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22 de março de 2014

Santi (blog Un libro al día): opinião sobre Tratado das Paixões da Alma

[nota de tradução: o autor do artigo leu antes deste título O Esplendor de Portugal ao qual faz referência no início deste texto que escreveu num blog, informação aqui ocultada por não ser relevante]

[...] Lobo Antunes pareceu-me [sempre] um muito sério candidato ao Prémio Nobel , ainda que talvez tenha sido prejudicado por ser da mesma nacionalidade de Saramago, pela razão de que ultimamente o Nobel tenta premiar países e culturas diferentes (com a excepção para o Reino unido, que deve ter uma regra especial). 

[...] [Tratado das Paixões da Alma] é um romance tanto similar como diferente de Esplendor de Portugal. O que é similar é a evidente preocupação pela técnica narrativa, a mistura de planos temporais e psicológicos, o retrato da realidade contemporânea portuguesa. Esplendor de Portugal é provavelmente mais denso e mais profundo quanto ao tratamento das personagens e da questão central, que nesse caso se trata dos portugueses retornados durante e depois da descolonização; Tratado das Paixões da Alma contém dois ingredientes que fazem de si um romance mais ligeiro: por um lado, tem uma trama quase que policial que muito atrai o leitor e, por outro lado, contém uma carga forte de humor, com características semelhantes de uma farsa (por exemplo, no episódio em que o homem do ministério fala com a sua mulher semi-nua enquanto o filho destrói a casa a marteladas). 

O início de Tratado das Paixões da Alma faz lembrar ligeiramente Conversa na Catedral [romance de Mario Vargas Llosa]: dois homens de classes sociais disitintas conversam, e através dessa conversa fazem ressuscitar as memórias e os fantasmas remotos. Neste caso, os interlocutores da conversa são um juíz de instrução e um arguido, a quem conhecemos inicialmente como “o Homem” (ainda que depois descobrimos que se chama António e com o apelido Antunes, embora, a tratar-se de elementos autobiográficos no livro, sejam difíceis de confirmar, para além da quinta em Benfica, um bairro que o escritor conhece bem). Os dois, agora antagonistas, partilham uma história comum: a infância em que os papéis estavam invertidos (o Homem era filho do dono de uma quinta ou fazenda que empregava o pai do juíz de intrução como seu caseiro), e o diálogo enhce-se de tensões, censuras, memórias e enganos. 

A partir do primeiro diálogo à porta fechada, inicia-se a trama quase policial, onde acompanhamos o Homem, membro de uma tosca célula terrorista de esquerda, e o Juíz, homem frustrado e desagradado tanto com os terroristas como com as próprias estruturas do poder, de que faz parte, mas como um fantoche. Ambos os protagonistas-antagonistas se vão acumulnado progressivamente de ambiguidades: não sabemos se é o Homem que trai os seus companheiros de célula, ou se é o Juíz que se passa para o lado inimigo dando informações confidenciais ao Homem. 

Com estas tensões, numa trama que se desenvolve com lentidão mas com ritmo constante e a criação de um universo social e político em torno dos protagonistas, Lobo Antunes constrói um romance de grande nível. Há que seguir lendo-o [nos livros posteriores], como A Ordem Natural das Coisas, que continua a trilogia iniciada com este Tratado das Paixões da Alma e que vai acabar em A Morte de Carlos Gardel.


por Santi
11.07.2012
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

22 de julho de 2011

Simão Fonseca: opinião sobre Tratado das Paixões da Alma


Tratado das Paixões da Alma é o primeiro romance da trilogia apelidada de “ciclo de Lisboa”, composta por A Ordem Natural das Coisas e A Morte de Carlos Gardel. Este ciclo comporta a infância e adolescência de António Lobo Antunes e a sua vida em Benfica, Lisboa, recheada de lembranças dos seus amigos e da relação que tinha com os seus familiares, acontecimentos que marcaram o autor e que o mesmo nunca mais esqueceu.

Homem, inicialmente assim apresentado, é um indivíduo que pertence a uma organização terrorista e que se encontra preso a prestar declarações perante o “cavalheiro” e pelo Juiz de Instrução, de seu nome Zé. Ao largo da estória, o Homem revela chamar-se Antunes, e mais tarde António Antunes, sendo que o Juiz de Instrução tem o nome de Zé. A primeira conclusão que se pode retirar, é obviamente que Tratado das Paixões da Almatem como personagem principal o próprio autor, intercalando os parágrafos com Zé e com outras personagens (algumas da rede terrorista: Sacerdote, Artista, Estudante, etc), ainda que durante a grande parte das páginas haja um parágrafo para o Juiz e outro para o Homem, respectivamente.

Se António (Lobo) Antunes é o Homem, Zé, o juiz, poderá ser o seu grande amigo já falecido José Cardoso Pires. Apesar de durante o livro todo não surja qualquer tipo de referência a “Cardoso” ou a “Pires”, não devemos excluir a possibilidade de que José Cardos Pires seja mesmo a personagem Zé, o Juiz: José Cardoso Pires aparece muitas vezes nas crónicas de Lobo Antunes como “Zé” e sempre tratado com um enorme carinho. A existência de uma rede terrorista e de Zé e António Antunes passarem o tempo na esquadra, serve apenas de pano de fundo para as lembranças de infância e adolescência que ambos partilharam em Benfica, sendo este sim, o verdadeiro tema do romance.

Zé e os seus pais são os caseiros duma quinta que pertence ao avô de Antunes, onde também vive António e os seus pais, e durante o período em que Zé e António conviveram, apercebemo-nos de que havia uma grande amizade entre os dois – melhores amigos do mundo -, onde não faltaram travessuras e situações verdadeiramente cómicas, escritas numa linguagem muito própria a que o autor já nos habituou: “- Repara no que o teu Avô me fez à boca, nota só o inchaço da gengiva, lamentou-se o meritíssimo a exibir o beiço ao Homem, dobrando-o, com os polegares, no sentido do queixo. Não me partiu um dente em bocadinhos por acaso, não me convides mais para fumar que o velho deixa-me em picado num segundo”

Tratado das Paixões da Alma, publicado em 1990, é um romance importante na vasta obra de António Lobo Antunes. A guerra colonial abordada de forma exaustiva nos seus prévios registos aparece aqui com pouca relevância, dando-nos espaço para conhecermos melhor o crescimento do jovem Lobo Antunes em Benfica e isso acaba por se tornar essencial na compreensão de um autor tão autobiográfico como este.


Simão Fonseca
12.02.2011

30 de abril de 2011

Nuno Martins: opinião sobre Tratado das Paixões da Alma


Imaginemos que Portugal, numa época não especificada, mas que aparenta ser nos princípios dos anos 90 do século passado, é assolado por um grupo terrorista de esquerda, de inspiração maoísta, que faz atentados, assaltos, etc., tal como um I.R.A. ou uma E.T.A.

Imaginemos que é criada uma brigada especial da polícia chefiada por um juiz de instrução e que é apanhado um terrorista que por acaso é um amigo de infância desse mesmo juiz que chefia as investigações.
 
António Lobo Antunes, com este mote traz-nos mais outro livro fabuloso, cheio de ironia e que com o seu estilo inconfundível de escrita explora o lado mesquinho das pessoas.
 
Apesar de estar dividido em seis partes, este livro pode-se dividir em duas grandes partes principais, a primeira parte aborda e explora a relação entre o juiz, que como atrás disse é escolhido pelo próprio governo para chefiar as investigações e o interrogatório do "homem" (seu amigo de infância), um elemento de uma célula do grupo terrorista que assola Portugal e que foi capturado pela polícia, sendo que a segunda parte se foca nas pequenas estórias dos intervenientes da acção, tais como os restantes elementos do grupo terrorista e outras personagens periféricas e também nas acções levadas a cabo pela polícia para a captura do grupo terrorista.

A estória da amizade entre o juiz e o homem é complicada, são amigos de infância, mas o juiz é filho de pais pobres e humildes sendo o pai um alcoólico e que vem da província para Lisboa para trabalharem como caseiros na quinta de Benfica que pertence aos avós do Homem.

O Homem, cuja mãe morreu num acidente de automóvel e o pai que ficou com graves deficiências mentais devido ao mesmo acidente, vive com os avós e é um autentico "menino de bem".

Ambos quando crianças partilharam de brincadeiras, partidas, aventuras, sendo que muitas vezes (ou quase sempre) o juiz é "usado" pelo homem e fica sempre com as culpas quando as coisas correm mal e são apanhados a fazerem "asneiras". Entretanto vão crescendo, o juiz torna-se num aluno aplicado, vai para a universidade e consegue ser juiz e o homem, sempre preguiçoso, sem ambição, não segue os estudos e vai trabalhar para a companhia de seguros do avô mas num nível inferior e com a idade vão-se separando e perdendo a amizade um pelo outro.

Até que o homem, que foi aliciado por um colega de trabalho que pertence aos terroristas e o recruta, cai numa armadilha e é capturado pela polícia. O juiz, escolhido por causa da sua ligação com ele em criança, inicia os interrogatórios, e é aí que se vê (lê) a mestria da escrita de Lobo Antunes, que intercala passado com presente de uma forma natural e fluida sem nunca baralhar o leitor.

A seguir aos interrogatórios, o Homem é solto mas a trabalhar para a polícia de forma a ajudar na captura dos restantes elementos do grupo terrorista e a partir daqui Lobo Antunes pega nas pequenas estórias dessas diversas personagens e com muita ironia e até com alguma comédia traça um retrato de Portugal da época, os seus vícios, as suas "vigarices" e "esquemas", os abusos de poder, a política, a falsidade e a traição.

Fala também da decadência, do Portugal do antes 25 de Abril 1974, o Portugal das grandes famílias, quase ainda feudal que se transforma com uma rapidez impressionante num Portugal de acelerado urbanismo descontrolado e valores e ideais totalmente diferentes dos anteriores.

Dos diversos livros de Lobo Antunes que já li, este foi sem dúvida o mais simples de ler e o mais divertido e irónico; gostei bastante e até o aconselho a quem nunca leu Lobo Antunes e se queira iniciar na sua leitura.


Nuno Martins
28.04.2011

18 de janeiro de 2007

Fernando Mendonça: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 125/126 de Julho de 1992 – pp. 296 e 297

O veio da paródia e a sua mais utilizada vertente, a carnavalização, têm ocupado páginas episódicas na literatura portuguesa, geralmente para sublinhar tipos ou lugares de um universo social em que a burguesia, decadente ou ascendente, confessa até onde pode ir a vacuidade das relações humanas. No século passado, Eça parodiou as instituições românticas, e as críticas de Camilo foram o paraíso do sarcasmo. Em tempos mais recentes, podemos seleccionar uma meia dúzia de bem sucedidas realizações, voltadas para obras e figuras que, por razões justas ou injustas, se tornaram alvos favoritos da sátira. Tudo isso, porém, nunca se apresentou como um projecto global de produção.

Mas agora estamos diante de um livro que utiliza, como procedimento incansável de produção, a paródia: trata-se do romance de António Lobo Antunes Tratado das Paixões da Alma.

É conveniente esclarecer que, quando se fala aqui de paródia, é no remoto significado grego da palavra – canto ou discurso paralelo a outro. No caso do romance de Lobo Antunes, assinalamos, além do exercício da paródia, o da sua sofisticada escrava, a carnavalização. A paródia e a carnavalização interpenetram-se ali, porque os acontecimentos parodiados, transpostos de maneira ridícula ou grotesca, utilizam a linguagem paralela que materializa a degradação. Não são só as coisas que constituem a paródia, mas o modo como as coisas se constituem. E assim se vai da paródia à carnavalização. Exemplificando, a partir do título, pode-se dizer que as «paixões da alma», narradas no livro, se mostram fielmente especulares do seu modelo, mas o modo como se exercitam (ou descrevem) é exemplarmente caricatural. No traço caricatural se espelha, com justeza, a realidade do mundo circunstante. Mas o que é que se parodia e carnavaliza neste romance de Lobo Antunes? Faça-se um breve resumo do que acontece no livro.

Num tempo recentíssimo, o Estado precisa de capturar um grupo de terrorista que vinha praticando atentados contra alvos e personalidades importantes. Um dos componentes do grupo é preso e um Juiz de Instrução é escolhido (a dedo) para conduzir o interrogatório do prisioneiro. Acontece que os dois foram amigos de infância e praticamente criados juntos. A partir desta relação Juiz de Instrução/Homem (terrorista) se instaura o universo romanesco, com os protagonistas e os acontecimentos surgindo das reminiscências que inevitavelmente os dois acordam durante os interrogatórios. A infância, a adolescência, a idade adulta se recriam com os seus conflitos, as suas paixões que, agora, aos poucos, vão de novo imperceptivelmente aproximando as duas personagens.

O tempo da acção é breve, mas as ramificações da mesma se tornam múltiplas e complexas, o discurso narrativo flui num movimento pendular constante entre o passado e o presente, produzindo uma narrativa fracturada mas tranquila, apesar das refracções bruscas que obrigam a uma leitura extremamente atenta e memorizada. Nesse ritmo apropriado da leitura jamais se perde o fio da meada e, no momento exacto, tudo se vai revelando e encaixando – os factos, as pessoas, os nomes. Salvo melhor juízo, é uma das mais complexas estruturas narrativas que o romance português produziu nos últimos tempos, mas é igualmente uma das mais sedutoras leituras que um texto moderno nos pode propor. E, apesar da sua modernidade, é um romance que se lê à velha maneira (leitura aliás a que todos os romances aspiram mas nem sempre conseguem), isto é, quando o leitor subitamente se enreda no texto, como se dele participasse, assim se instalando como narratário obrigatório.

Tem-se falado aqui de paródia e carnavalização como principal carpintaria deste romance. Seria interessante dar alguns exemplos dessa prática, ao mesmo tempo cómica e documental. Dois momentos do livro seriam suficientes: quando os terroristas decidem atacar a sede da Polícia Judiciária; quando a Polícia Judiciária resolve atacar os terroristas. A imitação da realidade é insuperavelmente cómica, pelo ridículo e incompetência dos terroristas, dos seus gestos, do seu linguajar, o mesmo acontecendo com os agentes e a tropa que organizam o cerco aos terroristas – a melhor maneira de carnavalizar o cerco foi fazer acreditar aos populares presentes que se tratava de um filme.

Para se dar uma ideia aproximada do que é este romance de Lobo Antunes seria preciso um espaço bem maior do que aquele de que aqui naturalmente se dispõe. É um romance no qual o tempo da narrativa é longo e abrangente, e, se a acção é breve, como se disse atrás, as recorrências onde se instalam todos os intervenientes que, de uma forma ou de outra, fala da história recente (e menos recente) da vida portuguesa, as recorrências, repita-se, são a máquina que produz o universo fundamentalmente inquisitivo do romance.

Sim. Não é só o Homem (terrorista) que é interrogado. É a vida, com as suas paixões, rudimentares ou complexas, que se interroga e questiona. A lição final é a mesma para o Juiz e para o terrorista: ambos serão assassinados pelos órgãos de segurança.

Não é a primeira vez que o Autor se arroga o direito da paródia, mas nunca ela foi tão intensa nem tão relevante a carnavalização como neste Tratado das Paixões da Alma. Mas há algo ainda que é preciso dizer e com certa urgência. António Lobo Antunes acena-nos, neste romance, com uma conclusão, à qual chegamos sem muita dificuldade. Por detrás do rosto da paródia e do seu corolário, desvela-se um outro que não é caricaturável, antes carrega nos olhos e na boca uma notícia tão aforística quanto desoladora, e isso ao longo das centenas de páginas do livro: que quanto mais as coisas mudam, mais são a mesma coisa.


Fernando Mendonça
Colóquio Letras 125/126
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 1992

11 de janeiro de 2007

Portnoy: opinião de leitura


António Lobo Antunes: Tratado de las pasiones del alma e Qué haré cuando todo arde?

Não se pode resistir à tentação de ler um romance com um título tão maravilhoso:Tratado das Paixões da Alma.

É o meu segundo romance de Lobo Antunes, depois de Que Farei Quando Tudo Arde?. São dez anos de diferença que existem entre a escrita dos dois romances, e a comparação entre si supostamente daria uma clara visão sobre o estilo literário de Lobo Antunes. Porém, dois romances  tão separadas no tempo, e algumas das crónicas do escritor publicadas no Babelia - El País, não implicam demasiado conhecimento da obra de um escritor para se empreender uma crítica séria e tirar conclusões a respeito.

Penso que se tivesse que escolher um autor português para o laurear com o Prémio Nobel, não teria dúvida alguma que, antes da tresnoitada filosofia new-age de Saramago, uma narrativa infestada de conformismo e lugares comuns, viesse a apostar em Lobo Antunes, mais arriscado literariamente e menos comprometido socialmente. De facto, as normas para o Prémio Nobel da Literatura implicam que deve conceder-se "a quem haja produzido no campo da literatura a obra mais destacada, na direcção correcta", o que se mostra bastante ambíguo, ao que se junta "o que suponha uma contribuição notável à sociedade"... mais ambiguidade.

Mas deixemos de lado as minhas fobias pessoais.

Lobo Antunes é um escritor que trabalha especialmente a forma das suas obras. Como afirmou numa entrevista:

«Interessa-me o trabalho com as palavras. As histórias dos meus livros não me interessam nada» (..) «A estrutura, sim; (...). Interessa-me tentar traduzir em palavras o que por definição é intraduzível (as emoções, os impulsos) e estruturá-lo num todo coerente. A intriga não me preocupa; o que procuro é estar mais perto do coração, da vida».

Desta forma, esforçando-se em mostrar ao leitor esse mundo interior de impulsos e emoções, cria os romances nos quais o ritmo temporal está completamente truncado. Se bem que o conjunto da obra, os sucessivos capítulos, mostram uma certa continuidade temporal, mantêm uma evolução da história sobre a linha do tempo, o interior de cada capítulo, estruturado em diversos blocos, mostram um caos temporal fruto da indagação do autor na memória das suas personagens.

Tentar uma sinopse dos seus romances é um trabalho infrutífero: uma sinopse não acrescenta nada a uma literatura em que é primordial o uso de palavras para captar conceitos abstractos. Não obstante, tanto Tratado das Paixões da Alma, como Que Farei Quando tudo Arde? são, apesar do que se possa pensar pelo que acabo de dizer, romances em que o humano está muito acima da técnica narrativa. Lobo Antunes empurra-nos para uma frenética descida às entranhas da mente humana, das paixões mais ocultas e os sentimentos mais recônditos, empregando ara isso um tremendo labirinto de palavras que dispõem frases que dispõem parágrafos que não se enlaçam temporalmente com o seguinte, nem com o anterior. Lobo Antunes exige, é inflexível  literariamente.

A evolução que posso constatar nestes dois romances aponta a uma maior dificuldade tanto na sua composição como na sua leitura: em Que Farei Quando Tudo Arde?, Lobo Antunes desmonta toda a narração ao nível de cada frase, de forma que parece haver uma única voz dominante, diluindo os restantes narradores, diluindo o próprio autor. Nas suas próprias palavras:

«Penso que há somente uma voz que se fragmenta e divide; antes fazia planos detalhados, mas agora parto do nada, de uma ideia vaga, o fio narrativo está para o escritor como a corda para o alpinista, a meta para mim surge de como criar personagens que despertem emoções sem esse fio, vejo-me como uma entidade entre duas instâncias, traduzindo o que as vozes interiores me ditam, já não sei se escrevo ou traduzo mensagens disformes.»

Em Tratado das Paixões da Alma, essa possessão não alcança esses níveis de dissolução. Há uma voz única, a voz de Antunes ou a voz de um narrados omnisciente mas também é um diálogo contínuo entre duas personagens ao longo do tempo, personagens que dialogam com a mesma voz, que são denominados com epítetos relativos à sua profissão (que curioso... como Saramago) e que conversam construindo uma história. No romance de 1990 existe todavia certo interesse no que se conta, na trama narrativa. No de 2001, a trama resolve-se precipitadamente, como que uma obrigação que não interessa ao autor.

Lobo Antunes é um escritor arriscado que pede ao leitor um esforço que talvez nos tempos em que vivemos não estará acostumado. Mas também há que reconhecer que é um escritor irregular: existem fragmentos nos seus romances que se prolongam desnecessariamente, as contínuas repetições em que costuma recriar-se não ajudam a que a narrativa avance fluidamente, conseguindo em certas ocasiões um efeito contrário ao desejado: nessa exploração da alma humana o leitor pode sair enfastiado de tanta mediocridade.

São os seus romances tratados sobre as paixões da alma, tratado literário de lato nível. Talvez não seja o melhor escritor do mundo, mas há que agradecer-lhe o esforço das suas composições titânicas, nas quais sempre encontraremos brilhos de perfeição. Seja como for, há que ler um homem que diz sobre a narrativa contemporânea o seguinte:

«Dá-me a impressão que todos (os livros) são escritos pela mesma pessoa. São histórias bem feitas, no geral, mas a mim não me interessam as histórias bem feitas. Gosto de personagens com densidade. Gosto das pessoas que vivem como que com uma guerra civil interior, pessoas com quem podes ter uma luta, no bom sentido, claro. Gosto das pessoas que esgrimam e deixam seu sangue mesclando-se com o teu como num pacto».

 
Portnoy
21.04.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...