16/12/2006

Três opiniões sobre A História do Hidroavião

Paulo Ferreira
O deus inteligível

Dizer que António Lobo Antunes é o melhor escritor português (pelo menos vivo) é tão redundante quanto insuficiente. António Lobo Antunes é um deus inteligível cujos evangelhos vão sendo de há uns anos a esta parte divulgados anualmente. Não consta contudo que tenha criado o mundo em 7 dias. Não consta sequer que tenha tirado algum dia para descansar. Na verdade, o homem que não acredita que se possa escrever bons livros antes dos 40 anos, trabalha compulsivamente no seu ofício largas horas do dia. Escreve escreve escreve. E não tem problemas em dizer que no seu ofício, mais do que escritores, existem bois que marram.

Contrariando o que vinha a ser prática, António Lobo Antunes este ano optou por não lançar um romance. O que apresenta é um conto à primeira vista poderá ser catalogado de infantil. Tem uma capa dura e uma fonte grada; um formato que se aproxima do género e ilustrações (lindíssimas, diga-se) impressas no papel couché, da autoria do amigo Vitorino.

Contudo, ao lermos o texto, percebemos que o mesmo atinge jovens e graúdos. É um daqueles livros que se poderá contar (não ler textualmente) ao público mais infantil, mas que os adultos poderão repousar o olhar sem prejuízo de estarem perante um texto escrito para crianças – porque de facto este não é um texto para crianças. O mesmo poderá ser lido tanto aos 8 como aos 40 anos, tirando de cada uma das leituras as interpretações que o entendimento assim o permita e consiga.

É um livro inteligente pois claro, onde Lobo Antunes está presente de corpo e alma, ou de estilo e universo se quiser. Existe África, e Lisboa também está lá, ou vice versa. Existem relações humanas à flor da pele e as memórias do médico que esteve no Ultramar, borbulhando intensamente; temos as imagens (únicas) de Lobo Antunes e até as marcas repetitivas de oralidade do autor.

Contando a história de dois amigos vindos de África, (“Como é Lisboa, Artur?”), com a nostalgia daquele continente a morder-lhes a pele, Lisboa é o cenário para evasão de outro mundo que não aquele que fora cadinho de mais de 40 anos de memórias, onde um deles “foi motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes”. Comovente o retrato humano dos dois personagens, onde Lisboa serve apenas para retratar a dimensão triste de dois homens arrancados brutalmente do seu útero.

Face ao livro, e não ao que aqui se escreve, sugiro-lhe pois que largue este jornal e corra. Para a livraria mais próxima; não espere pelo local mais confortável para folhear a obra. Abra-a ali mesmo e leia. Traga-o para casa. Aconselha-se releitura e repetição como se de uma oração se tratasse.

Título: A História do Hidroavião
Autor: António Lobo Antunes. Ilustrações de Vitorino
Editora: Publicações Dom Quixote
Nr. Páginas: 30

por Paulo Ferreira
Jornal de Vila Franca
16.11.2005

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«Uma comovente história de amor e saudade por África e uma estranha viagem de hidroavião sobre Lisboa, ilustrada por um músico, Vitorino. António Lobo Antunes no seu melhor.» (1998) As palavras citadas encontram-se registadas na contracapa de A História do Hidroavião e parecem resumir o núcleo semântico de toda a narrativa. Acrescentaríamos, porém, a essa “história de amor e saudade” a palavra trágica, porque é, de facto, de um retrato profundamente trágico, que redunda numa metáfora de sabor amargo, que se trata.

O tratamento ficcional de problemáticas atinentes à descolonização portuguesa constitui, a nosso ver, um topos da produção literária de António Lobo Antunes. A verdade é que o autor do recém-editado romance Que farei quando tudo arde? escreve, frequentemente, sobre Portugal de um modo pessimista e desencantado, castigando um passado para muitos marcado, de forma indelével, por dissabores, nunca superados. (É o caso, por exemplo, de As Naus, história(s) feita(s) de um pedaço relevante da História de Portugal do séc. XX, por nela se prefigurarem diversos relatos de vidas que partilham o movimento de retorno à Pátria, fruto do processo de descolonização sequente ao 25 de Abril de 1974).

Em A História do Hidroavião, o espaço a partir do qual se equaciona o presente em face do passado é, mais uma vez e à semelhança do que ocorre, por exemplo, na obra As Naus, Lisboa. A centralidade da capital nesta narrativa só pode, no entanto, ser encarada num plano físico, já que o protagonista da diegese - um homem «que tinha chegado de África (...)», após quarenta e sete anos, «... sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um baralho de cartas...» (Antunes, 1998: 2) -, situado em Lisboa, invoca constantemente África, fazendo desta o cerne espacial da história, através de conjunto de viagens sonhadas, interiores e íntimas. Aliás, e em oposição às referências evocativas a Luanda, a imagem de Lisboa que o narrador oferece é a de uma cidade malvada, feia, tétrica, suja e nada hospitaleira. Trata-se, portanto, da recriação de um cenário disfémico, do qual sobressaem barracas, caldos, «cachorros vadios sempre à cata de sobras» (idem, ibidem: 16) e «os pântanos do Tejo» (idem, ibidem: 12).

Misturam-se, assim, dois espaços, Lisboa e Luanda, correspondentes, respectivamente, ao presente e ao passado. E é neste sentido que a uma sobrevivência precária, miserável, real e presente se contrapõem vivências passadas, luminosas e aprazíveis. Por isso, talvez, o protagonista, representante do reverso humano do império Português, pareça não buscar sequer um sentido para a vida, porque a Vida já foi, em África.
A quebrar ligeiramente o desencanto que emana do texto, parece estar o hidroavião. Se, à primeira vista, a sua aparência - «...era um esqueleto de morcego, com a pele de lona, a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas...» (idem, ibidem: 2) - não ilumina a vida dos retornados habitantes de Cabo Ruivo, no desfecho da narrativa, este meio simbólico acaba por proporcionar a evasão misteriosa do homem, que vivia a jogar cartas, e do seu companheiro cego, que, lapidar e ininterruptamente, indagava: «- Como é Lisboa, Artur?» (idem, ibidem: 7, 8, 9, 12).

Seguindo as palavras de José António Gomes (1997: 81), «Relato de sonhos “por percorrer” e desejos por realizar, de que a imagem do hidroavião abandonado é uma metáfora, o texto de Lobo Antunes detém-se na descrição de um ambiente suburbano, das personagens e seus devaneios, abordando cenas da vida de um grupo de retornados de África, gente dilacerada pelo corte forçado com o passado, com uma terra de excessos e abundância: “- Como é Lisboa, Artur? (...) - Lisboa é esta infelicidade, amigo.”».

A título conclusivo, e tendo em conta a densidade psicológica e/ou a complexidade dramática das personagens, bem como as portas que o desfecho da diegese abre à fantasia - Artur e o Cego parecem ter voado de hidroavião e ter desaparecido em direcção a Luanda -, A História do Hidroavião é, em nosso entender, um conto exemplar, um testemunho vivo de que, para António Lobo Antunes, o que interessa verdadeiramente «são pessoas que tenham uma espessura de vida.» (Antunes, 1994)

por Sara Silva
não datado



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E se o Lobo aparasse as garras para não arranhar a interpretação dos leitores mais novos? Concebesse uma crónica afiada nas asas, pronta a levantar voo, via sonho, pronta a descolar num leque de leitores, aeródromo, mais extenso? E, na iminência das ilustrações, chamasse outra vez o lápis deste amigo?

Imaginar a pena de António Lobo Antunes num universo de literatura infanto-juvenil (ou para maiores de 10, ou para todos) é, à primeira vista, tão surpreendente como encontrarA história do Hidroavião a espreitar numa prateleira arrumada em preços baixos. As asas de um avião, desenhado pela pureza artística de Vitorino, a acenarem ruidosamente (asas por momentos braços). Leva-me contigo se ainda crês no conceito de voar. E, para sorte do desejo, ainda há muito quem acredite em tal recurso de estilo.
Dizia eu, tão inesperado como encontrá-la – qual anónimo no metro – sem saber de onde vinha, se vinha, porque ia, que existia. Mas esta história, ao contrário dos desconhecidos, vinha, vinha mesmo, existia, vinha para ficar.
E, mesmo assim, por mais penoso e difícil que pareça, a imaginação dorme e acorda na realidade – na inevitabilidade de um texto delicioso.
Em A história de um hidroavião, Lobo Antunes (nota: futuro Prémio Nobel da Literatura) semeia o néctar da lucidez, de como a vida dos cruéis obstáculos pode ser tão bem contada. Raízes de África (haverá raiz mais instintiva na sua prosa?) numa Lisboa demasiado descolorada pela vontade de fuga, de regresso, no direito da árvore voltar à raiz, do homem cego a tactear a luz do útero. Numa Lisboa que nunca pertence a quem não a deseja. E, no caso extremo da personagem cega que ilumina o texto, a quem nem a conseguiu ver.
A história do Hidroavião é uma crónica maior – por (também) ser para os mais pequenos, desconfio. É a síntese implacável da incapacidade humana em adaptar-se (conformar-se) a destinos afastados do coração, da trágica obsessão por nunca desistir, mesmo que tal signifique perder-se no azul, agarrado a um balão de sonho.

Lobo Antunes ajustou a sua sensibilidade às ventoinhas de um hidroavião imprevisível. Vitorino, o indomável cantautor, deu tons, linhas e cor à imprevisibilidade do aparelho. O hidroavião e a sua história são a prova irrefutável de que qualquer carcaça, desde que sonhadora, tem como génese um vírus de voo.

por Sílvio Mendes
não datado

08/12/2006

Sílvio Mendes: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Espanto, fascínio. Das palavras mais barrigudas, porque compostas por justa-precisão.

É justo que as gaste em elogios às garras do Lobo. Associadas a este António é impossível que se gastem, na verdade. Numa verdade que não se impõe, nem na pretensão de sonhar imposições, de tão humilde que é, a verdade, tanto que nem chega a ser certo que não nos minta a todos. Renovam-se a cada estucada selvagem da pata do escravo literário, escravo livre, mas escravo, linha a linha, descarrilada ou nem por isso, verbo a verbo, na conjugação de espinhos e de lanças.

Espanto e fascínio mas sem doçura. Vida dentro de cabeças que a perdem sem saber. Vida a marcar passo nas árvores de Lisboa, no barco que avança sobre o Tejo, vida que avança sobre o escuro, para a morte, vida que pára, parada até à morte. Não dócil, não doce e, parando, livre. A morte de Carlos Gardel não sei o que é. Porque ele está vivo, como é sabido, os aviões não caem e, se caíssem, não seria para o lado terrestre. A lei da gravidade nasce invertida para os que voam. E, portanto, a morte de Carlos Gardel (o maior cantor de tangos de todos os tempos!) só pode ser isso, uma órfã das coisas que não são.

Entre uma homenagem (disfarçada? assumida? qual homenagem qual quê? o Tejo é uma grande lágrima de um só homem) ao grande cantor da brilhantina no cabelo e uma Lisboa sem pele, uma Lisboa que só vive dentro de cada dor, na esfera do inalcançável sentimento de cada ser humano, estaciona esta obra de António Lobo Antunes. Dito por não saber o que é, ainda não, nunca saberei o que é. Obra inadaptável para qualquer outro formato (impossível filmar o pensamento, impossível cantar a perna que balança, o pedaço de perna nu entre as calças e as meias, enquanto os braços agarram o jornal), onde nada é externo, apesar dos prédios, das árvores, da descrição do Tejo e dos palhaços de porcelana, apesar dos nomes de ruas, das espécies de verdura, tudo é memória, tudo vive dentro. De cada abraço falhado por falta de coragem, de cada canção de Gardel, do Livro.

Por una cabeza, Milonga Sentimental, Lejana Tierra Mial, El dia que me quieras e Melodia de Arrabal – cinco celebrações de alma do mago de Buenos Aires - dão nome e timbre e luz e drama e trovões de demência e ternura e sal e bico de pássaro (não pares de cantar, por favor) aos cinco capítulos. Dentro deles (sempre dentro, nada é externo) há a personagem, esquecida da vida, como um corpo esmagado pela cabeça demasiado pesada, que só encontra o nascer do sol num disco de Gardel (homenagem disfarçada ou assumida?), volume máximo, vizinhos a barafustar com vassouras contra a parede, contra o chão e contra a sanidade. E depois, e antes, e sempre, a morte de um rapaz como epicentro – a morte dos que ficam sem saber viver. O combate das emoções às escuras. Um apaixonado por Gardel e outras tantas que nem tanto. Sempre num discurso de dentro, em primeira pessoa, em várias primeiras pessoas que se cruzam no tempo numa convulsão de memórias e emoções e sensibilidades. Para cada uma, um por do sol diferente. A vida não lhes foi prometida com as mesmas cores. E a morte, a vida, um livro cru, na asfixia das páginas.

«Não estou a ser cruel no livro, estou a dizer como é», afirmava Lobo Antunes ao Público, em Abril de 1994. E esse “dizer como é” fica atravessado na ressaca de querer ler mais. Espanto, fascínio – mas dói.


por Sílvio Mendes
não datado

01/12/2006

Necessito de 200 anos para escrever os livros que tenho dentro


La Jornada, México - entrevista de Ericka Montaño Garfias
26.11.06

foto de Carlos Cisneros, La Jornada

Guadalajara, 25 de Novembro. António Lobo Antunes na primeira pessoa: «Vou contar-te uma coisa: quando tinha 23 anos tinha terminado a universidade, estudei  medicina, e puseram-me numa unidade de pediatria de crianças que estavam a morrer, de doenças terminais. Enamorei-me de um menino de quatro anos doente de cancro que se chamava José Francisco, que era muito bonito, tinha uma alegria de viver incrível mas morreu. Quando num hospital morre um adulto, vêm dois homens com uma maca e levam-no para a morgue coberto com um lençol. Mas este menino era apenas uma criança, veio um homem com um lençol e carregou-o debaixo do braço. Eu estava na porta da enfermaria num corredor grande e vi o homem a levar o menino, e um dos dos seus pés saiu do lençol e ia balançando. Pensei: "escrevo para este pé". Ainda hoje penso que escrevo para aquele pé».

Durante a sua visita à Feira Internacional do Livro de Guadalajara, que também é a sua primeira visita ao país, o escritor português fala em entrevista com La Jornada, umas horas antes da conferência magistral que ofereceu como parte das suas actividades e de uns dias a viajar à Cidade do México para uma palestra no Palacio de Bellas Artes.

Na verdade, disse entre a fumaça do seu cigarro, «sinto-me muito mais António do que Lobo Antunes. Lobo Antunes é um homem muito raro que escreve porque não sabe fazer outra coisa, porque não compreende a vida sem o fazer. A minha vida sem isso acabaria sem sentido, e ao mesmo tempo é muito curioso porque me pagam para fazê-lo. Tive muita sorte de viver do que escrevo porque é algo que não se pode fazer: ou és jornalista ou és médico ou tens outra profissão. Tive muita sorte mas não é segredo, é apenas uma questão de trabalho.

«Fazem-me falta uns 200 anos, porque sentes que tens dentro de ti muitos livros e não vais ter tempo de fazê-los. Isso faz-me sentir indignação, por exemplo, provoca-me indignação que Schubert tivesse morrido com 29 anos, ou que Mozart aos 36. Nunca sabes quando será o dia, se será muito tarde, ou mais cedo. Tudo é tão rápido, tudo se passa com tanta rapidez. A gente diz que depois dos trinta o tempo passa muito rápido, mas isso é porque os adultos têm sempre a mesma vida, saem de casa e todos os dias é o mesmo, por isso a impressão de que tudo passa com mais rapidez, reflecte o autor deLivro de CrónicasFado AlexandrinoOs Cus de Judas e Exortação aos Crocodilos.

Reconhecido no mundo como um dos melhores expoentes da literatura, António Lobo Antunes sublinha que não ficou satisfeito com algum dos seus livros, ainda que o tenham colocado como um dos favoritos para o Prémio Nobel, que por certo não lhe interessa e ao qual classifica como "o mais mediático de todos".

Nunca, disse, pensei em termos de sentir-me satisfeito com o que escrevo. «Dos meus livros, todos e nenhum me deixaram contente. Quando os termino fico contente, mas depois de um ou dois meses começo a pensar que podia tê-lo feito melhor, e então começo um novo livro para fazer melhor do que o anterior.»

Uma das coisas que mais o marcaram, para além da sua experiência na guerra de Angola, foi ter nascido no seio de uma família importante, que tinha uma casa grande num dos dos bairros pobres de Lisboa.

«Nasci numa família importante, e toda a vida a mim e aos meus irmãos tivemos um sentimento de culpa muito grande porque as misturas sociais não se faziam e os meus amigos e mulheres que me interessam, e interessavam, não pertenciam a essa classe social em que nasci. Então sentias-te muito só porque a classe de onde tinhas nascido não te interessava e as outras olhavam-te com desconfiança, mas nunca poderia viver com uma mulher do meio onde nasci, não me interessam. Não são ricas por dentro. O que dizem não me interessa, o que pensam não me interessa.

«Com os homens é igual. O que interessava era essa gente que vivia no bairro, a que te diz que a gente que não tem dinheiro não tem alma, que te dizem coisas de grande profundidade.

«Nós temos tendência a confundir cultura com erudição, ter lido muitos livros, visitado muitos museus, mas cozinhar é uma forma de cultura, saber amar é uma forma de cultura. Então tinha a impressão de que o amor não era quimicamente puro, estava o dinheiro, era uma relação de interesse mútuo».

Preocupa-me a desigualdade social

«Talvez exagere porque há excepções, mas ao mesmo tempo escrevo para gente que não pode ler-me, porque as pessoas que me interessam que me leiam não podem fazê-lo porque, por um lado não têm dinheiro para comprar os meus livros; por outro, não sabem ler, alguns estão mortos e para os mortos penso que é muito mais fácil ler, não sei, não estou seguro.

«Preocupa-me esta desigualdade, que se viva mal em países ricos, que haja uma pequena oligarquia que vive muito bem, porque as pessoas que lêem não são as classes sociais mais altas, esses não lêem nada, as pessoas que lêem é a classe média, a classe média baixa, e que não tem dinheiro para comprar livros porque são muito caros. Vi isso em Portugal e na Colômbia: as pessoas que lhe interessam têm uma fome de livros e não têm dinheiro, isso parece-me muito injusto, porque as pessoas que lhe interessam não têm acesso a bens que por direito lhes deviam pertencer como a beleza, a literatura.

«Uma vez uma velha pobre que não sabia ler disse-me uma frase que nunca esqueci: "quem não tem dinheiro não tem alma". E isso me emocionou até às lágrimas porque é tão verdade. No sítio onde vivo agora, em Portugal, há muitas pessoas que estão vivendo muito mal e não têm alma, vão aos hospitais se estão doentes e vês centenas de pessoas nas urgências e os médicos passam por elas sem olhar, não as tocam, não sorriem, não lhes falam. Se tens dinheiro em meia hora atendem-te, cuidam de ti, se és pobre ficas a esperar, sofrendo. Quando era médico isso me indignava porque as pessoas que sobrem estão sempre sós com o seu sofrimento e estão ali esperando horas e horas, esperam três meses para um médico as veja, e depois o médico passa-lhes um papel para uma especialidade e só lá vão dali a ito meses. Isso sim, é muito mais importante que a literatura».


citado da edição on-line de La Jornada
artigo de Ericka Montaño Garfias
26 Novembro 2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...