30/04/2015

Andreia Moreira - opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? em Goodreads

A quem diz que não gosta de ALA

Proponho-vos um desafio: ler António Lobo Antunes. Não se riam. É caso sério. Desistem assim sem uma tentativa, pelo menos? Vão estranhar se nunca o leram, é certo. Estou segura, porém, que uma vez enredados jamais o quererão abandonar. É um dos geniais autores portugueses cuja obra completa tenho, a par de outros tantos, a aspiração de conhecer inteiramente. Se tiverem em conta que uma existência não chegará para ler tudo quanto almejamos, conceberão quão grande é a atenção que lhe pretendo devotar durante esta vida (de livros).

Chegassem estas linhas aos seus olhos e discordaria de cada uma. Divino, remoto, do fundo dos seus olhos azuis implacáveis, condenando-me o atrevimento. Tenho sorte. Não o ofenderei, decerto, com a percepção que guardo desta sua Obra (Edição em 2009). Quanto a vocês, já que aqui estão, percam mais uns minutos comigo e depois apressem-se a lê-lo se vos consegui cativar.

Que somos senão abismos? Derrocadas pessoais. Desmoronamentos às prestações. Frustrações e perdas. Uns mais afortunados que outros, ainda assim, que é a vida se não o caminho que trilhamos inexoravelmente para a morte, quais condenados? “Que negrume...”, dirão. Não é optimismo o que encontrarão na narrativa que proponho. Tentava tão só preparar-vos. É possível tanta desgraça numa só família (de origens Ribatejanas)? Neste livro é. E, apesar de toda a dor e de toda a miséria humana retratadas, há beleza imensa a perpassá-lo. Como se fora possível sentirmo-nos bem - Em êxtase, até. - mergulhados numa tristeza profunda, definhando.

Ler este autor é como nadar contra a corrente. Esbracejamos, ofegamos, perdemos o pé. De que nos serve defrontarmos o mar? (A sua desmesurada força.) Na iminência do afogamento, há que permitir que as ondas nos devolvam à costa. É então, quando nos deixamos guiar, flutuando nas palavras deste Mestre da escrita, que nos salvamos e simultaneamente nos perdemos. Já o li sem nomes para as vozes que habitavam o romance. Tarefa hercúlea manter-me à tona. Admito. Neste, porém, (re)conhecerão as personagens, sentir-lhes-ão o pulso, alcançarão porque acabaram, ou imaginarão como hão-de recomeçar.

Ana, João, Francisco, Beatriz, Rita, Mercília, Pai, Mãe...

Cancro, toxicodependência, desamor, prostituição juvenil, sida, subserviência, escolha, desistência, mágoa, loucura, ausência, violência, desgosto, abusos, traição, medo, abandono, ingratidão, confissões, lamento(s)…

...«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»...
...«(…) vai morrer às seis horas»...

NOTA: Não quero deixar de referir que, apesar de tudo quanto o livro encerra e que venero, abomino as alusões às lides tauromáquicas. Mas isso são já outras convicções que me habitam e que nada têm que ver com literatura. 


por Andreia Moreira
13.05.2013

26/04/2015

Margarida Contreiras - opinião sobre Memória de Elefante

Psyché é uma palavra de origem grega que se traduz na linguagem actual para mente. É neste tronco terminológico que encontramos as ramificações para os termos psicologia, psiquiatria, psicose, psicanálise, psicoterapia, todos eles viventes nas páginas deste livro. Na verdade, toda a história é contada com a objectiva presa à psyché de um médico, obrigando-nos a captar a realidade filtrada pelo seu olhar. Por isso, este é um livro peculiar.

O médico que protagoniza a história é um psiquiatra de um hospital lisboeta, cuja mente carece ela mesma também de terapia. A acção nasce na fonte sensorial e sentimental do protagonista e desenvolve-se à luz do sua experiência de vida e da consequente visão denegrida que tem do mundo. Ao virar as primeiras páginas, apercebemo-nos imediatamente que esta deturpação está profundamente ligada a uma distanciação familiar que revela, simultaneamente, necessidade de afastamento e aproximação. É por isso que as grandes sensações que fazem este livro são a frustração, a cobardia e o conformismo.

O narrador não corresponde à personagem principal por não encarnar assumidamente a sua alma, no entanto a consciência dos dois está tão próxima que podemos questionar se a narrativa se tratará de um auto-retrato na terceira pessoa. Por outro lado, as personagens secundárias são praticamente inexistentes, surgindo apenas pontualmente e como voz da consciência alternativa ressonante na cabeça do psiquiatra e actuando também elas como psiquiatras através dos seus juízos de valor. Existem sim muitos figurantes que passam pela acção da história como meio de ilustração corroborante do pensamento da personagem principal e que se traduzem, na narrativa em si, como resultado de uma observação reprovadora. Normalmente, estes figurantes agem com indiferença perante o protagonista, em movimentos frios como os dele mesmo.

O desenrolar da história é feito com marcada lentidão, concentrando-se no decorrer de apenas dois dias, e o enfoque da acção é centrado mais na descrição sensorial do que no desenvolver de acontecimentos. Esta descrição é extremamente particular: o autor descreve-nos, não a realidade com as suas cores e relevos, mas através das sensações que essas cores e relevos (eventualmente existentes) provocam no protagonista da história. Por outras palavras, o autor diz-nos o que aparenta ser em vez do que é, indicando-nos a consistência dos acontecimentos num entrançado de emoções e pensamentos, todos eles desembocando na distante memória da mulher e das filhas que nunca chegamos a perceber se é longa ou curta no tempo. A visão do protagonista através da qual assistimos à narrativa mostra uma perspectiva negra do mundo, em que é dada especial referência aos distúrbios e anomalias do âmbito da sexualidade: jovens mulheres seduzem homens velhos por interesse, prostituição, pedofilia, entre outros, embora estes sejam assuntos abordados apenas para uma representação de quimeras de um mundo simultaneamente real e abstracto e não porque sejam importantes para a acção central.

Lobo Antunes apresenta-nos uma escrita erudita e extremamente sensorial num livro que se lê sobretudo para o desfrute da palavra e da descodificação de uma mente turbulenta. Esta obra pode ser lida pelo leitor comum familiar com o mundo literário, no entanto, as suas potencialidades disparam até aos campos mais profundos da psicologia. O final será dificilmente conclusivo para um trivial leitor, convidando a uma análise desta memória de elefante que deverá ser feita de olhos semicerrados e mente aberta.


por Margarida Contreiras
08.11.2013

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

19/04/2015

Maria Gonçalves - opinião sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Caminho Como Uma Casa em Chamas: será possível ler Lobo Antunes sem que cada leitor faça a sua e particular leitura e entendimento? E que ainda assim lhe restem dúvidas e pedaços algo perdidos, como se de um filme complexo se pudessse reter tudo vendo-o apenas de uma só vez? 

Este é o sexto livro que leio deste autor e considero-o grandioso. Uma súmula apurada do seu estilo literário que me parece, aliás, ter-se ultrapassado. Dei comigo a pensar algo: por regra os seus personagens são de certo modo fatídicos e praticamente impotentes face às suas circunstâncias. Cogitam sobre várias formas do “se” no sentido de perceberam como alterar ou ainda efectuar algumas formas de melhoramento, mas, na verdade, vivem esmagados pela inacção, perante um passado que usurpa todos os tempos e oportunidades de vida, incluindo a alteração da mesma. O passado torna-se um presente ad eternum e o futuro é sempre o fim. O fim da infância, o fim da agilidade do corpo, o fim dos dias. Caminhar como uma casa em chamas é estar constantemente a aguardar a derrocada de todas as vigas, em particular das que ainda sustêm a estrutura.

Esta casa é um prédio cujos personagens vão sendo apresentados pelos respectivos andares de residência. Os capítulos são, portanto, o 1º esqº, o 1º dir, o 2º dir, ... até ao sotão onde, curiosamente, (não se sabe, nem ele próprio, se ainda é vivo, se ainda manda...), (sobre)vive Salazar e todas as caraminholas que alimentam medos, justificam o "cruzar de braços" e assaltam os pensamentos dos habitantes deste prédio cuja geração é a que hoje ainda guarda uma mente no passado: um passado inexorável e, portanto, impotente para o presente e para o futuro, qualquer que fosse a acção. 

Claro, e com todas as dúvidas de quem precisava ler este livro outra e outra e outra vez, esta não deixa de ser a minha própria leitura. Recomendo e reconheço ser este, dos livros que li do autor, um dos mais exigentes quanto à atenção do leitor.


por Maria Gonçalves
em Goodreads
04.01.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

06/04/2015

António Lobo Antunes no MOT - Festival de Literatura Girona e Olot 2015


O escritor António Lobo Antunes é um dos convidados da II Edição do Festival de Literatura de Girona e Olot, na Catalunha, que decorre entre os dias 9 e 11 de Abril, e que este ano terá como tema de fundo “Escrever Cidades”. Trata-se de um programa que pretende explorar a relação entre o romance e a cidade contemporânea. Londres de Lanchester; Paris de Hazan; Barcelona de Mendonza e Pàmies; Bogotá de Restrepo; Roma de Mazzuco; Berlim de Nooteboom e Beirute de Chalandon são algumas das cidades selecionadas pela comissária do Festival, Mita Casacuberta, professora de Literatura Contemporânea na Universidade de Girona.

O nosso autor participará numa conversa com o escritor e crítico literário Jordi Galves, num encontro que terá lugar na próxima sexta-feira, dia 10, na Sala La Carbonera da Universidade de Girona, dedicada aos Mistérios de Lisboa, título de um dos últimos filmes de Raoul Ruiz, numa adaptação do romance homónimo de Camilo Castelo Branco. Os 150 anos que separam ambas as obras, livro e filme, são os anos da construção da Lisboa contemporânea, para a qual contribuiu decisivamente António Lobo Antunes, desde o seu primeiro romance, Memória de Elefante (1979), até ao O Esplendor de Portugal (1997) ou ao Conhecimento do Inferno (1980), através do seu estilo sinuoso que esbate as fronteiras entre o passado e o presente.

A Dom Quixote publicará, em Outubro, o novo romance de António Lobo Antunes, Da Natureza dos Deuses.


fonte do texto: BIIS LEYA (ligeiramente adaptado)
imagem do programa do evento, disponível em formato pdf para consulta integral (por cortesia de Maria da Piedade Ferreira)

06.04.2015

04/04/2015

Passatempo António Lobo Antunes na Web & Dom Quixote / LeYa - os premiados

No final de mês de Março, e com o apoio das Publicações D. Quixote, promovemos um passatempo junto dos leitores de António Lobo Antunes e seguidores da nossa página de facebook. Consistia em responder a três perguntas básicas sobre os livros escolhidos como prémio: Sôbolos Rios Que Vão, Não É Meia Noite Quem Quer e Caminho Como Uma Casa Em Chamas; e os três participantes que respondessem mais rapida e correctamente seriam apurados como vencedores, o primeiro premiado com os três livros, o segundo com os últimos dois títulos, e o terceiro recebendo o livro mais recente. Os participantes tinham ainda, como condição, serem seguidores da nossa página de facebook.

Encerrado o tempo de participação às 24H do passado dia 2, cabe-nos agora anunciar os 3 vencedores apurados de entre 33 participantes:

Tiago Pereira, de Braga
Beatriz Sousa, de Alverca do Ribatejo
Helena Bracieira, de Beja


Os premiados receberão os exemplares dos livros que lhes couberam, todos assinados por António Lobo Antunes, durante o mês de Abril, uma oferta da editora D. Quixote - LeYa. Para eles, os nossos parabéns e desejo de boa leitura. 

Resta-nos ainda divulgar as respostas correctas ao enunciado que propômos:

Questão 1: Qual (ou quais) dos títulos foi, primeiro, publicado como título de uma crónica?
a) Não É Meia Noite Quem Quer
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Sôbolos Rios Que Vão

A resposta correcta é a) Não É Meia Noite Quem Quer e b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas. As crónicas foram publicadas na Visão mas também as temos reproduzidas na nossa página, a primeira e a segunda.

Questão 2: Qual (ou quais) dos títulos vem de um poema?
a) Sôbolos Rios Que Vão
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Não É Meia Noite Quem Quer

A resposta correcta é a) Sôbolos Rios Que Vão e c) Não É Meia Noite Quem Quer. O primeiro, verso de uma redondilha de Camões e o segundo, de um poema de René Char. Estas indicações aparecem referidas nos vários artigos neste blog sobre ambos os livros, bem como em entrevistas, etc.

Questão 3: Qual (ou quais) dos títulos pode ser considerado como autobiográfico?
a) Caminho Como Uma Casa em Chamas
b) Sôbolos Rios Que Vão
c) Não É Meia Noite Quem Quer

A resposta correcta é b) Sôbolos Rios Que Vão e c) Não É Meia Noite Quem Quer. O primeiro, porque trata do Senhor Antunes que recebe tratamento de um cancro e enquanto está no hospital revive a infância em Nelas (como o Antoninho); o segundo, porque foi o próprio escritor que o indicou (neste vídeo, por exemplo), embora as pistas autobiográficas no texto não sejam tão evidentes como no primeiro.

Todas as questões pediam respostas múltiplas, e o tema de cada uma podia ser facilmente pesquisado nos conteúdos do nosso acervo de opiniões, crítica, entrevistas, etc.

Agradecemos a todos os que participaram e também os que ajudaram a divulgar. Esperamos que continuem, pois com certeza teremos mais iniciativas deste género. Estejam por isso atentos!

Boa Páscoa!

José Alexandre Ramos

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...