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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2005

Rogério Santos: O livro de António Lobo Antunes

D'este viver aqui neste papel descripto é um livro de amor que decorre com a guerra colonial como pano de fundo. Os aerogramas (ou cartas) que o alferes miliciano Lobo Antunes mandava para a mulher Maria José (Fonseca Costa) Lobo Antunes são a expressão do amor à distância e relata o dia a dia da vida de um militar destacado em Angola durante a guerra, no caso dele entre 1971 e 1973.
O livro lê-se como um romance pleno de acção, mesmo que muitas das cartas contenham versões minimais de outras. A repetição das cartas tem a ver com a monotonia dos dias, longe dos familiares e dos amigos queridos e afastado do conforto de uma cidade (Lisboa), onde o autor vivia. Mas há três ou quatro temas que, embora se repetindo ao longo das cartas, ilustram uma progressão. É como a nossa vida quotidina: fazemos gestos semelhantes todos os dias, mas vamos alterando um pouco esses gestos, porque envelhecemos ou ganhamos experiência.
A saudade da mulher (e da filha que vai nascer aqui em Lisboa quando …

Eduardo Alves: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

Por entre uma salada russa feita de ingredientes sociais com bêbedos, pobres, oportunistas e simples sonhadores surge um conjunto restrito de pessoas. Escolhidas pelo autor para constarem como personagens de monta num livro histórico e intemporal. O burburinho social que se vive logo após o mês de Abril do ano de 1974 serve de sustentação a este retrato colectivo que António Lobo Antunes imprime na chapa da escrita. Como uma foto feita de palavras, o médico-escritor, narrador por excelência, transforma-se na consciência de um povo que tinha acabado de cair por terra e começa agora a erguer-se do chão.

O fascismo aparece como grande herança do regime salazarista. Isto porque, na óptica deste antigo combatente, a sociedade mal se transformou com a revolução, apenas se maquilhou para surgir com uma outra imagem, mas da mesma forma. Desigual, carregada de vícios e sustentada por jogo de poder. Um dos ministros de Salazar ganha mesmo o estatuto de personagem principal em dezenas de páginas …

Arancha Oña Santiago: Heróico anti-herói

Memória de Elefante é a primeira obra da galardoada carreira literária de António Lobo Antunes; entre os múltiplos prémios recebidos destacam-se: o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Rosalía del Castro do PEN Club Galego, o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, o Prémio União Latina de Escritores e o Prémio Jerusalém.
No presente romance, a personagem principal comunica com a voz grave de débeis ressonâncias a partir da subjectividade mais profunda do seu ser, através de uma prosa poética plena de analogias artísticas insuspeitas e surpreendentes, angustiadas metáforas, alegorias, paradoxos, diálogos opacos e fustigantes monólogos existencialistas, numa ambiguidade dualista plena de incerteza, dirimindo entre a banalidade e o transcendental.
Fugindo do excessivo e exuberante racionalismo matemático, do pragmatismo, da autoridade idealista e positivista, do por vezes presunçoso espiritualismo e do avassalador materialismo, em s…

Sara Belo Luís: Romance em aerogramas

Com o delicioso mau-feitio que se lhe conhece, António Lobo Antunes dirá porventura que as cartas recolhidas em D'este viver aqui neste papel descripto não terão grande importância. Serão - como as crónicas - material «menor», quando comparadas com os romances, género no qual ele tem vindo a trabalhar ardilosamente. O autor que me desculpe, mas (se de facto assim for) não tem razão. Porque estas cartas de amor - como todas as cartas de amor que da vero o são - nunca se reduzirão a formas mais ou menos rebuscadas de dizer o amor.
As cartas que, de 1971 a 1973, António Lobo Antunes escreveu de Angola à sua primeira mulher são muitas coisas mais para além dos diminutivos carinhosos (os quais ele, aliás, também usa) e das declarações de amor incondicional. São cartas de um oficial que preferiu a guerra ao exílio parisiense. São cartas de um médico branco que dá assistência a uma população negra. São cartas de um homem de 28 anos que vive longe da mulher que ama. São cartas de um pai qu…