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16 de maio de 2015

Sinopse de Comissão das Lágrimas (para a edição brasileira Alfaguara)


Tido como o maior autor vivo na literatura de Portugal, António Lobo Antunes tem uma abordagem detalhada, em diversos de seus romances, sobre factos marcantes na década de 1970. Em seu (...) romance, Comissão das Lágrimas, ele utiliza a história verídica de uma guerrilheira presa e executada em Angola como ponto de partida para uma narrativa sobre dor, memória e identidade.

Nascida no país africano e paciente de uma clínica psiquiátrica em Lisboa, Cristina é uma mulher cuja história é repleta de sofrimento. Afastada de Luanda aos cinco anos, ela tem vagas lembranças de seus pais na infância: a mãe, portuguesa, havia partido para a turbulenta Angola como dançarina. Ela se relacionara com um homem local, ex-padre e membro do emancipatório Movimento Popular pela Libertação de Angola.

O envolvimento do pai de Cristina com a Comissão das Lágrimas - tribunal responsável pela execução sumária dos que haviam supostamente ajudado na tentativa de derrubar o governo revolucionário do MPLA - revela à moça os horrores da família e de um país que tanto lutara pela independência. Lobo Antunes entrelaça as vozes da protagonista, da mãe e do pai, revelando o retrato de um país fraturado pela guerra.

Tomada por uma angústia que mistura passagens omníricas, realidade e memória, Cristina busca recordar o que a levou à sua condição actual, deitada na clínica lisboeta. Ao costurar factos históricos e uma inventividade ficcional, Lobo Antunes constrói um romance denso, mesclando diferentes personagens e camadas narrativas, sobre um período marcante - e sombrio - da recente história africana.


[autor desconhecido]
2013

12 de abril de 2014

Alcir Pécora: «Português retrata delírio esquizofrênico de mulher torturada» (opinião sobre Comissão das Lágrimas)

Como sabem seus leitores, o romancista português António Lobo Antunes (1942) serviu como médico psiquiatra do Exército português em Angola, no início do conturbado processo de independência do país.

Em "Comissão das Lágrimas" (2011), Antunes justamente retoma esse tema das lutas de Angola, que o tornou mundialmente conhecido. Concentra-se, desta vez, nos eventos passados no período 1977-1979, marcado pelas lutas cruentas entre diversas facções políticas do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

O atentado fracassado contra Agostinho Neto, que exercia o poder desde a independência do país, em 1975, foi o estopim ou o pretexto para a criação de um Tribunal Militar Especial ou Tribunal Revolucionário, que comandou uma operação de perseguições, torturas e execuções de supostos dissidentes.

O número de mortos, durante os dois anos de funcionamento do tribunal, apelidado pitorescamente de "Comissão das Lágrimas", pode ter chegado a 80 mil, sem que haja fontes oficiais confiáveis a respeito ou sobre a própria existência da Comissão, dissolvida em 1979.

Tais eventos mapeiam o chão histórico do romance de Lobo Antunes, sempre mais aludido que directamente narrado. O que se justifica plenamente, uma vez que o livro se apresenta como a transcrição do delírio esquizofrénico da personagem Cristina, mulher de 40 anos, internada numa clínica psiquiátrica de Lisboa.

Uma assombrada conjunção de vozes revela que veio ainda menina de África, que seu pai preto foi torturador da Comissão das Lágrimas e que sua mãe portuguesa, branca, se prostituía em Angola. Embaralhadas em sua cabeça, mal dissolvidas pelos remédios, as vozes compõem um tormentoso fluxo de consciência quebrado por fragmentos de diálogos e de imagens de episódios traumáticos.

Sobrepõem-se vislumbres de cenas nas quais a mãe paterna é humilhada pela patroa branca; em que o pai, garoto, sofre abuso no seminário de padres ou, adulto, é protagonista dos sinistros interrogatórios.

Intercalam-se imagens da mãe, violentada pelo tio, pelo dono da oficina e por outros mais; os passos de forçada alegria que dá como corista, emigrada em Angola; a sugestão do nome Cristina feita à mãe, grávida do rufião da companhia; a figura canhestra do preto que a criaria como pai, quando se apresenta à mãe, após um dos seus shows mambembes na periferia de Luanda.

O fluxo simultaneamente vertiginoso e repetitivo do relato produz um imediato efeito de obsessão e de lembrança lesada, mas também de dispersão e de redundância das várias vozes que se apoderam dele. O melhor do procedimento é a criação de analogias insuspeitas entre cenas disparatadas. Por exemplo, quando a colher de pau com que o pai espanca a patroa na cozinha é intercambiável com o pénis que penetra o colega de seminário.

Em lances assim, a narrativa ganha semelhança com o "interseccionismo" poético de Fernando Pessoa (1888-1935), no qual a multiplicidade de imagens se sobrepõe, com transparência, na consciência que as absorve.

O conjunto, contudo, não se resolve tão bem. A sequência das cenas recortada pelos fragmentos de fala parece obedecer a certo automatismo narrativo e a excessivos trejeitos estilísticos. Ambos amortecem a brutalidade dos episódios aludidos, seja como terror histórico, seja como processo doloroso de desmanche da subjectividade.


por Alcir Pécora
fonte: site da Unicamp (Brasil)
em: 29.07.2013

[Alcir Pécora é professor de teoria literária da Unicamp e autor de "Máquina de Gêneros" (Edusp)]

5 de maio de 2012

Tiago M. Franco: opinião sobre Comissão das Lágrimas


António Lobo Antunes é um dos escritores portugueses mais premiados. Entre os vários prémios que conquistou, destacam-se o Prémio para Melhor Livro Estrangeiro publicado em França, 1997; o Prémio Jerusalém, 2005; e o Prémio Camões, 2007. Não deixa de ser curioso que só após a atribuição de dois dos prémios mais importantes a nível mundial tenha-lhe sida atribuído o mais importante prémio para escritores de língua portuguesa. Em Comissão das Lágrimas volta ao tema da guerra colonial.

Vive-se o período da pós-independência, as tropas portuguesas ainda estão em Angola, mas um grande sentimento de vingança está presente dos dois lados. Cristina saiu de África aos cinco anos, agora internada numa clínica psiquiátrica recorda esses tempos trágicos.

“Porque em Angola é assim, tudo ao contrário do que se imagina”.

O racismo; a incerteza no futuro; o medo; a responsabilidade de ambos os lados; o sentimento de culpa e de perdão ou a crueldade humana são temas abordados ao longo do livro.

“Um dia destes Deus vai saber de certeza.”

Lobo Antunes não esconde a realidade, com uma escrita poética e ao ritmo do pensamento humano vai descrevendo esse período histórico em que milhares de pessoas abandonaram o país deixando tudo o que tinham, quem ficou testemunhou a destruição, muitos foram assassinados, outras ainda continuaram a praticar actos racistas.

“…o pai da Cristina a recordar o cubículo para onde se atirava as granadas, contando os segundos antes da explosão, um dois três quatro cinco, que calava os gemidos e as rezas, calava o silêncio também,…depois das granadas desaferrolhava-se o cubículo e nem sequer muito sangue, ossos ao léu rompendo a pele e a carne”

Um livro duro, de palavras difíceis, onde a morte não tem importância e o silêncio é aterrador.

Com este livro António Lobo Antunes dá mais razão às vozes que reclamam para si o Prémio Nobel da Literatura.

Boa Leitura…


por Tiago M. Franco
Sugestão de Leitura
02.05.2012

25 de novembro de 2011

Fernando Martins: opinião sobre Comissão das Lágrimas

Comissão das Lágrimas, narrativa cubista?

Se as vozes não voltam não se escreve este livro e o que é este livro senão pessoas tentando abrir a porta” (Comissão das Lágrimas, p. 52)

“Se for mulher, metes-lhe Cristina” (p. 86), dizia a Simone o Senhor Figueiredo, “dono da fábrica, da modista, do escritório” (p. 51), na realidade dono do cabaret. “Simone, apesar de chamar-se Alice” (p. 19), mãe de Cristina, “viera de barco para dançar num teatro e não era teatro que lhe chamavam” (p. 12). O pai putativo (“diz-se que o patrão pai da filha, diz-se que o marido padre”, p. 90), preto (sempre este epíteto – estigma e farpa), “foi padre, não era padre já” (p. 12). O avô cego que “tacteia o mundo (…) convencido que as mãos, ao moldarem o ar, fabricam parentes” (p. 50) e o tio que “separa o corpo” da sobrinha, com a advertência “Nem pio” (p. 89). São estas algumas das vozes que povoam esta narrativa nos limites do caótico, em que Cristina, narradora privilegiada, retornada de uma Angola a viver os atribulados anos pós-independência e internada numa clínica de Lisboa, segrega um discurso delirante, deixando a cada passo que outras vozes o assumam.


AS VOZES

O sentimento que domina o leitor de Comissão das Lágrimas é o da dispersão, para o que contribui poderosamente esta multiplicidade de vozes emissoras do discurso. Por vezes, elas cruzam-se, como acontece no excerto seguinte, despistando o leitor por instantes:

[Cristina:

―]“e como repousar com as danças à noite e os dias a fugir das espingardas da tropa nas ruas de Luanda, o meu pai não se sabia onde, chegava a casa, com meia dúzia de pretos, arrependido de ter vindo, a minha mulher que não era minha mulher, a minha filha que não era minha filha” (p. 131/132)


Aliás, numa intrusão irónica e mal camuflada do autor no discurso do seu narrador, confessa-se:

uma matilha de mabecos a trote, à espera de um fio de cheiro que os guie, desenterrando os mortos, se a caça escasseia, conforme desenterro defuntos que pilho à minha mãe e ao meu pai porque não sei qual de nós três fala agora” (p. 187)

Este procedimento, que consiste, no fundo, em fazer confluir e mesmo colidir o acto da enunciação com a própria história, assume neste livro uma certa relevância. Veja-se, por exemplo, esta outra intromissão, que chega a lembrar-nos a escrita de Saramago (referência que talvez não seja do agrado de ALA …):

no momento em que a mola se libertava de um espigão invisível e recomeçava a distender-se tal como este capítulo, até aqui resistindo-me” (p. 297)

Para além disso, a insistência com que esta instância enunciadora é chamada à colação acaba por instituir um nível de auto-referencialidade notório, sem contudo atingir o grau de saturação que atingiu, por exemplo, em Livro de José Luís Peixoto:

Se as vozes não voltam não se escreve este livro” (p. 49),

que penoso dizer isto, dá a impressão de ser fácil e como a caneta demora, as vozes principiam a rarear” (p. 131),
e a somar na mesma dificuldade com que escrevo sem dar conta que escrevo” (p. 149),
decidi que este livro vai acabar dentro em pouco” (p. 201),
onde decidi que este livro termina” (p. 207),
quem escreve isto por mim” (p. 297),


além do passo em epígrafe do artigo.


A SINTAXE

Em Comissão das Lágrimas, ALA reincide no uso de uma sintaxe frouxa e desviante. De vez em quando, um período mais solidamente articulado proporciona ao leitor como que uma trégua na balbúrdia reinante. Um breve e imperfeitíssimo inventário, permite-nos identificar dois procedimentos típicos desta escrita atormentada: 
  • Omissão frequente de verbos, desde os verbos declarativos, na passagem ao discurso directo, 
“― A trabalheira que me dás rapariga
E contente, no caso de eu [lhe dizer]

 ― A trabalheira que lhe dou senhor?” (p. 26),


até aos verbos predicativos, e outros, facilmente supríveis pelo contexto:

no apartamento de Lisboa vê-se o Tejo da marquise na condição de abrir o trinco porque os vidros [são] opacos” (p. 13);

mas se me afastasse perguntava às névoas que o cercavam, na esperança de [haver]parentes ali, um afilhado, um sobrinho, o tio das perdizes” (p. 26)
  • Cortes sintagmáticos abruptos com justaposição de elementos díspares 

e não conhecemos vocês nem os, e as palmeiras mais fortes, nem os vimos, senhor, como as palmeiras me emudeceram, a mulata colares de cobre, pulseiras, carezas de branca rica que se tornaram farrapos (…) (p. 245)

Estas supressões e interrupções tendem a conferir ao discurso um débito sincopado e desconexo – sugestão eficaz da perturbação mental da narradora.

Casualmente, períodos como os que seguem vêm adoçar o caos relativo com alguma poesia ou um pensamento que refulge:

e se calhar nenhuma filha com eles, inventaram-na, há quem invente filhas e passeie uma ausência ao colo até que um choro que mais ninguém escuta se cale e possam deitá-la, adormecida, no berço, afastando-se sem ruído de um nada que os alegra (…)” (p. 104);

a vida, por mais que os meses mudem, não passa de um hoje sem fim” (p. 163),
o problema não é morrer, é não termos vivido, nada estremece em nós com aqueles nomes, somente lágrimas fora do prazo que não pertencem a desgosto nenhum” (p. 269),
o que os objectos exprimem se reparamos neles, perdem a sua inércia, recriminam-nos, exaltam-se, um minuto depois de direitos entortam-se de novo” (p. 283)



UMA NARRATIVA “CUBISTA”

e o mundo, palmo a palmo, de volta, os tiros cessavam e mais travessas, mais becos, mais musseques, tapumes derrubados onde soluçavam frangos, uma cabra flutuando ao acaso ou o badalo somente, suspenso de nenhuma papada, a caminhar por ali, pessoas ocultas numa dobra de prédio, não fazendo parte do escuro, fazendo parte das casas, cada vez menos pés, menos braços, menos carne, tijolos em que lábios, tornados paredes, respiravam ainda seguindo-o com olhos de caliça que apesar de cegos o viam

Ao ler-se o parágrafo que precede, como não recordar o quadro “Guernica”, de Picasso? Num e noutro, o mesmo horror da guerra, animais e gente subitamente irmanados no sofrimento, corpos destroçados, objectos como que investidos de vida (“tijolos em que lábios, tornados paredes, respiravam ainda”).

Mas, apesar da sua intensidade, creio que esta sugestão é um dado subjectivo e meramente impressionista. Se este romance suscita o epíteto de cubista é sobretudo pela fragmentaridade das ideias e por um certo simultaneísmo, entendido como ocorrência simultânea de várias vozes. Outrossim, a recusa da tese mimética é uma evidência, tanto na pintura cubista como nesta narrativa, e, quanto à noção de perspectiva, se o cubismo pictórico a rejeita, o romance de ALA não me parece favorecê-la, na medida em que o foco narrativo é sempre assumido por personagens tão atormentadas que lhes é impossível um distanciamento objectivador/perspectivador.

Até a técnica da colagem, que o cubismo incorporou no início do século XX, parece estar aqui documentada na utilização sucessiva de memórias avulsas e heteróclitas:

é quando apenas o gato emerge do soalho a procurar-nos, não em Luanda, aqui, o mesmo gato, juro, o meu avô terra ou antes cordas que o desciam e eu junto à camioneta a fitá-lo, a minha mãe de súbito Alice de novo, não Simone, não vão matá-lo, pai, não tenha medo, todos esqueceram as pessoas de pulsos amarrados na praia menos nós, uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos contra as manhãs difíceis, ruínas poeirentas, fragmentos miúdos, eu nos braços de uma mulher mas qual porque dúzias de vizinhas que os militares levaram […].” (p. 27)

José Gil, citado por José Mário Silva, no seu excelente artigo “Vozes sobre vozes” (Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011), corrobora a minha anterior observação, referindo-se embora a outro romance de ALA:

Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos.”

Em conclusão, e ainda a propósito da dificuldade em identificar, por vezes, as vozes cruzadas nesta narrativa, uma recordação com muitos anos. Na aula de Português, um colega, de pé, junto da secretária onde se sentava a Dr.ª Fernanda Medeiros, professora da disciplina, no Liceu Normal D. Manuel II, lia a tirada de Telmo Pais na cena IV do acto III do Frei Luís de Sousa:

― “Meu Deus, meu Deus! (ajoelha) levai o velho que já não presta para nada, levai-o, por quem sois!”

― Quem é o velho, Fulano?
E o colega, imediatamente:
― É o romeiro.
― Ó menino, então o Telmo ia pedir a Deus que levasse alguém que não fosse ele mesmo?! Achavas isso bem?


Como reagiria a pobre da professora, que amiúde se queixava da desgraça da turma, perante as dificuldades suscitadas pela leitura de A Comissão das Lágrimas? Estou mesmo a vê-la fulminar-nos com aquele anátema que mais de uma vez lhe ouvi, sob a forma de predição:

― Se, algum dia, um de vocês conseguir tirar um curso superior, que me escreva. Vou ficar muito surpreendida…

Pensando melhor, imagino que, se ainda é viva, a senhora terá deixado de ler os romances de Lobo Antunes aí por volta do Manual dos Inquisidores. Aos últimos não reconheceria seguramente o estatuto de obras literárias, quanto mais obras de leitura obrigatória nos programas de ensino … E eu, que nunca cheguei a escrever-lhe, teria dificuldade em convencê-la. Até porque subscrevo sem ressalva estas palavras certeiras de António Guerreiro:

ao impedir o leitor de compreender e seguir uma intriga, [ALA] retira-lhe algo que é uma necessidade imanente do romance e do qual ele não pode prescindir, entrando em falha. Dito de outro modo: o livro de António Lobo Antunes pressupõe uma história enquanto objecto de uma narração, exige do leitor que este saiba do que é que falam e de onde vêm as personagens, mas omite tudo isso, sem se importar com o facto de não assumir a responsabilidade da sua forma. Parece comprometido com o fragmentário e a dissolução das categorias narrativas, mas continua a exigir uma totalidade.” (“Quem falou em polifonia?”, Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011)


Fernando Martins
Também de Esquerda
25.11.2011

31 de outubro de 2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Comissão das Lágrimas


Uma mulher de quarenta e tal anos. A fronteira entre a juventude e a memória que escapa, porém uma outra memória, a que resiste, persiste, como uma moinha, uma dor latente que aperta a alma e domina a mente; recordações negras, avassaladoras, povoam a mente de Cristina, internada numa clínica psiquiátrica. Memórias de África, Angola, Luanda, anos setenta. Nascida no tempo da Guerra Colonial, crescida entre o sangue e o horror, Cristina recorda a mãe, Alice ou Simone consoante se trate da mãe propriamente dita ou da mulher de alterne em que sobrevivera, do pai ou não pai, não se sabe bem, ele preto, o pai verdadeiro talvez branco, talvez o senhor Figueiredo da boîte, Cristina não sabe, sabe sim que o pai, preto, foi homem da Comissão das Lágrimas, homem que faz justiça com muitas mortes e sofreu de outras justiças não menos ensanguentadas pela guerra ou guerrilha ou seja lá o que for, porque em Angola não era preciso guerra para matar, bastava viver ou sobreviver.

É assim o escrever e o sentir de António Lobo Antunes, frases que crescem como o pensamento que se encadeia noutro pensamento, porque o pensamento não tem pontos parágrafo nem sofre de acordos ortográficos. Assim uma escrita corrediça como a vida, assim às vezes partida ao meio como as almas.

O escrever de António é como o escrever do pensamento na memória. O que pensamos é por vezes apenas o que persistiu, deitamos fora os sorrisos, ficam as dores, as moinhas que persistem como o joelho de Simone ou Alice, o joelho que não pára de doer, que incha como as dores da alma.

É assim o escrever de António, um escrever que nos faz sentir as dores de todas as Cristinas e chorar a alma de todas as Simones. É assim um livro inteiro sem um sorriso, a não ser talvez o sorriso interesseiro do avô de Simone, “anda cá rapariga”, o avô de Alice (então Alice, está claro) que não vê, não enxerga e então vê Alice tacteando, as pontas dos dedos no corpo de Alice, como os aguilhões de todas as guerras cravados nas almas.

Um livro sofrido, escrito a sangue que se lê sem lágrimas mas também sem conforto a não ser o do prazer imenso de passear na tristeza e na arte infinita de António Lobo Antunes.

A meu ver um dos melhores livros de ALA, este, o último até ao próximo. Um livro onde, mais uma vez, não se pode procurar uma estória porque os livros de ALA são viagens, não são contos nem narrativas. Viagens interiores, passeios pelas dores da vida e, muitas vezes, murros brutais na alma de quem lê. Murros que se encaixam talvez com prazer masoquista mas sem dúvida com prazer de saborear esta poesia da dor como ninguém mais é capaz de a escrever.


Manuel Cardoso
31.10.2011

30 de outubro de 2011

José Alexandre Ramos: opinião sobre Comissão das Lágrimas

«A única solução é apagar o passado»

Será ingénuo o leitor que, tomando Comissão das Lágrimas para ler, pensar que vai encontrar o mesmo António Lobo Antunes (ALA) de livros, pelo menos, anteriores a Eu Hei-de Amar Uma Pedra. Muito mais ingénuo será o leitor se for apenas conhecedor das crónicas encantadoras do escritor e julgar vir a sair da mesma forma encantado com a leitura deste livro de difícil catalogação (chamar-lhe simplesmente romance não é justo, seja no bom ou no mau sentido). Isto quer dizer que ler os livros mais actuais de Lobo Antunes, ou este em concreto, tornou-se quase impossível? Depende do leitor: sim, se for um dos ingénuos que atrás referi, porque é preciso estar preparado; e não, se já conhecer bem a arte do escritor e tiver capacidade para se conduzir nas curvas e contracurvas do discurso sem se despistar em qualquer capítulo. Mas é o mais difícil de todos, do meu ponto de vista. A não ser que eu não tenha estado tão preparado como julguei. A eficácia de um livro também depende da preparação do leitor para o receber.

Pessoalmente, como leitor de todos os livros de ALA e grande apreciador da sua escrita, desta vez, com este Comissão das Lágrimas, não saí convencido de ter lido uma obra-prima. Não creio que seja livro de que vá recordar-me, ou acompanhar-me durante semanas, como aconteceu com outros (Fado Alexandrino, a título de exemplo e indo buscar um dos mais antigos, já lido há anos). O doseamento das palavras, o encaixe das vozes sobrepostas, continua sendo de mestre (que eu ainda não encontrei em qualquer outro autor até à data), mas, dando razão a algumas críticas que já li, este livro, com um título tão sugestivo (ao qual só os mais distraídos se mostrarão indiferentes) necessitava que desta vez António Lobo Antunes se desmarcasse da sua obstinada pretensão de não contar uma história (na realidade ele conta imensas em cada livro, ou no mínimo sugere a maior parte delas) e engrossasse este Comissão das Lágrimas com um fio narrativo mais consistente, para que nada fugisse ao leitor. Pegando nas palavras de Clara Ferreira Alves, em crítica ao livro publicada no Expresso, ALA “sabe do que está a falar e quem está a falar, os leitores não. O escritor deixa os leitores à porta”. Nem todos os leitores, mas a maioria acredito que sim. Se não sabemos o que veio a ser esta Comissão das Lágrimas – um episódio político na história de Angola após a independência, que não vou explicar, os interessados podem pesquisar na web – teremos mais dificuldade em entrar nas várias narrativas. Assim, nada se perdia se o autor desta vez tivesse introduzido nas suas vozes alguém que explicasse, mesmo que muito sumariamente, o porquê deste título ou desta “comissão” que surge várias vezes ao longo do texto. Dir-me-ão porventura que pode ler-se nas entrelinhas. Também, mas o que se espera de um livro com título tão sugestivo? E só aprendemos as entrelinhas se soubermos o que foi a Comissão das Lágrimas como facto histórico, de outra maneira ficaremos com uma ligeira impressão de que será alguma coisa política e aterradora, com a ajuda de alguns fragmentos apanhados do discurso, mas nunca com uma noção clara do que se trata: ao longo de todo o livro, é a razão para o discurso das vozes que habitam a narração.

E que vozes são estas? Podemos dizer que é apenas uma voz interpretando tantas quantas Cristina, a personagem narradora, se quisermos assim, terá no interior da sua mente esquizofrénica. Nascida e vivendo em Angola até aos seis anos, é filha de uma portuguesa bailarina (prostituta?) de cabaret de gosto duvidoso e de um ex-padre, angolano preto, que acaba por ser um dos comissários dessa inquisição que torturava e matava. Mas será esta criatura, branca como a mãe, verdadeiramente filha do comissário angolano a quem chama pai? A subtileza das palavras que ALA deixou neste livro pode levar-nos a outra interpretação (leiam para saber), bem como da veracidade do que ali é relatado, tanto a nível do que o leitor poderá imaginar o que terá sido a Comissão das Lágrimas, bem como de toda a informação das personagens (vozes) sobrepostas: o que dizem, o que fazem, o que sentem, o seu passado. A duvidosa veracidade destes factos é sugerida ao longo do texto, em afirmações que são negadas pela voz interveniente, ou mesmo quando nos damos conta que, estando Cristina narrando, o discurso resvala para outros tempos, outros espaços, outras circunstâncias, a diegese altera, e linhas ou páginas adiante é Cristina que retoma, e isto sem haver, estruturalmente, qualquer pausa, qualquer parágrafo ou mesmo ponto final (a pontuação gráfica é basicamente feita com pontos de interrogação e vírgulas, os pontos finais só figuram quando termina cada capítulo). É como se a voz de Cristina se engasgasse, como se o seu pensamento fosse tomado, ou ela entrando em transe, repentina e repetidamente, para dar vez a outras vozes que se impõem. Tudo a uma velocidade tal que é compreensível que o leitor, se não desistiu nos primeiros capítulos, tenha de voltar atrás, e mais atrás, e reler, para não perder-se neste emaranhado. É o que de mais negativo encontro no livro, estruturalmente: é muito emaranhado, nenhum capítulo dá descanso ao leitor; e, de resto, o que dizem as vozes, acaba por ser redundante com o que já lemos de outros livros do autor.

Resumindo o livro em duas palavras, para nos centrarmos no que, na minha opinião, é o tema da narrativa e o que incomoda as suas personagens: culpa e arrependimento. Está absolutamente carregado de culpa, por acções e decisões tomadas, pelo que poderia ser feito, pela inércia, pelo medo de. Arrependimento é o que resta a estas três pessoas tão sós (pai, mãe e filha, que acabam por trocar Angola por Portugal e não têm parentes ou amigos), a olhar uma réstia do Tejo através das janelas de um apartamento tacanho, recuando no passado como peçonha entranhada nas suas almas. Ou afinal que é Cristina apenas que delira e então acabamos por não saber nada do que foi, se o foi, se o é. Só ela, só ela – a voz – e o escritor que desta vez deixou os seus leitores à porta. A única solução, como diz nas suas últimas linhas o livro, é apagar o passado. Apagar o passado, ultrapassar a culpa e deixar-nos entrar, António.

(Nota: escrever sobre este livro foi muito mais difícil do que lê-lo. Não quis falar mais a fundo das personagens e do seu papel na narrativa por achar que ia acabar por abordar apenas uma história – ou um lado dessa história – e o livro contém muitas, todas inacabadas, fragmentadas. Quem não entendeu o que escrevi não leu o livro. Leia, então, mesmo ficando à porta, e depois regresse contando a sua experiência como leitor.)



José Alexandre Ramos
30.10.2011

22 de outubro de 2011

Simão Fonseca: opinião sobre Comissão das Lágrimas


António Lobo Antunes, enquanto escritor, não pára de me surpreender, e como leitor, fico surpreendido a cada obra que tenho o prazer de ler e de, por vezes, escrever o que sinto, o que ouço e o que vejo em cada linha das páginas constituintes de belos romances, baseados geralmente em acontecimentos da vida de Lobo Antunes. Cada livro que compro é garantia de satisfação, interrompida por breves dores de cabeça saudáveis que me deixam na dúvida e obrigam a raciocinar a um ritmo de decifração acelerado.

Comissão das Lágrimas remete de imediato para Angola e para a carnificina do movimento de independência que ocorreu naquele país africano. [...]

Embora a obra seja baseada nestes factos históricos, ela é-nos contada por Cristina, filha de uma imigrante portuguesa branca e de um pai negro, ex-padre, agora ao serviço do governo, que também eles se intrometem na narração da história. Cristina esteve apenas cinco anos em Angola antes de regressar a Lisboa e, no entanto, recorda-se – aparentemente – da vida dos pais em Luanda: a mãe uma dançarina que se prostituía numa casa de alterne, que nos é descrita como uma «fábrica/modista/escritório»; o pai abandonou em jovem os caminhos de Deus para interrogar e torturar agora os desertores e opositores do regime, vendo-se ele próprio mais tarde perseguido e obrigado a fugir com a família para Lisboa. Linearmente, pode ser esta a sinopse do último da extensa lista de romances do autor. Mas, e como é habitual na escrita e temática de Lobo Antunes, as personagens vivem num mundo caótico de realidade vs fantasia, afirmando algo que parece verdade aqui, ora algo que já contradiz essa mesma verdade acolá. Cristina está internada numa clínica, ouve vozes e comunica com os objectos que a rodeiam, num estado de verdadeira esquizofrenia, contribuindo para uma narração alucinada dos acontecimentos que ela, a mãe e o pai (com avós e tios à mistura) vão descrevendo.

Ao longo de mais de trezentas páginas são-nos oferecidos retratos de mortes e mais mortes na cadeia, em valas, na rua, em tudo quanto é terra em Angola, acompanhado por uma musicalidade rápida que Lobo Antunes imprime na sua escrita, deixando o leitor confuso e desgastado com tanta imagem e som que lhe desperta – analepses, elipses e prolepses juntam-se para um pezinho de dança com bastante frequência. Como referido anteriormente, linearmente a obra pode ser interpretada como mais um retorno a Angola e às angústias de Lobo Antunes; convém, no entanto, ressalvar, que a questão dos retornados portugueses é outra das ideias de fundo que é explorada no livro. Cabe ao leitor interpretar e digerir da melhor forma o prato que lhe é servido, distinguindo os delírios e a realidade da escrita de uma das maiores figuras da Literatura mundial.
 

Simão Fonseca
22.10.2011

Helena Vasconcelos: crítica a Comissão das Lágrimas


O canto dos carrascos

Um sinistro episódio da violência pós-independência em Angola, recriado num livro polifónico, se não ensurdecedor

[...] (*)

António Lobo Antunes, um escritor que conhece bem a violência e não perde a oportunidade de a retratar de uma forma única e, para muitos, peculiar, recria este episódio sangrento e compõe uma obra que funciona como um lamento alucinado, onde se fazem ouvir várias vozes sobrepostas - a corista decadente, o padre sem sotaina, “respeitoso, com uma açucena na mão”, a louca, o pedófilo, (típicas personagens do autor), a mãe, o pai, a filha, o avô, a neta - e, também, os gritos e sussurros de gerações e gerações sujeitas ao ciclo infindável da catástrofe e da culpa. Mas, neste livro, as personagens estão todas mortas, condenadas a deambularem como fantasmas, expressando o seu horror em litanias pungentes que se elevam numa cacofonia de frases soltas e de apelos dilacerantes.

A escrita do autor, repetitiva, sincopada, oriunda das profundezas da “corrente da (in)consciência” - não é sua intenção “contar histórias” mas sim invadir-nos, “penetrar-nos” - serve bem o propósito desta narrativa sombria que se desenrola em espiral, partindo de um ponto fixo que surge da recriação das múltiplas vozes no início de cada capítulo e que articula sem parar o impacto da violência física e psicológica entre gerações, concidadãos, raças, homens e mulheres, representantes de ideologias rivais, irmãos, espécies.

Para o leitor, trata-se de acompanhar o ritmo e de seguir os compassos dissonantes desta “sinfonia” onde cabem “leitmotivs” e expressões simbólicas fechadas num círculo tenaz que quase nunca se afasta - a não ser, estranhamente, nos capítulos 16 e 17 - de um “núcleo duro” formado por imagens díspares de grande impacto evocativo. O resultado é um atropelo ensurdecedor de palavras enclausuradas num ambiente claustrofóbico de medo e loucura, em que até os objectos, o ar e a terra são ameaçadores. O autor não se limita a mencionar os acontecimentos em Angola, alargando o âmbito da sua narrativa à guerra colonial, ao êxodo dos retornados e aos pesadelos dos sobreviventes, fechados em apartamentos impessoais numa Lisboa indiferente e provinciana, onde acabam por desaguar as memórias tanto dos carrascos como das vítimas.

A linguagem, tal como acontece na obra de autores como William Faulkner e Toni Morrison, é a ferramenta primordial de Lobo Antunes e ele trabalha-a, manipula-a e verga-a com uma espécie de prazer “bárbaro”, quase sádico. É essa mesma linguagem que serve o propósito de construir um ambiente de caos exterior, de desordem íntima, de demência e de pavor, em que a subversão da dinâmica dos movimentos e das sensações serve o antiquíssimo ciclo da violência desmedida dos homens sobre os homens, as mulheres, os animais e a própria terra que, aqui, desconhece a doçura do apaziguamento. O extermínio do sexo feroz vem sempre a par deste ritual de catanas e kalashnikovs, de cadáveres apodrecidos e sem nome, restos aos quais o autor não permite qualquer réstia de amor ou compaixão, qualquer manifestação de alegria ou de tristeza, sentimentos totalmente ausentes deste livro onde - apesar, ou por causa, do título - quase não existem lágrimas.

Numa entrevista ao Jornal “O Estado de S. Paulo”, Lobo Antunes afirmou, em 2010, que este livro, como todos os outros, parte do desafio de não se deixar “vencer pelas palavras”. Em “A Comissão das Lágrimas” o desafio cumpre-se, mas o processo autofágico da escrita acaba por derrotar, em certa medida, o seu autor.
 
(*) a autora do artigo, no primeiro parágrafo que decidimos não citar, explica o que é A Comissão das Lágrimas dentro do contexto político de Angola em 1977. Como o assunto já está retratado em algumas das opiniões desta página, optamos por omitir esse parágrafo. Se o quiser ler, basta aceder ao link abaixo da Ípsilon.

Helena Vasconcelos
Outubro 2011

Ana Cristina Leonardo: crítica a Comissão das Lágrimas


Jogo de Espelhos

Disse em tempos Eduardo Lourenço, a propósito da escrita de António Lobo Antunes, que "a África foi o espelho no qual ele pôde ver melhor o delírio da experiência portuguesa", mostrando-nos "não apenas a morte em África mas a nossa própria miséria, os nossos terrores sepultos" ("António Lobo Antunes. A Crítica na Imprensa 1980-2010 Cada Um Voa Como Quer", Edição Ana Paula Arnaut, Almedina, 2011, pág. 257). O escritor, depois de recentemente ter andado por lá perto no belíssimo "O Meu Nome É Legião", volta a render-se ao tema, agora num mergulho em apneia que tem como ponto de partida um episódio histórico. "Comissão das Lágrimas", cujo título retoma, com exactidão, o nome pelo qual ficou conhecido o tribunal que, em Angola, julgou - e condenou sumariamente à morte - os presumíveis envolvidos no golpe fratricida de 27 de Maio de 1977, ter-lhe-á surgido a partir da história trágica de Elvira, conhecida por Virinha, uma militante do MPLA que, torturada e assassinada na sequência dos acontecimentos, se tornaria num símbolo de resistência: "A rapariga sem língua continua a cantar, erguíamo-la do chão e continuava a cantar, não se cala (...)." Se o livro se funda no real, este, porém, apenas lhe serve de pretexto e, como sempre em Lobo Antunes (uma das razões por que é grande), o particular depressa cavalga o universal. Aqui, África é, de facto, um "espelho" no qual ele pode ver melhor o "delírio da experiência portuguesa", mas também o sofrimento que nos calha a todos. O romance retoma o registo polifónico habitual ("o meu ofício é traduzir vozes", pág. 128), organizando-se em torno de três personagens principais. Cristina, internada numa clínica, assombrada por vozes que não lhe dão descanso; a sua mãe branca, Alice/Simone, ex-dançarina de pluma de lantejoulas que "coxeia a sua desgraça"; e António, o preto a quem os brancos não deixaram ser padre, o pai (?) torcionário que, em Lisboa, continuará "à espera que o matem". A polifonia é contrariada pelo cruzamento intricado dos registos e pela dúvida que se instala ao longo do texto. Quem fala? E quem fala diz a verdade ou delira? O tema da verdade - que é, afinal, o tema que importa a todos os inquisidores - confunde-se, assim, nas memórias (reais?, inventadas?) de Cristina na clínica e as confissões arrancadas pela Comissão das Lágrimas, mais a confissão a que António é obrigado no seminário: "(...) perguntavam-me - Desonraste a Divindade?, e não era que não quisesse contar, era que não achava o que devia ser contado, pensava - Ensinem-me o que deve ser contado, ou - Ensinem-me o que querem que eu conte". A capacidade de a ficção ir mais longe explicara o desejo do literário. Por isso, talvez, o realismo estará tão distante do registo de António Lobo Antunes, mesmo se, paradoxalmente, as palavras com que se exprime optem sempre por uma materialidade crua, na fronteira do prosaico: "uma traineira com problemas nos ossos, por vezes um rebocador aflito da hérnia" (pág. 313). Finalmente, se Angola é o cenário principal de "Comissão das Lágrimas", só se dá a ver em contraponto com a marquise de Lisboa, "o mundo dos naperons" que ficou para trás no tempo, os camponeses "de olhos cheios de vacas" e o passado que se mistura com o presente, ambos dolorosos. E mais uma vez em Lobo Antunes seria preciso regressar à inocência da infância, no pressuposto de que tal coisa possa existir.
 

Ana Cristina Leonardo
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

António Guerreiro: crítica a Comissão das Lágrimas


Quem falou em polifonia?

Um boato sobre alguns romances de Lobo Antunes, e muito especificamente sobre este último (agora, com o beneplácito do autor, que contribuiu para ampliá-lo), obteve ampla circulação e incitou a cerimoniosas leituras. Trata-se do boato da "polifonia", do "romance polifónico". A ideia de romance polifónico ou dialógico foi desenvolvida por Mikhail Bakhtine - um grande linguista russo, perseguido pelo estalinismo, cujos estudos só foram conhecidos na Europa ocidental já nos anos 70 - num livro chamado "A Poética de Dostoievski". O que é o romance polifónico, segundo Bakhtine? É um tipo de romance em que as vozes das várias personagens não são projecções da consciência do autor-narrador. Feito de uma multiplicidade de consciências independentes, de ideologias diversas, de linguagens diferentes, de discursos heterogéneos, o romance polifónico ou dialógico caracteriza-se por uma diversidade de vozes contraditórias que inclinam o romance para uma permanente crítica de si mesmo ou até para a paródia e a ironia. No pólo oposto do romance polifónico está o monologismo da epopeia, que, em certa medida, se prolonga no romance realista do século XIX. Ora, quando lemos "Comissão das Lágrimas", defrontamo-nos, até à exasperação, com uma espécie de recitativo ou de litania caracterizada pela homogeneidade. As vozes podem ser muitas, mas são indiferenciadas (por isso é que, para o leitor, são difíceis de identificar: quem diz o quê neste romance?), têm todas a mesma música. O efeito, como é óbvio, demasiado óbvio, é a equivalência e a monotonia, exactamente o contrário do efeito que produz um romance polifónico, que é movido pelo princípio da contestação e da contradição. O leitor avança por um terreno liso, sem paragens nem curvas nem encruzilhadas, e o perigo a que está exposto é o de sentir um enorme tédio, porque a paisagem é sempre igual: os efeitos narrativos e a informação diegética (a matéria que constitui o plano da história narrada) alcançados no primeiro capítulo não aumentam de teor nem de quantidade nem de densidade, embora se prolonguem por mais de 300 páginas. O que aumenta, isso sim, é a impaciência do leitor perante a redundância. Aquilo que é prometido como polifonia não passa de uma algazarra de vozes indistintas. Mas este romance falha essa presumida polifonia porque, embora não pareça (já que ao leitor não lhe são dadas as informações para reconstituir a história nem sequer em fragmentos), está ainda submetido a modelos de representação realista. Ao impedir o leitor de compreender e seguir uma intriga, retira-lhe algo que é uma necessidade imanente do romance e do qual ele não pode prescindir, entrando em falha. Dito de outro modo: o livro de António Lobo Antunes pressupõe uma história enquanto objecto de uma narração, exige do leitor que este saiba do que é que falam e de onde vêm as personagens, mas omite tudo isso, sem se importar com o facto de não assumir a responsabilidade da sua forma. Parece comprometido com o fragmentário e a dissolução das categorias narrativas, mas continua a exigir uma totalidade. É como se um Faulkner fosse buscar um enxerto ao Hermann Broch de "A Morte de Virgílio". Inevitavelmente, o leitor sentir-se-á derrotado por tamanho desajuste. Mas, atenção: "Comissão das Lágrimas" não recusa a intriga por se situar num outro plano. Não, ele situa-se no plano onde a intriga é ainda exigida, mas está em falta, inacessível ao leitor. Alguém que sinta falta de uma história num romance de Rui Nunes é porque não consegue, ou não quer, responder às solicitações da sua escrita; quem acha que não é necessário saber, neste romance, a quem pertencem as vozes, com quem dialogam e que história trazem consigo, é porque tem uma fé inabalável na imaginária polifonia. E ainda que seja justo reconhecer que conseguimos isolar frases, excertos, páginas que têm uma grande força e densidade, logo somos obrigados a verificar que eles são submetidos a um dispositivo que os esvazia e tudo devolve, transformado no artifício gratuito de uma hiperliteratura deslumbrada consigo mesma.
 

António Guerreiro
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

Pedro Mexia: crítica a Comissão das Lágrimas


Com os carimbos todos

Lobo Antunes tem insistido na ideia de que não escreve "romances", de que é um ficcionista de "vozes", vozes de personagens, vozes na cabeça, vozes que ditam o texto. "Comissão das Lágrimas", o seu vigésimo terceiro romance, torna esse conceito bastante literal, uma vez que a narradora está internada numa clínica com um distúrbio mental que fez da sua consciência uma câmara de ecos. Cristina comunica connosco através de um incessante delírio associativo, de confissões, segredos, queixumes. Tem Angola na cabeça, mas voltou de Angola ainda criança, e por isso as lembranças que a perseguem não são realmente suas mas de conhecidos e desconhecidos, que através dela convocam estilhaços de uma memória colectiva. O acontecimento histórico no centro dessas evocações é o 27 de Maio de 1977, o brutal esmagamento da revolta "nitista". Reagindo às movimentações de um grupo de ultras, Agostinho Neto ordena uma purga contra os "fraccionistas", acusados por um tribunal revolucionário, torturados, assassinados em massa, dezenas de milhares de mortos em pouco tempo. Além de eliminar  "conspiradores" e "traidores", a repressão organiza inúmeros actos de vingança individual e ajustes de contas, numa espiral demente onde se misturam as cinzas do Império e do fratricídio. Qualquer violência se justificava, nenhuma era engano, "não havia engano, que engano, traziam a ordem com a assinatura do Presidente e os carimbos todos" (pág. 103), O "tribunal" de depuração ficou conhecido como Comissão das Lágrimas, e o romance está cheio de homens algemados com arames nos pulsos e tornozelos, empilhados na cadeia de Luanda, vítimas de humilhações, sevícias, interrogatórios soezes, julgamentos sumários, confissões falsas, pedidos de clemência, súplicas. E de castigos, catanadas, fuzilamentos, gente esventrada e despejada em valas comuns. Lobo Antunes não nos diz nada sobre a circunstância política, apenas usa esses acontecimentos para desfiar imagens de barbaridade: "Informavam-me, na Comissão das Lágrimas, este morre, este não morre, e quase todos morriam, aqueles que não morriam na Cadeia de São Paulo iam morrer nas valas, esse é português, batam-lhe, lembro-me da fazenda Tentativa, lembro-me do Grafanil, de entrarmos no hospital, a seguir à independência, a disparar sobre os doentes" (págs. 156-157). A Comissão das Lágrimas é, a dado passo, "uma criação de canalhas", e em torno dela o escritor convoca episódios das guerras colonial e civil, incidentes de uma violência que só teoricamente é "política", pois a política serve de cobertura a toda a espécie de retaliações e bestialidades. Os acontecimentos de 1977 são tão trágicos e fortes que se fica com vontade de que "Comissão das Lágrimas" fosse um romance "sobre" a Comissão das Lágrimas; porém, Lobo Antunes afasta-se desse caminho, o que lhe interessa são as vozes que vivem na cabeça da narradora, cujo pai foi um dos torcionários, e que expia agora pecados alheios dando voz a mortos e vivos. O texto, torrencial mas elíptico, cruza tempos e testemunhos, repete frases e estribilhos, comentários racistas, memórias de família, conversas de seminaristas e coristas, associações livres, confusas e poderosamente poéticas. O desfazer do tecido narrativo torna fascinantes certas cenas e figuras passageiras, como aquele funcionário negro no ocaso da administração colonial que termina um inventário e o arquiva antes de se ir embora de vez ("ficou tudo em ordem"). Ou os retornados que se sentem perdidos e acanhados em Lisboa, uma rima com as personagens de "As Naus" (1988), pessoas que entram num táxi e pedem: "Moçâmedes, se faz favor". A voragem das vozes e a disseminação da culpa dá uma inesperada consistência narrativa à fragmentação deste romance, mas o "tema" Angola 77 é um pouco desperdiçado. Funciona como ocasião para o autor revisitar os traumas africanos, mas não é ainda a investigação romanesca que o passado pós-colonial merece.
 

Pedro Mexia
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

21 de outubro de 2011

José Mário Silva: crítica a Comissão das Lágrimas


Vozes sobre vozes

Não há nada mais violento do que reduzir a complexidade de um livro com mais de 300 páginas à formulação lapidar, mas necessariamente superficial, de uma sinopse com três ou quatro linhas. No caso dos romances de António Lobo Antunes, sobretudo os mais recentes, não se trata sequer de violência mas de impossibilidade. Dizer-se que Comissão das Lágrimas é sobre o horror vivido em Angola no período pós-independência, quando Agostinho Neto aproveitou o esmagamento da revolta «fraccionista» de Nito Alves, a 27 de Maio de 1977, para eliminar opositores (tanto fora como dentro do MPLA), equivale a resumir o romance anterior – Sôbolos Rios que Vão – à lenta agonia de um homem operado a um cancro, que enfrenta as suas desordenadas memórias e o espectro da morte numa cama de hospital. Os romances também são isto, claro, mas são sempre muito mais, infinitamente mais do que isto, porque Lobo Antunes abandonou há muito os modelos narrativos clássicos, trocando-os por uma praxis poética da ficção, em que a força torrencial da linguagem se sobrepõe a tudo, até à clareza e legibilidade das muitas histórias que convoca para as suas obras.

Num breve ensaio sobre um livro anterior, de 2008, publicado no volume António Lobo Antunes: A Arte do Romance, organizado por Felipe Cammaert (Texto, 2011), o filósofo José Gil escreve: «O que é O Arquipélago da Insónia? Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos. E em cada um destes pode surgir um outro tempo, alguém que se lembra subitamente de um gesto ou de coisas num outro tempo do passado; então a recordação salta para um plano diferente da memória, como uma lembrança de uma lembrança, muitas vezes sem nenhuma ligação com a narrativa que interrompeu. São ilhas de tempo que se conectam pelo poder hipnótico da bruma que a escrita segrega.» A descrição aplica-se, palavra por palavra, a Comissão das Lágrimas. Está tudo lá: a «imensa colagem» de imagens e cenas, os mecanismos da memória, as «ilhas de tempo», o «poder hipnótico» da linguagem, até a «bruma» que torna difusos os meandros dos percursos individuais.

O espaço narrativo coincide com a mente caótica de Cristina, uma mulher que ouve vozes e está internada numa clínica: «as coisas passam-se dentro de mim, não fora». A matéria do livro é por isso, em sentido estrito, uma alucinação. Cristina torna-se o veículo das vozes alheias que «se acotovelam, vociferando ou lamuriando-se», um círculo de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», figuras que a manipulam e confundem: «aproximam-se-me do ouvido, pegam-me no braço, empurram-me, surge uma cara e logo outra se sobrepõe discursando por seu turno, às vezes não discursos, segredos, confidências». No corpo do texto, sincopado e tenso, os narradores interrompem-se, coalescem, tal como os tempos e lugares se misturam e prolongam uns nos outros. Há no que se conta um alto grau de incerteza (por exemplo, a mãe, cujo nome oscila entre Alice e Simone, trabalhou numa fábrica/modista/escritório). O estado natural das coisas é a derrocada, das «lembranças que se emaranhavam trocando de sítio» aos episódios «que ao julgar apanhá-los se escapam». No limite, a única certeza é a dúvida (e a suspeita de que pode ser «tudo mentira»).

Das muitas vozes que irrompem no delírio de Cristina, há duas que se destacam. A da mãe, branca, corista decadente, sofrendo em África com as saudades da província portuguesa de onde veio (mesmo se parte das suas memórias são traumáticas: violações, abusos, miséria). E a do pai, negro, que andou no seminário, foi padre, mas depois abandonou Deus. É ele o eixo central da narrativa. Para vingar a humilhação da mãe, em tempos posta de joelhos, submissa, no chão da cozinha de um chefe de posto, aceita fazer parte da Comissão das Lágrimas, que interrogou, torturou e condenou sumariamente à morte milhares de pessoas, tanto na Cadeia de São Paulo, onde se lançavam granadas para dentro de cubículos cheios de prisioneiros, como em Quibala, onde as vítimas cavavam as fossas em que depois eram sepultadas. A culpa, essa, continua intacta trinta anos depois, no apartamento lisboeta com marquise virada para o Tejo e vidros opacos, um refúgio tão precário como o eterno jogo de xadrez atrás do qual se esconde, porque ele sabe que um dia os fantasmas da História lhe hão-de bater à porta para o fazer pagar pelos seus crimes.

À semelhança dos outros romances da última década, há em Comissão das Lágrimas uma estrutura musical (temas, variações, estribilhos, ritornelos) que permite abordá-lo como uma «partitura literária», para usar a expressão de Catarina Vaz Warrot (num ensaio sobre o «texto como tecido sonoro», incluído no volume citado mais acima). Volta igualmente a verificar-se uma espécie de auto-consciência da ficção: «se as vozes não voltam não se escreve este livro»; «não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se e eu a perguntar-me quais as que devo dar a vocês, não tenho tempo para decidir, escolham».

Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é também aqui que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo se maravilhados). Nas palavras de José Gil, o «poder entrópico» desta «grande máquina formal de escrita» é tão grande que corre o risco de «devorar toda a substância, toda a vida das personagens e dos acontecimentos». Mas enquanto Lobo Antunes não perder as suas qualidades de prosador magnífico – capaz de descrever Luanda como «uma gaveta de facas sempre aberta», uma cidade «que incha e se contrai numa cadência de punho, as avenidas elásticas, os edifícios moles, a Muxima para diante e a arredar-se depois, exprimindo, só para ela, o que eu não entendia» –, enquanto continuar a escrever com um fôlego e um fulgor sem paralelo na literatura portuguesa contemporânea, esse é um risco que vale a pena assumir.

Avaliação: 8.5/10

José Mário Silva
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

2 de outubro de 2011

Miguel Real: crítica a Comissão das Lágrimas


Singularidade absoluta

1) INTRODUÇÃO

Comissão das Lágrimas, último romance de António Lobo Antunes (ALA), mantém o conjunto de singularidades estéticas que tornou o seu autor um vulto ímpar nas letras portuguesas e internacionais.

Com efeito, descansado o exemplar do livro no braço do sofá, a conclusão é indeclinável: ninguém escreve ou escreveu como ALA. O autor é, de facto, uma mónada literária sem passado estético nem genealogia autoral no seio da história do romance português. Não existem mestres para este tipo de escrita e, certamente, não existirão discípulos (epígonos haverá muitos). Quem teriam sido os seus patriarcas da escrita em Portugal? Raul Brandão de Húmus, Ruben A. de Caranguejo, Ana Hartely de A Discípula, Nuno Bragança de A Noite e o Riso, José Cardoso Pires de O Delfim, Maria Velho da Costa deMaina Mendes? E internacionais? Faulkner, Joyce, Calvino, Kafka? Não.

Em absoluto: nenhum autor escreve como ALA. Certamente que terá havido influências - é impossível não havê-las. Porém, o importante não será a manta de retalhos de possíveis influências que uma especiosa tese de doutoramento detectará aqui e ali, mas, diferentemente, a concepção bem firme hoje da absoluta singularidade estética da escrita de ALA. Sim, todos os escritores possuem uma escrita singular (por isso são escritores, mas alguns são mais escritores do que outros. E ALA é-o em modo absoluto. O que significa dizer de um escritor que o é de um modo absoluto? Significa que os seus livros revelam uma nova dobra na língua portuguesa, um novo horizonte estético para esta, uma nova forma de combinação de palavras até então nunca descoberta. Por isso os romances de ALA confundem o leitor, habituado à gramática de mestre-escola [...]

Quer o leitor fazer a experiência? Leia em simultâneo Comissão das Lágrimas e O Cão que Pensava Demais, de José António Saraiva, publicado agora mesmo, e veja a diferença - no primeiro, os lugares sintácticos e morfológicos clássicos são amiúde alterados e as relações entre as palavras abrem novos campos semânticos, gerando uma outra figuração escrita da língua, que, sem dúvida, confunde e espanta o leitor; no segundo, da primeira à última páginas, toda a escrita se resume a um tradicional máximo denominador comum da língua, a gramática clássica ali depositada como um dogma de Deus, sorte de longa redacção de um bom aluno do 12º ano, compondo um romance profundamente conservador [...]

2) A ESCRITA DE ALA

Com efeito, por via de elisões, antíteses, paralelismos, sinestesias, reiterações recorrentes, por vezes sucessivas, metonímias frequentes, analogias inesperadas geradas por cruzamento de ideias ou frases, assíndetos (corte das adversativas), e outras técnicas estilísticas (certamente que espontâneas), a escrita de ALA cria uma cadência musical encantatória que atordoa o leitor, uma toada hipnótica (cf. Maria Alzira Seixo, As Flores do Inferno e Jardins Suspensos, 2010, p. 20, por exemplo) que o desorienta, não raro o confunde. O leitor busca uma intriga clara e consistente, pontos de apoio compreensivos no interior da história narrada (qual o papel do avô em Comissão das Lágrimas?, a mãe chama-se Alice ou Simone?, o pai preto violentou ou foi violentado ou as duas coisas na frequência do seminário?; a mãe trabalhou num escritório, numa fábrica ou numa modista?...), o leitor tenta refazer a cronologia da acção, não consegue à primeira, à segunda, espanta-se, hesita em pôr o livro de lado, sucumbe à leitura tão bela mas tão exigente, surpreende-se, agita-se, conclui conter Comissão das Lágrimas uma escrita diferente de todas as outras. Neste momento, o leitor ou abandonou a leitura (ao 3º, 4º capítulos, ansiando por romances transparentes como o de José António Saraiva) ou já foi projectado para dentro do romance, não é já um receptor passivo, um novo universo estético nasceu na sua mente, uma "pena gozosa" (Pe. António Vieira) penetrou-o, debate-se com a narração da história, tenta controlá-la, conclui ser controlado por ela e abandona-se à fruição do romance.

3) COMISSÃO DAS LÁGRIMAS: UM "INFERNO DOCE"

Assim, ler Comissão das Lágrimas é como se cada leitor reconstruísse dentro de si um novo "Guernica": corpos fragmentados, mentes estilhaçadas, sentimentos benéficos amarrotados, os "cães negros" do inconsciente maligno emergidos, soltos, situações sociais aterrorizantes - o terror em cada página (cf. p. 57, como exemplo), um inferno em forma de arte, ou como Vieira designava os engenhos de açúcar, mantidos permanentemente acesos pelo trabalho escravo, um "inferno doce", e Maria Alzira Seixo denomina por "flores do inferno". "Comissão das Lágrimas" designa o conjunto de elementos vencedores que, em 1977, em Luanda, seleccionaram os "nitistas" ou os "fraccionários" da revolta de Nito Alves e Zita Vales contra a fracção dominante do MPLA liderada por Agostinho Neto. Não houve piedade ética nem misericórdia cristã - após prisão e tortura, foram mortos milhares e milhares [...] de angolanos ao longo de dois anos: do sangue dos "fraccionistas", como outrora do sangue dos escravos nasceu o actual poder político angolano [...] e o "inferno doce" que é hoje Luanda.

Todo o romance, multiplicado por três espaços principais (Luanda, Quilala, Lisboa) e quatro tempos (Angola: 1967, 1974/75, 1977 e Lisboa, 2007), é atravessado pela recordação da tortura infligida a Virinha (terror puro e simples: pp. 35, 48..., personagem real sem nome no romance), o arrependimento do ex-padre preto, marido da mãe de Cristina, desaparecido em Almada aos 76 anos, sofrendo de arteriosclerose, o trauma infantil de Cristina, que houve vozes vindas de objectos (cadeiras, folhas, flores..., e porventura deitará fogo ao apartamento da família em Lisboa), a existência carregada de solavancos da mãe de Cristina, corista-bailarina frustrada devido a aleijão no joelho, explorada sexualmente à ordem do Senhor Figueiredo pelos brancos ricos.
 

Miguel Real
edição 1069 do Jornal de Letras
21.09.2011
[grafia revista para as normas antes do AO90]

21 de setembro de 2011

Comissão das Lágrimas pelo olhar de Norberto do Vale Cardoso

O título do novo romance de António Lobo Antunes, Comissão das Lágrimas, liga-se a um acontecimento importante da história de Angola, e em particular a dissidências internas do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), que levaram, em 1977, a um golpe e atentado falhados a Agostinho Neto. Na sequência desses acontecimentos, o Comité Central do MPLA procurou apurar a identidade dos “fraccionistas”, constituindo, para o efeito, uma comissão de inquérito que ficou conhecida precisamente por “Comissão das Lágrimas”. Todavia, e apesar da importância contextual desses factos para o romance, não podemos ater-nos a eles, pois se na obra de António Lobo Antunes a realidade histórica surge sempre como uma referência importante, devemos estar cientes de que, nela, o “real” não segue pressupostos de verosimilhança ou de fidelidade realista.

De igual modo, a temática da Guerra Colonial, que tratámos ao longo deste ensaio, não está ao serviço de reconstruções históricas desse conflito, nem pode a obra de Lobo Antunes sobre este tema ser lida de forma literal. Talvez por esse motivo, o próprio autor reitere nunca ter escrito nenhum livro sobre a guerra e que o mais próximo que terá estado de o fazer teria sido no volume (cuja publicação não é de sua autoria, note-se!) intitulado Cartas da Guerra, isto é, numa escrita sem finalidade estética. Por outro lado, se a guerra é abordada tematicamente na obra antuniana, é-o sempre num sentido figurado, perscrutando mais as vivências interiores do que propriamente os marcos históricos e/ ou bélicos que a configuram.

Esta Comissão das Lágrimas não pode ser vista como a escrita dos factos, antes como criação literária de um evento que, de facto, podemos situar no tempo, mas que, em Lobo Antunes, deve ser entendido como um continuum, ligado a vivências e a memórias, ou seja, a uma percepção pessoal e interior, conforme se verifica no exemplo: “não há ontens como os ontens dos brancos, é-se ou não se é e pronto” (CL, 108). Por esse motivo, o romance antuniano não é um romance histórico, não se socorre de documentos nem o seu autor recorre a investigação. Seria, pois, redutor referir que a acção deste romance decorre em 1977, quando a personagem de nome Cristina tinha 5/6 anos de idade, em Angola, e três décadas mais tarde, em Lisboa. Melhor seria pensar em realidades que se circundam, e não em tempos ou espaços isolados.

Assim, a Comissão das Lágrimas retrata, não apenas aquele momento delicado da independência e guerra civil angolanas, mas também todas as guerras travadas nesse território. Esta interconfluência de guerras (a Guerra Colonial, referida nas Lágrimas sobretudo através dos bombardeamentos do Cassanje em 1961 e das guerrilhas embrionárias; a guerra civil latente durante a Guerra Colonial, representada pela existência de vários movimentos de libertação; e a guerra civil propriamente dita, com a coexistência, no seu dealbar, de angolanos e portugueses, descrevendo-se aqui as incidências trágicas da descolonização, desde logo patentes no caos estabelecido, aquando dos embarques, no ano e meio subsequente ao 25 de Abril de 1974) e de guerras dentro de guerras (dos vários movimentos e das suas disputas às dissidências dentro do MPLA, por exemplo) permite que, num segundo plano, passemos a ver, nesses conflitos, a imagem de um sofrimento universal.

As guerras serão, pois, em idêntico número às vozes que, tendo existido, são olhadas como alucinação e/ou imaginação de Cristina, a personagem que é fruto de uma relação entre Alice (indicação onomástica importante, sobretudo se ligada à referência que, em Memória de Elefante, reenviava à Alice de Carrol e, portanto, a uma identidade anómala, representada nas Lágrimas pela duplicidade Alice/ Simone, ou mesmo a um lugar outro, que se pode traduzir como o «lugar do avesso») e António (uma outra indicação fulcral na construção autobiográfica do autor, desde Conhecimento do Inferno até aos romances mais recentes), ou seja, entre um negro e uma branca, ainda que esta união não seja capaz de resolver diferenças ou de “purificar” os que, no mundo colonial, eram considerados opostos (tópico recorrente em Lobo Antunes).

Esta “cafuza”, considerada como “uma maluca que fala sozinha” (CL, 10), é internada numa Clínica devido às vozes que diz ouvir e que, repetidamente, solicita, ainda que em vão, se desinteressem dela. Essas vozes (que distraíam Cristina na escola, e que a levavam a dar erros nas cópias e a emaranhar os rios na sua cabeça, aspectos que relembram, respectivamente, a redacção no final de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo e a obsessão pelos rios em Sôbolos Rios Que Vão) representam uma só voz, a de uma rapariga, que, torturada e amputada da sua língua, continua a cantar na Cadeia de São Paulo: “a rapariga sem língua continua a cantar, erguíamo-la do chão e continuava a cantar, atirávamo-la contra o cimento e continuava a cantar, não se cala, […]” (CL, 47).

A excisão da língua, que, porventura, seria o castigo para a mentira num processo de interrogatório (ligando-se a procedimentos inquisitoriais e censórios importantes em várias obras do autor, tais como Manual dos Inquisidores ou O Meu Nome é Legião), é, contudo, paradoxal, pois a remoção inviabiliza a confissão. Esta mutilação relega-nos, de resto, à tortura dentro da temática da guerra na obra de Lobo Antunes (pensamos sobretudo emOs Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, mas também n’ O Esplendor de Portugal, em que os cubos de gelo introduzidos no ânus lembram um dos mecanismos de tortura medieval, o Berço de Judas). Por outro lado, esta entidade feminina, que tem uma referência histórica (Elvira, mais conhecida por Virinha, foi militante do MPLA), seria, à imagem da Sofia de Os Cus de Judas, que, assassinada pela Pide, se mantém como um fantasma mudo da Guerra Colonial, a representação das vozes de todos os povos reprimidos.

Nas Lágrimas, o “canto” feminino pode associar-se ao “canto do galo”, símbolo que surge no romance através de bandeiras colocadas nos telhados das casas ou numa tatuagem que uma mulata tinha no “umbigo”, e que representa o despertar – ainda que frustrado - de um país onde a paz está “estagnada” (CL, 163), ou seja, onde impera a afasia política (incapacidade de diálogo entre Unita e MPLA, por exemplo). Por outro lado, o “canto” é inexplicável porque nasce de um vazio, de uma ausência, colocando em causa a origem da voz, como se esta fosse determinada por outra coisa que não a língua, ou, em sentido lato, a Língua também fosse determinada por outra coisa que não a palavra, mas por algo anterior a ela: as lágrimas - “porque é na garganta que se juntam as folhas secas das lágrimas” (CL, 44).

A lágrima será uma confissão muda, mesmo que não conducente à verdade dos factos, pois a língua é um símbolo contraditório, representando a chama da criação ou o fogo do inferno. Talvez por isso se coloque em dúvida, na parte final do romance, a existência da própria “Comissão”, como se colocara a das vozes de Cristina (ou se podem colocar as vozes de que o autor necessitará para o seu ofício de tradução: “o meu ofício é traduzir vozes”, CL, 139; “Se as vozes não voltam não se escreve este livro”, CL, 48). De facto, o romance não nos garante o real. Esta Comissão é, no fundo, uma inquirição sobre um real - a construção de um país, que tem o nome de “Angola”, mas que não corresponde necessariamente a Angola, pois, no romance, Angola é “tudo ao contrário do que se imagina” (CL, 49). Esta Angola é, aliás, definida não como um país, mas como um “sítio” (CL, 168), o que é explicável a partir da imagem da sua capital, Luanda, definida como “uma gaveta de facas sempre aberta” (CL, 90).

Esta “gaveta”, lugar onde a única verdade é o conflito, pode ser também definida como o “umbigo” ou o “cu do mundo” (CL, 296), lugar marginal onde se dá um “julgamento mútuo” (CL, 247), ou seja, onde todos julgam, acusam e traem (cf. CL, 127 ou 295), ligando-se à figura de “Judas”. Em suma, na afasia política em que vivem os homens, o romance instituir-se-á como Língua e Canto porque, numa qualquer parte do mundo, haverá sempre outras vozes carentes de uma Voz.



  

Norberto do Vale Cardoso
in A Mão-de Judas. Representações da guerra colonial em António Lobo Antunes (em pré-publicação)
Texto Editora, 2011
artigo publicado em simultâneo na edição 1069 do Jornal de Letras

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