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30 de julho de 2012

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Explicação dos Pássaros

E pronto. Lá terminei outro livro de António Lobo Antunes que, tal como todos os que já li, me provocou um prazer enorme.

Este, “Explicação dos Pássaros”, é já de 1981, um dos seus primeiros mas que, por qualquer razão, não havia ainda lido.

Adoro ler. É enorme o prazer que tiro da leitura de um bom livro. E depois há o acto de ler ALA e o gozo incomensuravelmente maior que, numa grande parte das vezes, me dá lê-lo.

Será o desafio que a sua forma de escrita propicia? Será a poesia que lhe está intrínseca? Serão as personagens tão físicas, tão reais, tão consistentes que quase as podemos sentir? Não sei. Apenas posso dizer que já lhe sinto a saudade.

Em “Explicação dos Pássaros”, somos levados a acompanhar Rui S. naqueles que irão ser os últimos quatro dias da sua vida. Quatro dias que nos levam a perceber uma existência pejada de rupturas, de perdas, de frustrações, de buscas do seu espaço social, da procura de si próprio.

Rui é alguém que sente não pertencer a lugar nenhum quer social quer familiar. Não pertence à Lapa, casa de família onde o seu pai pontifica e o assombra (?). Não pertence ao mundo de Marília nem nunca pertenceu ao de Tucha ou mesmo ao dos filhos, distantes. Não pertence ao mundo da casa da D. Sara onde tem por vizinho, entre outros, o Sr. Esperança, “barítono de craveira internacional” que trabalhava num circo e havia sido casado com uma amestradora de rolas… Enfim, alguém que não tem lugar, nem mesmo (sobretudo) em si próprio.

Rui tem uma grande obsessão pelos pássaros, pela sua explicação… Talvez seja o resultado do único momento em que se sentiu bem no seu espaço, que se sentiu parte integrante de algo; quando em miúdo, na quinta onde passavam as férias e onde ainda eram uma família feliz, sentado nos joelhos do pai, lhe havia pedido para lhe explicar os pássaros.

Verdade? Fantasia? Necessidade de em algum tempo em algum lugar ser ele mesmo? A verdade é que este momento é evocado recorrentemente ao longo da narrativa.

Rui era professor de História, não porque fosse esse o seu “lugar”, mas apenas porque não tinha (não queria ter) espaço no que eram os negócios do pai.

E assim, presos a um estilo a que ALA já nos habituou (e que noutros livros posteriores tem levado a limites aqui ainda insuspeitados), fragmentando e entrelaçando tempos, personagens, acções e reflexões que por sua vez se vão entrosando num universo de metáforas, num mundo por vezes até irreal, onírico, vamos repensando toda uma vida enquanto viajamos com Rui e Marília para Aveiro, em vez de para Tomar, e com eles contemplamos, em silêncio, as águas oleosas da ria e, sobretudo, as gaivotas que a sobrevoam.

Aí assistiremos às últimas rupturas. A que advém do próprio facto de desistir do congresso a que deveria ir em Tomar, a que acontece com Marília, e a consciencialização da sua vida que o leva a não ter outra saída que não a ruptura com ela própria.

Há uma metáfora particularmente importante que atravessa toda a narrativa: o circo. O circo que, a meu ver, simboliza a crueza da vida, as concessões que nela fazemos, a crueldade, tudo o que é deprimente e não o circo maravilhoso das luzes. Efectivamente é tudo aquilo que se esconde por detrás delas, o que é amargo, deprimente.

O circo que vai ganhando importância à medida que nos vamos aproximando do final. O local em que o protagonista é personagem e espectador atento e, às vezes, até surpreendido. O circo onde se cruzam todas as vozes, de forma quase feérica no final, e nos são dados a conhecer os múltiplos pontos de vista acerca de tudo o que foi acontecendo em torno de Rui.

Enfim, uma narrativa extremamente rica que me deixou, uma vez mais, de água na boca.

A não perder.


por Maria Celeste Pereira
Ponto de Cruz
30.07.2012

12 de abril de 2012

Teolinda Gersão: recensão crítica a Explicação dos Pássaros na Colóquio Letras nº 72 de Março de 1983 – pp. 102 a 104

esta recensão, de 1983, debruça-se
sobre a 1ª edição de 1981
«As asas batiam num ruído de folhas agitadas pelo vento, [...] eu estava de mão dada contigo e pedi-te de repente Explica-me os pássaros. [...] tu sorriste e disseste-me que os ossos deles eram feitos de espuma da praia, que se alimentavam das migalhas do vento e que quando morriam flutuavam de costas no ar, de olhos fechados como as velhas na comunhão».

Este diálogo representa para a personagem um momento privilegiado da infância, o momento em que o pai é poeta e Rui S. se assume como seu filho. Na harmonia cúmplice das mãos dadas, ambos partilham o mistério das coisas, e passa de uma mão para a outra a chave do universo que é também - os poetas sabem disso - a chave do seu próprio ser.

Este momento, ao qual a personagem sempre de novo, obsessivamente, regressa, não existiu contudo, provavelmente, nunca: apenas houve uma série de equívocos. Desde logo porque os poetas são rigorosos, e quase tudo, nessa frase, é falso. O homem que disse essas palavras (ou nem sequer disse, talvez, e a cena foi apenas sonhada) provou só que não era, jamais seria, poeta. Mas Rui S. escuta, por detrás das palavras erradas, outras, exactas e belas; sobre o verdadeiro rosto do pai imagina outro - o rosto que lhe permitiria assumir - encontrar - o seu próprio.

Debalde, todavia. A realidade do pai, que ao longo de todo o texto se impõe, é - e é só - a do universo da Lapa, a grande casa burguesa, a família patriarcal com a sua «dignidade distante», o seu dinheiro e os seus contratos, as suas aparências e hipocrisias, as suas missas e as suas bavaroises, os seus casamentos frustrados e as suas louças da Companhia das Índias, um universo repressivo e concentracionário, mesmo quando se julga elegantemente permissivo, em que o desespero, como os sofás e os cortinados, aparece forrado de veludo. Mas nem por isso mata menos. Porque afinal é o pai, representante desse universo, que no fim espetará a personagem na folha de papel, tal como fez a outros elementos da família, e, como o texto insinua, é o culpado, se não directamente da morte da mãe, pelo menos da sua outra morte, do desespero e do vazio de uma existência feita de jogos de canasta e de obrigatória compostura.

Universo que Rui S. recusa - e que o recusa, porque todos os dissidentes são olhados de alto, como incapazes - mas do qual não consegue evadir-se; assim, por exemplo, a profissão de historiador não é escolhida «positivamente», por si mesma, mas «negativamente», como oposição ao universo paterno, que a não admite; e do mesmo modo, o outro «mundo» para onde parte, e que existe em contraste e oposição a este, é olhado com os olhos da Lapa, e também não é, portanto, assumido.

Campolide surge como um submundo de estreiteza e mau gosto, feito de mobílias baratas, «cortinas de pintas» e «quintalecos», e é para a personagem ao mesmo tempo um desafio à Lapa e uma punição. E por isso mesmo um desafio não ganho. Se o amor não existe na Lapa, onde as relações são frustradas e falsas, também é falsa a relação com Marília: «[...] eras bem do meio de onde vinhas», pensa Rui S, olhando-a, «nunca topei com pés tão grandes como os teus». Assim pensa a Lapa. O meio, a classe dela, é ele que lhos aponta. A distância entre ambos, é ele que a mantém e a faz sentir.

O amor de Marília é posto em dúvida (não se trata, afinal, de militância política?) e não é retribuído com amor algum - Rui S. «utiliza-a», inconscientemente, como compensação pela partida da mulher e como contestação à Lapa; pelo grupo político de Marília não é, evidentemente, aceite, porque para ingressar nele lhe falta tudo: a capacidade de acreditar numa causa, e a capacidade do dom de si próprio.

Que Marília entenda que se tratou de um equívoco e queira deixá-lo, funciona para a personagem (não para o leitor) como um efeito de surpresa. «Abandonado», Rui S. tentará por todos os meios agarrar-se a ela, porque sente a terra fugir-lhe debaixo dos pés e vai ser obrigado a encarar o que não quer ver: que é um ser que não pertence a parte alguma, e que, para estabelecer uma relação válida com os outros, terá primeiro de se encontrar a si mesmo. Tema que, dentro da metáfora obsessiva dos pássaros, se cristaliza na metáfora do voo frustrado, da impossibilidade do voo; ou no tema da viagem sem rumo: Aveiro em vez de Tomar, por uma súbita mudança - ausência - de objectivo.

A imagem da ria, envolvente, fascinante, um «enorme, ilimitado espaço claro unicamente habitado pelos gritos roucos das gaivotas», adquire uma força crescente. A ria é o grande espelho narcísico onde se procura um rosto, a resposta à pergunta inicial, não resolvida - quem sou? - e lugar onde se desiste da procura, atravessando a superfície das águas, cedendo ao apelo da morte, a que se mistura a morte da mãe, desde o princípio anunciada e suspensa.

A paixão de Rui S. (elementos como «6ª, sábado e domingo», o contraste noite-manhã, não são apenas casuais) é uma paixão sem ressurreição; dela ficará um corpo que flutua, na superfície lisa da ria, «cor das pálpebras por dentro», um corpo como o cadáver de um pássaro - a morte como um regresso ao ovo, a negação ou a impossibilidade do voo.

Outra metáfora - a terceira grande metáfora do texto - se mistura a esta: o circo, em que a personagem, ao mesmo tempo actor e espectador, encena a sua vida e a sua morte, transformando-as em espectáculo, numa visão amarga, irónica, cruel, voluntariamente desmistificadora da visão do circo como círculo mágico da infância. A imagem do circo assenta na visão alienada, canibal, da arte que é a dos jogos circenses e a da sociedade de consumo: a morte de Rui S. é um espectáculo oferecido e pago pela publicidade, o artista existe - é pago para - divertir o público, ser por este devorado, gasto, como qualquer outro produto consumível. Na mesma relação de ódio que, a todos os níveis, se mantém subjacente ao texto.

Caberia ainda falar da técnica narrativa, da pluralidade dos pontos de vista (que não quebram, todavia, a visão da personagem), da intromissão de vozes múltiplas, do entrelaçamento dos tempos, do caos voluntário dos movimentos e oscilações da memória. Mas limitar-me-ei a sublinhar o que considero os dois pontos mais altos do romance: a construção e a autenticidade. Explicação dos Pássaros é um livro conseguido (embora o domínio das palavras nem sempre o seja). A acção é levada coerentemente de um ponto a outro ponto, e no meio fica um percurso convincente. O que não é pequena virtude, quando tantas vezes os romances, mesmo dos chamados «autores consagrados» pecam por falta de construção. Por outro lado, este, como os outros livros de A. Lobo Antunes, passam através de uma experiência, uma pele, um corpo. Por isso são vivos. O que também não é pequena virtude, quando tão grande parte da literatura actual, não só aqui como no resto do mundo, é apenas feita de palavras e disfarça com alibis intelectuais a sua incapacidade de tocar na vida.


Teolinda Gersão
Colóquio Letras 72
Fundação Calouste Gulbenkian
Março de 1983

8 de janeiro de 2012

José Alexandre Ramos: opinião sobre Explicação dos Pássaros


António Lobo Antunes apresenta: Explicação dos Pássaros

Boa parte dos leitores considera os livros de António Lobo Antunes (ALA) como lugares tristes. É verdade que a sua obra insiste e concentra-se na sua boa parte em situações quase extremas (senão inteiramente) de decadência, seja ela pessoal (psicológica) ou social. É também verdade que as narrações feitas pelas personagens dos seus livros evocam passado e presente (sem apontamento a um futuro, pelo menos um futuro mais promissor) com elementos e factos que, por si, nada têm de alegre ou feliz, chegando mesmo ao ponto de mostrar, em cada um desses momentos evocados, particularidades absolutamente negativas: o escritor relata os episódios de modo a exacerbar os aspectos sombrios da alma humana, como crimes hediondos, o ódio, a insegurança, o desespero, a resignação, a hipocrisia, a doença, a patetice, etc., sem esquecer que na caracterização do ambiente também favorece os cenários pobres, sujos, feios e, em muitos casos, com particularidades kitch. Porém, apesar de toda essa carga negativa que acompanha as suas personagens e ambientes, existe muito humor – negro, dirão, mas de uma subtileza encantadora. Um humor que umas vezes se lê nas entrelinhas, outras muito claro no discurso, recorrendo ao grotesco, à caricatura, à anedota, enfim, ao ridículo das situações das pessoas como marca de um povo ou de uma mentalidade. Assim é Explicação dos Pássaros, uma anedota de circo, em que o autor, após a catarse da sua trilogia inicial, nos oferece um volume onde a mestria e a segurança da mão vem a revelar o grande escritor que é.

Rui S., a personagem central desta história (sim, neste livro há uma história a contar, mas nunca nos moldes tradicionais), é um professor universitário, de meia-idade, oriundo de uma família da alta burguesia portuguesa (poderia ser outra a nacionalidade?), dos finais dos anos setenta. Durante a infância é envolvido pelo pai nas suas actividades extra profissionais inconstantes (o pai, empresário, mudava de passatempo de forma imprevisível e quase neurótica), nomeadamente a ornitologia em que lhe havia prometido explicar-lhe os pássaros e que nunca o fez, reflectindo-se essa falta no seu crescimento, como se essa explicação dos pássaros fosse, na realidade, a explicação da vida, crua como ela é. Crescido, e com vocação cultural e artística que contrariava as expectativas familiares do filho em continuar a actividade empresarial, torna-se então professor universitário da área de História. No período conturbado do imediatamente antes e pós-25 de Abril, Rui S., sensível às questões sociais, sente a culpa da sua origem e tenta filiar-se num partido comunista (no livro é referido como o Partido, não esclarecendo qual deles, uma vez que na altura existiam muitos de índole marxista-leninista, mas tudo aponta para que seja o PCP). Casa-se uma primeira vez com Tucha, da mesma condição social da sua, de quem tem dois filhos, mas o matrimónio é desfeito pela mulher, que decide separar-se, o que lhe dá razões para se tornar obsessivo e magoado. Nas suas relações de professor e actividades políticas frouxas (nunca chega a ser aceite devido às suas origens), conhece Marília com quem, para colmatar a falta e o desgosto da separação de Tucha, casa, apesar da resistência daquela, militante convicta que punha os interesses do Partido à frente dos pessoais.

Abre o livro com Rui S. a visitar a mãe moribunda no hospital, velada por uma prima que tece crochets feios (segundo ele), e é a partir daí que as evocações do passado, sobretudo da família, surgem. Primeiro o pai, que a esta altura se encontra ausente no estrangeiro (talvez em relações amorosas duvidosas), depois a mãe e as irmãs – uma delas professora de música muito feia, solteira, o único familiar que ainda o apoia, embora condicionalmente, após a separação de Tucha –, e o cunhado, arrogante, moralista (embora cheio de podres), que acaba por ser a esperança do filho desejado para a continuação da actividade empresarial da família, embora seja ele médico obstetra. Todos renegam Rui S., cada um à sua maneira, pelas decisões ou indecisões que toma ao longo da sua vida, mas é principalmente o seu segundo casamento, com a comunista Marília, que é visto como a grande nódoa para a família.

Para Marília, o marido nunca será a prioridade, e o capricho do casamento confunde-se com a sua atitude conversora de tornar o burguês num proletário esclarecido. Ela própria propõe no seio da célula do Partido a que pertence o estatuto de observador para Rui S. que é severamente contestado. Este, assumindo a culpa pelas suas origens, distancia-se, da mesma forma que vai tomando consciência de que Marília é apenas a substituta de Tucha, porque não recuperou do desgosto do divórcio. Lamenta também o seu distanciamento para com os filhos, pequenos durante a separação, quem raramente vê depois de o casal se ter separado. Conhece, num bar de subúrbios, um artista de circo convencido que é um tenor sobejamente conhecido nacional e internacionalmente (embora refira que o mais longe que tenha actuado terá sido Badajoz), mas cuja performance nunca ousara passar de um espectáculo patético de palhaços num circo pobre. É nesta altura que Rui S. encara a sua vida como esse espectáculo pobre, onde ele é a atracção principal. Comprometido para uma palestra da Universidade, decide romper esse compromisso e convence Marília para uma viagem a Aveiro, onde, oportunamente, lhe daria conta da sua decisão de se separar dela. Após três dias de convívio com a mulher e de muita reflexão, sente que afinal essa decisão não estava tão madura, e a insegurança volta, atordoado com a ausência da explicação dos pássaros por parte do pai, dependendo disso para poder tomar as devidas decisões que convém à sua vida. Não adivinhava, porém, que Marília tivesse também aproveitado essa estadia de quatro dias para uma reflexão idêntica e, ao contrário dele, decide mesmo acabar com o casamento, para dar prioridade aos pais que viviam em condições precárias e ao Partido, de que se afastara após o episódio de renúncia de integração de Rui S. como observador. É nesse quarto dia, domingo (o livro está dividido por quatro longos capítulos – quinta, sexta, sábado e domingo), desesperado com a decisão de Marília, que Rui S. decide suicidar-se, acabando morto na ria de Aveiro, com as gaivotas despedaçando-lhe o cadáver. Apontamento: os pássaros, assim designadas as gaivotas num conceito geral, agem de modo estranho para surpresa dos locais, talvez uma referência a Hitchcock que ALA quis introduzir.

Aparentemente, é um jornalista que pretende contar esta história de suicídio (sabe-se desde as primeiras páginas que será esse o destino de Rui S.), embora o recurso à terceira pessoa do singular seja intercalada e, na maior parte das vezes a partir do primeiro terço do livro, substituída pela primeira pessoa. É Rui S. afinal quem conta o seu fim trágico e anedótico, aludindo a um número de circo que todos esperam ver e vão comentando à medida que se vai desenrolando o novelo até ao desfecho. É assim que as outras personagens, da família principalmente, intervêm. A par, existem alguns depoimentos (para a investigação policial ou jornalística? – decida quem ler), cujo discurso formal resvala para uma interpretação, digamos oral, do juízo dos depoentes perante os factos. As personagens que depõem são os empregados da estalagem em Aveiro, depois os artistas de circo, também a família, incluindo as duas mulheres e um dos filhos, e há um outro, fragmentado, de uma parteira a quem o casal Rui e Marília recorreram no passado para um abortamento). A carga emocional do casal que viaja a Aveiro é intensificada pelo estado do tempo, em que, se não chove, pairam nuvens pardas e uma neblina persistente que invade a cidade desde o rio Vouga. Também os cheiros, fétidos, da ria de Aveiro ajudam a construir o cenário trágico e decadente para o destino de Rui S., bem como as referências às aves, ou “os pássaros”, que vão surgindo ao longo da narrativa em forma de maus presságios. O humor, como que saído de um anedotário negro e crítico, é uma constante no livro, principalmente quando Rui S. imagina as suas acções apresentadas e comentadas por um anão durante o seu suposto número apoteótico de circo.

É, para mim, e após reler, um dos melhores livros de ALA, consistindo num cartão-de-visita para toda a sua obra posterior; terá sido, à época (1981), mas com o juízo actual, uma obra-prima de então, em que a literatura portuguesa era tão vaga de inovação e de génio, salvo as devidas e raras excepções. É leitura obrigatória, e direi mesmo prioritária, para quem quer iniciar-se no mundo literário de ALA, mas também uma grande referência para quem, por curiosidade ou necessidade curricular, investe no estudo da obra deste mestre da nossa literatura. Um espectáculo único, apenas podendo ser apresentado pelo melhor dos melhores: António Lobo Antunes.

(Perdoem-me o impulso algo fanático da minha última afirmação do artigo, mas se ALA é, há vinte anos, o meu escritor preferido; relê-lo tem vindo a reforçar essa convicção, uma vez que regressando aos seus livros desde o começo, as surpresas são sempre novas, e constantes.)

(E, a propósito: dos raros livros de ALA que podem ser encenados ou adaptados ao grande ecrã, porque não um peça ou um filme baseado neste livro?!)


José Alexandre Ramos
08.01.2011

28 de outubro de 2011

Alexandre Kovacs: opinião sobre Explicação dos Pássaros


António Lobo Antunes - Explicação dos Pássaros - 256 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2009 (lançamento em Portugal 1981) - ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora.

Sempre achei que os piores pesadelos não são aqueles povoados de monstros e situações de terror, pois estes identificamos logo de início como pesadelos; aqueles verdadeiramente terríveis são os que reconhecemos como parte do nosso próprio quotidiano, começando de mansinho e, pouco a pouco, nos envolvendo em uma malha sufocante de espirais infinitas, uma sensação de afogamento em que não percebemos se chegamos ao fundo ou à superfície.

Esta sensação de pesadelo foi a que me deixou o romance "Explicação dos Pássaros" do mestre António Lobo Antunes que, com a sua tradicional prosa polifónica, misturando passado, presente e futuro, vai nos desvendando os últimos dias da vida de Rui S., um professor universitário que se vê aprisionado em uma série de situações que ele próprio, por conta de decisões erradas ou mesmo falta de decisões, se deixou envolver ao longo da vida.

Lobo Antunes parece não ter pena de seu protagonista que vai sendo lentamente despedaçado ao longo da narrativa. Depois de uma desconfortável visita à mãe que morre de câncer em um leito de hospital, parte em uma viagem de carro de final de semana com a segunda mulher decidido a pedir-lhe a separação. Ao longo desta viagem, todo o passado de Rui S. é descortinado, incluindo os detalhes da separação pedida pela primeira mulher (do ponto de vista do protagonista e da mulher), a inadaptação à sua família, sociedade, filhos e amigos, tudo parece levar Rui S. a um final trágico.

Por que devemos ler livros assim? Não sei responder a esta pergunta, mas posso assegurar que é um belo exemplo de literatura.


Alexandre Kovacs
14.10.2011

21 de agosto de 2011

André Curi: opinião sobre Explicação dos Pássaros


Impossível, não há categoria para isso. Por mais que remoamos as gavetas, as transformemos em triângulos, quadrados e em (para quê servem?) losangos, não há categorias para António Lobo Antunes – o mais amorfo escritor que já li.

Primeiramente [...], não há história em Explicação dos Pássaros, ou pelo menos não há relevância alguma nela. Vamos lá: Quando perguntam as histórias de um livro, se referem a uma linha cronológica com uma sequência lógica dos fatos. Mas eu respondo com outra pergunta Que linha? Que fatos? Por acaso a avalanche constante em nossas cabeças segue a tal linha? O que você está pensando agora, e agora? E agora? O que temos em mãos não são páginas com milhares de palavras arranjadas, mas um espelho refletindo a nós mesmos, seres em constante ebulição racional. Um homem que se mata no final. E daí mesmo. A maestria em conduzir o pensamento humano é a profundidade alcançada pelo escritor português, dane-se a história.

Isso traz consequências. Sem dúvida é um livro contra a disciplina: não force a leitura. No segundo parágrafo, logo previ que o ritmo de 50 páginas ao dia se tornaria impraticável. Em alguma partes, 3 páginas ao dia pode ser considerado sucesso. Quando nos damos conta, tamanho esforço, estamos até transpirando (não é brincadeira). Somos impelidos a parar, mais do que isso: queremos jogar o livro pela janela ou comê-lo a mordidas caninas, mas não conseguimos. Percebe a angústia? Queremos ler mas não conseguimos, queremos parar mas também não conseguimos. E é assim que, aos trancos e barrancos, vamos passeando entre os pensamentos aos trancos e barrancos de Rui. Louco, né?

Agora, se esperam estar na hora do veredicto Gostou ou não?, continuarão chupando o dedo, eu ainda não sei que notar dar. Mas, adianto, não é um dos meus favoritos. E, encerro, talvez seja. Afinal, o que em nós é lógico?


André Curi
21.01.2011

10 de agosto de 2011

Filipe Kepler: opinião sobre Explicação dos Pássaros



Explica-me os pássaros, pai.

Rui encontra-se numa encruzilhada. Despedaçado desde que sua primeira mulher o abandonou e oprimido pelo desprezo silencioso que o pai e a família lhe devotam por conta do modo de vida que escolheu para si, este professor universitário vê-se estagnado, vítima da frustração resignada e de um surdo desespero, reprimidos por anos sem conta e a tornarem-se mais e mais insuportáveis. Assim, após visitar a mãe a morrer no hospital, Rui decide-se por levar sua segunda mulher, Marília, para uma viagem de quatro dias em Aveiro, onde pretende terminar a relação, na esperança de que, liberto de um relacionamento que julga ruim, possa enfim retomar o próprio rumo e dar um novo curso para sua vida. Contudo, haverá ainda forças para tanto? Será possível, depois de tanto tempo, levantar-se do chão e recomeçar?

À semelhança de suas obras anteriores, o autor divide o romance em capítulos cronológicos (os quatro dias passados em Aveiro), que, no entanto, não se limitam ao escopo temporal de seus títulos. Por conseguinte, o leitor se depara a cada página – às vezes a cada parágrafo – com histórias concomitantes: ao relato do presente, em Aveiro, intercalam-se flashbacks de seu passado com a primeira mulher, as antigas querelas familiares, o divórcio, o início de seu relacionamento com Marília, bem como eventos de um passado ainda mais remoto, origem de suas alegrias e futuras dores: a infância e, sobretudo, a tarde idílica passada na quinta, com o pai a explicar-lhe os pássaros. Além de seu passado e presente, a partir de determinado ponto é-nos dado a conhecer também o futuro de Rui, isto é, os eventos ulteriores à viagem a Aveiro. Uma vez que tal emaranhado narrativo é magistralmente arranjado pelo autor, o leitor, após acostumar-se à obra, não encontra dificuldades em acompanhar o decurso de cada história; pelo contrário, sente-se intrigado e mesmo sequioso de navegar por esse imbricamento textual, que desafia constantemente nossa atenção e entendimento.

A força poética da prosa de António Lobo Antunes sempre me fascinou. Em "Explicação dos Pássaros" não é diferente: seu lirismo visceral, altamente metafórico, a diluir passado, presente e futuro num fluxo narrativo vertiginoso, é simplesmente avassalador, imprimindo-nos a fogo o selo trágico da história de um homem à beira do abismo. É decerto um dos grandes escritores de língua portuguesa da actualidade - se não o maior.


Filipe Kepler
em Skoob (leia neste site mais opiniões sobre o livro)
21.06.2011

28 de fevereiro de 2010

Vinicius Jatobá: a propósito do lançamento em simultâneo no Brasil (Junho 2009) dos livros Explicação dos Pássaros e O Meu Nome É Legião.


Certa vez, em uma entrevista, Nabokov achou curiosa a consideração negativa de uma crítica francesa de que todos seus livros eram semelhantes. O que poderia ser taxativo de falta de versatilidade de sua paleta cromática se revelou óbvio para Nabokov. Com humor, respondeu: "A originalidade só tem a si própria para copiar".

Essa provocação, divertidíssima, é falsa em princípio, uma vez que a originalidade é uma impressão superestimada - livros nascem de livros. No entanto, trocando originalidade por obsessão, chega-se mais próximo do motor matricial do grande escritor e da sua evidente "pobreza" - ele se debruça sempre sobre o mesmo sentimento, e sua paleta não possui mais que três ou quatro cores. Verticaliza um mesmo estado de espírito, e dele retira, ainda que sua bibliografia seja vasta, o "mesmo" livro até que a morte o separe do papel.

Esse é o caso de António Lobo Antunes. O lançamento simultâneo de Explicação dos Pássaros e O Meu Nome é Legião, separados em suas datas originais de publicação por mais de duas décadas, são o termômetro ideal para diagnosticar esse sintoma: o tema de Antunes é sempre o de uma personagem doente tentando articular narrativamente um mundo desfeito pela violência. A doença pode ser concreta ou espiritual, tanto quanto o agente demolidor.

O que interessa a Lobo Antunes é esse fosso aberto entre a personagem deslocada de sua normalidade por algum acontecimento drástico e o mundo que se transforma radicalmente quando visto desse outro lugar traumatizado. Percorrer distâncias; limar a inadequação; encontrar o rosto perdido no espelho; tornar em momentos, espaços cerrados. A massa verbal de Lobo Antunes se erige sobre gestos simples expandidos em seus sentidos pela doença e violência.

Publicado em 1981, Explicação dos Pássaros é um rompimento com a trilogia sobre a guerra colonial em Angola com que se sagrou no mapa literário português. Não há mais as lembranças fantasmais dos cadáveres, a geografia sensual de Luanda crivada de violência, a incapacidade do ex-combatente em retornar ao mundo cotidiano anterior. Explicação avança sobre as agruras da vida conjugal. Rui, o narrador, amarga uma recente separação dolorosa e tenta reconstruir sua vida ao lado de uma nova mulher com quem se casou por um desejo de preencher sua solidão.


Ao contrário da imensa maioria dos romances de Antunes, essa é uma narrativa de personagens em movimento: Rui monologa enquanto avança com seu carro por cidades costeiras de Portugal. Está sensibilizado com a doença da mãe e evoca sua infância e sua vida enquanto reúne forças para pedir divórcio da esposa que não ama. O livro é um grande ritual de adeuses, e o desconforto crescente de Rui aponta apenas para um final possível. E trágico.

Como em outros livros de Antunes, a trama é pífia. As coisas não acontecem; o que acontece é o pensamento das personagens. Possuem uma fluência delirante, e há uma inegável vocação poética em Antunes. Em certos momentos, no entanto, as imagens aberrantes não ajudam muito a visualizar a narrativa. É como se a profusão de metáforas nublasse o enredo.

Ainda seriam necessários alguns romances para Antunes encontrar uma forma narrativa que adéqüe sua sensibilidade poética a uma plasticidade necessária para sua íntegra legibilidade. Antes de A Ordem Natural das Coisas (1992), muitos de seus romances flertavam com o hermetismo. É de se perguntar: de quê adianta um universo ficcional denso se o leitor não encontra nele um espaço mínimo para contemplá-lo?


O Meu Nome é Legião, nesse sentido, é um animal diferente. Destilado e preciso, proporciona uma intensa experiência de leitura. É o Capitães de Areia do século XXI. Como o grande romance de Jorge Amado, mergulha no mundo da marginalidade de um grupo de delinqüentes juvenis. As dessemelhanças surgem no enfoque. Amado faz quadros gerais, e suas personagens são maiores que o mundo: redondas, inteiras. Lobo Antunes é todo fragmento: retalhos de vozes, lapsos de imagens, frases interrompidas. E seus miúdos não são heróis. Como uma praga, eles espraiam terror e violência enquanto deambulam pelas ruas de Lisboa.

Organizando a narrativa está a voz de Gusmão, policial marcado por um terrível sentimento de solidão, doente de tédio, e que é designado para investigar os delitos. O romance abre com o relatório de Gusmão, e ao longo de sua massa verbal o retoma, como se ele fosse o motivo sobre o qual a litania de vozes, cada uma marcadamente distinta, irá se amalgamar uma e outra vez.

Legião é um romance invulgar: Antunes demonstra as deformações que os fossos sociais infligem no pensamento desses seres excluídos. Longe está a utopia de Amado, sua fé nos homens. Se Capitães é a elegia aos jovens que não tiveram condições sociais de se tornarem adultos nobres, Legião é uma ópera punk e violenta. Delírio de vozes; violência gratuita; masoquismo e humilhação; racismo e xenofobia; lei e punição. O problema não tem solução visível e a legião apenas cresce a cada dia. E tanto o leitor como Rui, cúmplices nesse mergulho, experimentam um mundo sem controle do qual não arrancam soluções.


Vinicius Jatobá
artigo citado de Terra Magazine
02.07.2009

7 de fevereiro de 2010

Taize Odelli: opinião sobre Explicação dos Pássaros


Um homem relativamente jovem está em crise. Pretende se separar da segunda esposa, sua mãe está internada com poucos dias de vida, e o resto de sua família o despreza. Ele escolheu caminhos opostos aos da família, e nada do que era esperado dele se concretizou. Em Explicação dos Pássaros Rui S. compartilha seus últimos dias de vida, carregados de lembranças e previsões para seu futuro. O quarto romance do português António Lobo Antunes, em nova edição pelo selo Alfaguara, da Objetiva, narra de forma densa uma história onde o destino não pode ser alterado.

Narrador e personagem se confundem. Em longas frases, a palavra passa de um para outro constantemente, onde os pensamentos de Rui são o material principal da narrativa. Os parágrafos são igualmente longos, e não há linha que separe o que é passado, presente ou futuro. O leitor deve constatar isso sozinho, auxiliado apenas por poucas palavras que possam situá-lo. É uma leitura truncada, difícil para aqueles acostumados com aspas, travessões e referências. Entretanto, o livro não foge à regra da maioria: com o tempo se acostuma, e logo a leitura flui normalmente.

Além da questão estética da narrativa, a gramática também atrapalhou no início. Aqueles que não são familiarizados com expressões e termos portugueses podem se perder facilmente entre as linhas. Ler na frente do computador pode se mostrar eficiente nessa hora. Mas é um desafio que vale a pena.

Rui S. vê a própria vida como um circo, cujo espetáculo é feito pelas pessoas à sua volta, e ele, protagonista, a atração final. Através dessa imagem criada pela personagem é possível entender a real frustração pela qual passa. Ele cria falas para os outros, afirmando o quão fracassado ele é, constatação do próprio Rui. Suas emoções transgridem a linha do tempo, e o que lhe passa atualmente nos é representado através de suas lembranças. Esse estilo dá à narrativa um ritmo frenético de mudança de tempo.

Explicação dos Pássaros é um livro que exige muito do leitor. Ele é um desafio, que ao final deixa uma sensação de triunfo enquanto Rui S. definha. Obra prima de António Lobo Antunes, que merece toda a atenção que ela necessita.


Taize Odelli
em diHITT
22.12.2009

29 de maio de 2008

Sandra Guerreiro Dias: opinião sobre Explicação dos Pássaros


Dos pássaros

Ao anoitecer, a cidade adensa-se e os pássaros quase enlouquecem. Ao mesmo tempo, Rui S. pensa e é no pensamento de si e dos outros que existe enquanto limite da narrativa que por sua vez se dissolve na delirante articulação entre presente e passado, sujeito e contexto, alienação e libertação. Em Explicação dos Pássaros, a opção pela aparente desconexão diegética é, no entanto, inevitável, pela premência da simulação profunda do objecto e dos seus contextos.

Por fragmentação do discurso entender-se-á, em António Lobo Antunes, o silêncio da continuidade narrativa que se manifesta por intermédio da ausência de nexos discursivos longitudinais. Esta falaciosa vacuidade esgota-se, no entanto, numa inquietante coerência experimentada através de um encaixe paradoxalmente sequencial entre diferentes planos temporais, personagens, fórmulas, registos e outras variantes que constituem o universo no qual se movimenta a personagem principal. Ou o rodopio da insistência obsessiva na descrição dos pormenores, da lucidez desarmante e da coloquialidade poética, da simultaneidade entre as vozes do narrador e da personagem principal, da família, das mulheres, da sociedade, da cidade e dos pássaros, espécie de alter-ego no qual Rui S. se supera e se explica a si próprio e através dos outros:

A maior parte dos pássaros, explicou o pai, (…) vivem muito pouco tempo se não morrem logo à nascença, há os que emigram no Inverno para países mais quentes, os que não conseguem executar a viagem e se ficam no caminho, os que os machos e as corujas devoram se os pilham atrasados ao entardecer, retardatários, a tentar escapar à noite a caminho da mata. (pp. 72-73)

À fictícia desordem enunciativa acumulam-se depois as rupturas inegociáveis, os conflitos, que impõem, argumentam, fundamentam e intensificam o caos do percurso em causa, e que farão de Rui S., esse pássaro «retardatário a tentar escapar à noite». Entre os muitos conflitos, conta-se o decisivo e insuportável confronto ideológico com o pai, figura tutelar que ditará claramente a despersonalização do sujeito relativamente a si e à sociedade, a deliberada submissão aos afectos e à manipulação feminina, através sobretudo das mulheres com que se envolve, Tucha e Marília, e a impiedosa deriva decorrente da inevitável dissolução do seu projecto de vida enquanto ser social que se auto-anula:

Deixei definitivamente de ser pássaro, ancorei no lodo e na lama de Aveiro como os botes sem préstimo, reduzidos ao esqueleto das travessas, comidos pelos mexilhões e pelas lulas. Pensou Não me apetece sair mais daqui, mover o mindinho sequer, sentir a pressa de vaivém do sangue nos meus membros, o galope aflito das veias. (p.125)

Todos estes conflitos não serão, no entanto, mais do que enraizadas sequelas de uma desintegração accionada por uma sociedade em busca de si mesma, e da qual Rui S. faz parte. A apenas insinuada mas intentada análise que da cidade e do contexto do romance vai sendo feita assume-se, neste âmbito, enquanto esforço de reflexão crítica acerca do que foi a sociedade portuguesa do pós-Abril:

Aveiro vogaria eternamente na neblina à laia de um navio desgovernado, com as suas travessas desconexas, as suas sucursais de banco, as suas pastelarias remotas e os seus largos vazios, (…)Lá está o carro imóvel contra um plátano e como que preso ao tronco por uma arreata invisível, o relógio de uma igreja qualquer soou uma incrível infinidade de badaladas compassadas e lentas, o som alargava-se, medieval, em círculos concêntricos na atmosfera saturada. (p.137)

Dispersas mas catalisadoras da narrativa, as descrições, ora da cidade de Lisboa, ora de Aveiro, produzem, além disso, um abrandamento do fulgor narrativo que se traduzirá num esboço desta mesma sociedade enquanto argumento e origem da desagregação dos intervenientes:

Campo de Ourique habita-me irremediavelmente os ossos, acho que não seria capaz de morar longe destes quarteirões mornos e sem graça, desta triste prisão de fachadas desigualmente idênticas, construídas na pasta sem grandeza de um cenário de melancolias resignadas. (p.29)

Este devir quase paralelo das sucessivas rupturas explicará e antecipará esse acto final de libertação que é o suicídio da personagem principal. Afinal, apesar da desagregação sistemática, remanesce uma lógica possível que se detém para além das expectativas e que é a da fragmentação do sujeito, pelo que a morte de Rui S. mais não será que a manifestação última desse exercício de coerência que a personagem ensaia desesperadamente ao longo de todo o romance. Além disso, a opção pela morte do artista em palco, através da alegórica encenação de um improvável número de circo, contém em si a denúncia de toda uma sociedade que assiste imperturbável ao seu auto-aniquilamento:

Senhoras e senhores, meninas e meninos, respeitável assistência, eis-nos prestes a alcançar o momento culminante do nosso espectáculo de hoje - urrou ele dando cambalhotas veementes ao redor da pista. - O Grande Circo Monumental Garibaldi oferece-vos ao vivo o número único, não televisionado, do suicídio do seu principal artista. (p.210)

Mais do que o suicídio em si e do que dele é possível deduzir relativamente à personagem central do romance, a morte como espectáculo grotesco, assistido e aplaudido pelos próprios familiares e amigos da vítima, afirmar-se-á afinal como encenação violenta, não da renúncia de Rui S., mas da complexa melancolia e social. Para isso, interagem, por um lado, as figuras absurdas do circo, a sociedade e os seus duvidosos mecanismos de dissuasão, e a letárgica família, e por outro, os pássaros, o cego e Rui S., subsistindo apenas o ruído e o silêncio, ambos impenetráveis, ou a valsa silenciosa que se sobrepõe à algazarra do circo, enquanto Rui S. se suicida e se liberta, emancipando-se pela imaginação de si, por si:

Estou a adormecer, pensou ele, distinguia ainda, à medida que mergulhava num lago de lodo, cheio de silhuetas conhecidas, a testa franzida, aflita, do pai, cheguei-me a ti, puxei-te pelo ombro, Palavra de honra que a família acabou, palavra de honra que a Lapa acabou, nunca mais entramos sequer o portão daquela casa, e na claridade imprecisa de Lisboa, na claridade nevoenta de Aveiro, os teus olhos afiguraram-se-me tão tragicamente ocos de expressão como as órbitas de gesso dos defuntos. (p.140)

Da imaginação pode dizer-se ainda que se processa aqui enquanto acto instável de destruição e construção relativamente aos objectos evocados - a infância, os diálogos sem retorno sempre introduzidos pela fórmula imperativa “pensa:…”, repetida até à exaustão, e os pássaros -, espécie de metáfora da sua existência indecifrável. Dela e dos pássaros, a explicação possível será somente a sempre provável incerteza.

António Lobo Antunes (1981), Explicação dos Pássaros. Lisboa: Dom Quixote. 257 pp. [ISBN: 972-20-2712-3]

Sandra Guerreiro Dias
29.03.2008

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...