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28 de dezembro de 2016

Olga Fonseca - impressões de uma leitora de Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera: impressões de uma leitora

Acabei de ler pela segunda vez o último romance de António Lobo Antunes.

Alguns poderão estranhar ou interrogar-se sobre os motivos que nos fazem revisitar um texto, após uma primeira leitura.  Poderia elencar uma série de motivos, sabendo que o principal é, tão-somente, o prazer de ler o romancista da nossa eleição e, sobretudo, quando convoca para núcleo da sua obra temas que, por alguma razão, «mexem» connosco, com o que vai na nossa cabeça, ora de forma mais nítida, ora de forma mais enviesada, insinuando-se apenas. 

Reconheço que estou a partir em desvantagem: já outras vozes, indubitavelmente mais sábias, mais competentes, se pronunciaram sobre a obra. No meu caso, parece adaptar-se o título da obra de Harold Bloom – A Angústia da Influência – só que ao contrário. Explico: nenhum leitor fica imune ou impassível à leitura que outros (habitualmente críticos literários) fizeram do romance e por mais esforço que façamos para não irmos «espreitar» o que escreveram, o que disseram, acabamos sempre por ler as suas (deles) leituras. Verdadeiros spoilers para uns, preciosas ajudas para outros que não querem ir cegos ou virgens para a leitura da obra. E é uma verdadeira frustração, quando nos damos conta que outros já tiveram oportunidade de dizer aquilo que nós próprios teríamos gostado de dizer em primeira mão. Enfim, também não podemos esquecer o princípio, segundo o qual, uma obra é tanto mais literária, quantas mais leituras suscitar. Neste ponto, talvez nos possamos redimir com as lições de Umberto Ecco, in Obra Aberta, e Lector in Fabula. Adiante, e um aviso à navegação: não gostaria que vissem neste meu texto, relativo ao último romance antuniano, qualquer pretensão; antes o que anuncio no título: umas simples impressões de uma leitura apaixonada pela obra de António Lobo Antunes. 

É por de todos sabido que o primeiro contacto que o leitor tem com o livro, enquanto objecto de fruição, lhe chega pelo nome do autor e pelo título, elemento paratextual por excelência, que figura no frontispício da obra. Todo um horizonte de expectativas se começa a desenhar e comigo não foi excepção. Sobre o nome do autor, não valerá a pena repetir o que já escrevi sobre a paixão e a fidelidade a António Lobo Antunes. Já o título (hall de entrada na obra, segundo Jorge Luís Borges) exigiu uma leitura aturada, várias vezes repetida mentalmente, como se dele quisesse extrair a seiva que alimentou o romance. Também não é novidade para ninguém que António Lobo Antunes não descura a importância do título e que, nos últimos romances, tem privilegiado títulos longos, inspirados ou pedidos emprestados a outros escritores. Neste caso, impossível desligar o título da imagem escolhida para a capa do romance (pelo menos na versão por mim adquirida): se pretendesse recorrer a uma linguagem cinematográfica, deveria dizer que se trata de um plano americano, exibindo a imagem de uma senhora idosa, quase numa posição de pose para uma foto, mas algo correu mal com a revelação da mesma, porquanto a cabeça da senhora não só está desfocada, como, e sobretudo, está francamente deformada, distorcida. O título mais a imagem de capa tornam-se, pois, altamente significativos. Inferi: o autor quis explorar o que se passa com o cérebro humano, a partir de uma certa idade. Por outro lado, o título sugeria-me uma espécie de dedicatória, como as que surgem no interior de trabalhos ensaísticos ou académicos. Quem seria aquela a quem o autor dedicava a obra e que, curiosamente, estava sentada no escuro à sua [do autor, assim o entendi] espera? Já o nome escuro me parecia carregado ter uma acepção negativa, de ligação com a ideia de morte. Até porque um leitor com competência enciclopédica ou cultural não pode ignorar aspectos da vida do autor empírico: Lobo Antunes.

Na contra-capa, um rasgado elogio publicado no El País, seguido de uma imagem de um galgo. Nada despiciendo, como conferiria mais tarde. 

O apelo para entrar tornou-se, portanto, irrecusável.

Folheando a obra, e no que diz respeito à sua estrutura externa, rapidamente me dei conta de lhe subjazer uma inequívoca simetria (palavra a que associo a ideia de perfeição, de equilíbrio): o romance inicia-se com um Prólogo (este sim, verdadeiro hall de entrada para os leitores), seguido de três partes a que o autor deu o nome de andamento (palavra certamente retirada do léxico musical), cada um organizado em oito capítulos. 

Assim, é desde logo no Prólogo que o leitor é confrontado com o acto de rememoração, mas também com a ideia de estranho ou insólito, porquanto a personagem feminina acorda com a nítida sensação de que tudo naquele espaço (à excepção da porta) mudou de lugar. Notei, também, que o discurso da personagem feminina não se distingue do resto do enunciado, à excepção das falas de outra personagem feminina, que aparecem destacadas no enunciado textual pelo recurso ao travessão, antecedido de parágrafo. Aliás, mais adiante, verificamos que o autor recorre ao mesmo artifício quando transcreve as falas de outras personagens, como o sobrinho do meu marido, os pais da idosa, o médico, o porteiro do teatro, o senhor Barata, entre outras: 

«… o que se passou durante a noite expliquem-me (…)
– A gente ao acordar demora a habituar-se ao dia.
e não é verdade, não me custa habituar-me ao dia, custa-me que troquem coisas sem
me dizerem nada, (…) e não me dão cavaco, a senhora de idade (…) ajudando-me a
sentar» (p.11; o negrito é meu)

Subitamente, a memória da personagem feminina voa para Faro, viaja até à sua infância, e vê-se, criança, na casa parental. A partir deste momento, o leitor apercebe-se que o autor, ou esta voz narratorial que alguns atribuem sempre à idosa, vai abolir e sobrepor todas as fronteiras espaciais e temporais, como se espaço e tempo pudessem dessa forma condensar-se como quem maneja uma concertina de foles. Entretanto, não nos escapa uma belíssima sinestesia que decorre da analogia que é feita entre o pedido que a senhora de idade faz para que não derrame o chá «– Lembre-se que já se sujou uma vez» e o movimento do gato ao deslizar da cama para o chão: «o gato deslizava líquido para o chão» (p.11; o negrito é meu).

Depressa nos apercebemos que ao longo do romance esta sobreposição ou confusão de recordações, tempos e lugares vai ser uma constante. Trata-se, portanto, de um romance sobre a memória ou mais precisamente, sobre o seu esboroar, até à sua total degradação, momento que ocorre, quando a demência da personagem atinge o paroxismo e passa a ver, a ouvir e a responder aos pais que vieram de Faro, visitá-la a Lisboa (cidade onde reside há anos), quando, no Prólogo, informa os leitores que os mesmos «já morreram há séculos» (p.12). Entendi esse momento (no terceiro andamento), como o que precede a sua morte. É verdade que o autor não identifica a doença; sofrerá de Alzheimer? Terá sido vítima de um AVC, porquanto há uma passagem em que refere dificuldades em movimentar «a mão esquerda que às vezes, não sei porquê, me falha» (p.24)? Será um tumor cerebral? Nada nos é garantido e talvez esse pormenor seja de somenos importância, porquanto o que desconcerta, e até mesmo me assusta, enquanto leitora (a literatura, com as suas personagens, também é geradora de efeitos, como defendeu Phillipe Hamon) é a capacidade, ou a estranha forma de lucidez com que o autor dotou a idosa de «78 anos» em vários momentos da narrativa. O que parece paradoxal.

No primeiro andamento, apercebemo-nos de que as lembranças fluem ou são motivadas pela presença de certos objectos. Apercebemo-nos, também, de que a personagem é dominada por obsessões. Por exemplo, no primeiro andamento, é sobretudo a ideia de um galgo cor-de-rosa que ladra durante a noite, acordando-a, um bibelot que exibe uma rapariga com um cisne. Há, contudo, uma obsessão que atravessa o romance de uma ponta à outra e que tem a ver com um crucifixo pendurado sobre a cama dos pais e cujo movimento, mais ou menos ritmado, mais ou menos intenso ou o seu total silenciamento está sempre ligado à memória do acto sexual, sobretudo, dos pais (que em pequena não percebia) e que se repitará, quando casada, com o seu segundo marido. Com efeito, contabilizei oitenta recorrências do vocábulo «crucifixo».

Se a personagem é um construto, como lhe chamou um crítico americano, ou seja, resulta de um somatório de traços caracterizadores com que o autor a vai construindo, apercebemo-nos de outra obsessão que diz respeito ao pedido que o segundo marido lhe dirige, quando decorre o acto sexual. Trata-se da frase «– Diz, amor, diz» a que ela responde «eu sem vontade nenhuma um /– Amor» (p.243). Com isto, pretendo dizer que o autor torna a personagem feminina anafrodisíaca, o que leva o director do teatro a ter um ataque de raiva contra a mesma, quando pretende levar a cabo o acto sexual no seu gabinete e ela, de tão jovem («dezassete anos»), desajeitada, é incapaz de lhe corresponder (vide p.246).

A destruição da personagem é de tal ordem, que nunca nos é dito com certeza qual o seu nome. Há uma passagem em que é proferido o nome Celeste (p.34) e duas páginas a seguir o de dona Cidália (p.36). Mas o leitor, tal como a personagem, fica confuso. Ora, o nome é o que nos dá identidade, existência, a partir do momento em que até o nosso nome ignoramos, deixamos de existir enquanto «pessoa». Não deixa de ser curioso, a insistência em nomes começados por <C>, até porque a personagem suspeitava que antes dela tinha havido uma irmã chamada Corália

Por outro lado, e à medida que a doença progride, a personagem tem ainda a capacidade de reconhecer que perdeu as emoções, a capacidade de sentir:

«Às vezes não é que esteja triste, não estou triste, nunca mais
estive triste (…) não é que me sinta mal, não me sinto mal, não
sinto nada (…)» (p.253)

E tudo isto são memórias, recordações que a personagem saca do seu cérebro.

Entretanto, e para além do tema da doença (outra obsessão; o pai morre com uma doença do fígado; o avô de outra maleita, «uma tia Alice circunflexa»), da perda da faculdade da linguagem, outros temas, o autor convoca para o romance: o da solidão, o da invasão do corpo, designadamente, quando a senhora de idade procede à sua higiene e é-lhe difícil não sentir um certo pudor, a violência e o desprezo exercidos sobre os idosos, designadamente vindos da parte do sobrinho do marido e da sua mulher, para quem ela não passa de um fardo e desejam a todo o custo que ela desapareça para se apossarem dos seus parcos bens (o que começa ainda em vida, com as suas jóias).

Voltando ao título do romance, há duas ou três passagens que me levaram a identificar aquela que está sentada no escuro à minha espera com a mãe da personagem. A primeira, quando refere «a minha mãe morta sentada na cadeira dela com o terço na mão» (p.115); a segunda e, certamente a mais forte, quando diz «a certeza que uma senhora em silêncio sentada no escuro à espera deles, (…) num gestozinho breve / – Tu» (p.332) e, finalmente, «– Que pena filha ires morrer logo hoje» (p.342).

Para terminar, e apreciando aquelas modulações de voz que António Lobo Antunes tem, quando é entrevistado, as suas pausas, o seu discurso quantas vezes elíptico, como quem espera que o ouvinte siga o seu raciocínio e preencha o espaço do não dito, importa dizer o como tal surge, também, no enunciado narrativo. É surpreendente, emotivo e deixou-me (quantas vezes, meu Deus!) presa a determinadas construções frásicas, que outros poderiam ver como uma violação das regras de sintaxe. A título de exemplo e porque já vão longas estas minhas impressões de leitora, demos como exemplo, as seguintes: «de modo que daqui a pouco chuva de certeza» (p.18), ou até o entrelaçar de frases, cortando intencionalmente as palavras, para intervalar outras frases: «que esfregava no, eu a ordenar ao galgo / – Calado/ guardanapo, (…) (p.18) ou «(…) magra, de cabelo pin, já não vestida de garota, vestida de mulher, tado (…) (p.23)

Em suma, Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera é mais um romance de António Lobo Antunes onde o movimento descendente – «do cérebro para a mão» – como o mesmo referiu, me deixou fascinada, emocionada por este «saber falar» das angústias e das misérias do ser humano, por nos arrostar com a nossa condição de seres para a morte de forma magistral e sem apelar ao sentimentalismo piegas do leitor. E isso, só António Lobo Antunes o sabe fazer como ninguém, porque António Lobo Antunes é daquela raça de escritores que não admitem meio-termo: ou se amam, ou se detestam. No meu caso, só posso dizer: «um caso de puro, autêntico amor e admiração».


por Olga Fonseca
(e-mail de 28.12.2016)

[texto revisto por José Alexandre Ramos]

24 de novembro de 2016

Crítica de Isabel Lucas a Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

Quando já se perdeu o nome


“Eu não tenho personagens”, afirmou António Lobo Antunes numa entrevista a este jornal [Público], em 2014, quando publicou Caminho Como uma Casa em Chamas, um romance centrado num prédio de Lisboa e nos seus habitantes. Podia-se acrescentar que também não tem enredos, ou que os livros têm cada vez menos aquilo a que se convenciona chamar uma acção, com princípio meio e fim. São antes deambulações acerca do que é a vida, íntima e de um colectivo, contadas a partir de uma voz interior, quase sempre errática, que recorre a outras vozes convocadas pela memória nas suas falhas ou momentos iluminados, e que preenchem um vazio que vai ganhado sentido(s). Não há início ou epílogo. Há um percurso que o leitor apanha num dado ponto e segue, tantas vezes tacteando, até ele se extinguir. O livro é o que fica entre esses dois momentos.

Como este, o 27º romance de António Lobo Antunes. Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera acompanha um período que se adivinha derradeiro da memória doente, alterada e muito fragmentada, de uma mulher de 78 anos, ex-actriz com uma carreira mediana que passou a infância em Faro e se mudou para Lisboa porque queria trabalhar no teatro. O nome da doença nunca é revelado, mas é a doença que determina a forma e o conteúdo. “e que doença senhor doutor, nem sequer sou velha, aos setenta e oito anos ninguém é velho ainda, qual velha, sou uma actriz a descansar durante esta peça para, como diz o director do teatro, entrar na próxima num papel à minha medida…”

É esta a voz, a voz que profissionalmente decora outras vozes até esquecer a sua, a que o leitor tem acesso privilegiado. Frágil, mas o único meio para se situar num livro que se passa todo ele no espaço mais privado de uma mulher cuja identidade se vai revelando em espasmos à medida que essa identidade também se dilui. Ela é “Dona Celeste”, “filhinha”, “miúda”, mulher do tio, “minha senhora”. Depende do tempo cronológico ou do interlocutor. Se quem a chama ou se lhe dirige é o médico, o pai, a mãe, o sobrinho do marido, a senhora de idade que vai lá a casa dar-lhe comida, mudar-lhe a fralda, ou um dos dois maridos que lhe suplica afecto. Ela nunca gostou mesmo de nenhum. Com um casou-se por interesse, era familiar do director do teatro, e o outro porque sim. “… de há tempos para cá, começo agora a notar, escapam-me episódios, pessoas, até o meu nome palavra…” E a memória recente a perder para a memória remota num jogo literário que se ajusta ao modo de escrita de Lobo Antunes, cada vez mais próximo do que parece ser a deriva da mente, ele que se diz na literatura uma espécie de mediador ou tradutor de vozes.

Esta mulher, como o homem doente, internado num hospital em Sôbolos Rios Que Vão (2010) é tudo o que temos, numa solidão em véspera de fim, perspectiva única ao contrário do que acontece, por exemplo, no monumental romance anterior, Da Natureza do Deuses (2015), onde em vez de uma voz interior existem várias que se cruzam e revelam o tal colectivo tão comum em Lobo Antunes: um país na sua história, com personagens tipo e modos de o verbalizar; e sempre a linguagem, mesmo quando já resta só silêncio, a dizer mais do que qualquer outra coisa sobre o que se é, o que se pensa, e sente e faz.

Sexo, outro por exemplo, de que se sabe porque há um crucifixo que abana no espaldar da cama. Ela nunca amou. A não ser o pai, que além de filhinha lhe chamava cotomiça. “… uma tarde encontrei o meu marido e simpatizámos, ao segundo ou terceiro encontro levou-me para casa dele, sentia-se sozinho, coitado conforme eu me sentia sozinha, passado tempos casámos e pronto, umas palavras, uns papéis, o foguete de um carimbo a estalar no fim, sem estrelinhas, só tinta…”

A doença avança e o tempo e os espaços encadeiam-se numa vertigem de sentidos. As pessoas de uma vida cruzam-se nas suas falas e sabemos de tudo por isso, pelo modo de dizer que confere identidade e que Lobo Antunes conhece e como ninguém nas suas nuances: a língua portuguesa nas suas múltiplas manifestações, apropriações de classe ou género, urbanas ou rurais. E diz-se que continua cada vez  mais próximo da música, pelo modo como tudo soa, do que propriamente da literatura. Sem condescendência para com o leitor que se quiser o acompanha, se estiver para esse exercício de concentração profunda, onde a biografia do escritor aparece muito menos do que nos livros iniciais, mas a metáfora permanece crucial. Entra-se num livro de Lobo Antunes e reconhece-se o lugar onde se está mesmo sem ver a sua assinatura. Neste não é diferente. Há uma toada, ora harmoniosa ora obsessiva, disruptiva, tantas vezes. É uma memória a desfazer-se num livro divido num prólogo e três andamentos — terminologia  musical — e uma espécie de dormência onde todas as associações são permitidas. Serve tão bem ao actual Lobo Antunes que explora mais uma vez os limites dessa semi-consciência onde parece situar-se ao escrever, e onde está a tal mão que o guia, como costuma repetir nas entrevistas.

Antunes escreve sempre contra Antunes, já se sublinhou em relação ao romance anterior. Há um livro e a comparação inevitável com os anteriores. Ele falha quando não se supera? Da Natureza dos Deuses foi um livro grande de Antunes. Ele sabe disso. Neste seguinte, confirma que continua a perseguir a perfeição e a retratar um modo de ser português — seja lá isso o que for, nem que seja só uma maneira de dizer — como nenhum outro escritor em português o faz. Também por isso é injusto dizer que não arrisca, que se limita a ir com a tal voz única que parece sempre a mesma, ainda que seja múltipla. Este não será o seu melhor romance, mas é mais um grande romance e se nem todos os leitores estão para Antunes, os que estão sabem nunca sair a perder.


por Isabel Lucas
em Público
23.11.2016

17 de outubro de 2016

Crítica de Bruno Vieira Amaral a Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

Que voz é esta, Lobo Antunes?

Em várias entrevistas no início da sua carreira literária, António Lobo Antunes afirmou que só publicou o primeiro livro quando encontrou uma maneira pessoal de dizer as coisas. Ao longo dessa carreira, que conta com vinte e sete romances e cinco livros de crónicas, a concepção que o escritor tinha da literatura e do seu ofício sofreu alterações. Na década de 80, dizia, por exemplo, que as suas referências eram os escritores norte-americanos, que sabiam contar uma história. Longe vão esses tempos. No entanto, aquela afirmação inicial não perdeu relevância. Lendo os livros – chamemos-lhes romances ou, como o autor, “exercícios de ambição” – torna-se claro que o escritor foi apurando – e também depurando – aquela maneira pessoal de dizer as coisas. Uma maneira pessoalíssima, única e, no entanto, contagiosa, ao ponto de uma geração inteira ter contraído, a certa altura, uma espécie de lobo-antunite, a olhar para o mundo da perspetiva de Lobo Antunes e a tentar descrevê-lo através daquela forma de expressão muito pessoal e, aparentemente, muito transmissível.

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera, vigésimo-sétimo romance de Lobo Antunes, é mais um capítulo desse labor contínuo. A certa altura, generalizou-se a ideia de que o escritor se repete e, no fundo, está a escrever o mesmo livro há muito tempo. É uma ideia popular, sobretudo junto daqueles leitores que se apegaram aos primeiros livros e, depois, desistiram ou não conseguiram acompanhar o ritmo de publicação de Lobo Antunes. Havendo um fundo de verdade nessa ideia – e lá chegaremos – o certo é que nenhum outro escritor contemporâneo trouxe tanto Portugal e tantos Portugais para os seus romances. Obedecendo à máxima de Balzac, que o próprio Lobo Antunes por várias vezes citou, segundo a qual o verdadeiro romancista tem de ter vasculhado toda a vida social porque o romance é a história privada das nações, o escritor português vasculhou e escreveu sobre o Portugal suburbano, a burguesia lisboeta das Avenidas Novas, a classe média urbana, a velha fidalguia rural, os esquecidos dos bairros periféricos, os pornograficamente ricos das moradias de luxo, os banqueiros e os delinquentes menores, os deslocados do campo para a cidade, os deslocados das colónias para a metrópole, as cabeleireiras e os empregados de balcão, os políticos, os enfermos, os traficantes de diamantes e de influências. Portanto, quer se fale dos temas ou do meio social retratado, a acusação de repetição não tem fundamento.

Aquela dicção inconfundível

Veja-se o caso deste romance. A protagonista da história (e estes termos têm de ser utilizados com cautela) é uma ex-actriz de setenta e oito anos que na juventude veio de Faro para Lisboa, onde conheceu um moderado sucesso nos palcos e foi casada por duas vezes, a primeira por conveniência económica e a segunda, digamos, por desinteresse. Agora, num processo de degenerescência mental, aos cuidados do sobrinho do marido e de uma senhora de idade, recorda o que lhe aconteceu, os tempos de infância no Algarve, os passeios com o pai, a carreira no teatro, os casamentos e olha para o mundo com a confusão de um cérebro devastado, incapaz de se lembrar onde é o quarto e com as memórias antigas mais vivas e luminosas do que nunca, como o pavio de uma vela que se aproxima do fim.

Então, a protagonista é esta, o cenário é este, a história é esta. O livro, bem, o livro é outra coisa. Porque aquelas coisas estão no interior do livro, mas são tanto o livro como um ser humano é o seu esqueleto. Estão no seu interior, mas não são a sua essência. Estão dentro mas, para o que interessa, são exteriores ao livro. O romance olha para muitas coisas lá fora, mas avança às ordens da voz que o constrói. Essa voz está no centro do romance e, ao mesmo tempo, paira sobre ele, organiza-o e, ao mesmo tempo, flui, arrastando para si as outras vozes – das personagens, da narradora, do autor – tornando-a uma só. Porque aqui não há polifonia, no sentido em que As Ondas, de Virginia Woolf, ou Na Minha Morte, de William Faulkner, são romances polifónicos. O que há é uma monofonia em vários tons em que a mesma voz atravessa todo o romance e atrai para si tudo o que encontra pelo caminho: os detritos e as pérolas, os trejeitos linguísticos que assinalam uma personagem e as imagens poéticas que denunciam o criador.

Por isso a narradora que numa página diz “derivado à doença” noutra fala de “uma casita de madeira onde me dava a impressão de ferver uma colmeia de horas”; numa, “o avental de não me sujar”, noutra, “a gravata um nó de suicida hesitante”; a certa altura diz “não entendo o motivo de se haver encrençado por mim” e, mais à frente, “um rafeiro parecia conversar erguendo uma pata traseira em confidências de pingos” sendo esta construção aquilo a que poderemos chamar de lobo-antunismo, uma forma peculiar de dizer, uma dicção inconfundível que, apesar de menos recorrente do que os excessos de virtuosismo metafórico das primeiras obras, continua a pontuar os romances do escritor, como uma assinatura. Há vários exemplos:

o meu cabeleireiro apagado com os capacetes de astronauta à espera das viajantes interplanetárias da manhã”; “as cadeiras de alumínio encaixadas umas nas outras numa procissão de vértebras”; “os uivos de bebé de uma ambulância na rua”; “tudo aquilo se despenhava num rebuliço de folhas”; “escolhia entre cápsulas em gestos de açucareiro com a pinça de dois dedos e engolia numa delicadeza de comunhão”.

Essa voz dobra o tempo, relativiza-o, amachuca-o, traz o passado para a porta de casa, intromete fiapos de diálogos nas frestas do discurso, faz assomar as recordações à janela da memória, sendo que a memória devastada da velha actriz torna credível o caos cronológico pois ela logo de início nos avisa que há muito que o tempo se fixou, “dá a ideia que se altera mas é o mesmo sempre e é no interior desse tempo que continuo a esmorecer devagar”. A voz, como tal, constrói o tempo e é também ela feita de tempo, um tempo que não é o tempo real (se é que tal coisa existe) nem é o tempo da ficção, não é o tempo da sanidade nem o da loucura, é uma amálgama de todos esses tempos derretidos. Essa voz que, mais do que construir um edifício narrativo, compõe um movimento musical (embora às palavras falte o rigor matemático das notas musicais), sustenta-se em motivos ou repetições. No caso deste livro, há o motivo do galgo do avental, do “motor” do gato, do comprimido, do relógio de cucos e do crucifixo a bater na parede como sinalizador do sexo, todos a marcar o compasso da voz e do tempo.

A realidade nos pormenores

Os romances de Lobo Antunes são, portanto, gestos radicais que não obedecem a nada que lhes seja exterior, apenas às exigências da voz, dessa forma voraz de ver, apreender e devolver o mundo. O maior problema dessa condição – e a razão de se acusar o escritor de escrever sempre o mesmo livro e de se repetir – é que, por muito diferentes que sejam as realidades que lhe servem de ponto de partida, todas elas são sacrificadas no altar da voz que as assimila e depois recita como se fossem idênticas. É como se a cada romance Lobo Antunes olhasse para diferentes realidades e as submetesse ao mesmo tratamento indistinto. É aqui que se trava o combate decisivo do escritor e, diria, de toda a literatura. Partindo do princípio que há uma realidade fora dos romances, realidade da qual eles partem (e é inegável que os romances de Lobo Antunes partem de realidades históricas e sociais concretas), até que ponto os romances se devem organizar em função dessa realidade? Nos romances de Lobo Antunes encontramos o Portugal real, com os naperons e os bibelôs, as Cátias do Seixal e as mulheres que tratam o marido pelo apelido, ou uma construção literária autónoma, um país de linguagem a que, por conveniência, chamamos de “Portugal”?

Sobre os romances, diria que o país neles retratado é uma construção daquela voz, embora semeada de pormenores colhidos na realidade e que, pela forma como são distribuídos pelo texto, dão a impressão de resultarem mais de um cruzamento do instinto, da capacidade de observação e da memória com a imaginação do que de uma investigação aturada, digamos, sobre os teatros de Lisboa ou sobre as ruas de Faro em meados do século XX, como acontece em Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera. Nos romances de Lobo Antunes, o real – o das personagens, o do país, o da humanidade – manifesta-se nos pormenores, nos pequenos gestos, objectos e frases que permitem que o leitor vislumbre o mundo que tem por realidade:

uma Nossa Senhora fosforescente numa prateleirinha”, “uma mulher de roupão a apanhar lençóis de um estendal guardando as molas no bolso”; o “carrito de rodas de pano de xadrez que vai saltando no passeio na sensação de quando era pequena e puxava um pato de brinquedo pelo cordel”; “a maneira de coçar uma perna com o tornozelo da outra”; “o interruptor junto à porta que deitava sempre faíscas”; “um tubo de pastilhas para a garganta destinado aos alfinetes”; o pai a correr e “a segurar as algibeiras do casaco com as palmas”; “uma capela onde se guardavam batatas” (diz a narradora de uma capela que, no entanto, só vê de passagem); “um albino de bicicleta com pinças de estendal a apertarem as calças”; “duas alianças na mão esquerda e portanto viúva”; “o peixe de baquelite que me punha na banheira”.

Não se trata meramente de um artifício literário para assegurar a verosimilhança, para que o leitor diga “isto é mesmo assim”, é a prova de que a voz que arrasta tudo consegue, ainda assim, reparar nas pequenas coisas, segurá-las com delicadeza e oferecê-las generosamente. É, pois, uma questão de atenção, de vasculhar toda a vida social e trazer à superfície os fragmentos aparentemente insignificantes que a revelam.

Com este gesto, a voz que devora e anula as realidades que se propõe descrever, redime-se. Sem início, sem enredo e sem desfecho, o romance é uma voz que se acende e que, lida a última página, se extingue, deixando o leitor abandonado ao silêncio a que aquela voz, mais do que a qualquer tradição literária, mais do que a qualquer realidade, pertence. “A minha casa ergue-se no cruzamento de dois silêncios”, escreveu Antoine Blondin, escritor que Lobo Antunes já apontou como uma das suas grandes influências. O que está neste livro não é uma história – o autor já renunciou a essa missão – mas uma voz que se ergue entre dois silêncios, uma casa de sombra entre duas escuridões profundas. Nesse sentido, consideremo-los mais ou menos realistas, os romances de Lobo Antunes parecem-se muito com a vida.


por Bruno Vieira Amaral
17.10.2016

14 de outubro de 2016

Artigo de Norberto do Vale Cardoso sobre Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (publicado no Jornal de Letras)

António Lobo Antunes:

Os misteriosos matusaléns do escritor


O novo romance de António Lobo Antunes, Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, realça um tema sobejamente importante na obra deste autor: a memória. Numa linha de continuidade, este romance retoma aspectos de obras anteriores, em constantes reenvios e alusões que devem ter em conta o corpus textual antuniano (constituído hoje por 27 romances publicados).
Alguns desses aspectos passam por: referência a cantilenas («– Pico pico sardanico quem te deu tamanho bico» ou «– Dança o cão dança o gato dança o feijão carrapato», que é título de uma crónica) e passagens bíblicas (a parábola do grão de mostarda, a título de exemplo), bem como intertextualidades (citação de excertos do poema “A lua de Londres”, de João de Lemos, autor do século XIX); e, acima de tudo, uma profusão de temas e lateralizações, quase sempre presentes nos romances de Lobo Antunes, tais como: o suicídio (de que encontramos, em Para Aquela…, três situações); a casa (lugar matricial, também aqui presente através da casa dos pais da protagonista, em Faro); alusões onomásticas (a prima da protagonista chama-se ‘Antonina’; o pai da personagem principal teria tido uma relação extra-conjugal com a ‘filha do Antunes’); a exclusão social (a homossexualidade, o travestismo e a miséria); a importância do voar (a entidade feminina recorda como a mãe lhe dava de comer enquanto ela voava) e da figura paterna (o pai era o único que a tratava por «- Filhinha» e não pelo nome próprio); as menções ao mundo do espectáculo (a protagonista foi actriz; o pai parece-se a um ‘Charlot’; um amigo do pai pertence a uma companhia de teatro ambulante); e a doença (a irmã chamava-se Corália e faleceu de difteria, o que intensificou a responsabilidade de viver da narradora que, aliás, também padece de uma doença).
Não obstante todos esses temas e micro-narrativas, é em torno da memória que gira a temporalidade da narrativa de Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, romance que não é estruturado apenas em narrativas descontínuas ou emaranhados, mas especialmente numa fruição da própria memória, feita, afinal, de descontinuidades, incertezas, interditos, elipses, avanços, recuos, esquecimentos e recordações. A protagonista e narradora do romance é de facto alguém que sofre de perdas de memória que a incapacitam para a vida profissional (era actriz e principia a esquecer-se das falas, tendo ‘brancas’ quando procura as palavras) e – paulatinamente - para a vida pessoal, o que a impede de viver sem o auxílio de alguém, aguardando-se, em última análise, o seu falecimento. A memória, como os três andamentos em que o romance se estrutura (tendo cada um deles oito capítulos), tem graus de velocidade e a personagem recorda, a partir da doença que a assola no presente, a infância passada em Faro, a relação entre os pais (com destaque para o ‘crucifixo’ que ora se move ora se silencia), um amigo que andara com o pai na tropa e que augurava para ela um futuro promissor nas artes dramáticas, os ex-maridos e uma coterie de objectos (animados e inanimados, mudando e suspendendo-se de forma a meio da noite, como a estatueta de uma rapariga agarrada a um cisne) que, entre a luz e as sombras da recordação, vai cruzando o mundo do espectáculo com o da memória.
A memória é, pois, o compasso que controla o ritmo do presente, tendo em conta que a ex-actriz padece de Alzheimer (palavra não pronunciada, sempre subentendida), oscilando entre perdas de memória e espantosas recordações. Podemos dizer que essa situação conduz ao que William Faulkner diz numa passagem de Uma Luz Em Agosto: «A memória acredita antes de o conhecimento recordar. Acredita por mais tempo que recorda, por mais tempo até que o conhecimento se interroga (…)» (ed. D. Quixote, 2016, p. 107). Assim, em Lisboa, ao cuidado de uma senhora de idade, sob a supervisão do sobrinho do marido já falecido, a voz feminina recorda todos os que estão mortos, mas, ainda assim, vivos dentro dela, como se constata: «que estranha forma de viver têm os mortos» (Para Aquela…, p. 74). Ora essa capacidade de a memória acreditar antes de o conhecimento recordar, leva a mulher a pensar que os seus pais (mortos há anos) tocam à campainha e se regozijam por ela estar prestes fazer setenta e oito anos. Estabelece-se aqui uma ligação entre a memória do que aconteceu e a memória do que se imaginou acontecer, potencializando-se, na escrita ficcional, um abalo na fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos:

[…] a senhora de idade para a minha mãe
– Não lhe pergunte seja o que for que ela para além de não falar
não se recorda de nada
o meu pai para a senhora de idade espantado
– Não se recorda de nada?
mortos há tanto tempo e no entanto aqui, como deram comigo em Lisboa no apartamento que não conhecem de uma rua que não conhecem também […]
(Para Aquela…, p. 263)

Esse esbatimento torna-se evidente quando se refere que a própria actriz faleceu antes dos pais (Para Aquela…, p. 311), o que coloca o leitor perante a impossibilidade de toda a narrativa memorialística. As fugas da memória conduzem a deslizamentos da verdade. A referência central poderá ser Pedro Páramo, de Juan Rulfo, que nos revela como a fronteira entre a vida e a morte é ténue na literatura. Em Pedro Páramo, a procura da mãe há-de traduzir-se num encontro insólito, para, no final, tudo ser colocado em dúvida. Ora em Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, é a filha quem procura o pai, partindo da doença, que – não o descuremos – metaforiza o processo da criação romanesca, ligado à memória. Daí também a importância da noite ou do escuro, pois a entidade feminina procura o seu quarto no escuro da casa, acorda de manhã e apercebe-se de que as coisas mudam durante a noite, desde o olhar do gato (símbolo heterogéneo da ligação entre o terreno e o além) ao rosnar do galgo (o que lembra a raposa de A Ordem Natural das Coisas). Não há apenas rememoração, mas uma construção imagística.
Escrita, espectáculo e memória – três motivos interligados e centrais no romance. Ora a actriz foi perdendo as palavras até ficar muda, mesmo que no seu interior ela não acredite nessas perdas. Como em Pedro Páramo, o silêncio permite que se apaguem de nós os ruídos e as vozes dos outros para escutarmos a nossa própria voz, o que sucede com a entidade feminina que deixa de verbalizar o que, afinal, passa a falar interiormente. O sobrinho do marido e o médico acham que ela não fala, mas essa (in)aptidão para usar as palavras liga-se ao ofício da escrita como uma criação inquietante. Não deixa, pois, de ser curioso que, no romance de Lobo Antunes seja aquela que duvida e se esquece das coisas (a irmã existe e não existe; o gato morreu com uma injecção dada pelo veterinário; o galgo que desaparece e é apenas uma imagem num avental) quem se ocupe da escrita do livro (p. 193).
A escrita-espectáculo-memória aparece-nos em todo o seu esplendor quando Lobo Antunes encontra ligações entre elementos díspares. A título de exemplo, a mulher doente que vai ao cabeleireiro, que se pinta, que se reinventa para parecer e se sentir sã, é comparada ao travestismo; os aplausos do público no teatro são comparados aos do médico e do sobrinho por afinidade quando ela se lembra de algo que a doença parecia ter apagado em definitivo. Isto sem esquecermos que ela desejava que «as pessoas» aplaudissem o pai «ao aplaudirem-me» (Para Aquela…, p. 60), e também que, no final do romance, o pai é referido como um ‘palhaço’ e um ‘pateta’ na direcção de quem ela corre, pois deverá ser ele quem a espera no escuro. O jogo burlesco faz parte da mundividência antuniana, servindo de base para o entendimento do que é a memória:

– Há meses que não a via assim bem disposta a falar do teatro a
falar dos pais dá ideia que recuperou a memória lembra-se das traineiras das gaivotas
lembra-se de praticamente tudo o estafermo, que misteriosos os matusaléns, dão ideia que a cair e quando menos se espera arrebitam (Para Aquela…, p. 231)

Eis que a memória, definida como misteriosos matusaléns (recordando aqui o Livro do Génesis, onde se afirma que Matusalém viveu novecentos e sessenta e nove anos), será, afinal, a palavra que se deseja longeva, ou seja, a sobrevivência da literatura à passagem do tempo, às brancas que a memória possa ter no espectáculo da vida. 


por Norberto do Vale Cardoso
em Jornal de Letras nº 1201 (ano XXXVI)
Outubro de 2016

Este texto foi disponibilizado para o acervo de antonioloboantunes.pt por cortesia do seu autor.

27 de setembro de 2016

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

 

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera, o novo livro de António Lobo Antunes, estará disponível nas livrarias a partir de 18 de Outubro.

«Um livro perturbador sobre a memória – ou a perda da memória. Uma velha actriz luta com a idade e as suas contingências, enquanto as recordações do passado invadem os seus dias.»

Em pré-publicação no site da Leyaonline.

Capas: superior, edição normal, capa mole; inferior, edição limitada, capa dura


Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...