30/09/2011

a publicar a (30 de Setembro? não) 3 de Outubro, se correr bem...

a publicar a 30 de Setembro 3 de Outubro*:




“Um doloroso canto de uma mulher torturada” foi o ponto de partida para Comissão das Lágrimas, o novo livro de António Lobo Antunes. A mulher torturada foi Elvira (conhecida por Virinha), comandante do batalhão feminino do MPLA, presa, torturada e morta na sequência dos terríveis acontecimentos de Maio de 1977 em Angola. Mas este é apenas um episódio num livro denso e sombrio sobre Angola depois da independência. António Lobo Antunes não quis fazer um livro documental ou uma reportagem “verídica” sobre o que se passou em Angola, antes usou a sua sensibilidade e o espantoso poder evocativo da sua escrita para falar sobre a culpa, a vingança, a inocência perdida.

* apesar de terem primeiro notificado que o livro estaria à venda hoje, dia 30 de Setembro, afinal só dia 3 ou 4 de Outubro é que as livrarias o terão disponível.

Memória de Elefante a preço mais acessível...

... através da colecção de bolso da LeYa, BIS. Segundo o Diário Digital de 28 de Setembro, «Memória de Elefante, de António Lobo Antunes, é o 100.º título da BIS, colecção de livros de pequeno formato da Leya. A editora revela que, "quem o adquirir terá, como oferta, A Mensagem, de Fernando Pessoa"».


29/09/2011

As Coisas da Vida: livro de 60 crónicas de ALA publicadas no Brasil

citado do site http://www.estadao.com.br:

Tradição brasileira

Com as crónicas de 'As Coisas da Vida', António Lobo Antunes confessa paixão pelo género consagrado no País

Tudo começou como um exercício estilístico - em troca de um ínfimo soldo, o escritor António Lobo Antunes, um dos mais festejados da actualidade, começou a escrever crónicas dominicais para a imprensa portuguesa. "Depois de um tempo, quando já não estava mais disposto a continuar, pedi um valor bem mais alto, acreditando interromper a colaboração", contou ele ao Estado, em entrevista por telefone desde Lisboa. "Para minha surpresa, eles aceitaram e tive de manter a rotina."

Nada surpreendente, no final das contas, esse interesse dos editores. Conhecido por levar ao extremo a subversão da estrutura narrativa - cada capítulo de seus romances se compõe de frases que vão criando melodias e ritmos insuspeitos que conduzem a uma leitura vertiginosa -, Lobo Antunes, em suas crónicas, volta-se para a intimidade, navegando entre saudosas lembranças familiares e observações de seu quotidiano. É quase como outra faceta do mesmo escritor, menos experimental mas igualmente contagiante.

Basta conferir as 60 crónicas que compõem As Coisas da Vida, recentemente lançado pela Alfaguara, selo da editora Objetiva. Ali estão textos seleccionados de dois volumes que já circulam em Portugal, Livro de Crónicas e Segundo Livro de Crónicas, que, por sua vez, reúnem material publicado no jornal Público e na revista Visão. Uma adorável viagem em que Lobo Antunes navega entre experiências pessoais, quando trata do tempo em que trabalhou como médico na guerra em Angola, de amigos que cruzaram sua vida e, principalmente, dos momentos passados em Belém do Pará, onde morava o avô e um bando de tias.

Engana-se, porém, quem acredita que o escritor sente prazer nesse tipo de escrita. "É uma chatice, pois interrompe o ritmo do romance que escrevo no momento - para voltar, é complicado", afirma Lobo Antunes, que lança em outubro, em Portugal, Comissão das Lágrimas. "Quando não estou escrevendo um livro, não tem problema. Mas, se estou trabalhando em algo, sou obrigado a sair do ritmo do romance para o da crónica, que é bem diferente. Também não posso ser muito profundo, pois o género não permite."

Não se trata de descaso - íntimo conhecedor da crónica, Lobo Antunes resigna-se a louvar aquela que, em seu parecer, é a mais perfeita: a brasileira. "Se há algum país que tem de se orgulhar de seus cronistas, é o Brasil. E não falo apenas de Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino - há um escritor que considero importante salientar seu trabalho: Paulo Mendes Campos."

Da mesma forma que se rende à técnica seca e precisa do verso de João Cabral de Melo Neto, o escritor português maravilha-se com os textos do colega mineiro, que morreu em 1991. "Suas crónicas sobre literatura são maravilhosas: Paulo Mendes Campos fez considerações fundamentais sobre Virginia Woolf, além de ter escrito a melhor análise que já li sobre o Coração das Trevas, de Conrad. Outro dia, li em voz alta esse texto e percebi que é uma lição de teoria literária”, observa. “Também as crónicas de futebol são empolgantes mesmo para quem não conhece nada do esporte. E não vi, em língua portuguesa, melhor tradução dos poemas de Dylan Thomas que a feita por ele. Não o conheci, mas o considero um artista injustamente esquecido. Era um homem com um conhecimento ético da profissão.”

Esse detalhe é essencial no exercício do ofício, segundo Lobo Antunes. Para ele, a crónica é uma intervenção cívica e cita Carlos Drummond como exemplo. "Apesar de não gostar tanto de sua prosa como amo a poesia, há sempre um sentido ético em seus textos. Sempre aprendo muito quando releio o Drummond cronista."

Apesar de bom leitor, Lobo Antunes confessa-se um novato na escrita de crónicas. Ele conta que nunca tinha escrito uma até surgir o convite da imprensa lisboeta. O assunto era o que mais lhe preocupava. "Quando comecei, pensava em temas comuns pois seria dirigido ao leitor de fim de semana. Depois, pensei em usá-las como um contraponto dos livros, algo como anotações feitas às margens dos escritos. É prazeroso o trabalho, mas a crónica condiciona o número de palavras e não pode ser profunda."

Na conversa com o Estado, Lobo Antunes quis saber se a selecção publicada pela Alfaguara trazia textos relativos ao Brasil. Sossegou ao descobrir que constam algumas, especialmente a que traz lembranças do avô que morava em Belém, ao lado de tias muito velhas, que moravam “no fundo de corredores compridíssimos entre brilho de pratas, latas de biscoitos e objectos sem sombra de que as pessoas idosas se rodeiam".

"Escrevi várias crónicas sobre meu avô que nasceu em Belém", conta. "O Lobos saíram de Portugal antes dos Antunes. Foi durante a inquisição e, depois de perambular pela Europa, eles chegaram ao Brasil. Quem me contou isso foi um senhor, em Jerusalém, que sabia detalhes dessa diáspora portuguesa. E também a saga dos Lobos até chegar ao Brasil. Os Antunes eram do meu tetravô, que foi ao Brasil e conheceu minha tetravó Lobo, que já estava lá. Creio que o ramo dos Lobos da minha família está há 300 anos no Brasil."

Mais que da política e da vida real, Lobo Antunes trata, na verdade, da vida interior. Há obsessões que se repetem em seus romances, uma delas é a inexorável decadência física que leva à morte. O mesmo acontece em suas crónicas, nas quais as palavras geram umas as outras. Sem plano nenhum. "Eu me sinto à mesa e a mão funciona quase que mecanicamente. Faço uma primeira versão, corrijo as patetices, pleonasmos e parvoíces como ‘colocar o chapéu na cabeça’ - vai colocar onde, no pé?"

O resultado, como se espera de uma boa crónica, são textos aparentemente simples, em que passagens triviais da vida ganham dimensão universal.

O Estado
26.09.2011

Nota: o texto foi alterado para a grafia pt-pt antes do AO90. Para qualquer citação de textos vindo do pt-br optaremos, a partir de hoje, esta forma.

21/09/2011

Jornal de Letras, hoje nas bancas, tema dedicado a António Lobo Antunes


Edição 1069 do Jornal de Letras:

«António Lobo Antunes (ALA) é um dos grandes destaques desta rentrée. Em dose tripla: com um novo romance, Comissão das Lágrimas, nas livrarias a 30 de Setembro; com um filme "tirado" de A Morte de Carlos Gardel, que estreia a 22; com uma colecção de ensaio sobre a sua obra, dirigida por Maria Alzira Seixo, de que saiu agora o 1º volume - ao que acrescem os espectáculos de teatro e música a que já nos referimos. Neste tema, o JL conversa com ALA a propósito da sua escrita e deste novo romance; seguem-se a crítica de Miguel Real e um texto de Norberto do Vale Cardoso, que o enquadra na presença da guerra colonial na obra do autor, à qual dedicou a sua tese de doutoramento. Sobre a obra, em geral, e a importância nela das crónicas de ALA, escreve ainda Carlos Reis. Enfim, Solveig Nordlund fala daquele filme, de que é realizadora, e publica-se a respectiva crítica».

[sublinhados e link nossos]

Duas novidades, decorrentes da entrevista/conversa publicada nesta edição: o escritor já está a ultimar aquele que virá a ser o próximo romance a publicar (em 2012, certamente), cujo título é Não é Meia-Noite Quem Quer, que o foi buscar a um verso do poeta francês René Char*; e o livro Explicação dos Pássaros que comemora este ano 30 anos sobre a sua primeira edição, do qual será publicada em Novembro a respectiva edição comemorativa.

Citações a reter da entrevista:

«Quando comecei a ensurdecer a minha escrita mudou: passei a ouvir melhor as vozes [...] Ensurdecer foi socialmente uma chatice e literariamente uma bênção»

«Para começar a escrever, preciso de alguns factos reais»

«Ainda estou a aprender a escrever estes livros que faço. É a minha única preocupação»

«Temos todas as idades na nossa vida e todas as vidas dentro de nós. É o que nos permite escrever»


* N'est pas minuit qui veut, do poema Entraperçue, (Chants de la Balandrane, de René Char, 1977)

Comissão das Lágrimas pelo olhar de Norberto do Vale Cardoso

O título do novo romance de António Lobo Antunes, Comissão das Lágrimas, liga-se a um acontecimento importante da história de Angola, e em particular a dissidências internas do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), que levaram, em 1977, a um golpe e atentado falhados a Agostinho Neto. Na sequência desses acontecimentos, o Comité Central do MPLA procurou apurar a identidade dos “fraccionistas”, constituindo, para o efeito, uma comissão de inquérito que ficou conhecida precisamente por “Comissão das Lágrimas”. Todavia, e apesar da importância contextual desses factos para o romance, não podemos ater-nos a eles, pois se na obra de António Lobo Antunes a realidade histórica surge sempre como uma referência importante, devemos estar cientes de que, nela, o “real” não segue pressupostos de verosimilhança ou de fidelidade realista.

De igual modo, a temática da Guerra Colonial, que tratámos ao longo deste ensaio, não está ao serviço de reconstruções históricas desse conflito, nem pode a obra de Lobo Antunes sobre este tema ser lida de forma literal. Talvez por esse motivo, o próprio autor reitere nunca ter escrito nenhum livro sobre a guerra e que o mais próximo que terá estado de o fazer teria sido no volume (cuja publicação não é de sua autoria, note-se!) intitulado Cartas da Guerra, isto é, numa escrita sem finalidade estética. Por outro lado, se a guerra é abordada tematicamente na obra antuniana, é-o sempre num sentido figurado, perscrutando mais as vivências interiores do que propriamente os marcos históricos e/ ou bélicos que a configuram.

Esta Comissão das Lágrimas não pode ser vista como a escrita dos factos, antes como criação literária de um evento que, de facto, podemos situar no tempo, mas que, em Lobo Antunes, deve ser entendido como um continuum, ligado a vivências e a memórias, ou seja, a uma percepção pessoal e interior, conforme se verifica no exemplo: “não há ontens como os ontens dos brancos, é-se ou não se é e pronto” (CL, 108). Por esse motivo, o romance antuniano não é um romance histórico, não se socorre de documentos nem o seu autor recorre a investigação. Seria, pois, redutor referir que a acção deste romance decorre em 1977, quando a personagem de nome Cristina tinha 5/6 anos de idade, em Angola, e três décadas mais tarde, em Lisboa. Melhor seria pensar em realidades que se circundam, e não em tempos ou espaços isolados.

Assim, a Comissão das Lágrimas retrata, não apenas aquele momento delicado da independência e guerra civil angolanas, mas também todas as guerras travadas nesse território. Esta interconfluência de guerras (a Guerra Colonial, referida nas Lágrimas sobretudo através dos bombardeamentos do Cassanje em 1961 e das guerrilhas embrionárias; a guerra civil latente durante a Guerra Colonial, representada pela existência de vários movimentos de libertação; e a guerra civil propriamente dita, com a coexistência, no seu dealbar, de angolanos e portugueses, descrevendo-se aqui as incidências trágicas da descolonização, desde logo patentes no caos estabelecido, aquando dos embarques, no ano e meio subsequente ao 25 de Abril de 1974) e de guerras dentro de guerras (dos vários movimentos e das suas disputas às dissidências dentro do MPLA, por exemplo) permite que, num segundo plano, passemos a ver, nesses conflitos, a imagem de um sofrimento universal.

As guerras serão, pois, em idêntico número às vozes que, tendo existido, são olhadas como alucinação e/ou imaginação de Cristina, a personagem que é fruto de uma relação entre Alice (indicação onomástica importante, sobretudo se ligada à referência que, em Memória de Elefante, reenviava à Alice de Carrol e, portanto, a uma identidade anómala, representada nas Lágrimas pela duplicidade Alice/ Simone, ou mesmo a um lugar outro, que se pode traduzir como o «lugar do avesso») e António (uma outra indicação fulcral na construção autobiográfica do autor, desde Conhecimento do Inferno até aos romances mais recentes), ou seja, entre um negro e uma branca, ainda que esta união não seja capaz de resolver diferenças ou de “purificar” os que, no mundo colonial, eram considerados opostos (tópico recorrente em Lobo Antunes).

Esta “cafuza”, considerada como “uma maluca que fala sozinha” (CL, 10), é internada numa Clínica devido às vozes que diz ouvir e que, repetidamente, solicita, ainda que em vão, se desinteressem dela. Essas vozes (que distraíam Cristina na escola, e que a levavam a dar erros nas cópias e a emaranhar os rios na sua cabeça, aspectos que relembram, respectivamente, a redacção no final de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo e a obsessão pelos rios em Sôbolos Rios Que Vão) representam uma só voz, a de uma rapariga, que, torturada e amputada da sua língua, continua a cantar na Cadeia de São Paulo: “a rapariga sem língua continua a cantar, erguíamo-la do chão e continuava a cantar, atirávamo-la contra o cimento e continuava a cantar, não se cala, […]” (CL, 47).

A excisão da língua, que, porventura, seria o castigo para a mentira num processo de interrogatório (ligando-se a procedimentos inquisitoriais e censórios importantes em várias obras do autor, tais como Manual dos Inquisidores ou O Meu Nome é Legião), é, contudo, paradoxal, pois a remoção inviabiliza a confissão. Esta mutilação relega-nos, de resto, à tortura dentro da temática da guerra na obra de Lobo Antunes (pensamos sobretudo emOs Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, mas também n’ O Esplendor de Portugal, em que os cubos de gelo introduzidos no ânus lembram um dos mecanismos de tortura medieval, o Berço de Judas). Por outro lado, esta entidade feminina, que tem uma referência histórica (Elvira, mais conhecida por Virinha, foi militante do MPLA), seria, à imagem da Sofia de Os Cus de Judas, que, assassinada pela Pide, se mantém como um fantasma mudo da Guerra Colonial, a representação das vozes de todos os povos reprimidos.

Nas Lágrimas, o “canto” feminino pode associar-se ao “canto do galo”, símbolo que surge no romance através de bandeiras colocadas nos telhados das casas ou numa tatuagem que uma mulata tinha no “umbigo”, e que representa o despertar – ainda que frustrado - de um país onde a paz está “estagnada” (CL, 163), ou seja, onde impera a afasia política (incapacidade de diálogo entre Unita e MPLA, por exemplo). Por outro lado, o “canto” é inexplicável porque nasce de um vazio, de uma ausência, colocando em causa a origem da voz, como se esta fosse determinada por outra coisa que não a língua, ou, em sentido lato, a Língua também fosse determinada por outra coisa que não a palavra, mas por algo anterior a ela: as lágrimas - “porque é na garganta que se juntam as folhas secas das lágrimas” (CL, 44).

A lágrima será uma confissão muda, mesmo que não conducente à verdade dos factos, pois a língua é um símbolo contraditório, representando a chama da criação ou o fogo do inferno. Talvez por isso se coloque em dúvida, na parte final do romance, a existência da própria “Comissão”, como se colocara a das vozes de Cristina (ou se podem colocar as vozes de que o autor necessitará para o seu ofício de tradução: “o meu ofício é traduzir vozes”, CL, 139; “Se as vozes não voltam não se escreve este livro”, CL, 48). De facto, o romance não nos garante o real. Esta Comissão é, no fundo, uma inquirição sobre um real - a construção de um país, que tem o nome de “Angola”, mas que não corresponde necessariamente a Angola, pois, no romance, Angola é “tudo ao contrário do que se imagina” (CL, 49). Esta Angola é, aliás, definida não como um país, mas como um “sítio” (CL, 168), o que é explicável a partir da imagem da sua capital, Luanda, definida como “uma gaveta de facas sempre aberta” (CL, 90).

Esta “gaveta”, lugar onde a única verdade é o conflito, pode ser também definida como o “umbigo” ou o “cu do mundo” (CL, 296), lugar marginal onde se dá um “julgamento mútuo” (CL, 247), ou seja, onde todos julgam, acusam e traem (cf. CL, 127 ou 295), ligando-se à figura de “Judas”. Em suma, na afasia política em que vivem os homens, o romance instituir-se-á como Língua e Canto porque, numa qualquer parte do mundo, haverá sempre outras vozes carentes de uma Voz.



  

Norberto do Vale Cardoso
in A Mão-de Judas. Representações da guerra colonial em António Lobo Antunes (em pré-publicação)
Texto Editora, 2011
artigo publicado em simultâneo na edição 1069 do Jornal de Letras

13/09/2011

Já à venda: A Arte do Romance, 1º volume da Colecção António Lobo Antunes - Ensaio


citado do site Mediabooks (LeYa): «Inclui estudos dos especialistas reunidos em Junho de 2009 no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa para estudarem a arte do romance na obra deste escritor». - pode ser encomendado aqui.

Trata-se do primeiro volume da colecção António Lobo Antunes - Ensaio. Conjunto de textos de estudiosos vários: José Gil, Paula Morão, Ana Paula Arnaut, Agripina Carriço Vieira, Eunice Cabral, Inès Cazalas e Catherine Vaz Warrot. Volume organizado por Felipe Cammaert.

A biblioteca António Lobo Antunes - Ensaio, publicada pela Texto Editores, trata-se de uma colecção de volumes dedicados a textos/ensaios sobre a obra de António Lobo Antunes "ou de índole comparatista que incluam, em proporções consideradas significativas, uma reflexão original e valiosa sobre a literatura deste autor português". Esta colecção é dirigida pela Professora Maria Alzira Seixo, da Universidade de Lisboa, sendo "entendida como Vertente B da «Biblioteca António Lobo Antunes», que publica os clássicos preferidos deste escritor". A responsabilidade editorial está a cargo de Maria Piedade Ferreira, que é a actual editora de António Lobo Antunes na Dom Quixote.

De seguida, apresentamos um excerto da Introdução por Felipe Cammaert, e os artigos/autores que constituem este volume:

«Introdução. António Lobo Antunes e a Arte do Romance


Por ocasião dos trinta anos da publicação do romance Memória de Elefante (1979), o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa organizou, a 30 de Junho de 2009, a Jornada António Lobo Antunes: a Arte do Romance. Nessa ocasião, um conjunto de oito investigadores, portugueses e internacionais, aceitou produzir reflexão sobre a obra romanesca de Lobo Antunes, num evento que contou, na sessão de encerramento, com a presença do autor, em diálogo ao vivo com Eduardo Lourenço.

Este livro, que tem a honra que inaugurar a colecção António Lobo Antunes-Ensaio, dirigida pela Professora Doutora Maria Alzira Seixo, reúne uma selecção das comunicações apresentadas pelos participantes desse evento, em versões revistas para a publicação, conforme o estipulado no regulamento da colecção. É nosso desejo que o presente volume, resultado de um evento cujo objectivo era celebrar a obra do autor português após três décadas de produção literária, marque o início de um novo período no que diz respeito à crítica antuniana.»

Artigos e autores:


Eu, às vezes - As labirínticas complexidades da alma
Paula Morão, Centro de Estudos Comparatistas – Universidade de Lisboa

O romanesco na obra de António Lobo Antunes: herança, desconstrução, reinvenção
Inês Cazalas, Universidade de Paris VII

A escrita insatisfeita e inquieta(nte) de António Lobo Antunes
Ana Paula Arnaut, Centro de Literatura Portuguesa, Universidade de Coimbra

De uma versão a outra, ou como se constrói o romance
Agripina Carriço   Vieira, Centro de Formação de Professores “Os Templários” de Tomar

António Lobo Antunes: da escrita romanesca à enunciação musical – o texto como tecido sonoro e gráfico
Catarina Vaz Warrot, Universidade de Paris VIII – Universidade Nova de Lisboa

A concepção do romance em Dicionário da Obra de António Lobo Antunes
Eunice Cabral, Universidade de Évora

Fechamento e linhas de fuga em Lobo Antunes
José Gil, Universidade Nova de Lisboa

07/09/2011

José Alexandre Ramos: Primeira angústia – capítulo final: o inferno depois do inferno


De forma a encerrar a catarse de tudo quanto fazia sombra ao jovem escritor António Lobo Antunes, faltava-lhe escrever sobre a profissão que exerceu: médico psiquiatra de um hospital de saúde mental que então (1980, ano em que foi publicado este livro) ainda se designava por manicómio.

Ponto de partida para percebermos o quanto a personagem que discursa (o psiquiatra, o ex-militar, o escritor) repudia o modo como eram tratados os doentes de uma instituição daquele tipo, àquela época. Percebemos que o título nada tem de casual, uma vez que a personagem, depois de falar sobre o terror da guerra e sobre as suas ambiguidades pessoais em Memória de Elefante e Os Cus de Judas (livros que apelido de  e 2º capítulos da primeira angústia do escritor), vem dar-nos conta de uma verdadeira descida ao inferno que é trabalhar numa instituição cujos responsáveis (estado e recursos humanos) ainda faziam tratamentos antiquados, e tratavam os doentes como seres inferiores, patente na forma como os médicos, enfermeiros e demais pessoal se dirigem aos doentes na segunda pessoa do singular.

A acção do livro centra-se numa viagem de regresso de férias, entre o Algarve e Lisboa, em que a personagem já conhecida dos capítulos anteriores e acima referidos, torna a discorrer sobre as suas angústias, medos, sofrimento e frustrações, no seu retorno ao trabalho como psiquiatra do Hospital Miguel Bombarda. Nestes relatos (são doze longos capítulos) vai evocando episódios com os doentes e médicos da instituição: aqueles apáticos e submissos, estes distantes e opressores.

De facto, chega-se a sentir que o purgatório é ali mesmo: os doentes são as almas atormentadas pelas suas aflições e os médicos, enfermeiros e auxiliares os demónios que lhes infligem de castigos, lhes incitam ao mal, e condicionam as suas acções. Ou, de um ponto de vista social (que podemos admitir que esteja aqui a ser metaforizado), os psiquiatras são os senhores poderosos, distantes, o restante pessoal capatazes e/ou colaboracionistas, e os doentes a malha servil, submissa e resignada. Disto parece querer descartar-se a personagem que, julgámos numa primeira interpretação, não alinhar com os outros médicos, mas, talvez por força das circunstâncias ou ainda por simplesmente não querer incomodar-se, acaba por ter comportamento semelhante. Porém, ainda assim, revê-se (em sonhos recorrentes) como se fosse ele próprio um dos doentes, sentindo na pele a forma desumana, carecida de afecto e compreensão, como os utentes são tratados. Intercala (e mistura) estes episódios com outros da sua vida pessoal (relações familiares principalmente) e de um outro inferno já conhecido: o da guerra, e mesmo que tivesse passado nessa circunstância os maiores terrores da sua vida, vendo matar e morrer, considera que o verdadeiro conhecimento do inferno se faz numa instituição como o manicómio onde trabalha, deixando a dúvida sobre quem serão os verdadeiros loucos ou maníacos: os doentes ou os médicos?

Do ponto de vista estrutural e de estilo, é notória a sede de busca de uma voz própria, de um discurso alternativo no romance, como já havia deixado evidente nos dois livros anteriores. Mas este Conhecimento do Inferno é também, na minha opinião de leigo, uma espécie de purgatório para o escritor: primeiro sentimos que é um livro que vem depois dos dois primeiros, o narrador fala na terceira pessoa do singular, ainda existem frases muito barrocas, mas a partir de cerca de metade do texto, o discurso vai mudando, ora lenta ora bruscamente, para a primeira pessoa do singular, e começam, pela primeira vez no estilo de Lobo Antunes, a fragmentação e a justaposição das personagens – aqui há um senão, a personagem que discursa ainda é sempre a mesma – o narrador – , mas as vozes escondidas das personagens, digamos, “passivas” do livro começam a libertar-se, em pequenos trechos de diálogo. E por isso, fica como uma amálgama daquilo que conhecemos do engenho do escritor: um caldo onde está ainda por definir tudo o que podemos testemunhar nos trabalhos posteriores de António Lobo Antunes. Considerações estas façam talvez mais sentido para quem relê o romance depois de já ter conhecido uma boa parte dos seus livros. Para um principiante na obra, este livro não é aconselhável como estreia, só se for lido no seguimento de Memória de Elefante e Os Cus de Judas.

Apesar de tudo, e que o livro seja o inferno depois do inferno, tem passagens belíssimas, depuradas mesmo, e os últimos capítulos deixam no leitor uma sensação agradável de ter lido um bom livro apesar da confusão inicial.


José Alexandre Ramos
07.09.2011

06/09/2011

Entrevista a TV3 (Catalunha) em Fevereiro


«"L'hora del lector" dedica aquesta setmana íntegrament la seva hora de durada a una entrevista en profunditat amb l'escriptor portuguès António Lobo Antunes. Màxim exponent actual de la literatura portuguesa, és autor entre d'altres de "La memoria de los elefantes", "Ayer no te vi en Babilonia", "Fado alejandrino" i "El orden natural de las cosas"»

* entrevista conduzida em espanhol

(52 minutos aproximadamente)

Obrigado a Sandra Amante pela notificação desta entrevista. Em post anterior coloquei alguns excertos, esta é a entrevista completa.

04/09/2011

ALA não AO90

Apanhado no facebook:

«Tenho muito orgulho em escrever nesta língua e não percebo o acordo ortográfico, que é uma estupidez. Eu vou continuar a escrever da mesma maneira. (…) O acordo deve-se a razões económicas e políticas e não vejo necessidade em fazê-lo».


(não sei de que contexto a citação acima foi retirada, mas sei que ALA repudia o AO90, como seria já de esperar...)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...