28/03/2014

Luiz Paulo Faccioli: «O jogo da insónia», opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia

Dias atrás, na página da Livraria Cultura na internet, havia duas solitárias opiniões de leitores sobre o mais recente livro do português António Lobo Antunes lançado no Brasil, Ontem não te vi em Babilónia, cuja publicação original foi em 2006. Uma delas: “Excelente… Ainda em estado de êxtase… Ainda lendo… Não quero parar… é muito bom…” A outra: “Horrível. Livro chatíssimo, desanimador, pior livro que já li…” A despeito de ser uma amostra ínfima [...], o antagonismo dos comentários reflecte à perfeição uma realidade: ou se morre de amores pela obra, ou se a detesta. Não há meio-termo possível.

Ou sim, talvez haja algum, se levarmos em conta que a obra de arte verdadeira permite mais de um modo de fruição. O mais óbvio passa por valores intrínsecos à condição de arte, que podem tocar ou não a sensibilidade de quem a frui, num plano essencialmente emocional. Esta é a génese dos comentários referidos acima. Outro, um pouco mais subtil, parte da avaliação do esforço intelectual que produziu tal peça e cujo reconhecimento pode também sensibilizar. Ambos os caminhos evidentemente se entrecruzam, e minha própria experiência com Ontem não te vi em Babilónia é um bom exemplo de como isso acontece. Antes de avançar nesta direcção, contudo, convém apresentar a obra que divide tanto assim as opiniões.

Numa noite insone, vários personagens remoem lembranças e tragédias pessoais, enquanto o relógio segue lenta e inescapavelmente marcando as horas. As narrativas, todas em primeira pessoa, são construídas em forma de fluxo de consciência, mesclando acontecimentos antigos e recentes, dores, frustrações e meros devaneios. Três dessas “vozes” são recorrentes, facto que as eleva à condição de protagonistas: Ana Emília, presa ao fantasma do suicídio da filha, aos 15 anos de idade, uma cena cuja descrição, fragmentada e filtrada pela dor da mãe, responde por alguns dos mais belos momentos do livro; Alice, ex-enfermeira que teve uma infância difícil e é casada com um homem truculento e circunspecto; e por fim Osvaldo, o tal marido, policial aposentado que torturava e matava durante a ditadura salazarista e agora, acordado no quarto contíguo ao da mulher, lembra da mãe que perdeu ainda criança. Os personagens não dialogam, não interagem, e os fios que os unem vão sendo tramados subtilmente a partir de suas divagações.

Confusa sonolência

O livro se estrutura em seis partes, nomeadas pelas horas da madrugada: Meia-noite, Uma hora da manhã, e assim por diante. Cada uma dessas partes foi subdividida em quatro capítulos, alternando-se os narradores. À medida que a noite avança, o discurso vai ficando cada vez mais confuso, imitando as distorções provocadas pela sonolência e cansaço dos personagens.

Todos os capítulos apresentam a mesma e curiosa formatação. À primeira vista, ela parece seguir o padrão convencional, com recuos de parágrafo, travessões indicativos de diálogo, vírgulas e pontos de interrogação. Mas logo se descobre que só o primeiro parágrafo de cada capítulo inicia com letra maiúscula, enquanto apenas o último encerra com um ponto; todos os demais abrem com letra minúscula e terminam sem nada. Pedaços de diálogos e citações não fazem cerimónia para surgir a qualquer momento, e a vírgula só existe para que o leitor possa eventualmente respirar. O formato se distancia assim daquele idealizado por Joyce, que dispensou a pontuação e os parágrafos para representar o fluxo de pensamento nas célebres páginas finais de seu Ulisses. Além da intenção de criar um estilo próprio, Lobo Antunes deve ter pensado também na dificuldade que esse tipo de leitura impõe ao leitor: afinal, na obra-prima de Joyce são pouco mais de cinquenta páginas — o que já é uma enormidade —, mas em Ontem não te vi…, com suas 440 páginas, o mesmo modelo poderia induzir algum desavisado a cortar os pulsos. Além de menos perigosa, uma disposição gráfica mais aberta e arejada favorece ainda a dinâmica do texto, livrando-o em parte do tom monocórdio decorrente da ausência de pontuação.

A edição brasileira mantém a ortografia original portuguesa, o que acaba produzindo uma prova eloquente do despropósito do tão badalado acordo ortográfico, que nada padroniza ou unifica.

Próximo da poesia

Durante toda a leitura, não deixei de me encantar com a qualidade da prosa e com a beleza de algumas passagens que a levam bem próximo da poesia. Ao mesmo tempo, me exasperava com a trama que não aparecia, ou vinha demais fragmentada, um suplício para quem não consegue ainda abrir mão de uma história como manda o figurino, com a velha e boa tríade início, meio e fim. Enquanto meu intelecto se satisfazia plenamente, no íntimo um sentimento talvez mais voraz e primitivo reclamava algo que o livro não tinha condições de me dar.

Como não sou propriamente um neófito em literatura e já aprendi a lidar com textos que se afastam bastante do convencional, a dificuldade com uma obra tão rica e bem orquestrada foi motivo de certa apreensão até conseguir deslindar o que se passava. Quando enfim consegui, pude compreender também a engenhosidade do que propõe Lobo Antunes: um belo e instigante jogo de simulação.

Só quem já provou uma noite inteira sem conseguir conciliar o sono pode avaliar o tédio, o desespero, o cansaço que tal situação provoca. Atravessei os capítulos com o mesmo enfado que sofre um insone à espera de que o velho relógio da sala anuncie a próxima hora. Tentei seguir os devaneios dos personagens até o ponto de não saber mais quem estava devaneando nem o quê. Às vezes, encontrava uma trilha segura, que logo se desmanchava à minha frente para nunca mais aparecer, enquanto topava a todo instante com elementos soltos que iam e vinham e nunca se encaixavam. Nenhum dos narradores é confiável, nem se poderia esperar outra coisa em vista de seu estado. Em suma, um desvario planejado nos mínimos detalhes para que o leitor consiga experimentar em tempo real a mesma sensação de personagens em estado de semiconsciência.

Um jogo assim ambicioso e arriscado tinha tudo para não funcionar. Dividir opiniões é o mínimo que se podia esperar de um exercício que pretende desacomodar e causar desconforto. Salva-o do naufrágio a seriedade e, principalmente, a convicção de um autor ímpar na literatura portuguesa e universal.


por Luiz Paulo Faccioli
em Gazeta do Povo
Março de 2009

24/03/2014

«Autos da Revolução» homenageia 25 de Abril em Évora e em Faro


Inspiradas na obra de António Lobo Antunes, sete personagens "revivem" o 25 de Abril de formas distintas em "Autos da Revolução", espectáculo que duas companhias de teatro de Évora e do Algarve se preparam para levar à cena.

O espectáculo, numa co-produção do Centro Dramático de Évora (Cendrev) e da ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, é dirigido pelo encenador francês Pierre-Etienne Heymann e assinala os 40 anos do 25 de Abril. 

"Pretendemos alertar ou despertar as pessoas para um acontecimento ímpar na nossa vida recente e contribuir para que as novas gerações possam confrontar-se com um olhar sobre um momento histórico não tão distante quanto isso", explicou hoje à agência Lusa José Russo, director do Cendrev.

Construído a partir de textos de cinco romances de António Lobo Antunes, o espectáculo reúne os relatos cruzados destas personagens que, com diferentes olhares sobre o 25 de Abril, recordam o que lhes aconteceu.

Um operário carregador de mudanças, uma burguesa caridosa, a esposa de um contra-revolucionário, um militante político que foi preso em Caxias, uma camponesa explorada numa quinta, um banqueiro e a governanta do dono da quinta são os protagonistas.

"As personagens são muito diferentes e o interesse vem das relações entre os relatos. Cada um tem, com certeza, uma lembrança e uma visão da revolução muito diferente", disse Pierre-Etienne Heymann.

O encenador, "profundo conhecedor e apaixonado" pela obra de Lobo Antunes, como o apresentou José Russo, "bebeu" a sua inspiração dos livros "Auto dos Danados", "Conhecimento do Inferno", "Fado Alexandrino", "O Manual dos Inquisidores" e "Exortação aos Crocodilos".

No total são "nove cenas que são como nove movimentos de uma obra musical, porque a dimensão musical da obra de Lobo Antunes parece-me muito importante", disse.

E se os textos daquele "imenso escritor" foram material de trabalho natural para Pierre-Etienne, também a revolução de 1974 é especial para estas duas companhias teatrais descentralizadas.

"Queremos celebrar o teatro que a liberdade tornou possível porque, se não tivesse havido o 25 de Abril, não haveria hoje em Portugal um conjunto de projectos teatrais como o do Cendrev e o da ACTA", salientou José Russo.

Perante os "momentos muito difíceis" vividos na área da cultura, pois, os financiamentos do Estado "são ridiculamente reduzidos", a peça é ainda "um grito contra esta situação" e ganha mais "significado" nos 40 anos do 25 de Abril, frisou Russo.

Em fase de ensaios em Évora, a peça estreia no centenário Teatro Garcia de Resende, na cidade alentejana, na quinta-feira, Dia Mundial do Teatro, com o público a beneficiar de entrada gratuita.

"Autos da Revolução" fica em cena em Évora até 20 de Abril e, depois, "ruma" para o Teatro Lethes, em Faro, onde vai ser apresentado a partir do dia 25 de Abril e até 11 de Maio, seguindo-se uma digressão pela Galiza (Espanha).

Mário Spencer, Rosário Gonzaga, Maria Marrafa, Bruno Martins, Tânia da Silva e Jorge Baião são os actores que "vestem" as personagens da história.


por LUSA, citado do site
23.03.2014

foto: LUSA

22/03/2014

Santi (blog Un libro al día): opinião sobre Tratado das Paixões da Alma

[nota de tradução: o autor do artigo leu antes deste título O Esplendor de Portugal ao qual faz referência no início deste texto que escreveu num blog, informação aqui ocultada por não ser relevante]

[...] Lobo Antunes pareceu-me [sempre] um muito sério candidato ao Prémio Nobel , ainda que talvez tenha sido prejudicado por ser da mesma nacionalidade de Saramago, pela razão de que ultimamente o Nobel tenta premiar países e culturas diferentes (com a excepção para o Reino unido, que deve ter uma regra especial). 

[...] [Tratado das Paixões da Alma] é um romance tanto similar como diferente de Esplendor de Portugal. O que é similar é a evidente preocupação pela técnica narrativa, a mistura de planos temporais e psicológicos, o retrato da realidade contemporânea portuguesa. Esplendor de Portugal é provavelmente mais denso e mais profundo quanto ao tratamento das personagens e da questão central, que nesse caso se trata dos portugueses retornados durante e depois da descolonização; Tratado das Paixões da Alma contém dois ingredientes que fazem de si um romance mais ligeiro: por um lado, tem uma trama quase que policial que muito atrai o leitor e, por outro lado, contém uma carga forte de humor, com características semelhantes de uma farsa (por exemplo, no episódio em que o homem do ministério fala com a sua mulher semi-nua enquanto o filho destrói a casa a marteladas). 

O início de Tratado das Paixões da Alma faz lembrar ligeiramente Conversa na Catedral [romance de Mario Vargas Llosa]: dois homens de classes sociais disitintas conversam, e através dessa conversa fazem ressuscitar as memórias e os fantasmas remotos. Neste caso, os interlocutores da conversa são um juíz de instrução e um arguido, a quem conhecemos inicialmente como “o Homem” (ainda que depois descobrimos que se chama António e com o apelido Antunes, embora, a tratar-se de elementos autobiográficos no livro, sejam difíceis de confirmar, para além da quinta em Benfica, um bairro que o escritor conhece bem). Os dois, agora antagonistas, partilham uma história comum: a infância em que os papéis estavam invertidos (o Homem era filho do dono de uma quinta ou fazenda que empregava o pai do juíz de intrução como seu caseiro), e o diálogo enhce-se de tensões, censuras, memórias e enganos. 

A partir do primeiro diálogo à porta fechada, inicia-se a trama quase policial, onde acompanhamos o Homem, membro de uma tosca célula terrorista de esquerda, e o Juíz, homem frustrado e desagradado tanto com os terroristas como com as próprias estruturas do poder, de que faz parte, mas como um fantoche. Ambos os protagonistas-antagonistas se vão acumulnado progressivamente de ambiguidades: não sabemos se é o Homem que trai os seus companheiros de célula, ou se é o Juíz que se passa para o lado inimigo dando informações confidenciais ao Homem. 

Com estas tensões, numa trama que se desenvolve com lentidão mas com ritmo constante e a criação de um universo social e político em torno dos protagonistas, Lobo Antunes constrói um romance de grande nível. Há que seguir lendo-o [nos livros posteriores], como A Ordem Natural das Coisas, que continua a trilogia iniciada com este Tratado das Paixões da Alma e que vai acabar em A Morte de Carlos Gardel.


por Santi
11.07.2012
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

20/03/2014

Teatro "Autos da Revolução" em Évora

"AUTOS DA REVOLUÇÃO, a partir de textos de António Lobo Antunes"Co-Produção: CENDREV/ ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve
27 de março a 20 de abril

Local
Teatro Garcia de Resende
Horários; qua
rta a sábado, às 21h30 | domingos às 16h00


16/03/2014

Luis M. Alonso: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão

Palavras que fluem como a água

O curso do rio serve ao eterno aspirante do Nobel da Literatura António Lobo Antunes para contar a viagem fictícia da vida sujeita ao tempo e à organização da memória. Para tal utiliza desde o título do seu romance as resondilhas mais conhecidas de Camões: “Sôbolos rios que vão / Por Babilônia m’achei, / Onde sentado chorei / As lembranças de Sião, / E quanto nela passei”. A literatura flui como a água numa das suas obras mais belas, talvez a melhor de todas que escreveu na última década.

Sôbolos Rios Que Vão [...] explora as possibilidades da lírica sem deixar de lado uma trama discernível, algo que não é fácil encontrar no melhor escritor português vivo desde Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, marca de um ponto de inflexão na leitura dos seus romances. Em qualquer caso, livre a escrita do atavismo que impõe a nudez da história, ao leitor calha converter-se em cúmplice das emoções das personagens e das palavras. O resultado é comovente e, como só pode acontecer com Lobo Antunes, o esforço que requer a leitura vê-se altamente recompensado pela desoladora beleza que transmitem as suas páginas.

Na cama de um hospital, só e com as recordações da dor, António invoca Antoninho e com ele o seu passado, enquanto que no seu corpo se vai alimentando um ouriço de castanheiro que come as suas entranhas, o mesmo com que o pai desgastava a saúde da mãe nos episódios de amor furtivo com a criada na despensa. “Não o contes a ela”.

Assim impedido, enquanto os médicos tentam adiar-lhe a morte, vê a vida passar através dos sonhos de então. A viagem à Serra da Estrela para contemplar a nascente do Mondego e os pequenos detalhes num mundo que se desmorona: a mancha na pia, a persistente gota de chuva no sapato, o cheiro da marmelada, os amores esquivos ou a lembrança do avô com a mão côncava sobre a orelha para escutar as conversas.

Trata-se de uma obra autobiográfica. Há alguns anos António Lobo Antunes foi internado devido a um cancro e nessa luta entre a vida e a morte, guiando-se pelo rio da sua infância, traçou o leito que vem desde o nascimento até afluir na actualidade. O sentimento de finitude está sempre presente no escritor, desde o momento em que deixou a sua existência cómoda e se viu dentro da guerra colonial. Angola, de quando o rebenta minas, que seguia à frente abrindo o caminho e detectando a morte, se apresentava a ele e lhe dizia: “Venho despedir-me de si, meu tentente. Amanhã vou embora...”. Esse sentimento de finitude levou-o em muitas ocasiões a obcecar-se com a ideia de que não iria ter tempo para escrever o que realmente queria escrever. Nas entrevistas, insiste em afirmar que sem a escrita nada faz sentido, ou tudo fica, no mínimo, mais reduzido.


por Luis M. Alonso
04.02.2014
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

03/03/2014

Bernardo Carvalho: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos

Lágrimas de crocodilo

Os romances do português António Lobo Antunes [...] são feitos de frases e parágrafos abortados, que terminam por formar, nessa composição fragmentária de interrupções, uma trama complexa, revelando os sentidos mais surpreendentes.

Ao jogar com uma simultaneidade de tempos, que parece mimetizar os mecanismos da memória num estado ambíguo de pesadelo, essas narrativas contam as coisas mais inesperadas, de repente, escondidas no meio de outras insignificantes. E, aos poucos, por meio desse enorme quebra-cabeças romanesco, o leitor começa a vislumbrar a imagem de um mundo onde a hipocrisia é um dos fundamentos.

Não é uma tarefa simples ou passiva, como a de quem se prostra diante de uma tela de televisão. São livros que exigem uma leitura activa num jogo de combinações em princípio muito nebulosas. São livros que propõem uma leitura inteligente, cuja recompensa é um prazer sempre renovado: um mundo em que podem ser descobertos novos segredos a cada releitura, em retrospecto, a partir do instante em que se conquista a chave final.

Os livros de Lobo Antunes não entregam esse mundo de imediato. Primeiro, abrem apenas frestas, por onde se tem uma visão parcial da realidade narrada. As visões vão se acumulando de maneira entrecortada, são interrompidas justamente no momento em que deixariam de ser visões parciais para se tornar revelações, que são sempre postergadas.

E assim, por diferentes pontos de vista e pela voz de diferentes personagens, vai surgindo gradualmente uma dimensão tão mais real por oferecer várias portas de entrada, uma dimensão enigmática que parece de facto existir por trás das palavras.

Em "Exortação aos Crocodilos", [...] quatro mulheres contam uma história terrível, semeando revelações pelo caminho, enquanto misturam as lembranças remotas, da infância de cada uma, com um passado mais recente, em que servem a um grupo de homens de extrema direita, salazaristas saudosos, que organizam atentados contra a democracia, produzindo bombas caseiras e se encarregando de raptar, torturar e desaparecer com "comunistas".

É possível ver aqui uma referência ao thriller político "Balada da Praia dos Cães", de José Cardoso Pires, romancista português [falecido] em 1998, de quem Lobo Antunes é declarado admirador. A organização integrista clandestina é formada por um general, um dono de hotéis e seu motorista, um oficial da marinha e um bispo. Além das quatro narradoras: a viúva do sócio assassinado do dono de hotéis; a mulher surda do dono de hotéis; a "afilhada" (e amante) do bispo e a namorada obesa do motorista encarregado da confecção das bombas.

Vem a calhar que esse texto seja feito de estilhaços, e que nele o leitor construa a imagem de um mundo por suas impressões fragmentadas. Lobo Antunes é psiquiatra de formação e sua ficção parece mimetizar as ondas cerebrais num estado em que a consciência é dúbia, em que há simultaneidade de tempos e ocorrências, em que não dá para saber ao certo o que é realidade e o que é metáfora. Um estado febril, que só se dissipa com a surpresa final, diante da morte.

Uma narrativa enumerativa, sincopada e progressiva, que vai sobrepondo momentos, factos e objectos da memória, entrecortados pela recordação de outros momentos, factos e objectos numa espécie de processo de livre-associação em que o sentido vem do acúmulo, quando por fim se constata, com espanto, o que aconteceu realmente por trás da nebulosa da memória.

É uma construção narrativa em suspense, já que as frases e parágrafos se interrompem no momento em que estão para dizer algo. "Não diga nada" é, aliás, um dos vários refrões do texto e define não apenas o princípio do comportamento hipócrita e a base dessa actividade terrorista e clandestina que acaba se invertendo contra si mesma, mas também a fórmula da traição e do costume de enterrar os próprios podres às escondidas.

A certa altura, a namorada do motorista lembra-se de quando lhe perguntaram na escola, em criança, o que era a pátria. A que ela respondeu: "São caixas de mármore com pedacinhos de manto, caveiras, coisas mortas", antes de ser corrigida por uma amiguinha, que lhe esclarece que a pátria é "onde a gente nasceu". Lobo Antunes tem outra resposta: a pátria é onde tudo é feito às escondidas, o lugar das traições e da hipocrisia, onde choram os crocodilos.


por Bernardo Carvalho
colunista da Folha de São Paulo
em 29.01.2000

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...