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5 de setembro de 2015

"Portugueses estão a ser tratados como cães", afirma António Lobo Antunes - Esquerda.net

Durante a apresentação do livro Las Cosas de la Vida, que reúne alguns dos seus textos, o escritor português lamentou ainda que em Portugal só existam “prémios para portugueses darem a portugueses”.

Nove anos após ter sido distinguido com o Prémio Ibero-Americano de Letras José Donoso, atribuído pela Universidade de Talca, no Chile, António Lobo Antunes recebeu esta quinta-feira das mãos do reitor da instituição, do responsável da colecção, do representante do governo do Chile e do director do Instituto Cervantes, o volume intitulado Las Cosas de la vida, que reúne algumas das suas crónicas.

Na cerimónia, que teve lugar no Instituto Cervantes, em Lisboa, o escritor português criticou os últimos anos de governação da maioria de direita, salientando que os "portugueses estão a viver de forma muito dura e a ser tratados como cães". "São os artistas que devolvem a dignidade às pessoas", acrescentou.

Assinalando a importância que as principais figuras da cultura da América Latina, como Juan Rulfo, tiveram na sua formação e no prazer da leitura, lamentou ainda que em Portugal só existam “prémios para portugueses darem a portugueses”.

Lobo Antunes foi o primeiro escritor europeu a receber este prestigiado prémio literário que tem o nome de um dos mais importantes romancistas chilenos do século XX.

O júri, que escolheu o escritor por unanimidade, destacou a sua “crítica forte à identidade portuguesa, não isenta, no entanto, de amor ao país”, bem como a sua capacidade de captar “com profundidade e originalidade o papel das culturas periféricas no mundo contemporâneo”.

Foram ainda assinaladas “a grande variedade de temas, linguagens e estruturas” da sua obra, a “singular sensibilidade” de Lobo Antunes para “explorar a complexidade psicológica das suas personagens” e a forma como “dá conta de experiências que correspondem de muitas maneiras a um contexto semelhante ao dos conflitos da América Latina”.

O escritor é autor de mais de cerca de 50 títulos, entre crónicas, poesia e romances.

No ano passado, recebeu o Doutoramento Honoris Causa da Universidade Babes-Bolyai, o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, em Cluj-Napoca, na Roménia, e o Prémio Nonino Internacional, em Udine, em Itália.

Lobo Antunes foi ainda distinguido, entre outros, com os prémios France Culture de Literatura Estrangeira (1996), Médicis Para o Melhor Livro Estrangeiro (1997), Literatura Europeia do Estado Austríaco (2000), Rosalía de Castro (2001), Internacional da União Latina (2003), Ovídio (2003), Jerusalém (2004), Juan Donoso (2006), Camões (2007), Terence Moix (2008), Juan Rulfo (2008) e da Extremadura Para a Criação (2009).


04.09.2015

4 de setembro de 2015

Las Cosas de la Vida, em Cerimónia no Instituto Cervantes de Lisboa

foto de Gerardo Santos /Global Imagens
Lobo Antunes: "Portugueses tratados como cães"

Nove anos após ter recebido o Prémio José Donoso, António Lobo Antunes tem desde ontem um volume com textos seus na colecção com o nome do mais importante escritor chileno, editada pela Universidade de Talca. Em cerimónia em Lisboa, o autor recebeu das mãos do reitor da instituição, do responsável da colecção, do representante do governo do Chile e do director do Instituto Cervantes, o volume intitulado Las Cosas de la vida, entre elogios à obra do escritor português que desde 2006 integra uma lista de 16 artistas que receberam o Prémio José Donoso.

Em resposta às afirmações da comitiva chilena, Dom António Lobo Antunes, como era referido amiúde, agradeceu e num final de cariz político disse que "são os artistas que devolvem a dignidade às pessoas", após ter referido que os "portugueses estão a viver de forma muito dura e a serem tratados como cães", numa alusão aos últimos anos de governação.

Durante a sessão, Lobo Antunes enumerou as principais figuras da cultura da América Latina e explicou a importância que tiveram na sua formação e no prazer da leitura. Jorge Luis Borges não é o seu preferido, ao contrário de Juan Rulfo e do seu livro Pedro Páramo, que disse já ter lido umas cinquenta vezes. Quanto ao Prémio, lamentou que no nosso país não existam galardões destes para homenagear artistas estrangeiros: "Só temos prémios para portugueses darem a portugueses. É uma pena."


fonte: Diário de Notícias
04.09.2015
texto de João Céu e Silva [revisto por José Alexandre Ramos]

12 de julho de 2015

Exposição de fotografia «O mundo de Lobo Antunes» de Ana Carvalho

Será inaugurada na próxima sexta-feira, dia 17 Julho, na Biblioteca Florbela Espanca em Matosinhos, a exposição «O mundo de Lobo Antunes», pela fotógrafa Ana Carvalho. O evento estará patente no local até 19 de Setembro.


Ana Carvalho nasceu no Porto e actualmente reside na Holanda, sendo casada com Harrie Lemmens, o tradutor holandês de António Lobo Antunes. Além de fotógrafa é também tradutora, sendo Master of Arts em literatura inglesa e alemã. Tem exposto desde 2009 e colabora em diversas revistas.

Esta exposição, que irá estar presente na Biblioteca Municipal Florbela Espanca de Matosinhos desde 17 de Julho até 19 de Setembro, vem, segundo nos adiantou Ana Carvalho, do prolongamento de uma outra que fez na Holanda a propósito da apresentação do livro Als een brandend huis, a tradução de Caminho Como Uma Casa Em Chamas para holandês, pela mão do marido. «Como tinha outras fotografias que se enquadravam no ambiente da obra de Lobo Antunes, resolvi criar no meu website um tema justamente com o título da exposição (O mundo de Lobo Antunes). Mas já há muito que queria fazer qualquer coisa nesse contexto. O momento decisivo foi quando, depois de ler na Visão a crónica “O encontro” (e que eu vi sempre mais como um desencontro), a relacionei imediatamente com uma fotografia que tinha tirado antes no pátio do CCB com dois vultos que se cruzam sem se encontrar. Entretanto, fotografias minhas têm servido para ilustrar vários artigos que o Harrie escreveu sobre o Lobo Antunes. O tema da minha exposição é, portanto, algo que resulta de outros projetos e do meu fascínio, desde “Memória de Elefante", pela obra do António Lobo Antunes».

A entrada para a exposição é gratuita e Ana Carvalho terá gosto em receber-nos em Matosinhos, na próxima sexta-feira, para a sua inauguração (a partir da 18H30).


links:

6 de julho de 2015

Irmãos Lobo Antunes no Festival Internacional de Cultura em Cascais

Manos Lobo Antunes cruzam vidas no Festival de Cascais




O auditório da Casa das Histórias de Paula Rego ficou sem lugares para assistir à conversa sobre livros entre os dois irmãos. Que decorreu ora num tom de brincadeira entre irmãos adolescentes ora no de divergência de opiniões entre adultos. No primeiro caso, a deixa de João Lobo Antunes sobre o atraso de António Lobo Antunes: "A noiva chega sempre tarde". No segundo caso, a opinião sobre o pai. Nada que não provocasse gargalhadas na plateia, diga-se.

Esclareça-se que o encontro entre os manos fora anunciado mas até António chegar a Cascais a organização nunca pôde dar como certo a sua realização. A contagem decrescente terminou à hora marcada para o início e a partir daí tornou-se crescente, acompanhado de um abano dos leques [que] era cada vez mais frenético. Contaram-se os 15 minutos sobre o atraso dos manos. Contaram-se os 25 minutos. Quando ambos surgiram no topo das escadas, a plateia já estava aquecida para o grande momento. João desceu à frente, já de microfone colocado; António ficou lá por cima, olhando espantado para a sala repleta, antes de iniciar uma caminhada em que distribuía beijinhos para os rostos seus conhecidos. Ia começar o "improviso espontâneo" que, segundo João, fora acertado num minuto em conversa telefónica: "Decidimos começar pela infância." Logo aí se percebeu que o anunciado "diálogo entre escritores" se tornara uma conversa entre o irmão mais velho, António, e o irmão mais novo, João. O que se seguiu foi aquilo que no fim João Lobo Antunes, ao evocar Simenon, dizia sobre a mulher do inspector Maigret quando este ficava calado: "Era preciso mobilar o silêncio."

06.07.2015
texto (excerto) de João Céu e Silva
foto de Carlos Manuel Martins

*

Mais de 200 pessoas assistem a conversa "inédita" entre irmãos Lobo Antunes


O diálogo entre os dois irmãos, incluído no Festival Internacional de Cultura, que se realiza pela primeira vez, foi apontado como um dos grandes momentos de todo o evento, que arrancou na sexta-feira e decorre ao longo de dez dias.

Eram 22:00 de sábado, 30 minutos depois da hora prevista no programa, quando João Lobo Antunes lançou a conversa e desculpou-se pelo "atraso da noiva", referindo-se ao irmão António, arrancando logo uma gargalhada do público, que viria a repetir-se ao longo da noite.

A infância, o pai, a mãe, a medicina, a morte, mas sobretudo os livros foram os temas abordados, num regresso às memórias dos dois irmãos que, sem nunca se atropelarem, apoderaram-se equilibradamente da palavra.

Sob o olhar atento de quem assistia, muitas das pessoas em pé, não se ouviu burburinho e a atenção estava toda centrada em João e António que, unidos pelos livros, como os próprios disseram, foram contando episódios de família e da austeridade dos pais, que, desde sempre, impuseram o hábito pela leitura.

"A mãe fazia duas coisas: ou lia, ou cozinhava", contou João.

"Às vezes também dizia: cala o bico", acrescentou António, que reconheceu também "a dívida para com o pai que é o amor pelas coisas belas".

Numa família de médicos, João era "o filho bom" e António "a nódoa", segundo o escritor que confessou nunca ter tido vocação para a medicina e que, aos nove anos, comunicou à família que queria ser escritor.

Num momento de troca de elogios, João disse que António "era um grande criador da Língua Portuguesa", mas o escritor reconheceu que "escrever é um tremendo sofrimento e o sucesso, quando se tem, é uma coisa tão passageira".

A conversa desviou-se ainda para a morte, tendo por base os livros que chegaram a motivar a discórdia entre os irmãos.

"Há uma diferença grande entre nós na apreciação de alguns escritores", disse João, enquanto António insistia: "se é uma porcaria, digo que é uma porcaria".

Ao fim de mais de uma hora e dois cigarros fumados por António, João Lobo Antunes deu a conversa por terminada, arrancando uma ovação do público.

A escritora Lídia Jorge, curadora do Festival Internacional de Cultura (FIC), tinha apelidado este como "um dos grandes momentos" do evento e, segundo contou à Lusa, isso "cumpriu-se".

"Foi um encontro muito especial. Este diálogo entre eles foi um momento único, foi uma conversa inédita", disse Lídia Jorge.

A curadora considerou que a "casa cheia" de [sábado] é um bom augúrio para todo o festival e sublinhou que o sucesso do evento irá determinar a periodicidade das próximas edições, garantindo que o "FIC é para ficar".


06.07.2015
texto Lusa

*

Pode ouvir a conversa entre os irmãos no programa da A Ronda da Noite, de Luís Caetano na Antena 2. Eis os links da RTP Play:

1ª parte - http://www.rtp.pt/play/p1299/e201660/a-ronda-da-noite (aos 7 minutos)
2ª parte - http://www.rtp.pt/play/p1299/e201809/a-ronda-da-noite (aos 11 minutos)

27 de junho de 2015

António Lobo Antunes na primeira edição do FIC - Festival Internacional de Cultura de Cascais


Organizado pela LeYa e pela Câmara Municipal de Cascais, o Festival Internacional de Cultura (FIC) decorre entre 3 e 12 de Julho, com a curadoria da escritora Lídia Jorge.

«Celebrar os livros olhando-os a partir da poesia, da música, do teatro, das actividades em família, dos percursos temáticos, das artes plásticas e de outras disciplinas» é o objectivo do Festival Internacional de Cultura 2015 (FIC), que decorre em Cascais de 3 a 12 de julho, sob a curadoria da escritora Lídia Jorge. O evento é inédito e integra a programação do Bairro dos Museus. A entrada é gratuita.

Juntando todas as actividades, o FIC promoverá também uma nova Feira do Livro de Cascais onde se pode encontrar os nomes mais marcantes da literatura portuguesa. Esta será também uma oportunidade do grande público privar com escritores, artistas e outras personalidades que marcam presença no festival sob curadoria de Lídia Jorge, para quem este festival irá fazer a diferença. “Aqui há uma proposta de enraizamento das actividades culturais ligadas a Cascais de forma multidisciplinar que vão, certamente, marcar o festival onde o livro é o elemento estrutural” revela a escritora.

O comunicado do festival anuncia ainda que o evento «começa com o ciclo "Escritores em Diálogo", com António Lobo Antunes a ser entrevistado pelo irmão, o neurocirurgião João Lobo Antunes».

Do programa: 

4 de Julho, 21h30, Casa das Histórias Paula Rego | Escritores em diálogo | ANTÓNIO LOBO ANTUNES Entrevistado por JOÃO LOBO ANTUNES | Colaboração: Teatro Meridional | Participação especial: Natália Luiza


7 de maio de 2015

PÚBLICO: Lobo Antunes, autor de adolescência de Maria Rueff | ANTÓNIO E MARIA NO CCB


Levando para palco a sua gratidão por um livro que lhe abriu o mundo, Maria Rueff atira-se para o palco do CCB com palavras de António Lobo Antunes. António e Maria estreia-se esta quinta, assente num universo feminino e numa heroicidade doméstica.
António e Maria. António é António Lobo Antunes. Maria é Maria Rueff. A peça que se estreia esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém é um encontro entre os dois, nascido da relação da actriz com o seu autor de adolescência.
“Não sou uma especialista, sou uma daquelas fãs tipo dos Beatles”, confessa Rueff. E, por essa mesma razão, por estar longe de quaisquer tentações académicas, propôs-se entrar no mundo do seu autor através do olhar de leitora, de uma leitora atraída “pelas vozes das mulheres e pelo humor” que encontra na escrita de Lobo Antunes. “Profundo conhecedor da alma feminina”, chama-lhe; “uma mão na tragicomédia que me encanta especialmente”, gaba-lhe.
Ainda hoje, muitos anos depois, se lhe pedem que nomeie o livro da sua vida, é fácil a Rueff colocar Memória de Elefante à frente de todos os outros. Foi um livro que lhe “abriu o mundo”. “O mundo”, concretiza, “no sentido de como a dor se pode transformar em acidez, ironia, de como se pode focar aquilo que nos interessa.” O que a interessou, desde então, não foi tanto a Guerra Colonial que parece estar sempre apensa ao nome do escritor, mas antes a forma como Lobo Antunes “dá heroicidade aos aparentemente simples e pouco importantes”. E lista, de cor e sem ordem particular: “a porteira, o taxista, a amante do capitão, a donazinha de boutique”. António e Maria é, por isso, uma peça de teatro real, uma confluência de vozes femininas que se instalam no corpo de Maria Rueff, mas também uma peça de teatro camuflada, uma forma menos evidente de a actriz manifestar a sua gratidão.
Rueff fala da passagem para o palco de um universo “doméstico”. Sentado à mesma mesa, o escritor Rui Cardoso Martins acrescenta-lhe um ponto: “doméstico sublime”. E o encenador Miguel Seabra, do outro lado da mesmíssima mesa, contribui com a ideia de que “Lobo Antunes mostra as feridas, as evidências – algumas incómodas – em que reparamos mas não vemos”. “Ou seja, põe a nu o macaco no nariz, aponta a remela, mas ao mesmo tempo diz que isso não é mais do que uma remela.” “Todos temos remelas”, desvaloriza Rueff. “Todos temos um armário cheio de pó e insectos mortos”, diz ainda Cardoso Martins.
Escrita com tesoura
Há cinco anos que Maria Rueff falara originalmente ao encenador do Teatro Meridional, Miguel Seabra, nesta sua vontade de se lançar para dentro dos livros de Lobo Antunes. Mas o projecto foi ficando no frigorífico. “Neste momento de vida em que tenho o caminho feito, como mulher e criadora”, justifica, “apeteceu-me voltar ao ringue, à escola, procurar que cordas não toquei até hoje. Uma das coisas que me assusta profundamente é a ideia de cristalizar e fazer mais do mesmo. E encontrei no Miguel um apoiante a este voo às estranhas.” O desafio respondia em pleno às características das produções do Meridional, cuja actividade se centra no recurso a textos de autores lusófonos, preferencialmente não teatrais e com uma forte ênfase na interpretação do actor.
O outro apoiante de Maria Rueff seria o autor Rui Cardoso Martins, amigo próximo de Lobo Antunes e a quem foi pedido que criasse um texto de teatro a partir daquela vastíssima escrita romanesca e cronista. Assim fez, declarando que escreveu este espectáculo com uma tesoura. “Peguei nos livros todos dele, num trabalho que se pode dizer que é mais ou menos a maneira como ele trabalha, coisas que saltam de um lado para o outro, numa linguagem muito simples.” E foi recortando as frases do mestre, até encontrar “uma única voz múltipla” que misturasse António e Maria “numa construção do mundo que tem muito que ver com Portugal, com os modestos, com os pobres”. Eis António e Maria. Ou António em Maria.

06.05.2015
texto de Gonçalo Frota
fotografia Público

6 de maio de 2015

António e Maria pelo Teatro Meridional - a partir da obra de António Lobo Antunes



Centro Cultural de Belém, Pequeno Auditório

Para os dias 7, 8, 9, 11, 14, 15 e 16 de Maio às 21h e no dia 10 às 16h

Monólogo de Maria Rueff a partir da obra de António Lobo Antunes

Encenação - Miguel Seabra
Interpretação - Maria Rueff

Autor - António Lobo Antunes
Dramaturgia e adaptação - Rui Cardoso Martins

Espaço cénico e figurinos - Marta Carreiras
Música original e espaço sonoro - Rui Rebelo
Assistência de encenação e direcção de cena - Vítor Alves da Silva
Assistência de cenografia - Marco Fonseca
Operação técnica - Rafael Freire
Produção executiva - Natália Alves
Assessoria de gestão - Mónica Almeida
Direcção artística do Teatro Meridional - Miguel Seabra e Natália Luiza

Co-produção | CCB | Teatro Meridional

6 de abril de 2015

António Lobo Antunes no MOT - Festival de Literatura Girona e Olot 2015


O escritor António Lobo Antunes é um dos convidados da II Edição do Festival de Literatura de Girona e Olot, na Catalunha, que decorre entre os dias 9 e 11 de Abril, e que este ano terá como tema de fundo “Escrever Cidades”. Trata-se de um programa que pretende explorar a relação entre o romance e a cidade contemporânea. Londres de Lanchester; Paris de Hazan; Barcelona de Mendonza e Pàmies; Bogotá de Restrepo; Roma de Mazzuco; Berlim de Nooteboom e Beirute de Chalandon são algumas das cidades selecionadas pela comissária do Festival, Mita Casacuberta, professora de Literatura Contemporânea na Universidade de Girona.

O nosso autor participará numa conversa com o escritor e crítico literário Jordi Galves, num encontro que terá lugar na próxima sexta-feira, dia 10, na Sala La Carbonera da Universidade de Girona, dedicada aos Mistérios de Lisboa, título de um dos últimos filmes de Raoul Ruiz, numa adaptação do romance homónimo de Camilo Castelo Branco. Os 150 anos que separam ambas as obras, livro e filme, são os anos da construção da Lisboa contemporânea, para a qual contribuiu decisivamente António Lobo Antunes, desde o seu primeiro romance, Memória de Elefante (1979), até ao O Esplendor de Portugal (1997) ou ao Conhecimento do Inferno (1980), através do seu estilo sinuoso que esbate as fronteiras entre o passado e o presente.

A Dom Quixote publicará, em Outubro, o novo romance de António Lobo Antunes, Da Natureza dos Deuses.


fonte do texto: BIIS LEYA (ligeiramente adaptado)
imagem do programa do evento, disponível em formato pdf para consulta integral (por cortesia de Maria da Piedade Ferreira)

06.04.2015

17 de março de 2015

António Lobo Antunes no MOT - Festival de Literatura de Girona e Olot

António Lobo Antunes estará na 2ª edição do MOT, Festival de Literatura de Girona e Olot, que se realizará entre os dias 9 e 19 de Abril. O lema para o certame deste ano é "Escrever cidades". Segundo Laura Borràs, directora da 'Institució de les Lletres Catalanes', «as cidades têm a pele do asfalto e a pele feita pelos escritores com as suas palavras».

Em breve mais notícias deste evento que decorrerá nas duas cidades catalãs, Girona e Olot.






Notícia de Estandarte:

MOT, el Festival de Literatura de Girona y Olot, se celebrará en estas ciudades entre el 9 y el 19 de abril. Bajo el lema Escriure cuitas (Escribir ciudades), y comisariado por Mita Casacuberta —profesora de literatura contemporánea de la Universidad de Girona—, la segunda edición de MOT ha convocado a más de cuarenta escritores.
Los nombres internacionales brillan en esta escritura de ciudades que propone el MOT. El Londres de John Lanchester, el París de Eric Hazan, la Barcelona de Eduardo Mendoza, el México DF de Laura Restrepo, la Roma de Melania G. Mazzucco, el Berlín de Cees Nooteboom o el Beirut de Sorj Chalandon se reproducirán, mediante el encuentro con sus autores, en Girona y Olot.
La intención de MOT es, en palabras de Mita Casacuberta, conseguir que haya un intercambio de impresiones, que pongan en común su experiencia, para después abrir la conversación al público asistente. Según Laura Borràs, directora de la Institució de les Lletres Catalanes, las ciudades tienen la piel del asfalto y la piel que hacen los escritores con sus palabras. La primera edición del festival, en 2014, se dedicó a la literatura fantástica y aglutinó a más de dos mil persona como público.
Rafael Chirbes, Luis Goytisolo, Antonio Lobo Antunes o Petros Márkaris son otros de los nombres importantes con los que el público del MOT podrá encontrarse. Las conferencias y actividades del MOT en Olot se celebrarán en la Sala La Carbonera, del 9 al 11 de abril; por otra parte, del 13 al 19 de abril MOT ocupará la biblioteca Carles Rahola, en Girona.

13.03.2015

25 de outubro de 2014

Revista SÁBADO: António Lobo Antunes na Roménia (reportagem)

REVISTA SÁBADO
nº 546 16 a 22 Outubro 2014

Reportagem de Marco Alves


A poucos dias de ser lançado um novo livro, a SÁBADO foi com António Lobo Antunes até à Transilvânia, na Roménia, onde durante três dias o escritor mostrou um lado surpreendente. Chorou, riu, cantou e confessou-se.


Assim que termina a conferência na Faculdade de Letras da Universidade Babes-Bolyai de Cluj, António Lobo Antunes tem o impulso de sempre: vai ao bolso das calças, tira um maço de Marlboro e acende um cigarro. Uma mão apoiada na perna, a outra na mesa, é notório que fumar lhe dá prazer.
No corpo de 72 anos, que agora se move pesadamente, tinha já ratado (a expressão é sua) um cancro nos intestinos. Mais tarde, apareceria outro cancro no pulmão direito, e ainda veio mais outro, que se dedicou ao pulmão esquerdo. "Tive três cancros e sobrevivi. Tive imensa sorte", diz-nos. "As doenças estão todas curadas, mas saíram-me do pêlo. Foi duro..." Fumava quanto? "Quase dois maços [por dia]. Estou a tentar reduzir... Mas não se preocupe, não tem nada a ver com isso."
Não é a única vez nestes três dias que passou na Roménia que Lobo Antunes fuma sem se importar se o podia fazer ou se dava uma boa imagem. Ali, na faculdade, fá-lo perante um auditório de estudantes e professores - em Portugal, por exemplo, já fumou numa entrevista na televisão.
Na Roménia, nunca lhe disseram nada sobre os cigarros - só numa biblioteca no interior da Transilvânia é que não pôde fumar, mas só por causa dos alarmes. A reverência com que foi tratado pelos romenos incluia essa tolerância. Percebia-se o entusiasmo perante um homem que dali a umas horas poderia estar nos jornais do mundo inteiro como novo Nobel da Literatura, mas que antes disso, agora mesmo, está a passar uns dias em Cluj a apertar-lhes as mãos, a autografar-lhes os livros e a encher-lhes a sala de fumo.
A palavra Nobel aparecia em todo o lado: nos artigos que os jornalistas romenos fizeram da sua visita, nos cartazes do Festival Internacional do Livro da Transilvânia, nas perguntas que lhe faziam e nos discursos oficiais. O rótulo Nobel, o estatuto de celebridade, parecia valer mais do que a obra - na Roménia, apenas seis dos seus livros estão traduzidos. Tudo o oposto do que Lobo Antunes defende, ele que gosta de dizer que "o que interessa são os livros, não é o autor".
Na véspera da atribuição do prémio encontramo-nos com Lobo Antunes a jantar no hotel. A dada altura, a mulher, Cristina Ferreira de Almeida, levanta-se. "Vou ao quarto buscar o telefone, deixei-o a carregar. Just in case [para o caso de]..."
A razão é simples: Lobo Antunes não tem telemóvel. "Nunca tive. Também nunca tive computador. Não sei mexer naquilo." E segundo ele, a Academia sueca liga na véspera. "Não ganho... se ganhasse já tinham telefonado. Vão dar ao queniano [Ngugi wa Thiong'o]. Ligam na véspera porque têm de dar ao tradutor o discurso. Por acaso o Mario Vargas [Llosa] só soube uma hora antes. Ele telefonou-me logo."
Perguntamos-lhe se ficaria contente por receber o Nobel. "Sei lá..." Pela cara que faz percebe-se que não é um "sei lá" dissimulado, é um "sei lá" que quer dizer "como posso saber a minha reacção a um acontecimento se ainda não passei por ele?". Mas deixa uma pista: "Até agora não tenho sido uma pessoa especialmente alegre."
Lobo Antunes viria a saber da atribuição do prémio ao francês Patrick Modiano quando já estava em viagem para Lisboa.


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7 de setembro de 2014

O encontro de António Lobo Antunes com George Steiner em 2011

Saiu na revista LER em 2011 a reportagem sobre este encontro. Em 2012 pedimos permissão para reproduzir o texto publicado no nosso espaço. Foi-nos recusado, com o argumento, se bem me lembro, de que havia um acordo de não difundir para outros meios a conversa entre os doisvultos da literatura que se queria privada. Hoje, por mero acaso, acabo de descobrir que está há meses disponível no Youtube (o vídeo do encontro, não apenas o texto), publicado pelo canal do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Critérios.

O que é importante é que agora podemos ver esse encontro:

30 de julho de 2014

Da apresentação de Não É Meia Noite Quem Quer na Livraria Arquivo de Leiria em Novembro de 2012


Citado do Jornal de Leiria, edição on-line do dia 22.11.2012:

António Lobo Antunes: "Não gosto de livros fáceis como não gosto de mulheres óbvias"

O público presente na Livraria Arquivo fez de entrevistador, numa conversa que publicamos.

António Lobo Antunes (ALA) esteve n[o passado dia 16 de Novembro de 2012] pela quarta vez na Arquivo Livraria, em Leiria, para apresentar o [...] livro Não É Meia Noite Quem Quer. A sala encheu para ouvir um dos nomes cimeiros da literatura mundial e, como é habitual, a intensidade das suas palavras provocaram, por vezes, um ambiente denso,  introspectivo e de reflexão. Desta vez, no entanto,  houve também espaço para momentos de humor mordaz que provocou fortes gargalhadas no público. Sem “papas na língua”, Lobo Antunes falou de tudo sem o menor pudor, sem tabus, provando que, como ele próprio referiu, vive sem gavetas, não escondendo nada. 

Depois de algumas, poucas, palavras sobre o livro, que disse já estar um bocado longe por já ter sido acabado há cerca de dois anos, mas que foi especial de escrever, desafiou o público para uma conversa, não sem antes ter criticado os jornalistas/entrevistadores: “Aquilo que interessa ao entrevistador, normalmente, não me interessa a mim. Sobretudo quando é imprensa escrita, eles cortam e só põem o que acham que interessa aos leitores ou aquilo que de alguma maneira confirma a ideia que têm na cabeça deles acerca de mim. Os pensamentos saem sempre trocados, os pensamentos saem sempre truncados, o que se diz é sempre alterado. Além disso, toda a reprodução daquilo que nós dizemos, sobretudo quando é parcial é injusto”. Desta vez, o papel de entrevistador coube ao público, se bem que a parte mais ingrata ficou para o JORNAL DE LEIRIA. De facto, não é fácil passar para o papel as suas palavras, tantos são os desvios que vai fazendo ao longo da conversa e as histórias que, aparentemente vindas do nada, vão surgindo. Esperamos que estas páginas não sejam mais uma razão para Lobo Antunes criticar a imprensa escrita...

O mote foi dado pela escritora Sílvia Alves: Arriscando o seu mau humor...
(ALA interrompe) Eu não tenho mau humor. Está aqui este senhor [José Francisco Feição] que pode dizer que eu sou doce, agradável e simpático. 

A propósito de ter dito que há dois meses que não escreve, era capaz de imaginar o momento em que decida mesmo não escrever? 
Eu nunca pensei publicar livros na minha vida. Nunca. Eu quando tinha três anos tive uma tuberculose e fiquei na cama durante muito tempo. A minha mãe tinha-me ensinado a ler. E como estava ali o dia todo, comecei a escrever. Era muito engraçado e muito divertido para uma criança porque punha as palavras umas a seguir às outras e aquilo fazia sentido. E então, aí com dez anos já tinha uma obra considerável. Deitava aquilo tudo fora ou queimava na figueira do quintal. Nunca tinha pensado publicar nada. Uma vez um amigo meu, o Daniel Sampaio, viu lá um monte de papéis e perguntou o que era aquilo. Era a Memória de Elefante, que não se chamava assim. E ele perguntou se podia levar a uma editora. Levou à Bertrand, em que directora editorial é a minha editora agora. Nem houve resposta e andou durante dois ou três anos em bolandas de editora em editora. Até que apareceu uma editora pequenina chamada Vega que o publicou.. Tinha um editor que eu nunca tinha visto que tinha uma característica que eu pensava que fosse única mas é comum a muitos editores: apareciam muitas raparigas para editarem poesia e ele desde que dormisse com elas publicava. E soltava a grandeza da alma de um editor e a sua seriedade profissional. A mim nunca me convidou para dormir, o que me desiludiu. Queria que eu mudasse o nome, retirando o Antunes porque era feio. Obrigou-me a mudar o título, que era comprido. Entretanto eu ia escrevendo livros. Tinha lá um livro que depois se veio a chamar os Cus de Judas que se chamava Memória de Elefante e transferi o título para o primeiro. Fui de férias e quando voltei aquilo tinha vendido não sei quantas edições. Foi uma loucura com aquele livro. Como o segundo já estava pronto, saiu em Outubro. Estávamos a vender muito, com o terceiro vendemos ainda mais, e eu recebi uma carta de Nova Iorque de um agente que na época trabalhava com grandes escritores latino-americanos. Achei que era uma piada nem respondi. Ele mandou uma segunda carta e achei que era chic ter um agente em Nova Iorque e respondi. Mas, passou-se o mesmo que se passou em Portugal, ninguém queria o livro. E um dia ele telefona-me e diz para ir a Nova Iorque porque uma grande editora iria editar o livro. Cheguei a Nova Iorque e fomos ao editor. Ele disse-me: vou publicar o seu livro. E eu cheio de esperança perguntei: gostou? “Nem li”, respondeu. Então porque é que vai publicar? “Porque se o livro tiver má critica não compro mais nenhum livro a este agente”. O livro saiu e nós conseguimos sair na primeira página do New York Times, do Washinton Post, do Los Angels Times e do Chicago Tribune. Conquistámos o Mundo naquele momento. E entretanto começam a aparecer editoras por todo o Mundo. Eu não estava preparado para isso e de repente fiquei rodeado de agentes, editores, tradutores, jornalistas, todo aquele Mundo um bocado a parasitar, cheio de competição, de intriga, de inveja que é o Mundo dos livros. Eu tinha uma ideia completamente romântica. Pensava que houvesse uma grande fraternidade entre os artistas, mas não há. Há mesquinhês, inveja, competição.... De uma maneira geral era muito mau para o que eu estava à espera de encontrar. Então sou preso por aquela engrenagem. Por exemplo, em França assinei por uma editora que começou a comprar-me livros que eu ainda não tinha escrito. E de repente tinha montes de massa, tinha editoras por todo o lado, tinha críticas por todo o lado, e fico preso naquela engrenagem. Eles já me tinham comprado três livros e eu tinha que os escrever. Isto foi sendo assim, os prémios foram aumentando, havia prémios por todo lado, doutoramentos honoris causa, aquela porcaria toda, condecorações. Era muito estranho, de repente pagarem-me por aquilo que eu pagaria para fazer. Lembro-me de ter assinado para um livro em Espanha por um milhão de euros. Deu para comprar uma casa e um Volvo que era uma coisa... Último modelo que não havia outro em Portugal... sentia-me o Cristiano Ronaldo. E depois isto começou a cansar-me a partir de certa altura. Os convites estão a aparecer constantemente. Convidam-me porque escrevo livros, mas se aceito todos os convites não tenho tempo para escrever nada. Então comecei a sair muito menos. Agora saio muito pouco, duas três vezes por ano. Cada vez gosto mais de estar em Portugal. Sinceramente já estou cansado disto tudo.

E a sua vida privada?
A minha vida privada começou a tornar-se insuportável. Vou a qualquer lado é só fotografias, pessoas que vêm pedir autógrafos, amigos que não sei quem são. É horrível, a vida privada começa a desaparecer. Tirei o número de telefone da lista, não tenho telemóvel, como não tenho computador, como não tenho cartão de crédito, não tenho cartão multibanco nem nada. Ando com a massa toda no bolso. Estou farto de pensar em voltar para a Beira Alta,  ficar lá em paz e sossego e que se esqueçam de mim. Tem sido infernal. As minhas filhas protestam de todas as maneiras. Hoje uma delas disse-me: “o pai pensa que essas gajas todas andam consigo por o pai ser bonito?” Isso para a minha auto-estima foi horrivel. Então, só queria publicar mais um ou dois livros. Por exemplo, este ano com a história do Nobel, que é um inferno de há uns anos para cá, ligaram da embaixada sueca a dizer para no dia seguinte estar em casa. Respondi: “vão à merda que já é a terceira vez que dizem isso. Além disso têm dado a tão maus escritores que a mim não me dão de certeza”. Depois são as rádios, as televisões… é um inferno. Ao principio até era muito agradável, tem-se um cortejo de benesses. Não há bichas, o meu gestor de conta é um administrador do banco que vem a minha casa de chofer… essa parte é agradável, mas, por exemplo, se vou a um restaurante melhor, peço a conta e não é nada. Não volto àquele restaurante. Toda essa parte é horrorosa porque eu só escrevo livros, não sou nenhum Tony Carreira ou Júlio Iglesias (risos na sala). Eu gosto de Tony Carreira. Não é das músicas, é do homem. Ele deu uma resposta numa entrevista… perguntaram-lhe se ele não tinha pensado em ser francês, porque tinha vantagens como imigrante. Ele disse: “Não, adoro ser português, somos só dez milhões não é para qualquer um”. Eu gostei desta resposta. Um homem que fala assim não é parvo. Eu gostava de voltar a ter um bocado de privacidade e estar nos sítios em paz.

Conheço-o desde a Memória de Elefante. Para mim é o escritor mais importante de Portugal e dos outros todos… Fico muito furiosa por não ter tido o prémio Nobel.
Eu estou-me cagando para isso.

Mas eu gostava muito…
Agora tenho recusado tudo. Aqui há uns meses telefonaram-me a dizer que tinha ganho o Grande Prémio de Montreal e eu disse que não era piloto de Formula 1. Já estou farto disso tudo. Não torna os livros melhores ou piores; os prémios, no fundo, são um fenómeno mediático que dura até ao Natal. Quem é que se lembra de quem é que ganhou há três anos qualquer prémio? Não fique furiosa com isso, fique contente.

Acompanho-o desde sempre e achei que devia ganhar. Fiquei muito triste. Sempre que o leio penso no porquê dos títulos dos livros. E com este aconteceu-me o mesmo. Pode dar-nos uma explicação do porquê deste título?
Os títulos são um problema grande. Há pessoas que começam pelo título. Comigo normalmente os livros não têm título, aparece depois. Este é um verso de René Char, que é um poeta de que eu gosto muito e um homem que eu admiro. Combateu na guerra cívil espanhola, combateu na resistência, é um grande poeta e gosto muito desse poema. Esse título aparece também como uma homenagem ao Steiner. Eu tinha estado com ele e tínhamos falado sobre isso. É um homem que tem livros geniais, de compreensão do fenómeno literário, de compreensão da vida. Recebi uma carta dele há pouco tempo e ele está muito doente. Tinha saído do hospital e dizia-me sentir-se muito fraco. Fiquei preocupado, é um homem muito terno. Falámos de escritores e de livros. Uma vez eu estava dizer que gostava do Monte dos Vendavais e ele não gostava nada. Dizia: “Mas não acha um livro kitsch, não acha um bocado histérico?” E de repente dei por mim a olhar para as coisas pelos olhos dele. E ele tinha razão e eu não tinha. É óptimo não ter razão, eu gosto imenso. Às vezes trato mal este senhor, que é meu amigo [José Francisco Feição], e depois fico arrependidíssimo e peço desculpa. Então, é em parte uma homenagem ao Steiner que agora queria fazer um livro… eu ando cá com umas ideias ambiciosas que eu nem sei… assim um opus magnum para acabar, tipo os últimos 100 anos de Portugal através de uma grande família. Tenho pensado num título do Cícero que é Da Natureza Dos Deuses, que é um livro de que eu gosto muito. Eu acabo sempre por voltar aos autores latinos, são aqueles que eu gosto. E então tinha pensado fazer um livro para aí em três volumes, não sei. Estava a pensar começar a escrever para a semana mas não sei se sou capaz.

Comece, comece…
Mas não era para publicar. Até porque teria razões para não publicar esse livro, pois tenho uma filha que do lado da mãe pertence a uma dessas grandes famílias e sei que ia magoar a miúda. Tem vinte e poucos anos e ia ficar magoada. Não sei. Sei que para o ano, que é aquilo com que eu me comprometi, sai um livro de crónicas e em 2014 um outro livro. Depois não sei, logo se vê. Talvez continue a publicar no estrangeiro, não sei. A distância toma o lugar do tempo. É mais fácil ser-se entendido em França ou na Alemanha do que… há muito ruído aqui…

Não gosto nada desses planos…
Oiça, é para os portugueses que eu escrevo, quer dizer… eu escrevo porque se não escrevesse… eu não tenho depressões porque não tenho tempo, mas as alturas de desespero são horríveis, os intervalos dos livros… fico cheio de cães pretos que se devoram. Depois sinto-me culpado, fico insuportável quando não escrevo.

[José Francisco Feição] Quando não escreve o António fica um bocadinho irrascível...
Eu dantes fazia planos e eu trabalho sem planos agora. Tenho uma ideia… nem é uma ideia… é… Estou cheio de problemas técnicos e é muito difícil. Nunca se fala nisso mas isto é um ofício como outro qualquer e os problemas técnicos para mim são muito grandes.

Descomplique…
Escrever é muito difícil. Eu acho extraordinário a quantidade de livros que se escrevem. Mandam-me muitos livros, mas são tão maus… Eu digo às vezes que este livro tem que ser trabalhado e a pessoa aparece no dia seguinte a dizer que já está. Eu tinha um grande amigo, que me faz muita falta que é o José Cardoso [Pires], era um irmão mais velho para mim e líamos os livros um do outro. Quando estava a escrever o Fado Alexandrino não havia maneira de ele me dar uma opinião do livro. Até que, por fim, perguntei: então o que é que achaste? “Não sei. Ainda só li três vezes”. Cada vez que se lê um livro ele é diferente. Descobrimos coisas novas. 

Que conselho ou conselhos daria a alguém que queira seguir uma carreira na escrita. A um jovem escritor?
O Mozart morreu com 35 anos e quando ele tinha vinte e tal apareceu um homem e disse: “mestre, eu queria escrever uma sinfonia”. E o Mozart disse: “ouça, uma sinfonia é um cabo dos trabalhos. Porque é que não começa por escrever um sonata ou um prelúdio?” O outro respondeu-lhe: “Pois, mas você escreveu uma sinfonia com oito anos”. E o Mozart disse: “de facto escrevi, mas nunca perguntei como é que se fazia”. Se uma pessoa precisa de conselhos, é porque não presta. Nunca dei conselhos nem nunca os aceitei. Nem na minha vida, que é uma das queixas da minha mãe. Gosto de fazer as minhas asneiras. Normalmente as pessoas chamam experiência à soma dos erros que cometeram, não é? Se for um escritor, se for um pintor ou outro artista, não precisa para nada de conselhos. Eu estava completamente seguro do meu génio quando tinha cinco anos e espantava-me ao andar na rua que as pessoas não olhassem para mim a pensar: “ele vai mudar o Mundo, ele vai mudar o Mundo”. Não vale a pena escrever para não ser o melhor. Tem que ter a certeza daquilo que faz. E depois tem que viver toda angústia e agonia da escrita sozinha, sem se queixar. Porque se o leitor sente o trabalho, o livro está falhado. Embora, normalmente, as pessoas vão à procura daquilo que conhecem. Isso explica o sucesso dos best sellers. Mas estou a falar mesmo de literatura, estou a falar de arte. Aí é diferente. Portanto, só pode aprender consigo mesma, à custa de fazer asneiras, de fazer erros, de escrever porcarias. Vai levar anos a fazer porcarias. E depois a tendência e o desejo que a gente tem de dizer tudo. Um livro não é uma coisa que nos fala, um livro é uma coisa que nos ouve. A maior parte dos livros começam quando a gente acaba de os ler, começam a fazer o seu caminho dentro de nós. Eu não gosto de livros fáceis como não gosto de mulheres óbvias, não sei se estou a ser claro. Quero que o livro me obrigue a uma luta com o texto, com as palavras com a reinvenção do Mundo. Ao princípio, quando comecei a ler grandes obras, tinha a sensação de não perceber nada, de caminhar no nevoeiro. Sabe, um grande editor é aquele que edita livros que o público não quer. Não é aquele que vai ao encontro dos gostos do público. O público a princípio vai rejeitar e depois aprende a ler. Todo o bom escritor tem que nos ensinar a ler. Os temas dos grandes livros são sempre os mesmos. Todos nos falam da mesma coisa, que é a angústia da pessoa no tempo. Os temas são sempre os mesmos. É o sentido da vida, o sentido da morte. E é sobretudo o fazer-nos aceder a um maior conhecimento sobre nós mesmos, dos outros e da vida. Muitas das minhas grandes alegrias da vida são passadas com a música, com os livros, com a pintura... e que depois nos voltam a dar uma dignidade enorme. Que nos fazem andar sobre as patas de trás. Projectarmos uma grande sombra. A gente vê, sei lá, uma estátua do Miguel Ângelo e fica reconciliado com a nossa condição. O Torga, que era ateu, dizia: “às vezes Deus faz homens à sua medida” e eu estou muito grato a essas pessoas todas que encheram a minha vida de beleza e da alegria que a beleza traz consigo. Shubert, Mozart, Bach, Velasquez, Camões... Um País mede-se pela sua cultura. E se antes do 25 de Abril a cultura assustava – aquele General do Franco dizia: “Sempre que ouço a palavra cultura puxo logo da pistola”. A verdade é que depois do 25 de Abril nenhum Governo, seja mais à esquerda seja mais à direita, se preocupou com a cultura. Se preocupou com os seus artistas. Nunca, nada. A cultura mete medo porque em si mesma é subversiva, no sentido mais lato, no sentido político. Porque as pessoas começam a exigir outras coisas. De maneira que a gente vai-lhes dando Big Brothers, Rodrigues dos Santos, essas coisas, novelas, onde tudo é óbvio, nada nos incomoda, nada nos estremece, nada nos faz exigir mais. Um povo culto é muito perigoso. Então, eu não daria nenhum conselho. Quando as pessoas têm mesmo talento não andam, a pedir conselhos a ninguém. Escreva e não pergunte nada a ninguém.

Eu pergunto ao António se quando faz estas apresentações espera ser surpreendido pelo público ou encara isto como uma obrigação.
Este senhor [José Francisco Feição] vinha a ralhar comigo porque eu já não me apetece ir a parte nenhuma. O lado de caixeiro-viajante não me interessa nada. Eu vinha um bocado pelos cabelos. Estava a chover, não me apetecia, ele [José Francisco] vinha a protestar que eu estou sempre em casa... apetece-me cada vez mais estar em casa. Bares não me apetece, discotecas fazem muito barulho, amigos tenho poucos, ando muito esquisito, percebe? Para além de coisas pecaminosas que não vamos falar aqui, apetece-me estar em casa. Vim também porque as vezes que aqui vim soube-me bem. Gosto da cidade, é bonita e as pessoas têm sorrisos agradáveis. 

António Lobo Antunes perde-se na conversa e [José Francisco Feição] relembra-lhe a pergunta...

Eu sei lá. Estou aqui porque ele me trouxe. Eu tenho muita dificuldade em dizer não às pessoas de quem gosto. Porque as pessoas do nosso País têm sido tão generosas comigo que a maneira que eu tenho de agradecer é estar presente. E vou à feira do livro assinar autógrafos durante horas, horas e horas, e tiro as fotografias que as pessoas querem. Aquilo cansa que se farta. Mas acho que é a minha obrigação... Apareceu uma vez um senhor muito pobre com bastante idade e disse-me “gosto dos seus livros todos mas só posso comprar um que não tenho mais dinheiro”. Era camponês. Um senhor com a quarta classe. Há surpresas assim... Miúdos de 17 anos que leram quatro, cinco, oito livros meus, que estão horas na bicha, ao sol, a suarem, em pé pela merda de um autógrafo. E depois eu penso, o que os Governos fazem a este povo... Este povo andou nas caravelas. Não têm o direito de o tratar assim, não têm direito de nos desrespeitar. Eu estou zangado com este Governo pela insensibilidade, e com os outros também, claro! O nosso País é isto. Por muito estranho que lhe possa parecer é nestas alturas que gosto mais de estar perto das pessoas. Escrever é muito solitário. Estar a escrever para ninguém, não se sabe para quem, e nesta altura vejo as caras. É completamente diferente de estar na Alemanha onde vendo 200 mil, pareço o José Rodrigues dos Santos. Uns homens com uns pés enormes – se fosse mulher recusava-me a deitar com um alemão –, uns pés enormes lá no fundo da cama… e quando é no Verão, com sandálias, uns tipos com pés horrorosos… eu sou sensível a pés. E aquelas mulheres não se arranjam. Há tempos tiveram cá uns professores americanos e diziam espantados “as portuguesas arranjam-se imenso”. As Portuguesas arranjam-se muito bem. Como é que se pode comparar? Quando estava na América tinha uma namorada norueguesa [hoje está desbocado, diz José Francisco Feição] e na intimidade, nos momentos supremos, parecia que se estava a afogar na banheira: “borum, borum, borum”. Era uma coisa horrorosa e eu tinha saudades de Portugal porque ao menos gemem na minha língua. 

Como é que foi a sua experiência na Escritaria [Festa literária que aconteceu em Penafiel]?
Foi muito muito agradável. Não imaginava nada que aquilo fosse assim. Ia na rua e as pessoas vinham-me dar beijinhos. Fartei-me de dar beijinhos, infelizmente mais a velhotas. As pessoas foram de uma ternura, de um calor… foi muito, muito comovente. Estou muito grato às pessoas. Aquilo é feito com tanta dedicação, tanto amor… é bom a gente sentir-se amado. A nossas sede de amor é insaciável, a nossa sede de ternura é insaciável. Todos nós fomos mal amados em crianças. Uma vez um amigo perguntou ao Freud como é que devia educar o filho. “Faças o que fizeres está mal feito. De qualquer modo eles não vão gostar”. Se formos mais permissivos não vão gostar, se formos mais severos não vão gostar. Os pais servem em primeiro lugar para ser odiados e eles experimentam-nos, querem que a gente resista e que não fique destruído. Os filhos têm um pavor horrível que os pais sejam fracos. Nenhum filho quer mandar em casa. Nenhum filho quer que o pai seja amigo. Quer que o pai seja pai e que a mãe seja mãe. E nós temos tendência para nos demitirmos disso. 

A sua mãe quando olha para si e para a sua obra não tem nenhum sentimento de culpa em relação àquilo em que se tornou?
Eu demorei muito tempo a entendê-la, porque ela ao fim de 5 anos de casada tinha 4 filhos e tinha um marido que estava o tempo todo com um olho no microscópio. E a nossa infância passou-a na Alemanha. Então, estava sozinha com aquela filharada toda. Nós éramos bastante sossegados, mas era muito filho para uma mulher. Ela tinha 23 anos quando começou aquele trabalho.  O meu pai era um homem sem sentido de humor, era um homem violento, muito violento, mas que nos obrigava a ler, que nos obrigava a ouvir música, que fazia discursos intermináveis. Portanto era uma mulher que teve que aturar este homem, um homem complicado. Às quintas-feiras eu e os meus irmãos costumamos ir almoçar lá a casa - e nesta última quinta-feira ela, que nunca beijou um filho, disse-nos: “Vou ficar viva muito tempo, por muitas gerações porque estiveste na minha barriga”. E aquilo comoveu-me. Comoveu-me a solidão dela. Eu faço anos no Verão, nunca havia festa e este ano convidaram uns amigos e eu fiz um discurso que acharam muito agressivo em relação à minha mãe. Agradeci o facto de não me ter amado muito. Nuns certos aspectos tive uma infância miraculosa, mas dos meus pais nunca houve ternura, nunca havia beijos, nunca havia nada disso. Em férias o meu pai só lá ia ao fim-de-semana, chegava ao sábado estava logo doido para se ir embora, para se ver livre de nós. Eu pensava que ele andava aí numa malandrice, mas quando comecei a ter exames ficava em Lisboa e percebi que ele ficava a gozar a casa, finalmente sem filhos. Quem tinha que os aturar era a pobre da minha mãe. 

Estive a morrer
Os médicos agora dizem a verdade mas, às vezes, a verdade é muito cruel
Estive a morrer há cinco ou seis anos. Agora dizem-me que estou curado, mas estive a morrer com um cancro complicado. Não sabia se ia viver se ia morrer e os médicos também não, foi muito complicado. E recebi mais de cinco mil cartas. Recebi uma de um rapaz de 18 anos que dizia “Não admito que o meu ídolo se vá abaixo das canetas”. Isto deu -me uma força do “caraças”. Esta história no hospital é horrível. A gente a sentir que as pessoas estão a armar o sorriso no corredor e chegam lá e dizem: “Então? Estás com óptimo aspecto. A minha irmã teve isso e está óptima”. A única pessoa que me ajudou foi o Júlio Pomar, o pintor, que me disse: “Aguenta-te” e não disse mais nada. Foi a coisa mais importante que me disseram, ele não veio com paninhos quentes. Os médicos agora dizem a verdade, o problema é que a verdade é difícil de suportar, às vezes é muito cruel.

As mulheres têm que ter muita paciência
Todos os homens têm o complexo da castração
Uma vez perguntaram ao meu pai: “como é que a sua mulher que teve seis filhos tem tão boa figura?” e o meu pai disse: “É por ter boa figura que ela teve seis filhos”. Depois da morte dele perguntámos-lhe uma vez: como é que era com o nosso pai. Nós nunca tínhamos ouvido barulhos, nada. “Com 88 anos foi três vezes por semana – ela, coitada, cheia de osteoporose – fico cheia de dores”. Nós ficámos todos enternecidos, mas ela estava com um ar um bocado dorido. Mas ao mesmo tempo, ela tem 90 anos e diz-me: “Eu continuo a ter desejo”. Esta história das mulheres deixarem de ter desejo é uma treta. E os homens também. Eu acho que é preciso dessacralizar isto, é tudo tão natural. A minha mãe, felizmente para ela, teve até à morte do meu pai ali uma assistência… como de fosse um Mercedes. Mas depois continua a sentir falta. Mas não diz isto com ar provocante, nem atrevido, nem nada disso. Por exemplo, diz coisas assim do género: “Pela maneira como um homem nos toca sabemos logo como é o resto”. Quando me via fumar dizia: “Ó filho, tira o cigarro que ficas com ar de cama”. E eu tirava o cigarro. Tinha assim este lado. Aquilo que eram tabús ultrapassava com elegância e deixava de atribuir a isso a dimensão com este terror que os rapazinhos que estão a crescer têm relativamente a eles mesmos, em relação às mulheres, etc. Nós não tínhamos irmãs, vivíamos ali entre rapazes. Os liceus eram homossexuais, ou de meninos ou de meninas. Portanto, a descoberta da mulher foi feita através dela e mostrava a mulher como uma fonte de prazer e não como uma coisa de medos. A maior parte dos homens, eu notava isso quando era psiquiatra, é muito raro fazerem amor sem angústia. Têm sempre imensas dúvidas em relação ao pénis, à erecção, essas coisas. E as mulheres assustam muito os homens. Os homens têm medo das mulheres. E depois têm aquela coisa horrível que é o complexo da castração. Todos os homens têm isso, quando eu estou lá dentro já não tenho pirilau. Então todos os fantasmas – isto é o Freud que diz não sou eu – aparecem. Então a relação é sempre uma relação angustiante, as mulheres têm que ter muita paciência, que ajudar os homens, coitados.

textos de João Nazário
Jornal de Leiria
22.11.2012

imagem recolhida na web
adaptações ao texto por José Alexandre Ramos

31 de maio de 2014

Sessões de autógrafos na 84ª Feira do Livro de Lisboa, Praça LeYa


Segundo a informação recolhida aqui, prevê-se que António Lobo Antunes visite a Feira do Livro de Lisboa, para as sessões de autógrafos na Praça LeYa, entre as 15H00 e as 19H00 dos sábados dias 7 e 14 de Junho. Se outra informação nos chegar, logo divulgaremos.

20 de março de 2014

Teatro "Autos da Revolução" em Évora

"AUTOS DA REVOLUÇÃO, a partir de textos de António Lobo Antunes"Co-Produção: CENDREV/ ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve
27 de março a 20 de abril

Local
Teatro Garcia de Resende
Horários; qua
rta a sábado, às 21h30 | domingos às 16h00


6 de fevereiro de 2014

Jornal de Letras: «Lobo Antunes, as três irmãs e uma garrafa de grappa», por Ana Margarida de Carvalho

O escritor António Lobo Antunes, em Udine, na cerimónia de entrega do Prémio Nonino: encantou-se com três belas irmãs que usam o mais sofisticado marketing no seu negócio de milhões, enfadou-se com a conversa "intelectual" de figuras de referência da ciência e da literatura mundiais, ensinou anedotas embaraçosas a jornalistas italianos e até cantou...


Havia um anúncio sobre pré-confeccionados em que dois cozinheiros supostamente italianos se punham a discutir: um insistia que o segredo estava na pasta; o outro retorquia que estava no molho. No caso da grappa (uma espécie de aguardente típica do norte de itália) da marca Nonino o segredo está numa combinação rara de alquimias e destilações de um tipo de uva muito selecionado, com mais de um século de depuração (desde 1897); não, o segredo está na garrafa, no design feminino, que faz com que a "bottiglia" mais pareça um frasco de perfume do que de aguardente; não, o segredo está num marketing muito inteligente e engenhoso que conseguiu transformar uma bebida tradicionalmente associada à pobreza e ambientes rústicos num produto altamente sofisticado, caro, consumido em meios elitistas; não, o segredo está na família (ou não estivéssemos nós em Itália) matriarcal, uma "nonna", três filhas, Cristina, Antonela, Eisabetta e sete netas (apenas um neto rapaz) que toma a cargo o negócio, a imagem e a marca; não, o segredo está na criação de um prémio internacional (o prémio Nonino existe há 39 anos), que distingue alguns dos mais prestigiados vultos da literatura e da ciência em todo o mundo, alguns deles posteriormente "nobelizados" (como V. S. Naipul, Tomas Transtromer, o chinês Mo Yan ou Peter Higgs), e que acrescenta à grappa Nonino todo um gosto extra a elegância, requinte, com tanto teor de álcool como de alta cultura (e só este evento que mobiliza mundos e muitos - mas mesmo muitos - fundos vale mais do que qualquer anúncio ou publicidade); não, o segredo está em tudo isto junto. Foi assim que António Lobo Antunes (um dos premiados deste ano) veio parar a esta cidade do nordeste de Itália (numa zona rural e industrializada), pouco turística, junto a Veneza, tão perto do mar, quanto das montanhas alpinas cheias de neve nos cumes, mais conhecida pela sua grappa (lá está), por ter uma tradição secular de construção de cadeiras (exportadas para todo o mundo), pelo presunto San Daniele e que tem como prato típico o "frico": batata cozida com queijo derretido. Foi assim que Lobo Antunes, que oscilava entre a satisfação e o seu habitual ar negligé, um misto de indiferença estudada e provocação, se viu nos salões de festas faustosas, servido por famosos chefs de cozinha, nas mesas em que se sucediam pratos de haute cuisine, e até um peixe gigante inteiro, exibido triunfalmente (comentário do escritor: "olha, o peixe do Emingway"), rodeado de mulheres belíssimas de vestidos de gala ("elas são tão simpáticas, e cheiram tão bem, e não repetem a toilette; cada vestido dava para nós vivermos durante um ano, basta passar a mão pelos tecidos para se perceber..." 

Na cerimónia de entrega (sábado, dia 25) com uma assistência de mais de 600 convidados (muitos deles ilustres figuras de Itália) - comentário de Lobo Antunes: "era tão bom que toda esta gente lesse" - ante os principais meios de comunicação daquele, entre coros e dança tradicional, os fornos das destilarias e as omnipresentes garrafas de grappa, o prémio do escritor português foi-lhe entregue por Claudio Magris, com um entusiástico elogio. Juntamente com o escritor português foram premiados o filósofo francês Michel Serres (entregue por Edgar Morin), o psiquiatra italiano Giuseppe Dell'Acqua (entregue por António Damásio) e a palestiniana, activista e escritora Suad Amiry (entregue pelo poeta sírio Adonis), que dedicou o prémio também à sua cadela: é com o passaporte do cão que entra em Jerusalém.

E se a família Nonino conseguiu desarmar todas as relutâncias e aquela fleuma altiva do escritor português, "destilavam" exuberância e simpatia, com um luxo, que sem ser nada discreto, não ostentava mau gosto ou qualquer exibicionismo provinciano, os jornalistas desconcertavam-se... Eles indagavam da sua relação com escritores italianos, como Tabucchi, e António Lobo Antunes divergia e citava políticos portugueses: "Aos amigos nunca se mente. À pide e às mulheres mente-se sempre". Prefere falar de Salgari, "tive a sorte de o ler na altura certa", de Italo Calvino, "a sua morte foi uma perda para toda a gente que gosta de literatura", do amor "que é feito de atenção delicada", de sexo, "sexo sem amor dá vontade de tomar banho por dentro" e das mulheres, "não há mulheres fáceis: ou são dificílimas ou impossíveis". Detestava ser mulher, admite, "ainda tinha de aturar um parvo a dizer mentiras, convencido que era capaz de conquistar uma mulher, quando na realidade, quem escolhe são elas. E eles, feitos tontos, já foram escolhidos mas não percebem, porque elas são generosas e convencem-nos disso". Recusa a ideia de que a estrutura narrativa dos seus livros, em que muitas vezes os tempos e as vozes se cruzam, seja uma técnica literária, aliás irrita-o a "proeza técnica" ("um livro tem de ser um murro, tem de agarrar o leitor pelo pescoço"), e está cada vez está mais convencido de que não há presente, passado ou futuro: "Existe um enorme presente em que nunca abandonamos as pessoas de que gostamos. Se eu ainda hoje sinto o cheiro de casa dos meus avós, isso quer dizer que eles já não existem?". Prefere não se pronunciar sobre escritores, "porque confundimos sempre paixões com ideias e não somos capazes de abdicar das nossas paixões", volta-se, antes, para aqueles que nunca se desvalorizam na sua bolsa de valores pessoal: Ovídio, Horácio e Virgílio. E cita o general do século XVII Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Depois de um cancro no intestino, dois em cada pulmão, uma operação e tratamentos agressivos de quimioterapia, Lobo Antunes faz como Sócrates que quis aprender a tocar lira, mesmo sabendo-se condenado. De que te serve?, perguntavam-lhe os amigos: "Serve para tocar". "O que me interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo nos salve, e de que... olhe, de que haja manhã...". E novamente Hemingway: "A morte pode destruir-me, mas não me mata".

Sente a mágoa da partida dos amigos, "sempre gostei de homens mais velhos", acorda a chorar pelo irmão Pedro, que morreu recentemente, "parece que a família ficou coxa", confidencia, atormenta-o ter perdido parte da sua beleza física - "agora sou apenas um senhor com algum charme" -, mas está convencido que a beleza de Paul Newman "impediu que percebessem o grande actor que era". Declara, perante os jornalistas aglo desconcertados, "que se Claudia Cardinalle escrevesse, faria livros épicos". Mas tem pena das escritoras mulheres "coitadas, os homens sentem-se intimidados, e estão sempre a tirar ilações do que elas escrevem". Ainda se sente capaz de cometer loucuras, de mudar completamente a sua vida, de ter alegrias súbitas, quando se sabe traduzido no Irão ou na Etiópia. "É tão fácil dizer amo-te e nunca dizemos. E ficamos com a ternura no colo como um bebé, sem saber o que fazer dele". E logo o raciocínio se vira para o Papa Francisco: "É conservador e populista porque diz coisas que os outros não eram capazes e como andamos todos com esta sensação de sermos mal-amados, ficamos com esta ilusão de que o papa vai mudar as coisas... Não vai."

Ao fim de três dias, Lobo Antunes dá sinais de inquietação. Tanta atenção, tanta ternura e alegria também cansam. "Elas abraçam-me", consente, "mas não são abraços apertados". Está farto de jantar com gente erudita, de conversas existenciais. Apetecia-lhe citar Walt Whitman: "I like animals because they don't discuss the existence of god". Cansado de ser polido, mas seduz os locais, quando se põe a trautear músicas italianas que sabe de cor. Eles pedem um fado, dizem que a língua portuguesa é "belíssima", parece, ela mesma, "um canto". Lobo Antunes não lhes fará a vontade, mas já no aeroporto (adora passar horas nas portas de embarque a reparar nas pessoas, adora os corrimãos das passadeiras, adora comida de avião "é como brincar aos jantarinhos, deviam abrir um restaurante só disto") confessa que o jazz, que o pai lhe dava a ouvir, o ajudou a "aprender a frasear". Ainda ofereceu o primeiro livro ao pai, ele chamou-lhe "livro de principiante": "também foi o único que lhe ofereci, não levou mais nenhum". Está impaciente por chegar a casa, aquela região traz-lhe amargas recordações infantis: aos nove anos foi fazer a primeira comunhão a Pádua, e perdeu-se dos pais na Praça de São Marcos, em Veneza, deixou-se ficar sentado em cima dos leões: "Andei pelas ruas sozinho, a chorar, uma angústia terrível. Anoiteceu e lembro-me da cara dos meus pais quando me encontraram, tão aflitos que nem se zangaram comigo". Está com saudades. "Tenho saudades de Lisboa, tenho saudades do mau gosto, tenho saudades de ouvir dizer 'esta gaja é tão boa'. E o poder de síntese desta frase, já viu?"

texto de Ana Margarida de Carvalho
06.02.2014

fotograma do vídeo da cerimónia de entrega dos prémios - ver abaixo (intervenção de ALA entre os 64 e 79 min.)

2 de novembro de 2013

Diário de Notícias: Lobo Antunes anuncia novo romance para 2014 - Dia do escritor no CCB

O CCB dedicou o dia de [29 de Outubro] à obra do escritor que acaba de lançar mais um livro de crónicas e tem novo romance prestes a sair: "Caminho Como Uma Casa Em Chamas".

Maria Rueff, comovida com António Lobo Antunes, e Guilherme de Oliveira Martins Fotografia © Sara Matos/ Global Imagens

Sairá primeiro na Holanda e só depois em Portugal, mas uma coisa é certa: no início do próximo ano há novo romance de António Lobo Antunes. Chama-se Caminho Como Uma Casa Em Chamas e passa-se num prédio onde os moradores, narradores solitários de si mesmos, são incapazes de compreender e de ser compreendidos. O anúncio foi feito ontem à tarde no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, perante uma sala cheia de leitores apaixonados.

Porquê na Holanda? "Porque na Holanda há bicicletas de longos cabelos louros e luminosos a cruzarem as ruas", explicou o escritor, ainda debilitado por um internamento hospitalar recente antes de afirmar: "Não trocava os meus livros pela minha saúde."

A actriz Maria Rueff tinha 15 anos e o pai internado no hospital Miguel Bombarda, quando a irmã lhe deu a descobrir o livro Memória de Elefante. Numa das visitas ao pai levou o livro, armou-se de coragem e bateu à porta do médico que o tinha escrito. Ele recebeu-a, autografou-lhe o livro e foi o primeiro a grafar-lhe o nome pelo qual viria a tornar-se conhecida: Maria Rueff. A mestre do riso chorou e fez chorar a sala do CCB, onde estavam presentes Eduardo Lourenço, Júlio Pomar, Ana Luísa Amaral, Mário Vieira de Carvalho.

"Amo-o tanto que não sei amá-lo academicamente", foi com esta declaração de intenções que Rueff disse aquilo que muitas pessoas na assistência gostariam de dizer: que encontrou na obra de Lobo Antunes "o sublime que nos salva" antes de recordar o seu primeiro e decisivo encontro com o escritor.

Depois de uma tarde de intervenções de vários académicos, e leitores, António Lobo Antunes agradeceu "a ternura" e disse não conceber o mundo "sem ternura e generosidade". Numa intervenção curta o escritor defendeu que a "literatura não é um prazer", é sim "um alto preço que se paga em saúde, em esperança e em confronto constante com os próprios erros e limitações".




Este Dia Lobo Antunes é uma iniciativa do Centro Nacional de Cultura (CNC), em parceria com o CCB. Os presidentes das duas instituições, Guilherme d"Oliveira Martins e Vasco Graça Moura, defenderam a importância desta homenagem dizendo que Lobo Antunes "é um escritor que já tem uma obra maior mas que está ainda no seu apogeu criativo". E cuja obra "tem uma dimensão nacional e internacional sem comparações porque ele compreende as pessoas através da literatura".


fonte: Diário de Notícias
28.10.2013
texto de Joana Emídio Marques

26 de setembro de 2012

António Lobo Antunes é o escritor homenageado na edição deste ano da Escritaria de Penafiel

Notícias na imprensa de hoje:
O novo livro de ALA será apresentado em
Penafiel durante a edição da Escritaria, este
ano dedicado ao escritor, que decorrerá de
26 a 28 de Outubro.
Escritaria em Penafiel: Lobo Antunes é o convidado e apresenta novo livro
Depois de Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís e Mia Couto, o ESCRITARIA é dedicado este ano a António Lobo Antunes, que apresentará em Penafiel o seu novo livro "Não é Meia Noite Quem Quer".
Penafiel será de novo em Outubro, de 26 a 28, palco do maior festival literário em torno de um escritor de língua portuguesa vivo.
O denominador comum às peças de teatro, à arte de rua, aos colóquios e a inúmeras outras actividades em Penafiel será a obra literária de António Lobo Antunes.
Haverá por exemplo declamadores da obra do Lobo Antunes pelas ruas e cafés de Penafiel, além da animação de rua e da arte de rua, patente nos edifícios, estradas e outros locais públicos.
Durante o ESCRITARIA será feita a apresentação do novo livro de Lobo Antunes, por Ana Paula Arnaut.
A TSF é, pelo segundo ano consecutivo, parceira desta iniciativa.

fonte: TSF
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O escritor António Lobo Antunes vai apresentar o seu novo livro «Não é Meia Noite Quem Quer» na edição de 2012 do Festival Literário Escritaria, em Penafiel.
António Lobo Antunes vai também ser o escritor homenageado deste certame que decorre pela quinta vez em Penafiel.
Como nas edições anteriores, o evento vai «tomar conta, de 26 a 28 de Outubro, das artérias da cidade, através do teatro, arte de rua, colóquios e inúmeras actividades em torno da obra literária de António Lobo Antunes».

fonte: Diário Digital / Lusa

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António Lobo Antunes apresenta novo livro no festival Escritaria em Penafiel
O escritor António Lobo Antunes vai apresentar o seu novo livro “Não é Meia Noite Quem Quer” na edição de 2012 do Festival Literário Escritaria, em Penafiel.
António Lobo Antunes vai também ser o escritor homenageado deste certame que decorre pela quinta vez em Penafiel.
Como nas edições anteriores, o evento vai “tomar conta, de 26 a 28 de outubro, das artérias da cidade, através do teatro, arte de rua, colóquios e inúmeras actividades em torno da obra literária de António Lobo Antunes”.
Segundo a organização, a apresentação do novo livro do homenageado vai estar a cargo de Ana Paula Arnaut.
Nas edições anteriores do Escritaria foram homenageados Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís e Mia Couto.
António Lobo Antunes foi distinguido em 2007 com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário de língua portuguesa.

fonte: Jornal I

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...