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A mostrar mensagens de Janeiro, 2015

Claudio Magris disserta sobre a obra de António Lobo Antunes (Il Corriere della Sera)

António Lobo Antunes: o Minotauro no seu labirinto

As grandes ficções do séc. XX, escreveu Raffaele La Capria, são "obras falhadas". Não por culpa dos seus autores, certamente - em que se encontram o maiores escritores de cada época - Musil, Kafka, Faulkner, Joyce, Svevo e muitos outros mais, entre eles alguns latino-americanos -, mas precisamente pela grandeza e verdade de tais obras. São essas grandes narrativas que têm enfrentado, narrado e assumido, na sua própria estrutura, a verdade da sua época e da nossa, a degradação do mundo, o eclipse de um signo central capaz de dar unidade e racionalidade às vicissitudes individuais e colectivas, a desconstrução linear do tempo. O romance da nossa vida é um vasto oceano conradiano; um redemoinho que absorve, separa e dispersa as histórias e do eu que as vive. Abriu-se um abismo entre a História e escrever histórias. O historiador e as pessoas comuns, quando se trata de entender o que lhes sucedeu e vai-lhes sucedendo, mais não po…

Daniel Osiecki - Sôbolos Rios Que Vão: emparedamento metafísico

A polifonia não é novidade nos romances de António Lobo Antunes que, através de painéis narrativos intrincados, se desenvolve nos segmentos da prosa poética  e de fluxos de consciência extremamente precisos. O estilo não linear de Lobo Antunes passou a se evidenciar a partir de romances como As Naus (1988), Tratado das paixões da alma (1990), A ordem natural das coisas (1992), O manual dos inquisidores (1996), O esplendor de Portugal(1997) e tantos outros.
Com o passar do tempo a desconstrução da forma romanesca tradicional e a ruptura de elementos sintáticos em suas narrativas se tornaram mais evidentes, como a ausência de diálogos estanques em um plano temporal objetivo que dá lugar a devaneios, delírios e lembranças. As narrativas mais recentes de Lobo Antunes são compostas por solilóquios e monólogos irredutíveis sob perspectivas variáveis de personagens repletos por neuroses e obsessões.
As experiências na guerra colonial em Angola serviram como pano de fundo para vários romances d…

Gonçalo Mira opina sobre Não É Meia Noite Quem Quer, em Fragmagens

Uma mulher regressa à casa onde cresceu, entretanto abandonada e prestes a ser vendida, para uma última visita. E é nessa casa abandonada que as recordações de infância a assaltam, remexendo no passado e questionando o presente. Estas são as linhas gerais da história de uma professora com um casamento desgastado e sem filhos, mas não é aqui que Não é meia noite quem quer se esgota. Pelo contrário. Com António Lobo Antunes a regra é quase sempre essa, a estrutura a fazer de acessório ao que realmente importa, ao que as personagens sentem, pensam e sofrem. Quando a personagem principal do romance explora a casa, o que interessa é que o leitor explore a personagem. Tem três dias para o fazer, que é o tempo em que a narrativa (nunca fico satisfeito com a aplicação deste termo a livros de Lobo Antunes) se desenrola. A escrita é a de sempre, de frases que pedem contemplação e de metáforas que fazem pensar. Não é meia noite quem quer não é muito diferente de outros livros de Lobo Antunes, ma…

João Tunes - opinião de leitura sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Mais Lobo Antunes e nós
No último romance de Lobo Antunes ("Caminho como uma casa em chamas", Dom Quixote), o seu sempre igual olhar pessimista de lucidez que primeiro dói e depois nos envolve e aquece porque somos animais de carne quente mas, no caso, com o culminar da maturidade feita obra maior. E tal como aos velhos e aos camponeses, aos escritores maduros também se lhes topam as manhas desde que se saiba dar-lhes a volta ou perceber essas neles. Assim, Lobo Antunes, com a sua cena pessimista, já a poucos "enganará". Ele vai por aí, pelo descarnar das nossas misérias e descrenças, para nos chegar ao osso e ao nervo. E depois, sabichão é o tipo, sabe bem que não temos outro remédio que para sairmos daquele mau estado na fotografia do que voltarmos a nós, que se temos sombras (e temo-las, é claro) é porque não nos falta luz. E, no final (não do livro, mas de cada parágrafo, senão não sobrava fôlego), recompomos as coisas dizendo para nós (e para o escritor): «pois…

Ecos de silêncio numa casa em chamas - artigo de Agripina Vieira no Jornal de Letras

Que melhor maneira poderia um escritor ter de comemorar a atribuição de um doutoramento honoris causa (mais um), neste caso pela Universidade Babes-Bolyai de Cluj, na Roménia, e o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, de que oferecer aos seus leitores mais um dos seus admiráveis textos? Foi exactamente isso que António Lobo Antunes fez, dando-nos a oportunidade de mergulhar novamente no mundo ficcional, intenso e envolvente, por ele criado.
Com Caminho como uma Casa em Chamas, [...] o autor propõe-nos uma visita guiada aos diferentes apartamentos de um prédio com quatro andares e um sótão, levando-nos a descobrir a existência dos vários inquilinos (dois em cada piso), que em discurso na primeira pessoa desvendam não só as suas angústias, medos e emoções, mas igualmente a percepção que têm da vida dos seus vizinhos. Desta visita fica arredado o ocupante do sótão que, apesar de diversas vezes referido (a vizinha do primeiro direito diz ouvir passos mesmo não acre…

Milu Pereira: "A todo o tempo dar tempo", reflexão de uma leitora de António Lobo Antunes

“A única pessoa que pode mudar de opinião é aquela que tem alguma.” EDWARD WESTCOTT
A singela e despretensiosa abordagem que efectuei acerca do livro “O Esplendor de Portugal” de António Lobo Antunes, [...] suscitou alguns comentários que considero bastante interessantes, na medida em que representam o importante universo das pessoas que fazem da leitura um hábito salutar nas suas vidas. E como gosto de dizer coisas, decidi aproveitar esta oportunidade inesperada, para fazer o gosto ao dedo e vir para aqui escrevinhar sobre os meus pensamentos, tal como já vem sendo habitual.
Ora bem, o que tenho hoje para dizer?:
Muito se tem escrito sobre António Lobo Antunes e acerca do seu talento como escritor. É uma verdade insofismável, já que reúne o consenso de todos, que as suas crónicas são francamente apaixonantes e que nos enlevam a alma tão alto que quase deixamos de respirar, enquanto as lemos extasiados. Contudo, as opiniões exteriorizadas a respeito dos seus livros são controversas, algum…

Rui Fonseca: "Um país como uma casa em chamas"

Há neste 25º. romance de A Lobo Antunes uma casa habitada por personagens condenados à amargura das suas vidas desesperadas. Conversas dispersas, suspensas, cruzadas, no tempo e no espaço, interrompidas, inacabadas, compõem uma colagem que obriga o leitor a uma identificação, frequentemente labiríntica, dos fios com que o autor tece um texto amargo do princípio ao fim ainda que pontuado por notas de humor cáustico, por vezes divertido. 
É uma metáfora do país que habitamos neste final de 2014?  Em certo sentido sim. Mas não me parece que essa identificação, que já vi referida numa ou outra apreciação crítica, possa ser transposta do tempo do romance (meados do século passado) para o Portugal de hoje sem alguma ressalva. Certamente que aqueles personagens enclausurados num espaço comum repartido caracterizam uma sociedade que subsiste ainda que os fantasmas que as habitam tenham mudado de pele e de nome. Mas não são estes os personagens que ocupam a cena deste país em chamas que habitamo…