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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2016

José Mário Silva, crítica a Da Natureza Dos Deuses

Invenção da Melancolia
Na fase mais recente da sua obra – que abarca romances densos como Comissão das Lágrimas (2011), Não é Meia Noite Quem Quer (2012) e Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014) –, António Lobo Antunes vinha seguindo uma trajectória de progressivo ensimesmamento, fechando-se mais e mais dentro das suas estruturas polifónicas, essa arquitectura claustrofóbica de múltiplas vozes emergindo da página, ao mesmo tempo tão intrincadas e tão rarefeitas que o leitor deixava de as conseguir separar umas das outras. O fulgor da prosa de Lobo Antunes nunca se perdeu, mas saíamos desses livros como que desorientados, meio perdidos, expulsos de um território onde nunca chegávamos verdadeiramente a entrar. Ou seja, éramos meros espectadores que contemplam, de fora, os fragmentos de vida que o romance arranca ao real quotidiano, mas logo esconde e abafa, sob o peso da voz que se sobrepõe a todas as outras. A voz do autor fascinado com o seu poder discricionário, esse poder maior que…