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Mensagens

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…
Mensagens recentes

Olga Fonseca - impressões de uma leitora de Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera: impressões de uma leitora
Acabei de ler pela segunda vez o último romance de António Lobo Antunes.
Alguns poderão estranhar ou interrogar-se sobre os motivos que nos fazem revisitar um texto, após uma primeira leitura.  Poderia elencar uma série de motivos, sabendo que o principal é, tão-somente, o prazer de ler o romancista da nossa eleição e, sobretudo, quando convoca para núcleo da sua obra temas que, por alguma razão, «mexem» connosco, com o que vai na nossa cabeça, ora de forma mais nítida, ora de forma mais enviesada, insinuando-se apenas. 
Reconheço que estou a partir em desvantagem: já outras vozes, indubitavelmente mais sábias, mais competentes, se pronunciaram sobre a obra. No meu caso, parece adaptar-se o título da obra de Harold Bloom – A Angústia da Influência – só que ao contrário. Explico: nenhum leitor fica imune ou impassível à leitura que outros (habitualmente críticos literários) fizeram do romance e por mais es…

O Conhecimento do Inferno traduzido por Harrie Lemmens disponível desde Outubro na Ambos-Anthos (Países Baixos)

No fim de Outubro saiu, na Holanda, a tradução de Conhecimento do Inferno, por Harrie Lemmens, com o título Reis naar het einde (a editora Ambos-Anthos optou por não usar a palavra ‘hel’, ‘inferno’, no título, porque as livrarias não gostam disso, segundo informação do próprio tradutor)

Harrie partilhou connosco duas breves críticas à edição deste livro:
Ger Groot no NRC (Holanda): A extraordinária riqueza de metáforas, de aforismos e descrições visualmente sugestivas deixam-nos por vezes sem fôlego: durante a leitura os nossos olhos vão-se tornando cada vez mais sôfregos de imagens. Que prazer deve ter tido o tradutor ao traduzir este texto! E que prazer ver reluzir e brilhar em Neerlandês as cores, as formas, os fluxos de imagens e as associações estonteantes de Lobo Antunes! Transformar tanta melancolia neste fantástico caleidoscópio: eis o selo de garantia da literatura.
Marijke Arijs no Standaard (Bélgica – Flandres) O inferno de Dante não é nada comparado com o inferno de Lobo …

La main de Lobo Antunes / A mão de Lobo Antunes

“On écrit quand le cerveau descend dans la main.”


Vous trouverez cette belle définition du travail de l’écrivain dans le premier numéro de ‘L’Entretien’, promenade inspirée avec quelques bons artistes du moment éclairant autant leur art que notre époque.
Et quand la main est heureuse, elle va toute seule, elle trouve son chemin, elle vous échappe et fait ce qu’elle veut. L’écrivain est moins celui qui raconte des histoires structurées par des intrigues incarnées par des personnages, que cette main heureuse qui entend des voix et tâtonne dans le noir. Des voix viennent, une main va, le noir le devient moins. La pensée qui se prolonge en geste donne l’écriture, don incertain qui fait vivre celui qui donne et exister celui qui reçoit.
“Écrire c’est comment écrire, ce n’est pas tellement l’intrigue ou l’histoire, c’est la manière dont tout cela est fait et dont un bon livre nous révèle à nous-mêmes” précise Antonio Lobo Antunes.
Ses titres sont des légendes de tableaux, des fragments de …

Tamina Šop vence prémio tradução Miloš Đurić 2016 pela sua versão sérvia de O Manual dos Inquisidores

Tamina Šop vence prémio de tradução na Sérvia com obra de Lobo AntunesA tradutora Tamina Šop venceu o prémio Miloš Đurić 2016 pela tradução para sérvio da obra "O Manual dos Inquisidores", de António Lobo Antunes, foi hoje anunciado pelo Camões Instituto da Cooperação e da Língua.
O livro [em sérvio "Priručnik za inkvizitore"] foi publicado na Sérvia pela editora Geopoetika, com o apoio do Instituto Camões e da Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas de Portugal.
De acordo com o instituto, pela primeira vez desde 1968, quando este prémio foi criado, um livro de literatura portuguesa vence na categoria de prosa, depois da tradução de uma parte da obra de Fernando Pessoa, por Jasmina Neskovic, ter recebido o mesmo reconhecimento na categoria de poesia, nos anos 1990.
Em "O Manual dos Inquisidores", publicado em 1996, António Lobo Antunes conta o desmoronamento de uma família da alta burguesia do antigo regime, rica e considerada, centrando-se…

Crítica de Isabel Lucas a Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

Quando já se perdeu o nome
“Eu não tenho personagens”, afirmou António Lobo Antunes numa entrevista a este jornal [Público], em 2014, quando publicou Caminho Como uma Casa em Chamas, um romance centrado num prédio de Lisboa e nos seus habitantes. Podia-se acrescentar que também não tem enredos, ou que os livros têm cada vez menos aquilo a que se convenciona chamar uma acção, com princípio meio e fim. São antes deambulações acerca do que é a vida, íntima e de um colectivo, contadas a partir de uma voz interior, quase sempre errática, que recorre a outras vozes convocadas pela memória nas suas falhas ou momentos iluminados, e que preenchem um vazio que vai ganhado sentido(s). Não há início ou epílogo. Há um percurso que o leitor apanha num dado ponto e segue, tantas vezes tacteando, até ele se extinguir. O livro é o que fica entre esses dois momentos.
Como este, o 27º romance de António Lobo Antunes. Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera acompanha um período que se adivi…

Melina Balcazar Moreno sobre Da Natureza Dos Deuses

António Lobo Antunes ou o núcleo das trevas

«O mundo foi feito ao contrário», proferiu um dia um velho, num hospital psiquiátrico, a António Lobo Antunes.  Um homem a quem «os médicos chamavam «esquizofrénico» e que, atormentado por tais palavras que o torturavam, ofereceu ao jovem escritor a mais simples lição de escrita de sempre:  não se pode escrever senão a partir do que antecede as palavras. Ou seja, as emoções, as pulsões que lhe conferem forma e, ao mesmo tempo, deformam a memória. Assim, em «Receita para me lerem: «as palavras não passam de signos das nossas emoções, e as personagens, as situações, e as intrigas, pretextos aparentes para atingir o avesso escondido da alma. A verdadeira aventura que persigo é a de que narrador e leitor partilhem as entranhas do inconsciente, sede da alma humana» (Livre de chroniques III *). Uma vez que, e tal como Lobo Antunes faz questão de nos lembrar, não há nada de mais contingente, mais imprevisível, que o passado.
Em Da Natureza Dos Deus…