17/09/2010

Maria Alzira Seixo: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


Os Rios de Lobo Antunes

Apeteceu-me escrever directamente para os leitores de Lobo Antunes. Faço-o na net (o que raro me acontece) pois tinha decidido deixar de escrever sobre a obra de ALA com a frequência com que o fiz ultimamente, devido a projectos concretos que agora já estão realizados. E isso porque considero que não é benéfico para a obra de um escritor que o mesmo crítico ou estudioso escreva sempre sobre essa obra, tornando-se numa espécie de «dono» ou «mentor», que acaba por «cristalizar» uma forma de o ler. Não é benéfico para a obra, que deve ser objecto de leituras plurais, nem é benéfico para o crítico, que por vezes se torna leitor de um escritor só, solipsisticamente. Mas não tem sido o meu caso. Porque quem estuda e avalia tem de ter uma visão alargada das Letras. Só lerá bem Lobo Antunes (ou qualquer outro escritor), e com o prazer que a obra dele proporciona, quem conheça também outros escritores, e possa assim perceber a originalidade de cada um, procedendo, em conhecimento fundado, à escolha que o seu gosto pessoal ditar.

E escrevo sobre os Rios porque, afinal, o gosto que me deu o livro venceu as minhas determinações pessoais. E queria aqui dizer aos leitores de ALA que este romance é um dos mais maravilhosos que o autor escreveu até hoje! Estou a falar de Sôbolos Rios Que Vão, título que retoma o magnífico primeiro verso das mais célebres redondilhas de Camões, também conhecidas por «Babel e Sião», que ganharemos todos em reler.

É um dos casos em que a reflexão sobre a vida pessoal (enfim, a autobiografia!) consegue aliar-se, em ambos os escritores, à expressão literária de um modo artístico insuperável. E eu não sou nada tendente a aceitar biografismos: a vida de uma pessoa é uma coisa, a obra que cria é outra coisa, mesmo que nela se baseie. Porque um texto criativo, artístico, ultrapassa sempre um dado factual, e o «facto» recua a segundo plano ante a felicidade da expressão literária com que o autor a comunica.

Estes Rios

Que rios são estes? São, literalmente, os que constituem o Mondego, desde o ponto mínimo quase indestrinçável da sua nascente, passando pelos débeis veios de água que o vão encorpando, e outros que a ele se juntam (contando também com os que dele divergem) até constituírem a corrente que segue para a foz. E são-no porque o narrador (que, neste caso, surge como personagem que protagoniza a história na terceira pessoa, um ele não identificado que rapidamente percebemos ter a ver com o autor) conta como o Pai o levou, em menino, a ver a nascente do Mondego, na Serra da Estrela, e como isso o impressionou. Este passo é recorrente no texto, e em várias crónicas (veja-se «Descrição da infância», em Livro de Crónicas), e adquire aqui a força de um simbolismo vital, porque a personagem está imobilizada numa cama hospitalar, padecente de cancro, sujeita a cirurgias e a tratamentos. E a recordação da nascente do Mondego, que se torna em devaneio frequente no espírito do narrador, vem sempre afirmar a Vida ante a iminência da Morte que espreita e atemoriza.

O curso do rio é ainda uma forma de comunicar um percurso ficcional de vida, sujeito ao tempo e à sua (des)organização pela memória. Nele sobressaem a tutela do Pai, junto à origem, e a visão protectora da Mãe, nas incidências do seu deslizar (tanto como andamento quanto como… escorregadela, falha, derivação imprópria, fuga medrosa e outras formas de escape ou de falta cometida), essa Mãe que está junto dele, no final do romance, para caucionar o renascimento que a cura da doença constitui, tal como estava, no início da carreira do escritor, em Memória de Elefante, parindo-o com risco da própria vida.

Outros rios se juntam, porém, e são sobretudo os afluentes, o que me faz recordar o título de um livro de poesia de um velho amigo de ALA, que particularmente aqui se adequaria: Os Afluentes do Silêncio (vejam, em Segundo Livro de Crónicas, o texto «No Porto, com Egito Gonçalves»). E afluentes são as personagens comparsas, que interferem com a existência da personagem central, assim como as histórias adventícias que vêm interromper ou reforçar o seu sofrimento da doença, em encontros e em  conjugações, em discrepâncias ou fortalecimentos. Todas convergem, porém, para a importância central da Mãe e do Pai, a capacidade de observação e a experiência deste, que discerne e ensina a origem e o curso acidentado do rio, por um lado, e, por outro lado, a carga matricial da figura da progenitora, fonte de vida, Senhora dos Aflitos, e não «mater dolorosa», como em geral o é na Literatura. A sua presença no final da narrativa, que lhe confere um peso significativo assinalável, como que sublinha toda a actuação protectora no interior hospitalar (médicos, enfermeiros, aparelhos, a vista do céu que tem pela janela para a qual frequentemente olha), nela desembocando a eliminação dos obstáculos, que é como quem diz, a saída do hospital (curado), a saída da doença, a solução positiva, o milagre de continuar existindo.

Não há saídas (na acepção de «soluções», de «escapes» para uma situação difícil), em geral, na obra de António Lobo Antunes, escrevi eu um dia a propósito de Memória de Elefante; e o trabalho posterior tem-me confirmado essa verificação. Mas há saída, sim, neste livro (que se constitui aliás em permanência das águas, em retenção do fluir, mesmo que em veios débeis; ou na sua reconstituição pela memória – que não em caminhada para a foz do rio!), um livro em que no final se anota, em citação latina, que «todos saem» –  tópico de conclusão de uma cena, no teatro, e também no teatro que um texto pode ser –  querendo com isso dizer que «saem de cena», sim, mas que,  «saindo, continuam a existir», isto é, o livro acaba mas a vida (que a narrativa pôs em questão, ameaçada) afinal prossegue, sai-se do hospital e fica-se vivo, e não há morte, há continuidade (pressuposta) e duração.

Sôbolos Rios Que Vão é, deste modo, um livro libertador (como que o Senhor Caminhando Sobre as Águas, na figuração bíblica) e que liberta também o leitor! Há nele uma dimensãosoteriológica, e utilizo este «palavrão» para que entendam melhor, pois é assim que na Bíblia se caracteriza a salvação exercida por Jesus sobre os homens, e portanto não é um acto de salvação qualquer, é uma redenção –  o que, por analogia, se poderia ampliar à salvação exercida pela Palavra Poética, pela Criação Literária, sobre os cancros de toda a ordem que corroem a humanidade.

E liberta também o leitor por características práticas: é um livro pequeno (também comoMemória de Elefante), e quem é que se lembra de ter podido ler um livro de ALA, nos últimos tempos, que não fosse enorme?!; é um livro acessível (não nos embaraçamos tanto na confusão de personagens e de histórias mescladas como antes); é um livro que, tendo um tema sinistro (a ameaça da morte por cancro), se escreve de modo excepcionalmente claro, quase luminoso, e é, enfim, um livro maravilhosamente bem escrito, e eu, que abomino a linguagem crítica «impressionista», diria mesmo, neste caso, que parece escrito como a água que corre.
         
Quase que me apetece dizer ao leitor, como nas propagandas tipo «banha da cobra», que, se considerar que eu estou a enganá-lo na «mercadoria», fico pronta a reembolsá-lo do tempo de leitura que utilizou…!

Sim. Porque estes rios, camonianos, antunianos, são no fundo o grande rio que não pára, não se extingue, o rio do pensamento e da arte, da matéria das Humanidades que permite a pulsação desalienada no quotidiano, e por isso o título contém esses «rios que vão», cuja água corre sempre, como a escrita de grandes autores


por Profª. Maria Alzira Seixo
em exclusivo para o nosso site
17.09.2010

05/09/2010

Do leitor Luís Bento: «Fashion Heroine»

Porque António Lobo Antunes despertou o meu interesse pela escrita tornando-se uma fonte de inspiração, eis um texto que lhe é dedicado.

Fashion Heroine 
Às vezes escorregava em ,prestações suaves, pela memória desfiada a preto e branco desde os acordes do hino nacional a encerrar a emissão televisiva com estrondo, até aos bancos da escola onde se grafava ainda, teimosamente, Goa, Damão e Diu como territórios ultramarinos, no mapa-múndi de pontas enroladas a querer baldar-se para o chão junto de um circunspecto e inútil corta-fitas num retrato com pose de presidente, faixa, medalha e comenda com os dizeres em bold cínico: SUA EXCELÊNCIA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA ALMIRANTE AMÉRICO TOMÁS. Era da alvura das batas torturadas pela lixívia e pelo OMO branco mais branco não há, que divisava a figurinha minúscula e atarracada, em redondo carica, da Dona Irmelinda nascida nas entrelinhas dos sessenta, já de casaquinho de malha assertoado pelo botão do meio de madrepérola reluzente que se vendia na retrosaria, em caixas de inocência rosácea, acantonadas nas prateleiras por trás do costado curvo do senhor Arnaldo, de óculos presos na ponta do nariz esmiuçando e remexendo até à eternidade , carrinhos de linha da coats and clark entrecortados por um chiça! envergonhado quando se espetava nas agulhas número três dolorosamente desarrumadas. 
Esbaforida, pela rua General Taborda acima com a alcofa atafulhada de peixe, grelos e nabiças vinda da praça onde era mais barato e fresquinho, sem réstia de brilho, pigmento, laca ou perfume há muito perdidos nos vestígios arqueológicos dissecados por peritos do Neolítico. Apenas o vermelho afogueado lhe acariciava a face na pressa com que roubava tempo ao macadame para evitar o fedor a atraso em direcção à tabacaria onde, vício supremo do luxo de pobre, comprava a Crónica Feminina e se deixava levar pela fantasia da fotonovela ou pelo conforto dos anúncios dos vestidos, das malas e casacos de inverno que ela bem precisava de um, numa alienação inocente e consentida apenas interrompida pelas letras do carro que, paulatinamente apresentadas pelo cobrador, grunhiam nos dentes amarelos do tabaco que o marido ainda andava a pagar. 
Se do céu caíra uma estrela, na passserele, lânguida e sensual, rica de decotes e ousadias, passeava-se um anjo livre, poderoso e reluzente onde o diabo até podia vestir Prada, Armani ou pele corada em pecado, mas acima de tudo, a vida se trajava de texturas quentes e garridas numa miscelânea de cor, romântica e despojada de preconceitos. Fora aí que o conhecera. Meio palmo de cara bem tratada e escanhoada com o beneplácito de Apolo em dia de tiro aos dardos. Chegara à conclusão, contudo, que Darwin só germinara e evoluíra no universo feminino e se pusera a fancos ao primeiro sinal de alerta da coutada do macho ibérico. Tolo! Era um tonto! De sorriso idiota de conquistador em saldos confundindo Louboutin com a lobotomia que o assistente do doutor Egas Moniz fizera à cabeça, numa operação delicada, da sua tia Emília.

Esfumaçava, perdidamente, todo nu seguro da sua virilidade canhestra pensando que lhe tomara o corpo e não se dando conta, sequer, que ela apenas lho emprestara para que ele se perdesse no cárcere das suas coxas. Ela esboçava um sorriso malicioso e interior. Ele soltava baforadas confiantes de Torquemada de queluz ocidental, olhando, de soslaio, ar de asno inquisidor. E ela voltava, sorrateiramente, à D. Irmelinda e aos seus brincos , batons, pó de arroz e outros acessórios reluzentes que, só por milagre ou distracção do Senhor, deixariam as páginas de papel.

Ela bem gostaria de andar na moda, mas só a cunhada, que era uma desbragada que fintara as desgraças da vida e lhe trouxera um conjunto de batons da África do Sul onde elas andavam de mini saia, bebiam como os homens e até já fumavam e tudo, lhe concedia carta de alforria , ainda que por breves instantes, para a terra do sonho. E foi num desses dias em que, por distracção , se atrevera a experimentar a prenda da cunhada diante do espelho gasto e roído de ferrugem, que não dera pela chegada do marido. Contrariado por não haver almoço na mesa e estarrecido pelas cores dos trapos, ficou furibundo quando vislumbrou a imagem fálica do batom esgaçando por entre os dedos, pronto a tomar de assalto os seus lábios ressequidos. Alçou o braço direito e deu-lhe uma palmada com força estilhaçando o batom em pedaços no chão da casa de banho. E então sem pensar, decidira que era altura de romper com o medo que a agrilhoava numa tacanhez e subserviência fora de moda. Ainda ele se preparava para alçar o braço de novo quando levou, violentamente, com um jarrão de loiça de sacavém que custara uns bons cinco kilos de escudos, na cabeça… 
Baixou-se para apanhar um coto de batom e , não reprimindo um sorriso, inflou o peito de ar , inclinou-se sobre o espelho e começou, calmamente, a pintar os lábios, percebendo, então, que a diferença entre subserviência e emancipação distava apenas doze pontos bem cosidos na testa do marido pela destreza e perícia do enfermeiro de serviço no posto clínico e que, estar no tom da moda era ousar viver numa liberdade conceptual e estética em que a vida… era o tom… 
Luís Bento


Luís Bento
e-mail de 05.09.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...