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17 de setembro de 2009

Raquel Cristina dos Santos Pereira disserta sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


O signo linguístico e a literatura pós-moderna em Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo

Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca                                  Troveja
Procura um claro instante para a aparição.
[...]
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem
[...]
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias turbulentas,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro. (Eduardo White)

Rever as leituras acerca do mundo é uma das possibilidades que a obra de António Lobo Antunes permite. Um escritor de autenticidade literária, embora não inovadora, mas que proporciona ao leitor sentir prazer em cada “verso absorvido”. Deparando-se uma vez apenas com as narrativas antunianas não se consegue fugir mais delas, assim como “não se foge de Angola” (Antunes, 2003: 27). Pois não se consegue ignorar Lobo Antunes no cenário literário da atual História mundial.

Suas narrativas demonstram, por vezes, um caráter autobiográfico, devido à recorrência de temas que marcaram suas ética e estética literárias, como, a guerra de Angola.

As sensações, os estados de ânimo revelados pela densidade da sua prosa “vagueiam” em alguns momentos pelos resquícios da sua memória biográfica. Como, por exemplo, a dramática experiência na guerra de Angola, vivenciada por Lobo Antunes durante três anos e que, segundo ele, foram suficientes para se tornar “o acontecimento capital da sua vida”. Mais uma vez, a temática da África estará entremeada nas vozes narrativas do seu recente romance Boa tarde às coisas aqui em baixo.

Um romance em que Lobo Antunes criva novamente a possibilidade de se articular o texto (sua escrita) com o intertexto da vida, isto é, interrelacionar os “textos da sociedade e da História”. Apesar do texto deste escritor não necessitar, para ser estudado, de qualquer referência ao conteúdo e / ou “às determinações externas como, as sociológicas, históricas e psicológicas” (Barthes, 2004: 267).

Sem a intenção de enquadrar a narrativa de Lobo Antunes em alguma “linha” ou ciência literária, mesmo porque qualquer teorização de um texto deve partir dele mesmo, pode-se afirmar que o seu recurso estilístico assemelha-se a um estilo estético surgido nos anos 70, do século XX, que teve Jacques Derrida um dos seus mais importantes expoentes: a “teoria do texto”, ou “teoria da escritura”, que preza pelo desequilíbrio da estrutura formal da escrita; e, pela “abertura”, portanto, do signo, conforme define Roland Barthes.

Abrir o signo implica conceber o livro como um “organismo vivo”, do qual o autor é um sujeito fragmentado entre suas linhas escritas, permitindo, assim que o texto se mova, se multiplique, se mexa, fora de seu controle de escritor. Logo, nada de ponto final no texto, nada de última palavra”, rejeita-se a idéia de um significado último. Pois, em cada ponto se é possível suplementar algo mais. Algo de novo sempre pode brotar mais tarde nos interstícios do tecido, do texto “esburacado” (Barthes, 2004: 257), da “estrutura destroçada” (Derrida, 2002: 16).

É um texto “esburacado”, “sem-projeto”, “sem argumento”, que o mundo antuniano nos apresenta, no qual não há o lugar de quem fala, suspira ou questiona.

A narrativa se coloca plural, ambivalente ao dar voz às diferenciadas realidades humanas. O texto, a partir daí, adquire a forma de um objeto social (Barthes, 2004: 267-268) do qual o intelectual dispõe para problematizar questões inerentes à humanidade. Formular as respostas, as soluções para tais questões não se é permitido, pelo simples motivo do intelectual pós-moderno, neste caso, em particular Lobo Antunes, não acreditar que exista uma única e absoluta realidade ou verdade para a nossa existência.

Desse modo a consciência do intelectual da pós-modernidade, hoje, enxerga seu texto como um objeto que não mais lhe pertence, a partir do momento que se materializa. Daí, a narrativa não ser do singular, não haver apropriação do texto, porque ele se situa no “intercurso infinitivo” dos códigos, e não no termo de uma atividade “pessoal” do autor.

E, é exatamente neste enquadramento de texto que se situa Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo ao apresentar fragmentadamente o indivíduo deslocado no universo pós-colonial português e no seu próprio universo interior.

O escassamento das referências, a relativização da verdade, a oscilação entre mundos teoricamente possíveis dos relatos estão envoltos numa atmosfera “tensa”, e, por vezes, silenciosa de Boa tarde às coisas aqui em baixo.

Uma narrativa de “vozes” que gritam a flagelação humana e as suas íntimas peculiaridades; “Vozes” que revelam um universo de degradação e ruínas “morais” dos falidos: império colonial português e do sistema angolano pós-colonialismo. Esta narrativa nos conduz aos labirintos das consequências da guerra no interior humano. E, cabe ressaltar que não há necessidade de se ter vivenciado a guerra de Angola para compreender ou sentir o que uma guerra pode nos ofertar. Pois, “não somos nós, hoje, neste início de milênio, o resultado de tantas guerras?” (Antunes, 2001: 27).

Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, a exposição da conturbação interior do homem se visualiza a partir da fragmentação não apenas da estrutura estilística, mas também, por meio da fragmentada estrutura do pensamento, do raciocínio das “vozes” que ora se manifestam, ora se calam no romance.

Além da abordagem relativizada das calamidades humanas (retratadas nas frustrações portuguesas), o romance põe em voga uma das maiores problematizações portuguesas: o continente africano. Palco de antigos conflitos entre os portugueses e os seus habitantes, como o desentendimento ocorrido no século XVIII em Angola, época do domínio da Rainha Nzinga, que chegou a realizar alianças com os holandeses para tentar expulsar os portugueses do seu território. Boa tarde as coisas aqui em baixo não se classifica como uma obra sociológica, pois Lobo Antunes não realiza um retrato da guerra colonial e dos conflitos pós-coloniais, mas se utiliza dos fatos da História para explorar a conturbação do interior humano, atitude também demonstrada nos romances: Os cus de judas e O esplendor de Portugal, dois de seus livros, os quais a estória é ambientada na África.

Através de um “verdadeiro mosaico narrativo” (Castello, 2004: 1) a estória do romance situa-se no período pós-(guerra) colonial em Angola:

Um resto de portugueses no seu sangue, não jipes na fazenda que não havia fazendas, acabaram-se as fazendas, havia miséria e fome e guerra e os portugueses substituídos por pretos agora, pretos das furnas dos musseques, ratos assustados, furtivos, subitamente imóveis diante dos faróis dos jipes [...] quando depois do que chamavam independência, isto é dos pretos a entrarem-lhes a porta e a roubarem-nos, isto é dos pretos a matarem-se uns aos outros, isto é dos pretos a transportarem sem desculpas, insultando-se, batendo-se, as mobílias, os fogões, as roupas, quando depois da independência, isto é de cantorias e batuques [...] (Antunes, 2003: 138)

Esta época retrata os conflitos internos em Luanda provocados pelos dois principais pólos políticos do país: MPLA (Movimento Pela Libertação de Angola) e UNITA (União Nacional pela Independência total de Angola). Intensificando, desse modo, o vazio e a depressão da sociedade africana já tão agravada pelas consequências da guerra anti-colonial:

comboios trazendo a morte sob a forma de pretos em Luanda
ratos de esgoto, ratos
a conspirarem nos musseques, chegavam nos vagões de gado
disfarçados de carregadores, agulheiros, serventes, víamo-los
sumirem-se das sanzalas à tarde
ratos
surgiram de manhã nas bancas do mercado
ratos
juntarem-se, separarem-se, conversarem entre si em Kimbundo
ratos
espiarem à noite, pegados aos arbustos, só focinhos, só olhos
focinhos e olhos de ratos, ratos
 (Antunes, 2003: 65)

As titubeações narrativas são ações constantes em Boa tarde às coisas aqui em baixo: “Não sei se ela disse” (Antunes, 2003: 15). Inexatidões que se revelam em deslocamentos temporal e espacial representados, por vezes, por alguns emblemas psicanalíticos, como a casa, por exemplo:

Não sei se ela disse
– Esta era a casa 
(Antunes, 2003: 15)

A casa que segundo Bachelard reflete o “drama das moradas humanas”, também é um dos diagramas da psicologia que guiam os escritores e os poetas na análise da intimidade. A casa mais ainda que uma paisagem é “um estado de alma”, mesmo reproduzida em seu aspecto exterior, fala de uma intimidade. De uma intimidade revelada que parece não reconhecer o seu lugar no mundo, como acontece em Boa tarde às coisas aqui em baixo. Esta inexatidão espacial do romance também pode revelar criticamente o sentimento de descaso demonstrado pelo sistema português em relação ao continente africano. Indiferença portuguesa inclusive para com os seus cidadãos que estavam a serviço da pátria em Angola.

Apesar de o continente africano ter contribuído por séculos com a manutenção do poder e da glória do império português em relação a Europa, Portugal sempre olhou com descaso e superficialidade as questões africanas. O importante para o governo português era o que se extraía de recursos valiosos das colônias, ou melhor, das ex-colônias. Comportamento predominante até os dias atuais, nos quais os portugueses com o aval dos angolanos, exploram “livremente” a “terra vermelha” (Antunes, 2003: 138) – Angola:

Porque os barcos sobem e descem via pássaros e outros barcos e árvores e gente em fato de banho quase todos brancos e alguns pretos também embora não muitos visto que ainda são pobres e a mulher do senhor estrangeiro diz que é uma questão de tempo e a minha mãe acha os pretos bebés amorosos de se comerem e queixa-se que é uma pena que cresçam a minha mãe diz que crescendo ficam feios e com um cheiro esquisito e disse ao meu pai que podíamos levar um destes miúdos giríssimos para Lisboa e aproveitá-lo depois para servir à mesa lá em casa [...] e a mulher do senhor estrangeiro disse que tem um cozinheiro preto óptimo que até comida francesa faz e com um desodorizante forte não se nota o tal cheiro (Antunes, 2003: 563)

Tal postura portuguesa apenas comprova que as histórias de Portugal e de Angola estão interligadas na narrativa de Lobo Antunes e na memória de cada português e de cada angolano. A escrita e a memória fragmentadas do romance atingem o cerne dos problemas - não somente dos portugueses e dos africanos, mas de qualquer agente da realidade. Pois, a escrita de Lobo Antunes “relampeja, faz faiscar” o conturbado interior humano nas “vozes” portuguesas e angolanas que se entrelaçam no discurso fictício da vida.

Boa tarde às coisas aqui em baixo nos remete a um encontro do africano com o angolano; do português com o colonizador; do humano com a sua conturbação interior. O que se encontra ou reencontra nesta narrativa é a fragmentada gênese humana retratada pela imagem da escrita impetuosa e sedutora de António Lobo Antunes.

Este romance rememora em cada memória, em cada voz que o lê, as marcas peculiares, singulares do homem lançado num sistema pós-moderno, como os touros que são lançados à revelia, e, sem piedade na arena.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, António Lobo. Boa tarde às coisas aqui em baixo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
BARTHES, Roland. Inéditos, I: teoria. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
BLANCO, María Luisa. Conversas com António Lobo Antunes. Lisboa: Dom Quixote, 2002.
CASTELLO, José. África, à beira da asfixia. Prosa & Verso. Rio de Janeiro: Jornal. O globo, 17 de janeiro de 2004, p.1.
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 2005.
MATOS, Olgário. Desejo de evidência, desejo de vidência: Walter Benjamin. Org. Adauto Novaes. São Paulo: Cia. das Letras; Rio de Janeiro: Funarte, 1990.
WHITE, Eduardo. Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Caminho, 1992. 


por Raquel Cristina dos Santos Pereira
não datado
Cadernos do CNLF, Série X, Número 6

7 de dezembro de 2007

Denis Leandro: crítica a Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo

Labirinto de Dédalo

Boa tarde às coisas aqui em baixo, de António Lobo Antunes, foi selecionado para concorrer ao prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2007, passou à segunda fase do prestigiado concurso e foi classificado como finalista, mas Jerusalém, do também português Gonçalo Tavares, acabou recebendo a premiação. Esse curioso “romance em três livros com prólogo e epílogo”, conforme se pode ler nas suas páginas de abertura, evoca em seu título uma frase singular e “intraduzível” – singularidade e intraduzibilidade que irão se reafirmar ao longo dessa vasta narrativa que cruza espacialidades portuguesas e angolanas numa torrente de rememorações atormentadas.

Não é sem razão que os diversos narradores que se alternam e se confundem em meio à convulsão narrativa desses excertos de histórias reclamam ajuda para narrar suas vidas irrecorrivelmente estraçalhadas: “Tão difícil explicar-me, de que maneira explicar-me, como se diz isto, quem me ajuda a contar, a ser a pá que desperta o sono, dilacera a garganta da terra e traz à luz os ossos sob as folhas secas?” (p. 45). Também o leitor, ao percorrer páginas e páginas da mais extenuante dispersão do acontecimento romanesco, vê-se impelido a abandonar sua tradicional atitude de investigador dos fatos narrados e aceitar que a esse quebra-cabeças ficcional faltam incontáveis peças – ou que para se jogar o jogo da leitura desse romance antuniano há que se aprender a jogar com peças que, aparentemente, não se encaixam.
Uma mulher de nome Marina mostra a um sujeito anônimo o que julga ser a casa onde vivera, há vinte anos, na Muxima – vila e município da província do Bengo, em Angola. Lampejos de tropas do governo, de cubanos, mercenários de toda ordem – franceses e belgas, negros e brancos –, de praias transformadas num baldio de misérias, repletas de indigentes, de cegos e crianças de muletas – “visto que todas as crianças usam muletas em Angola” (p. 19) – constroem um panorama de uma Angola pós-descolonização e pós-esperança, nessa cena continuamente entrecortada pela voz da tal mulher a afirmar reiteradamente: “– Esta era a casa”. Essa casa, invadida pela erva, afogada em destroços, a arder em chamas desde a fundação até o teto terá, logo em seguida, o que restou de suas paredes derrubado por um trator conduzido por essa mesma mulher que, ao que parece, deseja, a todo custo, soterrar o passado – ou o que quer que tenha sobejado dele.  

Tradicionalmente, o prólogo consiste em uma cena introdutória na qual se fornecem dados prévios elucidativos do enredo da peça – ao menos assim se dava na tragédia, no antigo teatro grego. Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, o prólogo, acima brevemente descrito, algo se exime de elucidar o que quer que seja, cabendo ao leitor do texto antuniano, muito mais do que se exigia do expectador da tragédia grega, empenhar-se na busca de relações e diálogos entre o que ali revoltamente se apresenta e o que se desenvolverá nos capítulos subseqüentes.
O primeiro livro alterna as histórias de Seabra, agente enviado a Angola pelo “Serviço” – um órgão militar português não-oficial –, e dessa mesma Marina, africana mestiça, filha de pai negro e mãe branca, sobrinha de um procurado contrabandista de diamantes. A tarefa do agente Seabra é localizar os diamantes que estão em poder do tal contrabandista e, claro, eliminá-lo. Mas ocorre que, um a um, esses agentes enviados à ex-colônia portuguesa, estranhamente, não retornam de suas missões, desaparecendo sem deixar vestígios, como se devorados pela terra de África, e tendo de ser substituídos por outro, e outro e mais outro, como touros continuamente abatidos em um espetáculo de arena.

O segundo livro é narrado pela voz de Miguéis, novo agente enviado para limpar os rastos deixados pelo seu antecessor – incluindo este próprio – e recuperar as pedras. Em meio a confusas e variadas referências a ordens e relatórios, mapas e coordenadas, fronteiras e rios, perpassam considerações subjetivas e reminiscências de coisas irrecuperáveis – que vão desde pais que se tenta, sem sucesso, agradar e copiar, passando por vidas conjugais desfeitas e filhos que não respondem à demanda de afeto de seus pais e vice-versa, até escarnecedores patos de plástico da infância –, coisas irrecuperáveis e que, contudo, não cessam de perseguir esses sujeitos, persistentes “como certas memórias, certos remorsos, certos ecos compridos, o apito dos navios por exemplo mesmo depois dos navios, durante anos, a gente a cuidar que os esqueceu e o apito de volta” (p. 278).

A voz insegura de Miguéis cede lugar – ou é inadvertidamente atravessada – às não menos débeis vozes de sua esposa e de sua filha –  personagem que também oferece uma versão de sua vida junto aos pais, recorda a partida do namorado e a visita de despedida que lhe faz o pai, a dor e o tormento da doença que a transforma em uma espécie de “espantalho” e a faz desejar uma única coisa: “que me deixem em paz sozinha comigo ou antes sozinha com isto que não sou eu e em que me tornei” (p. 333). Narradores que não se decidem sobre se áceres ou carvalhos, se este ou aquele nome, se Marimbanguengo ou se o Congo e para os quais qualquer tentativa de evadir essa vida de degradação e de remorsos afigura-se impossível, “dado ser tarde compreende, não apenas tarde para mim, tarde para si também” (p. 343). Tarde, sem exceção, para todos.

O terceiro livro acompanha a peregrinação de um grupo de cinco homens, todos ex-agentes dissidentes do Serviço português, pela mata de Angola, na tentativa desesperada de alcançar a fronteira com o Congo, carregando os diamantes que serão contrabandeados. Perseguidos por militares e americanos que tentam resgatar as jóias, esses pobres touros desgarrados rememoram suas vivências cotidianas e nada exemplares, em meio à tensão e iminência de uma morte inevitável. Intercalando dialogicamente, a cada um dos dez capítulos que compõem essa parte, a voz de cada um dos cinco fugitivos à voz de Morais, o agente que os persegue, esse último livro constitui-se em uma explosão de imagens do passado embaralhadas às cenas atuais que convergem para a emboscada da qual esses homens se aproximam.

Gonçalves, com seus pais, mães e cães a saltitarem raivosamente da memória; Mateus, que se perde nas confusas linhas do mapa que carrega e que mal lê e nas não menos confusas recordações de filhas, esposas e padres pedófilos; Mendonça, que sonha abrir um café na Argentina enquanto é dilacerado pela origem mestiça da irmã – a quem amava e odiava amar; Sampaio, traidor contratado pelos americanos para conduzir o grupo ao local da armadilha, com sua onipresente imagem de uma irmã levada de casa ainda criança pelo pai e que não lhe concede um só instante de paz; Tavares, que, ferido no joelho, põe-se a recordar as últimas e ambivalentes férias passadas com a família em Portugal; e, finalmente, o próprio agente Morais, perseguidor que é, ao mesmo tempo, perseguido, também ele, por uma esposa, uma mãe ausente sob a chuva, um filho e comboios do passado.  

Nessa narração absurdamente insegura e provisória, que se erige sobre a incerteza, sobre a desordem irrevogável da desmemória – “não estou bem seguro e já não estou seguro de nada” (p. 216) –, nada de permanente irá se afirmar ou, talvez, um único elemento se projete no texto, após o desaparecimento, de uma forma ou de outra, de todas as personagens, todas as reminiscências e de todo o narrado: a terra vermelha (ou amarela?) de Angola, a tragar indistintamente tudo e todos para o seu interior, “porque tudo pertence à terra em Angola, as nuvens, por exemplo, que bem as noto a descer no capim, as pessoas e as casas que regressam ao chão depois de se agitarem um momento numa pergunta a que nada responde” (p. 100).

Finalmente, o epílogo consiste em uma inusitada redação infantil, redigida por uma garotinha a mando do professor de Português, sobre as “férias grandes” que passou com a família a bordo de um iate em Luanda. A paisagem paradisíaca e de calmaria apresentada nessa cena final contrasta com as imagens de caos, desespero e miséria da guerra pelas riquezas que brotam do solo angolano. A ingenuidade que emana da narrativa da criança, assim como a simplicidade da forma de sua expressão escrita, por sua vez, opõem-se à ferocidade da narrativa como um todo, bem como serve de afronta à ganância dos adultos que mandam e desmandam, para garantir interesses próprios, nas terras e nas vidas alheias.

Esse é o primeiro livro, desde a publicação de O esplendor de Portugal, há dez anos, em que Lobo Antunes revisita o espaço ficcional de Angola e o tópos da guerra. Reunindo, em uma mesma massa “amorfa”, raças, classes sociais, temporalidades e espacialidades heterogêneas e disjuntivas, a narrativa “líquida” de Boa tarde às coisas aqui em baixoexpõe a violenta degradação imposta a sujeitos em sua luta por uma improvável emancipação. Mais uma vez, a incômoda irresolução do narrado – com seu sentido errante que circula incessantemente sem se fixar em parte alguma da escrita – faz ecoar a afirmação, enunciada por um dos narradores, de que a existência é uma pergunta à qual nada responde. Frente às coisas inacreditáveis desse mundo de “aqui em baixo”, como intui prematuramente a criança que escreve, apenas o entorpecimento e a estupefação: sentimentos que o leitor verá se replicarem nessa ciranda de touros enlouquecidos, nesse labirinto, sem saída, de Dédalo.

ANTUNES, António Lobo. Boa tarde às coisas aqui em baixo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.


por Denis Leandro
crítico literário, mestre em Literatura Brasileira
doutorando em Literatura Comparada da UFMG
enviado por e-mail em 07.12.2007

14 de novembro de 2007

Manuel Cardoso: opinião sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


A leitura como um jogo. Um desafio e uma construção. Um passeio literário que transporta o leitor para o verdadeiro prazer de ler. Eis o verdadeiro Lobo Antunes.

Memórias nostálgicas de África, um tema quase obsessivo em Lobo Antunes. Mas também uma perspectiva crítica mordaz á forma como Portugal procurou tirar de África, a todo o custo, os seus melhores recursos, mesmo à custa de vidas humanas, barbaramente desperdiçadas. Deambulando entre uma escrita profundamente melancólica e um sentido de humor discreto mas eficaz, o Autor presenteia-nos com uma obra complexa mas de uma qualidade literária apenas ao alcance desse pequeno grupo de escritores a que podemos chamar “génios”.

Agentes mais ou menos secretos, portugueses, cobiçosos, meros paus-mandados de uma cobiça maior, à procura de alvos difusos. Personagens vulgares, joguetes do poder viajam para Angola, sempre com o mesmo fito: os diamantes, réstia valiosa de um poder decrépito mas sempre desumano. Os Portugueses, os cubanos, os americanos, sempre os americanos, juntos numa amálgama de desespero e ambição. Vidas que se perdem ao serviço de uma causa dita maior. Seabra, Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares, anti-heróis, desgraçados ambiciosos e manipulados são gente como nós, gente simples, vítimas de um mundo onde reina a desumanidade.

Manipulados pelo misterioso “serviço”, herdeiro de uma colonização mal desfeita, os seus enviados são consecutivamente impedidos de regressar a Portugal. A terra de Angola, vermelha de sangue, funciona como uma força de atracção que os impede de regressar.

O romance é apresentado em três livros com prólogo e epílogo. O estilo inconfundível de Lobo Antunes, com a multiplicidade de narradores, envolve o leitor numa trama complexa mas apaixonante. Numa obra com 573 páginas, é espantosa a forma como o autor conduz o leitor a um ritmo de leitura vertiginoso. Na verdade, a escrita de Lobo Antunes, segue a velocidade do pensamento: temas que se misturam, personagens que se multiplicam, enredos que se entrelaçam de tal forma que é ao leitor que cabe compor as peças do puzzle.

Dominando como ninguém a língua portuguesa, Lobo Antunes, na sua característica modéstia, lamenta-se constantemente da falta de palavras para descrever situações e sentimentos. Curioso facto, este: um dos maiores escritores de sempre da língua portuguesa, lamenta-se da falta de palavras! A explicação é simples: se bem que a máquina institucional que submerge os personagens seja imensa, e por mais simples e vulgares que sejam as pessoas, o seu interior, os seus pensamentos e sentimentos são sempre imensos. Neste sentido, poderemos talvez adjectivar a escrita de Antunes como intimista: parece haver um esforço incontido de escalpelizar ao máximo todo o espírito humano. Mas o ser humano é tão grande e profundo que as palavras não chegam. Nem ao génio.

O epílogo, escrito sob a forma de uma redacção escolar infantil, é um texto de uma excelência literária espantosa. Vem ao de cima a crítica da ambição e do poder e todo o humanismo que caracteriza a escrita de Lobo Antunes.

Para ler, reler, guardar e mais tarde reiniciar o ciclo.


por Manuel Cardoso
27.08.2007

17 de maio de 2006

artigo do suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (Brasil) Sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo [excerto]


[...]
Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, em termos de invenção ou criação literária, é uma espécie de último degrau a que um escritor, que opta pela prática experimental, consegue chegar. Podemos arriscar qualificá-lo como um escritor que se propõe ir além das conquistas experimentais até então cristalizadas por Rabelais, Sterne, Lewis Carroll, Édouard Dujardin, James Joyce e Cortázar.

António Lobo Antunes empreende uma luta titânica contra o Minotauro no labirinto do texto. De posse do fio de Ariadne, na busca da saída, ele trava uma batalha decisiva. Para encontrar a saída, Antunes usa de vários pretextos, entre eles fratura, mutilação, adulteração e bifurcação do fio da meada, para convencer o Minotauro de que está perdido, deixando no ar a idéia de que o fio se partiu em inúmeros pedaços. Mas apenas quebra o fio e se esconde, sempre numa pequena volta. E, quando o Minotauro, que já conhece o caminho de cor e salteado e, com certeza, já está cansado de trilhá-lo, e guardá-lo indefinidamente, resolve deixar que o protagonista, no caso o próprio texto, desconstrua a meada, após efetuar remendos que possibilitem a arte dos desvios. Então, percebe-se que ele aceita deliberadamente a própria morte. Essa alegoria implica em compreender-se que a morte do Minotauro representa a vida do texto pós-moderno.

A narrativa de Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo é propositadamente descosturada, pois conscientemente armada como O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. Só que em Cortázar há a fusão de vários romances ou histórias numa mesma narrativa descontínua, mas que se interpenetram de maneira programada e matematicamente progressiva como um tratado virtuosístico.

Em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, a descontinuidade é cinematograficamente flagrante, pois ocorre intermitentemente. Nele, todos os textos apresentam cortes instantâneos no nexo das frases ou como um deslance, um contramolde, provocados no momento da frase enunciada e simultaneamente quebrada, fraturada. Percebe-se que, com isso, o escritor pretende representar com frases rupturadas, aparentemente desconexas, a situação caótica das próprias existências dos angolanos que, nas décadas de 60 e 70, durante a Guerra, como que se diluíam ou eram perdidas de vista. Assim, o traçado estético do discurso romanesco de Antunes soa como algo vertiginoso, mas que escoa, estaca repentinamente, como se todas as frases fossem amputadas; como, de uma maneira ou de outra, acontece com as vidas das pessoas durante e após o término das guerras, pessoas que, sobreviventes do holocausto da guerra, estão mortas na alma, perdidas de suas próprias identidades.

Conforme o próprio comentarista da contracapa da obra em questão se expressa “consagrado como um dos mais importantes romancistas portugueses, indicado ao Nobel de Literatura, António Lobo Antunes volta à temática essencial de sua obra em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo. Neste livro, o autor traça um retrato contemporâneo de Angola, país onde viveu durante a guerra de libertação nacional nos anos 60 e 70.

Homens que somem sem deixar vestígios são os protagonistas deste romance. Assim acontece com o primeiro agente português que viaja à antiga colônia, com uma missão arriscada. Ele não volta, sendo substituído por outro, e depois outro, como na arena os touros vão sendo mortos um a um.

Grande vencedor do XIV Prêmio Internacional União Latina de Literatura, Lobo Antunes exerce com maestria a arte de encantar o leitor, através de uma narrativa subversiva e radicalmente original.”

Como o próprio escritor revela na abertura desta instigante obra literária “romance em três livros com prólogo & epílogo”, António Lobo Antunes, para contar a saga da guerra angolana, que usa como pretexto, ainda que doloroso, para exercitar e esgotar todo seu potencial de conhecimentos sobre criação literária no campo específico da arte romanesca, consegue se superar em tudo quanto antes escreveu e sempre com admirável talento.

António Lobo Antunes é o típico escritor para quem a divisão das composições literárias em gêneros é algo obsoleto e anacrônico, pois ele consegue fundir no mesmo romance todos os gêneros como o fez James Joyce, indo mais além, diluindo os gêneros de tal modo, que em seu texto tudo é apenas pura poesia. Para ele, repetir-se na obra seguinte é sempre um trabalho de preguiçoso.

Obra eminentemente metalingüística, já que o protagonista da história é a própria narrativa, sendo tudo o mais pretexto para que ela se engendre a si mesma. Daí por que ela questiona as próprias construções de textos anteriores discutindo, adulterando e mutilando as técnicas do fluxo da memória e do monólogo interior, no sentido positivo de acrescentar-lhes novos arranjos ou uma gama de possibilidades de fazer com que os textos se desengendrem para um plano de desfechos completamente imprevisíveis.

Aqui a desconstrução do discurso narrativo recria novidades no campo dos flashbacks que passam a ser contínua, ininterrupta e consecutivamente instantâneos.

Os cortes de períodos e frases acontecem em cadeia através de mutações e mutilações de enunciados, cujas seqüências, momentaneamente, ou para sempre, somem, como somem ou desaparecem as pessoas durante as guerras. Assim, famílias inteiras de frases ficam truncadas ou desaparecem, ou se perdem uma das outras, pedaços de sentenças e enunciados se distanciam ou acabam incompletos, exterminados, massacrados, desfamiliarizados como as pessoas durante e após as guerras. Caberá ao leitor, como aos sobreviventes, procurarem nos destroços da linguagem as partes que faltaram ou restaram. Constatamos assim que António Lobo Antunes está envolvido com duas guerras: uma, a de Angola, e a outra, a de uma escrita completamente radical. O ponto crucial é deflagrado contra a ordem preestabelecida das famílias de palavras que corresponde ao massacre ou mutilação das famílias de pessoas. Já não se trata de um recurso meramente paradoxal ou ambíguo, mas do texto mutilado como a retratar a própria mutilação da existência dos seres humanos naquilo que eles têm de mais precioso, que a vida biológica, a identidade. A verosimilhança é tão impressionante que a supra-realidade do texto parece superar a própria realidade da guerra. Assim, o texto transita entre o real geográfico, topográfico, biográfico, beligerante, genocida e o surrealismo da construção do texto cuja tessitura, embora pareça absurda, reflete a própria realidade. Nesse estágio, o escritor atinge a plenitude da arte de escrever, que acontece quando a supra-realidade supera em verosimilhança as atrocidades e massacres da guerra, quando percebe-se o quanto o ser humano, voltando à barbárie, vive mais para a crueldade, o sadismo e o masoquismo, esse estágio radical de aniquilamento do ser humano, reduzido a fera. 

autor não identificado
05.01.2006
excerto do artigo publicado no suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (Brasil)
leia o artigo completo aqui

8 de maio de 2006

Federico Mengozzi: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


Boa Tarde, Angola

António Lobo Antunes é feito para ser lido, não para ser ouvido. Quem quiser que o escritor português, um dos mais aclamados de seu país, esclareça um ou outro aspecto de seu novo romance, o 16o, Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo, vai esbarrar em dificuldades. Lobo Antunes não é de pegar na mão do leitor e dar o mapa da mina. Ao contrário: imaginando que formou seus leitores ao longo de 25 anos de literatura, acha que eles podem andar com as próprias pernas. 'O escritor ensina seu leitor a ler', arrisca, falando a ÉPOCA. Por isso, depois de muitas delongas, ele sugere que não lhe perguntem nada e dirijam-se ao livro. Mesmo porque ele apenas o escreveu. 'Não o li. Ao menos não com olhos de leitor.'

Em Portugal, 200 mil pessoas seguiram sua recomendação e foram ao livro, recém-lançado e já na sexta edição. É um sucesso. Mas Lobo Antunes, assim como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto (brasileiros que ele cita), não escreve para fazer sucesso. O sucesso, se vier, é conseqüência. 'Por que um escritor escreve? Julgo que nenhum escritor saiba dar uma resposta honesta. E a resposta desonesta não me interessa. Escrevo porque circula em meu sangue.' E mais não diz.

É um livro difícil. O autor discorda e cita a alta vendagem. 'Mas é claro que nem todos os que compram o livro o lerão', reconhece, cético. Uma leitura complexa, com parágrafos que a rigor não começam e a rigor não terminam, sem uma história que se revele com clareza, mas em lampejos, flashes que o leitor junta como pode, de acordo com sua percepção. O cenário é a Angola pós-independente, tempo de descaminhos que Lobo Antunes vê sem condescendência. Assim: 'Quando depois do que chamavam independência, isto é dos pretos a entrarem-lhes a porta e a roubarem-nos, isto é dos pretos a matarem-se uns aos outros, isto é dos pretos a transportarem sem desculpas, insultando-se, batendo-se, as mobílias, os fogões…'

António Lobo Antunes é médico psiquiatra, mas atualmente só se dedica à literatura. Participou, convocado pelo Exército português, da guerra colonial e fez de Angola o cenário de vários de seus livros, como Os Cus de Judas (1979), narrado por um médico como ele, que diz de si mesmo: 'Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer de mim o que sou hoje e intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem não se telefona e cujo telefonema ninguém espera...' Por que, mais uma vez, Angola? 'É um lugar onde vivi por muito tempo. Mais precisamente, por dois anos e alguns meses, durante a guerra, que equivalem a mais anos de vida. Não, não fui ferido fisicamente. Mas há muitas maneiras de ser ferido. Foi uma guerra cruel.'

Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo volta ao país, mesmo porque, escreve o autor no livro, 'não se foge de Angola'. Um resumo? Lobo Antunes se recusa a fazer isso. 'Se eu pudesse resumir o livro, não o escreveria. Passei dois anos escrevendo.' Não diz, mas deve pensar que não seria mau se o leitor empregasse alguns dias em sua leitura. Tudo se junta no romance, ficção e realidade, devaneios e reflexões, em três partes, mais prólogo e epílogo, nas quais se misturam agentes de espionagem, contrabando de diamantes, atos de corrupção, a Angola que foi, a que é. E o autor, referindo-se à guerra civil, diz coisas como: 'Visto que todas as crianças usam muletas em Angola...' Uma narrativa que não diz, apenas sugere.

Lobo Antunes já foi considerado o anti-José Saramago. Ele nem nega, nem confirma. 'Não cabe a mim responder.' É, ao lado de Saramago, o escritor português mais conhecido no Exterior. E, se o colega já levou o Prêmio Nobel, ele continua cotado para recebê-lo, embora não ligue muito. 'Não acho importante.' Enquanto o outro se transformou numa espécie de voz oficial da cultura lusitana, Lobo Antunes continua à margem. Até porque não é português de raiz, e sim descendente de uma família brasileira radicada em Portugal, que guardava autores como José de Alencar e Monteiro Lobato na estante - ainda hoje, tem muitos primos no Brasil. Por isso, sempre cita autores brasileiros. Como Saramago, mora fora de Portugal - a maior parte do tempo em Paris. E costuma lançar seus livros por editoras não-portuguesas.

Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo é um lançamento de acordo com a fama de seu autor: um inovador que vai além da forma e põe o dedo em feridas abertas.

Federico Mengozzi
em Época
[não datado]

4 de maio de 2005

Carlos Eduardo Ortolan Miranda disserta sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


A TAUROMAQUIA CRUEL DE LOBO ANTUNES

Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, o autor português leva ao ápice sua literatura radical

Existem em nós divisões, alienações, guerras e palavras.
Paul Nizan, Aden, Arábia

A literatura contemporânea de Portugal tem desempenhado um papel de destaque na prosa e na poesia européias. Contrariamente à relativa vaga de reduzida inspiração de nossas letras, que têm se debatido à deriva em uma discussão um tanto inócua entre os transgressores e os acadêmicos, os lusitanos ostentam uma produção literária do mais alto nível e que, estranhamente (ou nem tanto), é quase completamente desconhecida entre nós.

Dentre os autores que pouca ou nenhuma divulgação tiveram no Brasil, destacaria a poesia reflexiva, erudita, de tom elevado e lírico de Nuno Júdice, o experimentalismo dos romances de Almeida Faria, a prosa intimista, tensa, no limite do discurso poético de Rui Nunes, os contos angustiados de Pedro Paixão, o monólogo interior de Augusto Abelaira e as crônicas desabusadas e saborosíssimas de Miguel Esteves Cardoso. As ficcionistas portuguesas também comparecem com importância, notadamente as romancistas Agustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão, Lídia Jorge e Inês Pedrosa.

Alguns escritores têm conseguido, entretanto, furar o bloqueio intelectual e aportar às livrarias nacionais. É o caso de António Lobo Antunes, cujo mais recente romance, “Boa tarde às coisas aqui em baixo” (pela editora Objetiva, que adquiriu os direitos de toda a obra do autor) teve lançamento quase simultâneo no Brasil e em Portugal.

Tanto melhor para a cultura nacional. Escritor profundamente original, o médico psiquiatra nascido em Lisboa é um outsider das letras portuguesas, muito embora seja autor dos mais premiados e incensados pela crítica literária internacional, e considerado a voz mais importante da literatura atual de seu país.

No lugar do sentimentalismo e do derramamento romântico que habitualmente caracterizam parte da literatura de Portugal, Lobo Antunes erigiu uma obra vigorosa e desafiadora, na qual, através de influências de autores como Faulkner e Céline, acompanhamos um roteiro para um passeio ao inferno das situações-limite da condição humana.

Nessa direção, a vivência de Lobo Antunes como médico do exército português na guerra colonial de Angola fornece a matéria histórica para a maioria de seus romances, como em “Os cus de Judas” (pela Objetiva), “Fado alexandrino” e “O esplendor de Portugal” (editora Rocco), já também publicados entre nós.

Essa comédia humana do horror e do desespero perpassa hospitais psiquiátricos, a insanidade da guerra, a morte sem honra, a miséria dos colonizados e a sanha destruidora dos colonizadores. Entretanto, desse ideário de niilismo e terra arrasada, graças à arte do escritor poderoso e de imaginação aparentemente inextingüível, emana uma poesia difícil, de imagens incomuns e que jamais apela ao efeito simples da prestidigitação verbal. “Boa tarde às coisas aqui em baixo” não é um livro de digestão fácil, como já deve ter atentado o leitor. Além da temática pessimista já apresentada, é nesse romance que os aspectos técnicos, as soluções formais para a realização da narrativa atingem o grau de maior radicalidade já encontrado na obra do autor.

O entrecho é razoavelmente simples, quase banal (e, de fato, praticamente se dissolve no transcorrer do livro): um agente do exército português é enviado a Angola. O objetivo: eliminar um seu antecessor, que cumprira tarefa similar.

A partir daí, distendem-se as preferências de Lobo Antunes pela narrativa fragmentária, pela constituição polifônica do romance, na qual as diversas vozes e percepções das múltiplas personagens parecem ecoar umas às outras num jogo especular no qual a totalidade não parece poder ser reconstituída.

Um agente procura um agente que procurava um agente. Nessa ciranda de personagens enlouquecidos, os matadores confundem-se com suas vítimas, os carrascos são, simultaneamente, caça e caçador, instrumento e objeto, perseguição e alvo. Uma arena de touros cegos que buscam, feridos, a saída do labirinto.

Não é casual que o topos da tauromaquia compareça nesse teatro de títeres, que perceberão que apenas cumprem ordens de traficantes de diamantes da metrópole colonial; sendo inextricavelmente matador e touro, as personagens da corrida combatem pela estrita sobrevivência, e a consciência se debate entre o passado e o presente, numa arena em que a pergunta pelo sentido não parece mais ter relevância efetiva e na qual o sacrifício não trará remissão.

Temos então um libelo pacifista contra a guerra colonial e o massacre inútil, mas financeiramente lucrativo, uma versão atual para o “Coração das trevas”, de Conrad?
Lobo Antunes insurgiu-se sempre contra tais leituras reducionistas de sua obra (que também não se aplicam a Conrad, vale destacar). Embora a experiência traumática da guerra perpasse indelevelmente o livro e forneça-lhe o substrato histórico e o entrecho, a constante remissão a planos móveis, temporais e espaciais, impede a leitura puramente sociológica, na acepção vulgar do termo. Não se trata apenas de um romance sobre a guerra colonial, mas, em termos mais ambiciosos, da luta da consciência em sua tentativa de compreensão de nosso estar no mundo.

De fato, os matadores (e futuros touros abatidos) comprazem-se em relembrar Portugal estando em Angola, e vice-versa. Assim, das descrições da barbárie e do genocídio, do massacre da população civil e do racismo, da missão inglória de um homicídio por motivo econômico a mando oficial do Estado, passamos às recordações da vida familiar dos assassinos, ao plano da memória dos seus dramas domésticos de desamor e solidão, de suas lembranças infantis e pequenas alegrias e desencantos cotidianos.
Presente e passado (na ausência de futuro), Portugal e Angola, relativa paz doméstica e atualidade horrenda movem-se em dialética cruel e insolúvel. A reflexão especular, a rotação espiral ou o movimento pendular, demarcados pelo uso de repetições de frases, que pontuam, como coro musical, o ritmo do romance, traduzem essa ação inútil, essa história que não se realiza, a não ser como negação, trabalho de touro-Sísifo.
Como toda grande obra de arte, a obra de Lobo Antunes é um convite à viagem. Viagem interior em que contemplamos o sublime e o grotesco, a dor e o sorriso, a gratuidade e o desejo de ordenação de um mundo que se afigura caos e desesperança. De algum modo, mesmo exauridos e tocados pelo universo de horror, sentimos que se opera em nós o milagre propiciado pela literatura. Jamais seremos os mesmos depois da leitura de António Lobo Antunes, esse taumaturgo da palavra.


por Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.
via Trópico (Brasil)
não datado

30 de abril de 2005

Belém Barbosa: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


«existo ao mesmo tempo em todos os lugares da minha vida»

A memória é um dos elementos fundamentais da obra de Lobo Antunes. Cada ser é, em cada momento, invadido pelo seu passado, incapaz de controlar memórias que se atropelam umas às outras e se misturam com o presente. As personagens são complexas, muito ricas de passado e sequiosas de comunicar, envoltas que estão no silêncio, no esquecimento, num não-lugar familiar e social.

«a única coisa que pretendo é que me deixem em paz sozinha comigo ou antes sozinha com isto que não sou eu e em que me tornei»

Essa sede de comunicação torna o discurso tenso e ritmado, em que pontuação omissa pela urgência de falar é compensada pela expressividade e pela poesia.

Tal como o tempo/memória, também “o que sou; o que penso que sou; o que gostaria de ser” não são estanques. Por vezes, o que é afirmado como real não é mais do que uma máscara/projecção dos desejos, como é expressa, por exemplo, no título da obra.

«o tempo imóvel, quer dizer muita coisa a passar em mim»

Lobo Antunes disse em várias entrevistas que cada livro é a reescrita dos anteriores. Neste seu último romance, a ligação aos demais livros é feita pelo reaparecimento de imagens e personagens que marcaram leituras anteriores, como o comboio, uma capeline, os carvalhos impossíveis. As próprias personagens brincam com o escritor, provocam-no: “deste-te bem com os pavões noutro livro?”

Apesar dos constantes reflexos de livros anteriores – provavelmente uma finíssima rede de reencontros, uma filigrana que sugere releituras, este livro não necessita de um profundo conhecimento prévio da obra antuniana; beneficia-a, é certo, mas não invalida a leitura menos experiente.

Como sedução primeira, um interessante exercício de germinação do livro, que ocupa o seu prólogo: o narrador (escritor?) inicia a narração com lentas hesitações, (não sei se ela disse; se calhar; não estou certo...), e avança não muito até questionar “será que remendo com palavras ou falo do que aconteceu de facto”, assim lançando um mote para conhecer, camada a camada, um ser que se expõe.

por Belém Barbosa
Novembro 2004

15 de janeiro de 2005

Marcelo Pen: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


Lobo Antunes reinventa Angola em novo livro

"Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", do romancista português, evoca guerra civil
   
O português António Lobo Antunes, de 61anos, é um escritor dedicado a três coisas. A Angola, país que presenciou ser arrasado pela guerra e que tornou a eleger "território ficcional" em seu novo romance, "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo". À leitura, prazer mantido ao longo dos anos, em detrimento de outros, como o futebol, que hoje não gosta de ver "nem na televisão". E ao aperfeiçoamento da arte narrativa, que o obriga a uma rotina de mais de 12 horas diárias de labuta. O ritmo exaustivo decorre por um lado da sensação de que é preciso correr contra o tempo, que escoa muito depressa. Por outro, da descoberta, proporcionada pelo ofício e corroborada na experiência de outros escritores, de que "o romance é sobretudo trabalho". "Trabalho" é uma palavra que escapa com facilidade dos lábios do romancista, que se sente mais à vontade quando fala de sua criação. "Um livro começa com um som, um cheiro, coisas muito difusas que, pouco a pouco, vão confluindo e cristalizando", diz o autor, em entrevista à Folha.

Em certa altura, o artista percebe que o livro está pronto para começar a ser escrito. Inicia-se um processo "difícil e doloroso" de determinar o tom e a cor certos. "É como ter água no soalho, sem que se tenha localizado o desnível por onde ela possa escoar: o problema está em encontrar essa calha por onde a água pode correr", explica.

No início da carreira, Lobo Antunes preocupava-se muito mais com a arquitetura do romance, que planejava rigorosamente. Depois, começou "a entender que o romance é um organismo vivo, que age independente de você, pois tem suas próprias regras". O "desafio" está em "lutar contra a resistência do material que se opõe a si".

Lobo Antunes afirma que é preciso ser absolutamente "implacável" com a própria obra: "Tudo aquilo que não se agüenta, vai fora". O que ele procura obter é um efeito próximo ao da poesia ou da música: "Como Schubert, digamos, naquelas peças para piano em que cada nota parece que está tocando um nervo sensível, um nervo exposto num dente".

O romancista confessa ter trazido uma "grande ferida da África", que conheceu quando serviu na guerra da Angola. "Vi Luanda, uma cidade tão bonita quanto o Rio de Janeiro, ser destruída", diz. Mas faz questão de frisar que não voltou mais lá. A Angola de "Boa Tarde" é um país "inventado".

O importante, para ele, é criar um espaço ficcional que funciona como "símbolo de outras coisas". "Gosto de descobrir escritores que me ajudam a conhecer a mim mesmo, que me mostram o país que eu sou, e a casa cheia de portas fechadas que eu sou, porque no fundo vivemos numa parte muito pequena de nós mesmos."

Dentre esses escritores, Lobo Antunes revela predileção pelos poetas brasileiros ("para mim, a grande poesia do século 20 em língua portuguesa foi escrita no Brasil") e Clarice Lispector ("sem dúvida a maior romancista de nosso idioma"). Ele destaca também Herman Melville e Joseph Conrad, "durante muito tempo subestimado como escritor de aventuras", além do ficcionista americano William Gaddis, morto em 1998, ainda "desconhecido em seu país de origem".

Lobo Antunes também sofreu com o desconhecimento. "Em princípio não me queriam em Portugal, depois ninguém me queria nos outros países." Do Brasil, onde parte de sua família mora no Rio de Janeiro, o escritor preferia guardar distância. Hoje tudo mudou. A editora Objetiva adquiriu direitos de publicação de toda a obra do autor, que foi premiado pela Associação Portuguesa de Escritores e pela União Latina de Literatura.

O próximo romance, no qual vem trabalhando há dois anos, deve chamar-se "Eu Hei-de Amar uma Pedra" frase tirada de uma moda do Alentejo. Mais uma vez não há um fio narrativo preciso. Para esse escritor caudaloso, que diz precisar "de espaço para ocupar", isso não representa um problema, "pois se você pudesse dizer do que se trata o livro, não valia a pena escrevê-lo".


por Marcelo Pen
A Folha
02.02.2004
citado daqui

11 de janeiro de 2005

Cidália Alves dos Santos: Resenha a Buenas Tardes a las Cosas de Aquí Abajo


No seu último romance, Buenas tardes a las cosas de aquí abajo, Lobo Antunes ressuscita os fantasmas de uma Angola pos-colonial, marcada pela guerra, pela luta individual pela sobrevivência e pela presença de agentes portugueses que pretendem retomar o tráfico de diamantes.

Ainda que a trama se pareça a de um romance de espionagem, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo é algo muito diferente: é um romance puzzle e um jogo de espelhos. As personagens vivem suas experiências em dois mundos, o mundo real, exterior, onde as coisas ocorrem, e o mundo interior, neste caso bastante mais importante, onde esses episódios se incrustam para configurar a personagem. Assim, mais que os acontecimentos da história, importa o mundo interior de cada uma das personagens, importa como esses mundos individuais se enlaçam e actuam entre si e com o exterior real. Em cada personagem há memórias obsessivas, medos, traumas, imagens do passado que se sobrepõem ao presente e condicionam a sua leitura da realidade, condicionando também a leitura da obra: o leitor angustia-se com as angústias das personagens, o que denuncia a força que alcança a narrativa.

Por outro lado, a existência de várias vozes e de vários narradores distintos, que se apresentam sem avisar, de surpresa, exige ao leitor um papel importante de "reconstrutor" da história. Por isso se trata de um romance puzzle: o autor, através dos seus vários narradores, vai nos dando bocadinhos da história, pedaços de mundos e de personagens que devemos (ou não) reconstituir para dar sentido - nosso sentido, nossa leitura - à obra. Porque a sobreposição de espaços (Lisboa, Angola), de tempos (presente e passados), de mundos (das realidades e das vivências, o exterior e o interior) requer um leitor activo, reclama um leitor preparado e disposto a uma entrega total.

Lobo Antunes opta por um discurso fluido, marcado por espaços gráficos que substituem a pontuação e que se aproximam à corrente de consciência nos discursos na primeira pessoa; trata-se de um discurso sem pausas e com um ritmo repetitivo que acompanha o aluvião de sentimentos e obsessões das personagens.

De destacar o bom trabalho de tradução de Mario Merlino. Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo não é um romance fácil, mas é um romance que vale a pena.

Cidália Alves dos Santos
2004
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

24 de setembro de 2004

Agripina Vieira: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


Angola, o regresso

Angola de novo em António Lobo Antunes. Com uma arquitectura original, já que pela primeira vez, o autor publica um romance constituído por três livros com prólogo e epílogo (regressando e mesclando as técnicas que estão na génese de dois romances da década de 90: Tratado das Paixões da Alma e A Ordem Natural das Coisas), Boa Tarde Às Coisa Aqui Em Baixo – com 574 páginas – constitui-se como o regresso singular e pungente a uma das temáticas essenciais da obra antuniana, Angola.

O título, extraído de um texto de Enrique Vila-Matas citado em epígrafe ao corpo do romance, apresenta-se desde logo como um enigma. Esta frase, tradução da saudação de Larbaud, “Bonsoir les choses d’ici bas”, assim como o texto em que se insere têm a particularidade de atrair a nossa atenção para a linguagem, o seu poder mas simultaneamente as suas limitações, levando-nos a verificar que a força das palavras reside tão só na composição que com elas é criada e que por vezes a linguagem mostra-se incapaz de reproduzir os objectos e o mundo que nos rodeia. Ao longo do texto, vamos reencontrando insistentemente essa preocupação com a palavra, que leva algumas personagens a questionarem-se vezes sem conta “será que remendo isto com palavras ou falo do que aconteceu de facto?”, sabendo de antemão que, ao Serviço – para o qual trabalham – como à generalidade das pessoas, apenas interessa a versão mais favorável dos acontecimentos. Por analogia, esta citação chama igualmente a nossa atenção, para o trabalho do próprio escritor, já que ele é, por excelência, o grande obreiro das palavras, particularmente este autor. Com efeito, esta problemática ganha uma outra dimensão quando falamos da obra de António Lobo Antunes, o seu trabalho com a língua é particularmente notável. Os caminhos da escrita por ele encetados na década de setenta conduziram-no até este romance. Um texto de uma grande depuração e rigor, onde cada palavra foi pensada e escolhida pela força das imagens que à sua volta irradiam, convidando o leitor a penetrar no universo perturbado e perturbante de homens e mulheres comuns, sem grandes defeitos nem virtudes particulares, que vêem as suas vidas manipuladas e destruídas por uma máquina institucional que nem tentam contrariar.

Situando os acontecimentos narrados no período da pós-descolonização, é ao espaço que cabe o papel fulcral da organização diegética. Com efeito, é Angola que vai unir Seabra, Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares (funcionários governamentais portugueses, agentes dos Serviço, ou militares) e Mariana (a mestiça angolana), unificando dessa forma a trama do romance. Os destinos dos agentes de espionagem, homens simples e anódinos, nos antípodas do herói, estão tão marcados quanto os dos toiros lidados na praça situada frente aos escritórios do Serviço no Campo Pequeno, destinos que se confundem e se fundem de tal forma que cada nova entrada de toiro na arena coincide com o aparecimento de um novo agente para substituir aquele que antes de si falhou – “um segundo toiro idêntico a mim” nas palavras de Seabra. No escritório são “lidados” pelos superiores hierárquicos: “ao confortar-me o ombro o director colocou a fitinha em mim, o responsável do oitavo andar quando palpei o osso, quando mugi/ - Tem comichão Seabra?”, as páginas com as ordens de serviço metamorfoseiam-se em trapos coloridos que os espicaçam, “os bicos de caneta que em vez de sublinhar parágrafos (…) incomodavam a garupa”.

Cada livro veicula focalizações diegéticas diferentes, narrando os acontecimentos referente à viagem de um novo agente a Angola, viagem condenada à incompletude porque sem regresso “da mesma forma que nenhum toiro torna à camioneta em que veio”. Enquanto que nos dois primeiros livros, surge com evidência um ponto de vista dominante, respectivamente o de Seabra e o de Migueis, no terceiro livro o leitor vê-se perante uma pulverização de olhares e de vozes narrativas, não só os do agente de espionagem, Morais ou Borges – (o leitor nunca saberá a verdadeira identidade do terceiro agente uma vez que lhe entregaram “um passaporte com outro nome”), mas igualmente a dos membros da coluna militar que sucessivamente vão tomando a palavra dando conta da sua forma particular de ver o mundo, dos valores que norteiam as suas opções. Estes três homens (Seabra, Migueis e Morais ou Borges) vão sendo sucessivamente incumbidos de uma tarefa delicada e secreta. A sua missão consiste em contrabandear diamantes, recuperando e trazendo para Portugal as pedras preciosas roubadas que não puderam ser enviados atempadamente para o território nacional e que o Serviço descobriu estarem na posse de Marina. À medida que um falha é substituído pelo seguinte, partilhando todos o mesmo destino fatal, que os inibe de regressar a Portugal, ficando na fazenda angolana: o Seabra assim como “o seu sucessor e o sucessor do seu sucessor”.

Mais do que as peripécias inerentes a tais buscas, o que se constitui como o cerne dês te romance é a incursão na existência destas personagens, a descoberta dos seus medos, das suas obsessões, das suas frustrações, dos seus anseios. “Descoberta” é aliás a palavra-chave quando se fala da produção antuniana e dos caminhos de leitura pelos quais o seu leitor se vê levado. António Lobo Antunes de uma forma exímia e fascinante as técnicas discursivas que dão corpo ao romance, desafiando o seu leitor a entrar num jogo interpretativo, embrenhando-o no universo intimista das personagens. Paulatinamente, vamos descobrindo as razões que ditam as curiosas atitudes de Seabra (este homem solitário que vive com a sua velha mãe, igualmente só, mulher obcecada pelo alinhamento perfeito e simétrico das franjas do tapete da sala), as causas que explicam os traumas de Tavares em relação à sua altura (casado com uma mulher mais alta do que ele transforma-se na chacota da família, por isso escolhe uma amante com quem possa passear sem complexos), os receios de um dos militares da coluna que deambula pelo capim angolano que, embora ferido, o obrigam a afirmar insistentemente “Estou bom” para não ser eliminado pelos seus companheiros em fuga, os motivos que levam Mariana a denunciar o seu esconderijo a esses homens que vieram em sua perseguição. E o que nos parecia estranho ou invulgar vai ganhando sentido: Migueis – a personagem que desperta em nós uma imediata antipatia pelo seu machismo exacerbado – suscita agora a nossa compreensão (traumatizado por uma relação difícil com os seus pais não consegue realizar-se no seu próprio casamento), aquelas frases misteriosas e obsessivas que pontuam de forma recorrente o texto desvendam o seu propósito. Nomeadamente a frase que se constitui como leitmotiv do Prólogo: “Esta era a casa”, que nos transporta do presente veiculado pelo deíctico, para o passado do verbo. Ao presente das ruínas (metonímia do estado a que o país se vê condenado) corresponde um passado de ordem e norma. Ao longo do texto, as questões políticas e sociais vão surgindo de forma diluída, inscrevem-se em filigrana na diegese na medida em que condicionam a vida das personagens.

Como se depreende desta breve apresentação de um romance tão rico quanto este, e na esteira da produção anterior, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo alicerça-se pelo poder da fragmentação, da recorrência e do não dito. Em nenhum momento da nossa leitura, estaremos na posse de um entendimento conclusivo. Vamos construindo-o à medida que entramos na existência de cada personagem, que descobrimos as suas dores, os seus temores, as suas angústias. Este trabalho de leitura é simultaneamente uma construção de sentidos e um desvendar de mistérios, onde cada leitor empreende o seu caminho de leitura, deixando-se conduzir pelo pulsar das palavras, pela cadência da frase (ora longa ora curta), pelo ritmo do discurso.

Poder-se-ia pensar que estamos perante um livro triste e até trágico onde as personagens apenas se submetem a um destino previamente traçado, embora totalmente desconhecido do leitor. Bem pelo contrário, uma verdadeira sensação de felicidade apodera-se de nós a cada descoberta realizada, a cada peça que colocamos deste mosaico que é o Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. O diálogo com o livro estende-se, para nosso prazer, ao conjunto da obra e ao seu criador, que nos desafia a entrar no seu mundo ficcional e autoral, fazendo-nos partilhar os seus pensamentos pelo viés de um monólogo interior que, sem qualquer indicação textual ou tipográfica, irrompe na trama ficcional fazendo-nos oscilar entre a efabulação e a referência factual. São momentos de grande partilha, aqueles em que o autor questiona a suas opções de escrita e se põe em causa, como no seguinte passo “quem me conta esta história, quem narra isto por mim?/ uma traineira não, nem pássaros, nem mulatas que te melhorem o capítulo António, acordas com o romance, adormeces com o romance (…) esta narrativa que mais do que as outras se tornou uma doença que te gasta e de que não sabes curar-te, pode ser/ vá lá experimenta” ou ainda nesta pergunta a meio caminho entre o sarcástico e o divertido, numa clara alusão ao seu romance anterior, Que Farei Quando Tudo Arde?: “(deste-te bem com os pavões noutro livro?)”.

Ler António Lobo Antunes é mais do que acompanhar as peripécias da vida das personagens, é mais do que ler uma boa história, é deixar-se embrenhar no mundo de efabulação criado, é entrar no jogo do autor na tentativa de descobrir para partilhar, com ele, os seus caminhos de criação.»


por Agripina Vieira
em Jornal de Letras, edição 862
15.10.2003

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...