28/09/2006

Jorge Mayer: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Leer a Lobo

Ler Lobo Antunes foi para mim uma experiência perturbadora. Isento de preconceitos e de boas intenções, numa manhã fria - não tão distante como quisera - não pude resistir ao chamamento de um volume - o pormenor de Os Amantes de René Magritte na capa - com um título que operou sobre mim uma espécie de encantamento: Eu Hei-de Amar Uma Pedra, engodo de uma frase do dogma da religião que escolhi professar. Amar uma pedra que nada pode dar em troca do meu amor, uma pedra que - preciosa ou não - nunca será mais que uma pedra. Todas as pedras, a pedra.

Leitor cego por uma curiosidade que confina com a anarquia, sem pensá-lo, lancei-me a ler os últimos parágrafos. Fi-lo como quem, sabendo-se envenenado, engole vorazmente a primeira coisa que se lhe pareça um antídoto. O acaso não podia ter feito por mim nada melhor. Levei com uma machadada certeira à altura de uns olhos que não chegaram a assombrar-se e já estavam feridos sem remédio. Tinham visto que o murro póstumo do escritor se permitia a uma última insolência, afinal credora da minha mais terna indignação.

Mas de que se valeu este livro - pensei - para dizer-me que se trata somente de um livro, para despedir-se de mim - à hora cinzenta das doze badaladas - que me sentia uma folha em branco, que guardava para ele todas as perguntas. Que desplante, que falta de respeito, que maus modos, fazê-lo sentir a um convidado de pedra, um intruso. Quem escreve isto, o que me está propondo. A fome pediu-me mais e para lhe valer contei os dias e as noites, as moedas e as privações, até que reuni todo o dinheiro para comprá-lo. Desde então tem andado comigo para toda a parte.

Quem é o Lobo? António Lobo Antunes é um prolífico romancista português, autor de títulos como Tratado das Paixões da AlmaA Ordem Natural das Coisas ou Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, médico psiquiatra de profissão, um tipo que aos quinze anos aprendeu a ser agradecido com o povo. A manifestação deu-se com a volta do correio de uma carta sua a Louis-Ferdinand Céline a propósito de Viagem Ao Fim da Noite.

Os livros de Lobo são o registo de uma paciência de ourives. Disse que trabalha até doze horas por dia. De manhã no estúdio de José, um seu primo, pintor, e quem sabe daí não haja a pretensão de igualar As Meninas de Velázquez, "a pintura das pinturas", como gosta de exemplificar; de tarde num consultório do hospital psiquiátrico onde dava as suas consultas, talvez buscando a resposta à pergunta deleuziana: que sanidade bastaria para libertar a vida lá onde está encarcerada no e pelo homem, nos e pelos organismos e os géneros?

O leitor não encontrará nos livros de Lobo a hospitalidade que gostaria de receber de um bom anfitrião. Pelo contrário, deverá lidar com enxames de palavras ligadas com uma gramática cheia de prodígios - Lobo dirá que isso que outros lêem como maravilha "é o que se teve de fazer para encontrar a solução para um problema técnico" - com que representa os atritos entre personagens atormentados por ambientes tensos. Muitas vozes são uma única voz que salta de eu em eu, de angústia em angústia, no dorso de um discurso que longe de esclarecer ao leitor acerca de situações e personagens forja uma espécie de cristal poético que desdenha todas as aparências. Sua escrita flúi. De novo Deleuze, que desta vez fala da escrita como fluxo: "um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio diante dos outros, e que mantém relações corrente e contracorrente ou de remoinho com outros fluxos de merda, de esperma, de diálogo, de acção, de erotismo, de dinheiro, de política, etc.".

Sobre que é Eu Hei-de Amar Uma Pedra? Isso é algo impossível de colocar em poucas palavras. Primeiro ocorreu-me que fosse um romance cheio de interrupções mas, talvez contagiado pela atmosfera do livro, comecei a colocar em dúvida cada uma das minhas convicções a seu respeito. É um romance e vários outros na sua vez, um romance que chove como um poema de meio milhar de páginas no qual se alternam vozes que denunciam medos  como estribilhos, como bordões. Que exige uma leitura que não se confine a desnudar uma intriga mas a acção inversa: juntar todos os pedaços estilhaçados  de um espelho e nesse caso a dificuldade antes aludida bem poderia ler-se como a última defesa que esboça um eu - desconhecido pelo leitor - antes de se ver reflectido.

Ler Lobo Antunes, finalmente, tem muito em comum com uma cura de sono. Basta passar uma noite de insónia invernal para comprovar que dormir é uma questão térmica. Só superando um limitado horizonte de tibieza é possível deixar-se conquistar. Mais próximo da linha do horizonte, mais profundo o sono. A partir daí, o suave declive até ao novo despertar - porque não nascer? - da intempérie.

por Jorge Mayer
12.06.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Da leitora Ana Martins: «Meu escritor de eleição!»

Meu escritor de eleição!

Gostava tanto de poder conversar dois minutos consigo só para olhar de frente os seus olhos belíssimos!

Desejo-lhe tudo de bom, tenho por si uma simpatia imensa e gostava muito que o meu filho um dia lesse os seus livros com o mesmo prazer com que eu o faço!

Ler os seus livros é entrar numa outra dimensão!

Ana


Ana Martins
e-mail de 28.09.2006

13/09/2006

Gonçalo Mira: opinião sobre Os Cus de Judas


Segundo romance a ser publicado por António Lobo Antunes, no mesmo ano de Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas mantém o cunho marcadamente autobiográfico. Se no primeiro romance se abordava mais a separação do autor da sua mulher e o seu trabalho enquanto psiquiatra, neste segundo romance o tema dominante é a guerra colonial em Angola, na qual António Lobo Antunes participou.
Logo aqui, Os Cus de Judas ganha pontos em relação ao seu antecessor: a guerra colonial é, sem grandes dúvidas, um tema bastante mais forte. Embora o livro principie com um ritmo mais lento, acaba por assumir uma maior velocidade à medida que a guerra vai assumindo o papel principal da narrativa. A história é narrada por um homem (a personagem autobiográfica) que se dirige a uma mulher que este tenta conquistar. Desenrolam-se então em paralelo as duas acções: a do homem com a mulher e a do passado do homem na guerra colonial.

Estilisticamente, Os Cus de Judas difere muito pouco de Memória de Elefante e estão ambos ainda longe do estilo que actualmente caracteriza a escrita deste autor. Eu confesso-me um grande admirador de Lobo Antunes e aprecio bastante o seu estilo dos primeiros romances. No entanto, acredito que os romances mais recentes são livros melhores, se é que se pode classificar livros desta forma.

Neste romance há uma guerra que não faz sentido, há pequenos pormenores que a descrevem muito melhor do que os traços gerais. Lobo Antunes é um pouco isto: o constatar da importância dos pormenores e, acima de tudo, da sua maior importância relativamente aos traços gerais. Resumir uma guerra em meia dúzia de factos pode ser útil, mas dizer quantos milhares ou milhões de mortos houve, nunca causará tanto impacto como os pormenores de determinadas mortes. É que, quer queiramos quer não, um número nunca deixa de ser um número e um pormenor facilmente se transforma numa imagem. E António Lobo Antunes parece sabê-lo muito bem.

Os Cus de Judas é um grande livro de um grande autor da língua portuguesa contemporânea.

por Gonçalo Mira
13.06.2006

11/09/2006

Moacyr Godoy Moreira: opinião sobre Memória de Elefante


“Entre a Angola que perdera e a Lisboa que não reganhara, o médico sentia-se duplamente órfão (...) Fizera da vida uma camisola de forças em que se lhe tornava impossível mover-se atado pelas correias do desgosto de si próprio e do isolamento que o impregnava de uma amarga tristeza sem manhãs...”

Assim caracteriza-se o protagonista de Memória de elefante, livro de estreia de António Lobo Antunes, recém lançado no Brasil com 26 anos de atraso. Já bastante conhecido por aqui, a obra demonstra a força narrativa do autor português, um dos mais traduzidos e respeitados em terras ao redor do globo. A quarta capa do volume ressalta, a propósito, uma citação da revista Vogue: “O maior escritor vivo da língua portuguesa.” Critérios de valor à parte, trata-se de um escritor com amplo domínio técnico e que produz livros de particular força inventiva e narrativa.

Considerado pelo próprio autor como parte de uma trilogia, junto com Os cus de Judas e O esplendor de Portugal, que seriam na verdade um único romance em três partes, Memória de elefante narra um dia na vida de um psiquiatra de Lisboa, mergulhado nas tramas do passado em busca de elementos que o façam sentir-se vivo. A existência angustiante que tortura o personagem, assombrado pela culpa da separação da mulher e a distância insustentável das duas filhas, o ambiente profissional degradado no qual segue imerso e as rememoração da infância e adolescência, também conturbadas, alinhavam os movimentos lentificados deste homem, ao largo do dia que dolorosamente se desenrola.

Mesmo em meio à degradação humana, imagens de dentes postiços, gengivas nuas e dentaduras, e a abundância de termos como melancolia, tristeza e solidão, há esparsos momentos de beleza: “Uma claridade mediterrânea aureolava as grades da varanda como se banhassem num aquário iluminado pela lâmpada intensíssima de uma primavera irreal.” E mais adiante: “ E lembrou-se do momento exacto antes da ejaculação, quando o corpo, transformado numa vaga que sobe em sucessivos roldões de prazer, cada vez mais forte, mais pesada, mais densa, estoira de súbito numa explosão de espuma do tamanho do mundo, em que pedaços nossos voam independentes de nós para cada canto do lençol, e adormecemos liquefeitos, numa moleza sem cor, náufragos jubilosos da ternura.”

Porém o leitor vai, ao longo do volume, deparar-se muito mais com a dor, a incompreensão e a incompletude constitutiva que assola a personagem, que belas paisagens lusitanas ou momentos de deleite. Há mesmo instantes beirando o desespero que assombra as tendências suicidas, aqui e ali.

Ao contrário do herói problemático de Lukács, que caracteriza o romance romântico e realista, o médico aqui, mergulha cada vez mais em florestas de incertezas e desconecta-se significativamente de um projeto supostamente edificante proposto pelos autores do século XIX. Considerando-se o contexto em que surge o livro, o aspecto de modernidade do texto multiplica-se de maneira notável, visto que surgiu imediatamente após a Revolução dos Cravos, momento memorável em que Portugal livrou-se da nefasta ditadura de Salazar.

Neste nascer de uma nova nação, empenhada em fazer-se destituída do ranço do totalitarismo, a fragmentação narrativa que surge em variados momentos (“e de repente vi-me multiplicado até à náusea nos espelhos biselados, dezenas de eus aflitos mirando-se uns aos outros em pasmo de pavor”; “como se o cotovelo da esquerda e o da direita funcionassem como talas que agüentavam unindo os ossos estilhaçados de seu desespero e os impediam de se espalhar no chão”) reflete a fragmentação da estrutura psicológica das personagens, que numa leitura sustentada por pensadores como Theodor Adorno e Walter Benjamin, permitem acessar o conteúdo oculto da história recente do país, possibilitando reconstruir verdadeiramente a devastação causada pela violência política progressiva.

A angústia do personagem exacerba-se ao lembrar as filhas e da situação atual, após a separação: “A imagem das filhas, visitadas aos domingo numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos do sótão transformaram numa espécie triste de alegria.” Em meio à dificuldade de lidar com a situação insustentável da rotina trabalho-lembranças-culpas, o narrador segue como que em transe, colado ao personagem, como se a narrativa fosse em primeira pessoa, sobrevivendo mais que vivenciando suas experiências. Em seus diálogos imaginários com a ex-mulher, torna-se cada vez mais perturbado, odiando a pessoa de Dylan Thomas, por exemplo, poeta por quem ela nutria grande admiração, em termos literários.

A névoa da perturbação adensa-se e o onírico, a memória e os fatos reais passam a não ter um limite muito claro, misturando-se; fluindo de um domínio a outro sem a preocupação da lógica, lógica esta que inexiste quando se trata do universo interior e abalado pelo sofrimento que habita o íntimo de cada um de nós.


por Moacyr Godoy Moreira
10.08.2006

02/09/2006

«Isto parece um namoro, é impublicável»


Selecções Reader's Digest
Entrevista de Anabela Mota Ribeiro
Verão 2006


Nesta entrevista fala-se da generosidade, do medo e da atenção ao outro.


António Lobo Antunes é o escritor que quer meter a vida toda num livro, num gesto, numa expressão. Traduz magistralmente, em livros inclassificáveis, a essência do humano, na sua grandeza e miséria.

Nesta entrevista fala-se de generosidade, do medo, da atenção ao outro. Fala-se dos livros e das razões por que vale a pena viver. E da eternidade.

Nasceu em Lisboa, licenciou-se em Medicina, tem três filhas. Passou dos 60. É publicado no mundo inteiro, com sucesso e prestígio inquestionáveis. Escreve numa letra miudinha. Está mais magro!

Dantes, arquitectava os livros; agora, quer desaprender de escrever para que a mão siga livremente e o livro se revele ele mesmo.
O livro falhava o plano, ia em direcções diferentes daquilo que tinha imaginado. Tornava-se um organismo vivo, com as suas ideias próprias, com uma maneira de ser e uma fisionomia. Exigências, diferentes texturas. Neste livro que vou publicar agora, a única ideia que tinha era: como é que a noite se transforma em manhã. Não tinha mais nada na cabeça. Depois, o problema é o começar. Tem imensas falsas partidas, a gente faz uma, e duas, e três, e quatro, e cinco, até o livro encontrar o caminho dele. Há pessoas que falam em livros polifónicos; a mim parece-me sempre a mesma voz. Que vem ao longo dos livros e vai ganhando modulações diferentes.

Os seus romances têm vários «eus» que comunicam?
Eles não são romances.

Então, são solilóquios? Diários?
Não sei. Tenho que arranjar uma definição para aquilo. Parecem sonhos, não é? O romance para mim implica uma história, uma determinada estrutura. Claro que a Memória de Elefante, o Fado Alexandrino são romances nesse sentido. Estes não têm nada que ver com isso, não sei o que são. São livros.

Eu gostava de perceber a relação de prazer, de descoberta, de espanto que mantém agora com a vida.
Não sei se mantenho: tenho, às vezes.

Parece uma relação mais jubilatória.
Não sou muito expansivo para fora, e às vezes sou para dentro, mas é um bocado assustador.

Porque é que é assustador?
Porque uma pessoa fica vulnerável. Fica toda nua. E ao tocarem-lhe, tocam-lhe por dentro da pele. Como se estivesse tudo à vista, como se não fosse possível ocultar nada. Mas isso também acontece quando a gente olha para os outros. Olhar para ver. Quando comecei a dieta, de repente tornei-me diferente. Implicou um sacrifício enorme ...

O que é que o fez começar a dieta?
 ... deixar as porcarias todas que gostava de comer, quando estava a escrever a meio da noite e as coisas não me estavam a correr bem. Mamava uma tablete de chocolate inteira, bolachas e bolos e não sei quê.

Saboreava o chocolate ou anulava a frustração?
Nunca me senti frustrado a escrever, a vida tem sido generosa comigo. Tenho estes momentos de alegria tão intensos. Há alturas em que, quando as palavras são aquelas, está-se a escrever e a chorar ao mesmo tempo. Já me aconteceu.

Isso já me aconteceu ao ler um livro seu.
Mas são momentos tão raros, é uma alegria tão rara. Parece que é um anjo que está a fazer aquilo pela sua mão, e era exactamente aquilo. Eu não sabia que sabia. Como as crianças que sabem mais do que pensam. Acontece com certas pessoas. Ontem estava a olhar uma senhora velhota, toda deformada, quando estava a andar. Eram oito e meia, ainda era de dia. E, caramba, a velhice é tão injusta, a decadência é tão injusta! Eles não mereciam ser aquilo. Nessas caras, há de vez em quando um olhar, um gesto, e aparece a pessoa que é de facto, que está escondida por baixo daquelas roupas, daquelas deformações dos ossos. O terrível não é ser velho, é envelhecer.

O que é envelhecer? É perder a ingenuidade?
A vida trata mal as pessoas, a vida é tão injusta. Tenho conhecido hospitais, tenho ido lá como doente, e vejo ali centenas de pessoas. Olhamos para elas e vemos o terror e a solidão, enormes, ali, em todas as idades. E os médicos passam sem olhar. Quando era interno, fazia a mesma coisa, passava com a bata por aquela gente que estava ali indefesa, à mercê.

Está a dizer-me que estima cada vez mais a generosidade?
Eu não. A gente é que a vê cada vez mais à volta. As pessoas não são assim tão más. Os maus verdadeiros, puros, é raro encontrá-los. Às vezes, entrelaçam as pernas nas nossas e ficamos muito espantados por não conseguirmos livrar-nos deles.

Perguntei-lhe porque é que começou a dieta.
Porque me estava a desrespeitar demais. E apetecia-me voltar a ser bonito. É engraçado, agora vejo outra vez os olhos das mulheres na rua. Coisa inocente, não é?

Olham para si porque sabem que é o António Lobo Antunes.
Sabem lá quem é o António Lobo Antunes neste bairro! Não sabem. Não sou locutor de televisão, nada disso. Faço redacções e ninguém me vê nunca nos sítios.

Está a posar.
Não, não, estou a falar o mais sinceramente que há. Olhe para estes tipos da tasca onde costumo ir comer: não sabem quem eu sou, felizmente.

Porque é que procura o anonimato?
Sou uma pessoa anónima. Não tenho nenhuma importância colectiva. Faço uns livros que espero que daqui a 500 anos ainda dêem trabalho aos críticos. Já cá não estou para ver. Como os Jerónimos. Entre o Camões e o Vasco da Gama! Vivemos em função de eternidades, de maneira que não morremos nunca. Por exemplo, a minha mãe: são eternidades de um ano, dois anos ou cinco anos. Quando temos 20 anos, vivemos em função de eternidades que nunca vão passar. O que é tremendo é ver um muro no fim da estrada. E para a maior parte das pessoas o muro pode estar a uma distância de três metros, mas esses três metros não vão passar nunca. Olhe a Maria Antonieta no cadafalso, a dizer para o carrasco: «Só mais um minuto, senhor carrasco.» Aquele minuto, para ela, era uma vida inteira.

Sonha com a sua morte?
Não. Ultimamente, desde o almoço (com camaradas da guerra), ando a sonhar com a guerra – isso é muito desagradável. Em regra, nunca me lembro dos sonhos. Tenho tanta coisa dentro de mim ... Agora, acabei um livro e não tenho nada dentro de mim. Estou aqui tão pobre como um morto. E não sei o que vou fazer depois, vou-me aborrecer aí durante dois ou três meses. E ficar cheio de medo de não ser capaz de fazer mais nada, de escrever mais nada. É um medo constante.

O que é que o entretém quando não está a escrever? Quando está a escrever, isso justifica as horas.
Mesmo quando estou a escrever, faço outras coisas. Claro que faço outras coisas, também vivo.

Pensei que escrever era viver.
Quando estou sem fazer nada, sinto-me culpado, são muitas horas. É como se me tivessem dado uma coisa que eu tinha que transmitir, e sinto-me infiel. Depois, vejo toda a gente a trabalhar menos. Tenho muito tempo para ler, mas a maior parte dos livros aborrecem-me. Dão-me vontade de começar a corrigir. Sei lá o que é que faço mais... Olho para as coisas. Não tenho os passatempos que as outras pessoas têm, não jogo cartas, nunca fui à Internet.

Não teme a solidão?
A solidão não me custa, nunca me custou. Éramos muitos irmãos, mas eu brincava sozinho. E gosto muito da minha família, tive muita sorte. Tentaram tirar-me o menos possível. O problema da educação não é tanto o que dá, é o que tira. Não sei se era fácil ou não lidar comigo. Ao contrário dos outros, não era bom aluno, não ia às aulas, tinha um comportamento permanentemente transgressivo. Isso não devia ser confortável para os pais, os pais querem que a gente tire um curso. Eu disse ao meu pai que queria trabalhar numa biblioteca itinerante da Gulbenkian. Já viu o que era ter aqueles livros todos para ler?

Ele sentiria vergonha de o filho escolher um caminho assim?
Ele disse-me: «Ah, se tu queres ser escritor, o melhor é tirares um curso técnico, talvez te ensine a pensar ou te discipline o estudo.» Ele tinha razão. Os primeiros anos do curso (de Medicina) não gostei porque era cadáver, cadáver, cadáver. Mas depois, nos últimos anos, quando comecei a ver as pessoas que sofrem, aí, sim, tornou-se apaixonante.

O sofrimento dos outros desperta a ternura, que é um sentimento essencial em si.Não, porque eu não era capaz de a mostrar.

Mas sentia-a ou não?
Às vezes, sentia-me indignado. Por exemplo, no estágio de pediatria puseram-me ao serviço de crianças com doenças terminais. Porque é que crianças de três, quatro anos, iam morrer e sofriam tanto, a chamarem aos gritos pela injecção de morfina? Qual o sentido disto? A pessoa zangava-se com Deus. Eu zangava-me. Contei isto numa crónica: um miúdo de que gostava muito morreu. O empregado embrulhou-o num lençol. Eu estava na porta das enfermarias e vi o homem afastar-se com o miúdo morto ao colo, e um dos pés dele saía do lençol. Isto continua dentro de mim. Como é que vou tirar isto fora? Às vezes, penso que escrevo para este pé. Chamava-se José Francisco, nunca mais esqueci. Sensação de impotência, não podia fazer nada por ele. E era tão alegre.

Houve um tempo em que foi «tão alegre»?
Sempre fui mais ou menos como sou agora. É preciso estar com atenção, porque manifesto pouco. É por pudor. Tenho um pudor muito grande, sempre. É terrível as pessoas que têm um coração debaixo de cada objecto.

Ainda não conseguiu pôr fora o pudor?
Ai, isso espero mantê-lo. Não quero dar às pessoas aquilo que elas não querem – é desconfortável. Como quando deixa de gostar de alguém e dorme na beirinha da cama na esperança de que não lhe toquem. Nunca lhe aconteceu?

Não, felizmente.
Há-de acontecer.

Espero que não.
Já sabia que ia dizer isso. Ou os amigos que telefonam a dizer: «Há que tempos que não te vejo, anda almoçar comigo», e não lhe apetece nada. Às vezes não se sabe que afinal não se tinha vontade. E depois não quer ser indelicada. Como ir embora sem magoar as pessoas sem que elas se sintam abandonadas? É um sentimento tão intenso, levamos a vida a ser abandonados, todos nós. Todos guardamos dentro de nós uma criança triste. A maior parte das vidas não tomamos atenção a esta criança, com uma sede inextinguível de amor, de ternura, de atenção. Mozart, naquele concerto que deu para a corte francesa, toda a gente aplaudia e ele foi a correr sentar-se ao colo da Maria Antonieta, aimez-moi, aimez-moi. Em todos nós existe isto. A vontade que gostem de nós incondicionalmente.

Sublinho o «incondicionalmente».
Mas é. Até ao fim. Faça a gente o que fizer. Temos sempre a sensação de que as pessoas que gostavam de nós assim já cá não estão, já morreram, e não é verdade.

Porque é que há um desfasamento entre a sua imagem pública e aquilo que realmente é?
As pessoas inventam. Nunca me viu com mau feitio. Não sei o que é que pensam. A mim não me dizem.

Então, digo eu: diz-se que está reconciliado com a vida e com as pessoas e que agora lhes dá oportunidade e espaço.
Eu não disse que estava reconciliado.

Houve um tempo em que estava recluso, misantropo, não falava com ninguém. As pessoas vão lá saber como é que eu estou! Têm mais que fazer. As pessoas não se preocupam connosco. Há um pequeno grupo de pessoas que gostam de nós, muito pequeno. Para a maior parte das pessoas, somos completamente indiferentes, como é natural.

O que está a dizer é que mesmo aquelas que se interessam pelo Lobo Antunes escritor, que o admiram, não se interessam pelo seu íntimo reduto. Eu não vejo as caras das pessoas que me lêem. Vejo na Feira do Livro ou no estrangeiro quando assino livros, coisas assim. É muito agradável ver as caras das pessoas, vê-las, existem. Há muita gente nova e sinto-me grato, porque me permitem viver disto, viver de escrever. Uma vez, numa sessão de autógrafos, há uns anos, um homem pousou o livro e disse-me: «Ponha aí o seu nome, porque sou eu que lhe pago para você viver.» Tinha toda a razão: se ele não comprasse os livros, eu não podia viver deles. Fui no sábado à Feira do Livro e vi pessoas, mas depois não há tempo para conversar, as pessoas de trás têm pressa e fazem bicha. Acho que fiz sempre mais ou menos como agora.

Mas as pessoas achavam que era outro: inacessível, maldisposto, vaidoso. Sabe, as pessoas são muito especiais. Foram dizer à minha mãe há uns tempos que o meu irmão João operava bêbado. Ele nunca bebeu. Normalmente, não falam para dizer bem. O Oliveira Martins dizia do Costa Cabral: «Pelo ódio que lhe tinham se media o seu tamanho.» Mas não há nenhum motivo para me odiarem, não tenho nenhuma importância.

A inveja é um grande motivo.
Sim, mas é um sentimento que se autodestrói. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E sofre cada vez mais com aquilo que imagina que são os sucessos do objecto de inveja. E mal eles sabem que a maior parte das vezes o objecto de inveja está cheio de dúvidas e tem mais incertezas do que ele acerca de si mesmo ...

Tem cada vez mais dúvidas?
Claro que sim. Não tenho muitas gloriosas certezas. Não tenho nenhumas, quase. Somos tão contraditórios ...

É extraordinário quando descobrimos que temos tempestades dentro de nós e que não o sabíamos.
Uma guerra civil permanente. Se a Emily Brontë fosse viva, estava apaixonado por ela, queria conhecê-la e estar com ela. Claro que sim, uma mulher que tem aquilo tudo nas tripas ... É como se estivéssemos cheios de cães que se mordem, que lutam uns com os outros. E as pessoas olham para nós por fora, e se não olharem com atenção... Ainda bem que às vezes não olham com atenção. E agora? Tem aí as perguntinhas todas (na folha que tenho no colo)?

Quais perguntas? Isto são coisas que disse e escreveu e que eu recolhi. Disse uma coisa espantosa: «Toda a nossa vida é como escrever sem borracha.»
Não pode voltar atrás e apagar. É uma pena. A quantidade de asneiras que fiz. Coisas seguramente inúteis, a mim e a outros, falta de atenção. Perdoo cada vez menos: egoísmos, coisas mal feitas. Fiz tanta asneira. Voltar atrás é impossível.

O que é que gostaria de poder refazer?
Se voltasse atrás? Acho que teria vivido tudo da mesma maneira. Não faço a menor ideia. Não tinha fugido quando a minha avó me dava a mão e eu ficava todo hirto. Me dava a mão à mesa. Me fazia festas nas mãos e eu via as mãos dela, tinha rugas. E ficava muito aflito.

Aflito porquê e hirto porquê?
Porque quando nos dão a mão de uma maneira desinteressada desconfiamos sempre. Achamos que há alguma coisa por trás. Ela, coitada, o que é que podia querer de mim? Não tinha nada para lhe dar, era um miúdo.

Já me tinha ocorrido a palavra «gratuito».
Para ela era sempre sentido, era amor. E eu talvez me assustasse de tanto amor. Isso assusta-nos, ficamos desprevenidos em face disso. A generosidade não é muito frequente e o amor também não. Quando o meu avô me abraçava na rua e me dava beijos, eu pensava: «Vão pensar que somos um casal de maricas», e esperava que aquilo acabasse o mais depressa possível. E agora tenho umas saudades loucas de quando ele me punha a mão no pescoço. E dizia «António», que era o nome dele também, de uma maneira tão boa. Ou quando telefonava para o meu pai e o meu pai tinha uma voz maravilhosa.

Sente muitas saudades do seu pai?
Não. Nem sei o que sinto por ele. Alguma inveja, porque nunca se aborreceu e tinha uma grande capacidade de entusiasmo. É evidente que foi importante para mim. Escrevi uma crónica quando morreu (há dois anos) que diz exactamente o que sinto por ele, e não mudou. A palavra «amor» não sei se é uma palavra que possa aplicar. Deixou-me muitas coisas escritas sobre ele. Fez-me impressão porque nunca tínhamos conversado. Na minha família não se falava das coisas íntimas. É tudo ...

Tácito?
Sim, undersaid. E havia um grande pudor. Então, acerca do sofrimento,..., era uma coisa em que não se falava. Talvez fosse uma forma de elegância. Mas eu sentia alguma falta disso. Apetecia-me pôr a cabeça num colo, mas nunca havia muitos colos disponíveis, nunca há. Ou então há e nós temos medo de lá pôr a cabeça. Ou que ponham a cabeça no nosso.

Há pouco estava a dizer que não queria perder o pudor ...
Ah, mas há momentos em que me apetece perder completamente. E sentir pele e cheiro e carne e mãos.

E humanidade.
Mais do que isso. Uma vida toda em uníssono com a minha. [Hesitação.]

O que é que ia dizer?
Parvoíces. Isso não pode aparecer nos jornais.

Porquê?
Porque as pessoas têm direito aos livros, não têm direito a mim. Isto não parece uma entrevista, parece um namoro. É impublicável.

Está a tentar namorar comigo?
Não. Sei lá. Acho que não se tenta namorar, ou se namora ou não se namora.

Eu não entendo isto como um namoro.
As pessoas não são para se cercar como fortalezas sem víveres. São para se entrar lá dentro. Não é ficar à espera de que elas morram à fome dentro da cidade. Quando estava a falar em namoro, estava a falar em dizer coisas que normalmente não se dizem para os jornais.

Na entrevista, há momentos em que vai falando cada vez mais baixo, cada vez mais baixo; e existe uma coincidência entre o tom e a interioridade daquilo que vai dizendo.Sempre falei baixo porque cresci num sítio em que se gritava muito. Desde criança que tenho horror a gritos. Não devo ter gritado mais do que três ou quatro vezes na vida.

O que é que foi tão grave que o fez gritar e perder a cabeça?
Das poucas vezes em que me impaciento é com o automóvel. A vez em que me enfureci mais foi na guerra. Por causa de um oficial aconteceram coisas más. Eu pensava que a expressão «borrar-se de medo» fosse uma figura de retórica, e afinal é verdade. O espectáculo da cobardia física é horrível.

Tinha medo?
Claro que tinha medo, tinha medo que me fartava. Mas a certa altura deixei de ter medo e as coisas passaram a correr melhor. Por exemplo, houve uma altura em que éramos bombardeados sempre às onze da noite. Comia-se às cinco, porque às seis era noite naquele sítio, perto do equador. E até às onze horas, até começar a metralhadora a que a gente chamava «a costureirinha», taque-taque-taque, era uma ansiedade muito grande. Depois, uma calma enorme. Esses momentos de espera eram terríveis. Gritei essa vez, pouco mais. A pessoa, quando grita, fica feia. Os olhos desorbitam, ficam caras estranhíssimas.

E fica-se cansado, exaurido, sobretudo se é tão raro.Não sei, é uma experiência que não tenho. Cresci num bairro pobre. As mães chamavam os filhos aos gritos, ouviam-se na rua. Ou maridos que voltavam bêbados e havia cenas descomunais. Esses ainda os oiço, esses gritos.

Pareciam-lhe gritos de afectuosidade, esses das mães que chamavam os filhos?Não eram de afecto, elas estavam era furiosas.

Mas queriam-nos com fúria. Imagino que isto contrastasse com a sua experiência.Na minha família também gritavam que se fartavam, do lado do meu pai; do lado da minha mãe, as pessoas eram mais calmas. Era tudo vivido com grande rebuliço, cenas, discussões. Tenho uma memória mais ou menos vaga disso.

Outra frase sua: «Inquieta-me o tempo que tenho à frente. [Sinto] uma angústia que tento preencher com trabalho.»
A gente não diz as coisas assim. As entrevistas são situações muito peculiares. Há sempre uma certa tendência para posar de perfil, para dar uma imagem boa ao jornalista e através do jornalista às pessoas que irão ver ou ler. São situações muito artificiais. É difícil que a pessoa seja realmente aquilo que é.

Queremos sempre que gostem de nós, no fim de contas ...
Não sei bem se é gostar ... Acaba por ser, mas é um tipo de gostar que é pouco importante.

Eu achei que íamos falar sobre inocência e medo.
Então, fale.

Gosta de falar disso?
Se gosto? Não. Desde que começámos, estou ansioso que isto acabe.

É assim tão desagradável?
É. Não é a vida. A Anabela a fazer o papel de jornalista, e eu a fazer o papel de escritor que está a falar de coisas. Não é essa a imagem que eu tenho de mim para mim mesmo.

Então acabamos.
Acho óptimo.


citado do site das Selecções Reader's Digest
Verão de 2006

01/09/2006

Palabras que se evaporan, por Jesus Aguado (El País) acerca de Fado Alexandrino

edición Mondadori, 2006
António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) es uno de los mayores poetas de la literatura contemporánea. Aunque su carrera la haya hecho como novelista - y también, vaya esto por delante, sea uno de los escasísimos grandes de la novela actual -, en su obra hay tal densidad poética, ese amor a la palabra recién nacida y ese dejarse fecundar por la imagen y el ritmo que emanan de ella, que la sensación que queda después de leerla se parece mucho a esa especie de estupor iniciático que siempre produce un buen poema. Esta cualidad la comparte con Paradiso, La muerte de Virgilio, La búsqueda del santo grial o El Kalevala, libros en los que se siente respirar al lenguaje a medida que éste se cuenta en voz alta una historia, y en los que el relato no se construye según modelos arquitectónicos sino biológicos -el revoloteo de la mariposa, el rizoma, el zigzag de los cardúmenes, el descenso de la lava-, algo a lo que aspira la mejor poesía. En las entrevistas Lobo Antunes afirma de manera reiterada que le hubiera gustado ser poeta porque entonces no habría perdido el tiempo escribiendo novelas, lo cual no deja de sonar extraño: en Esplendor de Portugal, Buenas tardes a las cosas de ahí abajo, En el culo del mundo, Exhortación a los cocodrilos, Yo he de amar a una piedra o Fado alejandrino hay tanta poesía que uno sale de su inmersión en ellos tambaleándose como de un sueño, de una visión o de una enfermedad.

Fado alejandrino, el quinto libro de António Lobo Antunes, que ahora se reedita en España con nueva traducción, fue el primero que obtuvo un gran éxito de crítica, el que lanzó a su autor al escenario internacional. En él cuatro militares de distinta graduación y clase social se reúnen, después de muchos años, en un burdel para recordar, mientras se emborrachan, su participación en la guerra de Mozambique, repasar sus peripecias personales desde entonces y contarnos cómo les ha afectado la evolución de Portugal, que, además del cruel proceso de descolonización de sus posesiones en África, viviera en abril de 1974 la Revolución de los Claveles contra la dictadura de Caetano. Sobre este fondo, estructurado en tres partes - antes, durante y después de la Revolución-, Lobo Antunes construye una novela coral en la que las voces de los protagonistas se van amalgamando, o devorando mutuamente, hasta escucharse como una única voz, como un único murmullo: el amargo inconsciente colectivo de varias generaciones portuguesas desmenuzadas por la guerra, el fascismo y el posterior desencanto con la democracia. La desilusión de unas existencias truncadas y la tristeza por una revolución que prometió más de lo que dio, tema también de Manual de inquisidores, dando un manotazo al puzle bien encajado de la realidad y de la historia: el desorden de piezas - tiempos verbales, personas del verbo, cronología de los hechos - como crítica a la verdad oficial y como propuesta de un orden más justo no impuesto desde arriba, desde las instituciones, sino desde abajo, desde los individuos. Y todo ello sin resquicio para la esperanza, sin connivencia con la posibilidad de un futuro mejor porque éste siempre acaba echando sus raíces en el pasado tenebroso. (En esto se diferencia de En el culo del mundo, novela que es en tantas cosas antecedente de Fado alejandrino, donde el horror de la guerra de Angola experimentado por el protagonista confía en poder cauterizarse con el amor o por lo menos con la comunicación).

Con Fado alejandrino pasa como con muchos de los otros libros de Lobo Antunes: a medida que uno avanza por ellos le queda la sensación de que las palabras se evaporan, de que se van condensando a causa de un calor que ponen a medias el texto y el lector. Palabras que se fugan a su origen después de iluminarnos, palabras que desaparecen para dejarnos dormidos entre las sábanas de las páginas blancas. ¿No es esto poesía, la razón de ser de cualquier poema?


por Jesus Aguado
en El País
12.08.2006

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...