27/10/2015

«Da Natureza Dos Deuses: uma sopa de letras», por Norberto do Vale Cardoso

António Lobo Antunes e Da Natureza Dos Deuses:
 Uma sopa de letras

Norberto do Vale Cardoso [i]

Na vasta e complexa obra de António Lobo Antunes destaca-se a importância do que parece fragmentário e lateral. Efectivamente, na obra deste autor não podemos ater-nos aos aspectos mais evidentes e tradicionais da narrativa, porque esta, como um mar imenso, está repleta de micronarrativas que funcionam como “microclimas” a perscrutar, exigindo ao leitor uma atenção redobrada. Essas “funduras”, onde tudo se subsume (e de onde tudo reemerge), funcionam como um “avesso”, noção que pode possuir várias componentes sémicas. Ora em Da Natureza Dos Deuses (ND) julgamos importante abordar três aspectos “submersos” na narrativa: as questões do poder, da paternidade e da linguagem.  
Em Da Natureza Dos Deuses, romance em que, uma vez mais, somos levados a percorrer os “corredores sombrios” (ND, p. 346) do poder, confrontamo-nos com uma questão central da identidade, veiculada através de uma dicotomia entre os “deuses” e os “homens” (vistos como “palhaços”). O tema não é novo na obra de Lobo Antunes, até porque “o circo […] é uma imagem catalisadora e sempre actuante nos romances” deste autor (Susana Carvalho, A Desordem Natural do Olhar, 2014, p. 171), mas interessa-nos particularmente porque Lobo Antunes vem encontrando outros modos de dizer para dizer também outras coisas.
Assim, os “deuses” serão representados pelo “senhor doutor” e pelo “senhor presidente” – que se reúnem em consílio aos domingos -, enquanto os homens-palhaço se fazem representar, grosso modo, pela figura do sem abrigo (que recorda a personagem de “As mãos são as folhas dos gestos”, incluída no Quinto Livro de Crónicas).

Poder e paternidade:
O senhor doutor, dono do volfrâmio, de empresas, fábricas, casas e carros (ND, p. 217), vê que o seu poder vai aumentando sem freios: “o senhor doutor comprava quadros aos alemães, cristais, pratas, continuava a aumentar a casa até ao pinhal, fez recuar as dunas, transformou as ondas em rochas” (ND, p. 238). Ele é, de facto, o capital, uma espécie de pai global. Todavia, não tem o poder da criação, pois, logo após o casamento, teve conhecimento de que não poderia ser pai. Como julga que o dinheiro compra tudo, procura médicos nos Estados Unidos, na Suécia e na Áustria, mas nenhum especialista encontra uma solução (ND, p. 355). Incrédulo, começa a sentir repulsa pelo seu corpo (ND, p. 355), e essa perda da paternidade (tema muito reiterado na obra de Lobo Antunes), que é uma questão de identidade, leva-o a nomear Marçal, o servente, para o substituir: “[…] minha filha que não é filha de mais ninguém senão minha, mandei o Marçal fazer-ma” (ND, p. 324). Este jogo de substituição eu/ outro, que se coaduna com os motivos circenses, em particular com a dialética palhaço rico/ palhaço pobre, é relevante na medida em que destaca a (im)potência do dono de todas as coisas, colocando em causa os alicerces do poder e da identidade. No fundo, o retirar da máscara deixa à vista a sua “imperfeição”, a “humanidade sofredora”, o “grotesco” do mundo (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 131).
Para tentar suprir as carências efectivas, o sentimento de posse do “senhor doutor” traduz-se em prepotência para com todos os que o rodeiam. Vejam-se, a esse propósito: o modo como encarcera a Senhora num quarto, de onde esta observa o jogo de ténis, que o marido converte em jogo de sedução e manipulação; a ameaça de desterro do sargento para a província (de Cascais a Chaves, ND, p. 342); ou a posse física da secretária do adjunto, que toma para si como quando em miúdo se agarrava aos animais do carrossel (ND, pp. 352, 353), outro elemento que conecta a infância (como tempo irremediavelmente perdido) ao jogo entre ser e não ser. Portanto, o poder e a posse são, na verdade, substitutos de uma carência, aparentemente resolvida através da menorização dos outros, sempre vistos como “imbecis” (ND, p. 353) e “palhaços”.
As mulheres são as maiores vítimas do poder másculo e patriarcal que o senhor representa: “- Todas as mulheres são palhaços”, diz-se a determinada altura (ND, p. 76). Tal apodo justifica-se na medida em que o palhaço representa, a nível simbólico, “o rei assassinado”, “a inversão das propriedades reais” (Chevalier/Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, 1994, p. 502), que aquele “que manda em Portugal” (ND, p. 486) teme. O espelho invertido leva-o a olhar os outros com desprezo e a usá-los, ao ponto de estes dependerem totalmente dele, nem que seja por medo. Veja-se o relato cruel da senhora:

“[…] o meu marido […] sem olhar para mim, já não tenho pinturas, nem adereços, nem vestidos, o roupão somente, eu para o meu marido
– De certeza que não me preferias palhaço?
[…]
– Ainda sou a tua vaca não sou?
eu
– Ainda sou a tua cadela não sou?
eu
– Ainda sou a tua puta?
eu, com mais ímpeto
– Ainda sou a tua puta?
enquanto as bolas de ténis para um lado e para o outro da rede” (ND, pp. 227-228)

Esse domínio traduz-se num enfastiamento do “senhor doutor”, que usa e substitui as pessoas que o rodeiam, ainda que, na verdade, o problema esteja em si próprio. Essa alteridade é usada pelo romance de Lobo Antunes+ para se referir, mutatis mutandis, à condição do artista (e do escritor em particular):

“[…] fui o palhaço que me mandaram ser, não fui, fui a tolinha que exigiram de mim, não fui, ao fim de certo tempo substituem-se os artistas, não é, o meu marido substituiu os artistas, conserva-me nesta casa por ele, não por mim, pela sua filha, talvez, reparem que não digo pela minha filha, digo pela sua filha, talvez, porque aceitei dar-lhe a filha, fica com ela, entrega-lhe um marido, tanto faz qual, os palhaços não escolhem o público, uma voz, não adivinho de quem
– Os artistas são todos portugueses” (ND, p. 222)

O artista:
 Como referimos, do outro lado encontra-se o sem abrigo, que, carente de todas as coisas (do emprego à posição social), é tão-só aquele que caminha, indiferente, junto ao mar de Cascais, como se a fímbria do mar representasse a margem social em que se encontra. No entanto, ninguém há de mais misterioso que ele, o que desperta o interesse do senhor doutor: “por que razão a gente, os deste livro, nos inquietamos com o sem abrigo, o que será ele, quem será ele, quem somos nós que não nos abandona nunca” (ND, p. 324). Desapossado, o sem abrigo, como figura desfigurada, representará o “desfavorecimento de classe dos artistas e a dureza do trabalho e do esforço exigido no que aparece, aos olhos do público, como cómico.” (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 130) Não obstante, se Marçal é levado ao suicídio (“enforcou-se sem aviso na estufa”, ND, p. 424) porque é conduzido a uma dissolução moral pelo dono de todas as coisas, o sem abrigo é indiferente aos jogos de poder. De certo modo, ele parece ser o antigo contador de histórias, que emudeceu perante um mundo onde impera o dinheiro e se descura a experiência do outro (Walter Benjamin, Linguagem, Tradução e Literatura, 2015, p. 148).  
Nesta óptica, no seu auto-exílio, o sem abrigo liga-se à importância da linguagem, da palavra e da composição do próprio romance. Sobre esse aspecto destacamos, primeiro, um lugar (uma livraria), depois, uma personagem (a mãe estrangeira da dona da livraria, “exprimindo-se num português cheio de rodas dentadas”, ND, p. 76), e, finalmente, uma acção. Referimo-nos ao momento em que o “senhor presidente” come a sopa de letras, que é símbolo da pluralidade e, enquanto tal, da “palavra do enigma” (Benjamin, ibidem, p. 41). Não é, aliás, despiciendo que as letras da sopa formem as iniciais “L” e “A”, significando, de certo modo, a natureza subsumida da criação artística, formada letra a letra, com paciência. Afinal, o homem não se alimentará exclusivamente de poder, porque até os que o têm acabam por desejar ter um outro poder, o de “construir uma palavra”:

“[…] a governanta, de colher em riste, depois de lhe prender um guardanapo com o escudo nacional ao pescoço
– Não é bonito o guardanapo senhor doutor?
lhe ia dando um caldinho, a apanhar o que escorria dos cantos dos lábios com o bico da colher e o senhor presidente a chupar o bico, demorando a mastigar
– Ainda não engoli
os pedacinhos de frango e as letras da massa, o senhor presidente, satisfeito, pescando um L e um A da língua
– Olha um L olha um A
com vontade de construir uma palavra” (ND, p. 549)


Deucalião:
Explicação dos Pássaros, Auto dos Danados ou As Naus, são romances onde António Lobo Antunes põe em cena a carnavalização do mundo, absorvida e usada parodicamente para caracterizar o nosso tempo. Este novo romance, Da Natureza dos Deuses, revela-nos o rosto oculto sob a máscara porque estas figuras representam o “perpétuo desacerto” e a “aparente normalidade” (Carvalho, ibidem, pp. 176 e 180) em que vivemos neste país, um lugar onde não há homens-deuses, mas onde coexistem homens que vivem vidas muito diversas.
O escritor que se assume (ironicamente) como um “artista” facilmente substituível ou como um “sem abrigo” à margem do todo, não será certamente um deus capaz de restabelecer a ordem para o caos em que vivem os homens. Mas no todo desorganizado que é (qual sopa de letras) o romance, levanta-se a questão intemporal sobre a utilidade da criação artística, da linguagem e do romance. Talvez a resposta tenha sido encontrada por Eduardo Lourenço, pelo menos no que à obra de António Lobo Antunes diz respeito. Num texto intitulado “Sob o signo de Deucalião” (in Público, 15.11.2003, p. 7), o ensaísta considera que “[…] a ficção de António Lobo Antunes lembra o gesto de um deus que se tivesse suicidado na sua criação”, mas sem criar o caos, porque ele se encontra “inteiro em cada um dos fragmentos dessa longa frase”.




[i] Norberto do Vale Cardoso é autor de A Mão-de-Judas: Representações da Guerra Colonial em António Lobo Antunes (Texto, 2011).

*
em exclusivo para António Lobo Antunes na Web
26.10.2015

16/10/2015

Premiada tradução em francês de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar, por Dominique Nedellec

Gulbenkian de Paris entrega prémio a tradução francesa de obra de António Lobo Antunes

A tradução francesa do livro "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?", de António Lobo Antunes, foi hoje distinguida, em Paris, com o Prix Gulbenkian Books da delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Esta foi a primeira edição do prémio que distingue a melhor tradução de português para francês de uma obra de literatura em língua portuguesa, publicada em França nos últimos dois anos, sendo atribuído em parceria com a revista literária Books.

Dominique Dedellec
O júri decidiu distinguir Dominique Nedellec, o autor da tradução "Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer", editada em 2014 pela Christian Bourgois Éditeur, pelo "brio com que recriou em francês a prosa tão densa e sinuosa de Lobo Antunes, a sobreposição de vozes, as palavras e os pensamentos das suas personagens torturadas", declarou Suzi Vieira, membro do júri, durante o anúncio do prémio.

"Esta tradução, que considerámos admiravelmente fiel, conseguiu recriar a polifonia do romance e também o ritmo e estrutura musical em que se baseia a arquitectura da sua obra", justificou a porta-voz do júri, também jornalista na revista Books.

Dominique Nedellec, que acaba de entregar a sua quinta tradução de um livro de Lobo Antunes à sua editora, disse à Lusa que o prémio é "um incentivo para continuar a trabalhar em prol da genialidade da língua portuguesa e, neste caso, da genialidade de um autor único", sendo também "uma marca de reconhecimento do trabalho que mostra que as pessoas estão atentas" ao que fazem os tradutores "na sombra".

"Traduzir Lobo Antunes exige da parte do tradutor esquecer as referências de leitura que cada um de nós tem para se introduzir no universo e na língua dele, porque ele está a escrever numa língua que não é a língua canónica, que não é a língua normal. Ele está a criar uma língua muito pessoal, sui generis, muito peculiar. O meu objectivo é recriar na minha língua, o francês, a mesma estranheza, a mesma violência que ele introduz na língua portuguesa", acrescentou Dominique Nedellec que também já traduziu para francês várias obras de Gonçalo M. Tavares e de outros autores de língua portuguesa como Alice Vieira, José Jorge Letria ou Ondjaki.

[...]

O júri era composto por personalidades portuguesas e francesas do mundo académico e literário, nomeadamente o poeta Nuno Júdice, a escritora francesa Maylis de Kérangal, a professora associada da Université de Paris-Sorbonne Paris IV Maria-Benedita Basto, o titular da cátedra Lindley Cintra na Universidade Paris Ouest-Nanterre José Manuel Esteves, o ensaísta alemão Sébastien Lapaque, a especialista em literatura lusófona Jacqueline Penjon e a jornalista da revista Books Suzi Vieira.

O objectivo do prémio Gulbenkian Books, no valor de 10.000 euros a dividir entre o editor e o tradutor, é promover a tradução de obras de língua portuguesa em França.

A iniciativa deverá repetir-se de dois em dois anos e o seu lançamento insere-se no programa do cinquentenário da Gulbenkian de Paris, o qual vai ter como pontos altos uma retrospectiva, no Grand Palais, da obra de Amadeo de Souza-Cardoso, entre Abril e Julho de 2016, e uma mostra sobre os últimos 50 anos da Arquitectura Portuguesa, na Cité de l'Architecture et du Patrimoine, de Abril a Agosto do próximo ano.


LUSA
15.10.2015
citado de SAPO Notícias
revisão do texto por José Alexandre Ramos

09/10/2015

Norberto do Vale Cardoso: António Lobo Antunes - Da Natureza do escritor

[...] a velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais levaram, porém isto que digo continua a acontecer [...]
António Lobo Antunes, in Da Natureza Dos Deuses

Baseado no título homónimo de uma obra de Cícero, De Natura Deorum (45 a.C.), o novo romance de António Lobo Antunes (o 26º desde 1979), é um livro simultaneamente mágico e perturbador. Através dele cruzamo-nos com o secreto, o misterioso, o indecidível, mas também somos conduzidos aos meandros do mundo tenebroso do poder. Ora é na língua que o poder se inscreve, mas é também através dela - enquanto lugar onde a servidão e o poder se interpenetram - que o escritor pode encontrar um modo de liberdade. Efectivamente, a literatura é a capacidade que o escritor tem de "conhecer a língua no exterior do poder", de exercer sobre a língua um "trabalho de deslocação", diz Roland Barthes na sua Lição (Ed. 70, 2007, p. 16). É desta capacidade de "trapacear a língua", e não do comprometimento político nem do conteúdo doutrinal, que depende a liberdade da criação. E António Lobo Antunes (ALA) é, acima de tudo, um escritor de sensibilidades comprometido com a natureza mágica da palavra.

A sedução exercida pela obra de ALA reside, em parte, na constante busca do novo sem que este seja um fim em si mesmo, mas um processo continuado. E este livro não é excepção, prosseguindo um trabalho quer de reiteração quer de inovação da palavra, da frase e da narrativa tradicional para criar um novo romance (vejam-se, a este nível, os intricados, tais como: "não pronta a proteger-, palram pega e papagaio,-me, pronta a proteger o meu dinheiro", De Natura Deorum - ND -, p. 523). A reiteração é só aparente, pois a insistência temática é um modo de interpelar o leitor e de transfigurar o que foi dito.

Trata-se de uma transfiguração do mundo através do acesso à palavra (sublinhe-se aqui a importância das chaves "misteriosas, secretas", que, no capítulo inicial, abrem a livraria, em Cascais, e das coisas, inconfessáveis, que se passam na cave desse lugar), sendo esta compatível com o modo, quase autónomo, como as personagens se movem dentro da obra, contando ou escrevendo a sua versão dos acontecimentos, e, em simultâneo, movendo (e movendo-se) (n)o tempo como se este fosse uma teia única, ainda que com distintas texturas que se entretecem. 

Como dizia Marcel Proust (À Procura do Tempo Perdido II: À Sombra das Raparigas Em Flor, Relógio D'Água, 2003, pp. 191 e 225), "o tempo de que dispomos em cada dia é elástico", sendo a vida "pouco cronológica". Este conceito em tudo se conecta com a citação que usamos em epígrafe, pois na obra de ALA não devemos considerar a existência propriamente dita de um passado, antes de um presente em que tudo "continua a acontecer", ou seja, de um presente que congrega todos os passados, tantos quantas as versões que deles podemos fazer. 

Esta vivência pessoal e íntima do tempo é estruturante nos seus romances, e vem chocar com o tempo socialmente imposto, pois o tempo é uma construção do poder e a língua desloca-se no seu exterior. Portanto, ganha aqui assentimento cotejar a passagem de Proust com a de ALA por um segundo motivo: a velhice, condição que faz parte da natureza humana, consiste, não no facto de nos roubarem o futuro, mas em "terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram, a casa onde nasci desapareceu, nem um objecto me ficou na memória" (ND, p. 465).

Eis-nos no cerne de Da Natureza Dos Deuses, livro denso (580 páginas, quatro partes, 37 capítulos), em que a densidade do poder se assemelha à densidade dos deuses, que impõem a (sua) estabilidade como suposta condição para a estabilidade social. A sustentação dos novos deuses passará, precisamente, por apagar, alterar ou roubar o passado. Lembre-se que George Orwell (in 1984, Antígona, 2012, p. 213) falava na "alteração do passado", que entendia ser "possível" por um "sistema de pensamento" designado "pela palavra duplopensar." Esta consiste na crença e aceitação simultânea de duas ideias, ainda que contraditórias. De facto, as personagens deste novo romance de ALA, mas também, por exemplo, as de Fado Alexandrino ou de As Naus, sentem que algo de muito precioso e irresgatável lhes foi roubado: o tempo. 

A sensação de perda é, pois, irresgatável e, na sua obra, nunca é colmatada por qualquer ganho, seja ele de que espécie for. Lobo Antunes vem, assim, abrindo novos paradigmas, que, em suma, se consubstanciam na ideia de que os portugueses têm sido amputados de um passado, o que coloca em causa a passagem da ditadura para a democracia e, em último plano, a possibilidade de um futuro. Na verdade, neste ND, sucessor de Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014), são dois os donos de Portugal, e são eles que tudo decidem pelos portugueses, que são "os palhaços" desses senhores, com especial destaque para "o senhor doutor", herdeiro do poder da Banca:

"[...] ele o dono dos bancos, das companhias, das empresas, das fábricas, ele o dono de tudo e eu um palhaço entre tantos palhaços, dúzias de palhaços à sua volta nos jantares, no escritório, na casa, [...]" ( p. 217)

Só a personagem do "sem abrigo" parece colocar algo em causa, o que pode parecer absurdo, sobretudo se considerarmos que esta personagem está destituída de todo o tipo de bens materiais e, ainda, de relações que lhe dêem acesso ao poder. Mais do que isso: o "sem abrigo" não fala nem intervém em quaisquer dos núcleos narrativos. No entanto, esta personagem prefigura-se, ela própria, como o núcleo da narrativa, pois é em torno dela que se adensa o mistério (não se conhece a sua identidade), o silêncio (não fala nem dialoga) e a imutabilidade das coisas (não parece mudar). Errando por todo o lado, é visto de diferentes maneiras sob distintos olhares. Para uns não passa disso mesmo, de um simples sem abrigo, havendo outros que conjecturam que pode tratar-se de uma entidade celeste, o que lhe daria uma natureza divina:

"[...] entretido a espalmar a rolha na garrafa glorificando o Altíssimo, a voar às curvetas, com o seu disfarce de pedinte, na direcção do mar onde Cristo caminha, relacionada com Cristo uma outra questão se foi formando em mim acerca do sem abrigo, seria ele Jesus [...]" (p. 335)

Nesse sentido, o sem abrigo, que caminha em direção ao mar, parece ter algo da natureza dos deuses, o que vem contrapor-se aos que se julgam como tal, e que pretendem evitar a todo o custo que o seu poder naufrague. Amputado de História, o sem abrigo, como uma espécie de náufrago ou anjo caído, vive a pequenez do seu dia a dia sobrevivendo, dormindo no umbral da livraria (acesso, porventura inacessível, ao conhecimento, questionando-se aqui o poder dos livros, que saem da cave da livraria para cercar a casa do "senhor doutor"), indiferente ao que se passa no seu país. Ele será um palhaço pobre que viu transformada a utopia de navegar (a revolução do 25 de Abril) em sua própria distopia, e que considera a democracia com indiferença e desesperança, devido ao descrédito para com poder político, que se encontra submetido ao económico, cujo centro é uma casa "empoleirada" num "alto" (o novo Olimpo). 

Se nada muda neste país, António Lobo Antunes é um cicerone daquilo "que constantemente muda" (crónica "Adeus", in Visão, 18.10.2012): a natureza do romance como um caminho perceptível para resgatar o passado perdido e/ ou "roubado" e para, através dele, imaginar outra natureza para as coisas e para os sonhos. 


por Norberto do Vale Cardoso
em Jornal de Letras
publicado on-line em 07.10.2015

02/10/2015

Norberto do Vale Cardoso disserta sobre Da Natureza Dos Deuses

[texto publicado originalmente na Colóquio de Letras nº 190 de Setembro de 2015 e citado integralmente aqui por cortesia de Norberto do Vale Cardoso]

E a Obra de António Lobo Antunes move-se: Breves notas sobre o romance Da Natureza dos Deuses


O espectro da continuidade 
Tecnicamente sabe-se que a Terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos. É o que se passa com o tempo na vida.
(Marcel Proust, À Sombra das Raparigas Em Flor, p. 59, Volume II de À Procura do Tempo Perdido.) 
Essa passagem pode muito bem aplicar-se à Obra de António Lobo Antunes, não apenas porque, nela, o tempo é, desde os primeiros romances, um vector fulcral (conectado com a construção e escrita da memória, cf. Cammaert, 2009:203), mas, sobretudo, porque a opus antuniana se revela ao leitor como um mundo novo, repleto de emaranhados, obnubilamentos e indecidíveis. O leitor desta Obra não se limita a ter consciência de que, nela, “a Terra se move”. Ele sente esse movimento com espanto, o que lhe exige uma atitude de indagação do mundo. É isso que sucede com a leitura de Da Natureza dos Deuses, 26º sexto romance de António Lobo Antunes, que gera no leitor sentimentos ambivalentes, entre a sedução e a perturbação.

Neste romance o tempo parece suspenso, sujeito ao poder opressivo da política e do capitalismo dominantes. Esse tempo, que se assegura necessário para o estabelecimento de uma suposta ordem natural das coisas (sempre invertida na obra antuniana) é, na verdade, um constructo que visa criar uma inamovilidade aristotélicado mundo. Assim, os novos deuses exercem um domínio tacitamente aceite sobre quem os serve, por um lado porque os detentores do poder se julgam acima dos seus iguais e incólumes à passagem do tempo, e, por outro lado, porque os que carecem de poder, de recursos e de mecanismos para colocar em causa a ordem estabelecida, são impulsionados a aceitá-la e a ela se juntarem, abdicando, sem razão válida, dos seus sonhos: “porque motivo aceitamos ser palhaços dos homens, a rirmo-nos do que não tem graça e a acharmos fascinante, […]” (ND, 147). 

Neste romance não parece, pois, desenhar-se qualquer saída revolucionária (aliás in-existente na obra antuniana), vislumbrando-se, antes um espectro de continuidade.

II
O epicentro da mudança

Baseado no título homónimo da obra de Cícero, De natura deorum (45 a.C.), algumas das acções deste novo romance de António Lobo Antunes decorrem numa casa “empoleirada” num “alto”, onde se destaca a estátua de Vénus (símbolo do perene e do poder). O dono da casa, conhecido como “o senhor doutor”, vai “degolando gente pela vida fora”, o que o dota de um poder incontestável. A partir desse olimpo, “o senhor doutor” vai “dirigindo os palhaços e os maridos dos palhaços, o duque inglês, os alemães cada vez mais numerosos” (ND, 156). Aí se reúne com os seus “súbditos” (assessores, amantes e gente influente, que formam “ramalhetes sociais” (Proust, 2003: 99), ou seja, gente heterogénea) em torno de um jogo de ténis (que, como o campo de tourada em Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, representa a arena moderna, onde a força não se liga à “raça”, mas àquele que tem o dinheiro para ter a força ou que tem a força para ter o dinheiro: veja-se a chantagem sobre o parceiro de jogo, que é ameaçado com o desterro para a província). Estes encontros provam que não há, neste tempo (as acções centrais decorrem durante o Estado Novo), ninguém livre, e que o Estado resulta da confluência dos poderes político e económico (Deleuze e Guattari, 2004: 276).

Dono de bancos, quintas, casas com piscinas e minas de volfrâmio, colecionador de automóveis, com contas em offshores, o “sevandija” (ND, 320) visita, aos domingos, “o senhor presidente” (alusão aos encontros entre o líder do clã Espírito Santo e Salazar), num colóquio entre aqueles que “mandam em Portugal” (ND, 207). Esse (geo)poder, indiferente à História porque se considera a si próprio «a História», representa as forças que se movem para, afinal, nada se alterar: 
eu dono de quase tudo e ele dono do resto, do que a gente chama Pátria ignorando o que é a Pátria, chama História ignorando o que é a História, ou chama egrégios avós ignorando o que são egrégios e avós […] (ND, 418) 
Recorde-se, a este propósito, o descrédito e a caoticidade em que é colocada a revolução de Abril em Fado Alexandrino. Nesse romance, como em As Naus, a revolução é vista como um naufrágio (cf. Carvalho, 2014:99). A mudança é, pois, aparente ou, como se diz em À la Recherche du Temps Perdu, “A única coisa que não muda é que parece sempre que existe «alguma coisa que mudou em França»”. (Proust, 2003: 95) Este nihil novi sub sole (Eclesiastes, 1, 10), que faz parte da mundividência antuniana, torna difícil discernir como pode o mundo mover-se de facto, pois se o mundo devia ser feito da natureza ou da matéria dos sonhos, não é somenos verdade que é nos meandros do poder que se decide o curso dos acontecimentos. No romance de Lobo Antunes, a casa de Cascais é o epicentro dessas decisões (lugar a partir do qual todos os negócios se movem para que nada se mova), tendo na livraria situada no centro da vila (e que pode encontrar na “Livraria Galileu” um elemento referencial, onde a cave se destaca como lugar imagético, tão relevante quanto o sótão na obra deste autor) o seu contraponto, precisamente por nela nada se decidir.

A discussão sobre os deuses, levada a cabo em Da Natureza dos Deuses, de Túlio Cícero, perspectiva-se eterna. Se Balbo acredita que tudo tem uma ordem precisa, que nada há de fortuito, porque tudo depende dos deuses (Cícero, 2004:85), a discussão prossegue em Lobo Antunes, dado que, hoje, o lugar dos deuses mortos é ocupado por novos deuses: os homens que, tendo o governo dos seus iguais, não se julgam feitos da natureza humana (mesmo que esta seja a natureza do que muda). Todavia, a assunção de que nada muda não é definitiva na obra de António Lobo Antunes. Efectivamente, mesmo que o poder se estabeleça e perdure, o romance antuniano vem garantindo que (recordando a frase atribuída a Galileu no século XVII) «eppur si muove».

Ora no romance Da Natureza dos Deuses a mudança principia precisamente no lugar mais improvável, a livraria, pois esta representa a apologia do hermético, quer devido às chaves “misteriosas, secretas” (que, no capítulo inicial, abrem a porta desse lugar, ND, 13), quer fruto das coisas, aparentemente proibidas, que aí se passam na cave. Essas chaves serão, mutatis mutandis, as “chaves” de que necessita o leitor do romance antuniano para decifrar o romance (SLC, 113), e que vêm com o próprio texto, significando este aspecto que o leitor tem de recusar a “sua chave”. Aqui, como na filosofia, o ponto de partida será a ignorância (Cícero, 2004: 19). 

A livraria será, em suma, um lugar compatível com a “magia da palavra” (é nela que Fátima se apercebe que o eixo da terra se move) que deveria mudar o mundo. A cave (lugar oposto ao topo onde se situa a casa do “dono do país”) representa o «conhecimento do inferno», um conhecimento para o qual parece já não existir lugar num mundo desencantado, dado que o saber (que reside nos livros) foi suplantado pelo poder.


III
A natureza da Obra 

Os livros são feitos da verdadeira matéria humana: os sonhos. Aqueles que sonham podem não mudar a História, sendo, não raras vezes, os que dela são vítimas (vítimas do poder másculo - como a empregada da livraria, que é violada, ou a Senhora, que é aprisionada no alto da casa -, do poder político - como o adjunto do senhor doutor -, da doença - como a cantora -, ou do desespero – como Marçal, o servente e, por vezes, duplo do senhor doutor porque este o obrigava a cumprir as suas obrigações conjugais com a Senhora). Essas dramatis personae não são as que participam da História, mas, antes, “da pequena história do dia-a-dia” (Seixo, 2002: 126), que é a que mais interessa na obra antuniana, de entre as quais se destaca o “sem abrigo”, que vemos errar incessantemente.

Ainda que não se dilucide a identidade desta personagem enigmática, que mantém um silêncio indecifrável, a sua indiferença para com todos os movimentos sociais torna-se numa ameaça ao estilo de vida dos deuses. Como um corte para com a narrativa, o misterioso é o incontrolável, pois a passividade dessa personagem parece ter laivos do transcendentalismo norte-americano, que encontramos em Thoreau. De resto, essa personagem que, na obra de Lobo Antunes, a par de outras marginalizadas (consubstanciadas na figura do palhaço pobre, cf. Carvalho, 2014: 174-176), adquire a predilecção dos narradores, surge logo no incipit do romance a dormir no degrau da livraria.

Esta personagem marginal liga-se à paródia, que é, em suma, a subversão imposta pelo próprio romance. Tecida de mistérios, a obra de arte tem um carácter enigmático, e por isso ela “macaqueia à maneira de um clown” (Adorno, 2008: 186). Como palhaço pobre, o “sem abrigo” toma banho nos chuveiros da praia e faz malabarismos com bolas. Desprovido de todo o tipo de bens materiais, sem acesso ao poder, circula em silêncio num mundo tenebroso de homens poderosos cujo único propósito parece ser enriquecer para ter poder e ter poder para enriquecer. Descomprometido e livre, sem desejos inconscientes de grupo (Deleuze e Guattari, 2004: 268), o “sem abrigo” recusa-se a aceitar o desejo de desejar ter poder. Ele não será um Deus ex machina, mas um homem que, não podendo intervir no curso da História, vai sendo mais humano. Esta expressão significará, de outro modo, mais próximo da natureza dos deuses.

Se é um anjo ou um deus, o que não se pode discernir por completo, o errante é (como o romance será) aquele que foge aos cânones estabelecidos (isto é, aos focos do poder). De facto, para além deste “sem abrigo” só o próprio romance (metonimicamente representado pela livraria, que, na cave, contém todos os livros de todos os temas) se move: Fátima, como “caixeira da livraria”, parte para a casa da Senhora carregada de livros, ainda que a Senhora, mais do que ler, procure alguém que a oiça em silêncio contemplativo. São, aliás, tantos os pacotes de livros que Fátima transporta para a casa de Cascais que esta parece ser invadida e ficar “cercada”. Esta situação alude à bibliomaquia que ameaça o poder, como se tudo fosse efémero, menos as grandes obras, que são as que se movem intemporalmente. Portanto, o sem abrigo (que não fala) e os livros (que a Senhora não lê enquanto Fátima não fala), parecem ser feitos de uma outra natureza, “da natureza do silêncio e do mistério”, veios de um texto que se move silenciosamente, ora revelando, ora ocultando-se, criando ruturas aparentemente imperceptíveis e sentidos frequentemente obscurecidos (vejam-se as palavras truncadas), talvez porque o próprio autor seja, tão-só, um mensageiro:
e aguentar o quê se a voz nem a si mesma obedece quanto mais a mim que a não fiz, não passo de um carteiro a entregar encomendas que não escrevi nem recebo, passaram-mas assim […] (ND, 532)  
Para muitos ficará, certamente, a proximidade deste romance de Lobo Antunes a factos conhecidos da vida nacional: referimo-nos, evidentemente, ao ocorrido com o Banco Espírito Santo. Todavia, é de referir que este romance, escrito antes desses acontecimentos, faz parte de uma Obra cuja mundividência tende a privilegiar a concepção do texto em relação ao mundo, pois é com palavras que o mundo se pode verbalizar (cf. Seixo et al., 2008:415 e ss). Assim, mesmo que não rejeite aspectos históricos, e com eles se conecte, anunciando que o sistema financeiro, político e social português faliu (como falira a República no tempo de Cícero), este romance (como parte de uma Obra) pretende, acima de tudo, transcender(-se) enquanto palavra que se move, isto é, que se renova a si mesma. O “romance de páginas de espelhos”, que António Lobo Antunes disse um dia projectar (LC, 52), seria aquele em que o leitor visse o passado, o presente e o futuro. A transcendência de uma Obra resulta, antes de mais, do facto de as grandes Obras serem “antecipação de um em-si que ainda não existe” (Adorno, 2003:124). É isso que as aproxima da natureza dos deuses.


Bibliografia:

ANTUNES, António Lobo, Da Natureza dos Deuses (ND) (provas gentilmente cedidas pelo autor e pela editora), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2015. 
___________Livro de Crónicas (SLC) 9ª edição/edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2013 [1998]. 
___________Segundo Livro de Crónicas (SLC) 2ª edição/ 1ª edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [2002].
ADORNO, Theodor, Teoria Estética (trad. Artur Mourão do original Aesthetische Theorie), Lisboa, Edições 70, 2008.
CAMMAERT, Felipe, L’ Écriture de la Mémoire Dans L’Oeuvre d’António Lobo Antunes et de Claude Simon, Paris, L’Harmattan, 2009.
CARVALHO, Susana João, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, Lisboa, Texto, 2014.
CÍCERO, Marco Túlio, Da Natureza dos Deuses (trad. e notas Pedro Braga Falcão) Lisboa, Nova Veja, 2004.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, O Anti-Édipo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004 [1972]. PROUST, Marcel, À Sombra das Raparigas Em Flor (Volume II de À Procura do Tempo Perdido), tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio D’ Água, 2003.
SEIXO, Maria Alzira, Os Romances de António Lobo Antunes, Lisboa, D. Quixote, 2002.
SEIXO, Maria Alzira, ABREU, Graça, CABRAL, Eunice, AFONSO, Maria Fernanda, SOUSA, Sérgio Guimarães de, e VIEIRA, Agripina Carriço, Dicionário da Obra de António Lobo Antunes(volume II), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.


por Norberto do Vale Cardoso
texto publicado na Revista Colóquio/Letras, n.º 190, Set. 2015, p. 131-135

[revisão segundo ortografia antes de AO90 por José Alexandre Ramos]

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