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10 de agosto de 2014

Caroline V. Becker: «A personagem na crónica»



As crónicas de António Lobo Antunes são híbridas: por vezes, aproximam-se da construção de um espaço biográfico, por meio do qual autor-cronista anuncia pensamentos, discorre sobre diferentes assuntos e, até mesmo, narra sua vida do passado e do presente; em outros casos (…), a crónica aproxima-se (e apropria-se) da narratividade e da ficcionalidade, por meio dos mundos possíveis ficcionais e, principalmente, por meio da figuração de personagens.

Como identificar qual dessas realizações está diante de nossos olhos? Simplesmente por meio da leitura. O primeiro pacto estabelecido refere-se à voz – que voz é essa presente na crónica? Trata-se da voz de António Lobo Antunes (ainda que como uma persona) ou trata-se da voz de uma personagem, um signo – para lembramos as palavras de Cristina da Costa Vieira –, inserido em um contexto específico, em uma diegese? Nesse pacto, desvendado apenas após a leitura da crónica na íntegra, verificamos se na materialidade textual há uma personagem ou há uma figuração do autor empírico António Lobo Antunes.
Quero ressaltar a deriva ficcional de tais personagens, construídas em um mundo possível; um recurso distinto daquele utilizado, por exemplo, por João do Rio, um dos cronistas brasileiros mais consagrados. Segundo Jorge de Sá, o cronista criou personagens que eram ficcionalizações de pessoas do mundo cultural carioca: “Com isso ele [João do Rio] também prenunciou que a crónica e o conto acabariam em fronteiras muito próximas. Sua linha divisória – às vezes muito ténue – é a densidade. Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, sem ter sequer a preocupação de colocar-se na pele de um narrador, que é, principalmente, personagem ficcional (como acontece nos contos, novelas e romances). Assim, quem narra uma crónica é o seu autor mesmo, e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem” (A crónica. São Paulo: Ática, 2008, p. 9, grifo meu).

As crónicas antunianas não seguem o perfil descrito acima. António Lobo Antunes cria narradores, quase sempre personagens, o que exige uma análise mais densa das vozes enunciativas. No corpus em análise, a impressão “tudo parece ter acontecido” existe, mas refere-se às crónicas analisadas no capítulo anterior. Quando há figuração de personagem, há, também, construção de narrador e de ficcionalidade.

Caroline V. Becker, António Lobo Antunes. Entre escritas de si e figurações de personagem. Porto Alegre: PUCRS, 2012, pp. 85-86 [Dissertação de mestrado]

citado do blog 

5 de junho de 2008

Jason Manuel Carreiro disserta sobre Segundo Livro de Crónicas


A morte do autor e o nascimento do leitor: um estudo da crônica “Receita para me lerem”, de António Lobo Antunes (*)

 

Resumo

Neste estudo, problematiza-se a relação entre a voz narrativa e a voz autoral na crônica “Receita para me lerem”, de António Lobo Antunes, no intuito de discutir a função estética de um texto literário compreendido como pura exterioridade e as implicações de tal perspectiva na relação leitor – obra.
Palavras-chave: Autor; Narrador; Leitor; Estética; António Lobo Antunes.

 

I. Receita para me lerem?


O titulo “Receita para me lerem” (ANTUNES, 2002, p.109-11) pressupõe um texto preenchido por domínios codificáveis no intuito de atingir uma fórmula pronta que possa ser utilizada como ferramenta de leitura – afinal, uma receita é indicação minuciosa sobre uma certa quantidade de ingredientes e a maneira de prepará-los para atingir um resultado final.

Obviamente, a crônica em questão não fornece estes domínios codificáveis com facilidade – os textos de Lobo Antunes são construídos de modo a impossibilitar a apreensão prévia de significantes e significados. O texto do autor português possui uma direta relação com uma exterioridade (assunto a que retornarei de modo mais detalhado adiante) de modo que não há em Receita para me lerem” o tal conjunto de ingredientes que possam ser misturados com facilidade e posteriormente digeridos:

(...) as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para conduzir ao fundo avesso da alma. A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana. Quem não entender isto aperceber-se-á apenas dos aspectos mais parcelares e menos importantes dos livros: o país, a relação homem-mulher, o problema da identidade e da procura dela, África e a brutalidade da exploração colonial, etc. temas se calhar muito importantes do ponto de vista político, ou social, ou antropológico, mas que nada têm a ver com o meu trabalho(ANTUNES, 2002, p.109-10)

O narrador da crônica (talvez possamos considerá-lo o escritor António Lobo Antunes, presente de modo implícito) afirma na citação acima que os elementos que dão a forma de seus romances são apenas “pretextos de superfície” para conduzir a um “fundo avesso da alma”. Ora, se há um fundo avesso a que o leitor possa ser conduzido, os “pretextos de superfície”, que deveriam ser os ingredientes desta Receita para me lerem” não funcionam, afinal, segundo o narrador, esses elementos, que são os “mais parcelares e menos importantes dos livros”, nada têm a ver com seus livros. Se nada têm a ver, não pode haver então uma Receita para me lerem. Pode haver, talvez, uma “viagem ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana”, que leitor e narrador devem percorrer juntos:

Disse em tempos que o livro ideal seria aquele em que todas as páginas fossem espelhos: reflectem-me a mim e ao leitor, até nenhum de nós saber qual dos dois somos. Tento que cada um seja ambos e regressemos desses espelhos como quem regresse da caverna do que era. É a única salvação que conheço e, ainda que conhecesse outras, a única que me interessa.(ANTUNES, 2002, p.111, destaques meus)


Essa jornada em companhia do narrador faz com que o leitor se apodere do texto, se sinta parte dele, pura interioridade no exterior que é o texto: “Peço-lhes que dêem por ela, compreendam que vos pertence ealém de compreender que vos pertence, é o que pode, no melhor dos casos, dar nexo à nossa vida” (ANTUNES, 2002, p.111, destaques meus). Anton Ehrenzweig (1977) diz que nossa mente observadora de superfície, por ter à disposição apenas as estruturas formais (Gestalt) articuladas, é incapaz de atingir as estruturas móveis e fluidas dissipadas nas camadas profundas da mente. Porém, as funções estéticas formais (som, cores, linguagem, etc.) podem permitir que a mente de superfície compreenda esse “negrume do inconsciente, raiz da natureza humana”,caverna do que éramos – mesmo que ele permaneça (e permanece) inatingível. Sua função diante dessa inatingibilidade, então, é dar nexo à vida – a arte como apaziguamento, consolo no angustiante percurso do homem em busca de si mesmo. No melhor dos casos.

 
II. O texto como exterioridade

Consideremos o narrador da crônica em questão uma “representação literária” do desejo do autor empírico – António Lobo Antunes – de falar acerca de seus romances, de sua escrita, enfim. Vimos no tópico anterior que esta escrita a que o narrador se refere é construída com elementos de superfície (pre-textos) no intuito de conduzir o leitor (numa viagem conjunta com o narrador) rumo a um negrume inatingível (inconsciente). Mas se esse negrume é inatingível e permanentemente disforme, como é possível percorrer um caminho em conjunto (narrador e leitor) se não há um objetivo a ser atingido, um porto seguro a ser alcançado?

Partindo da perspectiva postulada por Tatiana Levy (2003) de que, conforme o pensamento de Maurice Blanchot, a arte se realiza na irrealização (ou seja, faz-se necessária uma negação do real para construir uma irrealidade fictícia), parece-me que o narrador da crônica compartilha da perspectiva de que não há algo a ser atingido: o negrume permanecerá negrume, mas há um caminho percorrido (no caso, o texto) que poderá (e deverá) ser interpretado através das vozes e chaves que o constituem. “A pessoa tem de renunciar à sua própria chave aquela que todos temos para abrir a vida, a nossa e a alheia e utilizar a chave que o texto lhe oferece”. (ANTUNES, 2002, p.109)

Operando durante o exercício da leitura com as chaves interpretativas espalhadas e por vezes, escondidas ao longo do texto, o leitor se fará parte do fora, ou no mínimo terá acesso à exterioridade que é o texto:

Fora é o próprio espaço – mas um espaço sem lugar – da literatura. A experiência literária constrói o Fora ela é o próprio Fora. E isso precisa ficar claro desde já, pois o Fora não é o espaço onde a literatura se constrói, mas a própria literatura.Em outras palavras, literatura não é algo que se dê num espaço exterior ao mundo. Ela é o Fora, esse não-lugar sem intimidade, sem um interior oculto, onde o artista é aquele que perdeu o mundo e que também se perdeu, uma vez que já não pode mais dizer Eu. (LEVY, 2003, p.29)
           
Note-se que a postulação “sem um interior oculto” na citação confere total autonomia e, porque não, liberdade ao texto, e remete diretamente ao “negrume do inconsciente” de que trata o narrador, uma escuridão interior oculta, que permanecerá oculta por se ausentar do texto devido ao seu caráter hermético e inatingível.

Para além da discussão acerca do gênero literário, a crônica, essa perspectiva considerará a manifestação literária como uma exterioridade pura. Mas se há nessa exterioridade um negrume que deixa de estar, (ele se ausenta na exterioridade do texto) se há um lugar que se percorre e se presume atingir, mas não se atinge jamais, no que consiste então o valor do ato de ler? Vejamos.

O narrador afirmará no início da crônica que se decepciona quando alguém lhe diz que leuo seu livro. Ele nos informa que seus livros não são para ser lidos conforme o sentido usual que se dá à leitura: “(...) a única forma parece-me de abordar os romances que escrevo é apanha-los do mesmo modo que se apanha uma doença”(ANTUNES, 2002, p.109) Apanhar essa exterioridade como doença remete à perspectiva Nietzsche / deleuziana de que todo fenômeno se estabelece como um sintoma. Vânia Azeredo (2002), ao explicar a busca nietzschiana pela origem do valor dos valores (e Nietzsche remete à cultura Ocidental de modo geral) nos diz que a possibilidade de interpretar e avaliar os sintomas (fenômenos) somente será possível a partir do estabelecimento desse sintoma (para ilustrar a referência, considero aqui o texto como doença que desencadeará um sintoma no leitor) como um jogo de forças, de potência a ser “apanhado” como doença (como afirma o narrador da crônica). É o apanhamento da doença do texto que possibilitará o desencadeamento dos sintomas (fenômenos), de modo que este desencadeamento é o fator que possibilitará a escuta da voz do corpo, inebriado das forças do texto, possibilitando então a viagem rumo ao negrume inatingível e ausente do texto, porém, origem e fim da exterioridade enquanto processo criativo. “Abandonem as vossas roupas de criaturas civilizadas, cheias de restrições, e permitam-se escutar a voz do corpo”. (ANTUNES, 2002, p.111) Tais restrições a que o narrador se refere na crônica podem ser interpretados como a exigência de hierarquização, a ordenação, a apoliniedade exigida pela tradição Ocidental - são restrições que negam o obscuro, a maldade, a desordem, que querem calar o corpo, enfim.


III. Conclusão: a morte do autor e o nascimento do leitor

Atingindo a exterioridade do texto, apanhando esse “fora” como doença, dando voz ao corpo e seus sintomas oriundos da “doença literária”, o narrador afirma não ter nenhuma pretensão de fazer com que o leitor se consuma no exercício que remete ao ermo profundo do ato da leitura, enquanto perpassa vozes e dialoga com a cultura. Recomenda apenas que se faça o caminho como num sonho:

Caminhem pelas minhas páginas como num sonho porque é nesse sonho, nas suas claridades e nas suas sombras, que se irão achando os significados do romance, numa intensidade que corresponderá aos vossos instintos de claridade e às sombras da vossa pré-história. E, uma vez acabada a viagem e fechado o livro convalesça. (ANTUNES, 2002, p.110)

Caminhando pela dimensão onírica e convalescendo da doença apanhada, o leitor terá voz entre as vozes do texto, mas vale ressaltar que o texto é para ser lido e apanhado, e o leitor não será consumido neste exercício, mas ao mesmo tempo, fará parte dele:

Exijo que o leitor tenha uma voz entre as vozes do romance ou poema, ou visão, ou outro nome que lhes apeteça dar a fim de poder ter assento no meio dos demônios e dos anjos da terra. Outra abordagem do que escrevo é limita-se a ser uma leitura, não uma iniciação ao ermo onde o visitante terá a sua carne consumida na solidão e na alegria. Isto não se tornará complicado se tomarem a obra como a tal doença que acima referi: verão que regressam de vocês mesmos carregados de despojos. (ANTUNES, 2002, p.110)

Esquivando-me da pretensão de encerrar a questão proposta por Manuel Gusmão (1998) no ensaio intitulado “Anonimato ou alterização?”, parece-me pertinente considerar que a perspectiva proposta por Barthes, de que “(...) a morte do autor paga-se com o nascimento do leitor”  (BARTHES, 2004, p.64) indica realmente, como propõe o crítico português, um processo de alterização, pois o nome do autor realmente acaba por “se assinar” (conforme podemos notar na crônica estudada) dentro e fora do texto. Afinal, em meio à miríade de vozes que clamam no percorrer do texto, é a criação do autor e a leitura dessa manifestação artística que constituem o processo que verdadeiramente importa: “Reparem como as figuras que povoam o que digo não são descritas e quase não possuem relevo: é que se trata de vocês mesmos”. (ANTUNES, 2002, p.111)

Conforme Barthes (2004), podemos concluir que um texto é feito de escrituras múltiplas, diversas chaves culturais que se parodiam, se contestam, dialogam. E o local de encontro dessa multiplicidade não está no autor, conforme o narrador da crônica Receita para me lerem postula. Este local está no leitor, que é o alguém a quem se destina a escritura, é esse alguém que deve abandonar a faculdade de julgar em proveito da luminosidade inerente ao texto que passará a lhe pertencer para, na melhor das hipóteses, dar nexo à sua vida de leitor e auxiliar no apaziguamento da dor de sua existência.
   
Abstract

This paper studies the relation between the narrative and authorship voices in António Lobo Antunes’s chronicle “Receita para me lerem”, with the purpose of discussing the aesthetic function of a literary text considered as pure exteriority, as well as the implications of that perspective in the relation between reader and literature.

Key words: Author; Narrator; Reader; Aesthetics; António Lobo Antunes.

Referências

ANTUNES, António Lobo. Receita para me lerem. In: Segundo livro de crónicas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002. p.109-11.

AZEREDO, Vânia Dutra de. Bom e mau, bom e ruim. In: Nietzsche e a dissolução da moral.São Paulo: Discurso Editorial / Editora UNIJUÍ, 2000. p.47-90.

BARTHES, Roland. A morte do autor. In: O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 57-64.
EHRENZWEIG, Anton. Psicanálise da percepção artística: uma introdução à teoria da percepção inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: Estética: literatura e pintura, música e cinema. (Col. Ditos e escritos III) Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. p.264-98.

GUSMÃO, Manuel. Anonimato ou alterização? Revista Semear, Rio de Janeiro, nº.4, Abr/1998. Disponível em   http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/revista/4sem_18.html   Acesso em 06 jun. 2003.

LEVY, Tatiana Salem. A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS. Pró-Reitoria de Graduação. Sistema de Bibliotecas. Padrão PUC Minas de normalização: normas da ABNT para apresentação de trabalhos científicos, teses, dissertações e monografias. Belo Horizonte, 2004. Disponível em  http://www.pucminas.br/biblioteca/normalização_monografias.pdf

(*) Trabalho final do curso “O saber da escrita na ficção portuguesa contemporânea”, ministrado pela Profª. Drª. Lélia Maria Parreira Duarte, no 2º semestre de 2004, no Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas.

por Jason Manuel Carreiro
Escritor, graduado em Filosofia, mestre em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC Minas.
originalmente publicado em Cadernos CESPUC de Pesquisa. Belo Horizonte : PUC Minas, Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros, n.14 (jun. 2006), p. 88-95
e-mail de 05.06.2008

3 de abril de 2006

Gisela Alina Pena disserta sobre Segundo Livro de Crónicas


Receita para me lerem: o Segundo Livro de Crónicas de Lobo Antunes

A produção literária de Lobo Antunes parece demarcar-se do conceito clássico de narração, para convocar uma “aparente” desconstrução genealógica, em relação ao cânone literário. Uma tendência para a reconversão dos géneros literários, que pode ser o reflexo de uma contingência histórico-cultural e ideológica, possibilitada pelo Portugal do século XX, o Portugal contemporâneo de Lobo Antunes, o Portugal pós-revolucionário, abatido por um profundíssimo mal-estar social e civilizacional e, por isso, redimensionado pelo olhar subversivo do escritor, convocando, desde 1979, a aflição de um mundo sem sentido, de fronteiras físicas e mentais desumanizadas.

A perplexidade instaurada por esse olhar passa, sobretudo, pela fuga, na cena literária, ao constrangimento da censura pidesca e pela inauguração de um mundo de liberdade, traduzido com palavras em liberdade. Os códigos da vida social e a sua elaboração pela ficção de Lobo Antunes sugerem uma escrita que parece estar longe de ser um produto ligeiro, comparativamente ao romance, por responder a imperativos de sobrevivência “alimentar”, enunciativos e pragmáticos: o curto alcance do texto, limitado na sua extensão, a consciência das expectativas de um público de jornal e a sua periodicidade quinzenal. Adivinha-se a irrisão do cronista, sentado no seu lugar de cúmplice disfarçado, face a uma concepção ingénua, menor e lateral da sua inserção cronística. É na crónica, pela sua brevidade, concisão e fluidez temática, suportada, no entanto, por uma estrutura fortemente elaborada e pensada, o lugar onde questiona o que de mais profundo conforma a condição humana e esclarece o que é a sua arte literária.

A experiência da crónica, na escrita de Lobo Antunes, apesar de recente, adivinha-se ser um marco importante no percurso ficcional traçado pelo autor. É possível encontrar três grandes momentos na sua obra literária enunciados pelo próprio em 1994, numa entrevista a Rodrigues da Silva: “Os livros que escrevi agrupam-se em três ciclos. Um primeiro de aprendizagem, com Memórias de ElefanteOs Cus de Judas e Conhecimento do Inferno; um segundo, o das epopeias, com Explicações dos PássarosFado AlexandrinoAuto dos Danados e As Naus, em que o país é a personagem principal; o terceiro, Tratados das Paixões da AlmaA Ordem Natural das Coisas e A Morte de Carlos Gardel, uma mistura dos dois ciclos anteriores, e a que eu chamaria de a “Trilogia de Benfica”.

A crónica assume-se como um universo de expressão narrativa, com uma geografia e uma latitude reduzidas, mas tensamente alinhavada e, por isso, acolhida no lugar de género, porque a logística subjectiva e discursiva prepara, ensaia e prolonga a ficção. Lobo Antunes escreve o projecto da dinâmica do fragmento. O fragmento parece ser “a categoria literária”.

As crónicas instauram o poético claro-escuro da vida, o relato que vira a alma do avesso e faz tremer por dentro pelo poder da memória, obrigando-nos a percorrer os recônditos espaços do passado e da intimidade, numa busca pela restauração de uma tranquilidade e de uma identidade perseguidas. Com ternura e amargura, atravessamos o mundo de pequenos heróis e de episódios de vivência pessoal e infantil. Memórias despoletadas pela nostalgia de um passado perdido, motivações, fragmentos que desencadeiam imagens irremediavelmente penduradas no tempo e em nós também. Ouve-se uma Angola feliz, na viagem introspectiva que convoca para o seu discurso, e os seus espaços e as suas pessoas e os seus lugares, mas, sobretudo, a dor da perda dos outros e de si. Às narrativas empresta o tom de desabafo lírico, decorrente da sua perturbação emotiva, da sua recordação pessoal e do registo subjectivo que percorre transversalmente os textos.

“Proíbo que me tirem radiografias para que as árvores de África não apareçam a tremer na película”, (Antunes, 2002: 217). Procedimentos discursivos e temáticos recorrentes percorrem as suas crónicas: a expressão memorial de um lugar tensamente sentido, dir-se-ia Angola, elemento temático que contamina a memória do narrador; o eco de uma gargalhada feliz da criança ausente, cuja vibração provoca batimentos de percussão ensurdecedora no narrador que a escuta, instalado no lugar de adulto onde agora se encontra, revendo o outro que foi no seu espaço de crescimento, “No nosso sangue existem mais ausências do que glóbulos. E uma análise à velocidade de sedimentação mostrará tudo em suspenso.”, (Antunes, 2002: 217); a expressão da subjectividade do narrador no discurso de memória e auto – biográfico, como a memória invocada pelo universo da família, da casa, da baixa de Benfica, da profissão de médico, da condição de escritor, da experiência militar, da relação com as filhas, das pessoas, mas igualmente da dor da perda dos outros e de si. Tudo atravessado pela aguda frustração de uma nostalgia pelo tempo passado e perdido, pelas pessoas que insistem em não ficar, pela vida que ensina tarde demais.

“As pessoas de quem gostámos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro.”, (Antunes, 2002: 217). Uma imagem belíssima, carregada de lirismo confessional, que veicula a angústia profunda e aguda da memória do outro que dolorosamente perdeu. Dele, criança. Da infância, de um tempo em que a existência faz sentido, de um tempo de ordem, de inocência e de paz: “Fomos tão poucos dantes!”, (Antunes, 2002: 218). À deriva, num presente asfixiante, tem sede de inocência e nostalgia do universo familiar protegido, até porque a consciência dolorosa da perda ainda não se configurava. Só os outros morriam e “eles” pareciam eternos: “Esqueceste-te das estátuas com o nome das estações, do roseiral? Das pestanas transparentes dos porcos? Do mês de Junho em que tudo era verde, nítido, claro? De trazeres pilhas de livros para o jardim? De como te chamavas nesse tempo? Que António eras tu? Dos versinhos que escrevias? De ires ser escritor? Tão fácil ser escritor não é verdade? Tão fácil respirar.” (Antunes, 2002: 218). Mais difícil é experimentar e suportar a incomensurabilidade do tempo, da morte que não se compreende, porque parece não se aceitar, de pedaços de memória que ficam suspensos, cristalizando o eixo da vida, prolongando o sofrimento que ela causa, adensando o impacto emotivo nele próprio e no leitor que toma conhecimento dela por esse meio.

O narrador e a maioria das personagens das crónicas desfilam num mundo desumanizado, numa sociedade e numa época claramente marcadas pelos sentimentos empedernidos que dificultam e limitam os relacionamentos, mergulhados que estão num autismo atroador e de frustração aguda: os pequenos heróis, a memória do pai, da mãe e dos avós, das figuras míticas que povoam o espaço interior do narrador, Angola, as marcas sociais do universo da família, da casa e do bairro de Benfica, a criança que foi outro e a memória nostálgica desse fragmento.

Na crónicas, convoca a introspecção e obriga ao confronto com situações, pessoas, lugares, sentidos e emoções, de tal forma próximos e familiares, que nunca questionados por nós, na maior parte dos casos. Respiramo-los inconscientemente e, de súbito, dá-se a revelação. Por isso, projectamos, no reflexo das “páginas-espelho” das suas crónicas, sonhos e catástrofes, desejos e recordações, o pulso que Lobo Antunes nos toma para sentir o seu ritmo.

Regressamos da sua leitura já não os mesmos. Anestesiados e endurecidos por uma sociedade que nos consome e desgasta, as crónicas interrogam-nos já não sobre a vivência do narrador, mas sobre as nossas. O “perigo” que a sua leitura pode constituir é o de vermos e ouvirmos aquilo que nervosamente procuramos silenciar, porque dói. Somos nós mesmos que ali estamos redimensionados. Será que procuramos essa verdade? Certamente.

“A verdadeira aventura que proponho é aquela em que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana”. (Antunes, 2002: 109). O leitor actualiza o acto da leitura a partir do momento em que aceita a “chave” do texto e acompanha o narrador no ímpeto do dizer a memória. O leitor torna-se leitor de si e o exercício da memória, a literatura.

Nas crónicas, onde ensaia a metáfora das “páginas – espelho”, denuncia as ligações complexas que o indivíduo instaura no seu universo, problematiza a profunda dificuldade de apreensão e vivência do real e da sua conversão em instituição literária. O esforço do leitor em juntar pedaços de memória implica que, ao participar no desenvolvimento da narração da memória, se constitua, também, como parte integrante da ficção e reconheça, ao mesmo tempo, aquilo que em si existe de profundamente humano e paradoxal, fazendo-o interrogar sobre aquilo que existe de tosco no seu quotidiano e acenando à transfiguração plástica, através do bisturi que a sua “página-espelho”opera.

As crónicas de Lobo Antunes, citando Carlos Reis, colocam-se naquele lugar de onde é possível ver, “diante dos nossos olhos, às vezes tão cegos para a evidência das coisas, fluir esse mundo feito das experiências do escritor e também das nossas vidas, mundo que transporta no seu curso e na História colectiva, de que mal nos apercebemos, por dela estarmos tão perto.” Desse lugar selecto, de onde se vê “um mundo matizado pela ternura de um olhar dividido entre a lúcida consciência de si e a nostalgia de um tempo de aniversários familiares em que era possível, diz Lobo Antunes, ser indecentemente feliz.”
  
BIBLIOGRAFIA:
ANTUNES, António Lobo. (2002), Segundo Livro de Crónicas, Lisboa, Publicações Dom Quixote.
CABRAL, Eunice, JORGE, Carlos e ZURBACH, Christine, (2003), A Escrita e o Mundo em António Lobo Antunes,Actas do Colóquio Internacional António Lobo Antunes da Universidade de Évora, Évora, Publicações Dom Quixote.
REIS, Carlos, (1995), O Conhecimento da Literatura, Introdução aos Estudos Literários, Coimbra, Almedina.


por Gisela Alina Pena
não datado

6 de outubro de 2005

Ángel Basanta: Segundo libro de crónicas


Este Segundo Livro de Crónicas de Lobo Antunes, um dos romancistas mais importantes da literatura portuguesa das últimas décadas, é a continuação do que foi publicado há alguns anos [Livro de Crónicas].

Na sequência do primeiro, também esta segunda compilação é composta por artigos que o escritor  tem vindo a escrever na imprensa de diferentes países, entre eles Espanha. Faz tempo que Lobo Antunes ganhou um merecido reconhecimento como escritor entre o os maiores da literatura europeia actual. Por isso estas crónicas, que são o testemunho íntimo do pensamento, das ansiedades e das aflições do criador de grandes romances como O Esplendor de PortugalExortação aos Crocodilos e  Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, entre outros, guardam um elevado interesse para aqueles que pretendem conhecer mais sobre o escritor que tem vindo a colocar o melhor da sua vida nos seus livros, uma vez que o homem e o escritor são o mesmo na sua pessoa.

O livro tem 78 crónicas que compõem uma autobiografia parcial, aos poucos, fragmentada. Na sua maioria os textos estão escritos na primeira pessoa, num tom confessional, orientado para a reflexão ou para a narrativa, segundo o tema tratado em cada caso. Pelo que foi dito anteriormente, os mais interessantes são aqueles em que o autor reflecte sobre o seu trabalho pondo a descoberto a sua insegurança literária em considerações sobre a sua escrita. A permanente ambição sempre insatisfatória do autor arde em vermelho vivo nas matérias incandescentes que o homem e o escritor põem no fogo da criação literária. São muitos o textos que abordam estas questões. Entre outros, destacam-se  "Receita para me lerem" e "Assobiar no escuro". Neles oferece-nos uma escrita poética e a leitura autocrítica das suas obras, a partir de uma focalização supra genérica e a profunda convicção na dignidade do romance. Aqui mostra a sua angustiante concepção da literatura: "A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente", a qual conduz "ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito". "Gostaria que os meus romances não estivessem nas livrarias ao lado dos outros, mas afastados e numa caixa hermética, para que não contagiem as narrativas alheias ou os leitores desprevenidos: é que sai caro buscar uma mentira e encontrar uma verdade" (págs. 91 e 92 [109 e 110 na 1ª edição portuguesa] ).

Mas a literatura, como criação do autor e a sua recriação na leitura, ainda que sendo mais importante, mais a música, o cinema e a arte em geral não são os únicos temas desta autobiografia dispersa. A memória do escritor lisboeta evoca e revisita experiências da sua infância com a sua família, recorda o horror vivido em Angola, o seu desinteresse pelo exercício da medicina (que abandonou: Lobo é psiquiatra) para se dedicar por inteiro à literatura, rememora a comunhão fraternal com os amigos da sua vida (como Cardoso Pires e Eugénio de Andrade), revive a sua relação conflituosa com Portugal, conta alguns episódios de viagens e reflecte sobre o amor, a dor e a morte. De tudo isto se fala nesta confissão plural de um escritor fundamental do nosso tempo, tão necessário nesta época de mentiras e frivolidades que nos dificulta a compreendermo-nos como seres humanos com as nossas aflições e o nosso desamparo no inexorável passar do tempo.

por Ángel Basanta
17.02.2005
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...