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de Norberto do Vale Cardoso

“Tratado das Paixões de Judas:

Emoções Sociais e Cognição

em

António Lobo Antunes”




Norberto do Vale Cardoso
(Doutorado pela Universidade do Minho)



I

As paixões do Lobo na guerra



“[...] aqueles meses de guerra haviam-nos transformado em pessoas que não éramos antes, que nunca tínhamos sido, em pobres animais acuados repletos de maldade e de terror.” (I. 175)


1. «Sequestro neuronal» – desequilíbrio emocional

Centrados na experiência da Guerra Colonial, os primeiros romances de António Lobo Antunes estabelecem várias comparações para explicar a “animalização” a que foram sujeitos os soldados portugueses, transformados em “bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar” (J. 135). Há, pois, uma dicotomia entre o que eram antes e depois, o que nos parece corroborar a perspectiva “sociologista da guerra”, que refere o acto bélico como estranho ao Homem e produto das relações sociais (Bebiano, 2000:77 e ss). Vejamos, sobretudo, como o narrador d’ Os Cus de Judas (p. 136) afirma essa mutação: “não éramos cães raivosos quando chegámos aqui [...], antes dos ataques, das emboscadas, das minas [...]”. Sugere-se que, na guerra, os soldados se desumanizam/ animalizam, tornando-se em “lobos”, regressando a um estado primário, a uma fase incipiente do “animal político” aristotélico, isto é, em que o Homem não é capaz de reflectir sobre a sua conduta e controlar, pela moral, as suas “paixões”. Estas levam-no a agir sem pensar, ou, se quisermos, a uma situação em que a necessidade de agir exige uma resposta automática de tal modo veloz que o intervalo entre o “disparo” da emoção e a reacção não chega a entrar no consciente (Goleman, 2006:271).
As “paixões” seriam, para Descartes (2009:58), enganadoras, porque os sentidos tocariam a alma com mais força do que a razão. A reacção in-consciente, que não permite que quem age compreenda sequer “o que se está a passar”, é, segundo Daniel Goleman (2006:271), uma resposta “rápida-e-suja da mente emocional”. Percebamos, assim, que as emoções são “adaptações” com que os “organismos regulam a sua sobrevivência” (Damásio, 2004:75), e são-no muito mais numa situação anómala quanto o é qualquer guerra. É evidente que as restrições sociais fazem parte do percurso evolutivo do ser humano, pois, “mal-grado” esses limites, “as paixões estão permanentemente a sobrepor-se à razão” (Goleman, 2006:21). Ora, uma guerra é sempre a abolição das regras, e, nesse sentido, da repressão a que as paixões ou emoções estavam sujeitas, motivando-as (do latim, motere, mover para) em excesso. Assim, o incremento das paixões, como subjugação da racionalização, provoca um desequilíbrio entre a mente emocional (vulgo, «coração») e a mente racional (a «cabeça») (cf. Goleman, 2006:26).
É essa a situação narrada por António Lobo Antunes nos seus primeiros romances. No Conhecimento do Inferno vemos um desses exemplos de desequilíbrio em que se dá uma “explosão emocional” (Goleman, 2006:32), ou seja, em que as “paixões” quebram as amarras racionais que as coarctavam. Referimo-nos a uma situação de tortura perpetrada pelos soldados portugueses sobre três negros que sentiam serem os culpados “dos tiros, da angústia, da injustiça, da estupidez da guerra” (I. 173). O sofrimento (do latim passiōne) era tão violento que o protagonista recorda que teve de fechar “à força o posto de socorros” porque “(todos os homens queriam participar no massacre, vingar a sua angústia, a sua raiva, o seu medo [...])” (I. 173). Só no momento em que a tortura resulta em morte é que os soldados parecem conhecer (cognoscěre) o resultado do seu acto, chamando o Pide para que este os auxilie e resolva o “problema”.
O que os terá levado a perpetrar essa tortura? A resposta passa por uma alteração progressiva das vivências e, consequentemente, por um desequilíbrio das emoções, que culmina numa “resposta suja”, mas defensiva e reguladora da sobrevivência. Aliás, são a dor e o sofrimento que melhor nos protegem para a sobrevivência (Damásio, 2009:268). Daniel Goleman (2006: 32) considera que essas reacções momentâneas são como “sequestros neuronais”, em que o centro límbico dispara uma emergência e se apodera do resto do cérebro. Não podemos com isto julgar que não devemos ter “paixões”, pois são elas que proporcionam aptidões emocionais básicas para a existência humana, fortificando as emoções no pensamento, como já Descartes cogitava (2009:52). Trata-se, outrossim, de aprender a encontrar um equilíbrio entre as emoções e a razão, o que, numa guerra, se nos afigura como algo intermitente. Porém, quando ocorre um desequilíbrio, e quanto mais grave é esse desequilíbrio, as consequências podem ser irreversíveis (e.g. o trauma). A guerra desperta o lado mais instintivo do Homem, pois a pressão (stress) a que o organismo está sujeito nessa situação (Pereira, 1991:67) gera uma desordem (distress) (Quintais, 2000:37). Portanto, numa guerra as acções explicam-se do mesmo modo que se explica um reflexo: quem reagiu, “quem teve o reflexo foi o organismo, e não necessariamente a «pessoa»” (Damásio, 2004:96). Quem reagiu foi um organismo que pugna, inatamente, pela sobrevivência.
Assim, quando a vida está em perigo dá-se uma alteração no cérebro que se torna incontrolável (Goleman, 2006:261). A cognição, processo de Conhecimento posterior ao acto, é o despertar da mente racional, ainda que esta não consiga ser tão rápida quanto a emocional. A consciência questiona-se então sobre as razões dos seus actos, que resultam do facto de a mente emocional tomar todas as crenças como verdadeiras e incontestáveis (Goleman, 206:374). Logo, só a mente racional pode pensar, ter um sentimento de si. Ora, por sentimento entendemos uma “sombra” da emoção (Damásio, 2003:19), ou seja, “o sentir daquilo que acontece quando o seu ser é modificado pela acção de apreender alguma coisa.” (Damásio, 2004:29) Efectivamente, o psiquiatra regressado da guerra sente-se perseguido pelas imagens de tortura, dado que, por ter agido consoante as suas “paixões”, sente que se “traiu” a si mesmo, encarando-se como um Judas (J. 112) (note-se aqui a multiplicidade de sentidos do elemento remático). Assim, recordar será uma actualização do trauma na mente emocional, e um risco de esta se voltar a apoderar da mente racional.  


2. Objectos «emocionalmente inocentes» e objectos «emocionalmente competentes»

A guerra começa por ser um objecto emocionalmente inocente (coisa rara na idade adulta, Damásio, 2003:73), mas torna-se num “objecto” emocionalmente competente, que pode esbater ou amplificar os efeitos emocionais, ou seja, que pode criar uma nova emoção (cf. Damásio, 2003:73). É o que sucede quando a data exacta da tortura surge, “de súbito”, na memória do psiquiatra (I. 172) que narra. Ora, narrar equivalerá a uma forma de “«sentir» os sentimentos”, e este «sentir» “prolonga o alcance da emoção” (Damásio, 2004:325). Todavia, esse procedimento é necessário na terapia para controlar as suas “paixões”. Consequentemente, a emoção, sentida “hoje” pelo psiquiatra ao narrar o que sentiu há anos, em tudo se assemelha à efectivamente sentida naquele momento. Deste modo, a memória gera emoção e a emoção gera memória: “ [...] neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi há seis anos e perturbo-me ainda” (J. 38).
Curiosamente, na narração interligam-se aspectos contraditórios, pois o sujeito que narra, e que, nos casos aqui referenciados, é a personagem do alferes-piquiatra, sente perturbação e libertação nesse processo narrativo, em que, além do mais, o passado se faz presente. Essa ambivalência deve-se, afinal, ao facto de “o lugar da arte” se ter tornado “incerto” (Adorno, 1982:11), ou, se quisermos, a uma “inabilidade epistemológica” da arte em representar a violência e o horror (Norris, 2000:20 e 62). Narrar é reexperienciar uma experiência (inexperienciável), pois o trauma resulta de uma “situação com a qual nenhum ser humano está preparado para lidar” (Albuquerque in Pinto, 2002:34).
Dá-se, pois, uma situação de ruptura forçada, uma perda do habitat, o que implica uma “inversão de valores”, colocando em causa as emoções sociais culturalmente modeladas (Dores, 1994:35). A sobreposição de “um universo falso” ao “universo habitual” (J. 28) será o início da anomalia emocional, que leva o protagonista de Judas a sentir “um sentimento esquisito de absurdo” (J. 25), uma sensação de pertencer a outro lugar, sem saber qual (J. 32). Coloca-se, antes de mais, um problema de auto-representação, paulatinamente agravado pelas vicissitudes da guerra. Há uma fragilização constante do combatente, agudizada em momentos de “paragem”, em que os soldados têm tempo para cogitar/ pensar, ou seja, para ter um “sentimento” (de si), que seria a possibilidade de controlar voluntariamente o que até então era automático (Damásio, 2003:96). Contudo, nem mesmo Descartes (2009: 128) cria que fosse humanamente possível resistir às paixões.


3. Falsificação de emoções – escravos das «paixões»

Procurando embotar esses sentimentos, alguns soldados entregam-se ao álcool, enquanto outros se suicidam. No caso do consumo de bebidas alcoólicas, temos uma falsificação das emoções, que não reflecte o estado actual do organismo. O efeito permite que o soldado não soçobre, mas essa adulteração incapacita-o emocionalmente, e não é biologicamente sustentável a longo prazo (Damásio, 2003:160). O que sucede é uma modificação dos mapas verídicos do corpo, falseamento que quer iludir uma menor perfeição do organismo. Atentemos num exemplo: “[...] este tipo de álcool [...] possui a benéfica virtude de [...] subir o nível da coragem [...]” (J. 27).
Os sentimentos são “manifestações mentais do equilíbrio e da harmonia, da desarmonia ou do desacordo” do organismo (Damásio, 2003:162), mas quando este está gravemente perturbado e não consegue regressar à homeostasia, pode dar-se um total descontrolo emocional, que resulta em inaptidão. Esta, por sua vez, pode conduzir o organismo ao suicídio, que, como referimos, é presenciado e narrado pelo antigo combatente, que, no presente, exerce psiquiatria no Hospital Miguel Bombarda. No caso dos suicídios, em que se destaca o do “soldado de Mangando” (cf. J. 176-177), enfatiza-
-se uma “imprecisão emocional do cérebro”, uma inaptidão, com maior incidência nos casos de emoções particularmente fortes, como o são os acontecimentos traumáticos (Goleman, 2006:41).
Podemos ressalvar que o suicídio é um acto paranóico, mas é o único, afinal, que inflecte contra a “máquina paranóica” de guerra (Deleuze e Guattari, 1995:14). A ausência de si como corpo parece ser a única saída vislumbrada para retirar de si as emoções que não consegue cognoscěre. A autognose sobre as suas emoções não lhe dá nem autoconsciência nem autoconhecimento, pelo que este indivíduo não é capaz de manifestar uma inteligência emocional (Goleman, 2006:65). Esta falha, equivalente a uma amputação, implica, por outro lado, que o sujeito seja “escravo das paixões”, revelando uma falta de “inteligência intrapessoal” (Goleman, 2006:61). Como conhecida figura bíblica, Judas, o soldado português age segundo paixões inexplicáveis, que implicam, numa posterior introspecção, a sua auto-mutilação. Mas ao contrário do psicopata, em que a emoção é nula, o soldado sofre porque o sentimento da emoção o enfraquece (Goleman, 2006:148) até ao suicídio. Este resulta de uma lacuna de inteligência emocional (Goleman, 2006: 54), de uma incapacidade para se auto-motivar e de “persistir a despeito das frustrações”.
Ao invés do suicida, o sobrevivente (aquele que não se suicida, mas que sente estar “morto como os suicidas”, J. 121), manifesta um autodomínio das paixões perturbadoras, o que não requer, porém, a superação ou compreensão dos seus sentimentos. O não suicídio omite problemas de representação do eu, sobretudo porque o sobrevivente assiste ao suicídio de alguém que lhe era gregário. Esta situação agrava a sua fragilização, levando-o a procurar uma cognição incognoscível: “- Por que é que as pessoas se matam?” (I. 253) Esta é uma demanda infrutífera. Por exemplo:

“A gente mata-se porque somos os mendigos desta guerra” (I. 205);
“As pessoas matam-se porque estão fartas. [...] Fartas de não perceberem porque é que morrem.” (I. 206)

Portanto, o não suicida pode incorrer numa incapacidade, comummente apelidada de desordem de stresse pós-traumático, de que o protagonista (muito associado ao autor empírico) dos primeiros romances de António Lobo Antunes padece.



Para ler o artigo completo consultar:


Estética das Emoções (organização de Fernanda Gil Costa e Igor Furão), Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, V.N. Famalicão, Húmus, pp. 213-224.

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