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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2004

Peter Ephross: crítica a A Ordem Natural das Coisas

Na primeira metade do século XX, escritores como Viriginia Woolf, William Faulkner e James Joyce elaboraram difíceis obras-primas com narradores à deriva e mudando as sequências temporais. Depois da Segunda Guerra Mundial, este método de escrita caiu em desuso, mas um romance português recentemente traduzido para inglês faz homenagem a essa mesma técnica – e insere uma boa dose de um realismo mágico.
Em A Ordem Natural das Coisas, António Lobo Antunes traça o complexo fado multi-geracional de duas famílias que são assombradas pelos seus passados. O livro abre com as divagações nocturnas de um homem de meia-idade quando se deita na cama ao lado de uma mulher diabética, mais nova. Torna-se claro que não se trata de uma relação fácil entre ambos. Como pateticamente o homem diz, “sempre que falo de mim, encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo loiro, de modo que acabo por me calar”.
Nos capítulos seguin…

SerMar: sobre Que Farei Quando Tudo Arde?

Com este livro de Lobo Antunes somos levados mais uma vez a viajar pelo mundo das nossas angústias que tantas vezes julgamos serem só nossas. Como ele próprio já afirmou, ler um livro seu é como ter uma doença. De facto vivermos vários dias com personagens que vivem o drama de terem que colar ao que a norma considera normal ao mesmo tempo que vivem a sua homossexualidade que praticam o adultério ou que se refugiam na droga é termos também nós leitores que viajar pelo nosso mundo interior, por aquilo que a coacção social estipulou ser pecado e que afinal por uma questão inerente à nossa condição de animal humano todos temos que viver de forma mais ou menos escondida.

A escrita de António Lobo Antunes é também neste livro a reprodução dos pensamentos, das vivências de várias personagens que se deslocam entre o centro de Lisboa e a chamada outra banda. O homem que evita a sua homossexualidade casando-se mas que acaba por ser vencido pela sua natureza, levando a mulher a procurar momentos …

Diogo Mainardi: sobre O Manual dos Inquisidores

António Lobo Antunes é um dos mais importantes escritores portugueses da atualidade. Leitura obrigatória, portanto. Brasileiros precisam conhecer os escritores portugueses, portugueses precisam conhecer os brasileiros. É a ordem natural das coisas, para citar o título de um de seus romances precedentes. Por menos que se goste de Lobo Antunes, é necessário publicá-lo, é necessário lê-lo, é necessário resenhá-lo, mesmo quando se trata de seus livros mais fracos. Literatura demanda uma certa dose de disciplina, de rigor.
Rigor, de fato, é o termo adequado para definir O Manual dos Inquisidores (Editora Rocco; 380 páginas), lançado em Portugal em 1996. Com um rigor inquisitorial, Lobo Antunes reconstrói os últimos anos de vida de um potente ministro da ditadura Salazar, colhendo depoimentos de todas as pessoas que o circundam. O filho, no dia de seu divórcio, recorda a quinta em que moravam e a ruína financeira de sua família, logo depois do fim do regime. A filha do caseiro fala a respeit…

Nuno Barbosa: Comentário a Os Cus de Judas

"a dolorosa aprendizagem da agonia" - assim classifica Lobo Antunes a guerra de Angola, fracção da guerra colonial portuguesa; assim se resume o processo a que é submetido o leitor na descoberta daquele que é o segundo livro do autor.

Encontramo-nos perante um testemunho. Ao evoluirmos gradualmente na sua leitura vamos desmontando a guerra do ultramar, sendo guiados através dos 27 meses que o narrador se encontrou ao serviço da pátria portuguesa.

Partindo do relato do narrador, das experiências a que foi sujeito e da forma como as interpreta e com elas lida, traça-se um percurso que desemboca inevitavelmente na conclusão/admissão do "gigantesco, inacreditável absurdo da guerra".

Delineia-se um retrato demasiado bruto e verdadeiro para se poder falar de uma caricatura. A seriedade e crueldade da narrativa fazem surgir o livro mais como que uma denúncia. Ou antes: é deste modo apresentada uma visão da realidade, uma posição sobre os factos, uma voz silenciada que entra …

Agripina Vieira: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo

Angola, o regresso
Angola de novo em António Lobo Antunes. Com uma arquitectura original, já que pela primeira vez, o autor publica um romance constituído por três livros com prólogo e epílogo (regressando e mesclando as técnicas que estão na génese de dois romances da década de 90: Tratado das Paixões da Alma e A Ordem Natural das Coisas), Boa Tarde Às Coisa Aqui Em Baixo – com 574 páginas – constitui-se como o regresso singular e pungente a uma das temáticas essenciais da obra antuniana, Angola.
O título, extraído de um texto de Enrique Vila-Matas citado em epígrafe ao corpo do romance, apresenta-se desde logo como um enigma. Esta frase, tradução da saudação de Larbaud, “Bonsoir les choses d’ici bas”, assim como o texto em que se insere têm a particularidade de atrair a nossa atenção para a linguagem, o seu poder mas simultaneamente as suas limitações, levando-nos a verificar que a força das palavras reside tão só na composição que com elas é criada e que por vezes a linguagem mostra-…

Hege Steinsland: sobre A Morte de Carlos Gardel

Magistral história sobre o vazio, pelo mais importante modernista português
A Morte de Carlos Gardel é o terceiro livro da trilogia de Lisboa do português Antunes traduzido para norueguês... Ler o romance é como entrar num buraco negro, onde apenas se encontra doença, morte, ódio, cinismo e amargura. Como nos outros dois romances, a acção localiza-se num bairro de Lisboa do nosso século [séc. XX].O tango ocupa o lugar central na vida de várias personagens do livro. o protagonista Álvaro, amargurado porque a sua mulher o deixou, (...) é incapaz de amar, amargurado e cínico, um rosto sem feições. A sua única razão de viver é o tango de Carlos Gardel. Nunca há romantismo ou calor humano entre as personagens, penas irritação e momentos de sofrimento sem fim...
... O que mais fascina nos romances de Antunes é a linguagem. É espantoso como ele  consegue tornar o romance claro e nítido, mesmo abordando vários acontecimentos no mesmo parágrafo... Os pensamentos saltam elegantemente de um plano …

Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira: sobre Auto dos Danados

Auto dos Danados: cenas de uma família condenada
Resumo. Em Auto dos danados (1985), António Lobo Antunes encena a fragmentação de uma família tradicional ao mesmo tempo em que rompe a tradição da escrita romanesca, praticando uma tendência dupla da prosa portuguesa pós-75. Ao conceder a narração diretamente às personagens, o autor procede como um psicanalista a seus pacientes, fazendo do romance a sucessão progressiva e aleatória das falas dos membros de uma família patriarcal, retratados como criaturas humanas, demasiado humanas, que nos causam horror mas também compaixão, numa clave polifônica à Dostoievski. Tema, tons e tintas conferem à obra um lugar especial na literatura portuguesa contemporânea.
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Para escrever faz falta vocação animal

Página/12, Argentina - entrevista de Sandra Chaher 05.05.04

Para escrever faz falta vocação animal

Está em Buenos Aires para apresentar na Feira seu último livro, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. Mas António Lobo Antunes não gosta de viajar. Diz ser um obsessivo pelo trabalho: escreve catorze horas por dia, seis vezes por semana.
Buenas tardes a las cosas de aquí abajo é o título sugestivo que o português António Lobo Antunes apresentará hoje na Feira do Livro. Pouco propenso a sair de Lisboa, Antunes, que acaba de terminar outro romance, empreendeu uma volta por vários países antes de voltar a enfrentar, em Junho, com o caderno em branco. Prolífico, trabalhador incansável, candidato ao Nobel há anos (mostra-se despreocupado com os prémios, excepto pelo dinheiro que trazem), Antunes desmistifica com o seu calor a fama de carrancudo que o persegue. Boa Tarde... é um romance situada na Angola pós-colonial, onde várias personagens interactuam para falar da identidade, da solidão, do amor, …

António Lobo Antunes em Buenos Aires, 2004

Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (Argentina) Maio de 2004

Convidado pela Editorial Sudamericana, Grupo Editorial Mondadori, para apresentar o seu livroBuenas Tardes a las cosas de aquí abajo, o escritor português António Lobo Antunes veio no mês de Maio e apresentou-se na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Foi declarado Hóspede de Honra pela Legislatura da Cidade Autónoma de Buenos Aires.

Nós que o lemos nas crónicas que escreve para o diário El País de Espanha, excelentemente traduzidas por Mario Merlino, e lemos seus livros, sabemos quão extraordinário escritor é António Lobo Antunes.
Falava em voz muito baixa, mostrava-se muito cansado, vinha acompanhado do seu editor espanhol, havendo passado pela Colômbia, onde apresentou o mesmo livro. O público escutava o escritor com respeitoso silêncio.
A viagem, o livro
"Foi muito duro", disse a respeito da sua estadia na Colômbia, referindo-se à pobreza, à violência, à agressividade das pessoas. Na Colômbia as cla…

TSF: «um romance não serve para nada»

TSF - Pessoal e... Transmissível programa de 29 Dezembro 2003



A imaginação não existe. O que há é formas de organizar a memória, garante António Lobo Antunes. O autor de "Boa tarde às coisas aqui em baixo" é o convidado de Carlos Vaz Marques para uma conversa ao fim da tarde em que revela a história do próximo livro que já está a escrever.

entrevista em formato audio neste link do site TSF


Conhecimento do autor

SIC Notícias - entrevista de Rodrigo Guedes de Carvalho Dezembro 2003 [a entrevista foi transcrita através do formato original, tendo sido mantidas, tanto quanto foi possível, algumas das particularidades orais de uma entrevista de televisão]

Conhecimento do autor

Conhecimento do autor: é o que aqui se vai tentar. Lobo Antunes é pouco dado a grandes explicações sobre o que escreve; costuma dizer que os seus livros vivem sozinhos e é aí que o devemos procurar, nessa impressionante regularidade de produção. Com este [mostra a capa do romance Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo] que hoje se apresenta, são já dezasseis romances em vinte e quatro anos, isto para além das crónicas na imprensa que estão agora também reunidas em dois volumes. Imensamente traduzido por esse mundo fora, longamente sussurrado para o Nobel, recebe dentro de dias o prestigiante Prémio União Latina. É um bocadinho da dimensão internacional que nesta altura já não surpreende ninguém; ele que tanto foi arrasado pela crític…