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A mostrar mensagens de Outubro, 2015

«Da Natureza Dos Deuses: uma sopa de letras», por Norberto do Vale Cardoso

António Lobo Antunese Da Natureza Dos Deuses:  Uma sopa de letras
Norberto do Vale Cardoso [i]
Na vasta e complexa obra de António Lobo Antunes destaca-se a importância do que parece fragmentário e lateral. Efectivamente, na obra deste autor não podemos ater-nos aos aspectos mais evidentes e tradicionais da narrativa, porque esta, como um mar imenso, está repleta de micronarrativas que funcionam como “microclimas” a perscrutar, exigindo ao leitor uma atenção redobrada. Essas “funduras”, onde tudo se subsume (e de onde tudo reemerge), funcionam como um “avesso”, noção que pode possuir várias componentes sémicas. Ora em Da Natureza Dos Deuses (ND) julgamos importante abordar três aspectos “submersos” na narrativa: as questões do poder, da paternidade e da linguagem.   Em Da Natureza Dos Deuses, romance em que, uma vez mais, somos levados a percorrer os “corredores sombrios” (ND, p. 346) do poder, confrontamo-nos com uma questão central da identidade, veiculada através de uma dicotomia entre…

Premiada tradução em francês de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar, por Dominique Nedellec

Gulbenkian de Paris entrega prémio a tradução francesa de obra de António Lobo Antunes A tradução francesa do livro "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?", de António Lobo Antunes, foi hoje distinguida, em Paris, com o Prix Gulbenkian Books da delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian.
Esta foi a primeira edição do prémio que distingue a melhor tradução de português para francês de uma obra de literatura em língua portuguesa, publicada em França nos últimos dois anos, sendo atribuído em parceria com a revista literária Books.
O júri decidiu distinguir Dominique Nedellec, o autor da tradução "Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer", editada em 2014 pela Christian Bourgois Éditeur, pelo "brio com que recriou em francês a prosa tão densa e sinuosa de Lobo Antunes, a sobreposição de vozes, as palavras e os pensamentos das suas personagens torturadas", declarou Suzi Vieira, membro do júri, durante o anúncio do prémio.
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Norberto do Vale Cardoso: António Lobo Antunes - Da Natureza do escritor

[...] a velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais levaram, porém isto que digo continua a acontecer [...] António Lobo Antunes, in Da Natureza Dos Deuses
Baseado no título homónimo de uma obra de Cícero, De Natura Deorum (45 a.C.), o novo romance de António Lobo Antunes (o 26º desde 1979), é um livro simultaneamente mágico e perturbador. Através dele cruzamo-nos com o secreto, o misterioso, o indecidível, mas também somos conduzidos aos meandros do mundo tenebroso do poder. Ora é na língua que o poder se inscreve, mas é também através dela - enquanto lugar onde a servidão e o poder se interpenetram - que o escritor pode encontrar um modo de liberdade. Efectivamente, a literatura é a capacidade que o escritor tem de "conhecer a língua no exterior do poder", de exercer sobre a língua um "trabalho de deslocação", diz Roland Barthes na sua Lição (Ed. 70, 2007, p. 16). É desta capacidade de "trapacear a língua", …

Norberto do Vale Cardoso disserta sobre Da Natureza Dos Deuses

[texto publicado originalmente na Colóquio de Letras nº 190 de Setembro de 2015 e citado integralmente aqui por cortesia de Norberto do Vale Cardoso]

E a Obra de António Lobo Antunes move-se: Breves notas sobre o romance Da Natureza dos Deuses
I  O espectro da continuidade  Tecnicamente sabe-se que a Terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos. É o que se passa com o tempo na vida. (Marcel Proust, À Sombra das Raparigas Em Flor, p. 59, Volume II de À Procura do Tempo Perdido.)  Essa passagem pode muito bem aplicar-se à Obra de António Lobo Antunes, não apenas porque, nela, o tempo é, desde os primeiros romances, um vector fulcral (conectado com a construção e escrita da memória, cf. Cammaert, 2009:203), mas, sobretudo, porque a opus antuniana se revela ao leitor como um mundo novo, repleto de emaranhados, obnubilamentos e indecidíveis. O leitor desta Obra não se limita a ter consciência de que, nela, “a Terra se move”. Ele sent…