memória de Elefante”. Ambos perturbadores, com certeza. Ainda mais por saber que, apesar de ficcional, o autor serviu ao exército português em Angola.

Ficha Técnica: “Os Cus de Judas”, de António Lobo Antunes, Editora Alfaguara, 2ª ed., Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

Sílvia Frota
01.08.2009

Felipe Damasio: opinião sobre Os Cus de Judas

Linguagem e conteúdo

Confesso que [foi] a fama do autor que me levou a ler esta obra, pois Lobo Antunes é considerado por muitos o melhor autor vivo em nosso idioma, [...]. Optei por ler “Os Cus de Judas” por muitos considerarem sua obra-prima, tinha enormes expectativas, todas positivas.

A obra trata da guerra de independência de Angola, mas para aqueles que querem ter um relato fiel da guerra, o livro decepciona. Ele é quase uma autobiografia ou talvez uma visão egocêntrica da guerra. Os relatos dizem respeito à angústia e experiência de uma pessoa no campo de batalha, em nenhum momento existe uma reflexão sobre o outro lado ou as causas colonialistas que levaram o exército português a Angola. É a visão do colonizador sobre a estranheza da colónia rebelde que não aceita a invasão de um povo estrangeiro. Com certeza o livro não atingiu sua fama pelo conteúdo que deixa um leitor crítico irritado com a falta de sensibilidade do autor-personagem.

O grande mérito de Lobo Antunes está na forma, para mim não existe ninguém que escreveu da mesma maneira antes dele. Ele é totalmente original, o que explica sua fama e a devoção que causa em seus leitores. Se existe algo entre prosa e poesia, ninguém fez melhor que o autor português. Seu texto é denso, extremamente denso, cada página é vencida a muito custo. Eu pensei em abandonar o livro por diversas vezes. Poderia considerar que o texto de Antunes intimida e desafia o leitor a continuar até o próximo capítulo. O ponto anedótico para o leitor brasileiro são alguns termos portugueses que só podemos especular sobre a que se referem, como gelado de pauzinho (picolé?) e agência de caixões (funerária?).

A linguagem de Lobo Antunes é ácida, não poupa ninguém, tampouco ele mesmo. É não linear, o leitor nunca sabe o que será narrado, quando ocorreu e principalmente onde. O tema da sexualidade permeia todo o livro, com descrições dignas de Jorge Amado. Não se pode considerar que o texto de Lobo Antunes seja uma leitura divertida, é um texto para se apreciar. Um trecho escolhido ao acaso que sintetiza a narrativa de Lobo Antunes com sua acidez e densidade “Compreenda-me: pertencemos a uma terra em que a vivacidade faz às vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora, e creio com frequência que não passamos de facto de débeis mentais habilidosos consertando os fusíveis da alma à custa de expedientes de arame”.

Quase não há falas e os diálogos inexistem. Poucos parágrafos, a narrativa é contínua e sem pausas, o que às vezes deixa o leitor tonto e confuso sobre o que está lendo. Cada frase é bem construída, e elas se sucedem sem refresco.

O que eu realmente não gostei, além do conteúdo, é o não respeito a várias regras gramaticais da língua portuguesa. Eu não acho que por mais famoso e importante que seja um escritor ele seja maior que nossa língua. Ao escrever sem respeitar as regras, o escritor dificulta a leitura e nos faz perguntar se as regras do português são feitas apenas para nós mortais, se grandes escritores não devam respeitá-las. Minha opinião é que certamente as regras gramáticas devem ser respeitadas por todos, inclusive para grandes escritores como António Lobo Antunes.

por Felipe Damasio
fonte: skoob
18.08.2009

Ler Mais Ler Melhor: o livro da vida de Pedro Abrunhosa - O Esplendor de Portugal

09/12/2011

Antonio Danise: opinião sobre As Naus


Le navi viajam no nevoeiro de um inconsciente confuso, atordoado por anos de guerra colonial inútil, da Angola independente a um império já desaparecido, para uma Lixboa capital de um dos países europeus mais pobres.

Angola e as consequências da guerra colonial mudaram a vida a Lobo Antunes, uma experiência como médico na linha de combate em Luanda, no início dos anos setenta, entre hospitais psiquiátricos e pessoas desesperadas: de uma parte os angolanos, divididos em facções rivais, entusiasmados com a longa e desejada independência finalmente conquistada, após anos de lutas e combates e que pouco depois haviam desencadeado uma longa e sangrenta guerra civil, e do outro lado os portugueses, obrigados a fugir de Luanda, com a perspectiva do regresso, depois de anos de guerra, perdidos, a uma Lisboa onde não conhecem mais ninguém, onde não possuem nem mesmo um lugar para viver, e muito menos um emprego.

A tragédia destas pessoas que regressam a um país que não lhes pode acolher, é o que nos diz Lobo Antunes, descrevendo a atmosfera trágica, paradoxal às vezes, grotesco, com uma escritura visionária, um estilo que não leva em conta as mais elementares regras da narrativa convencional, talvez para dar a ideia das condições de esquizofrenia e de confusão de que são vítimas, sendo repentinamente expulsos, após terem vagueado em torno de uma cidade indiferente e egoísta, e levados para um sanatório onde irão terminar os seus dias.

Um livro que não se termina nunca de ler e que precisamos recomeçar imediatamente logo que chegamos à última página, para tentar compreender de que coisa se fala ainda hoje.


Antonio Danise
não datado
[tradução original do italiano de Deise Maria Di Lascio Pestana, revista por José Alexandre Ramos]

04/12/2011

Liliana Costa: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Além de escritor, António Lobo Antunes é médico psiquiatra. A dor e o desespero, sentimentos que se enfrentam ao lidar com a loucura e fragilidade humanas, estão visíveis no mundo que recria. O autor destaca de forma insistente que as carências afectivas, não sendo resolvidas, vão sempre cobrar no futuro. O médico sabe que as cicatrizes não se fecham por magia, há que curá-las e cuidar para que as feridas sejam menos profundas.

O romance conta a saga de uma família da classe média portuguesa: a narrativa estende-se por quatro gerações. Lobo Antunes narra de forma fragmentada, com uma aparente incoerência ou dificuldade formal, que reflecte a falta de fluidez e harmonia do mundo interior das personagens. O tecido das frases, intercalando diferentes épocas e cenários, resulta estranho e nebuloso no início da leitura; o relato vai seguindo com saltos atrás no tempo, enquanto repete elementos que giram sobre si de forma obsessiva. Aos poucos, o leitor entra em sintonia com o proposto e familiariza-se com as mudanças de ritmo.


ESTRUTURA SIMÉTRICA:

A estrutura deste romance é quase matemática: o relato tem cinco partes, cada uma dedicada a um protagonista. Ao mesmo tempo, cada parte é composta por cinco monólogos: três deles correspondem aos protagonistas, os outros dois, sempre intercalados, correspondem a personagens que não pertencem à família, salvo uma excepção.

É interessante esta ordem simétrica entre a desordem inerente ao mundo narrado. Os recursos estilísticos tentam limar as arestas do conteúdo num esforço sistemático para impedir a explosão da loucura. Esta rompe com toda a sua força no final, após o desenlace do drama familiar, que é a morte de Nuno.

A estrutura simétrica introduz harmonia e, ao mesmo tempo, fornece instrumentos que orientam o leitor, dando-lhe pistas. Ao familiarizar-se com a estrutura, ele pode apoiar-se nela para chegar aos temas de fundo.

Através dos monólogos, temos diferentes vozes narrando, o que implica, necessariamente, diferentes pontos de vista. Estas visões distintas sobre a vida da família e das suas personagens, ajudam a compor o cenário geral. E quando aquele que fala está fora do núcleo familiar, enriquece-o com novas perspectivas.


O ELEMENTO REPETITIVO:

A narrativa apoia-se em frases que se repetem uma e outra vez em diferentes contextos, aumentando, em cada repetição, a sua carga semântica. As palavras reiteradas destacam-se a partir do contexto como sublinhadas a vermelho no sentido de anunciar um significado oculto.

Este recurso é utilizado de duas formas diferentes: por vezes as frases repetidas pertencem a um diálogo que marcou a personagem no passado; outras que se repetem são palavras que descrevem cenários que acompanharam a personagem ao longo da vida e que lhe são queridos ou traumáticos de maneira sintomática. As duas versões intercalam-se para reforçar o efeito.

Estas palavras ou frases tentam resumir ou definir a personagem, escolhendo alguns elementos da sua história num esforço para sintetizá-la. Resgatando o essencial não serão necessários detalhes supérfluos. Tudo aquilo que está fora do relato não é substancial, ou será desnecessário. Lobo Antunes selecciona os termos que são suficientes para apresentar as suas personagens e expor as características da sua dor. É por isso que todas essas expressões têm uma componente traumática.

A intenção do autor é colocar-nos em contacto com as obsessões das suas personagens. Daí a importância da repetição. Procura concentrar-se em conseguir que a narrativa se sustenha com umas quantas palavras que representem o todo e que o discurso não avance, que seja monótono e brutal nessa monotonia. A acumulação tem um efeito imediato: a atenção concentra-se e o conteúdo carregado, o ambiente é claustrofóbico, envenena o ar de emoções não expressas senão em voz baixa, nas entrelinhas, quase com pudor.

Analisemos algumas destas frases:

"- O que foi, Álvaro?
- Nada. Dorme. Nada."

Este é, talvez, o diálogo que se repete com mais frequência, e tem maior alcance. Porque o que transmitem estas duas frases aparentemente quotidianas, não se limita às duas personagens dialogantes (Álvaro e Cláudia), mas pode ser atribuído a qualquer um dos casais da família em questão.

Num contexto diferente, estas duas frases poderiam exprimir a cumplicidade de um casal, um entendimento tácito do tipo: sossega que vou lá eu, descansa tu agora. Porém, em A Morte de Carlos Gardel, as frases exprimem uma quebra de comunicação crónica, uma absoluta falta de interesse. Perante o choro do seu filho Nuno, Álvaro levanta-se para vê-lo, e quando a mulher lhe pergunta o que se passa, ele mantém-na fora da situação: "Nada. Dorme. Nada". Os leitores intuem que o seu desejo é que ela o deixe a sós com o filho.

O diálogo soa sem parar, como um refrão que resume e evidencia a falta de comunicação. A presença da palavra "nada", no início e no fim, é importante e decisiva. Resume o vazio.

Para ambientar este diálogo temos alguns objectos chave: um limoeiro e a pilha de roupa por lavar, no sótão de Benfica. E a imagem da "cidade cor de laranja imóvel nas vidraças como um anjo esquartejado numa cruz", que se funde na febre de Nuno.

"Vai para a sala, some-te, sai daqui"

É uma frase de Cláudia ao responder a Álvaro quando ela lhe conta que está grávida. Ele, em vez de celebrar como seria de esperar, confessa a sua falta de amor.

A determinação da Cláudia (vai, some-te, sai) é fruto do seu carácter independente, mais notório em relação aos outros membros da família que são personagens dependentes e com falta de iniciativa. Ela, pelo contrário, toma decisões, reage coerentemente, age pensando em si, não em ferir quem lhe ofenda, que é a tónica de todos os outros.

E como pano de fundo para este diálogo temos a chuva, e os baldes, panelas, tachos e caçarolas para amparar as goteiras que provoca.

"Que piroseira pegada"

Esta expressão é de Nuno para tentar resumir a relação díspar entre o seu pai e Raquel. O insulto, ou a insolência, são o resultado do ressentimento: Nuno não suporta que o pai o tenha abandonado ainda por cima por uma mulher vulgar, e lamechas. A fealdade de Raquel é o sinal, para Nuno, da decadência do pai. "Que piroseira pegada" exprime o seu desgosto pela escolha de Álvaro, a sua rejeição da mulher que o pai escolheu, e do mundo que a rodeia, a sua classe social.

Os objectos que definem a piroseira são: os leques, as máscaras, os arlequins, os almofarizes de bronze, a cantoneira das chávenas, as tigelas chinesas com o friso doirado, etc.

"Pareces uma noiva, Raquel"

É com estas palavras que o pai de Raquel resumia o carinho e a ilusão que tinha ao contemplar a filha, o seu futuro. Ao recordá-las com insistência, podemos intuir a frustração de Raquel. O pai acreditava nela, elogiava-a, desejava-lhe um bom marido. No entanto, a vida desiludiu-a com Álvaro, a quem ela chama desesperadamente "fofo". Álvaro corrige-a irónico e enfastiado, "Não me chames de fofo".

O objecto evocado para ilustrar esta memória é o vestido branco.

"Sorriam" e "Olhe para ali"

São duas frases da infância de Silvina, a empregada de Raquel. Seu pai, fotógrafo, trabalhava em casa. A criança cresceu ouvindo estas duas ordens cujo sentido era ficar-se alheio à realidade para que a foto fosse bem conseguida. Silvina amava o pai cujas palavras ficaram como um ideal impossível de concretizar.

De cada vez que Silvina lembra as ordens do pai atrás da câmara, evoca também a sua morte, sempre com estas palavras: "Morrer é quando os olhos se transformam em pálpebras".

"... o apito da fragata ..."

No monólogo de Joaquim, esta imagem auditiva é repetida nove vezes. É o som do navio que o levou à Madeira. Para Joaquim era um sinal, porque desde que embarcou, a sua vida foi arruinando. Esta é a razão para que o apito, intimamente relacionado com a sua partida, se tenha tornado como a lembrança da sua infelicidade. É a imagem da ruptura: haverá um antes e depois da Madeira.

Para que Joaquim entre em cena só falta o pijama, o cão, o baralho de cartas, as faias e os loendros da casa da Gomes Pereira. Elementos que por si só, uma vez enumerados, descrevem a solidão e a decadência.

O cão arranhando os azulejos da cozinha é uma imagem carregada de desespero, aparece muitas vezes como um grito sufocado. Também tem a conotação de um ambiente claustrofóbico. Quando Joaquim morre, o animal recusa-se a comer. E para evitar o seu sofrimento, decidem dar-lhe uma injecção de potássio. Álvaro reclamará a mesma injecção redentora para ele a fim de evitar o sofrimento que lhe provoca a agonia do filho, um tratamento dado aos animais por piedade e não ao homem.

"Teresinha"

É a palavra que Cristiana evoca constantemente. Era assim que o pai chamava pela mãe quando queria fazer amor com a mulher. Ao ouvir o nome de sua mãe, Cristiana sentia-se a mais entre o casal, o que lhe provocava ciúmes e raiva. Por isso também é repetida a frase em que a criança reclama um lugar para si: "Deixem-me dormir com vocês".

O objecto que acompanha esta cena é o colchão da cama e o ruído que produz.
  
"Temos tudo a nosso favor para recomeçar a vida do princípio e ser felizes"

A afirmação é como que uma cantilena de Raquel. Estas palavras revelam o seu optimismo, por um lado, e o seu desejo de negar a realidade, por outro. O leitor sabe que não é assim, eles nada têm a seu favor para recomeçar a vida do princípio e ser felizes.

Alzira define-se como uma pessoa senil, não tanto por estar alojada num asilo, mas pela imagem recorrente de passear pela casa com a trela do cão sem o cão, ou pela segurança com que sustenta de que os loendros chamam por si.

As memórias da guerra na Alemanha resumem-se em poucos elementos para Cláudia: o esconderijo no sótão, os aviões que passam, o sangue dos coelhos, as muletas do pai e o anel que a mãe furtou a um cadáver.

As amigas de Cláudia estão contidas em duas frases: "... pior que um marido só um ex-marido", e "pareces uma domadora de chimpanzés".

A debilidade e a imaturidade de Ricardo são expressas na afirmação que Cláudia pronuncia com algum desprezo: "Não chores, Ricardo, não chores". E a dependência que ele tem em relação a uma mulher mais velha resume-se a estas duas: "Não se esqueça de o mandar lavar os dentes antes de se deitar" e "Se por acaso me separar de ti na semana seguinte estás a viver com a tua mãe".


O PESADO FARDO DA HISTÓRIA

Em A Morte de Carlos Gardel, o passado das personagens é uma âncora, um peso do qual não se podem livrar. Estão constantemente retrocedendo, farejando e agitando os pesadelos das vivências, de forma que o passado será sempre a única explicação das suas misérias. A infância marcou estas personagens a sangue e fogo, as experiências negativas são estigmas que as condenam à infelicidade. Mesmo os momentos felizes surgem como paraísos perdidos dos quais só se pode voltar através da memória.

Devido a esta constante regressão no tempo, a narrativa tem de girar necessariamente sobre si mesma, não há projecções do futuro, as personagens aceitam a sua herança como uma fatalidade e não aspiram converterem-se em alguém distinto, não consideram a possibilidade de mudar os padrões familiares.

A primeira frustração ou trauma afectivo desta saga é o abandono de que sofre Joaquim, avô de Álvaro. Tinha estado onze meses na Madeira e quando regressou da ilha (devido a um problema obscuro), a mulher deixa-o para ir viver com outro. A dor imensa que lhe causa a traição da mulher é o ponto de partida de todos os males, a origem da decadência de Joaquim e das três gerações que se lhe seguem.

Também o filho, Tó Mané, sofre o mesmo abandono quando a mãe saiu de casa, tendo sido uma criança que cresceu sem amor. O pai não soube protegê-lo uma vez que ele próprio não suportava a sua dor, o sentimento de perda isolou-o. A falta de afectos será então uma constante; um veneno que os converte em seres murchos, sem vida.

Após Ester abandonar Joaquim e Tó Mané, será este que abandonará os seu filhos Álvaro e Graça. Álvaro depois abandona Cláudia, sua mulher, e o filho Nuno, e mais tarde Raquel mais ao filho que terá com ela, fruto do casamento.

A perda da sua mulher provoca em Joaquim uma reacção negativa: não voltar a amar para não voltar a sofrer:

"Deus me livre de gostar das pessoas" (pág. 33)

Esta posição é falsa, não é verdade que Joaquim não goste, tanto que acaba por cuidar dos netos quando Tó Mané os abandona. Porém, o que tem a dar está contaminado pela perda não superada, e nega-se a criar laços:

"- Gostar dos outros que é a melhor receita para um mau bocado, eu graças a Deus salvei-me disso e sou feliz...

- ... O segredo, senhores, é não gostar, reparem em mim que por não gostar sou livre..."

É interessante assinalar como o diálogo anterior está intercalado no romance com as acções de Tó Mané, seu filho, que procura angustiado pela mãe, atitude à qual Joaquim (aquele que não gosta) reage com ternura tentando acalmar o filho (ele que não gosta de ninguém), ao mesmo tempo que esconde as lágrimas delatoras atrás de uma revista para que o filho não o veja a chorar.

Lobo Antunes consegue transmitir os sentimentos das suas personagens sem dizê-los directamente, nem narrando ou descrevendo-os, apenas reproduzindo palavras e cenários como que em colagens, para que o leitor tire as suas próprias conclusões e compreenda as estranhas acções das personagens.

O dramático é que a atitude de Joaquim, que é uma atitude defensiva, em vez de o proteger, ainda lhe faz pior, empobrece-o de sentimentos, e esta pobreza será transmitida de geração em geração, como uma pesada herança. Não sendo capazes de amar e ser amados, serão vazios e sós. O desafecto em A Morte de Carlos Gardel destrói, anula, enlouquece e mata.

Lobo Antunes enuncia a situação dramática para que o leitor note a gravidade da falta. Os traumas não resolvidos são nocivos e destroem quem temos por perto. É importante o diálogo, a compreensão e a confiança em nós próprios, é o que escreve nas entrelinhas o autor psiquiatra para nos alertar.

Outra personagem interessante para análise é Graça. Foi abandonada pelo pai quando da morte da mãe, em casa do avô Joaquim. As duas pessoas que a ampararam foram o seu irmão Álvaro e a criada Alzira.

A orfandade partilhada faz com que ganhe amor pelo irmão protector, ("Lembras-te de quando o pai me trouxe como te trouxe a ti?"), um amor que a preenche e satura, ao ponto de não conseguir apaixonar-se depois por qualquer outro homem. Graça viverá com uma mulher, Cristiana, mas a relação com ela não parece de uma mulher apaixonada, mais parece uma acto voluntário de rejeição dos homens. Álvaro foi carinhoso com sua irmã desamparada, mas Graça interpreta mal esse afecto que recebe e distorce-o. Ela não o ama como uma irmã, ama-lo como uma mulher.

Acaba por ser ainda mais doloroso o abuso que Graça inflige a Alzira, que foi quem cuidou dela ternamente desde criança. Infelizmente este amor de Alzira humilha Graça, fá-la lembrar a ausência dos pais, e a saudade que deles tem. Já sei que gostas de mim, mas eu não quero o teu amor, é o amor de outros que me faz falta, parece dizer Graça à velha criada.

Por outro lado, trocando as disposições, Alzira lembra-lhe os seus problemas da juventude, a falta de charme, os óculos, a sua fealdade, de forma absurda: negando-os. Para Alzira, Graça é a sua menina bonita, e traz ao pescoço um fio com uma foto de Graça que a esta lhe parece horrorosa. Esse desfasamento provoca a agressão de que Alzira é vítima, porque irrita a pessoa querida, violenta-a e coloca em evidência a ignorância contra a qual se despedaça, na incapacidade de compreender-se, o amor cego e não desejado.

Quando existe carinho em A Morte de Carlos Gardel, é contra-producente. Graça afirma:

"Na nossa família as pessoas nunca precisam de ninguém" (pág. 96)

Certamente precisam, mas os que acodem não são quem deviam acudir. Não é que não precisem, é que não contam com quem deviam, e isso é algo muito diferente.

E fora da família também há desencontros: Cláudia é abandonada por Álvaro e quem a consola é Ricardo, que a mima, ouve-a, dá-lhe afecto. No entanto, quando Cláudia decide regressar a Alemanha, nem sequer se despede de Ricardo. O único que a ama nem existe para ela.

Raquel gosta de Álvaro, mas Álvaro não a suporta.

Cristiana quer visitar a mãe e regressar a casa, mas é a mãe que já não a quer ver.

Enquanto o texto se torna tenso pela angústia das personagens, o autor faz uma ruptura com belas descrições do mundo exterior: a natureza, as praias, as vistas de uma varanda, o rio, etc. São cenas refrescantes: a paisagem exterior embeleza esse mundo interior tão atormentado.


O FRACASSO DO PRESENTE

A morte de Nuno é o desenlace da narrativa, facto que ocorre no presente da narração. A agonia do tóxico-dependente está na origem do romance. Quando as personagens enfrentam este facto, a experiência da agonia, remete-os para o passado onde viveram situações idênticas:

- Álvaro recorda a perda da mãe ("um rosto num travesseiro / gente de luto / uma mulher que me oferecia sopa") e do avô ("... o meu avô a lutar contra o baralho nas paciências do serão, ambos surdos para o cadelo que raspava os azulejos da cozinha com as unhas, o cadelo que recusou comer após a morte do velho, ganindo de cócoras de reposteiro em reposteiro").

- Graça, a perda da mãe: "... e vem-me à memória a minha mãe na clínica".

- Silvina, a do pai: "porque morrer é quando os olhos se transformam em pálpebras".

- Cláudia recorda os mortos na guerra.

E também lembram doenças: Álvaro da operação ao coração, Cláudia das muletas do pai, Álvaro e Cláudia de uma febre que Nuno quando pequeno, etc.

As imagens surgem por associação de ideias, sensações (odores, visão da clínica, etc.), ou palavras. E o movimento é sempre para trás, o futuro não existe, nem sequer para Raquel que dará à luz o último membro da saga.

As regressões são por vezes agradáveis, aprecia-se o que se evoca com nostalgia. Por exemplo, quando Graça se lembra do irmão vestindo-a, Raquel da sua meninice vestida de branco, Beatriz da sua infância em Luanda ("Gosto da minha mãe", "Ai, rapariga, rapariga"), Silvina da presença do seu pai no estúdio de fotografia.

Em A Morte de Carlos Gardel é impossível alienar-se do passado. O presente depende dele, que o molda e condiciona. Os membros desta família não são livres de voar longe, herdam o trauma e a dor do avô e assumem-nos como seus. Estão tão feridos que são incapazes de notar o erro, e sem querer, ainda o multiplicam.

Em Nuno os erros somam-se acumulados e ele entrega-se às drogas. Não é capaz de sobreviver à situação. Nem o pai foi capaz de assumir a paternidade, afastou-se de Cláudia quando esta ficou grávida. Não estava à altura da responsabilidade. Mas o quadro é ainda mais complicado para Nuno porque Cláudia nem sequer é uma mãe carinhosa, o rapaz tem medo de ficar só, de ser substituído pelos amantes da mãe, da escuridão, do abandono. Nuno sente o ambiente, intui o que lhe espera. Por isso foge.

Nuno representa o presente da família, exemplo claro de um ser que não sabe relacionar-se com o mundo:

"Não gosto de ninguém e ninguém gosta de mim" (pág. 282).

Há uma mensagem velada nesta imolação de Nuno: com amor, a tragédia ter-se-ia evitado. Diz Álvaro:

"... se eu pudesse voltar atrás, ter ficado com a tua mãe, não me casar com a Raquel..." (pág. 46).

O outro desfecho é a loucura de Álvaro. Quando morre o filho, e assumindo a culpa, descontrola-se. A sua obsessão com Carlos Gardel, já antiga, transtorna-o por completo. Os episódios com Albino Seixas e a mulher são patéticos e as cenas delirantes.

Cláudia é a personagem com maiores recursos. Ela, que não pertence à família senão através do casamento, decide, após a morte do filho, afastar-se e recomeçar em outro lugar.. Nela existe um plano de futuro, uma vontade de renovação.


As citações foram tiradas da edição de bolso de Random House Mondadori, ano 2004, tradução de Mario Merlino.*


* Para a tradução do artigo as citações são da 3ª edição, 1994, Dom Quixote. Os itálicos e negritos não são do texto original


Liliana Costa
07.11.2006
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

03/12/2011

Margaret Carson: opinião sobre O Manual dos Inquisidores


O romancista português António Lobo Antunes dedicou grande parte de sua carreira literária para evocar o período da história de seu país a partir dos anos finais da ditadura de Salazar, que terminou em 1968, com a transição tumultuosa para a democracia após a Revolução dos Cravos de 1974. Em O Manual dos Inquisidores, Antunes traz ao leitor a o relato impiedoso de um regime ditatorial brutal derrubado por uma revolução que capturou a atenção do mundo quando fotografias de civis colocando flores nas espingardas dos soldados foram passadas. Apesar de desenvolver um trabalho ficcional, Antunes incorpora as especificidades desse tempo no seu romance, usando funcionários governamentais da vida real como personagens secundárias, e recriando crimes e abusos que estão ainda vivos na memória de muitos portugueses.

À primeira vista, o romance parece imitar a estrutura de um estudo clínico, com passagens organizadas por capítulos intitulados de "Relato" ou "Comentário", mas o fluxo da consciência narrativa está longe de ser de tal forma simplista. O leitor deste ambicioso romance tem de juntar os relatos fragmentados de quase vinte personagens diferentes, cujas vozes distintas se movem para a frente e para trás no tempo ao longo de um período de quarenta anos. Esta narrativa não-linear e inconstante destabiliza o leitor, mas a complexidade da história acaba por tomar forma. Antunes joga com a noção de documentário, porém o relatório que oferece tem mais que ver com a memória fragmentada do que com uma transcrição científica. O autor aborda uma história conturbada, não estabelecendo o que dizem os factos, mas enfatizando o quanto é difícil de avaliar e compreender o passado.

Os tópicos principais da narrativa convergem na figura do Sr. Francisco, um ministro ficcional do gabinete de Salazar, dono de uma enorme quinta e casa senhorial nos arredores de Lisboa. "Faço tudo o que elas querem, mas não tiro o chapéu para que se saiba quem é o patrão", afirma, através da memória do seu filho anos mais tarde. Ser patrão significa poder escolher as criadas, a quem ele trata como gado (na verdade, um alvo da sua predação sexual vive no celeiro, e outra, grávida dele, dá à luz num estábulo, assistida por um veterinário).

De tempos a tempos o Primeiro Ministro reúne com o Sr. Francisco na quinta, sendo a sua visita precedida pela Guarda Nacional que abate dezenas de corvos para que o ditador paranóico não viesse a confundir  o grasnar das aves com uma multidão escarnecedora. O ditador idoso, cercado por um séquito de bajuladores secretários e guarda-costas que se dirigem a ele como "Professor Salazar," toma chá com o ministro, enquanto discutem quem deve ser interpelado e mandado para a cadeia. Depois de terem decidido, um simples telefonema para o "Major", o chefe da polícia secreta de Portugal, é o suficiente. O leitor reconhece o modus operandi do estado totalitário em todo o romance: os ficheiros secretos, os interrogatórios e as torturas, os assassínios sem julgamento.

A Revolução dos Cravos vem trazer efusiva alegria: "a rádio estilhaçava-se em cantorias, os automóveis buzinavam, as fábricas apitavam sem cessar" e o pandemónio instala-se na quinta. O ministro sabe que é hora da vingança, e despeja os criados e funcionários da propriedade, chamando-os "comunas" e ameaçando matá-los, enquanto atiça cães pastores alemães que percorrem a quinta. Um mês depois, quinta e casa está em ruínas (provavelmente saqueado pelos revolucionários que temia, embora não vemos essa cena), e o ex-ministro definha. Poucos anos depois é vítima de um derrame cerebral e acaba os dias num lar de idosos, impotente e mudo, meditando sobre as cenas de brutalidade do seu passado, incluindo sua própria iniciação como um jovem oficial sobre a violência da guerra de guerrilha na Angola colonial. Antunes sugere que essa exposição precoce à violência teve consequências a longo prazo para o ministro. Uma vez doutrinado para o uso da violência e da tortura para instilar o medo nos habitantes da colónia, o ministro estava bem preparado para assumir um papel semelhante na sua vida pessoal e pública.

O tradutor Richard Zenith fez um trabalho extraordinário que está sintonizado com as vozes características do original. Portugal entretanto tornou-se membro da União Europeia há mais de vinte anos, mas em O Manual dos Inquisidores, António Lobo Antunes deixa claro não permitir que o recém-próspero Portugal democrático esqueça o seu passado totalitário.


Margaret Carson
2007
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...