17/07/2009

Denis Araki: opinião sobre Os Cus de Judas


Sinopse: O livro revela aos leitores brasileiros, pela primeira vez, os horrores da guerra colonial na África, o reencontro de Portugal consigo mesmo e a dilacerante experiência de viver em silêncio uma ditadura fascista.

 
edição Objetiva, Brasil
O português António Lobo Antunes, para alguns eternamente injustiçado pelo Nobel de Literatura de 1998, em sua recente visita ao Brasil, reafirmou seu carinho por nosso País. Ele não consegue imaginar o Brasil como um país, o que vem a sua mente são pessoas, doces, seu avô, que era de Belém, as cocadas de sua tia. É a visão de um autor que vem realizando um profundo retrato do Portugal contemporâneo, questionando o conceito de nação.

Os Cus de Judas, livro de 1979 que compõe a primeira trilogia do autor (os outros livros são Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno), a que ele considera de aprendizagem, aborda os efeitos da guerra. A guerra em questão é a da libertação de Angola e seu resultado na figura de um médico enviado para o combate. Narrado em primeira pessoa, o médico passa uma madrugada até o amanhecer com uma mulher, começando em um bar e depois em sua casa. Nesse período ele conta sua história, entremeada com reflexões. O tempo é demarcado pela simulação de diálogo com a mulher, que não exprime uma palavra no romance.

Ainda que muito duro contra a guerra e contra essa noção de serviço à pátria, o texto possui momentos líricos, na medida do possível, como no trecho: “formávamos a cada jantar a anti-Última Ceia, o desejo comum de não morrer constituía, percebe, a única fraternidade possível.” O narrador sofre da falta de afeto que o atinge, ou, como ele prefere descrever, “esta angustiada sede de ternura que repele o afecto”. É a impossibilidade do amor e da readaptação que o aflige. Ele nasceu em um país “estreito e velho” e foi mandado para os “horizontes sem limites” das planícies de Luanda para cumprir o peso da tradição militar de sua família, requisito para se tornar um homem. O ressentimento a essa tradição é marcado ao longo do livro, e são poucos os momentos de ternura, principalmente de sua infância e de suas filhas.

É na descrição do cotidiano que sentimos o descaso do governo português e a dureza de se estar na guerra; nos relatos dos feridos vemos a falta de sentido no combate. É esse desconforto, essa dureza que faz com que os soldados descarreguem sua tensão no momento do combate. Algo conveniente.

Após vivenciar esses horrores, ele também vê a falta de sentido no cotidiano de sua cidade: “de chinelos, na cozinha, você prepara um café forte como um electro-choque que a projete para fora de seu invólucro de sono na direcção do emprego.” As pessoas seguem a vida apáticas enquanto os soldados estão “defendendo” a pátria. A falta do valor dos enviados fica mais evidente, “porque uma camioneta era mais necessária e mais cara do que um homem um filho faz-se em cinco minutos e de graça não é verdade uma viatura demora semanas ou meses a atarraxar parafusos.”

Há quem prefira as alegorias e o onírico de Saramago, há quem prefira a crueza do mundo e os profundos mergulhos na psique humana que Lobo Antunes proporciona. Depois de passar pelos Cus de Judas, percebe-se que a vida segue e um profundo desprezo, uma falta de sensibilidade, atinge aqueles que entraram forçados nessa guerra. Assim como aqueles que nem pisaram naquela terra vermelha.


por Denis Araki
13.07.2009

13/07/2009

Entrevista para Saraiva Conteúdo: «Se você quer mesmo escrever, tem que escrever para ser o melhor»


Site Saraiva Conteúdo
entrevista exclusiva por Ramon Mello e Bruno Dorigatti
Julho de 2009




«O escritor português António Lobo Antunes, vencedor do prêmio Camões em 2007, fala sobre o processo de escrever e seu mais recente livro, "O meu nome é Legião". Saiba mais em http://www.saraivaconteudo.com.br/Artigo.aspx?id=66»

12/07/2009

Entrevista à Revista Época: «João Ubaldo anda um pouco preguiçoso»


Época
entrevista de Luís Antônio Giron
10 de Julho de 2009


«João Ubaldo anda um pouco preguiçoso»

O escritor português António Lobo Antunes defende a literatura como um trabalho árduo e, por isso, critica o brasileiro, que classifica como um grande autor

Na noite do sábado, 4 de julho, o público da Festa Literária Internacional de Paraty levantou-se para aplaudir a fala do escritor português António Lobo Antunes. Com os olhos cheios de lágrimas, Lobo Antunes agradeceu. Em seguida, formaram-se filas para que ele autografasse os dois livros que está lancando no Brasil: O meu nome é legião (2008) e Explicação dos pássaros (1981). Na semana passada, no Rio de Janeiro, ele distribuiu mais autógrafos e usufruiu da popularidade. Sua vinda ao país depois de 25 anos é a consagração daquele que muitos especialistas consideram o maior escritor da língua portuguesa em atividade. Tudo isso não parece surpreender a esse ex-médico de 66 anos que publicou seu primeiro livo aos 36. Rival de seu conterrâneo José Saramago, ele tem sido cogitado para o prêmio Nobel de Literatura, prêmio dado a Saramago em 1998. Mas diz não se importar com o assunto. Afinal, ele tem uma tarefa um tanto difícil para cumprir: colocar o mundo inteiro em seus livros, e mudar o estatuto do romance. Nesta entrevista, o autor inquieto e falso mal-humorado (e parecido com o ator inglês Anthony Hopkins) revela os segredos de sua arte ambiciosa e que empolga pela distância que mantém da banalidade que assola as literaturas lusófonas.

Por que o senhor não voltou mais ao Brasil desde 1983?
Porque não penso no Brasil como um país. O Brasil está nas lembrancas de minha família, nos doces, nas cocadas da minha avó Leopoldina e das minhas tias. Eu sempre tive o Brasil dentro de mim. Meus dois nomes são brasileiros. Os Lobos, fiquei sabendo numa viagem recente a Israel, eram cristãos-novos. Eles chegaram ao Brasil no século XVII. Os Antunes se estabeleceram no Brasil no século XIX. Foi meu avô Antunes quem foi explorar os seringais na Amazônia, e a família se radicou em Belém do Pará. Com a decadência dos seringais por causa da borracha de Cingapura, minha família se dispersou. Alguns foram morar no Rio, outros em Portugal. Tenho muitos primos no Rio de Janeiro. Estar aqui não é voltar, é como se eu estivesse sempre em casa. Amo o cheiro do Brasil. Ele é doce.

O assunto é poético. Mas o senhor declarou o seguinte sobre não voltar para cá: "O Brasil não tem sido minha prioridade esses anos todos. Deixei o país para o meu antípoda". Leia-se: José Saramago. Agora que seu antípoda anunciou que abandonou as letras, o senhor sente um peso de responsabilidade por ser considerado o maior escritor da língua portuguesa em atividade?
Eu declarei isso? Não sinto nada disso. Não deixei de publicar minhas coisas e ser lido no Brasil, apesar das longas ditaduras que vivemos aqui e em Portugal, ditaduras que me impediam de publicar meus livros. Quando eu não permiti que meus livros fossem publicados no Brasil, achava que não era importante porque o Brasil não é um país, é mais do que isso. Meu modo de escrever é fundado nos autores brasileiros e na minha origem. Quando ganhei o Prêmio Camões, fizeram-me crer que eu era um autor brasileiro, pelo vocabulário, o uso abundante dos gerúndios. Sinto-me um escritor brasileiro. Quem sabe eu acabe vivendo no Brasil? Tenho pensado no assunto.

Como foi a sua formação em literatura brasileira?
Li os brasileiros desde muito pequeno. Na biblioteca de meu avô António, o paraense, só havia autores brasileiros. De modo que os primeiros livros que li foram os romances e contos de Machado de Assis, Aluísio Azevedo, José de Alencar, Raul Pompeia... Minha base foram os ficcionistas do século XIX. Em seguida fui aos poetas: Jorge de Lima (havia em casa uma edicão dos poemas negros dele), Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e o maior poeta da língua portuguesa, João Cabral de Melo Neto. Os poetas me influenciaram mais que os prosadores.

E por que o senhor escolheu a prosa?
Talvez por incapacidade de ir tão alto quanto os poetas. Minha prosa é contaminada pela poesia. Não faço romances, e sim livros, e muitos deles eu chamo de poesia, como o meu último livro, O Arquipélago da Insônia, lançado em Portugal no ano passado. Pretendo publicá-lo no Brasil com meu novo livro, o poema Que cavalo são aqueles que fazem sombras no mar? Minha intenção é lançar este último antes no Brasil. E é um poema. Mas não sou poeta.

Quais são seus mestres literários?
Eu poderia dizer que é [James] Joyce e brilharia. Mas, cá entre nós, Joyce é um escritor menor porque parecia usar de seu virtuosismo narrativo para se exibir. Era como se dissesse: "olha só que passagem brilhante, fui eu que fiz!" É como [Vladimir] Nabokov, um exibicionista. Eu admiro a proeza técnica, mas me irrita a proeza pela proeza. Joyce e Nabokov não seguiram o que Tolstói pregava sobre se colocar a serviço da eficácia. Eles trocaram a eficácia pelo narcisismo. Recorro sempre aos poetas latinos: Horácio, Virgílio e Ovídio. Esse trio é uma fonte de inspiracão e aprendizagem. O livro é uma estátua enterrada no jardim de Horácio. E Horácio dizia que o escritor precisava de dez horas por dia para trabalhar: duas para escrever o texto e oito para cortar os excessos. João Cabral aconselhava os escritores a cortarem na carne do texto e se restringirem ao osso. Advérbios e adjetivos são gorduras. Na poesia, cada palavra tem um peso específico. Talvez seja por isso que os poetas são os maiores tradutores. Eu adoro a tradução de Antonio Houaiss do Ulysses [de James Joyce]. É uma tradução poética genial e não muito valorizada.

É verdade que o senhor teve padrinhos literários brasileiros?
Sim. Foi o Marcio Souza, escritor amazonense, quem levou meu primeiro livro, Memória de Elefante, ainda em 1979, para seu agente nos Estados Unidos. Até então, eu era recusado pelas editoras. Só havia conseguido publicar um livro por uma pequena casa editorial - e ainda assim o editor disse que não gostava do sobrenome Antunes, que lhe parecia "nome de merceeiro". Marcio levou o livro para Nova York e é cruel perceber como lá é o centro do mundo. O livro foi publicado e obteve boas críticas nos jornais americanos. Minha sorte maior foram as resenhas feitas por dois inimigos que vêm a ser os maiores crtíticos americanos: George Steiner e Harold Bloom. Um disse que eu era excelente, outro que eu era um gênio... Dali para diante tudo ficou mais fácil, e os editores que me recusaram passaram a correr atrás de mim.

E sua amizade com Jorge Amado?
Jorge foi meu grande padrinho literário, Era um homem sem inveja, que tinha a rara virtude de divulgar e elogiar aos quatro ventos os seus amigos. Foi o meu caso. Foi ele que me apresentou a outro amigo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro, grande autor, mas que infelizmente anda um pouco preguiçoso. Jorge Amado é um escritor maior que sua obra. Infelizmente a obra está ultrapassada, embora tenha sido importante como instrumento de resistência e crítica nos anos de ditadura em Portugal. Ele sofreu muito também com a crítica, que preferia Graciliano Ramos.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa pode facilitar a divulgação de obras entre os países lusófonos?
Não, é um mero acordo que atende a interesses políticos. Não vejo qual a vantagem de unificar o português. Temos diversos tipos de português. O da África é riquíssimo e só se beneficiou de suas particularidades. Veja os poetas de Angola ou o José Craveirinha de Moçambique. Cada um que escreva a seu jeito, e será compreendido. A língua é o único patrimônio que nossos países possuem. Para que empobrecê-la com regras ortográficas?

O senhor gosta da literatura contemporânea?
Estou pasmo com as besteiras que publicam por aí. Mesmo em Portugal hoje é moda publicar mistérios em torno da religião e outros enigmas. E há a literatura feminina que trata de assuntos idiotas. Fico pasmo como esses escritores não sabem o que é escrever. São rarísismos os bons livros hoje em dia. Os autores novos já querem se apresentar como produtos vendáveis, não como autores de fato. Mas não demora aparecerem os grandes autores. É questão de tempo.

O senhor acha que a crítica ajuda na descoberta de autores importantes?
Não leio os críticos. O instrumento principal deles é o adjetivo. Ninguém é tão cruelmente crítico como você mesmo. Eu desenvolvi minha própria técnica lançando um olhar severo sobre o que eu escrevia.

Onde o senhor busca inspiração?
Essa história de inspiração pode acontecer nas coisas mais improváveis. Picasso dizia que a inspiração ia embora quando ele comecava a trabalhar! Posso ter uma ideia lendo o Pato Donald, Tarzã, Sandokan. Eu li Monteiro Lobato na infância. É algo incontrolável. O que importa é querer superar os modelos, querer fazer melhor que eles.

Como o senhor escreve?
Preciso de pelo menos quatro horas diárias para escrever, a caneta. Nesse período não posso ser interrompido. Escrevo sem pensar. Antes eu montava os projetos de livros com personagens e um resumo de cada capítulo. Hoje não planejo nada, parto de nada. É como se me deixasse levar por uma mão misteriosa. Gosto do estado crepuscular, entre o sonho e a vigília, em que você não sabe exatamente onde está - e as ideias surgem, vêm à tona. É por isso que, quando interrompo o trabalho, gosto de deixar a frase ao meio, para poder retomá-la no dia seguinte. É mais fácil do que ter diante de si uma frase, um capítulo acabado - e daí ter aquela paralisia da página em branco. Adoro escrever quando estou cansado. É no cansaço que as boas ideias aparecem.

Em O meu nome é legião, o senhor usa uma linguagem abrupta e uma situação-limite: um grupo de jovens pobres que sai pela noite de Lisboa praticando crimes. É um livro diferente dos seus anteriores, mais autobiográficos ou ligados às guerras coloniais, não? A violência está mais presente.
Usar uma situação-limite torna o trabalho do escritor mais fácil, porque ele não precisa perder tempo com detalhes. A situação-limite fornece um campo de imantação na história. Gosto disso. Meu livros têm conteúdo de vivência pessoal e todo livro é o resultado da vivência, não um retrato dela. O meu nome é legião é uma história que já vinha sendo gestada nos outros livros, cada obra minha contém o germe da outra. A história desses meninos pobres, todos negros, que são obrigados a viver da violência, se repete no mundo inteiro, em Lisboa ou Rio de Janeiro. O que quis mostrar é como eles são famintos de ternura. Ao praticar toda aquela barbárie, eles estão mendigando carinho.

Como o senhor define sua obra?
Eu não entrei na literatura para ser um escritor qualquer. Quero ser maior que Tolstói e Joyce - e acho que todo escritor tem de pensar assim, senão ele não produz nada. Ele tem de pensar em coisas grandes. Comecei a escrever porque queria revolucionar o romance, subverter a literatura, transformá-la em algo que ainda não existia, ofuscar os antepassados. É assim o meu projeto. Quero colocar tudo num livro, o mundo inteiro, minha vida inteira. Quero praticar a obra de arte total que imaginava Richard Wagner. Escrevo livros impossíveis. Se me ocorre uma história que me sinto incapaz de formular, é aí que começo um livro. Quero escrever sobre o que não entendo, sobre o que não tenho competência. É assim que vou contornando os problemas, e chamam isso de estilo experimental. Na verdade, é uma atitude de enfrentamento. E de liberdade. É por isso que não creio na profundidade. O que existem são infinitas superfícies superpostas. Quando você se aprofunda demais em um assunto, acaba saindo pelo outro lado, de mãos abanando. Escrever é um ato impossível porque tudo o que interessa vem antes das palavras, como as intenções, os desejos, a loucura. Os poetas são maiores porque conseguem transferir essas coisas inomináveis para as palavras. Mas escrever também é um ofício, como o de médico ou de carpinteiro. É preciso conhecer a técnica, para abandoná-la. Todo grande livro é uma reflexão profunda sobre a arte de escrever. Cada livro meu tem de ser um mundo.
 

10.07.2009

05/07/2009

Na FLIP 2009: apanhados do encontro por Ana Cristina Melo


Festa Literária Internacional de Paraty 2009
Blogue Canastra de contos por Ana Cristina Melo
04.07.2009


Mesa de António Lobo Antunes



António Lobo Antunes não leu nenhum trecho de sua obra, pois como ele mesmo disse, não sabia onde havia colocado o papel. Mas ao final, quando ainda faltavam cinco minutos, ele revelou: "foi melhor assim". E eu concordo. Podemos ler seus livros a hora em que quisermos, mas ouvi-lo falar, são raras as oportunidades.


A mesa começou com a apresentação de Humberto Werneck. Mas não foi uma apresentação nos moldes tradicionais. Ele apresentou António contando uma pequena historinha do menino de sete anos, que na véspera de Natal, dentro de um táxi, pensava no que se tornaria, e decidia ser escritor. E ao chegar em casa, se pôs a começar a trabalhar no seu ofício. E que aos treze anos, já havia colocado num caderno o plano geral de sua obra completa, com os títulos inclusive.

António ia escrevendo e queimando no quintal da casa em Benfica, no bairro português onde viveu. Ele queria fazer o curso de Letras, mas o pai o "aconselhou" a fazer alguma outra coisa, e assim ele se tornou médico, e depois psiquiatra.

Sempre escreveu em folhas de papel pequenas, e em qualquer lugar. Mesmo quando se viu envolvido numa experiência dramática, a guerra de Angola, ele encontrava uma maneira de escrever. Até na Flip, ele encontra tempo para escrever uma coisa ou outra.

Mas apesar de toda essa paixão, ele só estreou aos 36 anos, com o romance Memórias de elefante. Motivo esse tardio que ele explica no decorrer da mesa.

Disse Humberto que ninguém tem razão para duvidar que ele é um dos maiores escritores do nosso tempo.

Assim acabou a apresentação de Humberto e, a partir daí, com muito bom humor, António Lobo Antunes foi falando sobre sua família, sua relação com o Brasil, sua estreia, seu processo de trabalho, seu amor pela literatura.

Transcrevo, na ordem, tudo o que foi possível eu captar do que ele disse.

Espero ter conseguido captar o melhor dessa mesa maravilhosa!


Sobre a leitura do trecho de um livro seu...

Lobo: "Eu penso que eu devia ler um trecho do livro, mas não tenho aqui o papel".

"Eu queria dizer que para mim a amizade é igual ao amor. A gente encontra um homem e fica amigo desde infância."

"Foi um encontro maravilhoso que tive com Humberto, com seu humor, sua cultura..."


Sobre sua família e sua relação com o Brasil...

Lobo: "Para mim o Brasil não é um país... são os cheiros, os sabores, os doces da minha avó, uma maneira de viver e de falar, e, sobretudo, é o meu avô que está aqui em toda parte. Uma das pessoas que eu mais gostei. É a terra dele, é a terra da minha família, de onde vêm os meus nomes: Lobo, Antunes."

"Os Lobos saíram para o Brasil no século 17/18; os Antunes mais tarde, no princípio do século 19."

"Ainda tenho muitos parentes no Rio de Janeiro".

"Meu avô lia pouco. Quando eu tinha 12 anos, um dia me mandou chamar ao escritório. Mandou me sentar à frente dele. 'Ouvi dizer que você escreve versos... Você é veado?' Eu não sabia o que era veado. E disse logo: 'Não, não, não.' Fui tirar minha informação, e o que me disseram me tornou mais confuso."

"Meu pai era muito severo. Era médico. Meu pai não queria ter filhos, queria ter campeões de karatê. Se nós apanhávamos, a chegar a casa, apanhava dele. 'Filho meu não devia apanhar', dizia".

"Sentávamos na beira da cama, e lia poesia para nós. O primeiro poeta que leu para nós foi Manuel Bandeira."

"Pouco antes de ele morrer, um dos meus irmãos perguntou, o que gostaria de deixar para seus filhos: 'O amor das coisas belas.'"

"Ele era um escritor frustrado."

"Embora fosse muito severo, nunca me contrariou quando descobriu que eu escrevia."

"Eu também pensava que meu pai não tinha lido meus livros. Mas depois que morreu, encontrei meus livros todos anotados. E deixou uma carta de 600 páginas. Deve ter levado uns 2 anos escrevendo".

Humberto pergunta: Por que você demorou tanto tempo para voltar ao Brasil?

Lobo: "Quando você diz a palavra Brasil, para mim não é a palavra que tem significado... Os cheiros, as coisas estão sempre comigo. Recordações doces, ao mesmo tempo tristes."

"Quando meu avô morreu, minha avó deu tudo dele. Fiquei triste, porque eu tinha a certeza que ele ia voltar. Eu tenho a certeza que ele está aqui connosco."

Humberto: Você segue a literatura brasileira?

Lobo: "Meu pai comprava muito poesia brasileira. Para mim o grande poeta do século XX é Cabral."

Humberto: Você acompanha os prosadores?

Lobo: "Eu tenho uma relação mais difícil com a prosa, pois pego e tenho logo vontade de corrigir."

"Você aprende muito mais a escrever lendo poesia. Na poesia cada palavra tem um peso e uma carga."

Humberto: Você não é um grande admirador de Joyce?

"Eu admiro a proeza técnica"

"A gente leva muito tempo para entender que o livro inteiro tem que ser uma grande metáfora, e não o livro ser esmaltado, cheio de pequenas metáforas."

Humberto: Você fez 21 romances em 30 anos? Você escreveu bastante rápido?

Lobo: "Eu levei muito tempo sendo rejeitado por muitas editoras. Ninguém queria os livros. Em 77, uma pequena editora aceitou."

"Eu fiquei famoso assim. Então, passou em Lisboa um escritor, Marcio Souza, de Manaus. Deram para ele esse livro. Deixou num agente americano em Nova Iorque, era agente de João Ubaldo, Jorge Amado, Marcio Souza, Garcia Lorca, Drummond (...), e ele entrou em contato comigo. Eu achei que era brincadeira e não respondi. Depois ele mandou uma carta e eu achei chique ter um agente em Nova Iorque. (...) Aconteceu a mesma coisa, ele tentava colocar os livros nas editoras e ninguém queria. Ele dizia 'você vai conquistar o mundo', e eu não conquistava nada. Fomos ter com um editor de Nova Iorque e ele disse 'eu não li o seu livro mas vou publicá-lo'.

(...)

Tivemos críticas espantosas. Depois todos aqueles que não tinham querido, começaram a me procurar."

"Eu tinha escrito Memórias de Elefante, um amigo levou e voltou dizendo que leram ele e outro amigo. (...) Ele achava que devia tirar a primeira parte. O amigo achava que devia tirar a segunda parte. Foi a primeira critica literária que eu recebi."

"Eu tinha conhecido Jorge Amado. (...) Jorge levou tanta pancada da crítica daqui. O Jorge era muito melhor do que os livros dele. Era um homem de muita coragem, de muita capacidade de amar."

"João Ubaldo, em Lisboa, passava fazendo feijoada às 2 da manha, de calção e chinelo. (...) Um dia deu uma entrevista, que perguntaram: 'João, você já não escreve?'. E ele respondeu: 'Escrevo, meu pseudônimo é António Lobo Antunes'".

"Como ninguém queria um livro, eu ia escrevendo os outros".

Humberto: Você planeja um livro?

Lobo: "Eu planejava por insegurança. Quando começava um livro, já tinha os capítulos todos feitos."

"Eu ainda não tinha compreendido que um livro é um organismo vivo, que tem o seu temperamento, seu caráter."

"Quando um livro é bom, ele se faz sozinho. A única coisa que você tem que fazer é tornar a sua mão feliz. Se a sua mão está feliz, o livro sai."

"Eu tenho muito medo de escrever. Só vale a pena escrever se for para ser o melhor. "
"Aos 14 anos você descobre que é muito diferente escrever e escrever bem. Aos 18, você descobre que é muito diferente escrever bem e escrever obra-prima".

"Escrever é sobretudo corrigir e reescrever."

"Você tem que ter uma atitude muito humilde em relação ao material."

"Nós não temos controle sobre o nosso trabalho e temos que ter uma atitude tão humilde."

"Cada sucesso não é mais que um fracasso adiado".

"Quanto à prosa, problemas oficinais e técnicos muito grandes, se você não for fiel a você mesmo, você fica sujeito a moda."

"Eu só tenho uma regra antes de começar a escrever: digo que vou escrever um livro que não sou capaz de escrever. (...) Tem que se pôr desafios cada vez mais intensos"

Humberto: Você quer mudar a arte do romance?

Lobo: "Claro que sim. Qualquer grande escritor muda a arte. Eu gostava de escrever um romance... é um quadro... As Meninas dos Velásquez."

"Você não trabalha com materiais novos, você trabalha com pequenas coisas que as pessoas não dão atenção."

"Todo aspirante a escritor deveria ter essa quadra escrita de um poema de Cabral:

'Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca'"

"Há palavras que existem para não serem usadas: advérbios de modo, adjetivo."

"Tirar tudo aquilo que não é faca, como diz Cabral."

Humberto: Fazer um romance não te ajuda a fazer os demais?

Lobo: "Eu nunca chamo de romance, eu chamo de livros. A distinção entre os gêneros normalmente é artificial."

"Escrever um trabalho é impossível, que você está trabalhando com emoções (...) quando você lê os poetas, você consegue transformar isso em palavras"

"Escrever é um ofício."

"Dica: nunca deixar uma frase com ponto final para o dia seguinte."

"Não terminar um capítulo e deixar o novo para o dia seguinte. Começar um capítulo é muito lento"

"Uma vez perguntaram a Picasso sobre inspiração. Ele disse: 'Ai, se ela viesse quando eu estou trabalhando'"

"Percebi que consigo aquele estado entre o dormir e o acordar, através do cansaço. (...) Quando trabalho, as duas primeiras horas são perdidas, os mecanismos lógicos ainda estão funcionando. (...) Depois, como você está cansado, as coisas começam a fluir melhor, a sair de regiões suas que voce não conhece. (...) Eu demorei muito tempo para entender isso."

"Quem estuda o problema a fundo, sai pelo outro lado."

"Em vez de profundidade, há uma infinidade de superfícies sobrepostas. A gente tem que desmistificar a idéia do escritor. (...) Toda entrevista é um exercício de vaidade. É o livro que tem que ser inteligente, não o autor."

"Eu lia Nabokov e ele estava sempre 'olha como eu sou inteligente'”

"Se você quer ser escritor, devia ver 10 minutos de Mané Garrincha jogar a bola. Aquilo sai da alma."

"Para escrever você tem que ter dentro de si Didi e Garrincha. Didi, a cabeça; garrincha, a mão"

"É a mão que escreve, mas a cabeça tem que estar a vigiar por cima."

"O livro é como uma estátua enterrada no jardim, você tem que tirar a estátua, e depois ir limpando".

"E é através desse ofício que você vai despertar as emoções."

"Quando você está escrevendo bem, dá a impressão que está debaixo de um ditado."

"Dá a impressão que é a mão de Deus que está na sua mão, a mão de um anjo que está ditando."

"Uma vez eu estava escrevendo, e as lágrimas caindo pela cara, e eu não sou um homem de muitas lágrimas. (...) Mas isso são momentos muito raros, nunca mais voltou a acontecer".

Humberto: Por que você está anunciando que vai parar de escrever?

Lobo: "Há alturas que você fica desesperado. Eu não vou ser mais capaz. O livro não presta. E você pensa 'para que escrever, vou deixar de escrever'. E a sua alegria é o seu tormento. Só vale a pena quando nos é inconcebível a vida sem isso. Porque ler nos dá muito mais prazer."

"Eu penso que era o leitor que devia estar na capa do livro, pois é o leitor que escreve o livro, não o escritor."

"O livro bom é um livro que foi escrito só para mim. (...) A gente se apaixona pelo autor através do livro."

Humberto: Você disse em algum momento que precisa arrendondar a sua obra e depois calar?

Lobo: "Você andou lendo tudo."

"Eu acho que a gente quando começa é como se os seus livros fossem a almofada que está fazendo para apoiar a cabeça quando morrer"

"Ficamos sempre aquém daquilo que criamos. É a grande frustração de quem trabalha com as palavras. Sempre ficamos nos questionando. (...) Aí e melhor escrever outro livro."

"Um dia compreendi que o livro está acabado quando o livro não quer mais. (...) Você sente que o livro está enjoado de você. O melhor é entregar ao editor."

Humberto: Seus livros estão cada dia menores?

Lobo: "Eu como leitor gosto de livros grandes. (...) O livro tem as páginas que eu quero"

"Os editores às vezes assustam-se com livros muito grandes. (...) Há as leis do comércio."

"Eu gosto de mudar."

"Como eu costumo dizer: a experiência é como os flutuadores de avião. Não servem de nada quando você está no ar."

"Quando eu comecei a ler seu livro, fiz uma prece, pois gostei muito de ti, 'Deus queira que não seja uma merda.'"

"Quando vou ler um livro de um amigo, eu não leio logo. Começo a rondar o livro como um cão, cheiro, farejo, pois tenho medo. Quando é uma pessoa que eu gosto, tenho medo.

Quando é uma pessoa que não gosto, eu adoro."

"Eu tenho um prazer muito grande de ler os livros do Garcia Márquez, mas não gostava de ter escrito."

Humberto: O que você gostaria de ter escrito?

"Descobrir um livro bom é uma coisa extraordinária. (...) E todos os livros bons gostaria de ter escrito."

"Graças a Deus tenho descoberto muitos livros bons."



redigido por Ana Cristina Melo
4 de Julho de 2009

Paraty: entrevista a rádio CBN


CBN - Globo Rádio
03.07.2009


Paraty, 3 de Julho: entrevista com António Lobo Antunes





01/07/2009

NetSaber: artigo sobre Exortação Aos Crocodilos


A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e, que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.

Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.

Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade impares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.
 
A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.


artigo citado do site
não datado

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...