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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2006

Três opiniões sobre A História do Hidroavião

Paulo Ferreira
O deus inteligível

Dizer que António Lobo Antunes é o melhor escritor português (pelo menos vivo) é tão redundante quanto insuficiente. António Lobo Antunes é um deus inteligível cujos evangelhos vão sendo de há uns anos a esta parte divulgados anualmente. Não consta contudo que tenha criado o mundo em 7 dias. Não consta sequer que tenha tirado algum dia para descansar. Na verdade, o homem que não acredita que se possa escrever bons livros antes dos 40 anos, trabalha compulsivamente no seu ofício largas horas do dia. Escreve escreve escreve. E não tem problemas em dizer que no seu ofício, mais do que escritores, existem bois que marram.
Contrariando o que vinha a ser prática, António Lobo Antunes este ano optou por não lançar um romance. O que apresenta é um conto à primeira vista poderá ser catalogado de infantil. Tem uma capa dura e uma fonte grada; um formato que se aproxima do género e ilustrações (lindíssimas, diga-se) impressas no papel couché, da autoria do amigo Vi…

Sílvio Mendes: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel

Espanto, fascínio. Das palavras mais barrigudas, porque compostas por justa-precisão.
É justo que as gaste em elogios às garras do Lobo. Associadas a este António é impossível que se gastem, na verdade. Numa verdade que não se impõe, nem na pretensão de sonhar imposições, de tão humilde que é, a verdade, tanto que nem chega a ser certo que não nos minta a todos. Renovam-se a cada estucada selvagem da pata do escravo literário, escravo livre, mas escravo, linha a linha, descarrilada ou nem por isso, verbo a verbo, na conjugação de espinhos e de lanças.
Espanto e fascínio mas sem doçura. Vida dentro de cabeças que a perdem sem saber. Vida a marcar passo nas árvores de Lisboa, no barco que avança sobre o Tejo, vida que avança sobre o escuro, para a morte, vida que pára, parada até à morte. Não dócil, não doce e, parando, livre. A morte de Carlos Gardel não sei o que é. Porque ele está vivo, como é sabido, os aviões não caem e, se caíssem, não seria para o lado terrestre. A lei da gravidade…

Necessito de 200 anos para escrever os livros que tenho dentro

La Jornada, México - entrevista de Ericka Montaño Garfias 26.11.06

Guadalajara, 25 de Novembro. António Lobo Antunes na primeira pessoa: «Vou contar-te uma coisa: quando tinha 23 anos tinha terminado a universidade, estudei  medicina, e puseram-me numa unidade de pediatria de crianças que estavam a morrer, de doenças terminais. Enamorei-me de um menino de quatro anos doente de cancro que se chamava José Francisco, que era muito bonito, tinha uma alegria de viver incrível mas morreu. Quando num hospital morre um adulto, vêm dois homens com uma maca e levam-no para a morgue coberto com um lençol. Mas este menino era apenas uma criança, veio um homem com um lençol e carregou-o debaixo do braço. Eu estava na porta da enfermaria num corredor grande e vi o homem a levar o menino, e um dos dos seus pés saiu do lençol e ia balançando. Pensei: "escrevo para este pé". Ainda hoje penso que escrevo para aquele pé».
Durante a sua visita à Feira Internacional do Livro de Guadalajara, que tam…