29/09/2004

Peter Ephross: crítica a A Ordem Natural das Coisas


Na primeira metade do século XX, escritores como Viriginia Woolf, William Faulkner e James Joyce elaboraram difíceis obras-primas com narradores à deriva e mudando as sequências temporais. Depois da Segunda Guerra Mundial, este método de escrita caiu em desuso, mas um romance português recentemente traduzido para inglês faz homenagem a essa mesma técnica – e insere uma boa dose de um realismo mágico.

Em A Ordem Natural das Coisas, António Lobo Antunes traça o complexo fado multi-geracional de duas famílias que são assombradas pelos seus passados. O livro abre com as divagações nocturnas de um homem de meia-idade quando se deita na cama ao lado de uma mulher diabética, mais nova. Torna-se claro que não se trata de uma relação fácil entre ambos. Como pateticamente o homem diz, “sempre que falo de mim, encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo loiro, de modo que acabo por me calar”.

Nos capítulos seguintes, a narração é tomada por alternadas falas de um homem amargurado que envelhece, e um oficial do exército que é preso e torturado. E isto tudo na primeira parte. Os capítulos posteriores apresentam-nos uma prostituta e o seu chulo, e uma menina, filha ilegítima de um pai que a mantém trancada. O escritor não narra exactamente assim, não é fácil encontrar o trilho à intriga no meio de um emaranhado de narrativas. Quando o interlocutor salta, abruptamente, a meio de um parágrafo, o tempo também se desloca, levando o leitor através de várias décadas e desde a Lisboa actual até à África colonizada (a relativa obscuridade da história portuguesa é um obstáculo adicional). Apenas nas cerca de 50 páginas finais poderá o leitor mais atento capaz de reunir as peças do puzzle e construir a teia que apanha as principais personagens.

Porém este romance não se faz pela intriga, pela trama, pelo menos no sentido tradicional; e os leitores não preparados para esta luta não se sentirão com vontade de ir além das primeiras 75 páginas. Então porque vale este livro o esforço? Porque tal como nos clássicos modernistas, as ideias e a linguagem – sim, mesmo numa tradução! – fazem deste percurso surreal uma viagem pelos labirintos da mente humana. Antunes possui uma habilidade excepcional de descrição, tal como quando comenta a sensação de espera que uma dose de Valium surta efeito: “sinto um ornato de sepultura magoar-me a perna, oiço a erva das campas no lençol, vejo os serafins e os Cristos de gesso que me ameaçam com as mãos quebradas”. De igual modo descreve com muito à vontade as futilidades do dia-a-dia quotidiano, o despropósito das idas às consultas com o médico, em que se esquece de pagar a viagem do táxi, ou os concelhos do médico incoerentes, e os momentos distintos das nossas vidas que nos define – ou na verdade nos surpreende.

Como as criações atormentadas de Faulkner, as personagens são oprimidas pelo seu próprio passado – seja o fardo de uma falácia pessoal, como relações extra-conjugais, seja a opressão da crueldade política e a vida na prisão. Como diz uma das suas personagens, “Não, não proteste, não me censure, palavra de honra que faço os possíveis e contudo, é assim mesmo, a memória tem o seu mecanismo próprio, o seu ritmo, as suas leis, os seus caprichos”. O que sobra às pessoas depois do resultado das suas batalhas com o destino, argumenta Antunes, é uma história que elas devem tentar aceitar, mesmo que isso seja, em última análise, impossível.

(opinião escrita por ocasião da tradução para o inglês do livro, The Natural Order  of Things, edição Grove/Atlantic, 2000, EUA)

por Peter Ephross
05.04.2000
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

28/09/2004

SerMar: sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


Com este livro de Lobo Antunes somos levados mais uma vez a viajar pelo mundo das nossas angústias que tantas vezes julgamos serem só nossas. Como ele próprio já afirmou, ler um livro seu é como ter uma doença. De facto vivermos vários dias com personagens que vivem o drama de terem que colar ao que a norma considera normal ao mesmo tempo que vivem a sua homossexualidade que praticam o adultério ou que se refugiam na droga é termos também nós leitores que viajar pelo nosso mundo interior, por aquilo que a coacção social estipulou ser pecado e que afinal por uma questão inerente à nossa condição de animal humano todos temos que viver de forma mais ou menos escondida.

A escrita de António Lobo Antunes é também neste livro a reprodução dos pensamentos, das vivências de várias personagens que se deslocam entre o centro de Lisboa e a chamada outra banda. O homem que evita a sua homossexualidade casando-se mas que acaba por ser vencido pela sua natureza, levando a mulher a procurar momentos de carinho e alguns trocos em relações com o comerciante mais perto de casa e o filho que vê o que os progenitores gastam o tempo a tentar esconder e para quem não foi suficiente a atenção dada pelo casal que tentou transferir para si o amor que não pode dar à filha morta. A droga será o refúgio deste filho daquilo que a sociedade consignou ser pecado.

Um tema muito actual. Uma escrita magnifica que para além do prazer que dá hoje aos seus leitores, será um documento para a história que se fará dos nossos dias.


SerMar
citado de Livra.pt
15.08.2002

27/09/2004

Diogo Mainardi: sobre O Manual dos Inquisidores


António Lobo Antunes é um dos mais importantes escritores portugueses da atualidade. Leitura obrigatória, portanto. Brasileiros precisam conhecer os escritores portugueses, portugueses precisam conhecer os brasileiros. É a ordem natural das coisas, para citar o título de um de seus romances precedentes. Por menos que se goste de Lobo Antunes, é necessário publicá-lo, é necessário lê-lo, é necessário resenhá-lo, mesmo quando se trata de seus livros mais fracos. Literatura demanda uma certa dose de disciplina, de rigor.

Rigor, de fato, é o termo adequado para definir O Manual dos Inquisidores (Editora Rocco; 380 páginas), lançado em Portugal em 1996. Com um rigor inquisitorial, Lobo Antunes reconstrói os últimos anos de vida de um potente ministro da ditadura Salazar, colhendo depoimentos de todas as pessoas que o circundam. O filho, no dia de seu divórcio, recorda a quinta em que moravam e a ruína financeira de sua família, logo depois do fim do regime. A filha do caseiro fala a respeito das violências sexuais que sofreu por parte do ministro, e a fúria que ele manifestou ao tomar conhecimento da queda da ditadura, quando enxotou a coronhadas todos os empregados da quinta, acusando-os de ser comunistas. A filha ilegítima do ministro com a cozinheira, criada por uma viúva cujo marido morreu devorado por um crocodilo em Angola, lembra o momento em que foi apresentada pela primeira vez ao pai e ao irmão. A cozinheira relata a chegada à quinta de Marcelo Caetano, escolhido como sucessor de Salazar, apesar da hostilidade do ministro e de seus amigos militares, que viviam planejando golpes para derrubá-lo. O próprio ministro, agora internado numa casa de repouso, senil e incontinente, revive o levante de Angola em 1961, e o terror que sentiu naquela circunstância.

Herança da ditadura — Em meio a tantos fragmentos de história, o que falta ao romance é uma trama propriamente dita. Há o episódio da jovem Milá, contratada para interpretar o papel da antiga mulher do ministro, Isabel, que o abandonara pelo amante, muitos anos antes. Milá é paga pelo ministro para vestir-se como Isabel, comportar-se como Isabel, responder ao nome Isabel. Mas esse é apenas um detalhe meio patético do livro. O ponto central de O Manual dos Inquisidores, na verdade, é seu pano de fundo político e histórico: a passagem das quatro décadas de ditadura à chamada Revolução dos Cravos, de 1974. Lobo Antunes apresenta o totalitarismo salazarista de modo perfeitamente convencional, caracterizando-o como um regime arcaizante, que imobilizou Portugal em suas velhas estruturas do começo do século. Nenhuma novidade em relação ao que já sabemos. Por outro lado, ele tenta mostrar a herança da ditadura por meio dos personagens que transitam de uma época para a outra, como o filho do ministro, esmagado pela figura autoritária do pai.

É possível que O Manual dos Inquisidores, descrito dessa maneira, pareça pouco atraente. Trata-se de uma injustiça do resenhista. Lobo Antunes é um autor corajoso que sempre se aventura em arriscadas experiências narrativas. E o faz na nossa língua, usando-a bem melhor do que todos nós. Ou seja, é fundamental, mesmo quando erra. Leitura obrigatória.

por Diogo Mainardi
08.07.1998

Nuno Barbosa: Comentário a Os Cus de Judas


"a dolorosa aprendizagem da agonia" - assim classifica Lobo Antunes a guerra de Angola, fracção da guerra colonial portuguesa; assim se resume o processo a que é submetido o leitor na descoberta daquele que é o segundo livro do autor.

Encontramo-nos perante um testemunho. Ao evoluirmos gradualmente na sua leitura vamos desmontando a guerra do ultramar, sendo guiados através dos 27 meses que o narrador se encontrou ao serviço da pátria portuguesa.

Partindo do relato do narrador, das experiências a que foi sujeito e da forma como as interpreta e com elas lida, traça-se um percurso que desemboca inevitavelmente na conclusão/admissão do "gigantesco, inacreditável absurdo da guerra".

Delineia-se um retrato demasiado bruto e verdadeiro para se poder falar de uma caricatura. A seriedade e crueldade da narrativa fazem surgir o livro mais como que uma denúncia. Ou antes: é deste modo apresentada uma visão da realidade, uma posição sobre os factos, uma voz silenciada que entra em erupção e vem contar a sua versão.

Atente-se que a "interlocutora" do extenso monólogo do narrador encarna qualquer um que leia a obra: escuta-o (ou pelo menos ouve) e intervém como o leitor o faria, para no fim fechar a porta e o abandonar, como nós fechamos o livro e o esquecemos numa prateleira - todos constituímos acidentais pretextos para uma pontual exposição.

Decadência, putrefacção, pestilência, morte. Adicionando canalhice, violência e absurdidade poder-se-ia reunir as palavras-chave basilares de tal exposição. É todo um cheiro a merda que emana da e subsiste após a leitura.

O autor, de resto, dando plena expressão à frontalidade da sua "escrita impúdica e grosseira", (...), consegue uma harmonia preciosa entre a violência do narrado e a rudeza dos termos empregues - as suas palavras ganham, portanto, uma credibilidade muito maior "fidelizando-se" à realidade.

Depararemos, pois, com uma linguagem incisiva e cortante que nos retratará:

- um Estado Novo definhado que, não conseguindo salvar-se, exporta a imundície e a enraíza em África, símbolo do poder secular de uma pátria que tem orgulho na sua história ("As senhoras do Movimento Nacional Feminino vinham por vezes distrair os visons da menopausa distribuindo medalhas da Senhora de Fátima e porta-chaves com a efígie de Salazar, acompanhadas de padre-nossos nacionalistas e de ameaças do inferno bíblico de Peniche, onde os agentes da PIDE superavam em eficácia os inocentes diabos de garfo em punho do catecismo.");

- um povo incapaz de se revoltar morrendo longe de casa lutando contra si próprio, a guerra e só depois os "cabrões", sacos de boxe expiatórios de todo o processo;

- uma Angola seca, desolada e decrépita (os cus de judas, nem mais);

- uma guerra idiota e/porque despropositada, excessiva e bestial;

- um narrador totalmente enjoado/enojado com feridas a latejarem bem para lá de 74.

A situação presente do narrador não deve nunca, atenção!, ser encarada como mero suporte de evocação do passado. Lobo Antunes parece querer frisar bem uma continuidade do tempo que modela o agora em função do outrora e fá-lo através deste "narrador-cobaia" e da maneira como toda a sua vida se parece ter definido, e definir ainda, pela "participação" numa guerra, na guerra - "Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer de mim o que sou hoje e que intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem não se telefona e cujo telefonema ninguém espera, tossindo de tempos a tempos para se imaginar acompanhado, e que a mulher a dias acabará por encontrar sentado na cadeira de baloiço em camisola interior, de boca aberta, roçando os dedos roxos no pêlo cor-de-novembro da alcatifa."

É, afinal, este o propósito deste livro: fazer atentar na marca, na marca indelével com que a guerra manchou e assombrou alguém, e alguém em quem tantos se podem rever; lembrar sempre, para não repetir, a canalhice do português, como (de novo) "O branco veio com um chicote e bateu no soba e no povo".


por Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]

24/09/2004

Agripina Vieira: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


Angola, o regresso

Angola de novo em António Lobo Antunes. Com uma arquitectura original, já que pela primeira vez, o autor publica um romance constituído por três livros com prólogo e epílogo (regressando e mesclando as técnicas que estão na génese de dois romances da década de 90: Tratado das Paixões da Alma e A Ordem Natural das Coisas), Boa Tarde Às Coisa Aqui Em Baixo – com 574 páginas – constitui-se como o regresso singular e pungente a uma das temáticas essenciais da obra antuniana, Angola.

O título, extraído de um texto de Enrique Vila-Matas citado em epígrafe ao corpo do romance, apresenta-se desde logo como um enigma. Esta frase, tradução da saudação de Larbaud, “Bonsoir les choses d’ici bas”, assim como o texto em que se insere têm a particularidade de atrair a nossa atenção para a linguagem, o seu poder mas simultaneamente as suas limitações, levando-nos a verificar que a força das palavras reside tão só na composição que com elas é criada e que por vezes a linguagem mostra-se incapaz de reproduzir os objectos e o mundo que nos rodeia. Ao longo do texto, vamos reencontrando insistentemente essa preocupação com a palavra, que leva algumas personagens a questionarem-se vezes sem conta “será que remendo isto com palavras ou falo do que aconteceu de facto?”, sabendo de antemão que, ao Serviço – para o qual trabalham – como à generalidade das pessoas, apenas interessa a versão mais favorável dos acontecimentos. Por analogia, esta citação chama igualmente a nossa atenção, para o trabalho do próprio escritor, já que ele é, por excelência, o grande obreiro das palavras, particularmente este autor. Com efeito, esta problemática ganha uma outra dimensão quando falamos da obra de António Lobo Antunes, o seu trabalho com a língua é particularmente notável. Os caminhos da escrita por ele encetados na década de setenta conduziram-no até este romance. Um texto de uma grande depuração e rigor, onde cada palavra foi pensada e escolhida pela força das imagens que à sua volta irradiam, convidando o leitor a penetrar no universo perturbado e perturbante de homens e mulheres comuns, sem grandes defeitos nem virtudes particulares, que vêem as suas vidas manipuladas e destruídas por uma máquina institucional que nem tentam contrariar.

Situando os acontecimentos narrados no período da pós-descolonização, é ao espaço que cabe o papel fulcral da organização diegética. Com efeito, é Angola que vai unir Seabra, Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares (funcionários governamentais portugueses, agentes dos Serviço, ou militares) e Mariana (a mestiça angolana), unificando dessa forma a trama do romance. Os destinos dos agentes de espionagem, homens simples e anódinos, nos antípodas do herói, estão tão marcados quanto os dos toiros lidados na praça situada frente aos escritórios do Serviço no Campo Pequeno, destinos que se confundem e se fundem de tal forma que cada nova entrada de toiro na arena coincide com o aparecimento de um novo agente para substituir aquele que antes de si falhou – “um segundo toiro idêntico a mim” nas palavras de Seabra. No escritório são “lidados” pelos superiores hierárquicos: “ao confortar-me o ombro o director colocou a fitinha em mim, o responsável do oitavo andar quando palpei o osso, quando mugi/ - Tem comichão Seabra?”, as páginas com as ordens de serviço metamorfoseiam-se em trapos coloridos que os espicaçam, “os bicos de caneta que em vez de sublinhar parágrafos (…) incomodavam a garupa”.

Cada livro veicula focalizações diegéticas diferentes, narrando os acontecimentos referente à viagem de um novo agente a Angola, viagem condenada à incompletude porque sem regresso “da mesma forma que nenhum toiro torna à camioneta em que veio”. Enquanto que nos dois primeiros livros, surge com evidência um ponto de vista dominante, respectivamente o de Seabra e o de Migueis, no terceiro livro o leitor vê-se perante uma pulverização de olhares e de vozes narrativas, não só os do agente de espionagem, Morais ou Borges – (o leitor nunca saberá a verdadeira identidade do terceiro agente uma vez que lhe entregaram “um passaporte com outro nome”), mas igualmente a dos membros da coluna militar que sucessivamente vão tomando a palavra dando conta da sua forma particular de ver o mundo, dos valores que norteiam as suas opções. Estes três homens (Seabra, Migueis e Morais ou Borges) vão sendo sucessivamente incumbidos de uma tarefa delicada e secreta. A sua missão consiste em contrabandear diamantes, recuperando e trazendo para Portugal as pedras preciosas roubadas que não puderam ser enviados atempadamente para o território nacional e que o Serviço descobriu estarem na posse de Marina. À medida que um falha é substituído pelo seguinte, partilhando todos o mesmo destino fatal, que os inibe de regressar a Portugal, ficando na fazenda angolana: o Seabra assim como “o seu sucessor e o sucessor do seu sucessor”.

Mais do que as peripécias inerentes a tais buscas, o que se constitui como o cerne dês te romance é a incursão na existência destas personagens, a descoberta dos seus medos, das suas obsessões, das suas frustrações, dos seus anseios. “Descoberta” é aliás a palavra-chave quando se fala da produção antuniana e dos caminhos de leitura pelos quais o seu leitor se vê levado. António Lobo Antunes de uma forma exímia e fascinante as técnicas discursivas que dão corpo ao romance, desafiando o seu leitor a entrar num jogo interpretativo, embrenhando-o no universo intimista das personagens. Paulatinamente, vamos descobrindo as razões que ditam as curiosas atitudes de Seabra (este homem solitário que vive com a sua velha mãe, igualmente só, mulher obcecada pelo alinhamento perfeito e simétrico das franjas do tapete da sala), as causas que explicam os traumas de Tavares em relação à sua altura (casado com uma mulher mais alta do que ele transforma-se na chacota da família, por isso escolhe uma amante com quem possa passear sem complexos), os receios de um dos militares da coluna que deambula pelo capim angolano que, embora ferido, o obrigam a afirmar insistentemente “Estou bom” para não ser eliminado pelos seus companheiros em fuga, os motivos que levam Mariana a denunciar o seu esconderijo a esses homens que vieram em sua perseguição. E o que nos parecia estranho ou invulgar vai ganhando sentido: Migueis – a personagem que desperta em nós uma imediata antipatia pelo seu machismo exacerbado – suscita agora a nossa compreensão (traumatizado por uma relação difícil com os seus pais não consegue realizar-se no seu próprio casamento), aquelas frases misteriosas e obsessivas que pontuam de forma recorrente o texto desvendam o seu propósito. Nomeadamente a frase que se constitui como leitmotiv do Prólogo: “Esta era a casa”, que nos transporta do presente veiculado pelo deíctico, para o passado do verbo. Ao presente das ruínas (metonímia do estado a que o país se vê condenado) corresponde um passado de ordem e norma. Ao longo do texto, as questões políticas e sociais vão surgindo de forma diluída, inscrevem-se em filigrana na diegese na medida em que condicionam a vida das personagens.

Como se depreende desta breve apresentação de um romance tão rico quanto este, e na esteira da produção anterior, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo alicerça-se pelo poder da fragmentação, da recorrência e do não dito. Em nenhum momento da nossa leitura, estaremos na posse de um entendimento conclusivo. Vamos construindo-o à medida que entramos na existência de cada personagem, que descobrimos as suas dores, os seus temores, as suas angústias. Este trabalho de leitura é simultaneamente uma construção de sentidos e um desvendar de mistérios, onde cada leitor empreende o seu caminho de leitura, deixando-se conduzir pelo pulsar das palavras, pela cadência da frase (ora longa ora curta), pelo ritmo do discurso.

Poder-se-ia pensar que estamos perante um livro triste e até trágico onde as personagens apenas se submetem a um destino previamente traçado, embora totalmente desconhecido do leitor. Bem pelo contrário, uma verdadeira sensação de felicidade apodera-se de nós a cada descoberta realizada, a cada peça que colocamos deste mosaico que é o Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. O diálogo com o livro estende-se, para nosso prazer, ao conjunto da obra e ao seu criador, que nos desafia a entrar no seu mundo ficcional e autoral, fazendo-nos partilhar os seus pensamentos pelo viés de um monólogo interior que, sem qualquer indicação textual ou tipográfica, irrompe na trama ficcional fazendo-nos oscilar entre a efabulação e a referência factual. São momentos de grande partilha, aqueles em que o autor questiona a suas opções de escrita e se põe em causa, como no seguinte passo “quem me conta esta história, quem narra isto por mim?/ uma traineira não, nem pássaros, nem mulatas que te melhorem o capítulo António, acordas com o romance, adormeces com o romance (…) esta narrativa que mais do que as outras se tornou uma doença que te gasta e de que não sabes curar-te, pode ser/ vá lá experimenta” ou ainda nesta pergunta a meio caminho entre o sarcástico e o divertido, numa clara alusão ao seu romance anterior, Que Farei Quando Tudo Arde?: “(deste-te bem com os pavões noutro livro?)”.

Ler António Lobo Antunes é mais do que acompanhar as peripécias da vida das personagens, é mais do que ler uma boa história, é deixar-se embrenhar no mundo de efabulação criado, é entrar no jogo do autor na tentativa de descobrir para partilhar, com ele, os seus caminhos de criação.»


por Agripina Vieira
em Jornal de Letras, edição 862
15.10.2003

23/09/2004

Hege Steinsland: sobre A Morte de Carlos Gardel


Magistral história sobre o vazio, pelo mais importante modernista português

A Morte de Carlos Gardel é o terceiro livro da trilogia de Lisboa do português Antunes traduzido para norueguês... Ler o romance é como entrar num buraco negro, onde apenas se encontra doença, morte, ódio, cinismo e amargura. Como nos outros dois romances, a acção localiza-se num bairro de Lisboa do nosso século [séc. XX].O tango ocupa o lugar central na vida de várias personagens do livro. o protagonista Álvaro, amargurado porque a sua mulher o deixou, (...) é incapaz de amar, amargurado e cínico, um rosto sem feições. A sua única razão de viver é o tango de Carlos Gardel. Nunca há romantismo ou calor humano entre as personagens, penas irritação e momentos de sofrimento sem fim...

... O que mais fascina nos romances de Antunes é a linguagem. É espantoso como ele  consegue tornar o romance claro e nítido, mesmo abordando vários acontecimentos no mesmo parágrafo... Os pensamentos saltam elegantemente de um plano temporal para outro. Outras frases são utilizadas repetidas vezes. É uma forma de stream-of-consciousness... Além da corrente de pensamentos, que flui naturalmente, os narradores fazem associações que conferem ao romance uma expressão poética e rica em imagens...

De facto, a leitura deste romance é uma labuta, devido ao estilo labiríntico e ao conteúdo triste. Mesmo que o tom cínico e sombrio da descrição das personagens não seja do meu agrado, fiquei impressionado com a obra de um artista linguístico, um autor modernista, que é mencionado pelos críticos como digno do Nobel da literatura...

A mensagem deste romance pode ser descrita como dever amar e ser amado com respeito, mesmo que a história da vida das personagens conte o contrário:  a frieza, o sentimentalismo e o vazio.

por Hege Steinsland
1995
Noruega
(citado do site do Instituto Camões)

22/09/2004

Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira: sobre Auto dos Danados


Auto dos Danados: cenas de uma família condenada

Resumo. Em Auto dos danados (1985), António Lobo Antunes encena a fragmentação de uma família tradicional ao mesmo tempo em que rompe a tradição da escrita romanesca, praticando uma tendência dupla da prosa portuguesa pós-75. Ao conceder a narração diretamente às personagens, o autor procede como um psicanalista a seus pacientes, fazendo do romance a sucessão progressiva e aleatória das falas dos membros de uma família patriarcal, retratados como criaturas humanas, demasiado humanas, que nos causam horror mas também compaixão, numa clave polifônica à Dostoievski. Tema, tons e tintas conferem à obra um lugar especial na literatura portuguesa contemporânea.

Este artigo está disponível em formato pdfClique aqui para continuar a ler.

13/09/2004

Para escrever faz falta vocação animal


Página/12, Argentina - entrevista de Sandra Chaher
05.05.04


Para escrever faz falta vocação animal


Está em Buenos Aires para apresentar na Feira seu último livro, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. Mas António Lobo Antunes não gosta de viajar. Diz ser um obsessivo pelo trabalho: escreve catorze horas por dia, seis vezes por semana.

Buenas tardes a las cosas de aquí abajo é o título sugestivo que o português António Lobo Antunes apresentará hoje na Feira do Livro. Pouco propenso a sair de Lisboa, Antunes, que acaba de terminar outro romance, empreendeu uma volta por vários países antes de voltar a enfrentar, em Junho, com o caderno em branco. Prolífico, trabalhador incansável, candidato ao Nobel há anos (mostra-se despreocupado com os prémios, excepto pelo dinheiro que trazem), Antunes desmistifica com o seu calor a fama de carrancudo que o persegue. Boa Tarde... é um romance situada na Angola pós-colonial, onde várias personagens interactuam para falar da identidade, da solidão, do amor, da descriminação e das desigualdades sociais. O cenário não é desconhecido para o autor, que combateu ali como soldado português durante a guerra de independência, nos anos 60-70. Nessa altura, Antunes exercia a sua profissão de médico psiquiatra e, se bem que a experiência naquela frente tenha resultado dura e traumatizante, não sente que o seu retorno a tal cenário tenha que ver com o que viveu.

Trá-lo a Buenos Aires algo mais que a apresentação do livro?
A mim? Em que sentido?

O país, as pessoas, a literatura...
Tenho muita resistência em viajar. Há alguns anos que me falavam em cá vir, mas é sempre complicado porque quando escreves não tens muito tempo. Eu tenho um acordo com os editores para que nas minhas viagens me dêem 4 ou 5 horas por dia para escrever, porque se passas um dia sem o fazer, torna-se muito difícil continuar. Quanto a Buenos Aires, havia coisas que me encantavam, como a música, alguns escritores que descobri quando era adolescente.

Por exemplo?
Uhhh...

Borges seria a resposta habitual.
Borges... Eu nunca fui um grande leitor de Borges porque... é muito inteligente e a mim interessam-me os livros inteligentes, não os escritores inteligentes. Recordo-me de ter lido um livro de Roberto Arlt que me encantou, e Macedonio Fernández. Há um escritor que eu penso que não é muito conhecido aqui e que é muito bom: Manuel Puig. Parece-me que Boquitas Pintadas é muito bom. Aí ele inventou um género novo e fê-lo muito bem. Depois, os seus outros livros são muito parecidos. Humphrey Bogart era sempre a mesma personagem, e quem sabe se não havia nada mais difícil de sustentar que a repetição.

O seu novo livro está situado em Angola, onde esteve como soldado português durante a guerra da independência.
Repara, é um cenário imaginário. Não voltei a África depois da guerra.

Todavia, o retorno literário, teve o sentido de um exorcismo em relação àqueles anos?
(Pensa) Quando escreves tens que plantar o teu romance num território ficcional, e este é uma pais imaginário a que por comodidade chamei Angola. Mas é como a Madrid de Hemingway, que só existe nos seus livros. (Suspira) Queria falar de seitas religiosas, mas o livro mudou de uma maneira muito radical. Inclusive não o ia situar em Angola. Mas não estava contente com os resultados. Reescrevi várias vezes os primeiros capítulos e numas dessas versões subitamente apareceu um negro, e atrás uma mulher, e depois um odor, e assim chegou África. Uma primeira versão é um magma e tens a impressão que o livro está lá debaixo, como uma estátua enterrada num jardim. Tens que limpá-la das folhas, dos insectos mortos. Uma das coisas que aprendi com o tempo é que as primeiras versões contêm toda a solução, tens que trabalhar sobre elas. Eu não queria falar de Angola nem da guerra, o que me interessava era a angústia do homem no tempo: o problema da identidade. Mas mais que os temas, interessava-me ajustar as palavras de tal forma que se tornasse uma coisa física. Não tinha pensamentos abstractos.

Que significa isso?
Lembro-me de Jorge Amado, éramos amigos, e dizia-me "eu invejo-te menino, porque podes trabalhar 12 horas. Eu trabalho 4 e acabo muito cansado fisicamente". Porque um livro é uma luta corporal. Para mim é um sentimento muito físico. Trabalho sem computador, é com a mão, porque gosto de desenhar as letras, há um contacto físico com o papel que também é importante. Penso que um bom escritor não é um homem inteligente, mas sim com vocação animal. E depois tens de estruturar isso, mas nas primeiras versões deves seguir o teu instinto animal, és um carnívoro qualquer que está atrás da sua presa, que é o livro, e ver como o matar bem. Um bom livro é aquele que matas bem.

Poderia explicar a ideia de vocação animal?
É pensar com os sentidos. Porque tu não trabalhas com ideias mas sim com emoções. As emoções são anteriores às palavras, e repto de um romance é como transformar as emoções em palavras quando sabes que, por definição, não são traduzíveis. Só podes começar um romance quando sabes que não é capaz de escrevê-lo, e aí surge a luta corporal.

Quanto tempo leva a escrever um livro como este, tendo em conta esta intensidade?
Uns dois anos, mas isso não quer dizer nada. Stendhal ditou A Cartucha de Parma em 54 dias. Mas eu sou lento, por isso escrevo 14 horas por dia, 6 vezes por semana.

Que faz no seu dia livre?
Na verdade, é a metade do sábado, como os soldados e as empregadas domésticas(risos). O que faço? Coisas que só poderia dizer-te ao ouvido (risos). Repara, quando estás a escrever estás todo o tempo com o livro, és como uma casa com fantasmas. O que faço em geral é sair, jantar com um amigo que trabalha com livros, e vamos a uma livraria, ao cinema. E por volta das 11 horas regresso porque começo muito cedo no dia seguinte. Há coisas importantes: no final do dia não podes deixar uma frase terminada. Tens que deixá-la pela metade, e se possível a meio de uma palavra, assim é mais fácil começar no dia seguinte.

Como foi o processo que o levou a esta forma tão particular da sua escrita: fragmentada, com elipses, com alternância de tempos e espaços, com muita musicalidade? Tem que ver com o seu gosto pela poesia?
Nunca pensei nisso. Estás tão ocupado tentando solucionar os problemas que a obra te planta a cada passo... Fiz alguns romances com estrutura sinfónica, há palavras chave que se repetem, ideias, mas isso eu aprendi... a técnica serve-te para acelerar ou tornar lenta a prosa. Creio que aprendi muita técnica com os músicos de jazz, com Charlie Parker. Creio que aprendi a frasear com eles. Como podes aprender muito sobre a construção com alguns filmes de Fellini, Scorcese, Orson Welles. As minhas referência em geral não são literárias. Não há muitos livros que me interessam. E repara, tu tens que ser discípulo teu. Eu não sei como se aprende a escrever. Fazendo-o o melhor que puderes, porque é uma actividade muito difícil, que conquistas muito lentamente, com muito trabalho. Creio que há que desmistificar os escritores, a literatura é um trabalho. A tua mão fica feliz se trabalhas muito. As duas primeiras horas do dia em geral estão perdidas para mim porque a tua autocrítica está muito alta, e quando começas a estar cansado as coisas saem melhor porque a tua polícia política interior se cansa.

Encontra algum vínculo entre o estado no qual entra a consciência quando baixa a autocensura e para lá da loucura?
Sim, no sentido em que um romance é um delírio estruturado. Um delírio é um edifício lógico no qual a primeira premissa é desejada. Por exemplo: eu sou o rei de França. E a partir desta premissa se constrói um edifício.


edição on-line de Página/12
5 Maio 2004
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

12/09/2004

António Lobo Antunes em Buenos Aires, 2004


Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (Argentina)
Maio de 2004


Convidado pela Editorial Sudamericana, Grupo Editorial Mondadori, para apresentar o seu livroBuenas Tardes a las cosas de aquí abajo, o escritor português António Lobo Antunes veio no mês de Maio e apresentou-se na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Foi declarado Hóspede de Honra pela Legislatura da Cidade Autónoma de Buenos Aires.


Nós que o lemos nas crónicas que escreve para o diário El País de Espanha, excelentemente traduzidas por Mario Merlino, e lemos seus livros, sabemos quão extraordinário escritor é António Lobo Antunes.

Falava em voz muito baixa, mostrava-se muito cansado, vinha acompanhado do seu editor espanhol, havendo passado pela Colômbia, onde apresentou o mesmo livro. O público escutava o escritor com respeitoso silêncio.

A viagem, o livro

"Foi muito duro", disse a respeito da sua estadia na Colômbia, referindo-se à pobreza, à violência, à agressividade das pessoas. Na Colômbia as classes altas olham de cima para o povo, disse o escritor. Situação que poderá ser extensiva a vários países da América Latina.

"Encontrei cá na Argentina alguns dos melhores jornalistas que encontrei na minha vida", disse. "Senti-me compreendido sem palavras", afirmou. O escritor manifestou o seu cansaço em falar, de mostrar simpatia, de sorrir, de demonstrar interesse durante a promoção do seu livro que já vinha antes de Colômbia, em outros países da Europa. "Creio que que não tenho somente respostas mas também perguntas", disse. "Não quero falar muito sobre o livro porque se pudesse falar dele, não o havia escrito", afirmou Lobo Antunes. "Passei dois anos da minha vida escrevendo-o. É muito diferente do livro que queria escrever. Necessitava de um ponto de referência". Partiu da ideia das seitas religiosas que se apropriam das pessoas sem cultura nem dinheiro. "A mão rejeitava essa solução. A mão voou até África, não tinha regressado a África depois da guerra", disse. "Não há nada mais violento que a guerra. Uma violência e uma crueldade que ao mesmo tempo me fez dar conta de facetas escondidas em mim", disse. "Há sentimentos contraditórios que nos habitam. Em todos os livros que as editoras publicam com o meu nome interessa-me que as páginas sejam como espelhos que nos devolvam essa visão dos sentimentos que nos habitam".

A guerra

Eu queria ter um filho porque pensava que ia morrer. Tive uma filha, quando regressei a casa não a conhecia. Custou-me três ou quatro anos para ter uma relação normal, a minha primeira reacção foi dizer esta não é a minha filha. No país mais sensual que conheci, África, em vez de fazer amor o que se fazia era apanhar prisioneiros, ter mortos.

Quando era médico

Quando era médico interno tinha que fazer três meses de cirurgia, de obstetrícia, de outras especialidades. Mandaram-me para a enfermaria de crianças com cancro terminal. Havia um caso de um menino de quatro anos, eu tinha vinte e dois. O menino, José Francisco, morreu. Estava na porta da enfermaria e via o pé do menino, haviam-no envolvido num lençol e via-lhe o pé. Tenho a sensação que é por esse pé que escrevo. Por um menino morto, não sei porque razão e em nome de quê. Há que escrever pelos que não têm voz, pelos que não podem falar, pela mãe das minhas filhas que morreu de cancro faz quatro anos. Também escrevo com muita alegria, não tenho tempo para deprimir-me. Tenho momentos em que a minha cabeça está cheia de cães negros que se devoram uns aos outros.

O seu último romance: uma história de amor

Em Novembro de 2003 terminou o romance "Eu Hei-de Amar Uma Pedra". De manhã escrevo no hospital, à noite no meu atelier, escrevo com a porta aberta, não gosto das portas fechadas.

Então contou o seguinte: "Vi passar uma senhora de negro e o médico que estava por ali contou-me a sua história: a mulher era uma camponesa de origem, e trabalhava como costureira. Quando jovem namorava com um rapaz que trabalhava no campo. Os seus pais mandaram-na a Lisboa para que tivesse uma vida melhor, para casa de uns parentes. O noivo também trabalhava muito. Viam-se quando se cruzavam na rua. Ela adoeceu de tuberculose, o rapaz escrevia-lhe mas os parentes não a deixavam responder-lhe. Ele pensou que ela teria morrido. Casou-se, estudou e teve filhos. A rapariga não morreu, voltou a trabalhar como costureira. Dez anos depois, um dia em que ela regressava depois de entregar umas roupas às clientes, encontrou-se com ele na rua. Durante cinquenta e três anos todas as quartas-feiras encontravam-se numa pensão. Ele estava casado. Não faziam amor, davam as mãos. Iam ver as acácias em flor. Ele ganhava muito dinheiro. Tinha alugado um quarto. Morreu quando estava com ela. O problema era como fazer sair o corpo da pensão sem que a esposa soubesse daquela relação. Ela chamou um dos genros dele para que o fizessem. Ela não pode ir ao funeral. Foi ela que contou assim esta história. Contei-a depois às minhas filhas e disseram-me: que mulher tão idiota. Para mim, a mulher da história tinha ficado com o melhor desse homem. Queria escrever essa história. Estive dois anos e escrevi um livro de amor. Hemingway dizia sempre que as histórias de amor têm um final triste. Tenho visto na minha família histórias de amor felizes, queria que essa história de amor me corresse no sangue. Não gosto de contar histórias mas contei-a para dizer que estou feliz por estar aqui".


original escrito por Araceli Otamendi
encontrado no site Triplov
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

11/09/2004

TSF: «um romance não serve para nada»


TSF - Pessoal e... Transmissível
programa de 29 Dezembro 2003




A imaginação não existe. O que há é formas de organizar a memória, garante António Lobo Antunes. O autor de "Boa tarde às coisas aqui em baixo" é o convidado de Carlos Vaz Marques para uma conversa ao fim da tarde em que revela a história do próximo livro que já está a escrever.





10/09/2004

Conhecimento do autor


SIC Notícias - entrevista de Rodrigo Guedes de Carvalho
Dezembro 2003
[a entrevista foi transcrita através do formato original, tendo sido mantidas, tanto quanto foi possível, algumas das particularidades orais de uma entrevista de televisão]


Conhecimento do autor


Conhecimento do autor: é o que aqui se vai tentar. Lobo Antunes é pouco dado a grandes explicações sobre o que escreve; costuma dizer que os seus livros vivem sozinhos e é aí que o devemos procurar, nessa impressionante regularidade de produção. Com este [mostra a capa do romance Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo] que hoje se apresenta, são já dezasseis romances em vinte e quatro anos, isto para além das crónicas na imprensa que estão agora também reunidas em dois volumes. Imensamente traduzido por esse mundo fora, longamente sussurrado para o Nobel, recebe dentro de dias o prestigiante Prémio União Latina. É um bocadinho da dimensão internacional que nesta altura já não surpreende ninguém; ele que tanto foi arrasado pela crítica em início de carreira, é hoje uma figura perto do consensual. Pegando então em Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, começo por dizer boa noite ao escritor aqui em frente.


António, normalmente as perguntas que os jornalistas fazem aos escritores que lançam um livro novo é essa incauta "de que trata o seu livro?". Porque é que você não gosta nada desta pergunta?
Porque se fosse possível resumir em dois minutos de que trata o livro não era necessário escrevê-lo. Eu lembro-me sempre de uma... D. Francisco Manuel de Melo, que é um escritor que gosto muito, séc. XVIII, que a resposta dele foi... a única resposta possível... ele disse «o livro trata do que vem escrito dentro». Porque... aquilo que tu podes contar é a intriga, a história, e a intriga acaba por ser o prego onde tu penduras o teu quadro, aquilo que te preocupa muito mais são outras coisas do que propriamente a história.

E continua a ser assim, consigo. Cada vez mais, assim?
Cada vez mais assim, cada vez mais assim, sim...

Mas é natural quando pensa nos leitores que tem - uma pessoa que vende tanto nesta altura deve ter um número de leitores, e um tipo de leitores, muito diversificado - é natural que as pessoas perguntem: que é que será este livro? Este livro, não sendo só isso, tem um pano de fundo novamente em Angola.
Sim, tem um pano de fundo na... numa Angola inventada, porque eu nunca mais voltei a Angola, não é uma Angola actual, de agora, que eu não faço a mínima ideia como é... mas, sabes, o problema é este: para escreveres um livro tens de criar um território ficcional onde plantar o livro e... como o Faulkner criou o condado de Yoknapatawapha, o Melville criou o seu próprio mar; portanto, quer Lisboa, quer o Portugal, quer Angola, que aparecem nos livros, são territórios míticos, não é? Do qual provavelmente só guardam o nome inicial, depois o resto...

Mas Angola, para si, não é igual à Guiné, não é igual a Moçambique, não é igual a outro país nenhum...
...que eu não conheço! Eu só apenas conheço Angola, é o único país africano que conheço. Mas, no entanto, já houve livros, estou-me a lembrar de Fado Alexandrino que se passava... pois, tinham estado em Moçambique... Portanto, são apenas territórios ficcionais onde tu tentas colocar toda a tua realidade e toda a humanidade que tens dentro de ti.

E, no entanto, neste território ficcional, há um excesso de pormenores, da tal intriga que está em segundo plano, mas há tráfico de diamantes, tráfico de influências... Para nada disso é preciso documentar-se...
Tinha sempre medo porque me lembrava sempre de um escritor que eu respeitava muito, que era o Alves Redol, e conheci muito mal, apenas o entrevi quando era estagiário no Hospital Santa Maria, e ele estava a morrer, na fase terminal de um cancro nesse hospital. Para mim foi uma emoção muito grande ver um escritor que eu respeitava numa cama de hospital... Bom, o que acontecia é que documentava-se de tal maneira que ficava submerso pela documentação... e era-lhe muito difícil depois voar com aquilo que tinha. Eu nunca... nunca tomei notas, nunca tomei qualquer documentação que não fosse aquela  estritamente... claro que tomas notas enquanto estás a escrever, mas mesmo assim são muito poucas.

E não é um risco neste país onde há pessoas tão comezinhas, a ler estas coisas, que vem um tipo qualquer a dizer: "Eh pa, mas na Baixa do Cassanje nunca se passou situações de tráfico", ou não sei quê... Isso, para si, é completamente irrelevante?
Em relação... já me aconteceu dizerem que lugares que eu falo não são assim, etc. Até receber inclusive cartas a esse respeito. Lembro-me de uma crítica em relação a um livro qualquer em que aparecia a personagem de Salazar, que dizia que o Salazar nunca tinha estado em Palmela, o que é mentira, porque há fotografias dele lá, nessa casa. Agora... sabes, é-me completamente indiferente, a mim o que me interessa é a qualidade do texto.

E que no romance seja plausível?
Nunca pensei muito nisso...
[risos]

E continuas a não pensar... felizmente.
... nunca pensei muito nisso...

Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo é um título que à partida pode causar estranheza, ele vem explicado logo aqui [primeiras páginas], tu retiras uma frase a um romance do Vila-Matas, que é uma personagem que já não diz coisa com coisa e então diz "Boa tarde às coisas aqui em baixo". Diz o Vila-Matas que é uma frase intraduzível. Gostas que digam que os teus livros são intraduzíveis, também - não para o estrangeiro, disso já falaremos - mas, que sejam inclassificáveis?
São-no sempre, são sempre... O problema tem que ver com a forma como nós abordamos os livros, nós temos de ler... nós temos tendência a adaptar os livros, como a vida, à nossa grelha, ou seja, a soma das nossas experiências, nossas vivências... daquilo que nos aconteceu, que vimos, que observamos, que ouvimos, e... temos que partir para os livros com os olhos desprevenidos, temos que partir com uma certa virgindade no olhar, e tentar... O livro traz consigo o seu modo de usar, as suas instruções... e de qualquer forma... eu penso que isso acontece com qualquer profissão... tu tens que ensinar os teus leitores a lerem-te, tens que ensinar os teus leitores a lerem-te...

Sim, e num escritor como Lobo Antunes, como mais à frente se verá, sem dúvida, porque há um jornalista do Le Figaro que diz uma coisa bastante interessante sobre a tua obra... De qualquer forma, este regresso a África, sendo apenas o pano de fundo, é num tom magoado, esta é uma África estragada, é corrupta, parece que não se vai conseguir levantar...
Eu penso que não é preciso ir a África para encontrar corrupção. A mim o que sempre me chocou, em relação a Angola, é o contraste entre a riqueza do país e a pobreza das pessoas. Eu acho que as pessoas são pobres, porque o país é extremamente rico. Lembro-me que se semeava arroz três vezes ao ano e arroz [com] três metros de altura; portanto, não é só a terra que é extremamente rica, são os diamantes, o petróleo, os minerais, etc...

Mas antigamente existia o álibi, chamemos-lhe assim, da guerra. O país não podia ir para sítio nenhum por causa da guerra. Nesta altura não acreditas que esta paz possa trazer outro país, uma Angola a que te apeteça voltar, por exemplo?
Eu não sei muito em porque é que vol... Uma das razões porque não volto é porque as cidades que eu gostava ficaram destruídas pela guerra civil e eu não sei se estão reconstruídas, e depois porque nós tentamos... nós, europeus, a agora os americanos, que acabam por ser filhos dos europeus, tentar impor aquilo a que eles chamam um modo de civilização e um modo de ser que nada tem que ver com o modo de ser africano, compreendes? Eu lembro-me, quando lá estava, por exemplo, de o meu colega feiticeiro curar a icterícia, a hepatite, em dois dias. Dois dias e a icterícia desaparecia, os sintomas desapareciam. Estou-me a lembrar nomeadamente de um homem que tinha sido atacado pela pacaça, com feridas muito grandes, e aplicaram-lhe uma espécie de um emplastro, a mim me parecia cheio de terra e de ervas, e pensei: "este homem vai morrer de septicemia", e numa semana estava curado. Havia lá, por exemplo, padres bascos que lá estavam e que tinham feito recolhas, apreendidos pela polícia política, de poesia, de contos, de provérbios de uma extraordinária riqueza. Portanto, havia uma civilização imensa, que o Melo Antunes dizia, sob certos aspectos, poder comparar à dos Maias, que os colonizadores destruíram por completo. E julgo [que devia] continuar a existir respeito pela idiossincrasia própria daquele povo, ou daqueles povos, que aquilo são vários povos, com várias línguas, e que têm... Olha, por exemplo, a relação deles com o tempo: o que nós ganharíamos em compreender a relação deles com o tempo; a relação deles com a velhice, o respeito que existe pelos velhos; a relação deles com a morte, a morte é um dia como os outros, só que mais curto. Isto é muito difícil de entender para nós, europeus, para quem um dos poucos rituais que subsiste é o ritual dos funerais... ali é completamente diferente.

E da relação com esse povo, os portugueses do teu livro, são estruturalmente racistas, há algo neles que nunca consegue esquecer isso, parece que é mais forte. Nós somos de facto assim?
O racismo... julgo que nós não somos mais racistas que os outros, pelo contrário, porque somos mais pobres. Mas o racismo é apenas o desconhecimento. Nós odiamos o que é desconhecido. Repara: por exemplo, tu vais na estrada, e aparece um carro a fazer uma série de asneiras, ou tropelias; tu não dizes, vai ali um homem, dizes, vai ali um cinca, vai ali um opel, vai ali um renault; e não existe, a pessoa não existe, existe apenas aquela máquina. Quando a pessoa sai do carro, depois torna-se muito mais difícil zangares-te com ela, quando de repente se torna pessoa. Lembro-me uma vez - eu tinha... era conflituoso -, estava a tentar arrumar o carro diante de um centro comercial, estava à espera, e houve um outro carro que se meteu à frente, e se meteu primeiro. Eu saí do carro para dizer isso, o homem fechou o vidro, eu fui ao carro buscar a manivela e comecei a bater. E estava muito contente a amolgar o carro quando ouço uma voz atrás de mim a dizer. "Oh António porque estás a fazer isso ao carro do meu cunhado?", e aí a fúria desapareceu-me imediatamente, o outro senhor saiu de dentro do automóvel, apertamos as mãos, de repente passou  a ser uma pessoa, compreendes? Julgo que o racismo radica um pouco nisso. O racismo tem muito que ver com o desconhecimento do outro.

Mas neste país... Por exemplo, às vezes dá-se atenção a pequenos pormenores, por exemplo, uma pessoa que durante o romance inteiro, ainda que sejam apenas as personagens, a dizer que chama pretos aos pretos, é uma coisa que depois do 25 de Abril era muito politicamente incorrecto, passava a ser os negros... Este era o tipo de português que tu conheceste lá, era assim que nós lidávamos com os angolanos?
A maior parte sim, a maior parte sim... Curiosamente da parte dos militares não tanto... Havia um - posso estar a ser injusto - mas havia um... Eu nunca vi, em tanto tempo, eu nunca vi um militar a ter um comportamento menos correcto para com as populações. Em parte era assim de facto, em parte era assim de facto...Também tens que ver que tipo de emigração era a nossa para Angola... Mas depois ao mesmo tempo havia coisas espantosas, porque... na Baixa do Cassanje, que é onde parte do livro se passa, uma das coisas mais extraordinárias era o túmulo do Zé do Telhado, que era um túmulo imenso, quase com dignidade de Jerónimos, o que é muito curioso... Portanto... mas nesse livro... é também um livro sobre a cupidez. E já que os pretos têm aqueles diamantes todos, porque é que não hão-de ser pretos, ou seja, isto é mais ou menos o que se passava na mente daquelas pessoas que os tentam privar de...

Em relação à escrita, propriamente dita... continua a ser uma - eu sou apreciador, há quem não o seja - uma escrita em cascata, vozes díspares, há personagens que parece que vêm à boca de cena deixar uma frase, às vezes só uma palavra, um raciocínio; e há uma coisa curiosa: há o António, que se levanta e deita com o romance, às voltas, como uma doença. Este António és tu, obviamente...
Obviamente.

É um bocadinho o Hitchcock a passar lá ao fundo nos filmes dele, tu intrometes-te no romance?
Não tinha pensado nisso, mas nos últimos livros, cada vez isso é mais presente.. Porque é que eu não hei-de ser também personagem dos livros, se é que são personagens; para mim são pessoas tão reais, sabes, tão de carne, tão de... Recordo-me de - não sei se foi com este livro se foi com o anterior -, de de passar no sítio onde morava uma personagem e pensar "onde é que ela mora, onde é que ela vai tomar o café"... Para ti é uma densidade tão de carne, é tão viva, tão verdadeira, que tens dificuldade - eu tenho dificuldade, dentro de mim - em distinguir... só depois do romance acabado é que elas deixam de existir, enquanto o romance existe estás de tal modo imerso naquele... em sub tinta, como os chocos, que as personagens têm uma existência verdadeira, são personagens reais...

Este que chega agora às livrarias, este romance, para ti já era? Já não pensas nele?
Já tenho esse romance acabado há mais de um ano.

Já não pensas nele?
Não, não, já não penso...

Estás a escrever outro?
Sim, sim, acabei a primeira versão de um outro a semana passada. Agora, tu quando acabas um livro, tens de esquecer o livro, esse é que é o problema, porque se não esqueces vais fazer uma sequela e vais continuar o livro de uma outra forma. Então, tens de fazer um esforço enorme para esquecer, o que ao mesmo tempo é maçador porque, por teres vivido dois anos com o livro, cria-se entre ti e as personagens do livro uma amizade, uma estima, uma ligação... repara, estava a falar, sem me dar conta, como se fossem pessoas vivas.. Cria-se entre ti e o livro uma relação pessoal tão intensa que...não sei quem era, acho que era um escritor sul americano que dizia: "custa tanto separar-me dos meus romances que os acabo antes do fim". Às vezes é difícil, porque tu viveste dia após dia com aquela matéria que...

Há romances em que o fim parece mais extemporâneo que cortas, mas este não. Há um epílogo. E nesse epílogo eu acho que, mais do que nunca, fica esta África, esta relação dos negros com os brancos, há uma tensão sexual até, inter-racial. Este fim... Costumas pensar no fim, enquanto avanças para o livro?
Não...

Há pessoas que escrevem para alcançar um determinado... sabem o ponto onde vão chegar, e avançam para ele.
Não sabes nunca qual é o fim. Eu, antes do epílogo, não sabia como ia acabar o livro. Mas... estás a ver, isso é outra forma de racismo... quando falaste de sexo, por exemplo, quando as pessoas dizem os pretos ou os negros, ou o que quiserem chamar, têm o pénis maior que os outros, que os brancos. Isto é uma forma de racismo, o que é muito curioso... Eu achei curioso a miúda ter aparecido no fim do livro, com aquela redacção, porque ao mesmo tempo me pareceu-me extraordinariamente ambígua e extraordinariamente precisa. Fiz várias versões dessa redacção, a ver como é que estaria melhor, e curiosamente não foi muito difícil escrevê-la, é uma questão de afinar mais a prosa. Mas era como se fosse um... a ironia final naquele livro: tudo desapareceu, a guerra, o tráfico, as traições, etc., e está aquela menina em férias, com o pai rico, a mãe rica, um general africano rico e... como se as vidas dos outros, as mortes dos outros, o sofrimento dos outros tivesse sido em vão, ou tivessem sido supérfluas...

Christophe Mercier, do Le Figaro, de que falava há pouco, alerta para uma coisa com a qual devo dizer que concordo, ele aconselha uma abordagem cronológica da tua obra, não se deve começar a ler Lobo Antunes a meio, digamos assim. Concordas com esta ideia?
Bom, o problema é que eu não li os livros, só os escrevi, portanto, tenho uma relação diferente com eles, por mais distância que tenha em relação a eles e não os tenha revisitado... isso só me acontece em sessões nos países estrangeiros, em que há leituras dos livros e que ouves ler parte, ou então mas conversas com os tradutores, mas felizmente os problemas com os tradutores são muito específicos - felizmente para mim, infelizmente para eles -, são coisas do género, como é que se traduz "coisíssima nenhuma"? Tem muito mais a ver com as frases idiomáticas. Mas "coisíssima nenhuma" pôs imensos problemas, e portanto é muito mais uma relação a este nível, na frase tal... lembro-me de outra expressão que era "alto lá com o charuto", que é que isto quer dizer? A relação é muito mais ao nível disto, destas pequeninas frases, pequenas coisas...

Mas em 24 anos, és capaz de reconhecer... há muitas pessoas a debruçarem-se agora sobre a tua obra, temos, aliás, este magnífico ensaio de Maria Alzira Seixo; mas... tu consegues ver períodos na tua obra?
Bom, primeiro, não são 24 anos, porque o primeiro livro tardou muito a aparecer publicado, foi sempre recusado...

Mas já estava escrito há muito.
Sim...

Aliás, tinhas dois escritos, o Memória... Os Cus de Judas...
Sim, sim, quando apareceu o primeiro, estava a escrever o terceiro ou o quarto, porque os livros eram recusados, as editoras não os queriam publicar. É possível, eu julgo que há... todas as divisões são sempre... eu jugo que os livros acabam por formar um tecido contínuo...

Então experimenta esta: os três primeiros são uma espécie de catarse autobiográfica...
Sim, sim, muito claramente...

...depois o romance propriamente dito, as personagens, a intriga, o enredo; e a partir do Tratado das Paixões da Alma, o teu grande objectivo é reinventar a própria arte do romance, tu fazeres o teu romance...
Pois é... mas isso também aconteceu no primeiro, eu é que não tinha... estava ainda muito... desarmado! Eu estava seguro do que queria, mas em vez de ter um piano, eu tinha uma gaita de beiços, percebes? Portanto, eu podia dar muito poucas notas, e no entanto, havia tantos romances atrás desse primeiro, eu escrevia e deitava fora, destruía...

Mas agora tu não tens problema nenhum em dizer que não só inventaste a tua própria arte do romance, como pretendes que o romance não seja visto  de forma igual depois de Lobo Antunes. Isto não poderá parecer às pessoas alguma soberba?
Eu...

Corres esse risco?
...eu julgo que não sou um homem vaidoso, tanto quando me dou conta, tenho uma grande humildade em relação ao meu trabalho. Mas também tenho a noção que isto traz alguma coisa de novo, ou seja, no... em vários sentidos, por exemplo: no tratamento do tempo, parece-me a mim... depois no tipo de construção romanesca, depois... estava a lembrar do... o ano passado houve um colóquio em Évora - interrompi porque me lembrei disso - e lembro-me da intervenção do Eduardo Lourenço em que fala "Pronto, a partir de agora já não se fazem mais romances à Eça de Queirós". Mas se tu és fiel...

A propósito da tua obra?
Sim. Mas se tu és fiel a ti mesmo, a tua experiência é única e irrepetível, quer dizer, há mil maneiras de mudar a arte do romance, há mil maneiras... O Proust mudou, o Céline mudou, o Faulkner mudou, o Hemingway mudou...
Tu, que ao mesmo tempo tinhas essa grande humildade, às vezes, pensar em grandes escritores e dizer "Bolas, já alguém fez isto antes de mim". Continuas a ter essa noção?
Isso aconteceu-me várias vezes, sim. Não, por exemplo, era mais... era, por exemplo, lembro-me com um livro que não me recordo qual era e que pensava "que bom, descobri a maneira de fazer avançar a acção com o diálogo". E depois, estava a ler um romance da Jane Austin que também tinha feito a mesma coisa. No entanto, sabes, eu penso que tu lês os livros e percebes qual foi o autor que os escreveu, sei lá, há autores que tu reconheces, basta ler uma frase para saberes qual foi a mão que fez aquilo.

Tornou-se um objectivo para ti seres... "vou ser absolutamente original". Tornou-se um objectivo?
Não, eu julgo que o meu objectivo era fazer livros que... O meu grande medo foi sempre o mesmo, foi: não desiludir as pessoas que desde o princípio tiveram em mim uma fé que eu nunca partilhei, percebes?

Não acreditavas em ti?
Não, tinha as maiores dúvidas... tinha as maiores dúvidas...

E a crítica não veio a ajudar nada...
A crítica nunca me foi... nunca me afectou especialmente. O que me preocupava... sei lá... quando saiu Os Cus de Judas, recebi a carta de um agente americano. Isto era em 79... Tinha acabado de sair o segundo livro, o primeiro tinha saído três meses antes... Na época era o agente de uma série de escritores muito importantes, eu achei que era uma ironia, não respondi, ele mandou-me uma segunda carta, e [eu] disse, "tá bem, é chique ter um agente em Nova Iorque"; e ele propunha os meus livros às editoras e nenhum editor os queria. E ao fim de um ano eu disse: Oiça, o melhor é acabarmos com isto, você está a perder dinheiro"... um agente ganha 15% antes dos impostos, e outras despesas correm por conta, até os selos, telefonemas, tudo. "Você comigo só perde dinheiro", e ele dizia "Não, não, você vai conquistar o mundo", e não conquistávamos coisa nenhuma, não tínhamos uma única editora, nenhuma tradução, nada... Ainda hoje estou com ele! E é a única pessoa a quem eu mostro os livros quando estão acabados, o livro segue para a América para ele o ler. E até o veredicto dele vir às vezes fico um bocado tenso, embora actualmente eu não me sinta muito inseguro do que faço, mas fico tenso porque ele é muito rigoroso...

Mas nunca ficava contente quando acabava um livro...?
Eu? Na altura... ahn... imediatamente após ter acabado sim, um mês depois começas a ver "podia ter feito melhor, devia ter trabalhado mais"...

É por isso que não vais reler os livros, para não teres a tentação de fazer mais uma correcção...
Claro que dá vontade de rir reescrever tudo, mas o problema é que a pessoa que tu eras quando os escreveste já não és. Já não sou o homem que escreveu o Memória de Elefante, o Conhecimento do Inferno, o Tratado... ou mesmo o romance anterior. E a tua concepção de romance vai evoluindo. Portanto, se tu fores emendá-los tinhas que reestruturá-los de tal maneira, e adaptá-los àquilo que tu és agora, de maneira que, eu penso que isso não seria honesto, foram escritos por um determinado homem, numa determinada época; homem para o qual eu olho muitas vezes como um antepassado meu.

Mas sem o qual não poderias ser eventualmente o que és hoje...?
Evidentemente que não, evidentemente que não...

Uma curiosidade: aqui no livro da Maria Alzira Seixo [Os Romances de António Lobo Antunes], a capa é um manuscrito teu, que muitas pessoas desconhecem. Como é que tu te organizas?
Aí está muito aumentado...

Está muito aumentado, ainda por cima...
Está...

...portanto a letra ainda é muito mais pequena. Como é que te organizas aqui?
Bom, isso...

Porque é que escreves à mão, por exemplo?
Ah, escrevo à mão porque gosto de desenhar as letras, dá-me um prazer físico. Não me vejo a... num computador, dá a sensação que não sou eu que escrevi... E gosto do cheiro do papel, etc. Mas a história disso era muito simples. É que eu, com 12, 13 anos, anunciei triunfalmente aos meus pais que queria ser escritor, que foi uma coisa que os assustou imenso. E então para escrever, tinha que escrever... - isso eram os blocos de receitas do meu pai, no hospital, da qual tenho uma provisão que me vai dar até ao fim da vida, espero eu. E então escrevia com o livro de geografia ou história, o que fosse, por baixo, e ouvia os passos dos meus pais no corredor e mudava a ordem. Portanto, escrevia desse tamanho, com uma letra minúscula por uma questão de... olha, para poder escrever, para não me ralharem... e só muito depois, como é evidente - tens 13 anos, pensas que os adultos são estúpidos - é que percebi que eles estavam fartos de perceber que eu escrevia daquela maneira e ia trocando a ordem das coisas. Portanto, escrevia assim na... sensação ou na certeza que eles não iam perceber eu em vez de estudar estava a escrever... porque nós éramos muitos filhos, e os meus pais o que queriam é que os filhos tivessem um curso - uma enxada, como dizia a minha mãe - e portanto, a ideia de um escritor era, para os meus pais, um pelintra, coitado, toda a vida sem um tostão, que ia ter uma vida péssima, etc., e acabei por ir para medicina sem a menor vontade, porque naquela altura...

... só para ter os blocos de notas, se calhar...
Sim, não havia 12º ano, e então eu tinha 16 anos... tinha acabado de fazer 17 anos quando entrei na faculdade... portanto era um miúdo e eu disse quero ir para letras porque quero ser escritor. E o meu pai gastou uma data de tempo a explicar-me que eu só teria vantagem em ter uma formação técnica, que isso me poderia ajudar, que a literatura não se aprendia nas faculdades de letras, que era uma aprendizagem solitária, etc., etc... Em muitos aspectos tinha razão naquilo que dizia, embora haja coisas que tu possas ensinar e possas aprender... há técnicas, porque isto é uma técnica, não é... Nunca se discute quem deve ganhar o Prémio [Nobel] da física ou da química, mas o da literatura e o da paz toda a gente sabe, o que é curioso, porque a literatura tem muita... há muito de técnica que não vale a pena falar para não maçar as pessoas...

Tem muito que se lhe diga. Quem são as primeiras pessoas que lêem os teus livros? Lêem uma primeira versão ou já uma versão trabalhada?
Não, lêem a definitiva. Nunca mostrei os meus livros em estadios intermediários, nunca.

Portanto, escreves estes "gatafunhos", chamemos-lhes assim, e depois trabalhas tu próprio estes "gatafunhos"; ou fazes como a Agustina, vai atirando placidamente as folhas para o chão, à espera que alguém venha apanhar...
Não... Faço primeiro assim um capítulo, com o mesmo capítulo passo para uma folha A4 com letra grande, passo ao segundo capítulo, mesmo sistema, duas vezes, até ao fim do livro.

E depois dás então a mostrar a alguém...
Não, não, depois começo a corrigir sobre essas folhas grandes. Depois é... o meu problema, antes de começar a corrigir, porque o último capitulo é feito, nas primeiras versões, um ano, mais de um ano, depois do primeiro... e depois fico aí uma semana, quinze dias a rondar o livro, com medo, a pensar: "como é que isto estará?", cheio de dúvidas... e depois o que acontece é que... é muito estranho, porque é um corpo independente de ti, aquilo articula-se tudo sem que tu te apercebas como; e então aí começas a corrigir. Para mim corrigir significa tirar, e aquilo que é publicado acaba por ser muitas vezes metade do texto original.

Quando finalmente dás a ler a alguém antes de editar - há pouco falavas penso que do Tom Colchie, o teu editor americano, esse implacável crítico teu - alguma vez ele te deu uma opinião que te fizesse modificar algo, ou apesar de prezares muito a opinião, não modificas?
Ele não, mas lembro do Zé Cardoso Pires me... que lia os livros também... com o Fado Alexandrino. Eu perguntei-lhe: "O que é que achas?", e ele respondeu-me "Não sei, ainda só li uma vez"... mas apresentava-me filas de páginas e páginas de notas. Nunca segui. Provavelmente ele teria razão, mas eu nunca segui, porque estava tão certo, tinha a certeza que era aquilo. porque tu é que estás dentro, sabes, eu lembro-me de um professor de cirurgia que eu tinha, que depois de te ensinar tudo, dizia: "agora esqueça-se de tudo e entre na sala de operações", percebes? Aquilo tem de estar de tal maneira... fazer de tal maneira parte de ti, parte da tua carne, do teu sangue que... A técnica continua a existir, é evidente, mas quase não pensas nela.

Perguntaram um dia a um escritor, confesso que nesta altura não me lembro qual, perguntaram-lhe se estava a escrever, e ele disse: "não, estou a viver, para depois poder escrever". Isto acontece contigo? Tu és conhecido como um "rato de biblioteca" ?
Não sabia que as coisas se pudessem colocar assim... Nunca me aconteceu, o que me acontece é... sei lá, por exemplo, olha, eu durante muito tempo não podia escrever só, tinha que... E então quando vim de África, tinha muito pouco dinheiro, e pagavam muito pouco o internato do hospital. Então dormia três noites fora, fazia bancos em hospitais da periferia de Lisboa, muito mal pago, aliás, e... começava a escrever, tentava escrever... escrevia nos espaços livres todos, escrevia em África durante os intervalos das saídas para a mata... Agora, durante as viagens, ponho como condição aos editores darem-me quatro, cinco horas para escrever. Não sei distinguir essas duas coisas...

Claro, é uma frase que mandei para cima da mesa, não é uma verdade absoluta. Mas a tua rotina, hoje em dia, tu vives da escrita, és escritor a tempo inteiro, a tua rotina são, mais de metade do dia a escrever...
Sim, é a única maneira. É a única maneira. Não há talentos, há bois, há bois... sabes... porque tu sentes as coisas com uma intensidade enorme, a distância entre a intensidade, a emoção e os resultados é sempre enorme. Portanto, todo o teu trabalho é no sentido de diminuir essa distância, isso consegues através de correcções e correcções e correcções. Um livro é sobretudo uma questão de trabalho, e de método, portanto, de uma disciplina que te impões a ti mesmo.

Levantas-te e começas a escrever, assim, ou tens períodos do dia, ou escreves... sei que escreves no estrangeiro, que escreves em qualquer sítio, mas... a tua rotina portuguesa?
Dantes a noite dava-me mais rendimento, agora comecei a gostar das manhãs. Eu começo de manhã cedo, até à hora do almoço, meia hora para almoçar, continuo a seguir até à hora do jantar, uma hora para jantar, continuo... Porque isto dá-me muito prazer, não me sinto de maneira nenhuma escravo, percebes, é uma ternura ver nascer um livro...

E porque é que vais ao Hospital Miguel Bombarda, ainda?
Porque gosto do cheiro dos hospitais, gosto de lá estar, e porque preciso de mudar de sítio, não posso escrever no mesmo sítio. Tenho de escrever num sítio de manhã, noutro à tarde, noutro à noite...

Mas não estás a exercer psiquiatria?
Vejo... ainda vejo algumas pessoas, vejo... ahhnn... eu nunca gostei... eu só gosto daquilo a que as pessoas chamam, os médicos chamam, os psicóticos, pessoas com delírios, com esquizofrenias, coisas assim, porque são muito criativos, ainda vejo seis por semana, que já vejo há muitos anos, e adoro lidar com eles... e... foi no Hospital Miguel Bombarda que eu tive a maior lição de como se deve escrever. Eu era um interno, e estava a sair do carro, andavam ali as pessoas, na altura usavam os pijamas, os uniformes, e aproximou-se de mim um homem com ar misterioso, tinha barbas, e disse: "sabe, o mundo começou a ser feito por detrás". E eu pensei, "bolas este tipo... é assim que se deve escrever, tens de escrever por trás", percebes? Por exemplo, tu lês o Faulkner, toda a técnica está aparente, é muito bom para os principiantes, vem ali tudo, as dobradiças, etc. E outros escritores, como por exemplo o Hemingway, que é feito por trás, por fora só vês o ovo, não é, e então tens de ler duas e três vezes a ver como ele hesitou, como é que ele recobrou alguma dificuldade técnica...

Até parecer que foi ao correr da pena, que é o que muita gente diz...
Exacto, exacto. Ser espontâneo dá muito trabalho, dizia o Manuel da Fonseca.

Outra coisa. Entre o muito que já se disse do Lobo Antunes, já te chamaram machista. E eu lembro-me que, a propósito disto, falava-se, para cimentar esta ideia, falava-se de qualquer coisa de um livro teu. Ou seja: ainda há muita gente que confunde a obra com o escritor? Ou seja, porque uma personagem tua era machista ou porque tratava mal as mulheres, logo Lobo Antunes era machista - ainda há muito este erro?
Eu não oiço, mas... provavelmente tem que ver... não sei... estava a pensar nisso... tratar mal as... eu julgo... eu tento tratar as personagens por igual, mulheres e homens, mas também eu sou uma pessoa invisível, não é? Não apareço nos jornais, agora vim para duas ou três entrevistas, mas não dou entrevistas, não apareço, não me vêem, portanto, a partir daí podem criar uma série de lendas, isto dura mais ou menos desde o princípio, não é? Acontece muitas vezes um dos meus irmãos dizer "estive a almoçar com um amigo teu", que não sei quem é, nunca o vi... e... e portanto, a gente tem tendência a criar uma... a inventar personagens a partir das pessoas reais... Tu trabalhas na televisão, és uma figura pública, como se diz, que é uma expressão que eu detesto, devem inventar imensas histórias a teu respeito das quais algumas te chegam aos ouvidos e que nada têm que ver contigo, e isso é inevitável. Não acho que isso seja grave.

Personagens de teus livros recentes, do Que farei quando tudo arde?, do Não entres tão depressa nessa noite escura, de qualquer forma, são, assumidamente, num caso uma adolescente, noutro caso um homossexual. Foi-te difícil entrar nessas peles, ou não pensaste nisso?
Antes pensei. Antes pensei... pensei mais no livro que é Exortação aos Crocodilos, com quatro mulheres, e pensei o que é que um homem sabe das mulheres... o que é que um homem sabe, por exemplo, o que é o orgasmo da mulher, o que é que um homem sabe o que é a vivência para uma miúda a primeira menstruação, o que é que um homem sabe do prazer que uma rapariguinha, uma criança, uma miúda pode ter do brincar e... portanto parti para o livro assim. E tinha a sensação durante a escrita  que estava a aprender coisas com as personagens sobre as mulheres, é muito curioso. Depois com a personagem do travesti, até não sabia o que era um travesti, e ainda falei com um ou dois... mas eles estavam muito mais interessados - olha, aí tens - em dizer o nome das tais pessoas públicas com quem tinham dormido, do que em contar-me as suas vivências, percebes? "Eu dormi com fulano de tal", pessoa qualquer importante, "sabe que a maior parte dos meus clientes são casados?"... e depois despejava uma série de nomes de pessoas vivas e conhecidas. Estavam muito mais interessados nisso do que em qualquer outra coisa.

Como se fosses um jornalista de escândalos e não um escritor...
Quase, quase... E também era muito chocante a depressão e ao mesmo tempo a... a pergunta que eles faziam e que aparece no livro a todo o tempo, quem sou eu?, que é que eu sou? E é o que se passa nesse livro todo, em que o filho se pergunta - talvez não por estas palavras - será que um tenho um pai e uma mãe, terei duas mães, o que é o meu pai, que é ser pai, quem sou eu...

Tu conseguiste sair do livro a perceber a homossexualidade?
Aparece muito pouco no livro... aparece muito pouco no livro...

Mas que relação é que tens, por exemplo, com a homossexualidade? Naturalmente de aceitação, calculo, vindo de um homem inteligente, mas causa-te alguma impressão de pele, por exemplo?
Impressão a que nível? A nível intelectual, a nível físico?

Sim, a um nível físico, por exemplo.
A nível físico é qualquer coisa de... Eu sou capaz de entender intelectualmente, a nível físico é-me complicado. A nível físico é-me complicado... é-me complicado porque me vejo complementado num corpo de mulher e não me vejo complementado num corpo de homem, e talvez não sentir qualquer espécie de atracção.

Tu não ligas muito às crónicas que escreves, e no entanto, eu tenho a sensação, pelo que converso com muitas pessoas sobre Lobo Antunes, tenho a sensação que também ganhaste muita gente através das crónicas na imprensa Ou foste buscar leitores insuspeitados...
Não sei se depois lêem os romances, sabes? As crónicas começaram por problemas financeiros, foram numa altura em que a editora estava mal, não havia dinheiro... e nessa altura apareceu-me uma proposta do Vicente Jorge Silva, que dirigia o Público, na altura, para escrever as crónicas, e eu na altura precisava daquele dinheiro. E... não sabia muito bem, pensava, bom, isto é para sair num suplemento de domingo, tenho de fazer umas coisas curtas e leves. O meu problema era depois acabada a crónica voltar ao romance porque o passo é completamente diferente.

Porque é que tinham que ser coisas leves?
Porque era para ser lido ao domingo...

Temos muitos escritores com uma chamada intervenção social, ou seja, aproveitam precisamente esses espaços na imprensa para também mostrarem o que pensam sobre o mundo e sobre a política e sobre a sociedade... Tu nunca quiseste fazer isso?
Não o quis fazer. Mas foi uma escolha deliberada. Porque não ia usar aquela tribuna para atacar pessoas, ou para... e só muito tarde é que percebi que... acho que foi a María Luisa Blanco que me ajudou a entender também... que aquilo era uma espécie de quase itinerário paralelo aos romances. E acabou por haver muitas coisas que me serviram de transfusão e que acabei por aproveitar para romances, etc. Mas para mim, durante muito tempo, eram coisas que eu fazia o mais depressa que podia, e fazia-as, simplesmente, com uma ideia alimentar.

Dão-te hoje mais prazer do que quando começaste?
Sabes, eu escrevo-as sem ter nada na cabeça. Sento-me diante do papel e começo a escrever. Não sei nunca o que é que vou escrever. E agora faço-as mais rapidamente porque entretanto aprendi dentro de mim o - como é que eu hei-de dizer? - a extensão e o tipo de respiração que aquilo exige, mas demorou muito tempo a compreender isso. O que pretendo é voltar para o romance, percebes, e então o que faço é escrevê-las no intervalo de dois capítulos.

E não pensas mais nelas.
Sim sim, esquecê-las, para um mês estão feitas as duas crónicas... as últimas escrevi-as num comboio, na Roménia, salvo erro...

Continua a haver uma chamada... uma orfandade social em ti, ou seja, viraste a costas a um mundo burguês, um mudo familiar onde cresceste, quiseste aproximar-te de um outro mundo que era, no fundo, o mundo que admiravas, e esse mundo não te aceitou muito bem, o chamado, a chamada intelligentia, chamemos-lhe assim. Achas que foi isto primeiro que moveu a crítica contra os teus primeiros livros?
Bom, ahhh... eu estou bastante ligado à minha família, gosto muito dos meus irmãos, gosto muito da minha família, e... tenho muito respeito e muita ternura e muita amizade pelos meus irmãos. Cada um à sua maneira, são todos homens notáveis. Agora que os meus pais estão doentes e velhos... e perto de... provavelmente perto do fim, pela ordem natural das coisas, tu dás-te conta que estás muito mais preso a eles do que imaginavas... Também, ahh... o convívio dos escritores... eu nunca conheci muitos, quer dizer, sei quem são... é um pouco como... Uma vez perguntaram ao Voltaire como é que era a relação dele com deus, e ele respondeu: "cumprimentamo-nos mas não nos falamos". O que acaba por acontecer, é que tu não tens tempo para estar com os escritores, e depois...

Porque estás a escrever.
Porque estás a escrever.

Portanto, há muitos escritores que não estão a escrever, neste país.
Não sei, não sei... Mas é um país onde se escreve muito pouco. Repara... não sei quantos romances se publicam por ano, mas comparado com países com menos pessoas do que nós, publicam-se muito poucos, não é? E não vamos falar da qualidade do que se escreve em Portugal, mesmo assim, eu julgo que temos excelentes, excelentes poetas.

Continuas a sentir-te um poeta falhado? Era o que tu querias fazer...
Não tenho talento.

Não tens talento para a poesia?
Não, não tenho talento, não nasci poeta. Eu só escrevia poesia até aos 18, 19 anos e depois descobri que não tinha talento e foi para mim muito doloroso aceitar isso. E então comecei a tentar escrever prosa. Sabes que tu começas a escrever porque... porque alinhas as palavras, em miúdo, mas a seguir às outras aquilo faz sentido, e é divertido, e é agradável. E aquilo depois é como uma droga dura, fica dentro de ti, não é? Depois a uma certa altura percebes que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal e começas a ficar aflito. E quando descobres que há uma diferença ainda maior entre escrever bem e a obra de arte, então a tua aflição é total. Mas também nunca - voltando à tua pergunta - nunca me senti mal recebido pelas pessoas. Houve alguns equívocos, mas sabes, eu julgo que fui mais imediatamente aceite noutros países, porque no estrangeiro a distância toma o lugar do tempo. Muitas vezes. Isso passa-se por exemplo com um homem que para mim é um grande escritor chamado Sebald - não está traduzido em Portugal -, que é alemão, morreu há poucos meses num desastre de automóvel na Inglaterra, e... e era admirado e lido em toda a parte, menos na Alemanha. E agora quando vim da Alemanha, falar dele, cada vez que tive a oportunidade de falar, só agora é que as pessoas começam a lê-lo na Alemanha. E é um escritor, me parece, um escritor invulgar.

António, anda toda a gente muito entusiasmada, parece, em vários meios em Portugal, a dizer que finalmente se está a falar da guerra colonial, a fazer-se a catarse da guerra, seja no cinema, seja na literatura, embora a literatura que normalmente se cita em relação a isso é uma literatura que eu considero mais factual, de dados muito concretos... É isto a catarse da guerra?
Não sei, nunca escrevi um romance sobre a guerra de África, julgo que não me era possível.

Ou ainda não é possível?
A mim não me é possível, porque... acho que seria possível escrever um ensaio, ou um documento, ou qualquer coisa assim, agora fazer ficção, sabes, porque... as coisas eram tão horríveis que não são ficcionáveis... O que é uma ficção?, uma ficção é um sítio onde - um sitio, mesmo - onde tu fazes, com o teu leitor, um pacto: vamos supor que isto é verdade. Ninguém morre a cantar, como na ópera. No entanto se esse pacto for suficientemente forte, tu comoves-te até às lágrimas, mas tens que aceitar esse pacto de incredulidade, isto não é verdade, mas vamos fingir que é verdade. Ora, algumas coisas que eu assisti na guerra eram de tal maneira terríveis que pacto nenhum era possível com o leitor. Pacto nenhum era possível com o leitor; e o que até agora ouvi sobre a guerra, não... sei lá, por exemplo, lembro-me de um filme de um grande realizador que é «Parados sobre a guerra», e em que os soldados discutiam a legitimidade da guerra, será que a guerra é legítima, e o patriotismo, e o colonialismo e esquerda e direita. E eu estava banzado porque quando lá estava, a única coisa que tu queres é chegar ao dia seguinte. Não te pões nenhuma pergunta, nenhuma! Nenhuma pergunta, a única coisa que te interessa é durar, percebes? Não há nenhuma interrogação, nem sequer remorsos, nem nenhuma... e se para isso for necessário seres cruel e violento, ai és. Sem remorsos, nenhuns, nunca! Ainda hoje me pergunto, com espanto... nunca senti culpabilidade das coisas que assisti, nalgumas em que participei, e pergunto-me porque é nunca a senti, compreendes? E no entanto, curiosamente, talvez o maior livro que se fez sobre a guerra, que é o livro do... A Insígnia Vermelha da Coragem, do Stephen Crane, é escrito por um homem sobre a guerra da sucessão, nos estados unidos, que não viveu a guerra da sucessão. Portanto, não é necessário ter-se estado na guerra para escrever-se sobre ela. Julgo que não seria capaz por uma questão de pudor.

Costumas dizer que, de alguma forma, escreves contra a morte. Mas em que sentido, para esquecer que ela está lá, à espera, ou uma imortalidade que tu esperas conseguir com a tua escrita?
Sabes, as pessoas... nós normalmente existimos, ou só morremos, quando morre a última pessoa que ouviu falar de nós. Por exemplo, enquanto eu for vivo, o meu avô ficará vivo, está vivo em mim. A morte é uma coisa estranha, e a nossa relação com a morte é muito mais complicada do que nós imaginamos, e passa por várias fases... É evidente que existe um desejo, e seria hipócrita dizer que não, um desejo, de alguma forma, de continuarmos vivos. E julgo que os livros correspondem também a este desejo.

És um homem diferente depois da morte dos teus dois grandes amigos - Melo Antunes e Cardoso Pires?
Sou mais pobre, sou mais pobre... porque a verdadeira amizade é... cruel, porque a sinceridade implica também isso... sei lá... tinha dois escritores, não vou dizer o nome, muito conhecidos, que costumavam mostrar aquilo que faziam um ao outro. E um deles mostrava o manuscrito ao outro, e o outro dizia, "não corrijas mais, que isso tá bom assim"... para que ele não melhorasse os livros. Agora, há uma altura da tua vida em que tens quase mais mortes do que glóbulos nas veias, porque...tanta gente - não são mortes de pessoas, mortes de ideias, de projectos, de sonhos, coisas que acabaste por não fazer e que... disso sim, tenho remorsos, disso sim. Não ter gostado de algumas pessoas como elas mereciam, não lhes ter mostrado aquilo que gostava delas, compreendes?

Mas ainda vais a tempo, com algumas outras.
Algumas outras sim, mas com essas já não. Embora tenha sempre a esperança que me tenham entendido, não é, e que de alguma forma também é para elas que escreves. Também é para elas que escreves, porque talvez consigam ver aquilo que tu fizeste, e talvez consigam entendê-lo... não sei.

António: Obrigado.
Obrigado.

É terrível, em frente de um homem que detesta a banalidade, dizer que temos de ficar por aqui, quando muito mais havia para dizer, mas é o único lugar-comum que define o fecho deste momento raro. Porque a televisão é isto: uma coisa poucochinha para traduzir algumas vidas e obras. Para quem possa interessar, tantos felizmente, esta memória de elefante chama-se, desta vez, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. Até à próxima, só até à próxima.


SIC Notícias
Dezembro 2003

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...