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27 de junho de 2016

Nelson Zagalo sobre Não É Meia Noite Quem Quer (blog Virtual Illusion)

Li centenas de crónicas de António Lobo Antunes (ALA), contudo este é o seu primeiro romance que termino. Não que me tenha esforçado por ler outros, confesso que outros antes não me motivaram suficientemente, nomeadamente pelo surgimento constante do tema da guerra colonial, que me provoca algum distanciamento. Este perseguia-me quase desde que saiu, pois gostei imenso das primeiras páginas, o retrato que ALA ali desenha abre para uma espécie de cenário tipo do cinema português dos anos 1990: urbano, melancólico, pausado, reflexivo, e profundamente introspectivo.

“Não É Meia Noite Quem Quer” vem dividido em três grandes capítulos, por sua vez divididos em 10 secções cada, em que cada capítulo representa um dia, sendo que a acção decorre de sexta a domingo, tudo distribuído por 450 páginas. A escrita de ALA não é simples, desde logo porque trabalha em fluxo de consciência, estamos todo o tempo dentro da cabeça da protagonista, com excepção apenas para duas secções, em que somos convidados a entrar na mente de uma amiga e noutra vez do irmão que tinha ido para a guerra. Deste modo temos uma escrita entrecortada e fragmentada, sem contudo deixar de nos seduzir pela beleza do ritmo e texto, quase por vezes a roçar o poético.

A acção decorre nos anos 1990, a protagonista tem 52 anos e é professora, ao longo do livro vamos ficar a conhecer os seus três irmãos: o irmão que foi para a guerra e voltou louco; o mais velho que se suicidou; e o irmão surdo que vive revoltado. A mãe e vizinhas, o pai e seus vícios, a sua infância e amigas, o encontro do marido, a perda de uma filha que não chega a nascer nem permite que outras nasçam, a perda do marido que se deixa levar por outra, até à perda de uma parte do seu corpo levada por uma mastectomia.

Se o primeiro capítulo (sexta-feira) nos leva como uma onda, parecendo difícil parar de ler, queremos não apenas conhecer mais quem nos fala, mas também deleitar-nos com a escrita do autor, no segundo capítulo (sábado) muito disto perde-se, voltando apenas a reencontrar-se no terceiro momento (domingo). Deste modo fica-me uma sensação, no final da leitura, de falta de edição, o que havia para contar, para nos fazer sentir, podia ter sido conseguido em muito menos páginas, nomeadamente obliterando muito daquilo que está no segundo capítulo, e algumas partes do terceiro e até primeiro.

São vários os momentos que perturbam a leitura, e criam distanciamento, por serem extemporâneos, dos quais o mais saliente acontece o final do segundo capítulo, com toda uma secção a ser ditada pelo irmão que foi para a guerra em África, na primeira pessoa. Passamos do universo que acima defini, para outro completamente distinto, não apenas porque em termos de cenário é tão longíquo, mas porque o tom se transforma radicalmente, passando da melancolia à violência brutal, sem que isso tenha uma implicação directa na personagem principal. Ou seja, a manutenção deste todo, aparentemente sem edição, resulta tão pouco homogéneo acabando por retirar força à obra.

Efeitos desta falta de coerência acabam por resvalar e contaminar outros elementos, tais como a progressão narrativa, que se vai desvelando simplista porque previsível, nomeadamente dados os clichés que vão surgindo aqui e ali. Se a protagonista se caracteriza por via da caracterização dos demais, esses são por vezes tão óbvios que incomodam, como o irmão ensandecido que trouxe traumas da guerra, ou a mãe que engana o marido com o canalizador! Não se percebe a lógica de tão pobres construções, que acabam por se misturar e intensificar com o tom muitas vezes altivo, elitista, com que se vai descrevendo a “gentinha” ou os “pretos”, mesmo que sendo pela boca de personagens na primeira pessoa.

“Não É Meia Noite Quem Quer” acaba sendo uma obra a considerar, por ter o autor que tem, e consequentemente apresentar por várias vezes rasgos de escrita magistral, como a última secção do primeiro capítulo, toda num parágrafo que se prolonga por 15 páginas, que nos dá vontade de ler num único trago. Por outro lado, toda esta genialidade artística acaba por conferir toda uma dimensão de respeitabilidade que parece ter impedido a quem devia ter exercido o seu trabalho criticamente e assim contribuir para que o bom pudesse ter chegado a ser excelente.


por Nelson Zagalo
07.11.2015

26 de maio de 2016

Pedro Fernandes opina sobre Não É Meia Noite Quem Quer

edição brasileira Alfaguara
«não temos certeza se existiu ou nos deram imagens que amontoamos na esperança de conseguir o que se chama vida». Este fragmento colectado de Não É Meia Noite Quem Quer (*) bem poderia servir de síntese temática sobre esse romance ou ainda de chave de leitura sobre os títulos da obra mais recente de António Lobo Antunes, estes que foram lidos pelo próprio escritor como a revisão obsessiva de um mesmo livro. A razão para tanto – a da síntese – é também enunciadora dessa afirmativa que o português faz sobre a sua obra.

Novamente, estamos diante do limiar da condição humana – território sobre o qual tão bem a literatura antuniana tem se construído. A voz que domina esse complexo labirinto de idas e vindas da memória ou esses lapsos que surgem numa e desaparecem noutra vez do pensamento é de uma mulher marcada por uma diversidade de perdas; o conjunto de iluminações nasce do seu reencontro com [o] passado através da visita à casa onde viveu até antes do casamento. É um fim de semana tomado pela revisão sobre grande parte dos episódios de um tempo quando o pai ainda vivo é um palerma, a mãe uma mulher visceral que não despreza a traição com os funcionários de grande monta que visitam a casa quando na ausência do companheiro sempre a se queixar do filho surdo – sua cruz, o irmão surdo que costura a narrativa com um refrão que também será síntese da obra – “Ata titi ata” (uma das variantes) e o irmão que foi para a Guerra [colonial] em África (ou não foi?) e suicidou-se jogando-se do penhasco para o mar, o que torna em figura obsessiva nos reflexos dessa narradora; narradora que está num casamento apagado, interrogando-se sobre sua própria sexualidade pelo suspeitoso envolvimento com a amiga Tininha, com a vida marcada pela perda de um seio para o câncer e do aborto de um filho – para citar outros três dramas maiores.

De facto, a presença do irmão suicida é a mais forte entre os frangalhos de recordação, que é afinal o corpo da obra; está alinhavada por uma extensa quantidade de trivialidades do dia-a-dia comum de uma menina de forte pendor introspectivo, às voltas na invenção de diálogos com e entre as árvores de próximo à casa onde vive ou inquieta ante o ir e vir dos pássaros, o fluxo do mar e, além da paisagem, também os objectos que estão no seu entorno; de uma menina que lembra continuamente determinadas situações, aquelas que ficam presas e vão e vêm como flashs toda vez que se confronta com o passado: uma ida à praia, os passeios de bicicleta com o irmão mais velho, as trapalhadas do irmão surdo, as queixas da mãe, o silêncio do pai envolvido pela bebida, as idas à venda do bairro, o contacto com os poucos vizinhos, etc. É afinal um passeio entre ruínas cujo interesse é coisa nenhuma; não estamos, por exemplo, ante uma personagem como é Maria Clara de Não entres tão depressa nessa noite escura, interessada em construir a história de seu passado a fim de se compreender na figura que é no presente da recordação. Não É Meia Noite Quem Quer é um fluxo contínuo do que vem à memória de alguém que depois de tanto tempo é confrontado com um passado que jurava apagado, mas está apenas adormecido. 

Por citar Não entres tão depressa nessa noite escura e este romance, é válido pensar na presença da noite como traço simbólico de aproximação e distinção das obras. No primeiro, o apelo é propulsor da acção contrária: uma viagem aos confins de noite, que é a um só tempo esse passado que assume a vida da personagem e a escuridão de seu próprio eu. No título ora lido, a afirmativa é quase uma tese a ser corroborada pela extensa visita a uma existência tomada pela presença recorrente da perda. Note-se, entretanto, que o tema perda é recorrente num e noutro romance; é a obsessão contínua de António Lobo Antunes com sua literatura. Em Não É Meia Noite Quem Quer é como se o autor estivesse interessado em dizer, depois de compreender a biografia de sua personagem, que nem todos estão condenados à escuridão da existência mas é para os que estão que devemos (ou a literatura deve) virar sua atenção. Isto é, o escritor irmana-se com parte mais frágil da humanidade, essa que é margem e passa despercebida aos olhos dos que estão imersos demais na correria da vida contemporânea e já não são mais capazes de ver os tragados pelo peso de existir ou o que a existência lhe reservou de contínua dor.

A sugestão do tema só estará nascida na leitura integral do romance e é uma poderosa estratégia ou desafio que o escritor lança para o leitor do mesmo lugar habitado pela poesia; não é o título de um poema uma fresta pela qual se espreita o volume de sua forma dada na leitura integral da peça? Pela recorrência nessa estratégia chamada pelo escritor de contra-epopeia, talvez seja exagero nenhum dizer que António Lobo Antunes se afirma com um autor de exímios poemas em prosa, já que sua narrativa nos propicia a mesma obsessão interior experimentada pela personagem; obriga-nos à posição de desassossego no sentido mais sincero dessa palavra. 

Se lembrarmos que do passado toda a grande literatura se manteve porque cultivou o verso ou que essa era a forma perfeita para traduzir também uma totalidade da existência e olharmos para o presente para ver que ao verso reduziu-se o conteúdo da lírica marcadamente descontínua e fragmentada também não será exagero dizer que o retorno feito pelo escritor português é uma resposta de, no mesmo desejo que sustentou a narrativa – o de melhor dizer sobre a realidade – melhor dizer sobre os movimentos internos do eu, única maquinaria que, fraca, resiste complexamente frente a um mundo de indivíduos e que já não é mais campo de aventura e experimentação para o homem.

É preciso dizer que a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer, assim como a de nenhuma obra contemporânea, não está feita apenas se esbarrarmos na compreensão do cerzido das histórias engendradas pela narrativa (no caso do romance ora lido, trazidas pela memória da narradora); é preciso que o leitor tenha a mesma disposição aventureira de singrar por esse labirinto verbal para instalar algumas curiosidades que o permitam sair do universo aberto do romance a fim de buscar na possível rede de diálogos construídos pela obra e melhor sentir as filigranas da narrativa. Alguém terá dito sobre a poesia de Ezra Pound e a de T. S. Eliot que são tessituras marcadas pelo enigma estrategicamente arquitetado pelos poetas a partir da transfiguração de suas próprias Babel; na outra margem alguém terá chamado isso de incompetência poética porque uma vez decifrada a charada, o que sobraria do texto, se não uma velharia de palavras? Mas, será que os dessa margem terão conseguido tornar o poema em sucata ou terão sido sucateados pelo tempo? 

No caso de António Lobo Antunes há ainda outra linha que é necessário avivar entre os nomes que melhor terão dado ao texto o fôlego para tornar seus leitores tomados pela incapacidade de vencer integralmente as malhas do texto: a de sempre nos dá um novo texto – não só pela revisão da interpretação porque passa os sentidos de todo leitor mas pela possibilidade de descobrir outras narrativas igualmente possíveis ante a que formamos na primeira leitura ou a que nos é entregue pelas sinopses em notas como estas. O escritor faz o texto prolongar-se no infinito. Uma continuidade alimentada toda vez que despertamos [d]os seus livros e sobre a qual nunca temos controle. Um exemplo? O citado caso da ida ou não do irmão dessa narradora de Não É Meia Noite Quem Quer para a Guerra em África. Alguém poderá perguntar, afinal, qual importância tem isso para o andamento do romance e basta pensar que uma coisa é o suicídio ter sido um não definitivo à imposição de ir ao front e outra coisa é o suicídio ter sido depois de haver estado num inferno na terra. Há no primeiro gesto uma atitude de heroísmo muito cara às personagens antunianas, em grande parte, fiapos de gente teimando em alçar algum vôo a partir do convívio doloroso com o passado e o presente; essa personagem do romance ora lido, é um exemplo, não será alguém cujos sentidos se voltam cada vez para o irmão porque assim se vê em sua condição existencial? Já se a atitude tiver sido fruto do pós-guerra, amplia-se o legado medonho, a crítica ao Estado facínora, capaz de tornar homens em zumbis tal como é aquele soldado atormentado em Os cus de Judas.     

Sobre a necessidade de visitar outros lugares com os quais flertam essa narrativa, fiquemos com o título e a informação oferecida pelo romancista na epígrafe de que esta é uma frase de René Char; depois veremos, frase não, um verso do poema “De relance”, do poeta que integrou por um tempo os vultos do surrealismo francês, René Char: “Semeio com minhas mãos, / Planto com os meus rins; // É muda a chuva fina. // Numa estrada estreita, / Escrevo o meu segredo. // Não é meia noite quem quer // O eco é meu vizinho, / A bruma, a minha sequência”. Essas informações e a leitura do poema são, como vê, esclarecedoras sobre o romance: à medida que compreendemos o traço ou o tônus surrealista que corre de uma ponta a outra a narrativa, sabemos estar ante uma narradora que exercita-se na compreensão íntima (e pública quando somos seu espectador) de seus segredos feitos de ecos do passado e imprecisos da mesma maneira que uma bruma, incapaz de se rever como uma imagem pura e limpa porque isso não é o que somos, sobretudo quando somos noites. Agora, isso desaba o edifício verbal que é a obra? De maneira alguma. Amplia-o, permite ao leitor renovar o encanto pela narrativa e reinaugurar seu itinerário por ela.

(*) Apesar de ter sido publicada no Brasil como "Não é meia-noite quem quer", decidi usar a grafia original do título.


por Pedro Fernandes
em Letras In.verso e Re.verso
09.02.2016

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

30 de dezembro de 2015

Leonardo Gandolfi - opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

António Lobo Antunes demonstra até onde vai a velha e boa arte de narrar

António Lobo Antunes tem chamado a atenção ao disparar duvidosas frases de efeito por aí. A última foi em setembro passado. Em entrevista ao jornal "El País", o autor questionou a qualidade da obra de Fernando Pessoa, criticando o fato de o poeta supostamente nunca ter feito sexo.

Seus livros, no entanto, costumam passar longe dessa duvidosa atenção. A prova é «Não É Meia-Noite Quem Quer». O romance traz como narradora uma mulher - dona de algumas cicatrizes - que volta à casa de praia da infância. Entre lembranças e fantasmas, lá também estão mãe, pai, a amiga, irmãos, avós e ela mesma, com 11 anos.

As personagens importantes da história não têm nome próprio e essa ausência é um dos recursos que ajudam a dar o tom da narrativa. Justamente na intimidade da vida doméstica é que as vozes se confundem. Tal fusão é uma das marcas do estilo de Lobo Antunes. Os diálogos atravessam a história, cortam e compõem a narrativa, ajudando a criar as feridas desta família.

Num livro em que quase todos não têm nome, mas têm voz, a atenção pode se voltar para aqueles que não falam, mas têm nome. É o caso de Ernesto, hipopótamo de pelúcia, que, em seu silêncio de objeto, é testemunha do cotidiano comezinho nesse ambiente onde se inscrevem as marcas de perdas irreparáveis.

O espaço arruinado da casa se confunde com a decadência de um país assombrado, entre outras coisas, pela guerra colonial na África. Aliás, Lobo Antunes - desde os primeiros livros, nos anos 1970 - tem dado voz ao sentimento de desencanto político e cultural em Portugal, que tem a ver com alguns desdobramentos nada eufóricos da Revolução dos Cravos (1974).

«Não É Meia-Noite Quem Quer» está dividido em três partes, cada uma sobre um dia do fim de semana em que a professora se despede de sua velha casa. Este é o único elemento da narrativa em que a ordem cronológica mais convencional se faz ver.

Em cada um dos três dias, a história vai e volta continuamente no intervalo de 40 anos, como se criasse um tempo verbal próprio. Esse ir e vir de épocas acaba por produzir uma estrutura musical com seus movimentos, repetições e variações de frases.

Há também um caráter trágico que dialoga com tal estrutura. Em determinado trecho, a voz infantil - ao entrar numa pastelaria chamada Tebas - pergunta o que significa essa palavra. A voz da mãe diz que se trata de uma cidade grega. A menção a esse cenário das tragédias –que continua ecoando na história - não é gratuita.

Um dos clientes da pastelaria é o irmão surdo da narradora principal. Sendo surdo, ele tem voz e fala, mas sua fala é uma espécie de gaguez que reaparece diversas vezes ao longo do livro. Funciona como refrão dissonante ou como sentença ruidosa que um coro de tragédia anuncia, tragédia que já aconteceu, ou melhor, que está por acontecer.

Certo formato oitocentista de narrativa ainda é o principal modelo do que chamamos, hoje em dia, de romance. Lobo Antunes procura se distanciar desse modelo, dizendo-nos até onde pode ir a velha e boa arte de narrar.


por Leonardo Gandolfi
em Folha Ilustrada
28.12.2015

8 de novembro de 2015

Sérgio Rodrigues escreve sobre Não É Meia Noite Quem Quer

‘Não é meia-noite…’: Lobo Antunes no labirinto da memória


O novo lançamento do escritor português António Lobo Antunes no Brasil, o romance “Não é meia-noite quem quer” [...], publicado em Portugal em 2012, oferece munição tanto a seus fãs incondicionais quanto a seus detractores. Estamos falando de um velho embate da cultura lusitana, a polarização entre os que acreditam estar diante do único escritor genial em actividade na língua portuguesa e os que julgam ter sido o autor lisboeta de 73 anos engolido pela própria vaidade de malabarista das palavras, terminando por sucumbir ao vazio do exibicionismo formal.

Naturalmente, o leitor não precisa se alinhar com nenhum desses lados, mesmo porque há um pouco de verdade em ambos. Antes de se lançar à aventura do livro, contudo, deve saber que “Não é meia-noite…” é um romance exigente que demandará sua adesão incondicional, uma espécie de profissão de fé renovada a cada página (às vezes penosamente) na recompensa proporcionada por uma história que gira sobre si mesma.

Na primeira metade de sua carreira, Lobo Antunes, psiquiatra de formação, perseguia algum equilíbrio entre a tessitura da prosa – que sempre foi caudalosa, musical e poética – e o enredo. Por exemplo: um romance como “As naus” (1988), fantasia em que os heróis das grandes navegações portuguesas voltam a “Lixboa” na ressaca pós-colonial dos anos 1970, tem uma linguagem de forte personalidade sem deixar o leitor à míngua de peripécias.

Foi em torno da virada do século que o autor passou a radicalizar técnicas de condensação, superposição e fragmentação de tempos e vozes narrativas a tal ponto que, neste romance, quase não faz sentido falar em “história”. Em todo caso, lá vai: uma mulher de 52 anos, professora, narra sua visita ao longo de um fim de semana à casa de praia onde passou a infância. A precisão cronológica anunciada pelos títulos das três partes do livro – uma para cada dia, começando com “sexta-feira, 26 de agosto de 2011” – é praticamente uma gozação.

Nos dez capítulos de cada parte, o último deles emprestado a outros personagens da história, a mulher permanece no mesmo lugar: o labirinto atemporal de suas memórias, em que tudo o que se passou em diferentes épocas é visitado e revisitado num fluxo de consciência que alterna momentos de grande intensidade poética (“Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar…”) e momentos de enfadonha monotonia.

Em meio a bordões, avanços e impasses, o leitor se vê montando um quebra-cabeça que, no entanto, não demora a se desenhar em linhas gerais, dispensando a isca do mistério. Lá estão a mãe pouco carinhosa, o pai alcoólatra e os três irmãos, dos quais um era mudo e arredio, o outro voltou maluco da guerra em Angola (que o autor lutou e transformou em tema recorrente) e o mais velho suicidou-se pulando de um penhasco à beira-mar.

Lá está também a melhor amiga de infância, que se afastou sem explicar a razão e que retorna como médica de frio profissionalismo quando a mulher é submetida a uma mastectomia. Lá estão o marido que a rejeita por causa da mutilação e a colega mais velha que, pouco se importando com o peito ausente, a seduz. Logo fica claro que a mulher entretém o plano de seguir os passos do irmão suicida: a frase de abertura do romance é “Acordava a meio da noite com a certeza do mar a chamar-me através das persianas fechadas…”.

Será que a personagem levará seu projecto a cabo? Eis o único fio de suspense que o autor concede ao leitor. Um fio frágil, pois tampouco é isso o que de facto importa. Mais do que no destino dos personagens, a ênfase recai sobre as próprias formas de representação literária da memória, que num modo de escrita próximo da livre associação revela-se uma memória particular sem deixar de ser também, corporificada na linguagem, colectiva.

Se houve uma progressiva radicalização de tais linhas de força na trajectória de Lobo Antunes, é inegável que há também coerência em seu projecto artístico. Em Fevereiro deste ano, [um] jornal português online [...] publicou uma reportagem tão longa quanto cruel, [...] na qual busca compreender a expressiva queda nas vendas do autor [...].

Convocados a opinar, críticos e jornalistas se dividiram entre culpar os leitores da nova geração, que estariam em busca de livros mais rasos, e responsabilizar o próprio autor, que teria abusado da boa vontade do público ao se promover ou permitir que o promovessem, ano após ano, como um boquirroto brigão sem rabo preso com o establishment literário, convencido do próprio génio e injustiçado pelo Prémio Nobel [...].

É provável que pouca gente tenha paciência hoje em dia para a arrogância do personagem Lobo Antunes, mas sua literatura nada tem a ver com isso. Se anda encontrando menos leitores do que na virada do século, isso se deve simplesmente ao facto de que é acessível a pouca gente mesmo, uma característica que o tempo acentuou.

Resenha publicada na edição da revista “Veja” 

por Sérgio Rodrigues
em Todo Prosa
07.11.2015

1 de novembro de 2015

O Estado de São Paulo «A ficção biográfica de Lobo Antunes»

Autor considera ‘Não É Meia-Noite Quem Quer’ sua obra mais pessoal


Do outro lado da linha, a voz soa acabrunhada – um dos mais importantes autores da língua portuguesa, António Lobo Antunes parece reforçar sua fama de não gostar de dar entrevistas. “Sobre qual livro vamos mesmo conversar?”, questiona e, depois de ouvir o título Não É Meia-Noite Quem Quer, a 28.ª obra de uma carreira notável, é quase possível vê-lo dar de ombros, mesmo estando em Lisboa. “Não tenho o que falar. Jamais releio meus livros e, ao final, são todos iguais para mim.”

O que poderia ser desanimador é, na verdade, um estímulo – aos 73 anos, Lobo Antunes é uma celebridade em Portugal, reconhecido onde quer que vá. Vários motivos explicam. Primeiro, sua literatura – para ele, a perfeição está longe de ser alcançada, daí sua escrita estar sob constante evolução, notadamente subversiva e radicalmente original. Não é para ser degustada e, sim, devorada.

Em segundo lugar, sua simpatia. Sim, António Lobo Antunes transborda charme. Já se tornou célebre a participação de Lobo Antunes na Flip de 2009. É essa mesma candura que move agora a conversa com o Estado. Como de hábito, Lobo Antunes relembra a importância da literatura brasileira em sua formação. “Meu avô nasceu no Brasil e, em sua biblioteca, aprendi muito com Monteiro Lobato, Machado de Assis, Raul Pompeia.”

Em seguida, relembra sua admiração por Drummond (“versos perfeitos”), cobra mais atenção à obra de Paulo Mendes Campos (“cronista exemplar”), Jorge de Lima (“Invenção de Orfeu é notável”) e Mário Quintana (“poeta brilhante, mas pouco lido”). Pergunta sobre o amigo Rubem Fonseca (“continua a caminhar por Copacabana?”), relembra com saudade de Jorge Amado (“um dos homens mais gentis que conheci”) e venera João Cabral de Melo Meto (“um poeta que não tem antecessores – parece que nasceu do nada”).

edição Alfaguara Brasil
Já tomado pela nostalgia e por seu natural lirismo, Lobo Antunes começa a falar mais detalhadamente sobre Não É Meia-Noite Quem Quer. Publicado em 2012 em Portugal, o livro provocou-lhe lágrimas enquanto era escrito. “Não porque me comovesse a história, mas porque as palavras fluíam, as frases saíam perfeitas. Tinha a sensação de que o livro me era ditado e que a esferográfica não tinha a mesma velocidade da voz que dizia as sentenças.”

Apenas uma vez tal milagre acontecera – em 1980, quando viajava da cidade de Aveiro para Lisboa, chegou com o livro Explicação dos Pássaros praticamente pronto. Lobo Antunes relembra com imenso prazer a sensação: era como se o enredo enchesse todo seu corpo, com as palavras correndo nas veias como o sangue.

Habitualmente, o processo é mais demorado, doloroso, com muita reescrita e fracasso. “Escrever é um trabalho que se faz por paixão, com muito sacrifício, com muitas olheiras”, já disse, certa vez, Lobo Antunes, que emenda, agora, com uma frase de Cardoso Pires: “É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha prazer”.

Não É Meia-Noite Quem Quer é a história de uma mulher, cujo nome não é revelado. Professora, separada, 52 anos, vítima do câncer de mama, ela decide, em um fim de semana, despedir-se da casa em Peniche, onde cresceu ao lado dos irmãos. Ao chegar, é tomada pelas memórias, relembrando desde impressões da infância como o suicídio do irmão mais velho. A acção se passa em três dias, divididos em dez capítulos em que Lobo Antunes se aproveita do irregular fluxo de memória da personagem para exercitar seu estilo precioso – sem qualquer preocupação com a evolução cronológica da história, apresentando os personagens à medida em que são evocados pela lembrança.

Lobo Antunes considera-o seu livro mais autobiográfico. “Minha impressão é a de que estive a falar o tempo todo de mim, do princípio ao fim. Fiquei com a sensação de que me conheço melhor”, comenta ele, que se confessa leitor compulsivo. “Os livros dizem muito sobre nós mesmos. Com o tempo, aprendi que os livros maus falam, os bons, ouvem.”

Apaixonado por seu ofício, Lobo Antunes jura ter muito respeito pelos artistas. Afinal, a herança de um povo é sua cultura. “Os heróis nacionais não são políticos ou economistas – são Shakespeare, Camões, Cervantes.”


31.10.2015
texto de Ubiratan Brasil

17 de janeiro de 2015

Gonçalo Mira opina sobre Não É Meia Noite Quem Quer, em Fragmagens

Uma mulher regressa à casa onde cresceu, entretanto abandonada e prestes a ser vendida, para uma última visita. E é nessa casa abandonada que as recordações de infância a assaltam, remexendo no passado e questionando o presente. Estas são as linhas gerais da história de uma professora com um casamento desgastado e sem filhos, mas não é aqui que Não é meia noite quem quer se esgota. Pelo contrário. Com António Lobo Antunes a regra é quase sempre essa, a estrutura a fazer de acessório ao que realmente importa, ao que as personagens sentem, pensam e sofrem. Quando a personagem principal do romance explora a casa, o que interessa é que o leitor explore a personagem. Tem três dias para o fazer, que é o tempo em que a narrativa (nunca fico satisfeito com a aplicação deste termo a livros de Lobo Antunes) se desenrola. A escrita é a de sempre, de frases que pedem contemplação e de metáforas que fazem pensar. Não é meia noite quem quer não é muito diferente de outros livros de Lobo Antunes, mas é mais uma oportunidade de sentir a prosa de um autor incomum.



por Gonçalo Mira
02.04.2014

19 de abril de 2014

José Alexandre Ramos sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer

Espectros

O título deste meu texto de opinião sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer de António Lobo Antunes, numa tão simples, comprimidida e (aparentemente?) muito redutora palavra, tanto podia servir para abrir como para fechar o resumo sobre o que nos diz este livro, o 28º título do escritor, publicado em Outubro de 2012. A razão para tal é simples: parcas ou muitas palavras podem ser, ao mesmo tempo, excessivas e demasiadas quando opinamos sobre um livro de António Lobo Antunes, pelo menos os que foram escritos, mais ou menos, desde O Arquipélago da Insónia. Até porque Não É Meia Noite Quem Quer reafirma a dificuldade de ler este autor, cujo discurso se vem tornando cada vez mais fragmentado, no intuito de ampliar os pensamentos ao nível da palavra escrita e lida. Fica ao critério do leitor – como o afirma António Lobo Antunes há muito tempo – cuidar de ter a chave correcta para o decifrar, chave essa que não existe em mais nenhum lugar senão dentro de nós. O certo é que é mesmo verdade o que o escritor tantas vezes alerta: temos que partir para a leitura despidos de (pre) conceitos, e de forma humilde. O livro acaba por ser o leitor que o constrói mas, para tal acontecer, é necessário que haja total empatia entre quem lê e o texto. Pode demorar até que essa simbiose surja, ou alías, até que fique perceptível para o leitor obstinado e curioso (não para aquele que desiste ao fim de 50 páginas), mas acaba por acontecer, no meio de muito esforço, esforço este que vale muito a pena. 

Se pudéssemos fazer um resumo, o livro é sobre uma mulher (o autor não lhe dá um nome), a narradora, se quisermos assim chamar, de cinquenta de dois anos, professora, separada, vítima de cancro da mama e consequente mastectomia, que vem num fim de semana despedir-se da casa em Peniche onde cresceu ela e seus irmãos, e decidir dar termo à sua vida. Assim que chega, o novelo das memórias que a casa obviamente suscita começa a desenrolar-se, nas primeiras impressões da infância de antes e depois do suicídio do seu irmão mais velho (ela é mais nova de quatro irmãos, e a única rapariga), memórias que se vão encadeando no discurso da narradora, sem haver qualquer evolução cronológica dos eventos, apresentando as outras personagens à medida que o pensamento as evoca. A mãe é uma das personagens mais presentes e que maior influência exerce sobre a narradora, uma mãe que se tornou amarga após (ou já o seria antes?) o suicídio do filho mais velho, resignada como o seu marido que se torna alcoólico pelas mesmas razões. Pelo meio, o segundo imão mais velho (designado como o irmão não-surdo) que vai para África combater e regressa tolhido do stress pós-traumático, e o outro, o irmão surdo, que conhecemos como uma pessoa rebelde por ser tomado como diferente, incompreendido, quase marginalizado. Surge ainda Tininha, que conhecemos como a vizinha com quem em miúda a narradora brincava, sendo depois a indiferente doutora Clementina, médica da narradora no curso da sua doença, mas sem dar importância à amizade da infância, tomando uma atitude distante. À medida que as recordações da infância se vão misturando com o passado mais recente, ficamos a saber do marido de quem acaba por se separar depois de ter abortado, da morte do pai após longos anos dependente da bebida, do envolvimento amoroso da narradora com uma colega mais velha, entre muitos outros factos.

São apenas apontamentos de personagens e do que, numa primeira mirada, elas representam para a mulher que as vai evocando ao longo do livro. Não são só estas, outras personagens vão surgindo que, apesar de não as considerar menos importantes (se o são apenas por que não tantas vezes evocadas), decidi não referir, assim como não importa referir aqui pormenores e episódios das vivências desta mulher, já que não é possível isolá-los do contexto em que são evocados. No fundo, não existe história (o que não é novidade para quem lê António Lobo Antunes), o que existe são pensamentos e sentimentos da vida de alguém que vão interpelando e se interligando com os sentimentos e pensamentos de outras pessoas. E como o pensamento não se estrutura num simples esquema, também não podemos resumir como numa sinopse o que nos transmite Não É Meia Noite Quem Quer.

No livro habita a personagem (deixamos de lado agora a designação – errada – de “narradora”) e os espectros da sua vida. Nada nos garante, enquanto lemos, que seja de facto uma mulher de meia idade que nos fala, se quisermos podemos pensar que o nosso diálogo com o livro é feito através de alguém senil e demente, ou de alguém que já morreu, ou de alguém que talvez estivesse a sonhar (ainda: do escritor que tenta projectar numa personagem e factos fictícios a sua própria experiència e a si mesmo? Porque terá dito António Lobo Antunes que este é o seu livro mais biográfico?). E por isso também não é garantido que os factos sejam os reais, isto é, os que a personagem efectivamente viveu, experimentou, conheceu. No fundo, são também os meus, os teus, os deles. Os nossos. Estes espectros fazem parte de nós, basta mudarmo-lhes os nomes, substituir as circunstâncias, alterar as afinidades... e somos nós dentro do livro. Da minha experiência pessoal, eu sonhei com o livro, ou melhor: sonhei com a personagem e suas angústias, mas o sonho era sobre eu próprio, sobre o que me angustia. Que outra prova podia haver para mim?

O que resulta de muito valioso é quando percebemos a forma como as palavras e as expressões estão tão bem colocadas como se conseguíssemos “ler” o pensamento da personagem (e por aí chegarmos ao ponto de termos a sensação de estarmos a “ouvir” o nosso próprio pensamento). É interessante constastar isto se entendermos como se estrutura, por exemplo, um trecho musical, como se ligam dois ou três acordes para se fazer uma melodia. E será isto, na minha opinião, que quer dizer António Lobo Antunes quando afirma “Ninguém escreve como eu, nem eu próprio”.

A terminar, como se um post scriptum: não se consegue opinar sobre um livro de António Lobo Antunes sem evocar outros da sua autoria, bem como referir a sua forma de escrever. Já que muitas vezes até parece que estamos a ler algo que não ficou escrito no(s) livro(s) anterior(es)...

José Alexandre Ramos
18.04.2014

18 de fevereiro de 2014

Raquel Ribeiro: crítica a Não É Meia Noite Quem Quer

A cerimónia do adeus


Uma mulher, uma longa despedida, triste, sem uma réstia de esperança ou de consolo

Onze romances nos últimos doze anos, mais os livros de crónicas: é este o saldo da produção literária de António Lobo Antunes que agora publica Não é Meia Noite Quem Quer, o seu vigésimo quarto romance.

Se no romance anterior, Comissão das Lágrimas, mergulhava no horror e na violência das purgas do MPLA e do 27 de Maio de 1977, em Angola, neste, o autor regressa a temas que lhe são caros: a doença, a morte e a família (dis)funcional tão portuguesa, tão comezinha, pretexto para mergulhar num romance quase-polifónico que percorre os últimos 60 anos de uma família que é também um micro-retrato do país. Aqui, o autor regressa a tipos-de-personagens que já são comuns no seu imaginário: um pai bêbado, uma mãe semi-histérica (“já viu a minha cruz?”), um “irmão mais velho” que não queria ir à guerra (“que se atirou às ondas para não gramar este frete”), um “irmão surdo” a tentar falar (“o silêncio como o meu irmão surdo silêncio e no fim do silêncio a gravidade com que se encerra um discurso”: “ata titi ata”), e um “irmão não surdo” que veio louco da guerra (“deixávamos-lhe a travessa na mesa onde vinha comer quando ninguém na sala, não podíamos falar-lhe nem vê-lo, tapou a fechadura com papel, não respondia à gente”). Ou seja: histórias em continuum, como se de um romance para o outro pouco se perdesse (ou se ganhasse) com as circunstâncias de cada personagem, histórias de desconforto, confortáveis para o autor (que está no seu elemento, sempre), confortáveis para o leitor que o conhece (porque não o defrauda), desconfortáveis para quem esperava sempre mais.

O romance é dominado por um narrador principal, feminino, uma professora de 52 anos (“se espreito para trás vejo pouquíssimos, espalhados na memória entre triciclos e doenças”), que teve um cancro na mama, perdeu um filho, vive um casamento falhado, refugia-se numa relação lésbica com uma colega na escola e enceta uma longa cerimónia do adeus em três dias, numa casa de praia da família, revivendo a infância, os falhanços, as amizades perdidas e os amores frustrados: “Vim despedir-me da casa ou do meu irmão mais velho e, através dele, de mim mesma, não sei.” É uma mulher a jogar com a memória (a esquecer, a lembrar) e o pai a chamar-lhe “Menina”, como o outro dizia “voar, Celina, voar” (em “Exortação aos Crocodilos”). Nesta despedida, triste, sem uma réstia de esperança (desde o início, o texto empurra-nos para aquele abismo do Alto da Vigia: será que também vai cair?), sem sequer um pequeno consolo, nem no presente, nem no passado, tudo se desfaz, sem consistência, como o pão esfarelado em migalhas pelo pai bêbado à mesa.

Os narradores são quase todos femininos (a mãe, a colega lésbica, a amiga de infância), confundem-se e intrometem-se no discurso da narradora principal. Apenas os narradores de capítulo têm marcas discursivas muito fortes, seja a colega lésbica cujo pai esteve preso durante o fascismo, seja o irmão “não surdo” que tem um discurso corrosivo sobre a sua experiência em África e fala com a velocidade de uma uzi: “Já mamei as duas grades, não mamei e, daí em diante, a pessoa do costume, só que mais feliz, passando a mão cuidadosa no camuflado, gosto deste fatinho, e amarrando um lenço ao pescoço porque lhe faltava a gravata, interrogava em torno quando é que vamos aos pretos, numa das últimas saídas uma metralhadora pôs-lhe as tripas de fora.”

No entanto, no meio de tanto ruído de vozes que se sobrepõem e se obliteram (“se pudesse comunicar em quantas vozes a minha voz se dividia”), é nisto que Lobo Antunes consegue ser igual a si mesmo, e isso é tão bom, arrastando o leitor por uma cacofonia incómoda e depois confortando-o com imagens belíssimas: “No quarto de banho, em bicos de pés para diante, a estender o beiço ao vidro embaciado com uma toalha que prejudicava a nitidez, quando chove durante a noite não apenas um cheiro diferente, a casa diferente perdendo ecos e sons, a chuva entre no sono mudando o argumento dos sonhos, regressamos à superfície e damos conta das persianas, a certeza que nos chamam numa harpa de gotas e afundamo-nos de novo transportando um rastro de música connosco.”

E esta: “ - Como está o rim flutuante do seu sobrinho dona Alice? / a dona Alice com a almofada metade ao léu e metade no interior da fronha / - Uns dias melhor outros pior querem operá-lo de barriga aberta”. E só mais esta: “Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar.”

Isto é Lobo Antunes em “piloto automático” e é (só) por isso que é bom. Por vezes, sente-se que o que aqui está em causa, nestes “estados de consciência”, é, apenas, a imagem pela imagem a assomar-se, a intrometer-se, a aludir ao passado, às ligações do corpo e da memória, mas, por vezes também, repetitiva, entediante, a arrastar as pantufas no quarto da escrita.

Conclusão: o leitor fiel reconhecerá neste romance o imaginário caro a Lobo Antunes e não ficará a perder. Mas ao leitor que ainda não provou deste arquipélago da insónia aconselha-se que comece em 1979 e não pare até ao Esplendor de Portugal. De facto, não é escritor assim quem quer, mas por ser Lobo Antunes não só se poderia exigir mais, mas também melhor.


Raquel Ribeiro
[não datado]

27 de janeiro de 2014

Ricardo Soares: sobre Não É Meia Noite Quem Quer

O título “Não é Meia Noite Quem Quer” não lhe surgiu quase perto do fim, como aconteceu com os anteriores: há que tempos andava com o verso de René Char na cabeça. Em Janeiro de 2011 António Lobo Antunes escreveu uma crónica na “Visão” a que chamou “Não é Meia Noite Quem Quer”: «Há anos que este verso de René Char me persegue. Pensei usá-lo como título para um livro, como coda para um capítulo, fazer variações em torno dele num texto qualquer. Não fiz nada, até agora, porque me anda na cabeça mas não me aparece na mão, e só consigo escrever com os dedos, os miolos não pegam na esferográfica. Por qualquer motivo obscuro o bico da caneta não o aprova. E, no entanto, volta não volta lembro-me dele. Por exemplo quando me cruzo com a mendiga estrangeira, alemã ou holandesa, não sei, a pedir esmola no semáforo aqui perto».

Poucos meses passados “Não É Meia Noite Quem Quer” deu-lhe, enfim, um romance. Que escreveu, belo, a ouvir uma voz de mulher que lhe ditava tudo. A infância, a morte, a guerra colonial, o cancro: vida e obra indistinguem-se – «este é espantosamente autobiográfico. Fico com a sensação de me estar a conhecer melhor». (1)

Para o autor, este é o seu melhor livro: «– É o meu livro que mais gosto. Um puro milagre, não sei explicar de onde é que veio, parecia água a correr, o livro a escrever-se sozinho dentro de mim» (2). Em 1980 aconteceu-lhe o mesmo, numa viagem de Aveiro para Lisboa, quando chegou tinha o livro “Explicação dos Pássaros” feito. Estava dentro de si, enchia-o todo, no seu sangue, nas suas veias. Bastava escrevê-lo para o papel: «– Pensei que este milagre não se iria repetir mais na minha vida, mas repetiu-se com este livro, a mesma sensação de que me estava a ser ditado e que a mão e a esferográfica não conseguiam a mesma velocidade do que a voz que o dizia». (3) Chorava enquanto o escrevia, não porque se comovesse, mas porque aquelas eram as frases exactas. Porque o seguinte, “Caminho como uma Casa em Chamas” (a sair em 2014) foi o tormento do costume, as falsas partidas, as emendas, os recuos, as hesitações… como dizia José Cardoso Pires, seu grande amigo, ocorre-lhe: «É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha prazer». (4)

“Não É Meia Noite Quem Quer” prende-nos, sitia-nos, cerca-nos, naquele labirinto atmosférico e concêntrico, em que no meio está inevitavelmente a morte: «Morrer é quando há um espaço a mais na mesa, afastando as cadeiras para disfarçar». (5) Desenvolve-se em três dias: sexta, sábado e domingo. Uma mulher, sem nome, com 52 anos vai à casa da praia da família que vendera. Ela é voz predominante, uma mulher operada, não tem um peito, extraíram-no, ao peito e à axila e vem despedir-se da casa de praia. A despedir-se relembra-se do que passara até lá chegar: dos frenesins da infância ao suicídio do irmão mais velho, do irmão surdo-mudo ao dramático relacionamento dos pais – e do depois: mal casada, sem filhos, em relação frustrante e sem entusiasmo com colega mais velha, ilusões enterradas, tentações que lhe vão puxando à ideia imitar o irmão, atirar-se das arribas, afogando, de vez, a vida, por ali…

… E ficamos sitiados neste romance redondo, que se passa em três dias, com dez capítulos cada, e, a páginas tantas, já as nossas emoções foram sugadas pela ravina onde se despenham burros descarnados ou o irmão mais velho, traumatizado da guerra.

É uma família em estado de anonimato. Tudo o resto é nomeado no livro, até o rinoceronte de brincar (Ernesto), a pastelaria (Tebas), a vizinha do lado (Tininha), mas, de resto, são o pai, a mãe, irmão mais velho, o irmão surdo, e aquele eu da mulher, filha que perdeu um filho e um seio. Um irmão que foi à guerra e assistiu ao episódio pungente de uma mulher que andava com o bebé morto às costas, apodrecido há semanas. Este romance passa avassalador, enleante, por deslumbramentos e mistérios – que tanto podem estar num café com matraquilhos como num circo, num motociclista no poço da morte como numa acrobata em fato de banho – e tem fragmentos assim: «A Andrea, sem arame nem sapatilhas de bailarina, faltando-lhe uma alça na blusa, almoçava de uma panela com os outros artistas, era o mágico que, em vez de pombas, tirava batatas da cartola e as metia a cozer». (6)

Foca a presença dos ausentes: «Por que razão as pessoas nos abandonam e os brinquedos permanecem mãe?»; «há pessoas que demoram tanto tempo a deixar-nos, o corpo vai-se mas os olhos permanecem ali, iguais aos cachorros largados longe que regressam sempre, não zangados, humildes…». (7)

Também tem bicicletas. Uma velha, quadro com farol, buzina em vez de campainha e cesto de rede para pêssegos, levando sonhos, trazendo mágoas. E uma outra a abrir-se em espanto: «trinta e seis velocidades, a do meu irmão mais velho nenhuma, selim especial, quadro de liga carbónica, acanhamento de pergunta, desinteresse em conhecer, o homem muito mais novo
– Não pesa nem três quilos

O guiador cheio de botões, alavancas, patilhas». (8)

Ao longo da obra verte algumas criticas: «…não existem amanhãs que cantam, existem ontens fugidios e hojes estreitos…»; «…tenho a consciência tranquila, não sei o que isso significa mas acho a frase bonita, e além disso passam a vida a dizê-la, tenho a consciência tranquila, que curioso, não é, o mundo inteiro uma serenidade sem pecado…». (9)

Percebe-se desde a primeira linha: é o romance que conta história em poema. E acaba deste modo: «já não se dá pelas ondas, não se ouve a espuma, não se escuta o vento, a minha mãe a separar-se de si e a estender-se na direcção do mar, consoante me estendia, a fim de deitar-me, na direcção da cama, os lençois e a almofada a aproximarem-se e eu tão satisfeita, tão cansada, tão cheia de sono que, no momento em que me largou, não sei qual de nós as duas caiu». (10)


(1) – Proferido pelo autor no Festival Literário Escritaria, em Penafiel.
(2) – Ibidem.
(3) – Ibidem.
(4) – Ibidem.
(5) – António Lobo Antunes, in “Não é Meia Noite Quem Quer”.
(6) – Ibidem.
(7) – Ibidem.
(8) – Ibidem.
(9) – Ibidem.
(10) – Ibidem.


Ricardo Soares
31.03.2013
Jornal A voz de Ermesinde
[secção literatura]

22 de janeiro de 2014

José Mário Silva: sobre Não É Meia Noite Quem Quer

A casa do fim

Num ensaio recente, As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes – (In)variantes do feminino (Texto Editora), a professora Ana Paula Arnaut (Universidade de Coimbra) associa ao sexto ciclo romanesco de Lobo Antunes, iniciado com O Arquipélago da Insónia (2008), um progressivo suavizar da «confusão e estranheza causadas por intrincadas redes polifónicas». Nos romances mais recentes, garante a investigadora, «parece mais fácil identificar a voz que fala e, em consequência, diferenciá-la de outras verbalizações que ocorrem num mesmo trecho». A publicação, quase em simultâneo, do 24.º romance de Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, confirma esse processo de simplificação formal que permite ao leitor seguir, mesmo com interrupções e elipses, o fluxo narrativo das múltiplas histórias e respectivos planos cronológicos

Em vários aspectos, a estrutura deste livro assemelha-se à do romance anterior (Comissão das Lágrimas, 2011). Tudo volta a girar em torno de uma personagem principal feminina, uma dessas que «permanecem, de forma irremediável, em gaiolas de grades inexistentes», segundo Ana Paula Arnaut. Mulheres que se fecham sobre si mesmas e concentram no próprio corpo, dentro da cabeça, as histórias que as atormentam. Se em Comissão das Lágrimas encontrávamos Cristina, internada numa clínica psiquiátrica, perseguida por um círculo de vozes que «se acotovelam, vociferando», conjunto de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», em Não é Meia Noite Quem Quer a protagonista narra os três dias que leva a despedir-se da casa de férias familiar «onde nunca põe os pés», cenário das memórias de uma infância agora transformada em «ruínas moribundas».

Na casa que tantos anos depois «diminuiu de tamanho, sem espaço para eco algum», invadida pelo «bolor do silêncio», cria-se uma espécie de limbo onde ela pode confrontar-se definitivamente com os seus fantasmas e os «desabamentos do tempo». A sua cabeça é como o carrossel das feiras, «girafas e cavalos de madeira» sempre à roda, à roda, desentranhando «a quantidade de tralha, sepultada na gente, que ressuscita». E não só a sua «tralha», também a dos outros, «silhuetas sem nome que me chamam, ao chamarem-me reconheço-as, mal emudecem perco-as». Aos 52 anos, com o casamento desfeito, o trauma de um filho perdido, a experiência de um cancro que lhe levou um dos peitos, desorientada e vulnerável («tudo me aleija, hoje, tudo me fere»), ela deixa-se atravessar pela «melancolia longa», pelas «imensidões comovidas» das vidas alheias («em quantas vozes a minha voz se dividia»), e até pelas interpelações de objectos inanimados (uma maçaneta, um tapete «puído»), da própria casa e do mar que a convida para um encontro fatal.

Se na família ninguém se despede («vamos embora e pronto»), a protagonista tenta ainda perceber «qual a razão de as pessoas se apartarem». E surgem assim, uma a uma, essas figuras que iluminaram ou ensombraram a sua existência: a mãe controladora, sempre a queixar-se dos filhos; o pai fraco que não cumpriu as expectativas nele colocadas e se afunda no alcoolismo; um «irmão surdo», incapaz de se fazer compreender; outro «não surdo», perseguido pelas memórias terríveis da Guerra Colonial, em particular a imagem de uma aldeia africana a arder, num dia de massacre; o «irmão mais velho» que se atirou da falésia e como que chama por ela do fundo das águas; o marido que a trocou por uma vizinha; a colega da escola onde é professora, com quem se envolve numa relação lésbica; etc. Todas estas figuras se chegam à frente e se penduram nas girafas e cavalos de madeira do seu carrossel mental, umas só durante uma voltinha, outras o tempo todo, algumas até com direito a narração própria (como a amante ou o irmão «não surdo»).

Lobo Antunes arrisca pouco neste livro? Talvez. Parece recusar-se a sair da sua zona de conforto? Sim. Mas isso não é necessariamente mau, sobretudo num autor de tamanha exuberância estilística. Se a progressão narrativa se revela algo mecânica e previsível (para quem já conheça bem a obra anterior), atentemos nas muitas frases que apetece recortar: «Tu de roupa caída aos pés num charco de algodão aos quadradinhos»; «um metrónomo para a esquerda e para a direita numa angústia cardíaca»; «daqui a pouco chove porque a terra parece erguer-se ao encontro das nuvens, uma exaltação nas plantas como antes de um beijo». Lobo Antunes continua a ser inigualável na descrição da mediocridade suburbana, rodeada de bibelôs («chinesices, pontezinhas, pagodes, a arca com relevos de árvores anãs e dragões»), e na obsessiva atenção aos pormenores: o homem que carrega uma bilha de gás com uma serapilheira a proteger o pescoço; o outro que na paragem do autocarro «ajeitava o chinó» e «conforme a testa maior ou menor uma cara diferente»; esse animal feito de «sombra sem matéria, capaz de atravessar paredes num assobiozinho subtil e a que as pessoas chamam gato». Mais um exemplo: «olha a maré a encher, olha os leques de espuma, os pescadores a enrolarem as canas com limos nos anzóis, não peixes, que peixes há nestas ondas, há ossos de afogados, roupinha desfeita, despedidas que a água dissolveu». E ainda esta visão desencantada do que nos faz a morte: «existimos à mesma só que não dão por nós, somos um centro de mesa que se entorta ou um preguear de cortina».


José Mário Silva
02.05.2013
Bibliotecário de Babel

12 de janeiro de 2013

Celeste Pereira: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Há já tanto tempo que não escrevo uma opinião acerca de um livro que, francamente, nem sei bem por onde começar. Ainda por cima um livro de ALA… Convenhamos que não é a coisa mais simples de fazer.

Confesso que, genericamente, gosto dos livros de ALA. Mais de uns, menos de outros, mas sempre me dão um prazer imenso ler. Pela qualidade da escrita e pelo desafio que, normalmente, comportam.

E, mais uma vez, assim aconteceu. Li-o há já uns tempos e foi daqueles livros que não me apetecia pousar. Não me importava até de o ler de novo, mesmo imediatamente a seguir (o que, regra geral, considero uma parvoíce tendo em conta a imensa multidão de livros bons que nunca terei tempo de ler). Além disso, desde logo cresceu em mim uma grande vontade de falar sobre ele, dizer o quanto me tinha agradado, o quão refrescante é ler um livro que nos preenche.

Pois bem, foi um caso de identificação desde o início. Em primeiro lugar talvez porque, em determinados aspectos, me seja fácil identificar-me com a personagem principal e compreendê-la. Temos idades parecidas e, também eu, em criança, ia passar férias numa casa, junto ao mar, à qual já não tenho acesso. Também eu teria gostado de me ter despedido dela, de relembrar tempos, de ressuscitar memórias…Mas, na verdade, termina aí mesmo o paralelismo das nossas vidas.

O livro, como outros de ALA, decorre num período de tempo muito curto; três dias. A narrativa inicia-se na sexta-feira e termina no domingo.

São apenas três dias na vida de uma mulher mas neles convergem cinquenta e dois anos de lembranças nas quais cabem alegrias, entusiasmos, sonhos, expectativas e desapontamentos.

Naquele rendilhado sublime de tempos e espaços que são, seguramente, marca incontestável do autor e que aqui atinge uma mestria desconcertante, vão desfilando as tardes de Verão passadas na praia com a mãe. As imagens do relacionamento patético dos seus pais. A sua amiga que vive na casa do lado e que, mais tarde, nem a reconhece nem lhe aceita a relembrança. Mas também a perda do seu filho que nunca foi. A sua vida de desesperança. A sua procura de conforto nos braços de duas colegas, que não deseja. A doença. A mutilação. O medo… 

Revive as viagens sentada no quadro da bicicleta do irmão mais velho, o mesmo que salta da falésia como o burro escanzelado que também dela resvalou. O balbuciar desajeitado do seu irmão surdo-mudo. A embriaguez do pai. O remorso da mãe. A loucura do outro irmão resultante das suas experiências em África, na guerra… 

A saudade de ser amada pelo marido. A frustração de ser professora numa escola, por aí. Os segredos que escrevia e que escondia no muro do jardim. A despedida. O fascínio pela falésia com os burros e as cabras de patas finas. Os melros, os muitos melros da casa, E, quem sabe, o fim.

Um livro fabuloso. Um livro a não perder sob pretexto algum.

Mais uma vez um momento alto do escritor António Lobo Antunes.


Celeste Pereira
15.12.2012
Ponto de Cruz

5 de janeiro de 2013

Paula, do blog Viajar pela leitura: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Ler Lobo Antunes e ler este livro foi uma estreia em grande. Em grande, porque não conhecendo a restante obra do autor não sei se a sua escrita segue o mesmo estilo ou se é diferente. O que sei é que esta obra não segue os parâmetros que estamos (estou) acostumados.

Não é uma leitura fácil, eu diria até que bastante difícil. Uma escrita propositadamente confusa, onde os pensamentos sobrepõem-se às recordações, onde as palavras somam umas a seguir às outras, muitas vezes sem ligação entre si, mas espantosamente com um objectivo lógico!

Ao longo da leitura vamos conhecendo personagens ímpares e que poderiam ter existido no nosso tempo real… o sofrimento vivido por estes e as acções que desenvolvem não nos são estranhas.

A narrativa dá-nos a conhecer uma mulher adulta que visita a casa onde passou a sua infância e todo o sofrimento de que foi alvo. Sofrimento este que segurou toda a sua vida como se fosse algo importante até que uma questão se impôs: continuar a sofrer ou terminar com o sofrimento?

A perda de alguém próximo e querido – um irmão – é algo tão doloroso que transforma tudo à sua volta, a casa, os objectos, as relações e não transforma somente a infância, mas toda a vida. Um sofrimento que é um cancro, tal como o cancro que teve no peito. Uma vida mesclada pela dor e pela desgraça que teima em permanecer.

É de saudade e tristeza que esta história é feita, saudade de um passado – de o (re)viver, de o alterar – um ruminar de recordações amargas, onde somente a morte colocará um ponto final!

Gostei muito desta leitura, é sem dúvida uma escrita diferente, impõe atenção, reflexão, pode até causar algum cansaço devido à sua estrutura, é um desafio constante (no bom sentido).

Excelente, no entanto recomendo a leitura com algumas reservas pelas razões que apresentei!


Paula
01.12.2012
... viajar pela leitura

24 de novembro de 2012

Artur Guilherme Carvalho: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Os livros do Mestre são bilhetes deixados na beira de um penhasco que nos convidam a saltar, não têm meio-termo. Ou vamos ou ficamos do lado de cá a ver o que poderia ter sido uma boa leitura. A opção do salto é uma vertigem, um bailado entre o medo e a ansiedade, uma entrada a pique num universo que nos é proposto, sem rede nem protecções. Sabemos como entramos naquele mar que nos convida com a certeza de que nunca sairemos dali da mesma maneira. Uma parte de nós fica para trás enquanto um outro tanto acaba por ser adquirido na viagem. Os livros do Mestre não são para ler, com a pontuação arrumada, as ideias lavadas e a narrativa alinhada por pesos e alturas. Os livros do Mestre são autênticas aventuras dos sentidos que nos atropelam em cada frase estilhaçada, em cada pensamento intermitente, em cada personagem que começa a falar e pára de repente para continuar mais adiante, indiferente ao tempo a que se refere e a quem lhe termine a frase. Mas no ambiente caótico deste mar de escrita, tal como no mar real, o truque é abandonarmo-nos às vagas, deixar que a corrente nos leve, apreciar essa vertigem de estar num mundo que não dominamos e fazer a viagem. Essencialmente “sentir”, permitir que as células do romance se confundam com as nossas, ver no silêncio o desenho do diálogo do leitor com os outros personagens.

Descendente do (para mim) melhor romance da obra do Mestre (“Explicação dos Pássaros”), este “Não É Meia-noite Quem Quer” apresenta-se num fim-de-semana de despedida de uma mulher que visita a casa de férias da sua infância antes de se suicidar. Em ambos os romances estamos perante a morte anunciada, suicida ou não, do personagem central. Se no primeiro caso se vai desenrolando a desarrumação total da vida presente do homem, neste é a recordação da vida que se arruma na cabeça de uma mulher com 50/60 anos. A memória de uma família em que todos sofrem para dentro, em que os gestos de carinho são intenções que ficam suspensas no ar, quatro filhos, um pai bêbado e uma mãe austera, um espaço familiar em que o pudor de demonstrar o afecto é tão grande que ninguém acaba por perceber bem, sequer, se alguém gosta de alguém. As memórias de uma mulher que carrega consigo a dor da morte do irmão que se recusou ir para a guerra e se atirou do penhasco, do outro que voltou da guerra e se afastou da família, do surdo, da mãe adultera e disciplinadora que a segurou ao colo uma vez, do pai que se escondia na dispensa no meio das garrafas, de um marido que foi mais acidental do que passional, das amigas com que partilhou afectos. E mais importante para quem recorda antes de morrer, não é saber se foi feliz, não é pescar remorsos, rancores, culpas, maravilhas por explorar. Apenas fazer correr o filme de uma vida, repetir cenas, frases e gestos e encontrar finalmente a estação da aceitação das coisas na sua realidade mais óbvia. Não se trata de perdoar nem muito menos aceitar o que quer que seja, mas fazer do registo um exercício de testemunho existencial. Esta foi a nossa vida, vamos morrer a seguir, uma coisa e de pois outra sem etiquetas nem grandes pensamentos para embrulho. Assim é a existência, esse fenómeno pouco seguro, pouco dado a certezas e justificações, essa simples vivência, objecto de registo e indiferença, de memória e tentativa de compreensão.

“Não É Meia-noite Quem Quer” é mais um momento de paixão e vertigem em que as páginas se percorrem sem cansaço num mar de memórias de uma mulher que tenta fazer as últimas arrumações do seu passado e, desse modo, o registo da sua existência. Ficamos amigos dela sem reservas a partir do momento em que a sua história se torna a nossa história, em que a sua respiração nos devolve o ar, em que o seu coração nos faz circular o sangue das nossas veias. Porque a Humanidade é apenas uma.

Obrigado Mestre. 

Artur Guilherme Carvalho
12.11.2012
As Partes do Todo

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...