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21 de maio de 2016

Bebel Lye opina sobre Os Cus de Judas

edição brasileira Alfaguara
Calma! Os cus de Judas é uma expressão portuguesa que equivale ao nosso dito popular "onde Judas perdeu as botas". 

Olá lyevráticos! Tudo bem com vocês? Quem segue o blog no Instagram sabe bem que o livro Os Cus de Judas, do autor António Lobo Antunes, deu trabalho para mim. O post de hoje  além de resenha, será uma conversa franca sobre esta obra. Bem, para começar adianto que se você for um leitor iniciante ou ainda não tiver uma boa bagagem literária, é interessante evitar este trabalho. Por um motivo muito simples: complexidade. 

ENREDO
O narrador - que é o personagem principal - é português, reside em Lisboa e é mandado para a guerra na África - local que ele denomina cus de Judas (onde Judas perdeu as botas) - para servir como médico. Na realidade a histórica começa com o próprio narrador contando sua experiência na guerra a uma moça num restaurante em Lisboa. Conta de seus medos, das tragédias que viu, das mulheres que teve, das noites que se masturbou, da esposa que sentiu saudade, da filha que não viu nascer...

Toda a história é em formato de monólogo e confesso que não achei o ápice do enredo - aquele momento crucial. É um livro de não tão simples compreensão, porque o tempo não é cronológico e sim, psicológico. O narrador é criança, de repente já está na guerra, depois volta a ser adolescente... Outra dificuldade são os fluxos de consciência e memória. Eles se sobrepõem à história sem nenhuma marcação nítida: o narrador está na guerra combatendo doenças num parágrafo e no outro já está em casa com sua filha em Lisboa, depois volta à guerra. 

Eu li a versão em ebook, que contém 91 páginas muito bem organizadas. Não perde em nada para a versão impressa - tive acesso as duas. Uma observação interessante vai para a escrita: se você for o tipo de leitor que não gosta de ler obras com palavrão, evite esse livro. Por ser num contexto de guerra, por falar bastante dos desejos sexuais dos homens e etc. e etc... A história tem muitos palavrões. Particularmente não gostei da forma com que o livro trata e retrata as mulheres, mas isso seria assunto para outro post.

O lado positivo - sim, o livro tem muita beleza! - na minha opinião é a forma com que o autor descreve a Guerra da África, a escravidão, o período fascista em vigor, as citações que faz sobre Salazar... Essa descrição, cheia de humanidade é linda. Sem dúvidas, isso é o que faz o livro ser uma verdadeira obra de arte. O narrador é muito marcante. 


por Bebel Lye
15.05.2016

15 de agosto de 2014

Rafael do Carmo Ferreira: resenha de Os Cus de Judas

Há muito tinha vontade de ler algo do português António Lobo Antunes. A primeira pessoa que comentara sobre ele foi o meu grande amigo (e leitor) Miguel, a quem sempre me refiro como o meu irmão lisboeta. A despeito do título que pode assustar os mais pudicos, os Cus do Judas, segundo romance do autor, é uma narrativa extremamente forte e elegante sobre as memórias de um veterano da Guerra do Ultramar (Lobo Antunes é médico e serviu como tenente médico nos três últimos anos da Guerra em Angola).

O romance é todo construído sobre o fluxo de consciência do narrador, que “fala” como se estivesse conversando com uma mulher que acabara de conhecer em um bar. Essa conversa leva o narrador a passear pela sua infância, numa Lisboa oprimida e opressora, pelas memórias da guerra de Angola e pela sensação de profundo abandono e inadequação do veterano que não conseguiu efetivamente voltar à vida civil.

Se fosse apenas pelo ponto de vista puramente formal, o livro já seria uma excelente escolha de leitura. A forma como o autor constrói a sua narrativa e consegue criar no leitor a sensação constante de uma conversa, de uma “troca”, como se o livro fosse uma confidência de um bêbado triste e ligeiramente patético é algo extremamente interessante. Esse mesmo fluxo de consciência vai se tornando cada vez mais fluído e frenético com o avançar do livro, como o efeito do álcool afetando o narrador. Me lembrou um pouco o retrato que Goethe faz do desespero crescente do jovem Werther que li há tanto tempo. As soluções de Lobo Antunes para o avançar das horas e do embriagar-se do narrador foram excelentes.

Dito isso, o melhor do romance é mesmo o seu conteúdo... É muito impressionante o retrato que o autor constrói dos veteranos da guerra. O trauma constante da brutalidade e da estupidez do conflito, a memória que sempre volta aos horrores experimentados... Sou neto de um veterano da Segunda Guerra e a caracterização acaba me dizendo muito. Lendo o livro me lembrava do meu avô, no fim da vida, tendo pesadelos com navios afundando e crianças mortas em bombardeios a hospitais, revivendo os horrores pelos quais passara há mais de meio século. Mais ainda, é muito bem caracterizada a perene sensação dos veteranos de não pertencer a nenhum lugar, como num limbo eterno entre a paz e a guerra, desajustados de um mundo que não os entende e, em alguma medida, os repele por conta da memória de tristeza que eles trazem junto de si.

Também é excepcional a caracterização da mentalidade portuguesa. A sua constante melancolia, sua terrível seriedade, o orgulhoso isolamento do resto do mundo que foram a tônica do país na maior parte do século XX. Lobo Antunes descreve o Portugal da infância e da juventude do narrador como um país espremido entre a opressão do corpo e a opressão da alma, entre a mão de ferro do catolicismo ibérico, cheio de culpas e a mão de ferro do Estado Novo e a sua polícia política. É o Portugal em que “a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem os meus desejos de revolta”. O autor fala também do Portugal do pós 25 de Abril, para onde o narrador, sem qualquer outra opção, volta “grave, sábio, social-democrata, sardónio, transportando na mala dos livros a esperteza fácil da última verdade de papel”. Esse país que sofre de uma crise de identidade, entre a velhíssima Europa e um novo mundo, entre a ditadura e a democracia é um espelho das perplexidades do narrador.

Muito interessante, ademais, ver a descrição do fim de um império colonial que é tão próximo e, ao mesmo tempo, tão estrangeiro a nós brasileiros. Ver a África pelo olhar português, a sua elite colonial que despreza os soldados metropolitanos que lá estão morrendo para manter seus privilégios (“o branco do Clube Ferroviário que recusava desdenhosamente a conversar com a tropa”), os africanos que sabiam que “não era a eles que tratava, mas à mão-de-obra barata dos fazendeiros, dezassete escudos por um dia de trabalho”, a tensão constante de um Império que se esfacela de dentro, podre no seu anacronismo. Esse olhar sobre a África acaba tendo um interesse maior para nós brasileiros, que, vez ou outra, pescamos nas descrições referências que nos levam diretamente à influência dos africanos na cultura brasileira.

Ler Lobo Antunes me transmitiu a clara sensação de que o mundo lusófono ainda precisa passar por um longo processo de reconciliação. Reconciliação entre metrópole e colônias por conta do passado colonial em África, (e, por que não, pelo passado colonial na América). Reconciliação na sociedade portuguesa entre os que defenderam e os que se opuseram ao regime salazarista.


por Rafael do Carmo Ferreira
06.10.2012

20 de junho de 2012

Pedro Fernandes: opinião sobre Os Cus de Judas

Há livros que oferecem uma resistência natural antes mesmo de começarmos sua leitura. Em torno dessas resistências as questões são variadas. Quando se trata de um livro que marca o fim do trajecto literário de um escritor, por exemplo. Digo isso pensando no recém-lançado Clarabóia, de José Saramago, que comecei e ainda não fui ao fim como se estivesse poupando-me daquele sentimento que me invade toda vez que entro numa livraria: a finitude porque sei que o escritor não está mais a escrever nenhum livro que noutras ocasiões me fazia ir a livraria para ficar cá à cata dos dias acompanhando a chegada da novidade, como quem que amamos, de longe, escreve cartas, para nos dar contas do que se passa por algures.

Outro modo de resistência é o próprio texto quem nos oferece. Não quero citar pela milésima vez os livros que me obrigaram a vários recomeços até que eu estivesse totalmente certificado de que eu havia conseguido captar seu leitor. Sim, grandes livros têm seus próprios leitores: únicos, singulares. E, nesse território cito Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes. Iniciei a leitura desse romance ainda na graduação quando o livro, editado pela Objetiva, apareceu na Biblioteca próximo dos livros de José Saramago. Mas, somente iniciei. O movimento linguístico da obra foi mais forte que eu e, não passei do primeiro capítulo, peculiarmente marcado como o capítulo A.

Depois, fui ser professor de Literatura Portuguesa III e, no galope desse curso é indispensável que os alunos tenham contato com escritores do porte de Lobo Antunes. Li na primeira sentada antes ainda do início do curso: era um dos poucos livros que indicaria aos alunos e que ainda não havia lido. Alunos, aliás, que sempre chegaram para mim a queixar-se que a narrativa era difícil: o leitor destreinado enrosca-se nas palavras e perde-se facilmente no ritmo do diafragma textual. Sim, é verdade, a narrativa de Os Cus de Judas é exemplo claro do curto frágil limite que separa a linguagem poética da linguagem narrativa. Isso será a primeira coisa que me fascina no escritor. Também o modo apressado de narrar numa clara tentativa de aproximação do fôlego da oralidade, típica de Saramago. Está aí algo que pensei não ir encontrar em nenhum outro escritor, mas que vejo em Lobo Antunes e seu enovelamento de palavras. Elas se combinam de uma maneira que, ao primeiro alcance, é caos e desastroso, mas no dobrar da esquina, a coisa se ajusta e o se preserva é uma tensão natural.

Chamou-me atenção, de imediato, esse título: Os Cus de Judas. O sintagma escatológico que só se esclarece no correr do romance e que fruto de duas expressões portuguesas que quer dizer fim do mundo ou lugar inóspito: o cu do mundo – o lugar onde Judas perdeu as botas. Afinal, o espaço físico pelo qual transitará o olhar do narrador está situado em algures na Angola. Embora seja constantemente nomeado os lugares físicos, não se situa o narrador em nenhum deles especificamente.

Depois, também fiquei a saber que Os Cus de Judas integra uma trilogia que foi escrita quando o escritor voltou da Guerra Colonial em Angola, trilogia essa seguidamente formada por Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno. Lobo Antunes é formado em Medicina e embarcou para os campos de batalha na África, como muitos portugueses de seu tempo. A Guerra Colonial em África integra, dentro dos temas da literatura portuguesa contemporânea, tema-chave; muitos dos escritores, depois de Lobo Antunes, terão tocado directa ou indirectamente nas suas narrativas. Está, inclusive, em José Saramago, no Levantado do Chão, para citar um exemplo anormal, tendo em vista que já ouvi, não uma, mas várias vezes, que o Prémio Nobel de Literatura representou um tipo de literatura que está ao lado do colonizador, ponto de vista este do qual discordo completamente. Ou ainda em romances como o A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge. 

O ponto de vista de quem narra é o grande diferencial em Os Cus de Judas. A voz é de alguém que esteve no epicentro do confronto e que foi ele próprio o experienciador do grande drama, das tragédias e das atrocidades do campo de batalha. É um romance, portanto, que pode beirar ao autobiográfico, se pensarmos na máxima flaubertiana Emma Bovary c'est moi. A história é narrada por um médico alferes, recém-chegado de Angola, que, num encontro casual com uma mulher não identificada, numa longa noite, entre doses e doses de conhaque, conversa sobre o vivido em terras africanas. Incorporam-se nessa fala o comezinho da tropa, mas impera, sobretudo, o absurdo do front, as dores da personagem e sua impotência frente ao absurdo.  

O dilaceramento da família, a redução do homem aos seus afectos mais baixos, a sua submissão às maiores extravagâncias para sentir, permanecer ou driblar a morte, perigo constante numa guerra, é isso que perpassa a voz do narrador. O tom ácido com que ele vai narrando os factos, constantemente permeado pelo anedótico, compreende um estágio de consciência perturbada, que pouco tem certeza de si. Consciência saída de uma oficina do horror e que apesar de ser seu foco olhar para a Guerra Colonial em Angola, não se situa, em momento algum, numa questão única, mas avalia simultaneamente três momentos distintos de sua existência: o tempo antes de sua ida à guerra, o tempo da guerra e o pós-guerra, tudo, numa fusão que não se separa um do outro. Estando diante de um tecido de memória é natural que o narrador necessita mover-se com maior desenvoltura, e está o processo de fusão temporal, processo esse que conduz o leitor a uma percepeção clara do autêntico encadeamento dos acontecimentos. Em Os Cus de Judas os acontecimentos são derivações, como se por metástese; é esse movimento que faz o leitor reviver a dinâmina da própria história narrada.

É um arquivo de memória que, ao seu aberto, está lá exposto, na sua totalidade, o que foi, de verdade, aquele período lido pela história oficial como glorioso para o povo português. Não será à toa, portanto, essa nomeação dos capítulos por letras do alfabeto, como a indicar para o leitor fichas marcadas de um arquivo: a crueldade da guerra, os desafectos, a luta pela sobrevivência, os mandos e desmandos, o dia-a-dia comezinho da tropa, o desejo do retorno, os medos, as angústias, os individualismos, as perdas do corpo, da memória, das vidas, o esfacelamento do sujeito e seu conflito interno de si para si e de si para com o lugar da pátria. Enfim, o leitor está diante de um texto que é representativo não apenas porque recupera o horror do front angolano; Os Cus de Judas é o retrato do horror de quaisquer guerras ou conflitos em qualquer lugar do mundo, e daí, entenderão, o porquê de um título no plural – os cus de.


por Pedro Fernandes
Letras in.verso e re.verso
02.05.2012

10 de dezembro de 2011

Sílvia Frota: opinião sobre Os Cus de Judas


Como sempre, é difícil mergulhar na narrativa de Lobo Antunes. Sempre me enrosco nas palavras que se enovelam e me confundem. Fico tensa, nervosa. Mas sigo adiante. Logo passa e, enfim, paro de resistir e me deixo levar por ele.

Uma história triste, violenta, dura. Sobretudo real. Não que a guerra pela libertação de Angola tenha sido assim. Não que se trate de um registo fidedigno da história de uma nação. Não é dessa realidade que falo. É da realidade humana.

Os dramas, as tragédias, as atrocidades são todos tratados num mesmo tom. Incorporam-se ao dia a dia da tropa. Como acordar e tomar café. Banal. Trivial. A força da narrativa de Lobo Antunes provoca impacto. Endurece e enternece ao mesmo tempo. A história é narrada numa noite, num encontro casual com uma mulher qualquer, num bar qualquer, vivendo uma vida qualquer. E o leitor segue de Angola a Lisboa e vice-versa sem se dar conta.

O nonsense da guerra contraposto ao dilaceramento daqueles que tomam parte nela, directa ou indirectamente. O absurdo, a impotência. A desimportância das dores, do sangue, da devastação.

Uma guerra esquecida ou, como quer o narrador, inexistente. “Tudo é real menos a guerra que não existiu nunca: jamais houve colónias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafal, nem Pide, nem revolução, jamais houve, compreende, nada, os calendários deste país imobilizaram-se há tanto tempo que nos esquecemos deles, marços e abris sem significado apodrecem em folhas de papel pelas paredes, com os domingos a vermelho à esquerda numa coluna inútil, Luanda é uma cidade inventada de que me despeço, e, na Mutamba, pessoas inventadas tomam autocarros inventados para locais inventados, onde o MPLA subtilmente insinua comissários políticos inventados...” (págs. 193/194). E a certeza que fica é de nada mais existir além dela, da guerra. O narrador está lá, preso, encurralado, sem escapatória.

Este é o segundo livro de Lobo Antunes que leio. O primeiro foi “Memória de Elefante”. Ambos perturbadores, com certeza. Ainda mais por saber que, apesar de ficcional, o autor serviu ao exército português em Angola.

Ficha Técnica: “Os Cus de Judas”, de António Lobo Antunes, Editora Alfaguara, 2ª ed., Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

Sílvia Frota
01.08.2009

Felipe Damasio: opinião sobre Os Cus de Judas

Linguagem e conteúdo

Confesso que [foi] a fama do autor que me levou a ler esta obra, pois Lobo Antunes é considerado por muitos o melhor autor vivo em nosso idioma, [...]. Optei por ler “Os Cus de Judas” por muitos considerarem sua obra-prima, tinha enormes expectativas, todas positivas.

A obra trata da guerra de independência de Angola, mas para aqueles que querem ter um relato fiel da guerra, o livro decepciona. Ele é quase uma autobiografia ou talvez uma visão egocêntrica da guerra. Os relatos dizem respeito à angústia e experiência de uma pessoa no campo de batalha, em nenhum momento existe uma reflexão sobre o outro lado ou as causas colonialistas que levaram o exército português a Angola. É a visão do colonizador sobre a estranheza da colónia rebelde que não aceita a invasão de um povo estrangeiro. Com certeza o livro não atingiu sua fama pelo conteúdo que deixa um leitor crítico irritado com a falta de sensibilidade do autor-personagem.

O grande mérito de Lobo Antunes está na forma, para mim não existe ninguém que escreveu da mesma maneira antes dele. Ele é totalmente original, o que explica sua fama e a devoção que causa em seus leitores. Se existe algo entre prosa e poesia, ninguém fez melhor que o autor português. Seu texto é denso, extremamente denso, cada página é vencida a muito custo. Eu pensei em abandonar o livro por diversas vezes. Poderia considerar que o texto de Antunes intimida e desafia o leitor a continuar até o próximo capítulo. O ponto anedótico para o leitor brasileiro são alguns termos portugueses que só podemos especular sobre a que se referem, como gelado de pauzinho (picolé?) e agência de caixões (funerária?).

A linguagem de Lobo Antunes é ácida, não poupa ninguém, tampouco ele mesmo. É não linear, o leitor nunca sabe o que será narrado, quando ocorreu e principalmente onde. O tema da sexualidade permeia todo o livro, com descrições dignas de Jorge Amado. Não se pode considerar que o texto de Lobo Antunes seja uma leitura divertida, é um texto para se apreciar. Um trecho escolhido ao acaso que sintetiza a narrativa de Lobo Antunes com sua acidez e densidade “Compreenda-me: pertencemos a uma terra em que a vivacidade faz às vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora, e creio com frequência que não passamos de facto de débeis mentais habilidosos consertando os fusíveis da alma à custa de expedientes de arame”.

Quase não há falas e os diálogos inexistem. Poucos parágrafos, a narrativa é contínua e sem pausas, o que às vezes deixa o leitor tonto e confuso sobre o que está lendo. Cada frase é bem construída, e elas se sucedem sem refresco.

O que eu realmente não gostei, além do conteúdo, é o não respeito a várias regras gramaticais da língua portuguesa. Eu não acho que por mais famoso e importante que seja um escritor ele seja maior que nossa língua. Ao escrever sem respeitar as regras, o escritor dificulta a leitura e nos faz perguntar se as regras do português são feitas apenas para nós mortais, se grandes escritores não devam respeitá-las. Minha opinião é que certamente as regras gramáticas devem ser respeitadas por todos, inclusive para grandes escritores como António Lobo Antunes.

por Felipe Damasio
fonte: skoob
18.08.2009

19 de novembro de 2011

Larry Rohter: opinião sobre The Land at the End of the World (Os Cus de Judas)

Sobre a ingénua missão num império colonial moribundo

Experiências de combate são como as famílias infelizes de Tolstoi: não há duas iguais, e pode ser por isso que muitas das vezes valem grandes romances, como Tolstoi também sabia. O motivo não tem de ser necessariamente nobre, uma vez que situações de desespero e de violência sem sentido podem na realidade dar força a uma obra de ficção. É certamente o caso de Os Cus de Judas de António Lobo Antunes, passado em Angola no início dos anos 70, quando Portugal faz um esforço absurdo para preservar o Império em África que sinuosamente caminhava para um fim inglório.

O narrador sem nome é um jovem médico arrancado de uma vida confortável em Lisboa e forçado a passar 27 meses na linha de frente tratando dos seus camaradas infelizes. Ressente-se por terem sido feitos "agentes de um fascismo provincial que foi corroendo e corroendo-se com o ácido lento de sua própria triste e paroquial estupidez." Mas principalmente fica enojado com os corpos mutilados entregues aos seus cuidados, e com medo que o mesmo possa acontecer consigo. Embora haja momentos de humor, quase sempre mordaz, isto não é "M*A*S*H", mas algo de longe mais sombrio e ainda mais absurdo.

"Os Cus de Judas", recém-traduzido por Margaret Jull Costa, foi publicado originalmente em 1979, quatro anos após a retirada de Portugal de África e do colapso final da intervenção americana no Vietname. Naquela época era interpretado como uma crítica à futilidade inerente das então aventuras dos ocidentais sobre o terceiro mundo. Porém, lido trinta anos depois e isolado dessa circunstância, esse legado de que o narrador de Lobo Antunes apelida como a "aprendizagem dolorosa de morrer", ninguém duvidará que faz todo o sentido para os sobreviventes das guerras no Iraque e no Afeganistão.

"O que fizeram de nós", questiona o narrador numa das suas frases tipicamente longas e torrenciais, "aqui sentados à espera nesta paisagem sem mar, presos por três fieiras de arame farpado numa terra que nos não pertence, a morrer de paludismo e de balas cujo percurso silvado se aparenta a um nervo de nylon que vibra, alimentados por colunas aleatórias cuja chegada depende de constantes acidentes de percurso, de emboscadas e de minas, lutando contra um inimigo invisível, contra os dias que se não sucedem e indefinidamente se alongam, contra a saudade, a indignação e o remorso, contra a espessura das trevas opacas tal um véu de luto".

De volta a Lisboa, com o seu casamento ainda outra vítima da guerra, o médico traumatizado não encontra consolo. "Flutuo entre dois continentes que me repelem, nu de raízes", diz. "Deixei de ter lugar fosse onde fosse, estive longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui, a estes outonos de chuvas e de missas, estes demorados invernos despolidos como lâmpadas fundidas".

Mesmo o sexo não serve para alívio, ou distracção, já que ele é capaz apenas de encontrar mulheres "como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno". A história do narrador desdobra-se ao longo de uma longa noite ébria em que ele consegue, embora emocionalmente divido, seduzir uma mulher que acaba de conhecer num bar, e "que oferece o ar asséptico competente e sem caspa das secretárias de administração". Ele sabe que este escape erótico vai acabar como todos os outros : com "a derrota molhada de dois corpos exaustos no colchão", após um coito que tem o "júbilo mole com que dois fios de esparguete se cruzam".

Como Anton Chekhov, William Carlos Williams e Moacyr Scliar, o Sr. Lobo Antunes pertence a esse selecto grupo de escritores que também são médicos - um psiquiatra, para ser mais preciso, tendo exercido num hospital de campanha em Angola. Mas o romancista médico talvez mais se assemelhe a Louis-Ferdinand Céline, cujo "Viagem ao Fim da Noite" é também um reflexo grotesco sobre o horror da guerra e o fracasso do imperialismo europeu em África. Lobo Antunes contou como, quando era adolescente, conheceu o "deslumbramento" com a leitura de "Morte a crédito" de Céline, e que escreveu uma carta para o francês misantropo, que lhe terá respondido com, como recorda, "uma ternura imensa."

A versão original do romance de Lobo Antunes tem um título ao estilo de Céline, adequadamente escatológico, que se refere à anatomia de Judas e que se trata de uma expressão da gíria portuguesa que significa algo como "fim do mundo." Jull Costa teve de encontrar um substituto menos pungente [a tradução aqui referida, a mais recente, leva o título em inglês "The Land at the End of the World"], como foi feito numa tradução anterior, publicado em 1983, intitulando o livro de "South of Nowhere". Mas uma vez que a história começa, a sua prestação sobre a linguagem do romancista e do seu estilo é simplesmente esplêndida. Ele criou um narrador memorável desarticulado, e ela conseguiu capturar, perfeita e fielmente, o tom amargo, alucinado e cada vez mais desesperado do seu monólogo.

Talvez devido à sua experiência como psiquiatra, Lobo Antunes é também um escritor extraordinariamente observador, que assim parece ter conseguido um dom especial para inventar metáforas incomuns, mas acertadas. Nuvens de chuva nos trópicos são "tão pesadas como úberes," um soldado exausto atira a sua espingarda "por cima do ombro como se fosse uma cana de pesca inútil", uma professora magra de um posto colonial deserto tem "clavículas tão salientes como as sobrancelhas de Brejnev", e durante a recruta o narrador encontra-se "à ilharga de um aspirante gordo e inseguro como um pudim flan na borda de um prato".

[...]

por Larry Rohter
em The New York Times
29.06.2011
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

1 de outubro de 2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Os Cus de Judas


Encurralado entre o arame farpado das lágrimas e o muro frio da raiva, Lobo Antunes, mergulhado no terror das memórias ainda incandescentes de África, leva-nos em visita guiada ao horror, ao medo, à solidão e à revolta da guerra que é passado mas sobrevive, estrebuchando mas nunca morrendo, em todas as suas obras.

Olhares macabros, memórias de terror, tristeza de quem viveu algo que ainda resiste na alma, este é um retrato angustiado e revoltado. O narrador, nunca nomeado, podia ser Lobo Antunes. Médico como ele, sofreu a dor dos outros, camaradas na desgraça, vítimas de um regime assassino. Passadas as dores do corpo, permanecem as da alma, as mais duras de viver.

São estas memórias da grande noite de Angola que o narrador desfia perante uma mulher, também ela, só. Numa esplanada, depois num apartamento solitário e cinzento, sonhando com um sexo sem riso que provavelmente tentaria redimir-lhe o passado. Ilusões de futuro, para quem o passado é uma espécie de morte lenta, por consumar.

E a guerra depois da guerra que é a solidão. E o homem que a guerra não fez homem, afinal, apenas uma alma revolta no deserto, sem sonhos nem esperança, apenas uma memória negra de morte ou vermelha de sangue. Um homem só, pássaro ferido que um dia quis voar. Agoniza. À sua frente um futuro que nada lhe oferece. Atrás de si um passado que o persegue e absorve. Devora. Devagar… sadicamente devagar, como na agonia do soldado que morre com as tripas na mão. A espaços emerge a violência; a violência da guerra colocada nas letras carregadas, numa caneta que rasga o papel como as metralhadoras rasgavam as carnes inocentes dos soldados, esventrados por causa de uma mentira chamada Pátria.

Também o amor toma parte neste festim de horrores; as saudades e a mágoa do amor perdido de Sofia, um amor roubado pela PIDE. Um amor que se mistura com o prazer triste da sua interlocutora; um prazer magoado porque é impossível fugir da memória.

Solidão, poesia, violência, amor e morte. É assim nos Cus de Judas, ou seja, nos confins de Angola ou nas profundezas da alma de ALA.

Avaliação pessoal: 9.5/10


por Manuel Cardoso
25.05.2011

30 de abril de 2011

Nuno Martins: Opinião sobre Os Cus de Judas


Recentemente li mais um livro de um dos maiores escritores Portugueses vivos.
 
O livro em questão é "Os Cus de Judas" de António Lobo Antunes, apontado por muitos como o nosso próximo "Nobel da Literatura".
 
Este livro, o segundo na sua já vasta carreira, publicado em 1979, é uma espécie de relato profundo, duro e intimista sobre a sua experiência durante os 27 meses que serviu como Alferes/Tenente miliciano médico na guerra colonial, mais propriamente em Angola.
 
O livro funciona como uma espécie de diálogo entre ele a uma outra personagem feminina, que se inicia num bar de noite e continua noite dentro até de manhã na casa dele.
 
Dividido em 23 capítulos, identificados com as letras do alfabeto, cruza o presente (da época em que foi escrito o livro), com o passado, através da descrição da guerra.
 
Os episódios em relação à guerra são duros, vistos com a intensidade de quem neles participou, com uma linguagem própria, sem pudor e sem esconder nada, descrevendo a violência exterior da guerra, com os combates, mortes, feridos, sangue, etc., como a interior, própria de quem nela participava, com os seus conflitos morais ou ausência deles.
 
Os intervenientes são apresentados como pessoas normais que, sujeitas à situação particular da guerra, respondem às situações de diversas maneiras, mostrando a natureza humana debaixo de condições adversas...
 
Fica também demonstrado neste livro uma crítica muito grande ao regime, tanto nos acontecimentos relativos às intervenções de inspectores da PIDE no terreno, como às chefias militares e políticas em Lisboa.
 
Adorei este livro, não é de leitura fácil e tem passagens muito fortes, tal como os restantes livros de Lobo Antunes é para ser lido com muita calma, paciência e gosto.
 
Mostra uma fase difícil na história portuguesa contemporânea, que deixou feridas, físicas e psicológicas, a uma geração inteira de jovens que foram enviados para a guerra, sem saber muito bem porquê...
 
Recomendo este livro a todos.


por Nuno Martins
17.08.2008

7 de maio de 2010

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Os Cus de Judas


Há dias, na sequência da leitura d[e] comentários deixados n[um blog] que falava de uma das [] habituais crónicas na Visão [de Lobo Antunes], fiquei com uma vontade imensa de ler algo do autor. Tive saudades do espinhoso rendado com que define as suas personagens, dos seus momentos de imensa ternura, das suas solitárias reflexões, das suas saudades, das suas alegrias, das suas vidas…

Assim, logo que terminei a leitura que tinha em mãos (gosto de ler ALA sem ruído) decidi reler “Os cus de Judas” que havia lido há uns bons vinte anos e que tinha aqui, bem na minha frente, pois comprei a sua belíssima reedição.

Que posso dizer?

Claro que não foi uma surpresa.
 
Porém, se por um lado, uma vez que já o havia lido, nem o tema nem a sua personagem foram uma verdadeira novidade para mim, já a compreensão que tive dele foi algo surpreendente.

O livro fala-nos da experiência de um homem que faz a guerra em África, neste caso específico em Angola. Fala-nos dos horrores que protagonizou, de outros a que assistiu, da dor, da saudade, da revolta, da ausência de humanidade que se instalava bem como dos teimosos flashes da tomada de consciência da inutilidade de tudo aquilo, do sentimento de injustiça, da carência de amor que se pretende minimizar em relações furtivas e roubadas, em masturbações solitárias com sabor a amargo, das lembranças...

Fala-nos, enfim de uma guerra que é, no fundo, todas as guerras em todos os sítios em todos os tempos.

É o tipo de livro que me cria uma imensa ansiedade pois quero acabá-lo rapidamente e, por outro lado, uma enorme saudade mesmo ainda antes de ler a sua última página.

Esta leitura teve o condão de me fazer perceber muitas coisas de uma forma muito mais profunda. De ver para além do que é evidente, de intuir, de me envolver…

Agora, altura em que já se entrepôs a distância do tempo, vejo todos estas lembranças, estes relatos, de uma forma muito mais profunda. Consigo entender muito melhor a complexidade de algo que até poderá parecer linear.

É que da primeira vez que li o livro tudo era muito presente ainda, muito falado, muito explorado o que me terá levado a uma leitura (como muitas outras) mais superficial tal era a urgência do saber. A idade, por outro lado, talvez não me permitisse ainda a capacidade de compreensão e de reflexão muito para além da evidência…

Como comecei, termino.

Que posso dizer de um livro que apenas acabei e já pegaria novamente nele para ler?

Fabuloso.

Já agora um pequeno reparo. Esta edição comemorativa está lindíssima. O livro, enquanto objecto que se manuseia, que se aprecia, que se pega, que se olha, que se cheira é, pelo seu bom gosto, um verdadeiro convite à leitura.


por Maria Celeste Pereira
06.05.2010

5 de abril de 2010

Taize Odelli: opinião sobre Os Cus de Judas

Frases longas, parágrafos sem fim e nenhuma ordem cronológica de apresentação dos fatos. Essa é a característica inconfundível de António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa. E não há forma melhor de conferir sua genialidade narrativa como em uma de suas primeiras publicações, Os Cus de Judas.

Formado em medicina, com especialização em psiquiatria, Lobo Antunes atuou como médico na guerra de independência da Angola. E foi essa experiência que marcou profundamente seus três primeiros romances, entre eles Os Cus de Judas. Falo isso para ilustrar o enredo da obra, pois essa vivência da guerra é que gerou uma das grandes obras da língua portuguesa.

Publicado no Brasil pela Alfaguara, Os Cus de Judas conta os dias de um médico do exército português na guerra angolana, alternando o relato das tragédias do país com lembranças da juventude do narrador. Uma leitura densa, carregada de emoção e reflexões sobre a guerra e a própria vida. O protagonista/narrador passa anos em Angola, um “cu de Judas” sem lei, onde todos parecem animais, onde a morte pode aparecer a qualquer momento.

Com referências a livros, músicas e filmes, o protagonista ilustra suas vivências, procurando passar ao leitor da melhor forma possível os seus sentimentos em relação a cada momento de sua vida. A angústia de estar longe da mulher grávida de sua primeira filha, a saudade da família, que de certa forma o empurrou para a guerra, os horrores dos seus pacientes mutilados. E a constatação de que a única coisa realmente útil que podia fazer por eles era trazer a morte. Pois quem gostaria de se manter vivo para ver mais das atrocidades, da miséria dos cus de Judas para onde eram enviados?

António Lobo Antunes fala de como a guerra se crava na pessoa, tornando-a difícil de esquecer, de arrancar da pele. Os dias de serviço em Angola afetam diretamente a personagem, lhe tira um pedaço da vontade de se manter vivo. Na volta para casa, ele se sente tão perdido que apenas a guerra lhe parece familiar, aconchegante. Contudo, um conforto longe de ser apreciado. O protagonista se sente tão desesperado a essa vivência desumana que se segura em qualquer coisa, por mais insignificante que ela seja, para se manter em pé. Principalmente quando percebe que parte da negligência do país vem de seus próprios companheiros.

A guerra não tem sentido, nem propósito, além de matar e destroçar. Como sair bem de um conflito que não leva a nada, depois de ver milhares de pessoas perecerem por conta dele? São pensamentos assim que não saem da mente do narrador, que muda sua ideologia e abrem nele feridas que nunca vão se cicatrizar. O que resta a ele é aprender a conviver com ela, com as lembranças dela, para se manter são.

Lobo Antunes construiu uma narrativa de uma intensidade tão real que torna impossível de largar o livro, por mais complicado que ele pareça ser. Logo o leitor se habitua ao seu estilo, e entra nos horrores do combate que ele vivenciou. Terminando a leitura com uma melancolia profunda por, como o protagonista, não poder fazer nada para diminuir o sofrimento daqueles que na guerra vivem. Uma leitura recomendada, de uma crítica relevante sobre atos irracionais que não trazem benefício algum.


por Taize Odelli
citado de Ambrosia
21.03.2010

30 de janeiro de 2010

José Alexandre Ramos: Os Cus de Judas - a primeira angústia, 2º capítulo


É generalizada a ideia de que Os Cus de Judas (de 1979, publicado uns meses depois deMemória de Elefante) é um livro sobre a guerra colonial em Angola. Está correcto se considerarmos que é o principal assunto trazido à catarse feita na trilogia dos três primeiros livros publicados (que eu designo pessoalmente como os três capítulos da primeira angústia de António Lobo Antunes), mas não é apenas e tão só sobre a guerra. Trata-se do capítulo seguinte de Memória de Elefante em jeito de prequela, uma vez o leitor vai aprofundar o conhecimento sobre factos da vida da personagem (que podemos considerar a mesma) que no livro anterior são ainda ligeiramente abordados: a sua experiência e terrores da guerra, o deslocamento de ter saído de um país (Angola em conflito) que não era o seu e regressado a uma pátria (concretamente a Lisboa e aos seus habitantes) que já não reconhece e, consequentemente, a sua solidão. Aliás, ambos os livros, por abordarem temas tão intrínsecos à personagem que têm em comum, poderiam ser um só livro.

Porém, ao contrário do que aconteceu em Memória de Elefante, cujo discurso surge quase todo na terceira pessoa, Os Cus de Judas é um longo monólogo de uma só personagem/narrador, ligeiramente modulado pelas reacções do seu interlocutor mudo – uma mulher que encontra num bar e com quem vai passar a noite. Menos rendilhado de metáforas, é ainda um texto muito mais maduro que o do livro anterior, em que o discurso na primeira pessoa permite partilhar com o leitor de forma muito mais directa toda a efusão de sentimentos que sai do depoimento da personagem: a procura de afecto, a frustração de um amor perdido, o desespero e os fantasmas da memória, a dificuldade em readaptar-se no seu próprio país, e a esperança de um alento que ansiosamente procura, para recomeçar a vida perdida entre os três anos passados na guerra e alguns após o seu regresso.

Para além da tragédia pessoal da personagem que monologa com uma mulher, é um dos primeiros gritos de atenção para aquilo que parecia ter passado despercebido no seio da sociedade portuguesa: que homens partiram para uma guerra que não reconheciam como sua, que regressaram com mazelas, a culpa, a vergonha e os remorsos dos seus actos em nome de um conceito de pátria duvidoso. Tudo parecia esquecido ou todos queriam esquecer essa nódoa. Assim, Os Cus de Judas acaba por ser também uma crítica social e política não só a quem urdiu e alimentou o conflito mas também aos novos donos do poder e a uma sociedade indiferente a tudo isso, de um tempo perturbado com o fim dessa guerra e os distúrbios de uma revolução recente.

Sem outras palavras que possa ou saiba acrescentar para dizer mais sobre este livro, vou citar um longo trecho do penúltimo capítulo (tem 23, ordenados de A a Z) que destaco por considerar resumir a sua essência:

«Pode apagar a luz: já não preciso dela. Quando penso na Isabel cesso de ter receio do escuro, uma claridade ambarina reveste os objectos da serenidade cúmplice das manhãs de julho, que se me afiguraram sempre disporem diante de mim, com o seu sol infantil, os materiais necessários para construir algo de inefavelmente agradável que eu não lograria jamais elucidar. A Isabel que substituía aos meus sonhos paralisados o seu pragmatismo docemente implacável, consertavas as fissuras da minha existência com o rápido arame de duas ou três decisões de que a simplicidade me assombrava, e depois, de súbito menina, se deitava sobre mim, me segurava a cara com as mãos, e me pedia Deixa-me beijar-te, numa vozinha minúscula cuja súplica me transtornava. Acho que a perdi como perco tudo, que a sacudi de mim com o meu humor variável, as minhas cóleras inesperadas, as minhas exigências absurdas, esta angustiada sede de ternura que repele o afecto, e permanece a latejar, dorida, no mudo apelo cheio de espinhos de uma hostilidade sem razão. E lembro-me, comovido e suspenso, da casa do Algarve rodeada de ralos e figueiras, do céu morno da noite tingido pelo halo longínquo do mar, da cal das paredes quase fosforescente no escuro, e da violenta e informulada paixão das minhas carícias que pareciam deter-se, irresolutas, a centímetros do rosto dela, e se dissolviam por fim num afago indefinido. Penso na Isabel, e uma espécie de maré, tensa de amor, indomada e vigorosa, sobe-me das pernas para o sexo, endurece-me os testículos em crispações de desejo, alarga-se-me no ventre como se abrisse grandes asas calmas nas minhas vísceras em batalha. Percorremos de novo os antiquários poeirentos de Sintra à procura de móveis de talha, entramos no aquário azul da boîte onde pela primeira vez toquei, maravilhado, a sua boca, inventamos um fantástico futuro de filhos morenos numa profusão de berços, e sinto-me feliz, justificado e feliz, ao abraçar o seu corpo na vazante dos lençóis, de que as pregas formam como que ondas a caminho da praia branca da almofada, onde as nossas cabeças, a tua escura, a minha, clara, se juntam numa fusão que contém em si os germens estranhos de um milagre.
Pode apagar a luz: talvez não fique tão sozinho como isso neste quarto enorme, talvez que a Isabel ou você voltem um dia destes a visitar-me, eu ouça a voz ao telefone, a voz miudamente precisa pelos furos de baquelite do telefone, o olá dela e o seu olá a entrarem-me na orelha na oleosidade agradável e morna dos pingos de tirar a cera da minha infância, a vá buscar no emprego, esperando dentro do carro numa impaciência de cigarros, a corrigir o nó da gravata, em bicos de nádegas, no espelho, ela ou você se instale no meu lado no automóvel às escuras, me sorria, se debruce para colocar o cassete da Maria Bethânia no gravador, e me passe ao redor da nuca os firmes cotovelos da ternura. Deixa-me beijar-te. Deixe-me beijá-la enquanto se veste, enquanto aperta o soutien nas costas em gestos cegos e canhotos que lhe tornam as omoplatas salientes como as asas de um frango, enquanto procura os anéis de prata na mesinha de cabeceira com uma ruga de atenção infantil, vertical, na testa, enquanto luta com a escova contra a resistência ondulada do cabelo, o cabelo excessivo que a minha calvície inveja, num ciúme feroz a que não consigo fugir. Todas as manhãs penso quando começarei a fazer a risca na orelha, puxando trabalhosamente uma madeixa esfiada pelo cocuruto nu, e principio a ler sem ironia os anúncios de postiços do jornal, acompanhados pelas fotografias de hirsutos carecas satisfeitos, sorrindo risos peludos de gorilas. Afasto-me dos retratos do ano passado como um barco do cais, e parece-me às vezes assemelhar-me a uma esquisita caricatura de mim próprio, que as rugas deformam de um arremedo de trejeitos. Deixa-me beijar-te: que criatura vai querer beijar a paródia triste do que fui, o estômago que cresce, as pernas que se afilam, o saco vazio dos testículos cobertos de longas crinas cor de couro? Reflectindo melhor, não apague a luz: quem sabe se esta manhã oculta dentro de si uma noite mais opaca do que todas as noites que até agora atravessei, a que vive no fundo das garrafas de uísque, das camas desfeitas e dos objectos de ausência, uma noite com um cubo de gelo à superfície, três dedos de líquido amarelo por baixo, e um silêncio insuportável no interior vazio, uma noite em que me perco, a tropeçar de parede a parede, tonto de álcool, falando comigo o discurso da solidão grandiosa dos bêbados, para quem o mundo é um reflexo de gigantes contra os quais, inutilmente, se encrespam.
Não apague a luz: quando você sair a casa aumentará inevitavelmente de tamanho, transformando-se numa espécie de piscina sem água em que os sons se ampliam e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra o corpo como se as marés do equinócio na muralha da praia, rolando sobre mim espumas foscas de sílabas. De novo escutarei a fermentação da geladeira, a ronronar o seu sono de mamute, os pingos que se escapam do rebordo das torneiras como as lágrimas dos velhos, pesadas de conjuntivite ferrugenta. Hesitarei na camisa, na gravata, no terno, e acabarei por bater a porta da rua como se abandonasse atrás de mim um jazigo intacto onde a morte floresce nas jarras de vidro facetado e nos caules podres dos crisântemos. Bater a porta da rua, percebe, como bati a porta de África de regresso a Lisboa, a porta repugnante da guerra, as putas de Luanda e os fazendeiros do café em torno dos baldes de champanhe, reluzentes como as caixas forradas de lantejoulas dos ilusionistas, fumando cigarros americanos de contrabando na penumbra de um tango. A porta de África, Isabel: um médico homossexual, cujas pestanas se enrolam em nós como os tentáculos de um polvo, acolitado por um cabo trocista, de patilhas, ao qual se deve unir de pensão em pensão num suspirozinho exausto de ventosa, examina-nos o mijo, a merda, o sangue, para que não infectemos o País do nosso pânico da morte, da lembrança do rapaz louro coberto por um pano no meu quarto, dos eucaliptos de Ninda e do enfermeiro sentado na picada de intestinos nas mãos, a olhar para nós num espanto triste de bicho. Trazemos o sangue limpo, Isabel: as análises não acusam os negros a abrirem a cova para o tiro da PIDE, nem o homem enforcado pelo inspector na Chiquita, nem a perna do Ferreira no balde dos pensos, nem os ossos do tipo de Mangando no telhado de zinco. Trazemos o sangue tão limpo como o dos generais nos gabinetes com ar condicionado de Luanda, deslocando pontos coloridos no mapa de Angola, tão limpo como o dos cavalheiros que enriqueciam traficando helicópteros e armas em Lisboa, a guerra é nos cus de Judas, entende, e não nesta cidade colonial que desesperadamente odeio, a guerra são pontos coloridos no mapa de Angola e as populações humilhadas, transidas de fome no arame, os cubos de gelo pelo rabo acima, a inaudita profundidade dos calendários imóveis.
Às vezes, sabe como é, acordo a meio da noite, sentado nos lençóis, inteiramente desperto, e parece-me ouvir, vindo do banheiro, ou do corredor, ou da sala, ou do beliche das miúdas, o apelo pálido dos defuntos nos caixões de chumbo, como a medalha identificativa que trazemos ao pescoço pousada na língua à maneira de uma hóstia de metal. Parece-me ouvir o rumor das folhas das mangueiras de Marimba e o seu imenso perfil contra o céu enevoado do cacimbo, parece-me ouvir o riso súbito e orgulhosamente livre dos Luchazes, que estala junto de mim como o trompete de Dizzie Gillespie, esguichando do silêncio num ímpeto de artéria que se rasga. Acordo no meio da noite, e saber que tenho o mijo, a merda e o sangue limpos, não me tranquiliza nem me alegra: estou sentado com o tenente na missão abandonada, o tempo parou em todos os relógios, no do seu pulso, no despertador, na telefonia, no que a Isabel deve usar agora e não conheço, no que existe, desconexo e palpitante, na cabeça dos mortos, o pólen das acácias envolve-nos de leve de um ouro sem peso e sem ruído, a tarde arrasta-se no capim numa moleza animal, levanto-me para urinar contra o que resta de um muro e tenho o mijo limpo, percebe, o mijo irrepreensivelmente limpo, posso regressar a Lisboa sem alarmar ninguém, sem pegar os meus mortos a ninguém, a lembrança dos meus camaradas mortos a ninguém, voltar para Lisboa, entrar nos restaurantes, nos bares, nos cinemas, nos hotéis, nos supermercados, nos hospitais, e toda a gente verificar que trago a merda limpa no cu limpo, porque se não podem abrir os ossos do crânio e ver o furriel a raspar as botas com um pedaço de pau e a repetir Caralho caralho caralho caralho caralho, acocorado nos degraus da administração.» *

Termino dizendo que considero este livro como a primeira obra-prima de António Lobo Antunes, onde se nota com evidência o amadurecimento da sua técnica e um grande passo no avanço do seu inconfundível estilo.

Os Cus de Judas, Dom Quixote, 25ª edição, 2004, pp 186-189

José Alexandre Ramos
30.01.2010

17 de julho de 2009

Denis Araki: opinião sobre Os Cus de Judas


Sinopse: O livro revela aos leitores brasileiros, pela primeira vez, os horrores da guerra colonial na África, o reencontro de Portugal consigo mesmo e a dilacerante experiência de viver em silêncio uma ditadura fascista.

 
edição Objetiva, Brasil
O português António Lobo Antunes, para alguns eternamente injustiçado pelo Nobel de Literatura de 1998, em sua recente visita ao Brasil, reafirmou seu carinho por nosso País. Ele não consegue imaginar o Brasil como um país, o que vem a sua mente são pessoas, doces, seu avô, que era de Belém, as cocadas de sua tia. É a visão de um autor que vem realizando um profundo retrato do Portugal contemporâneo, questionando o conceito de nação.

Os Cus de Judas, livro de 1979 que compõe a primeira trilogia do autor (os outros livros são Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno), a que ele considera de aprendizagem, aborda os efeitos da guerra. A guerra em questão é a da libertação de Angola e seu resultado na figura de um médico enviado para o combate. Narrado em primeira pessoa, o médico passa uma madrugada até o amanhecer com uma mulher, começando em um bar e depois em sua casa. Nesse período ele conta sua história, entremeada com reflexões. O tempo é demarcado pela simulação de diálogo com a mulher, que não exprime uma palavra no romance.

Ainda que muito duro contra a guerra e contra essa noção de serviço à pátria, o texto possui momentos líricos, na medida do possível, como no trecho: “formávamos a cada jantar a anti-Última Ceia, o desejo comum de não morrer constituía, percebe, a única fraternidade possível.” O narrador sofre da falta de afeto que o atinge, ou, como ele prefere descrever, “esta angustiada sede de ternura que repele o afecto”. É a impossibilidade do amor e da readaptação que o aflige. Ele nasceu em um país “estreito e velho” e foi mandado para os “horizontes sem limites” das planícies de Luanda para cumprir o peso da tradição militar de sua família, requisito para se tornar um homem. O ressentimento a essa tradição é marcado ao longo do livro, e são poucos os momentos de ternura, principalmente de sua infância e de suas filhas.

É na descrição do cotidiano que sentimos o descaso do governo português e a dureza de se estar na guerra; nos relatos dos feridos vemos a falta de sentido no combate. É esse desconforto, essa dureza que faz com que os soldados descarreguem sua tensão no momento do combate. Algo conveniente.

Após vivenciar esses horrores, ele também vê a falta de sentido no cotidiano de sua cidade: “de chinelos, na cozinha, você prepara um café forte como um electro-choque que a projete para fora de seu invólucro de sono na direcção do emprego.” As pessoas seguem a vida apáticas enquanto os soldados estão “defendendo” a pátria. A falta do valor dos enviados fica mais evidente, “porque uma camioneta era mais necessária e mais cara do que um homem um filho faz-se em cinco minutos e de graça não é verdade uma viatura demora semanas ou meses a atarraxar parafusos.”

Há quem prefira as alegorias e o onírico de Saramago, há quem prefira a crueza do mundo e os profundos mergulhos na psique humana que Lobo Antunes proporciona. Depois de passar pelos Cus de Judas, percebe-se que a vida segue e um profundo desprezo, uma falta de sensibilidade, atinge aqueles que entraram forçados nessa guerra. Assim como aqueles que nem pisaram naquela terra vermelha.


por Denis Araki
13.07.2009

30 de dezembro de 2007

Sergio del Molino: En El Culo Del Mundo


Nunca acreditei naquilo de “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, muitíssimo menos na variante “diz-me o que lês e dir-te-ei quem és”. Nem sequer “diz-me o que escreves e dir-te-ei quem és”. Oxalá as pessoas fossem tão simples. Oxalá, aplicando essas premissas, pudéssemos desenvolver os parâmetros necessários com a menor margem de erro que nos permitissem etiquetar alguém apenas com um golpe de vista. A intuição, a exploração das contradições, em definitivo, o processo de descobrir uma pessoa seria reduzida a uma simples fórmula. É o que procuram os portais de internet de contactos e agências matrimoniais: afinidades eleitas mediante combinações matemáticas. Oxalá fosse tão simples julgar e conhecer, mas, por sorte, as pessoas sempre acabam por surpreender-nos, terão sempre uma parte que elas mesmas desconhecem, sempre terão uma nova cara a mostrar-nos. Por isso não me etiquetem com leviandade quando confesso o meu pecado: gosto de António Lobo Antunes.

Sim, é denso, arcaico em certas ocasiões, como um velho e artrítico deus. Cinzento e metafísico e com uma tendência barroca que com frequentemente enfeita o ritmo da narração. Mas gosto dele, desfruto-o, estremece-me. E isso não me classifica em nenhum lote intelectual, porque também gosto de muitos autores que se situam no extremo oposto, do contundente e cómico estilo desnudado. Creio que, salvas as distâncias, o bom leitor é como um bom gourmet ou um bom apreciador de cerveja (outro dia falarei da minha paixão pela cerveja): gostam dos extremos, provar novos territórios e decidir por uma leitura adequada ao momento e ao estado de espírito. Qualquer escritor pode ser sublime ou indiferente segundo a disposição que tenha o leitor, como uma boa cerveja fumada norueguesa pode saber a água de esfrega se bebida em pleno verão espanhol. Cada livro tem o seu leitor e o seu momento. Estou convencido disso. Só os clássicos aguentam firmes as releituras sob condições distintas e distantes.

Dizia que gosto de António Lobo Antunes, e não sou uma alma desgraçada pela melancolia. Lobo Antunes é uma descoberta tardia. Não havia lido nada seu até cerca de um ano, mas pouco a pouco, e graças às maravilhosas edições da Siruela, me vou embebendo cronologicamente dos livros do português, de que gosto mais do que os artigos semanais que publica na Bebelia. Comecei com Os Cus de Judas, um romance que tem tantos anos como eu e que se publicou num Portugal em pleno rescaldo revolucionário, desorientado e desarmado, empenhado em olhar para a frente e despir-se do seu passado salazarista como de roupa emprestada. Algo parecido ocorria do outro lado da fronteira, mas penso que os portugueses souberam sair das suas trevas melhor que os espanhóis, com mais dignidade e menos medo pela besta parda escondida.

O trauma de Portugal chama-se Angola. É o seu Vietname, como Marrocos foi para a Espanha dos anos 20. Angola é os cus de judas, confins do mundo. E há muito de Joseph Conrad nesta aproximação a África. É inevitável: para os ocidentais, O Coração das Trevas é o filtro pelo qual vemos, consciente ou inconscientemente, a nossa própria barbárie. Nesse conto narrado por um destemido aventureiro a bordo de um barco amarrado no rio Tamisa, Conrad inaugurou, sem intenção, a literatura da culpabilidade em que os europeus foram dando forma à nossa condição de colonizadores, conquistadores e saqueadores, e nos fomos rodeando dos nossos próprios fantasmas, olhando-os nos olhos sem saber muito bem que fazer com eles. Edward W. Said estudou isso muito bem em Cultura e Imperialismo. O romance de Lobo encaixa-se, mas nessa relação com a nossa própria má consciência. Por certo, Caché, o filme de Michael Haneke, também incursa por esses delicados assuntos, acariciando a maldita relação entre França e Argélia.

Um veterano da guerra de Angola, só e derrotado, alter ego evidente do escritor e assombrado pelos seus próprios demónios. Ele é o eixo de Os Cus de Judas. Construído em três planos temporais distintos, é uma exploração audaz, inquietante e infinitamente triste sobre a solidão, o esquecimento e as decisões que o arrependimento não remedeia. Um grande livro muito adequado para nós, europeus que ouvimos o grito das culturas que sempre submetemos sem que nunca nos preocupássemos em entender. Uma obra sem moral, como a própria vida.


por Sergio del Molino
11.02.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

4 de setembro de 2007

Ricardo Turnes: opinião sobre Os Cus de Judas


Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.
Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segredados.

Um bombardeamento ideológico, quase como uma lavagem ao cérebro. Pega-se no livro (neste, no anterior), algumas páginas volvidas e estamos mentalmente esgotados, enjoados e enojadas pelo realismo cru da abordagem. O bombardeamento é implacável, constante, não nos deixa - não há espaços para - descansar, e pousar o livro não chega. Serve-se de palavras duras, agressivas, de frases excessivamente longas, sórdidas, carregadas de adjectivos e referências culturais dispersas, construídas de forma a nos empurrarem a atenção para o fundo de um labiríntico poço de funcionalismos metafóricos. Bem-vindos ao início do inferno da escrita de Lobo Antunes. Se ainda por lá não passaram, façam o favor.

Conhece Santa Margarida? Digo isto porque, às vezes, na messe dos oficiais decorada com o mau gosto impessoal da sala de espera de um dentista de Moscavide (flores de plástico, oleografias imprecisas cujos arabescos monótonos se confundem com o papel de parede, cadeiras hirtas semelhantes a quadrúpedes desirmanados pastando num acaso sem simetria as franjas gastas dos tapetes), a majores em reboliço abandonavam os copos de uísque, de cubos de gelo substituídos por dados de póquer, para, erectos como soldados de chumbo barrigudos, saudarem a entrada de uma senhora que qualquer coronel subitamente urbano comboiava, deixando atrás de si, perceptível na tremura dos galões, um rasto cochichado de cio de caserna, que se cristalizaria em esquemas explicativos no mármore venoso dos urinóis, destinado à alfabetização dos faxinas.

Um homem, o narrador, alguém que se confunde com o próprio autor do livro a ponto de acreditarmos que são a mesma pessoa, fala para uma mulher enquanto a tenta seduzir. O tema do monólogo é a guerra colonial, a sua participação como médico de campanha em Angola, 1971, as recordações, os efeitos devastadores que permanecem para a posteridade, para sempre, na memória de quem esteve no Ultramar - uma fusão que não separa o passado do presente, como que a dizer: somos ainda aquilo que um dia fomos obrigados a ser. Os capítulos são as letras do alfabeto, e o fio condutor leva-nos por todos os recantos da recordação: eis aqui a vergonha na sua totalidade, contada em todas as letras, para que não haja dúvidas, para que nada fique esquecido. Para Lobo Antunes, a experiência da guerra significa uma espécie renascimento: os homens que regressaram vivos voltaram a nascer pelo útero de uma puta chamada Pátria. Terão, de futuro, de reaprender a viver em conformidade com toda uma nova percepção da realidade.

Porque camandro não se fala nisto? Começo a pensar que o milhão e quinhentos mil homens que passaram por África não existiram nunca e lhe estou contanto uma espécie de romance de mau gosto impossível de acreditar, uma história inventada com que a comovo a fim de conseguir mais depressa (um terço de paleio, um terço de álcool, um terço de ternura, sabe como é?) que você veja nascer comigo a manhã na claridade azul pálida que fura as persianas e sobe dos lençóis, revela a curva adormecida de uma nádega, um perfil de bruços nos colchão, os nossos corpos confundidos num torpor sem mistério.

O personagem é o mesmo de "Memória de Elefante", a época abordada também, a perspectiva é que mudou o objecto focado: a família, a esposa e filhas, que eram o centro do mundo no primeiro livro, vêm-se substituída pelas explosões de minas e morteiros, pelo sangue escuro e vísceras dos soldados desafortunados, pelos cheiros da terra, do vómito, do esperma, e da fruta de África, pela carne ferida, decepada e amputada, pelo sexo exposto ao abuso da violação, pelas prostitutas de cabarés rascas das cidades decrépitas de Angola, pela Pide e pelo Estado Novo, pelos crimes de guerra e pelas vítimas do medo, por uma vivência de absurdo completo em que nada parece fazer sentido e de onde não há como escapar - só pela morte ou loucura.

Não sucede o mesmo consigo? Nunca teve vontade de se vomitar a si própria?
...
Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos, e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos e protestos de revolta.

Em Mangando e Marimbanguengo, vi a miséria e a maldade da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de pássaros feridos dos militares, no seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em calções espojado pela mesa, cães vadios a lamberem restos na parada, a bandeira pendente do seu mastro idêntica a um pénis sem força, vi homens de vinte anos sentados à sombra, em silêncio, como os velhos nos parques, e disse ao furriel enfermeiro, que desinfectava o joelho com tintura, É impossível que um dia destes não tenhamos para aqui uma merdósia qualquer, porque, sabe como é, quando homens de vintes anos se sentam assim à sombra, num tão completo desamparo, algo de inesperado, e estranho, e trágico acontece sempre, até que me vieram informar do rádio Um tipo deu um tiro em Mangando, e eu corri para o carro onde a escolta me aguardava a aprontar-se ainda, e seguimos aos saltos para o norte pela picada que a chuva destruíra.

Aos poucos e poucos, como se imagens de objectos de que nos aproximamos no meio de um nevoeiro espesso e pesado, começamos a vislumbrar detalhes daquilo que mais tarde, em futuros romances, viria a ser uma das marcas de referência no estilo de António Lobo Antunes: parágrafos intermináveis onde não há um ponto final senão ao fim de algumas páginas. Por enquanto, e porque é apenas de uma segunda obra de que se trata, e na primeira ainda não havia destas coisas, essa abordagem estilística radical é utilizada muito ao de leve, dir-se-ia que experimentalmente, timidamente, as palavras ainda aparecem ordenadas segundo um sentido perceptível, e encontramos apenas alguns destes trechos escondidos no meio de tudo o resto (leia-se, o resto do romance), sendo que neste caso tudo o resto, mesmo assim, já se nos apresenta como estando nos limites das regras gramaticais da escrita de português. É um passo em frente utilizando a formatação da palavra.

Escute. Olhe para mim e escute, preciso tanto que me escute, me escute com a mesma atenção ansiosa com que nós ouvíamos os apelos do rádio da coluna debaixo de fogo, a voz do cabo de transmissões que chamava, que pedia, voz perdida de náufrago esquecendo-se da segurança do código, o capitão a subir à pressa para a Mercedes com meia dúzia de voluntários e a sair o arame a derrapar na areia ao encontro da emboscada, escute-me tal como eu me debrucei para o hálito do nosso primeiro morto na desesperada esperança de que respirasse ainda, o morto que embrulhei num cobertor e coloquei no meu quarto, era a seguir ao almoço e um torpor esquisito bambeava-me as pernas, fechei a porta e declarei Dorme bem a sesta, cá fora os soldados olhavam para mim sem dizer nada, Desta vez não há milagre meus chuchus, pensei eu, fitando-os, Está a dormir a sesta, expliquei-lhes, está a dormir a sesta e não quero que o acordem porque ele não quer acordar, e depois fui tratar dos feridos que se torciam nos panos de tenda, nunca os eucaliptos de Ninda se me afiguraram tão grandes como nessa tarde, grandes, negros, altos, verticais, assustadores, o enfermeiro que me ajudava repetia Caralho caralho caralho com pronúncia do Norte, viemos de todos os pontos do nosso país amordaçado para morrer em Ninda, do nosso triste país de terra e mar para morrer em Ninda, Caralho caralho caralho repetia eu com o enfermeiro com o meu sotaque educado de Lisboa, o capitão apeou-se na Mercedes num cansaço infinito, segurava a arma à laia de uma cana de pesca inútil, o povo da sanzala espreitava receoso lá de baixo, escute-me como eu escutava o rápido latir aflito do meu sangue nas têmporas, o meu sangue intacto nas têmporas, pelos buracos da varanda via o capitão a passear de um lado para o outro apertando o viático de um copo de uísque contra o peito, falando sozinho, cada um conversava sozinho porque ninguém conseguia conversar com ninguém, o meu sangue no copo do capitão, tomai e bebei ó União Nacional, o corpo do morto crescia no quarto até rebentar as paredes, alastrar pela areia, alcançar a mata em busca do eco do tiro que o tocou, o helicóptero transportou-o para Gago Coutinho como quem varre lixo vergonhoso para debaixo de um tapete, morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África, baixas insignificantes e adeus até ao meu regresso, o furriel arrumou os instrumentos cirúrgicos na caixa cromada, os canivetes, as pinças, os porta-agulhas, as sondas, sentou-se ao meu lado nos degraus do posto de socorro, espécie de vivenda pequenina para férias dos reformados melancólicos mordomos idosos, governantas virgens, os eucaliptos de Ninda não cessavam de aumentar, estamos os dois aqui sentados como eu e ele nesses tempo, Abril de 71, a dez mil quilómetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até agora nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer que fosse.

Adore-se ou deteste-se, e porque, tal como a guerra, é um livro feito de excessos e absurdos, quem o lê não o esquece tão depressa. Revelava-se e afirmava-se um Autor maior, nesse ano de 1979.

 
por Ricardo Turnes
23.08.2007

18 de junho de 2007

Ágata: opinião sobre Os Cus de Judas


Este livro, de primeira publicação portuguesa em 1979, faz 28 anos que viaja pelo mundo e por coincidência chegou às minhas mãos graças à iniciativa dos Ayuntamientos, o intercâmbio de livros. Isto de poder aceder a um livro sem que gastemos dinheiro é muito bom, designadamente as famosas trocas de livros que se promovem em várias cidades do mundo como Santiago do Chile, Bogotá, Madrid ou Barcelona.

O meu conhecimento sobre a obra de Antunes é muito escasso, apenas por algumas resenhas literárias da Babelia, uma ou outra entrevista, frases soltas de alguns amigos e pouco mais. Por isso mesmo e com a certeza de que jamais poderei ler tudo o quanto desejaria, encaro a leitura de autores para mim desconhecidos com a paixão própria dos adolescentes, aguentando o afã de terminar e lançar ao vento as minhas muito pessoais considerações com o intuito de que outros leitores, mais experimentados ou conhecedores de determinada obra partilhem comigo e com os nossos bloggers as suas leituras.

Assim com esse tremor nas mãos empenhei-me a ler “Os Cus de Judas”. Neste livro, Antunes narra-nos a experiência do seu protagonista durante a guerra de Angola, fala dos efeitos da violência que o homem tem de suportar, e como esta se converte num factor determinante da identidade individual e colectiva dos seres humanos, factor esse que quem convive com a guerra não consegue analisar com a devida distância, ainda que, por entre as frinchas da consciência vai colocando perguntas incontestáveis: como serão os seres humanos formados na guerra?, serão capazes, de amar?, se sobrevivem, serão capazes de seguir a vida sem rancores e vinganças?, ou estarão condenados a repetir a violência para sempre? Educarão os seus filhos para continuarem o seu legado sangrento? Como pode viver alguém em guerra desprovido de afectos, de carinhos, de ternuras quotidianas? Assassinar um homem melhora a sociedade?

Num documentário sobre a guerra na Sierra Leona, um dos refugiados contava como os guerrilheiros o haviam obrigado a matar o seu próprio filho a golpes de morteiro na presença da mãe; este testemunho de um feito hediondo, sádico, acaba por ser eufemizado perante a contundência das palavras suaves e comedidas do homem que o protagonizou quando termina a sua intervenção dizendo “quando dois elefantes lutam entre si, sofrem as ervas e as plantas pequenas que jamais voltarão a crescer”. Este é o destino da natureza humana submetida à pressão da violência, a desesperança do homem calejado pelas balas.

Não obstante, voltando ao protagonista, recapitulando o seu processo de assimilação perante a crueldade dos seus companheiros de batalha, logram sair, como raios de esperança, experiências humanas que contradizem a maldade engendrada pela violência tal como: “as mulheres negras, Sofia, permanecem silenciosas enquanto parem, silenciosas e serenas nas esteiras à medida que a cabeça de um filho rompe devagar no intervalo das coxas, ganha forma, se solta, um ombro se desembaraça da prega de útero que o prende, o tronco desliza para fora da vagina como o pénis a seguir ao coito, num único movimento implacável e liso, sem dor, apenas a doce separação de duas vidas…”

Os cus de Judas não é apenas Angola, são todos os países em guerra, é o país onde vivem diariamente todos os homens, mulheres e crianças que tiveram a desgraça de haver nascido em zonas de conflito, nem mais nem menos que nos confins do mundo.


por Ágata
28.05.2007
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

3 de novembro de 2006

Whisner Fraga: opinião sobre Os Cus de Judas


Provavelmente a culpa seja minha. Culpa não, é muito forte. Inabilidade. Procurei por António Lobo Antunes aqui no Leia livro e nada. Ele deve estar por aí, eu é que não me dou bem com esses mecanismos de busca, vivem me traindo. Alguém já deve ter feito algum comentário sobre o romancista português, mas, vá lá, não tem importância. Sempre há algo a dizer sobre um grande escritor.

A literatura de Antunes é sobretudo a da desilusão. Médico psiquiatra, é dono de uma narrativa intrincada, cheia de reviravoltas, idas e vindas, que deixa o leitor desatento meio perdido. E é um exímio artesão, arquiteta metáforas como ninguém.

António Lobo Antunes é um best seller. Hoje consegue o pão de cada dia por meio de suas palavras, o que causa inveja. Isso, evidentemente, sem fazer muitas concessões, o que dá ainda mais nos nervos de outros escritores e intelectuais. A crítica não é muito boazinha com ele.

Um de seus primeiros livros, "Os cus de Judas", foi o escolhido para ser alvo desta resenha. Porque foi até bem vendido no Brasil, muita gente conhece. Em 1971, Lobo Antunes embarca para a Angola, onde presenciará um cenário de guerra. É daí que nasce Os cus de Judas. O romance aborda a independência angolana, as injustiças, a violência, a condição humana em um conflito em que não há regras e a vida nada representa.

O narrador do romance está em Portugal e relembra, de uma maneira crua e sem rodeios, o que passou em Angola. As marcas de injustiças que transformaram o protagonista do livro em um ser desesperançado.
Vai um trecho da obra para que vocês tenham idéia do que estou falando:

“Às terças e sextas-feiras, uma cabo-verdiana que nunca vi, e com quem comunico por intermédio de mensagens cerimoniosas depositadas no armário da cozinha, repõe os objectos e os móveis na ordem excessivamente geométrica da solidão, a que a falta de pó confere a impessoalidade asséptica de uma sala de pensos, e pendura no arame da varanda a minha monótona roupa de homem que nenhum soutien alegra de sugestões conjugais. De tempos a tempos, mulheres encontradas por acaso no canto de sofá de uma reunião de amigos, como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno, sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que conheço já de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidé, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna. Despedimo-nos no vestíbulo trocando números de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido que a falta de bâton torna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no lençol a mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que certifica o amor acabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos de odores de cocote, e um traço de base no pescoço descoberto na manhã seguinte durante o hara-kiri sangrento da barba, me garantem a breve passagem real pela minha cama do que cuidava já serem os imprecisos artefactos que a melancolia inventa.”
  
Estão diante de um texto grandioso, nada fácil, mas vale a aventura, o esforço, a luta. A recompensa é um prazer estético indizível e único.


por Wisner Fraga
(Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo)
31.10.2006

13 de setembro de 2006

Gonçalo Mira: opinião sobre Os Cus de Judas


Segundo romance a ser publicado por António Lobo Antunes, no mesmo ano de Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas mantém o cunho marcadamente autobiográfico. Se no primeiro romance se abordava mais a separação do autor da sua mulher e o seu trabalho enquanto psiquiatra, neste segundo romance o tema dominante é a guerra colonial em Angola, na qual António Lobo Antunes participou.
Logo aqui, Os Cus de Judas ganha pontos em relação ao seu antecessor: a guerra colonial é, sem grandes dúvidas, um tema bastante mais forte. Embora o livro principie com um ritmo mais lento, acaba por assumir uma maior velocidade à medida que a guerra vai assumindo o papel principal da narrativa. A história é narrada por um homem (a personagem autobiográfica) que se dirige a uma mulher que este tenta conquistar. Desenrolam-se então em paralelo as duas acções: a do homem com a mulher e a do passado do homem na guerra colonial.

Estilisticamente, Os Cus de Judas difere muito pouco de Memória de Elefante e estão ambos ainda longe do estilo que actualmente caracteriza a escrita deste autor. Eu confesso-me um grande admirador de Lobo Antunes e aprecio bastante o seu estilo dos primeiros romances. No entanto, acredito que os romances mais recentes são livros melhores, se é que se pode classificar livros desta forma.

Neste romance há uma guerra que não faz sentido, há pequenos pormenores que a descrevem muito melhor do que os traços gerais. Lobo Antunes é um pouco isto: o constatar da importância dos pormenores e, acima de tudo, da sua maior importância relativamente aos traços gerais. Resumir uma guerra em meia dúzia de factos pode ser útil, mas dizer quantos milhares ou milhões de mortos houve, nunca causará tanto impacto como os pormenores de determinadas mortes. É que, quer queiramos quer não, um número nunca deixa de ser um número e um pormenor facilmente se transforma numa imagem. E António Lobo Antunes parece sabê-lo muito bem.

Os Cus de Judas é um grande livro de um grande autor da língua portuguesa contemporânea.

por Gonçalo Mira
13.06.2006

21 de outubro de 2004

Célia A. N. Passoni: dissertação sobre Os Cus de Judas


Os Cus de Judas

(1) Para esse estudo foi utilizada a edição portuguesa da obra Os Cus de Judas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997, 19ª edição. A língua utilizada é o português de Portugal, portanto, diverso da língua escrita no Brasil.

1. O autor

António Lobo Antunes é considerado um dos mais instigantes escritores portugueses do século XX. Nascido em Lisboa em 1942, licenciou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria, decorrendo daí sua tendência de analisar, sob o prisma da Psicologia, a criação artística, o que o levou a escrever trabalhos sobre grandes escritores como Bocage, Antero de Quental, Lewis Carroil, entre outros.

Como romancista, vem publicando desde 1979. Seus três primeiros livros - Memórias de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1979) e Conhecimento do Inferno (1980) constituem uma trilogia autobiográfica, sendo considerada sua obra-prima Os Cus de Judas.Escreveu, entre outros, quinze romances, entre os quais: Exortação aos Crocodilos, Explicação dos Pássaros, Auto dos Danados, Tratado das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas, O Manual dos Inquisidores Não Entres tão Depressa nessa Noite Escura.

O modernismo de Lobo Antunes volta-se contra as tradições e os valores da literatura de Portugal, cujos autores, na maioria das vezes, utilizam um estilo retórico, rebuscado e excessivamente metafórico. A irreverência desse escritor contra as instituições e a forma mordaz com que tece considerações acerca das atitudes dos homens e das instituições tornam-no, sobretudo, despojado da herança cultural e literária de sua terra.

2. Estilo

Em Lobo Antunes, o domínio lingüístico torna-se complexo, inovador e, por isso, extremamente moderno. Ao se utilizar de uma linguagem lenta e minuciosa, em que investiga cuidadosamente o fluxo do pensamento, provoca o leitor com textos criativos que rompem com os padrões da linguagem linear, da rigidez gramatical e com as tradicionais formas de introduzir personagens, ações, falas, seqüências, descrever paisagens, etc. Nesse sentido, coloca o leitor em conta­to com um estilo radical e inusitado, de contornos maleáveis prestes a acompanhar o encadear de seus pensamentos, ora confusos — embaralhados nas mais intrincadas e conflitantes informações — ora transbordados em confissões atropeladas em que ele amarga uma incomunicabilidade e uma solidão doída, impossibilitado de se abrir, extravasar-se para o outro, incapaz de exercer o diálogo, daí permitindo a antevisão de um subjetivo convulso e problemático no qual se de­para com o incompreensível do mundo, principalmente o da guerra, advindo daí suas convulsões.

(...) Éramos peixes, somos peixes, fomos sempre peixes, equilibrados entre duas águas na busca de um compromisso impossível entre a inconformidade e a resignação, nascidos sob o signo da Mocidade Portuguesa e do seu patriotismo veemente e estúpido de pacotilha, alimentados culturalmente pelo ramal da Beira Baixa, os rios de Moçambique e as serras do sistema Galaico-Duriense, espiados pelos mil olhos ferozes da PIDE, condenados ao consumo de jornais que a censura reduzia a louvores melancólicos ao relento de sacristia de província do Estado Novo, e jogados por fim na violência paranóica da guerra, ao som de marchas guerreiras e dos discursos heróicos dos que ficavam em Lisboa, combatendo, combatendo corajosamente o comunismo nos grupos de casais do prior, enquanto nós, os peixes, morríamos nos cus de Judas uns após outros, tocava-se um fio de tropeçar, uma granada pulava e dividia-nos ao meio, trás!, o enfermeiro sentado na picada fitava estupefacto os próprios intestinos que segurava nas mãos, uma coisa amarela e gorda e repugnante quente nas mãos, o apontador de metralhadora de garganta furada continuava a disparar, chegava-se sem vontade de combater ninguém, tolhido de medo, e depois das primeiras baixas saía-se para a mata por raiva na ânsia de vingar a perna do Ferreira e o corpo mole e de repente sem ossos do Macaco, os prisioneiros eram velhos ou mulheres esqueléticos menos lestos a fugir, côn­cavos de fome, o MPLA deixava mensagens nos trilhos a dizer Deserta mas para onde se só havia areia em volta, Deserta, os tipos passavam da Zâmbia para o interior detendo-se de quando em quando para dinamitar as pontes dos rios, um dia depois de um ataque encontrei uma insígnia metálica do Movimento na pista de aviação fiquei a olhá-la como o Lourenço mirava as tripas que se lhe escapavam da barriga, o cabo mostrou-me uma carta caída num arbusto I love to show you my entire body, explicava uma inglesa a um angolano que na véspera nos metralhara oculto no escuro, leves armas checoslovacas de som agudo e rápido, médicos suecos trabalhavam no Chalala Nengo a poucos quilômetros de nós, o Chalala Nengo que os T6 bombardeavam denapaim e resistiam, Uma destas manhãs os meus amigos acordam bem dispostos chegam lá num rufo e destroem aquilo tudo encorajava o coronel optimista de camuflado engomado vindo de Luanda para nos estimular com boas palavras conselhos e ameaças, Vai tu à frente meu cara de caralho respondia o tenente indignado por entre dentes, Se querem rodar ir para um sítio melhor têm de nos mostrar resultados que se vejam minas turras trotil, o comandante encolhia os ombros em tiques de aflição pequeno ridículo quase tocante de embaraço indicava no mapa a extensão da zona que nos cabia, gaguejava Meu coronel Meu coronel Meu coronel, do Mondego ao Algarve para quinhentos homens mal alimentados, peixe quase podre carne em mau estado ossos de frango, gastos de paludismo e de cansaço, a beber a água que pingava gota a gota, lamacenta, dos filtros, acabava-se a cerveja acabava-se o tabaco acabavam-se os fósforos, não havia sequer fósforos no Luso para nós...

Lobo Antunes cria algumas cenas em que afloram certo erotismo cru e pouco poético; reforçando a posição interiorizada assumida pelo narrador

De tempos a tempos, mulheres encontradas por acaso no canto de sofá de uma reunião de amigos, como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno, sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que conheço já de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidé, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna. Despedimo-nos no vestíbulo trocando números de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido que a falta de bâtontorna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no lençol a mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que certifica o amor acabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos de odores de cocote, e um traço de base no pescoço descoberto na manhã seguinte durante o hara-kiri sangrento da barba, me garantem a breve passagem real pela minha cama do que cuidava já serem os imprecisos artefactos que a melancolia inventa.

...outras, joga com limpidez o seu desprezo pelos outros e por Portugal; um Portugal que, de certa forma, é o espelho/reflexo do próprio narrador, na medida em que ambos se identificam no fracasso e na sensação de pequenez.

Entenda-me: sou homem de um país estreito e velho, de uma cidade afogada de casas que se multiplicam e reflectem umas às outras nas frontarias de azulejo e nos ovais dos lagos, e a ilusão de espaço que aqui conheço, porque o céu é feito de pombos próximos, consiste numa magra fatia de rio que os gumes de duas esquinas apertam, e o braço de um navegador de bronze atravessa obliquamente num ímpeto heróico. Nasci e cresci num acanhado universo de croché, croché de tia-avó e croché manuelino, filigranaram-me a cabeça na infância, habituaram-me à pequenez do bibelot, proibiram-me o canto nono de Os Lusíadas e ensinaram-me desde sempre a acenar com o lenço em lugar de partir.

...outras, ainda, em que refaz de forma a revisitar sarcasticamente seu passado, apoiando-se em uma ironia mórbida e o desprezo pela tacanhez de espírito de seus conterrâneos.

Sempre apoiei que se erguesse em qualquer praça adequada do País um monumento ao escarro, escarro-busto, escarro-marechal, escarro-poeta, escarro-homem de Estado, escarro-equestre, algo que contribua, no futuro, para a perfeita definição do perfeito português: gabava-se de fornicar e escarrava. Quanto à filosofia, minha cara amiga, basta-nos o artigo de fundo do jornal, tão rico de idéias como o deserto do Gobi de esquimós. De modo que, de cérebro exaurido por raciocínios complicados, tomamos ampolas bebíveis às refeições a fim de conseguir pensar.

Com isso, constrói uma literatura até então pouco conhecida do leitor português.

3. Reminiscências

Nos romances de caráter autobiográfico, Lobo Antunes parte de um revolver da consciência, procurando entremear passado remoto, passado recente e presente numa investigação cautelosa e minuciosa da memória, através da qual registra suas experiências quer em terras portuguesas, como médico, clinicando em um instituto de psiquiatria, quer no exército, trabalhando em terras estrangeiras, após ser convocado pelas forças colonialistas para combater pelo domínio das terras de Angola, então possessão portuguesa na África.

Em alguns de seus livros, a memória capta tanto o passado antigo, a formação do homem, como o passado recente, a deformação do homem. As experiências vividas constituem-se-lhe fragmentos, estilhaços recolhidos segundo a importância que lhes atribui a memória, daí a falta de linearidade, e o aparente caos em que se transforma sua narrativa. Seus romances seguem como uma gangorra, em um ir e vir constante, repleto de retomadas, e o leitor vai acompanhando as divagações de uma mente quase doentia, neurotizada e insatisfeita, no que se costuma chamar captação do fluxo da consciência ou stream of consciousness.

Costuma-se denominar stream of consciousness ou fluxo de cons­ciência a fatos relatados, sentidos ou memorados pela percepção da mente humana. Trata-se de um processo mental que se assemelha a um monólogo interior, sem pontuações, em que o narrador geralmente coloca desordenadamente os acontecimentos psicológicos que de uma forma ou de outra exercem alguma pressão no momento da narração.

4. Tempo e espaço da narrativa

Os estilhaços que recompõem os contornos da memória nos romances de Lobo Antunes recolhem informações vividas em espaços de tempo variados, mas contados em breves períodos, de chofre, de um só fôlego. No caso de Os Cus de Judas, o “ato de contar” tem as ações transcorrendo em uma só noite. Se o tempo é breve no presente da narrativa — entre a mesa de um bar, algumas boas doses de uísque, um convite e o anseio para vencer a solidão - o tempo recolhido pela memória é elástico, é um tempo que se volta para a infância remota, as recordações da família, um tempo em que ele se alista nas fileiras da força colonialista portuguesa, um tempo em que ele parte e, final­mente, um tempo em que ele sobrevive na África, numa luta que lhe parece vazia de sentido.

Com vinte e três capítulos curtos, seqüenciados de A a Z, sem interrupções na ordem do alfabeto, desenrolam-se ações em dois planos temporais: um cronológico, período de tempo de uma noite, que vai do encontro do narrador com uma mulher em um bar até o amanhecer deles, depois de uma noite de sexo, sem amor. O tempo cronológico constitui-se no tempo da fala, no tempo de um enorme monólogo em que o narrador expõe a uma mulher não nomeada suas angústias e a mediocridade da vida que o cerca; outro passado, um tempo elástico reconstituído a partir de fragmentos soltos, recolhidos dos escombros das memórias constituem uma coleção de insucessos que o levam a sentir-se um ser espúrio, um pária, um fracassado.

Convém lembrar que a sensação de fracasso que domina o narrador está intimamente associada aos insucessos dos tempos em que ele exercia funções no exército português de combate às guerrilhas africanas.

Passamos vinte e sete meses juntos nos cus de Judas, vinte e sete meses de angústia e de morte juntos nos cus de Judas, nas areias do Leste, nas picadas dos Quiocos e nos girassóis do Cassanje, comemos a mesma saudade, a mesma merda, o mesmo medo, e separamo-nos em cinco minutos, um aperto de mão, uma palmada nas costas, um vago abraço, e eis que as pessoas desaparecem, vergadas ao peso da bagagem, pela porta de armas, evaporadas no redemoinho civil da cidade.

Durante uma única noite, o narrador tece o enredo da obra, elaborando um relato em que confunde as ações de guerra, a política desenvolvida pelo seu país quanto às colônias na África e as posições assumidas por ele (país) e ele (narrador) após o término do conflito, o passado, o casamento, enfim, misturam-se os fatos todos da vida que afloram pelas doses excessivas de álcool e de solidão.

5. Algumas informações históricas

Para melhor conhecer os pontos de vista que o narrador assumirá no transcorrer da narrativa de Os Cus de Judas, é necessário fazer uma breve explanação sobre a situação histórica da relação entre Portugal e Angola, bem como a relação entre o colonizador que luta para manter seu império ultramarino e o colonizado em sua luta pela independência.

O interesse de Portugal pelas terras angolanas esteve ligado, desde o início da colonização, com a exploração da mão-de-obra escrava para abastecer o mercado brasileiro. A partir do século XVIII teve de disputar com os ingleses, os franceses e os holandeses o rendoso comércio de escravos. Com as tendências abolicionistas, o tráfico de es­cravos passou a ser feito quase que totalmente pelos portugueses e de forma clandestina. Em 1836, a Coroa portuguesa proibiu qualquer comércio negreiro, fato esse que, associado aos movimentos de libertação dos escravos, veio a diminuir sobremaneira a intensidade do tráfico.

O fato de o Brasil ter se tornado independente levou a Coroa portuguesa a voltar seus olhos para as colônias da África. Somente então começaram a promover melhorias nos seus territórios africanos, construindo estradas e incentivando a criação de núcleos urbanos brancos. A população de portugueses em Angola começou a crescer somente a partir do século XX. Entre 1930 e 1960, o governo salazarista teve a preocupação de mudar a nomenclatura de “colônia” para “província ultramarina”, com a finalidade de evitar o desgaste que a associação “metrópole-colônia” possuía.

A manutenção do colonialismo português em Angola despertou acirrados confrontos, a partir do final da década de 1950, com o desenvolvimento do nacionalismo político no continente africano. Surgem em Angola vários movimentos que reivindicam a independência política de Portugal. Em 1956, forma-se o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), liderado por Agostinho Neto; em 1962, a FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola), chefiada por Holden Roberto e, em 1966, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), dissidência da FNLA, comandada por Jonas Savimbi, que contava com a participação de forças sul-africanas. Na década de 1960, os grupos nacionalistas, tanto de tendências socialistas como os não-socialistas, armam-se e começam a enfrentar com tática de guerrilha as forças portuguesas que tinham sido enviadas por Salazar para Angola. O Estado Novo (1933-1974), que instaurou a ditadura salazarista, buscou o estabelecimento da ordem interna nas colônias ultramarinas e criou um sistema de repressão a partir da formação de milícias como a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado).

Diante das pressões tanto da ONU quanto dos grupos de libertação, Portugal, ao invés de ceder, opta por intensificar sua repressão, procurando manter pela força seus domínios além-mar. Em nome dessa soberania, inicia-se uma luta que é conhecida na História como Guerra Colonial ou Guerra de Angola (1961-1975).
As forças portuguesas eram compostas por um exército mal formado, que não conseguia adaptar-se ao território africano, e, principalmente, sem o devido treinamento para enfrentar a guerra de guerrilha. Os homens tinham dificuldade para movimentar-se, utilizavam fardas inadequadas para o verão africano e, principalmente, não possuíam armamento moderno: Portugal enfrentou não somente os guerrilheiros acostumados com a adversidade das terras africanas, como emboscadas armadas pela própria natureza, com florestas virgens e agressivas. Com armamento pesado, fome, selva impenetrável, os portugueses passaram de atacantes a alvos fáceis dos ataques surpresa e das minas terrestres que os guerrilheiros colocavam como empecilhos para o avanço das tropas.

Com a Revolução dos Cravos, que destituiu o regime salazarista (1974) e objetivando o fim das hostilidades, Portugal passou a bus­car entendimento com as colônias africanas. Para isso, intensificou o contato com as três forças libertadoras e concordou com a formação de um governo provisório. Os líderes angolanos assinaram o acordo de Alvor (1975), que fixava a independência de suas terras para 11 de novembro de 1975. No entanto, os líderes da FNLA e UNITA aliaram-se contra o presidente Agostinho Neto do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e, quando da independência, o novo país já surgia imerso em grave crise, com dois governos, um sediado em Luanda e outro em Huambo e os angolanos encontravam-se em plena guerra civil. Contando com o apoio de tropas cubanas e abastecido de armas soviéticas, o MPLA forçou a retirada das forças sul-africanas invasoras e obteve a vitória militar sobre seus adversários internos. Em 1976, o governo de Agostinho Neto foi reconhecido como legítimo pela ONU e por grande número de países.

6. A literatura neo-realista

A trajetória da prosa portuguesa do século XX está inicialmente ligada ao movimento que se costumou chamar de presencismo, uma geração que procurou equilibrar o passado poético que tradicionalmente marcou a Literatura Portuguesa, com a produção romanesca de tendências intuicionistas e/ou memorialistas, em busca do que existe de mais profundo no ser, portanto, isenta de preocupações ideológicas ou sociais.

No final da década de 1930, influenciados principalmente pelo que se fazia nos Estados Unidos e no Brasil, os prosadores volta­ram-se para uma literatura engajada, através da qual procuravam denunciar as mazelas e a podridão de uma sociedade que enfrentava (e enfrenta) problemas concretos. O gosto neo-realista é pelo documento vazado em relatos secos, diretos na ânsia de registrar a verdade por meio da propagação de uma doutrina de ideais políticos, numa arte comprometida, a serviço de uma causa. A literatura passa a ser vista como uma possível forma de intervir no real, transformando-se em uma arma de combate e uma forma de propor rumos novos para o destino da sociedade.

Durante a ditadura salazarista, a literatura foi censurada e, dos subterrâneos, passou a metaforizar a realidade de forma a poder expor os pontos de vista pessoais associados a uma nova forma de narrar, mais elíptica e utilizando-se de recursos como o discurso indireto livre e o fluxo da consciência, a multifacetação do narrador, da ambiguidade e da possibilidade de penetração na consciência de personagens. Supera-se assim o neo-realismo tradicional, para se poder conhecer melhor as diferentes faces da sociedade, agora também voltadas para o meio burguês, e o indivíduo. Por meio de uma análise mais profunda de seus circuitos psicológicos, passa-se a analisar o ser humano como um ser complexo e total, tanto indivíduo psicológico como homem inserido em seu contexto social.

7. Um narrador estilhaçado

Em Os Cus de Judas, Lobo Antunes faz uma narrativa em que presta depoimento da situação vivenciada por ele durante os anos em que esteve em Angola, entre 1971 e 1973, exercendo a função de clínico de um batalhão operacional, primeiramente nas por ele denomina­das “terras do fim do mundo”, situadas no leste e, depois, na Baixa do Cassanje, junto à fronteira do Congo.

O narrador, em primeira pessoa, apresenta-se ao longo da narrativa como um médico que procura exorcizar seu passado, registrando sua dura experiência na Guerra de Angola. Como enviado das forças de defesa da Metrópole, potencialmente defensor da política portuguesa para a África, ele testemunha as cruezas de uma guerra, cujos sofrimentos e desvarios o marcaram profundamente e o enchem de angústia pela sensação de absurdo da situação: ele, o narrador, um homem culto, conhecedor de História, de Artes e de Ciências, cuja experiência de vida, até a ida para a guerra, era exclusivamente metropolitana e burguesa

Poderíamos envelhecer perto um do outro e da televisão da sala, com a qual constituiríamos os vértices de um triângulo eqüilátero doméstico protegido pela sombra tutelar do abat-jour de folhos e de uma natureza-morta de perdizes e maçãs, melancólica como o sorriso de um cego, e encontrar na garrafa de Drambuie do aparador um antídoto açucarado contra a conformação do reumático. Poderíamos friccionar-nos mutuamente os bicos de papagaio com bál­samo Menopausol, pingar em uníssono, no termo das refeições, as mesmas gotas para a tensão, e aos domingos, depois do cinema, graças ao último beijo do filme indiano do Avis, unirmo-nos em abraços espasmódicos de recém-nascidos, a soprar pelas dentaduras postiças bronquites aflitas de chaleira. E eu, deitado de costas no colchão ortopédico reduzido a uma tábua dura de faquir a fim de prevenir as guinadas da ciática, lembrar-me-ia do jovem saudável e ardente que há muitos anos fui, capaz de repetir sem azia o frango na púcara, para quem o horizonte do futuro não era limitado pelo perfil de cordilheiras dos Andes de um electrocardiograma ameaçador, a regres­sar da guerra de África para conhecer a filha, numa dessas madrugadas de Novembro tristes como a chuva num pátio de colégio, durante a lição de Matemática.

...passa alguns anos vivendo em um espaço totalmente desconhecido, engajado em uma luta que se lhe torna particularmente indiferente: afinal, matar e/ou morrer transformam-se no cotidiano vivenciado por ele na África. No retorno a Portugal, a experiência dos anos de guerra continua a amargurá-lo porque deixa profundas marcas no seu presente, marcas que se tornam sua fraqueza e das quais ele não consegue se desvencilhar.

O narrador confessa-se um homem solitário, mergulhado no consolo da bebida servida nas mesas de um bar, em busca de um conforto, de uma companhia para ouvi-lo, para com ele enfrentar a noite, e assim solucionar suas fraquezas físicas e psicológicas. Ele apenas conversa, desabafa por meio de uma fala longa, sem pausas, sem ordem, feita de retalhos justapostos e alineares. No entanto, não há desabafos eficazes para o mal que o acompanha, sente-se cada vez mais inadaptado, encontra-se deslocado no mundo que não parou apesar da guerra. E suas falas vêm marcadas pelo desespero de não poder escapar da experiência do passado que o destruiu psicologicamente.

Quer um uísque? Este banal líquido amarelo constitui, nos tempos de hoje, depois da viagem de circunavegação e da chegada do primeiro escafandro à Lua, a nossa única possibilidade de aventura: ao quinto copo o soalho adquire insensivelmente uma agradável inclinação de convés, ao oitavo, o futuro ganha vitoriosas amplidões de Austerlitz, ao décimo, deslizamos devagar para um coma pastoso, gaguejando as sílabas difíceis da alegria: de forma que, se me dá licença, instalo-me no sofá ao pé de si para ver melhor o rio, e brindo pelo futuro e pelo coma.

O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das camionetas da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malanje. Ninda, Luate, Lusse, Nengo, rios que a chuva engrossara sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos, o tenente-coronel eternamente aflito a encolher os ombros diante do licor de cacau, os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para os negros que bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo. Quem veio aqui não consegue voltar o mesmo, explicava eu ao capitão de óculos moles e dedos membranosos colocando delicadamente no tabuleiro, em gestos de ourives, as peças de xadrez, cada um de nós, os vivos, tem várias pernas a menos, vários braços a menos, vários metros de intestino a menos, quando se amputou a coxa gangrenada ao guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussuma os soldados tiraram o retrato com ela num orgulho de troféu, a guerra tornou-nos em bichos, percebe, bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar, não sobrava um centímetro de parede nas casernas sem uma gravura de mulher nua, masturbávamo-nos e disparávamos, o mundo-que-o-português-criou são estes luchazes côncavos de fome que nos não entendem a língua, a doença do sono, o paludismo, a amibíase, a miséria, à chegada ao Luso veio um jeep avisar-nos que o general não consentia que dormíssemos na cidade, que expuséssemos na messe as nossas chagas evidentes. Nós não somos cães raivosos, berrava o tenente de cabeça perdida para o enviado do comando de Zona, diga a esse caralho do catano que nós não somos cães raivosos, um alferes ameaçava baixinho destruir a messe com as bazookasFodemos aquela porra toda meu tenente, não sobeja um cabrão sequer para nos enconar o juízo, Um ano no cu de Judas não nos dá direito a dormir uma noite numa cama argumentava em sentido o oficial de operações, o tenente espalmou um murro enorme no capot do jeep Diga ao nosso general que vá levar na anilha, Nós não éramos cães raivosos quando chegamos aqui disse eu ao tenente que rodopiava de indignação furiosa, não éramos cães raivosos antes das cartas censuradas, dos ataques, das emboscadas, das minas, da falta de comida, de tabaco, de refrigerantes, de fósforos, de água, de caixões, antes de uma berliet valer mais do que um homem e antes de um homem valer uma notícia de três linhas no jornal, Faleceu em combate na província de Angola, não éramos cães raivosos mas éramos nada para o Estado de sacristia que se cagava em nós e nos utilizava como ratos de laboratório e agora pelo menos nos tem medo, tem tanto medo da nossa presença, da imprevisibilidade das nos­sas reacções e do remorso que representamos que muda de passeio se nos vê ao longe, evita-nos, foge de enfrentar um batalhão destroçado em nome de cínicos ideais em que ninguém acredita, um batalhão destroçado para defender o dinheiro das três ou quatro famílias que sustentam o regime, o tenente gigantesco voltou-se para mim, tocou-me no braço e suplicou numa voz súbita de menino Doutor arranje-me a tal doença antes que eu rebente aqui na estrada da merda que tenho dentro.

Seu casamento mal começado - ele se casara quatro meses antes de partir

...depois de breves encontros de fim-de-semana em que fazíamos amor numa raiva de urgência, inventando uma desesperada ternura em que se adivinhava a angústia da separação próxima, e despedimo-nos sob a chuva, no cais, de olhos secos, presos um ao outro num abraço de órfãos.

...estilhaça-se pela distância - ela em Portugal, ele na África - e nem a notícia do nascimento de uma filha pôde auxiliá-lo na recuperação de seu trauma. Um nascimento no meio de mortes deveria ser um brado à vida, mas chega em meio ao ruído da guerra, à interferência de códigos em um lugar distante, isolado e miserável:

Como na tarde de 22 de Junho de 71, no Chiúme, em que me chama­ram ao rádio para me anunciar de Gago Coutinho, letra a letra, o nascimento da minha filha, rómio, alfa, papá, alfa, rómio, índia, golf, alfa, paredes forra­das de fotografias de mulheres nuas para a masturbação da sesta, mamas enormes que começaram de súbito a avançar e a recuar, segurei com força as costas da cadeira do cabo de transmissões e pensei Vai-me dar qualquer merda e estou fodido.

Ao conversar com sua interlocutora, revela o que de mais pro­fundo atormenta sua consciência. No entanto, a interlocutora não se apresenta como “aquela que responde” ou “aquela que efetivamente o ouve”, “aquela que participa de uma experiência frustrante”, apenas “está lá” e o leitor conhece-a por meio das falas do narrador, o que transforma a narrativa em um imenso monólogo em que ele se volta quase exclusivamente para si mesmo. Não há espaço para o outro, não há outras vozes e os sons que o leitor ouve são aqueles que atormentam o narrador, estão nas vivências passadas, reconstituídas aos tropeços e difíceis de serem superadas.

Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de me­ninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuça­do na concha da língua. Não sei se lhe parece idiota o que vou dizer mas aos domingos de manhã, quando nós lá íamos com o meu pai, os bichos eram mais bichos, a solidão de esparguete da girafa assemelhava-se à de um Gulliver triste, e das lápides do cemitério dos cães subiam de tempos a tempos lati­dos aflitos de caniche. Cheirava aos corredores do Coliseu ao ar livre, cheios de esquisitos pássaros inventados em gaiolas de rede, avestruzes idênticas a professoras de ginástica solteiras, pingüins trôpegos de joanetes de contínuo, catatuas de cabeça à banda como apreciadores de quadros; no tanque dos hipopótamos inchava a lenta tranqüilidade dos gordos, as cobras enrolavam-se em espirais moles de cagalhão, e os crocodilos acomodavam-se sem custo ao seu destino terciário de lagartixas patibulares. (...)

Se fôssemos, por exemplo, papa-formigas, a senhora e eu, em lugar de conversarmos um com o outro neste ângulo de bar, talvez que eu me acomodas­se melhor ao seu silêncio, às suas mãos paradas no copo, aos seus olhos de pescada de vidro boiando algures na minha calva ou no meu umbigo, talvez que nos pudéssemos entender numa cumplicidade de trombas inquietas farejando a meias no cimento saudades de insectos que não há, talvez que nos uníssemos, a coberto do escuro, em coitos tão tristes como as noites de Lisboa, quando os neptunos dos lagos se despem do lodo do seu musgo e passeiam nas praças vazias ansiosas órbitas ferrugentas.

Na medida em que a longa conversa vai se desenrolando, vão-se equilibrando aspectos de um passado remoto que vêm à tona com imagens tomadas das recordações da infância: a casa dos pais, a casa dos avós, o professor a deslizar no rinque de patinação, a visita ao jardim zoológico. Do passado remoto surgem as únicas imagens menos agressivas, levadas ao leitor por construções da memória e da linguagem que contêm uma certa amargura saudosa, sem contudo ser despojada de uma ironia irreverente. O olhar irônico recai principalmente no bizarro ou ridículo das cenas que a memória seleciona no passado.

O espectro de Salazar pairava sobre as calvas pias labaredazinhas de Espírito Santo corporativo, salvando-nos da idéia tenebrosa e deletéria do socialismo. A PIDE prosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada contra a noção sinistra de democracia, primeiro passo para o desaparecimento, nos bolsos ávidos de ardinas e marçanos, do faqueiro de cristofle. O cardeal Cerejeira, emoldurado, garantia, de um canto, a perpetuidade da Conferência de São Vicente de Paula, e, por inerência, dos pobres domesticados. O desenho que representava o povo em uivos de júbilo ateu em torno de uma guilhotina libertária fora definitivamente exilado para o sótão, entre bidés velhos e cadeiras coxas, que uma fresta poeirenta de sol aureolava do mistério que acentua as inutilidades abandonadas. De modo que quando embarquei para Angola, a bordo de um navio cheio de tropas, para me tornar finalmente homem, a tribo, agradecida ao Governo que me possibilitava, grátis, uma tal metamorfose, compareceu em peso no cais, consentindo, num arroubo de fervor patriótico, ser acotovelada por uma multidão agitada e anônima semelhante à do quadro da guilhotina, que ali vinha assistir, impotente, à sua própria morte.

O passado só pode ser reconstruído por uma seleção voluntária da memória e pela ordem de importância que assume para quem narra. Ao revelar a passagem para a vida adulta, o narrador enfrenta não só o trauma de se conhecer adulto, como a cobrança de uma sociedade que o quer “Homem”, que o quer tomando decisões, que o quer participante e é como ser participante que essa mesma sociedade lhe revela a experiência sangrenta da guerra.

Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.

Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à mis­sa dos domingos um contrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segregados. Os homens da família, cuja solenidade pomposa me fascinara antes da primeira comunhão, quando eu não entendia ainda que os seus conciliábulos sussurrados, inacessíveis e vitais como as assembléias de deuses, se destinavam simplesmente a discutir os méritos fofos das nádegas da criada, apoiavam gravemente as tias no intuito de afastarem uma futura mão rival em beliscões furtivos durante o levantar dos pratos.

Uma travessia inumana


Mas afinal, para que lhe serviu estar engajado na guerra? Ela se converteu em uma experiência traumática que teve como resultado imediato a desumanização do protagonista, que o transformou em um bicho (humano?) rancoroso. A guerra anulou a poesia que porventura existia nas coisas, impregnou o mundo de prostituição, de corrupção: os homens se vendem por qualquer bagatela, porque através da guerra sempre se contempla o espectro da morte próxima. O que mantém o homem vivo é uma falsa esperança de final e a consciência de fragilidade adquirida no confronto sangrento com o outro. Mas, justamente porque o narrador não partilha totalmente das opiniões da Metrópole, o universo da guerra não lhe diz respeito, lhe é indiferente, ele não tem um motivo plausível para lutar, porque não luta imbuído de uma ideologia, qualquer que seja ela. A única certeza que a guerra lhe traz são as dúvidas.

Mas não podíamos urinar sobre a guerra, sobre a vileza e a corrupção da guerra: era a guerra que urinava sobre nós os seus estilhaços e os seus tiros, nos confinava à estreiteza da angústia e nos tornava em tristes bichos rancorosos, violando mulheres contra o frio branco e luzidio dos azulejos, ou nos fazia masturbar à noite, na cama, à espera do ataque, pesados de resignação e de uísque, encolhidos nos lençóis, à laia de fetos espavoridos, a escutar os de­dos gasosos do vento nos eucaliptos, idênticos a falanges muito leves roçando por um piano de folhas emudecidas.

Nessa dura travessia da guerra, a comunicação torna-se cada vez mais escassa, mais frágil. Os laços fraternais desaparecem, cada um pensa somente em si mesmo, isola-se na sua amargura, no seu desespero e o silêncio separa os guerreiros, o diálogo desaparece, não há comunicação entre os homens.
(...) Abril de 71, a dez mil quilômetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até hoje nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer que fosse.

Nem mesmo o ato de amor é capaz de redimi-lo. É necessário desnudar-se mais e mais, porque ele é um indivíduo sem rumo, marca­do pelas reminiscências da guerra, pelo mundo agonizante de que fez parte, cujos espectros retornam a todos os momentos e o fazem sofrer e refletir. Não há escape, não há atos heróicos, não há sonhos e dormir se torna um ato quase impossível.

No momento em que os seus joelhos se afastarem docemente, os cotovelos me apertarem as costelas, e o seu púbis ruivo descerrar as pétalas carnudas numa húmida entrega de valvas quentes e macias, penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde e sarnento num vão de escada para tentar dormir, procurando um aconchego impossível na madeira dura dos degraus, porque o tipo de Mangando e todos os tipos de Mangando e Marimbanguengo e Cessa e Mussuma e Ninda e Chiúme se erguerão no interior de mim nos seus caixões de chumbo, envoltos em ligaduras sangrentas que esvoaçam, exigindo-me, nos resignados lamentos dos mortos, o que por medo lhes não dei: o grito de revolta que esperavam de mim e a insubmissão contra os senhores da guerra de Lisboa, os que nos quartel do Carmo se cagavam e choravam vergonhosamente, tontos de pânico, no dia da sua miserável derrota, perante o mar em triunfo do povo, que arrastava, no seu impetuoso canto, como o Tejo, as árvores magras do Largo. (...) Não era o rancho que estava em causa, percebe, to­dos comíamos o mesmo alimento turvo, quase podre, que as crianças da sanzala, munidas de latas ferrugentas, desejavam com grandes órbitas côncavas de fome penduradas suplicantemente do arame, era a guerra, a cabronice da guerra, os calendários imóveis em intermináveis dias, fundos como os tristes e suaves sorrisos das mulheres sozinhas, eram as silhuetas dos camaradas assassinados que rondavam as casernas à noite conversando conosco na pálida voz amarela dos defuntos, fitando-nos com as pupilas magoadas e acusadoras dos esqueléticos cães vadios do quartel. Os soldados acreditavam em mim, viam-me trabalhar na enfermaria os seus corpos esquartejados pelas minas, viam-me à beira dos beliches se tiritavam de paludismo nos lençóis desfeitos, de modo que, sabe como é, me cuidavam um deles, pronto a encabeçar a sua zanga e o seu protesto, assistiram à minha entrada na caserna onde um homem se trancara brandindo uma catana e ameaçando matar toda a gente e a si próprio, e viram-me sair com ele, momentos depois, a soluçar no meu ombro abandonos de bebé disforme, os soldados julgavam-me capaz de os acompanhar e de lutar por eles, de me unir ao seu ingênuo ódio contra os senhores de Lisboa que disparavam sobre nós as balas envenenadas dos seus discursos patrióticos, e assistiram enojados à minha passividade imóvel, aos meus braços pendentes, à minha ausência de combatividade e de coragem, à minha pobre conformação de prisioneiro.

Espere mais um pouco, deixe-me abraçá-la devagar, sentir o latir de suas veias no meu ventre, o crescer de onda do desejo que se nos espalha pela pele e canta (...)

A noite está se findando e o narrador não conseguiu a paz que tanto almejava. Sua busca é contínua e clara, mas ele continua insatisfeito e não satisfez sua companheira. A esperança de um retorno, de uma continuidade no relacionamento fracassa, tanto quanto fracassou com sua esposa, com a guerra, com a profissão. Enfim, o homem não obtém êxito em suas buscas mais simples, não se realiza nem no sexo, no prazer mais primário do homem. Tampouco é incapaz de realizar a mulher que o acompanhou e que o esquecerá com a mesma facilidade com que se esquecem dos encontros casuais. A solidão volta a dominá-lo. Não há esperança. Só existe uma certeza: da reconstituição do inferno resta a imagem sem unidade, incapaz de unir passado e presente.

Gostou? Assim, assim? Desculpe, não estou em forma hoje, sinto-me azelha, alheado, não domino o meu corpo, o uísque inquina-me o hálito de um relento de urina, a dolorosa consciência das minhas insuficiências preocupa-me. Durante muitos anos pensei em inscrever-me num desses cursos de que nos enviam os prospectos desdobráveis pelo correio, e que em quinze dias nos transformam em Hércules eficazes, bem penteados, bem barbeados, nodosos de músculos, cercados por uma nuvem admirativa de raparigas maravilhadas:

EM SUA CASA, SEM APARELHOS, COM DEZ MINUTOS DE EXERCÍCIO APENAS, TORNE-SE UM HOMEM. (...).

Consinta-me que tente outra vez, dê outra oportunidade à minha aflição sem esperança, porque desisti de a seduzir, de a fazer render-se às minhas proezas ou ao meu encanto, de a conceber a procurar o meu nome na lista dos telefones, para me pedir, no sábado, para jantar consigo, e ficar fitando-me, esquecida do rosbife e do tempo, num maravilhamento de descoberta.

A trajetória desse herói problemático de Os Cus de Judas coincide com os destroços em que mergulhou o país. Os grandes momentos de Portugal tornam-se esquecidos nas lições de História. Protagonista e país se identificam no fracasso, pessoal para aquele que viveu a guerra e recolheu os farrapos, e histórico para aquele que não obteve êxito em sua investida política além-mar. Como sempre, o fracasso é propulsor de crises e inadaptações.

Em entrevista concedida ao autor de A Voz Itinerante2Lobo Antunes afirma:

Essa visão heróica dos portugueses eu nunca tive. Em minha família, os portugueses não foram apresentados como pessoas que desbravaram o mundo. Sempre via meu pai lendo as Causas da Decadência dos Povos Peninsula­res, do Antero. Aquela que me foi apresentada desde a infância foi muito mais a decadência do que a grandeza. Os livros de história sempre me fizeram mui­ta confusão com o gesto heróico dos portugueses.(...) Quanto ao uísque, é uma tragédia, porque até nem gosto de uísque. Mas isso de concreto tinha a ver com aquela personagem que fala no livro, que é um homem detestável, sob certos aspectos. O tipo usa de uma série de estratagemas para seduzir a mulher: a guerra, a vida e depois é uma catástrofe na cama...

(2)        Álvaro Cardoso Gomes, A Voz Itinerante, São Paulo, Edusp, 1993.

por Célia A. N. Passoni
citado daqui
2003

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...