30/12/2015

Leonardo Gandolfi - opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

António Lobo Antunes demonstra até onde vai a velha e boa arte de narrar

António Lobo Antunes tem chamado a atenção ao disparar duvidosas frases de efeito por aí. A última foi em setembro passado. Em entrevista ao jornal "El País", o autor questionou a qualidade da obra de Fernando Pessoa, criticando o fato de o poeta supostamente nunca ter feito sexo.

Seus livros, no entanto, costumam passar longe dessa duvidosa atenção. A prova é «Não É Meia-Noite Quem Quer». O romance traz como narradora uma mulher - dona de algumas cicatrizes - que volta à casa de praia da infância. Entre lembranças e fantasmas, lá também estão mãe, pai, a amiga, irmãos, avós e ela mesma, com 11 anos.

As personagens importantes da história não têm nome próprio e essa ausência é um dos recursos que ajudam a dar o tom da narrativa. Justamente na intimidade da vida doméstica é que as vozes se confundem. Tal fusão é uma das marcas do estilo de Lobo Antunes. Os diálogos atravessam a história, cortam e compõem a narrativa, ajudando a criar as feridas desta família.

Num livro em que quase todos não têm nome, mas têm voz, a atenção pode se voltar para aqueles que não falam, mas têm nome. É o caso de Ernesto, hipopótamo de pelúcia, que, em seu silêncio de objeto, é testemunha do cotidiano comezinho nesse ambiente onde se inscrevem as marcas de perdas irreparáveis.

O espaço arruinado da casa se confunde com a decadência de um país assombrado, entre outras coisas, pela guerra colonial na África. Aliás, Lobo Antunes - desde os primeiros livros, nos anos 1970 - tem dado voz ao sentimento de desencanto político e cultural em Portugal, que tem a ver com alguns desdobramentos nada eufóricos da Revolução dos Cravos (1974).

«Não É Meia-Noite Quem Quer» está dividido em três partes, cada uma sobre um dia do fim de semana em que a professora se despede de sua velha casa. Este é o único elemento da narrativa em que a ordem cronológica mais convencional se faz ver.

Em cada um dos três dias, a história vai e volta continuamente no intervalo de 40 anos, como se criasse um tempo verbal próprio. Esse ir e vir de épocas acaba por produzir uma estrutura musical com seus movimentos, repetições e variações de frases.

Há também um caráter trágico que dialoga com tal estrutura. Em determinado trecho, a voz infantil - ao entrar numa pastelaria chamada Tebas - pergunta o que significa essa palavra. A voz da mãe diz que se trata de uma cidade grega. A menção a esse cenário das tragédias –que continua ecoando na história - não é gratuita.

Um dos clientes da pastelaria é o irmão surdo da narradora principal. Sendo surdo, ele tem voz e fala, mas sua fala é uma espécie de gaguez que reaparece diversas vezes ao longo do livro. Funciona como refrão dissonante ou como sentença ruidosa que um coro de tragédia anuncia, tragédia que já aconteceu, ou melhor, que está por acontecer.

Certo formato oitocentista de narrativa ainda é o principal modelo do que chamamos, hoje em dia, de romance. Lobo Antunes procura se distanciar desse modelo, dizendo-nos até onde pode ir a velha e boa arte de narrar.


por Leonardo Gandolfi
em Folha Ilustrada
28.12.2015

17/12/2015

Entrevista à Visão: «Todos nós somos muito pirosos»

Visão
edição 1188
10 a 16.12.2015
Entrevista de Ana Margarida de Carvalho


«Todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra. Todos nós somos muito pirosos»


foto de Gonçalo Rosa da Silva | Visão

António Lobo Antunes detesta a palavra "viral", fica arrepiado quando lhe fazem o gesto das aspas com dois dedinhos no ar. No seu último romance, [Da] Natureza dos Deuses, em que acompanha a ascensão e queda de uma família de banqueiros que prefere nunca nomear (o leitor se quiser pode adivinhar), Antunes vinga-se. Até da clareza, da cronologia clássica, dos cânones da sintaxe. A força torrencial da linguagem alaga tudo, num emaranhado de vozes, obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem, atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num "delírio caótico". Como uma partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Ou como um ecrã com várias janelas abertas, em que um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em simultâneo. Logo ele que nem sabe abrir um computador (continua a escrever em caligrafia de formigueiro miniatural) e recusa o telemóvel. Porque, como dizia o (Umberto) Eco: "O telemóvel só serve a três classes de pessoas: os médicos ou os bombeiros; as pessoas portadoras de doenças, como diabetes; e os adúlteros."

Costuma ser o escritor da marquise e do naperon, mas desta vez detém-se numa família de milionários. Porquê?
Como dizia Flaubert, "é preciso vasculhar toda a vida social para ser um verdadeiro romancista, visto que o romance é a história privada das nações".

Vasculhou muito?
Não, porque não sou do século dele.

Os ricos do seu livro são tratados como sádicos na cama, que fazem das mulheres "os seus palhaços" e os empregados emprestam a mulher ao patrão…
Eu assisti tanto a isso na vida real, sobretudo no mundo dos ricos. Homens a oferecerem as próprias mulheres. Fitzgerald dizia a Hemingway que os ricos eram uma "espécie diferente", e o Hemingway "pois são, têm mais dinheiro". Mas não é só isso…

O desprezo?
Não desprezam, ignoram… Aqueles a que eles chamam "as criaturas"… A ambição de poder sempre me assombrou. Eu só queria fazer livros bons.

Onde se sentiu mais em casa: nos meios intelectuais, nos salões literários, na tropa, no hospital, quando era médico? 
Sei lá. Faz-me cada pergunta… Frequento pouco os meios literários… Mas é quando estou com pessoas de quem gosto. Passei a infância num bairro pobre que era Benfica. Estou muito ligado a essas pessoas. Mais do que supunha. Apanhei uma tuberculose porque passava os dias em casa do sapateiro e de uns vizinhos que nós tínhamos. Era gente muito pobre. A minha mãe dizia que tinha herdado isso do meu pai: só gostava dos pobres, mas sentia-me tão bem com eles. Quando ia para a Beira Alta e se tomava banho numa selha, era tão bom… Eu estava sempre a transbordar de ternura, ainda estou, só que escondo. Gosto de pessoas que tenham gostos diferentes de mim. Custa-me quando são do Sporting, mas enfim, ninguém é perfeito…

Passou pela guerra, por três cancros, agora a morte de um irmão e da sua mãe… E reverteu muito do seu sofrimento para a escrita?
A gente não inventa nada. Estes dois anos foram terríveis, e agora o cancro do meu irmão João, que aguenta tudo com uma dignidade, uma coragem, que eu sempre encontrei nos cancerosos, sem uma única queixa… Quando passei 19 dias no hospital lembrava-me do Proust, sempre a olhar para a janela à espera que fosse dia como se o dia me viesse salvar de alguma coisa, não me salvava de nada. Tenho passado muito. Mas começamos a relativizar muita coisa… Eu tenho uma ideia sobre o meu trabalho… Posso dizer em off?

Preferia que dissesse em on…
Eu acho que nunca ninguém escreveu como eu em Portugal. Mas é só uma opinião.

Já atingiu um patamar em que pode escrever como bem entender e até dizer o que lhe apetece, sem se preocupar com as consequências?
Está a pensar no Fernando Pessoa e de eu ter dito que ele não fodia?

Por exemplo.
Isto está cheio de patetas, as perguntas nunca são bem aquelas e as respostas também nunca são bem aquelas. Primeiro era uma boutade. Foi num almoço, estávamos a gozar, e de facto eu acho mesmo que ele teria sido melhor poeta se tivesse feito amor… Como se pode viver sem fazer amor? Não entendo. Mas só um palerma é que me vai atacar por eu dizer isso. Mas não. Não houve medíocre que não viesse morder. Não gosto da Mensagem, é evidente, como acho que o Livro do Desassossego é um conjunto de banalidades e lugares-comuns. Não sei para que estamos a falar do Fernando Pessoa, coitado, não tem culpa nenhuma… Isto é para dar matéria aos idiotas, para me virem morder os calcanhares, não chegam mais alto…

Pessoa e Eça são intocáveis?
Pois, e isso é extraordinário. Achava Eça um romancista extraordinário, já não acho. Tenho admiração pelo Antero e pelo Herculano. O meu pai citava Herculano: “Por meia dúzia de moedas Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita.” Não é bonito?

É.
Era um foco de discussão entre mim e o Zé [Cardoso Pires], ele achava que o Herculano era um chato. O que se faz agora é muito fraco, nem no estrangeiro há grandes escritores.

Os génios aparecem ciclicamente?
Pois, aparecem assim por revoadas. O milagre do século XIX, a quantidade de génios… só na Rússia havia dez ao mesmo tempo… [desfia os nomes com pronúncia russa], como em França e em Inglaterra. Agora não há. No século XX: Faulkner, Hemingway, Proust, Céline, Fitzgerald. O Thomas Mann é bom, mas chateia-me. O Musil chateia-me…

E o Joyce?
Admiro a proeza, mas às vezes penso se não será a proeza pela proeza.

O que encontra num livro bom?
O charme. Qualquer coisa indefinível que certos livros têm, certos homens têm, certas mulheres têm. É que não é ser bom tecnicamente. Têm que ter charme, não sei explicar. É qualquer coisa que nos faz tornar no verso do Neruda, "como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo". E depois como se racionaliza sobre emoções? Gosto porque gosto, porque era ele, porque era eu. As amizades são assim, como o amor. A gente conhece uma pessoa e fica amiga de infância. As minhas amizades foram sempre fulminantes, e depois duram para a vida, depois morrem antes de mim. É uma traição horrível um amigo morrer.

No seu livro diz: "A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado"…
Tem a ver com a memória. E sem memória não há imaginação. Aquilo que as pessoas chamam imaginação não é mais do que a maneira como nós arranjamos e desarranjamos os acontecimentos da vida. Nada se inventa. Pode-se misturar as coisas, ou mostrar só metade, mas todos os livros falam da mesma coisa. E todos os escritores são uniformemente infelizes. Porque se fossem felizes não tinham necessidade de passar 16 horas por dia a escrever. Há uma dor com que se nasce… Os artistas sofrem muito.

Não é uma pessoa alegre?
Conhece pessoas alegres?

Conheço. Do seu livro, também: "Este atraso mental das pessoas felizes que dá vontade de corrigir ao estalo, o que vale é que passa depressa."
Isso é alguém a falar lá dentro. Não tenho de subscrever isso [risos]. As taxas de suicídio entre os humoristas são muito grandes… Um sorriso é a tal lágrima entre parêntesis.

Já o vi a dançar, a cantar alto, pareceu-me feliz…
Estava a fazer muita cerimónia. É tão raro não haver inveja neste meio. No mundo provinciano, pequeno e saloio como é o meio literário em Portugal. Há muito poucas pessoas que me possam interessar e respeitar aqui. Tirando o Eduardo Lourenço. Rimo-nos imenso, ele tem muito humor. O Zé também, mas havia nele sempre uma amargura.

Uma vez disse que ninguém podia fazer um bom livro antes dos 24…
Ai, isso também gerou polémica?

Um bocadinho.
É verdade, não se pode escrever um bom romance antes de ter vivido. Poesia pode ser. Olhe, eu com essa idade só escrevia merda. Nunca tive pressa em publicar. Essa qualidade eu tenho. Não percebo porque isso causa polémica… mas cada vez que abro a boca…

Mas não faz de propósito?
Claro que não. Agora tudo tremelica. Há para aí umas criaturas, por causa das relações sexuais e poesias, ficaram insultuosos. Não era nada disso, aquilo passou-se num contexto diferente, quero lá saber se o homem fodeu ou não…

Tem teorias acerca disso?
Tenho lá… Olhe a Santa Teresa d’Ávila…

Também era virgem.
Não sei o que é pior, se isso, se aturar um homem… Deve ser terrível. Os homens não merecem as mulheres, reduzem tudo à genitalidade. Quando lhes deveria dar muito mais prazer estar sentado no sofá, de mãos dadas, a ver uma novela, do que um em cima do outro a esbracejar. O verdadeiro prazer vem do amor, que é uma coisa em que ninguém é bom, ninguém é mau. Tive de fazer muita sexologia… E o medo que os homens têm das mulheres? E como nós, homens, ligamos tudo à potência… Já comeste aquela gaja, e esta, e a outra?

Nunca entrou nesse registo?
Provavelmente entrei, não sou melhor que os outros. E no fundo os homens andam sempre à procura de uma outra coisa, andam tão perdidos como elas, querem ser amados, querem ser protegidos, gostados. Temos a ilusão de que assim afastamos a morte, porque ninguém está preparado para morrer.

Houve um cirurgião que lhe agarrou a mão durante a anestesia…
Foi um acto de amor, nem imagina como foi importante para mim. Há mãos de homem que apertam bem. As mulheres são muito mais exigentes. "O que fizeste da tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?" Se os homens conseguissem não abandonar a irmã gémea ao nascer… O sexo não é o mais importante numa relação. A gente entrar um no outro numa relação, sem precisar de recorrer a esse apêndice. Eu já não sou um homem bonito.

Dá assim tanta importância a isso?
Ai, eu gostava de ser bonito. Fazer uma cara sorrir para mim. Mas sob esse aspecto convivo bem comigo. O meu medo é começar a escrever porcarias e não ter consciência disso, o Simenon chegou aos 70 e, como ele dizia, resolveu partir o lápis.

Continua a ler muito?
Claro. Olhe, o primeiro livro que me fez chorar foi o Love Story [de Erich Segal], emprestado por um sargento, na guerra. Chorei como uma Madalena. Porque todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra. Todos nós somos muito pirosos.

Mas ainda lê os livros que a criada de servir que tem dentro de si lhe pede?
Às vezes, não sei se são bons ou maus. Um meu editor francês citava muitas vezes a frase de um general veneziano do século XVI: "É preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mas não esquecer que ela é careca.” A gente a escrever é assim, eu sinto-me um pobre… Gosto muito de ler, é um prazer enorme. O meu pai estimulou muito a leitura aos filhos e a minha mãe deve ser a única mulher que eu conheço que leu o Proust duas vezes.

Porque não disse a "única pessoa"? Dito assim pode parecer um comentário misógino...
Acha que eu falo mal das mulheres? Deus me livre. Isso era dantes, não era? Eu devo tanto às mulheres, à minha avó, à minha mãe… Estava aqui sozinho, a escrever, e de repente sai-me, sem eu dar conta, um berro: "Quero a minha mãe!" Todos os homens quando estão aflitos querem a mãe, tenham a idade que tiverem. Vi morrer tanta gente nos hospitais e nunca vi um homem chamar pelo pai. É espantoso. Velhos e doentes com mais de cem anos: "quero a minha mãezinha". Com mais de cem anos continuam a chamar pela mãe. É extraordinário.

Mas uma coisa são ‘as mulheres’, outra as nossas mães, irmãs…
Não tenho ideia de as tratar mal. Só tenho filhas, as pessoas que mais me marcaram foram todas mulheres, como é que eu poderia? O livro que estou a escrever agora anda todo à roda de uma mulher com Alzheimer, é também um desafio técnico, como é que eu vou descrever uma mulher que vai perdendo a memória? Sinto-me mais à vontade com mulheres. Ou então são elas que vêm ter comigo nos meus livros, sentam-se à boca de cena e começam a falar.

Dá ideia de que tem um ouvido absoluto para captar as marcas de oralidade, mas também repara tanto nos detalhes, nos pequenos pormenores… Também deve ter um espécie de olhar absoluto…
É só trabalho. Sou capaz, sem olhar para si, de dizer como está vestida, de cima abaixo. Se se tiver aberto aos outros, as coisas entram dentro de nós. E as pessoas são tão interessantes, mas depois há os chatos.

Fala dos políticos?
Fui infeliz durante este governo de direita, os erros, a maneira de falar, a arrogância, a ambição social que se notava naquela gente toda, e nos tipos que estão por detrás… É uma chatice, os alfaiates mudaram isto, porque dantes percebia-se quem eram as pessoas com dinheiro, agora vestem-se todos de igual.

Ficou contente com o acordo da esquerda?
Então não fiquei? Não pertenço a nenhum partido, mas estou mais à esquerda do partido socialista. Mas isso também não é importante: o pai do meu pai era conservador, salazarista, monárquico e era a pessoa mais democrata, bondosa e tolerante que eu conheci. Continuo a simpatizar com o Louçã. Gostei do Álvaro [Cunhal], era um homem irresistível, excepto quando se punha a falar de política, aí era impossível. Mas a falar de Bruegel era fascinante. A Catarina Martins tem uma inteligência cândida, que é uma coisa de que eu gosto. Uma cara, um ar e convicção que me é agradável. Parece-me a mim pureza. Oxalá não esteja enganado.


Revista Visão
16.12.2015
texto de Ana Margarida de Carvalho
foto de Gonçalo Rosa da Silva

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

fonte: http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2015-12-16-Todos-nos-temos-uma-criada-de-servir-ca-dentro-no-sentido-antigo-da-palavra.-Todos-nos-somos-muito-pirosos

05/12/2015

Diário de Notícias, «Estou na recta final»

Diário de Notícias
05.12.2015
Entrevista de João Céu e Silva


«Estou na recta final»


Esta é uma entrevista de quem nada tem a perder. Do maior escritor de língua portuguesa vivo, que gosta de Putin mas despreza tanto os políticos saloios como a opinião da crítica portuguesa, e recusa ser vaidade o que sente pela própria obra. Que detesta quem lhe tenta morder as canelas por causa de uma entrevista ao El País, onde deitava abaixo Fernando Pessoa. E que não encontra concorrência entre os autores que têm aparecido na nossa literatura.

O mais recente romance de António Lobo Antunes marca o regresso a um dos pontos mais altos da sua narrativa que iniciou, em 1979, com o romance Memória de Elefante. Quase que se poderia caracterizar o registo deste livro como um romance policial - com a devida distância, claro -, tal é o modo como o argumento e as personagens se desenvolvem num cenário em que cada capítulo acrescenta mais uns pós à história, obrigando o leitor a avançar para saber o que se está a passar.

E de que trata o romance? Uma pergunta nem sempre fácil de responder, apesar de o autor achar que a sua narrativa é transparente e, ao mesmo tempo, garanta: "Nunca penso na história do livro." É sabido que António Lobo Antunes não aceita que se inscrevam os seus romances no formato típico da literatura - um protagonista e uma acção com contornos definidos. Mas, queira ou não, este é um romance em que o leitor antuniano que se tornou preguiçoso - o que diz "eu gosto é das crónicas dele" - volta a sentir-se desafiado na leitura de quase 600 páginas. Uma coisa é certa, há neste um paralelo com a dimensão monumental de Fado Alexandrino, de 1983.

Da Natureza Dos Deuses é também diferente porque introduz e aprofunda algumas das técnicas  de escrita que Lobo Antunes tem vindo a apresentar nos últimos trabalhos. A ser questionado, foge desse tema dizendo: "Para mim, o livro está acabado há dois anos. Depois disso já fiz mais um, A Última Porta Antes Da Noite, e agora estou a escrever outro." Prefere divergir e conversar sobre a má época que a literatura atravessa: "É um momento muito complicado, em que ninguém compra livros. Pelo menos no estrangeiro as editoras queixam-se." Curiosamente, a tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas já está na quinta edição. Contrapõe a situação nacional: "Cá em Portugal as livrarias estão vazias, porquê?" Ensaia a resposta: "Mesmo aquelas pessoas que escrevem livros e que vendem muito estão com vendas muito menores. Até parece que é o princípio do fim e que chega a hora de novos nomes neste tipo de livros. Não cito nomes portugueses, mas o leitor acaba por ter razão quando dá uma vida curta a certos livros. Quem lê o Dan Brown ou a Profecia Celestina agora?" A conversa que se segue está reproduzida no tom em que aconteceu. Sem grandes alterações no registo.

Este seu novo romance vai vender?
Não pensei nisso, tanto assim que ainda não dei nenhuma entrevista e por mim nem falava mais.

Este não é um livro habitual...
O que é que uma pessoa pode dizer de um livro? O que podia dizer está escrito no livro. Esperava que nenhum romance fosse habitual, gostava que fosse uma surpresa para mim e para os leitores.

Enquanto o lia lembrei-me do seu pai reclamar sobre os seus livros e achar que só tinha feito um, o Fado Alexandrino.
Antes de escrever o Fado Alexandrino ele dizia isso... Este é mais ou menos um livro do mesmo tamanho, que no plano inicial tinha 40 capítulos e acabou com 37. Tirei três da última parte. Tenho sempre um plano muito vago e depois não sei o que vou escrever. Não faço a menor ideia do que vai acontecer neste que estou a escrever.

Se o seu pai lesse este livro diria que era um escritor?
Acho que a resposta dele era afectiva. Ficou muito surpreendido com Memória de Elefante, que lhe ofereci, tendo-me dito: "Isto é um livro de principiante." Pensei nunca mais lhe oferecer nenhum porque fiquei muito ofendido. Tinha 36 anos. Creio que já não lhe dei os outros, mas sei que os leu porque o disse aos meus irmãos. Sobre o Fado Alexandrino também não foi a mim que disse alguma coisa. Ele queria que eu fizesse um romance com a amplidão que estava na cabeça dele enquanto leitor. Ele tinha uma segunda edição de Mort à Crédit, de Louis-Ferdinand Céline, e passou-me aquilo para as mãos. E os livros do Céline eram grossos! Foi uma revelação ler aquilo.

Memória de Elefante ainda vende!
Vai em 30 e tal edições. No outro dia vi uma edição de um deles que estava na 17ª. São long sellers.

Mas era um livro de principiante?
É, na medida em que foi o primeiro livro que publiquei.

Que já tinha um registo próprio.
Nunca tinha publicado e um dia aquilo veio. Nunca li um livro meu e há uns anos saiu uma edição de bolso e, como tinha que almoçar sozinho, levei-a e pus-me a folhear aquilo. E fiquei pasmado! Claro que já não escrevo assim, nem deveria ter escrito assim, mas fiquei espantado com a força que aquilo tinha. E pensei: se fosse editor publicava isto? Sim, porque tenho a certeza do que este gajo pode vir a fazer. O rapaz que escreveu isto. Não pelo livro em si, mas porque está cheio de força, mesmo que ainda mal dominada. Tem um punch do caraças. O livro andou por aí a passear e ninguém queria aquilo, depois saiu e foi o que se sabe. É natural a surpresa porque as pessoas a seguir ao 25 de Abril estavam à espera das obras-primas guardadas nas gavetas por causa da ditadura e não apareceu nada. A primeira pedrada é em 1977 com o Dinis Machado e O Que Diz Molero. Que é um belíssimo livro. Os de antes continuaram a escrever como até então - ser escritor nessa altura devia ser terrível - e não foram capazes de se libertar. O leitor não aderia, não se vendiam muitos livros. Talvez o Fernando Namora, e olhe como ele desapareceu. Não sei se é injusto referir, mas quem é que lê o Vergílio Ferreira e esses escritores todos, que são tantos?

Não se sente um pouco abandonado e só na sua geração?
Ainda há muitos. A Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, a Teolinda Gersão... O problema é que um bom escritor é uma coisa muito rara e agora não os há. Três ou quatro no máximo no mundo inteiro. Não estava a pensar em Portugal, onde nas gerações mais recentes não há nenhum que entusiasme especialmente. Até porque estão muito abandonados e os editores não fazem o seu trabalho.

Aceita opiniões da sua editora?
Isso nunca se passou. Aceito as opiniões todas, mas depois faço o que me apetece. Muitas vezes até pode ser que as pessoas tenham razão.

Não se tem dado mal com isso?
Não, só sei que nunca foi dessa maneira. Julgo ter consciência do que valho e do que estou a fazer. Posso estar enganado. Faço uma primeira versão à mão, depois corrijo para outras folhas com dez correcções em cima, dou para dactilografar e volto novamente às revisões. Portanto, o livro é muito trabalhado.

Este será o próximo [uma pilha de folhas próxima]?
Será, se valer a pena.

Era capaz de pôr de lado um livro depois de estar pronto?
Claro. O problema é sempre o reescrever e corrigir. É como dizia aquele meu amigo, de quem tenho muitas saudades, o Eugénio de Andrade. Tem um livro que se chama Ofício de Paciência... Ele era muito lento a escrever e a poesia dele era muito trabalhada. Não interessa se era bom ou mau, o homem suava sangue para fazer uma linha. Nem o imagino de outra maneira. Basta ver os manuscritos de Tolstói, onde não há uma página sem ter correcções. Estive com um manuscrito do Cortázar na mão e está cheio de correcções. Aquilo parece que é feito como quem mija.

Neste livro usa novas técnicas. Há palavras cortadas a meio...
Isso já havia nos outros...

Mas neste é mais intenso.
Sim, há uns cogitus interruptus... Estava a tentar experimentar uma nova técnica, a ver se dava ou não, porque juntei isto das palavras cortadas a outras coisas. A técnica da escrita interessa-me cada vez mais. Na altura, quando entreguei o livro, pareceu-me que estava bem, mas como nunca o li não sei. Nunca leio um livro meu da primeira à última linha, tenho medo, mesmo que agora comece a sentir curiosidade. Porque, é claro, estou na recta final e é neste momento que temos de dar tudo.

Na recta final porquê. Não tem mais livros para escrever?
Não faço a menor ideia. Talvez porque nestes últimos dois anos a minha família tenha sido muito fustigada e morreram-me muitas pessoas. Da família, amigos muito grandes, como um meu camarada na guerra e o homem mais corajoso que conheci. As últimas palavras que lhe ouvi foram: "Amo-te, meu querido." A morte dele custou-me horrivelmente. E morreu também um soldado, a quem lhe aconteceu esta história quando estávamos em Marimba, na Baixa do Cassange: a população vinha até ao arame farpado pedir comida em latas velhas e enferrujadas e havia um miúdo de 5 anos que também aparecia. O José Mendes tinha pena do menino e metia-lhe comida na lata. Há relativamente pouco tempo, o menino apareceu-lhe em Lisboa, agora um homem muito rico que vive entre Angola e Portugal. É extraordinário como aquela criança andou 40 anos à procura de um rapaz de 20 anos que lhe dava de comer. Nunca o esqueceu.

No seu caso, está de boa saúde?
O Tolstói, a certa altura, escreve: "Lutei comigo para ser melhor do que o Shakespeare.E depois? Ser melhor que o Moliére. E depois?" Eu sei que esta obra vai ficar, Os Cus de Judas vão existir por milhares de anos. A obra fica e eu não serei nada. Por que carga de água a obra vai sobreviver e eu vou morrer? Ninguém está preparado para morrer, mesmo sabendo que está próximo. Nunca vi ninguém preparado para morrer, é uma surpresa e uma injustiça. Então, de que me serve? Já reparou que cada vez me vêem menos, que não apareço nos jornais e nada digo. Porque não tenho importância, mas os livros poderão ter independentemente do autor. Sabemos lá quem ele era!

Não é por mau feitio ou impaciência que não quer aparecer?
Não tenho muita coisa para dizer. Nos livros nem digo nada. Acho que escrevemos livros porque se sofre. E os intervalos entre os livros é um sofrimento ainda maior. Mas à medida que o tempo passa existem muitas coisas que começam a ser claras e a pessoa despe-se da vaidade. Não tenho dúvida em dizer que ninguém escreve como eu, mas não sou eu, é o António Lobo Antunes, que é uma pessoa que ninguém sabe quem é. Porque o eu é um menino assustado, muitas vezes com medo e por vezes perdido. A medicina ensinou-me que em qualquer idade que o homem esteja, quando está doente ou não, quer a mãe. A mãe vai salvá-lo, só a mãe. A  minha mãe morreu há pouco mais de um ano e, no outro dia, estava a escrever sozinho e de repente saiu-me da boca alto e em voz forte "Quero a minha mãe". É extraordinário como depois da morte as pessoas que criticávamos tanto e de quem achávamos que gostávamos pouco ficam diferentes. Temos saudades. Às vezes parece que sinto o cheiro dela. A sua presença. Mas não está cá, como tive a impressão de que ela nunca estivera a vida toda comigo. E vem o remorso, porque somos muito injustos e ingratos com pessoas que nos deram muita coisa. Só o compreendemos quando é tarde demais. Há uma frase do Joseph Conrad, no Coração das Trevas, em que deveríamos pensar mais: "Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela, que chega sempre tarde demais." Agora podia dizer "tenho muitas saudade de si, mãe, amo-a". Coisa que nunca fui capaz de lhe dizer antes. Vejo agora o que devo aos meus pais. A criarem aqueles filhos todos, a preocuparem-se que lessem e comessem. Havia pouco dinheiro. Era a minha mãe quem nos fazia a roupa, adaptava as dos meus tios. O meu pai ganhava pouco, estava sempre com o olho no microscópio e não era capaz de cobrar dinheiro aos doentes. Na altura eu não reparava. Fui egoísta, vaidoso nunca fui. O que é que deixo? Papel e palavras, é o que vai ficar de mim.

A sua mãe preocupava-se que acabasse a vender Bordas d'Água e pensos rápidos nas esplanadas...
Sim, queria que eu tivesse uma profissão em vez de inventar histórias e escrever versos. Não sei se ela conhecia escritores... Conheceu o professor Bento de Jesus Caraça em miúda e ficou maravilhada. Infelizmente, não tive na infância pessoas miraculosas - só mais tarde. Sentia-me sozinho, como o meu pai se sentia, sempre só. E os filhos herdaram um pouco disso.

Também não força a sua solidão?
Quando estou a escrever não tenho tempo. Isto come tudo. A sensação que sempre tive é que me tinham dado uma coisa que não me pertencia, esta coisa de escrever, e tinha a obrigação de a devolver em forma de livros. Era emprestada e a qualquer momento podiam tirá-la. Tenho de forçar quando não aparece nada e esperar que as coisas venham. Acabam sempre por vir. Ao mesmo tempo tive muita sorte porque quando toda a gente me atacava aqui em Portugal - o que não me interessa nada - os livros eram um sucesso. Logo que o primeiro livro saiu, um senhor que não conheço chamado Vasco Pulido Valente escreveu assim: "Um livro de um desconhecido publicado por uma editora desconhecida." ou "O herói romântico dos anos 70". Contra o Memória de Elefante foi logo pancadaria e bofetada de meia-noite. Era só uma história e essa animosidade levou vários livros. Percebo porquê: inveja. Ninguém sofre tanto como um invejoso com os sucessos do objecto da inveja. Eu era mais bonito, tinha mais talento, as mulheres andavam atrás de mim em quantidade que não acabava - sempre as tive, para que é que havemos de esconder isto? -, e três meses depois daquele sucesso louco sai Os Cus de Judas e aumentou ainda mais. Por mais que tentemos esconder no mais fundo de nós, a sensação de derrota dos outros é a nossa vitória.

Também sentiu isso em relação aos seus colegas escritores?
Não senti, porque sabia desde o princípio que era o melhor. Isto era evidente: eu era o melhor. E se não o era então, iria ser se me dessem mais livros e espaço. Não tinha motivo para ter ciúmes de ninguém, pois se escrevesse faria melhor. Isto dito assim parece um exercício de vaidade mas não é, até porque vou morrer. Não sei quando, mesmo que já tivesse tido a morte muito perto e continuasse a querer escrever. A seguir à primeira operação, garanto, a vaidade foi-se toda. Depois, há dois anos e tal, tive um cancro em cada pulmão e um tinha um prognóstico fodido, mas estou aqui e bem. Tive muita sorte. A quimio é um coice enorme, mas as pessoas com quem me encontrava lá ainda ficavam mais bonitas quando tiravam a cabeleira postiça.

Neste livro nota-se muita crueza...
Em que sentido?

O de ser um livro cruel...
Cruel implica um desejo de fazer sofrer as outras pessoas e não queria fazer sofrer ninguém.

Há personagens que o fazem...
Ficamos melhor quando passamos pela provação do sofrimento. Mais tolerantes. É evidente que este livro tinha uma ideia de partida que não pude concretizar.

Porquê?
Por razões que não têm que ver com literatura. Adorava poder agarrar em certas pessoas que existiram e existem e escrever sobre elas uma coisa absolutamente demolidora, mas não o posso fazer porque iria magoar pessoas - sobretudo uma que me é muito próxima. Não o posso fazer, mas aquele material daria um romance extraordinário. Tenho muita pena, mas não quero magoar pessoas de quem gosto.

Não quer ser cruel?
Não quero magoar. É claro que me agradaria escrever um livro com estas pessoas... E não me seria difícil. Ou, por exemplo, um livro sobre políticos. Também não seria difícil, mas são tão reles que me enojam. Tinha de tomar banho após escrever. Não consigo conceber uma pessoa que toma decisões irrevogáveis e que não as cumpre. Isto é um exemplo. Podia multiplicá-los.

Agora tem um novo governo...
Claro que estou mais contente, já estava farto de mentiras e de mediocridade de quem nem português sabe falar. Isto é um grande pecado. Os meus avôs era os dois de direita feroz, salazaristas e monárquicos, no entanto eram as pessoas mais doces, democratas e tolerantes que encontrei. Quando estava com o George Steiner em Cambridge, lembro-me de ele dizer: "Nenhum dos bons alunos daqui vai para a política." Realmente, quem está agora na política é medíocre. Todos, não importa se são de direita, centro ou esquerda. Compare-se este François Hollande ou Mariano Rajoy com Olaf Palm, Willy Brandt, De Gaulle ou Churchill... No meio disto, a senhora Merkel é um génio. E nós levamos lá uns saloios, no sentido antigo da palavra porque saloio sou eu que venho de Benfica. Não é no sentido social mas mental. O que Eça de Queiroz diria desta gente, ou o Herculano? Discursos, ideias e personalidades miseráveis.

Sente-se mais um escritor do mundo do que de Portugal?
Eu sou português, é para eles que escrevo. Nunca imaginei que me iriam alguma vez traduzir. E com estes prémios todos, até na China. Agora foram cinco livros para os Estados Unidos. Está por todo o lado. Na Suécia, há duas editoras a publicar-me. É muito estranho isto que se passa comigo! Foi lento, depois aquela explosão em França, com os teatros a darem durante seis meses António Lobo Antunes. Logo eles que são tão chauvinistas, que nos consideram um povo de mulheres-a-dias. Fiz mais por Portugal do que estes políticos juntos, pus a bandeira nos mastros das principais capitais da Europa. Vaidade não é, trata-se do que aconteceu. Da Áustria a Isarael, e com o meu nome vem Portugal. Eu pouco interesso, é o país. Ainda hoje dava a vida pelo meu país - não na guerra de África, onde não tínhamos razão nenhuma -, mas se houvesse uma como a Primeira Guerra Mundial. É o meu país, deu-me tanto, gosto tanto dele. Não é o Portugalzinho do meu amor! Ou o daquela quantidade de parvos que se entretém a escrever sobre mim. No El País disse que não era possível ser bom escritor sem se ter fodido. É o que penso, mas não daquela maneira, nem naquele contexto. Tudo quanto é cachorro vadio andou a tentar morder-me as canelas. Vão para a puta que os pariu. Porque têm de saltar muito alto para chegar aos meus pés. É evidente que aquilo era dito num determinado contexto e sentido. Fui logo avacalhado. Parece que há pessoas que não suportam o talento dos outros quando deveriam era ficar contentes. Eu só não fico contente quando o Sporting ganha, porque prefiro que seja o Benfica.

Não reconhece valor a Pessoa?
Não gosto e sou capaz de fundamentar, mas não me parece importante falar disso. Continuem a morder-me, é-me indiferente. Insultaram-me e não respondi a nada. Podem ladrar à vontade. A mim não me ouvem dizer mal de ninguém.

Quando publica um livro e lê as críticas não se irrita com a recepção nesse "Portugalzinho"?
Não, não sei como é por cá porque não as leio. Há países onde não tenho críticas, são mais adjectivos, e também não as leio.

Qual é a língua em que mais estranhou que o quisessem ler?
A Etiópia e o Irão surpreenderam-me. Agora sou viral, como dizem os parvos! Há certos países e pessoas que funcionam como referências, e se eles falam é-se replicado por todo o lado. Nos Estados Unidos é O Harold Bloom, em Inglaterra o Steiner. Opiniões decisivas.

Porque não participa nos muitos festivais literários em Portugal?
Não vou porque falta tempo. Agora recusei um convite para Buenos Aires. Tantas horas de viagem! As viagens são muito compridas e tenho de estar sempre a responder às mesmas perguntas. E nos jantares ficam a ver como pego nos talheres. Tenho sempre os olhos em cima!

É o terrorismo que o preocupa?
Nunca pensei nisso. Uma bomba no avião? Nisso não penso, até porque gosto muito da comida dos aviões. Faz-me voltar  à infância! Como vou em executiva é óptimo porque tem talheres, imensas coisas para abrir e vermos o que há lá dentro. Gosto muito de andar de avião! Devia haver um restaurante que servisse comida de avião naquelas bandejas. Tem um lado de brincar aos jantarinhos que gosto.

Voltemos aos festivais literários em Portugal. Porque não vai?
É a mesma coisa que me faz não ir a Munique agora. E a minha editora alemã é muito preocupada com as traduções, porque já lá vai o tempo em que os livros eram traduzidos do francês, como faziam o João Gaspar Simões e a Isabel da Nóbrega. Podemos ficar com uma ideia do livro, mas é impossível traduzir Tchekhov! E a língua deles é lindíssima, veja-se como é bonita a língua russa falada pelo Putin. Aliás, uma das coisas que os russos admiram nele é o seu russo, o modo como maneja a língua com aquela voz bonita. É quase impossível traduzir e quanto melhor é um escritor mais simbólica é a sua língua.

Então, vamos ao simbolismo. Se está tão fechado em casa, como é que sabe do mundo que aparece em Da Natureza Dos Deuses?
Viajei bastante até agora e não me fecho ao mundo. Não tenho é tempo fora dos livros.

Vai buscar muito ao passado?
Sei lá onde vou buscar...

Então, as viagens deste livro não são só do passado?
Ir a Cascais não é uma grande viagem, são 20 minutos. Só se formos a pé e descalços.

Repito. Porquê um livro tão cruel?
Eu não sou um homem cruel.

Falo das personagens.
Ah são... Vou tentar lembrar-me delas... Sim, algumas são. Há o homem que fecha a mulher no quarto. É um monstro mas é um desgraçado, um infeliz que pede ao criado para fazer o filho por ele. É esse, não é? Queria concentrar nessa figura várias pessoas, 15 ou 20 homens diferentes, que gostava de ter podido espalhar por outras personagens. Mas isso é um coisa que não posso fazer. O Thomas Mann pôde escrever Os Buddenbrook, mas eu não posso. Talvez o faça num livro para ser publicado depois da morte, sobre pessoas que não quero que sofram com isto. Não farei, chateia-me escrever um livro e ficar por publicar. Mas haverá alguma coisa de real nas pessoas e vozes que habitam os livros. Vêm de onde? Ninguém é como aquela gente, mas há pessoas pelas quais tenho dificuldade em sentir piedade. Temos a mania de que a inteligência é a maior virtude, mas a bondade é maior. O meu irmão João diz isso: "O pior defeito que um homem pode ter é a ingratidão."

As mulheres sofrem muito neste livro. Qual é a razão?
Elas sofrem muito em todos os livros. Sobretudo, na vida. Porque as coisas mais pesadas caem sobre elas. O tempo tem-me ajudado a respeitar as mulheres, mesmo que nenhum homem as conheça bem.

É um livro que tem uma particularidade literária: os decotes das mulheres. Mais ou menos abertos conforme são as personagens!
Os decotes. Não reparei nisso.

Há um broche que fecha a vista...
Não tenho nada contra os decotes. Falo muito em decotes?... Elas podem ter muitas toiletes, mas isso não lhes compensa a solidão.

Quando elabora as personagens...
... Eu não as elaboro, elas já chegam inteiras.

Então, distrai-se a vesti-las?
Falo muito em roupa? Não me lembro... Não é assim na vida também? Se é, então não está mal.

Tem mais personagens do que é habitual e dá-lhes nome. É para se orientar?
Não é nada premeditado, eram muitos e as pessoas podiam confundi-los. Quanto à escolha dos nomes, é de grande dificuldade. Nas classes mais altas é assim: o Senhor ou a Senhora. Os empregados é que têm nome. Neste livro que estou a escrever agora, nenhuma tem nome. É sobre gente muito pobre. Este, é da burguesia.

A palavra mais repetida neste livro é "puta". Porquê?
Puta? Tem a certeza? E não é sempre a mesma pessoa a dizer isso? Terá que ver com os habitantes do livro e da maneira como olham para as mulheres. É uma determinada classe social que as vê como coisas que se utilizam e deitam fora. Encontrei pessoas assim, todas da mesma classe social. E as mulheres são objectos, com ambição, que de certa maneira se comportam como eles. É um livro sobre uma certa camada social, onde as relações homem/mulher não são como as entendemos, mas muito diferentes.

É uma relação de poder?
O poder que elas têm só existe se forem provocantes numa forma primitiva, através dos brincos, dos anéis e das roupas. Esses homens só pensam em cobri-las de joias e não percebem que o empregado é mais amado do que eles. Este é um livro sobre os senhores do mundo em Portugal. Eles não obrigam só as mulheres a obedecer, também os homens que estão abaixo deles, até quando entram para a família são humilhados. É o poder que vem com o dinheiro. Não é em vão que tem havido tanto escândalo financeiro em Portugal. Eles dão dinheiro aos partidos antes das eleições mas desprezam as pessoas. Continua a haver uma oligarquia na sombra que é quem realmente manda. Havia determinadas pessoas que nos últimos governos tinham lá três/quatro ministros que lhes pertenciam. Podia ser ministro mas era apenas um empregado. O poder deles é quase ilimitado e não é exercido frontalmente, chega por trás até quem de direito. Era empurrado, dava três cambalhotas e caía num ministério. Só lendo o livro é que se percebe do que estamos a falar. E não vale a pena estar a empurrar-me para essa questão porque não quero ir mais longe.


05.12.2015
texto de João Céu e Silva

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

04/12/2015

AM: Opinião de leitura sobre Da Natureza Dos Deuses

Os títulos dos livros de António Lobo Antunes (ALA) são, na sua maioria, citações. O último “Da natureza dos deuses” é o título de um livro de Cícero. A principal temática deste livro é o poder e a riqueza. Monopólio e domínio. Submissão, servidão e subserviência. Infidelidade. Desumanidade. Velhice: “que maldade incompreensível o tempo”. A grandeza: “uma casa maior do que todas as casas do mundo, salas, corredores, varandas e o jardim e o pinhal e o campo de ténis..".

Este, é um dos livros maiores de ALA, ultrapassa as 500 páginas, exactamente 574, talvez também a fazer a analogia à imensidão dos deuses do título. Os nomes dos personagens, como é tão característico de ALA, são poucos. Os personagens deste livro são: a Senhora, o senhor doutor, o senhor presidente, o avô da Senhora, o sem abrigo, a dona da livraria, a funcionária da livraria, o empregado de casaco branco (Marçal), o sujeito da editora, secretária loira, o senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) casado com a secretária loira do senhor doutor (amante do Sr. Doutor), o senhor presidente, a esposa do deputado, a dona da loja de roupa, o homem mais novo que o senhor doutor. O livro divide-se em 4 partes. As primeiras 3 partes com 10 capítulos cada e a quarta parte com 7 capítulos. Este livro passa-se entre Cascais, Estoril, Guincho e Lisboa.

O livro começa pelo tempo presente. O primeiro capítulo começa com a funcionária da livraria, que é uma retornada de África, vive com um filho pequeno numa casa barata de Cascais e já passou os quarenta: “sou fácil de enganar, perdoo a todo o mundo, olho e não vejo, vejo e não ligo”. Não entende a razão de a Senhora conversar tanto com ela: “qual o motivo de falar comigo sou pobre”. Vai muitas vezes a casa da Senhora, que está sempre sentada com um cãozito nos braços, entregar livros: “a mulher idosa percorria o cãozito no colo com o anel”... “numa poltrona grande demais para ela... quase em contraluz, transparente, a voz apenas...”. Vive o presente numa profunda solidão mas refere-se a um passado totalmente diferente: “os jantares que havia aqui o rei da Itália, o rei da Roménia, o duque inglês... A sala com os seus móveis, os seus quadros, os seus tesouros tão caros”. A Senhora “não recebe visitas nem sequer dos filhos... qualquer desconhecida que a escute sem comentários nem perguntas... a garganta magríssima, as linhas claras dos ossos e os dentes tão nítidos sob a pele... não uma mulher idosa ou gasta, uma mulher quase defunta, não o palhaço que durante anos e anos aceitara ser... os olhos vazios".

O pai da Senhora (senhor doutor) “de olhos tão pobres apesar de ser dono de bancos, companhias, ministros”. É uma figura detestável, autoritário, um “dono disto tudo”, “um pulha”a quem toda a gente presta vassalagem: “A quantidade de gente que ele foi degolando ao comprido da vida (...) a afastar-se no sentido de subalternos que o esperavam, atenciosos, curvados (...). É uma questão de princípio não dar confiança a subordinados”. Joga ténis com personagens que vão sempre mudando à medida que vai deixando de precisar deles e à medida que os destrói: “Obrigado por consentir ganhar-lhe.” São continuamente substituídos. Tem sempre raparigas loiras novas a quem cobre com puldeiras e colares, tacões, perfumes que, são também substituídas com o passar dos anos e da idade. “...é sempre desagradável apertar a mão a um pobre, fica-nos o cheiro na pele”.

O avô materno da Senhora era judeu e com “estabelecimentozito de câmbios”. O pai da Senhora salvou o avô da Senhora da falência: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha”. A mãe da Senhora tinha quinze ou dezasseis anos: “Não lhe faço mal descanse... Livra-se de ser preso e ainda ganha um genro que o protege”. O casamento da Senhora foi arranjado pelo pai: “Casas-te em Outubro” e a “Senhora a informar o pai de que preferia o sapo de uma cómoda transformado em príncipe”. O marido da Senhora, “herdeiro de outro banco que o pai da Senhora administrava, mais fábricas, mais empresas,...um monte no Alentejo, dois barcos na marina...”.


O avô paterno da senhora (pai do senhor doutor): “O meu pai teve que afastar o meu avô dos negócios... o meu avô morreu sem lhe ter perdoado... sem conhecimentos nem estudos... vendia jornais e lotarias no início, emprestava dinheiro no bairro... não se conhecia o pai, a mãe apenas, que trabalhava nas limpezas... ao regressar da tropa o pai da Senhora, há quem se lembre dele do bairro, aumentou os juros e transformou o negócio contra a vontade do meu avô... o pai da Senhora chamou advogados que proibiram o avô da Senhora de entrar”. O pai da Senhora para o avô da Senhora: “A partir de hoje começa a sua santa vida que sorte... A partir de hoje tem tempo para o dominó com os amigos ler o jornalzinho e gozar a reforma... você está gasto não presta”. “O pai da Senhora comprou-lhe uma casita com uma horta na província e pagou a uma camponesa para tomar conta dele”.

O senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) é casado com uma das secretárias loiras do senhor doutor (e sua amante). Começou na contabilidade e passou, depois, a adjunto. Tem gabinete próprio, automóvel, secretária loira e facilidades no crédito desde que não abuse. O senhor doutor cumprimenta-o: “ele que não cumprimenta ninguém e eu honrado... convida-me para o ténis aos sábados, onde a minha esposa se senta ao lado dele, tão loira (...) sem me apertar a mão, claro, mas uma honra da parte de quem não cumprimenta as pessoas de modo que eu, agradecido”. Insinua que o filho mais novo é filho do senhor doutor: “o único que não se parece comigo, a coincidência de uma pálpebra pendente como o senhor doutor”. Sem um poder comparável ao senhor doutor, o senhor engenheiro, apesar de subalterno, de acordo com determinada hierarquia, tem poder. Como tal, também tem uma secretária loira, que é sua amante. Com o desenrolar das páginas, perceber-se-á que essa afirmação sobre a questão da paternidade do filho mais novo não faz sentido.

O Senhor presidente: “o que manda em Portugal... o senhor doutor visitava-o aos domingos... de pés numa escalfeta e manta nos joelhos... uma voz fraquinha (...) a voz fininha... de fatito cinzento e cabelo branco (...) sempre sozinho, escrevendo bilhetes minúsculos, numa caligrafia minúscula, para os ministros que não o viam, eram nomeados e despedidos através de cartõezinhos daqueles (...) o senhor presidente, que o mundo inteiro temia. Parece o personagem que vivia no sotão no livro “Caminho como uma casa em chamas”.

A mulher do senhor doutor (mãe da senhora) está aprisionada num quarto no alto da casa de onde, através da janela, está sempre à espreita e a ver os jogos de ténis. “O meu marido mandou pôr uma cadeira no meu quarto, mesmo no alto da casa, onde até os falcões da serra vejo e o mar por trás dela, outro mar além do Guincho... para me visitar de vez em quando, sinto-lhe os passos no corredor, mais lentos do que os dos criados, o empregado de casaco branco destranca a fechadura, volta a trancá-la quando ele se senta, sem olhar para mim, e fica ali calado...”. Há uma ténue alusão à infidelidade da mãe da Senhora: “anos depois a mãe da Senhora no comboio para Madrid com um homem...de óculos escuros e lenço na cabeça”.

O Marçal é o empregado do casaco branco, o“faz tudo” e o “cachorro” do senhor doutor. É o único que não foi substituído (...) Quando morreu foi o único momento em que vi o senhor doutor chorar... no escritório, não limpava as lágrimas, desciam-lhe as bochechas encalhando nas rugas”.

O sem abrigo atravessa todas as partes e todos os capítulos. O seu papel no livro, é para mim, um enigma.

A cronologia deste livro divide-se em várias gerações. Talvez do começo do Estado Novo até aos dias de hoje.

Há sempre algumas frase autobiográficas claras de ALA: “lembro-me que não chorava, não era que não me desse vontade, as lágrimas não saiam (...) Não me recordo de ser muito de beijos... aconteceu-me chorar...fui secando com a vida (...) sempre tive um problema com lágrimas, o meu pai não chorava, a minha mãe às vezes... mas escondia-as logo (...) a quem as lágrimas tornam um fraco”.

Há as habituais referências a África e à tropa, mesmo que de forma muito ténue. E as histórias paralelas que abordam o aborto, maus tratos e relações ocasionais. Depois de todas as evidências e aparências dos personagens há o submundo, a parte frágil e humana de cada um deles. Os livros de ALA, ao contrário do que o próprio não assume, são difíceis de perceber. Os leitores habituais terão bastante menos dificuldades para perceber as frase polifónicas, analepses e prolepses mas há uma analogia cinematográfica que se poderá fazer com os filmes de David Lynch. Muitas vezes os mistérios não são desfeitos e muitas vezes existem partes que poderão ter sido escritas para serem mesmo incompreensíveis. Quem sabe?

Famílias destruturadas. Traições. Mentiras. Humilhação. Desprezo. Insensibilidade. Mentiras. Ilusões. Indiferença. Destruição. Mostra-nos que o poder pode, quase tudo, mas não tudo. O senhor doutor, a mãe da senhora (mulher do senhor doutor), a senhora e o Marçal (empregado de casaco branco) são as chaves deste livro. Os dados estão lançados. Parte das personagens e do enredo está exposto. Mais não digo. Falta agora o leitor envolver-se e interpretar à sua maneira. Espero que aproveitem e desfrutem este livro que, apesar de denso, é cativante e nada monótono. Não sei se sou eu que me torno a cada livro mais devota do estilo de ALA e dos seus livros, ou se com o passar dos anos, comecei a percebe-lo melhor. Continua com a sua habitual escrita tão real, quotidiana, cuidada e cinematográfica.

Este livro já estava escrito há dois anos. Por esse motivo, não há qualquer relação entre os factos actuais do poder e queda dos banqueiros e bancos e a sua queda com este livro. Parece tratar-se de um pronúncio mas (provavelmente) não passa (de uma mera) coincidência. O livro não está organizado de acordo com este texto. Este texto é (apenas) a interpretação que faço do livro, que poderá não ser a verdadeira.


por AM
01.12.2015

03/12/2015

Isabel Lucas - crítica a Da Natureza Dos Deuses

Lobo Antunes e a busca da chave certa


Em Da Natureza dos Deuses, o escritor persegue um sentido original da linguagem enquanto modo de expressar um interior que se escapa sempre.


Uma personagem do mais recente romance de António Lobo Antunes interroga-se sobre a razão pela qual o marido a mantém no casarão, “uma espécie de paixão não no sentido de paixão, no sentido de paixão, compreendem, de amor não no sentido de amor, no sentido de amor, compreendem, porque a paixão e o amor não são paixão e amor, à força de usarmos as palavras modificámos-lhes o significado e estou apenas a tentar dar-lhes o significado que modificámos, dizer paixão no lugar de paixão e amor no lugar de…” A tentativa de chegar o mais perto possível de um sentido original da palavra, da linguagem enquanto modo de expressar um interior que lhe escapa sempre — porque a linguagem parece andar sempre atrás e o sentido das palavras se vai alterando pelo uso —, é cada vez mais evidente no trabalho de António Lobo Antunes. A procura desse sentido é tão arriscada quanto sinal da liberdade literária que o escritor persegue, partindo do que parece ser uma angústia central: e se a linguagem não chegar, e se o homem não for mais capaz de a usar para nomear o essencial?

A pergunta “o que acontece à linguagem com o tempo?” sucede a outra interrogação, mais humana: o que é que o tempo faz com o homem, como altera a sua percepção do mundo e o modo de comunicar nele e sobre ele? A angústia perante a perda da comunicação — ou da sua ineficácia, o que é o mesmo —, não como acessório burocrático mas como algo primordial, atravessa mais uma vez a escrita do escritor no seu 26.º romance, um romance irónico, amargo, melancólico. Da Natureza dos Deuses replica o título do livro de Cícero, escrito em 45 a.C. para retomar temas como memória, a velhice, a morte, o pós-colonialismo, a sexualidade, o divino, amor, o tempo (“que maldade incompreensível, o tempo”, pensa outra personagem) dando especial ênfase ao poder e à percepção que dele têm quem o exerce e quem é por ele dominado.

Num casarão entre Cascais e o Guincho, uma mulher, a Senhora, recebe periodicamente a visita de uma empregada de livraria que lhe entrega embrulhos com livros que ela não abre. Fátima é a confidente de uma história de família centrada na figura do Senhor Doutor, pai da Senhora, um déspota, agiota, que pediu a mão da mulher nos seguintes termos: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha.” E “o judeu a secar-se no lenço sem que o pai da Senhora reparasse nele, de cara a desaparecer da cara e expressão alguma, ruga alguma, apenas o bigode a hesitar, a mãe da Senhora quinze ou dezasseis anos, dezasseis…” Fátima, a empregada da livraria, ouve. Tem 36 anos, um filho de seis, o marido deixou-a, e ela vigia, com uma atenção que ultrapassa a mera curiosidade, o sem-abrigo que se alimenta da loja de hambúrgueres no centro de Cascais, bem perto da livraria. Fátima veio de África em criança e, como a Senhora, sabe que na vida “procuramos o que se segue e descobrimos o princípio”. É a velha história do passado que não larga e que tem alimentado tanto a literatura. William Faulkner colocou isso numa frase em O Som e a Fúria que tem sido traduzida com várias nuances: “O passado não está morto. Nem sequer passou.”

No início do romance, Fátima tem umas chaves nas mãos. “Mandaram-me pela primeira vez a casa da Senhora mais ou menos na altura em que encontrei o sem-abrigo a dormir no degrau da livraria e palavra de honra que só dei por ele no momento em que tirei a chave da carteira para abrir a porta, ou antes duas chaves na argola com um ursinho de pano a que faltava o olho direito, a boa, e uma segunda de que continuo a ignorar a serventia, desde pequena que as chaves me intrigam, misteriosas, secretas, introduzindo-as na fechadura abrem o quê, se lhes perguntasse…” No casarão, ela escuta a Senhora e interroga-se sobre as portas fechadas ao longo do corredor. Aquela casa é o centro do livro e, dentro da casa, o Senhor Doutor. Uma e outro atravessam o romance, como a figura do sem-abrigo a caminhar em direcção ao mar de Cascais, espécie de fantasma a cruzar o tempo. São permanências, enquanto os narradores se sucedem, personagens secundárias de uns, centrais na existência de outros, mas sobretudo na própria, e tantas vezes encerrados nela. Quem lê o Lobo Antunes das crónicas percebe que elas funcionam como um laboratório do romance. Há detalhes importados, personagens que se ensaiam, e o apurar do tal trabalho sobre a linguagem que persegue desde o primeiro livro, Memória de Elefante, publicado em 1979. Desde então, é como se Lobo Antunes andasse sempre às voltas com o mesmo livro, cada vez menos narrativo na concepção tradicional do termo — o contar da história —, e cada vez mais a procura da linguagem (num trabalho de arqueologia por vezes demasiado exposto) mais precisa e mais verdadeira face a um tempo, a uma emoção, a alguma coisa muito secreta porque nunca dita.

Em Da Natureza dos Deuses, um dos mais longos romances de Lobo Antunes, volta a haver muitas vozes; interpõem-se, atropelam-se, ecos de vários tempos históricos. E também, mais uma vez, a cronologia é a da memória, pouco obediente ao calendário, mas capaz de refazer percursos e, tanto quanto possível, resolver enigmas para contar uma história que é o presente de um país melancólico e velho: “A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram… “ No futuro, parece dizer Lobo Antunes pensando ainda em Faulkner, o passado existe.


por Isabel Lucas
02.12.2015

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...